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sábado, 26 de setembro de 2026

Estados Unidos da América: o agente do caos e a soberania brasileira

 

                   Desde sua independência, em 4 de julho de 1776, os Estados Unidos da América conheceram períodos de paz, isto é, sem intervir militarmente ou interferir politicamente em outros países que, somados, não chegam a duas décadas. Isso significa que o país esteve envolvido em conflitos armados, ocupações ou intervenções externas em mais de 90% de sua história, conforme levantamentos que cruzam dados do Congressional Research Service e de historiadores como Lindsey O'Rourke.

            Sob a alegação da Doutrina do Destino Manifesto, conduziram-se as Guerras Indígenas (séculos XVIII e XIX) contra os povos nativos, para desalojá-los de suas terras e expropriá-las; as guerras contra o México em seu processo de expansão territorial, arrancando do país latino uma imensa área que vai do Texas à Califórnia; e as Guerras da Banana (início do século XX), resultantes de intervenções e ocupações ininterruptas na América Central.

            A participação na Primeira Guerra Mundial (1917-1918) e na Segunda Guerra Mundial (1941-1945) foram, para os Estados Unidos, praticamente inevitáveis, a primeira após a guerra submarina irrestrita e o Telegrama Zimmermann; a segunda, após Pearl Harbor. Após esta última, porém, não houve um único ano civil completo (365 dias) em que as forças estadunidenses não estivessem engajadas em operações ativas, seja defendendo posições de ocupação, seja bombardeando algum lugar do mundo, ainda que em alguns anos essas operações tenham sido de baixa intensidade.

            Após a última conflagração mundial, vieram a Guerra da Coreia, a do Vietnã, a do Golfo, a do Afeganistão e a do Iraque, sem falar nas intervenções cirúrgicas e nas proxy wars, dentre as quais se pode citar o apoio americano a um dos lados da guerra Irã-Iraque.

            É importante frisar que os Estados Unidos, em suas intervenções militares ou interferências políticas externas, sempre se utilizam de um verniz moral para disfarçar o indisfarçável aqui expresso nas palavras de Eduardo Galeano: "Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As guerras sempre invocam nobres motivos, matam em nome da paz, em nome de Deus, da civilização, em nome do progresso ou em nome da democracia".

            Os Estados Unidos, na condição de superpotência militar e econômica, dispõem de um poderoso arsenal para usar contra os países que não se curvam a suas chantagens econômicas ou políticas: o Soft Power (sanções, embargos, etc.) e o Hard Power (seu gigantesco poderio militar). Não importa o que digam instituições supranacionais como a ONU ou livros escritos por especialistas: democracias, ditaduras e terroristas são aquelas que os Estados Unidos a seu bel prazer assim classificam.

            Desde sua fundação, os Estados Unidos já ultrapassaram a marca de 500 intervenções internacionais (ações via CIA, ameaças de uso da força e pequenas invasões), segundo levantamento citado por O'Rourke em Covert Regime Change. O período de mais longa calmaria ocorreu durante a Grande Depressão, quando o país adotou uma política isolacionista e focou em sua própria crise interna ainda que, mesmo então, mantivesse bases e interesses ativos na América Latina.

            É de uma grande ingenuidade pensar que nações tenham amizades: as nações têm interesses. Porém, inversamente ao que disse o embaixador brasileiro Juracy Magalhães, representante do governo Castelo Branco junto a Washington na década de 1960, nem sempre o que é bom para os Estados Unidos da América é bom para o Brasil.

            Os Estados Unidos são potencialmente o maior adversário de qualquer tentativa de desenvolvimento econômico e social soberano da nação brasileira. Interessa enormemente ao país norte-americano manter o Brasil dependente e subserviente. O papel relegado ao Brasil é o de mero fornecedor de matérias-primas e produtos agrícolas, ou seja, uma colônia e não são poucos os que, aqui dentro, trabalham para que esse papel se perpetue.

            Em recente pesquisa, o Brasil apareceu à frente dos EUA em liberdade de expressão para a imprensa e também em democracia como nos rankings do Repórteres Sem Fronteiras e do V-Dem. João Goulart, quando presidente do Brasil, disse: "Os Estados Unidos falam muito em democracia, mas deveriam permiti-la" nos demais países e também em seu próprio território.

            Que esta reflexão sirva não para alimentar ressentimentos estéreis, mas para lembrar que soberania não se pede: conquista-se. E que nenhuma nação verdadeiramente independente delega a outro país o direito de definir seus parceiros, seus adversários e seu próprio futuro.

sábado, 19 de setembro de 2026

Agronegócio e política: entre o discurso e a prática

 


Há alguns meses, assisti a uma fala indignada do presidente Lula, que questionava: “Por que esse pessoal do agronegócio prefere o Bolsonaro, se ninguém fez mais por eles do que eu?” A pergunta me intrigou. Curioso, comecei a buscar respostas na internet, imaginando que ali encontraria pistas sobre a mentalidade desse setor. O que encontrei foi um verdadeiro festival de loas: canais de YouTube jogando confetes e serpentinas sobre os agentes do agronegócio, tratando-os como os únicos responsáveis por fazer o setor funcionar e por “carregar o Brasil nas costas”. Outros tantos concediam toda a glória ao governo de Jair Bolsonaro (2019–2022).

O problema é que boa parte desse conteúdo desinforma. Distorce e manipula os fatos. Basta comparar com os dados oficiais, afinal, fatos são fatos. O agronegócio não carrega o Brasil sozinho, e seus empresários e produtores não são os únicos responsáveis pelo seu sucesso. Quando se trata do agro, não há "mão invisível": há o Estado brasileiro com mãos, braços, pernas, cabeça e tronco apoiando e sustentando a atividade. O que seria do agronegócio sem as isenções e reduções tributárias? Sem os financiamentos públicos, como o Plano Safra e as linhas de crédito do Banco do Brasil? Sem as pesquisas científicas da Embrapa, que tanto beneficiaram o setor?

Encontrei também um vídeo da pecuarista e publicitária Juliana Giraldini¹, que respondia a um seguidor sobre qual teria sido o melhor governo para o agronegócio brasileiro. Segundo ela, no período da ditadura militar houve investimento no agro, mas a hiperinflação endividou os produtores. No governo Collor, com a taxação de 80% de juros, muitos não conseguiram pagar as dívidas. FHC tentou, com três planos, salvar o produtor e não conseguiu. Em 2003, houve uma conjuntura favorável: os benefícios da tecnologia da Embrapa, a entrada forte da China como cliente do agro brasileiro e o governo Lula, que concedeu vinte anos para o pagamento das dívidas dos produtores, além de criar o Plano Safra nas condições atuais. O governo Dilma elevou o Plano Safra a outro patamar, e os governos Temer e Bolsonaro deram continuidade. Juliana afirmou ainda que o governo Lula 3 bateu o recorde e investiu 2,1 trilhões de reais, sendo a maior parcela destinada ao grande produtor.

Segundo a pecuarista, o agro simpatiza com governos de direita devido à flexibilização da fiscalização. Para obter empréstimo rural, o produtor precisa apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Caso haja irregularidades ambientais (desmatamento, queimadas) ou trabalhistas (situações análogas à escravidão), em governos mais sérios e exigentes como costumam ser os de esquerda, os produtores não conseguem os recursos.

A fala de Juliana faz sentido. Todos sabemos que, no governo Bolsonaro, a fiscalização foi severamente reduzida. Seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi flagrado em vídeo em reunião ministerial (22 de abril de 2020) afirmando que a pandemia de Covid-19 era o momento ideal para “passar a boiada”², ou seja, flexibilizar normas e regras de proteção ambiental enquanto a imprensa estava distraída. Também tiveram grande destaque as falas politicamente incorretas de Bolsonaro sobre questões ambientais e as dificuldades que o Brasil impunha aos seus empresários.

No entanto, minha pesquisa revelou que há mais camadas nessa relação. O agronegócio espera menos regulação, mais livre mercado e afirma ter um maior alinhamento ideológico e cultural com a direita, inclusive nas pautas de costumes (religião, pátria e família) e, principalmente, na liberação do armamentismo. Ainda temem ocupações de terras, embora a legislação constitucional garanta a propriedade das terras produtivas. Sabem que, em governos de direita, a reforma agrária (embora prevista em lei) não avança. Ao mesmo tempo, embora defendam o Estado Mínimo, exigem para si um Estado Máximo em sua defesa. Veem todo o aparato de apoio (empréstimos, reduções e isenções tributárias) como obrigação governamental, e não como benefício.

Enfim, o agronegócio quer a “mão invisível” do mercado para o restante da sociedade, mas quer o Estado em corpo e alma a seu serviço.

Fonte:

1. https://www.facebook.com/reel/2073732216871159 - acesso em 16 de setembro de 2026.

2. https://www.youtube.com/watch?v=BWDemNNMbeU - acesso em 16 de setembro de 2026.

domingo, 13 de setembro de 2026

Os deuses têm sede



"Os deuses têm sede", do francês Anatole France (Prêmio Nobel de Literatura em 1921), é muito mais do que um romance histórico ambientado no Período do Terror da Revolução Francesa. Publicado originalmente em 1912, a obra é um mergulho perturbador na alma humana quando ela se deixa cegar por ideais absolutos e pela violência institucionalizada.

Anatole France (pseudônimo de Jacques Anatole François Thibault -1844-1924) foi um escritor marcado pelo contato precoce com os livros, graças ao pai livreiro. Trabalhou como bibliotecário do Senado francês e dedicou-se à poesia e aos contos antes de se consagrar como romancista. Sua escrita combina elegância clássica, ironia sutil e uma profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, traços que lhe renderam o Nobel de Literatura em 1921.

Em "Os deuses têm sede", France transporta o leitor para os anos de 1793-1794, quando os jacobinos, liderados por Robespierre e Marat, governavam a França com mão de ferro. Foi o período em que o sufrágio universal masculino, a abolição da escravidão nas colônias e o tabelamento de preços conviveram com a Lei dos Suspeitos que permitia prender e julgar sumariamente qualquer cidadão acusado de traição, independentemente de sua posição social. A promessa de liberdade, igualdade e fraternidade rapidamente se degenerou em um banho de sangue.

No centro da história está Évariste Gamelin, um pintor iniciante e pobre, que vive com a mãe viúva em um quarto alugado. Para sobreviver, vende quadros contestados pelo pai de sua amada, que afirma que apenas aqueles que retratam mulheres têm venda garantida. Gamelin é secretamente apaixonado por Élodie, filha de um rico comerciante que jamais aceitaria um genro de condição tão humilde. O namoro, portanto, é às escondidas.

Mas Gamelin não é apenas um artista frustrado, ele é um revolucionário entusiasta, devoto de Robespierre e Marat, acreditando piamente que, uma vez extirpados os "inimigos da pátria", a França enfim conhecerá a era dourada da justiça e da abundância. Seu fervor não passa despercebido, e ele é convidado a integrar o Tribunal Revolucionário como juiz. A partir daí, sua vida muda, ganha status social, renda digna e um poder que jamais imaginara ter.

O drama de Gamelin, no entanto, reside na progressiva desumanização que o poder lhe impõe. O Tribunal Revolucionário, movido mais por convicções do que por provas, envia milhares de pessoas à guilhotina. Amigos, vizinhos e até mesmo Élodie começam a não reconhecer o homem que admiravam. Gamelin, porém, justifica cada sentença em nome do dever patriótico e da segurança da nação. Sua fé inabalável começa a ser testada apenas quando pessoas próximas a ele passam a ocupar o banco dos réus.

O título, longe de qualquer conotação religiosa ou mitológica, é uma metáfora cruel e terrena, os deuses a que France se refere são os próprios homens quando se arvoram em juízes absolutos do bem e do mal. E a sede que os consome não é por água mas sede de sangue, de vingança, de purificação política. Ao longo da obra, fica claro que quanto mais se tenta eliminar o "inimigo", mais se cria uma máquina de moer gente, que acaba devorando até mesmo seus criadores. O próprio Robespierre, como sabemos, terminou sob a lâmina da guilhotina.

"Os deuses têm sede" não é apenas uma aula de História. É um espelho incômodo para qualquer época em que a polarização política, o medo e a desconfiança predominam. Anatole France, com sua prosa irônica e ao mesmo tempo compassiva, não toma partido nem condena facilmente seus personagens, ele os mostra em toda sua complexidade, como seres movidos por esperança, medo, ambição e cegueira.

O romance nos convida a perguntar: até onde podemos ir em busca de um ideal? Quando a justiça se torna tirania? E como reconhecer o momento exato em que o algoz se torna vítima?

Com um desfecho que não revelarei (para não dar spoiler), France entrega uma obra que incomoda, emociona e provoca reflexões duradouras. Recomendo vivamente a leitores que apreciam ficção histórica com densidade filosófica, e também a quem deseja compreender, pelas entrelinhas da literatura, as fragilidades da condição humana.



Sugestão de boa leitura:

Título: Os deuses têm sede.

Autor: Anatole France.

Editora: Boitempo Editorial, 2007, 256 p.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Os últimos dias de Pompeia

E
ste escriba sempre teve um fascínio por montanhas, em especial as de origem vulcânica. Não por acaso, o primeiro livro emprestado na biblioteca da universidade, da qual se tornaria assíduo frequentador, foi "Os vulcões e a deriva dos continentes", de Haroun Tazieff.

Há alguns anos, o professor de Geografia (e escriba nas horas vagas) teve a felicidade de realizar um sonho de juventude quando guiando seu próprio carro, chegou à Cordilheira dos Andes e, no caminho, avistou vários vulcões. Em San Pedro de Atacama, no coração do deserto, hospedou-se numa pousada cuja rua, no horizonte, oferecia uma visão desimpedida do belíssimo vulcão Licancabur.

Foi com grata satisfação que pude ler a obra "Os últimos dias de Pompéia", do escritor, poeta, romancista, dramaturgo e político inglês Edward Bulwer-Lytton (1803–1873). Publicado originalmente em 1834, o livro é um romance histórico que transporta o leitor para os momentos finais de uma das cidades mais emblemáticas da Antiguidade.

No dia 24 de outubro de 79 d.C., o vulcão Vesúvio, na atual Itália, entrou em erupção e soterrou com cinzas e materiais piroclásticos as cidades de Oplonte, Herculano e Pompéia. Esse trágico evento, porém, preservou esses núcleos urbanos como verdadeiros diários de pedra, permitindo que arqueólogos conhecessem não apenas a arquitetura original de uma cidade romana não modernizada, mas também as complexas relações sociais de seu espaço urbano.

A trama de Bulwer-Lytton entrelaça intrigas políticas, tensões religiosas, conflitos culturais e a decadência moral de uma sociedade que vivia despreocupada aos pés de uma montanha que não lhes inspirava temor, afinal, a última erupção havia ocorrido quase dois mil anos antes. É verdade que um terremoto, dezessete anos antes, causara enorme destruição na cidade, que ainda se encontrava em reformas no dia de sua destruição final.

O enredo gira em torno do jovem e nobre ateniense Glauco, apaixonado pela bela grega Jonia. Arbaces, um rico sacerdote egípcio, surge como seu antagonista, também disputando o amor da moça. Nydia, uma jovem escrava cega, nutre uma paixão silenciosa por Glauco, enquanto Júlia, filha do rico comerciante Diomedes, também se interessa pelo herói. Olinto, por sua vez, representa a chegada de uma nova fé (Cristianismo) que desafia os cultos pagãos locais.

Com base no conhecimento obtido pelas escavações arqueológicas, o autor recria com minúcia o ambiente político (em vésperas de eleições), religioso (com a convivência de divindades romanas, gregas, egípcias e o surgimento dos primeiros cristãos) e cultural de Pompéia. A cidade comercial contrastava com Herculano, que funcionava como um balneário exclusivo para cidadãos ricos. Em Pompéia, trabalhadores livres e escravizados garantiam o funcionamento da vida cotidiana, mas nem todos estavam satisfeitos: alguns reclamavam da falta de espetáculos no anfiteatro, já que faltavam condenados para serem lançados às feras recém-chegadas (um leão e um tigre). Nesses eventos, combates de gladiadores frequentemente terminavam em morte, a menos que a plateia ou as autoridades concedessem clemência, o que nem sempre acontecia.

E, em meio a tudo isso, o vulcão Vesúvio acorda...

 

Sugestão de boa leitura:

Título:  Os últimos dias de Pompeia.

Autor:  Edward Bulwer-Lytton.

Editora: Sétimo Selo, 2026, 472 p.

sábado, 29 de agosto de 2026

Turbulência não derruba avião

 

        Pensei muito se deveria escrever estas linhas e considerei que, muitas vezes, aquilo que aqui publico é uma externalização do que penso ou sinto. Confesso que não sabia que rumo dar a este artigo, pois sou um dos milhões de inscritos no canal Aviões e Músicas de Lito Sousa e todos estamos chocados com a notícia acerca do diagnóstico da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Aqui não escreverei sobre a grave enfermidade, pois acredito que seja do conhecimento do leitor dada a ampla divulgação do caso. Escrevo, sim, sobre o homem que nos ensinou, dia após dia, que turbulência não derruba avião e que essa frase, repetida por ele com tanta convicção, nunca fez tanto sentido como agora.

            Lito é um apaixonado por aviação e trabalhou décadas como mecânico de aeronaves em grandes companhias da aviação comercial. Sua paixão era tanta que resolveu criar um canal no YouTube como hobby, com a intenção de partilhar seu conhecimento e desmistificar falsas ideias sobre aquele que é o meio de transporte mais seguro do mundo. Uma de suas frases mais repetidas é a que dá título a este artigo e sobre a qual, inúmeras vezes, ele demonstrou sua veracidade com dados, histórias e aquela paciência de quem realmente ama o que faz.

            O caminho deste escriba até a inscrição no canal Aviões e Músicas passa, obviamente, por uma paixão por aviões que vem da infância. Lembro de ter pedido ao "bom velhinho" um avião de brinquedo como presente de Natal. Talvez ele não tenha entendido ou não encontrado, o fato é que recebi uma pá carregadeira. No entanto, um amigo ganhou um avião e, não estando contente, trocamos nossos brinquedos e ficamos ambos felizes. A bem da verdade, o avião era menos elaborado do que a pá carregadeira, mas era um avião. E, mesmo naquela troca simples, eu já aprendia, sem saber, o que Lito tanto repete: o importante não é o tamanho da turbulência, mas a certeza de que se está no caminho certo.

            Quando adolescente, comprava e lia as revistas Asas e Força Aérea a ponto de decorar dados técnicos de caças. Na época, meu sonho era ser piloto da Força Aérea Brasileira. Por falta de informações e de condições financeiras, não realizei meu sonho, mas segui acompanhando o mundo das asas fixas. Lembro que meu primeiro voo de avião ocorreu em Laranjeiras do Sul, num panorâmico sobre a cidade e o lago de Salto Santiago, no fim da década de 1970. O piloto e proprietário da aeronave era o Sr. Gilberto Telli, amigo de meu pai, que nos fez a gentileza do passeio. Não sei dizer se foi em um monomotor ou bimotor (ele tinha os dois modelos), mas lembro de como tudo parecia pequeno visto do alto. Naquele momento, eu já sentia o que Lito descreve com tanta propriedade: a aviação nos dá uma perspectiva nova do mundo.

            Laranjeiras do Sul tinha, em sua pista de pouso, quatro ou cinco aeronaves pertencentes a empresários e médicos, guardadas em hangar. Essa pista, hoje, sequer existe, virou lavoura. Lembro também do acidente e do local da queda do avião do saudoso Dr. Carmosino. Aliás, meu interesse é tamanho pela aviação que leio e assisto a tudo, mesmo sobre acidentes aéreos. Aos que são próximos, costumo afirmar: "Comida que leva queijo e filme ou livro sobre avião não tem erro, sempre é bom." É uma brincadeira, mas traduz bem o prazer que esse tema me traz.

            Foi nesse cenário de entusiasta que nunca perdeu o brilho nos olhos por uma aeronave que encontrei o canal de Lito Sousa. E, de imediato, reconheci nele não apenas um especialista, mas alguém que devolvia à aviação a sua poesia e a sua verdade. Aqui neste espaço, dentre outras obras, resenhamos o excelente livro "Onde morrem os aviões", de sua autoria. Digo que, apesar de meu grande interesse pela aviação, minha experiência como passageiro é pouca, tendo em vista que também amo a estrada e adoro dirigir. Mas, ainda assim, o conteúdo de Lito me faz viajar (não apenas entre cidades), mas no tempo, de volta àquelas tardes de infância em que um simples brinquedo trocado já era suficiente para me fazer acreditar que eu poderia voar.

            E todas essas memórias voltaram com uma força imensa quando soube do diagnóstico de Lito. Porque ele foi, sem saber, o piloto que me reconectou àquele garoto que colecionava revistas e sonhava com as asas da FAB. Ele nos deu muito mais do que informação técnica; ele nos deu acolhimento, entusiasmo e a certeza de que, mesmo diante do inesperado, há beleza em seguir em frente.

            Encerro dizendo que o adoecimento de Lito é uma turbulência que todos nós, amantes da aviação e fãs do excepcional trabalho do youtuber à frente do Canal Aviões e Músicas, estamos atravessando. Lito não é apenas excelente no que faz, ele é uma das melhores pessoas da internet brasileira. E, se há algo que ele nos ensinou com tanta insistência, é que turbulência não derruba avião. Ela sacode, assusta, incomoda, mas não derruba. Porque avião foi feito para voar, e pessoas como Lito foram feitas para inspirar.

            Força, Lito! A turbulência passa. O voo continua.

 

sábado, 22 de agosto de 2026

Democracia de baixa intensidade: O Congresso como freio e povo como espectador

 

Neste espaço, já afirmei em outras ocasiões que o Brasil vive uma democracia de baixa intensidade. Não por acaso, mas porque nenhuma democracia plena pode florescer em uma sociedade tão profundamente desigual. O Índice de Gini de 2025 nos coloca como a quarta nação mais desigual do planeta e esse dado não é fruto do acaso, nem de fatalidades históricas. É resultado de escolhas, de projetos de poder que sempre privilegiaram poucos em detrimento de muitos.

Desde o período colonial, o Brasil foi pensado e gerido por elites que raramente ousaram construir um projeto de nação soberana, inclusiva e desenvolvida. Quando refletimos sobre os rumos do país, é comum atribuirmos a culpa a este ou àquele presidente, a este ou àquele partido. Mas essa é uma leitura curta, que funciona como uma cortina de fumaça, pois esconde o essencial.

O sistema político brasileiro é o presidencialismo de coalizão. Para governar, o Executivo precisa, obrigatoriamente, costurar maioria no Congresso Nacional. E, no Brasil, essas casas legislativas sempre foram, majoritariamente, ocupadas por forças conservadoras. Nas raras ocasiões em que presidentes com agendas progressistas chegaram ao Planalto, encontraram pela frente bancadas parlamentares que impuseram um preço alto pela governabilidade. Os resultados foram governos do possível, não do necessário, administrações que fizeram o que podiam, mas não o que seria preciso para reverter o quadro estrutural de exclusão.

Basta olhar as urnas. Mesmo quando o eleitorado brasileiro elege para o Planalto um nome com discurso de mudança, ao mesmo tempo reconduz ao Congresso uma bancada profundamente alinhada ao conservadorismo, a chamada bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), que representa, respectivamente, o latifúndio, o armamentismo e a pauta moral conservadora. Esse bloco histórico se organiza para barrar reformas socioeconômicas de caráter popular, freando qualquer tentativa de redistribuição de renda, terra e poder.

O Brasil só avançará de verdade na redução da desigualdade quando o Congresso Nacional refletir as várias cores, rostos e vozes do povo trabalhador. Isso, porém, é um desafio imenso. O trabalhador brasileiro vive imerso em urgências (a carestia, o desemprego, a luta diária pela sobrevivência). Além disso, o subdesenvolvimento histórico limita o acesso a uma educação crítica e emancipadora, o que torna mais difícil a percepção de que o parlamento é tão ou mais decisivo que a presidência para seu futuro.

Nas democracias de baixa intensidade e sob o peso da ditadura do neoliberalismo econômico, o voto nos dá a ilusão de que decidimos nossos rumos. Na verdade, o capital financeiro, o agronegócio, a indústria de armas e os grandes meios de comunicação detêm o controle das eleições: elegem a imensa maioria da bancada parlamentar e, sem o Congresso, o Planalto fica acorrentado. Saber disso não é derrotismo, é o primeiro passo para mudar.

O Congresso Nacional, tal como está conformado, é uma fábrica de leis favoráveis aos mais aquinhoados. Acelera reformas neoliberais quando o Executivo está alinhado a essa agenda, e funciona como um potente freio de arrumação quando um governo progressista tenta apontar em direção contrária. Essa dinâmica não é nova, mas nunca foi tão explícita.

Por isso, como povo trabalhador, precisamos aprender a olhar com a mesma atenção que dedicamos ao Planalto para o Parlamento. É lá que se decide se teremos um governo do possível ou um governo do necessário. É lá que a democracia ganha ou perde densidade.

E, para que a democracia não seja apenas um ritual de legitimação da desigualdade, é preciso que o povo ocupe não apenas as ruas, mas também as cadeiras. Que o Congresso, enfim, seja pintado de povo.

 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

A escola como depósito? A parceria que muitos pais insistem em ignorar

A apresentadora Sabina Simonato se envolveu, recentemente, em uma polêmica de dimensão nacional ao criticar a liberação antecipada dos estudantes durante os jogos da seleção na Copa do Mundo de 2026. Seu argumento foi pragmático: a saída antecipada traria problemas logísticos para os pais que estavam trabalhando e haviam confiado seus filhos à escola naquele período. Segundo ela, os responsáveis precisariam buscar as crianças e encontrar quem as acolhesse até o fim do expediente.

Diante da repercussão negativa, Sabina pediu desculpas, afirmando que não quis dar a entender que escolas são depósitos de estudantes. O estrago, porém, já estava feito. E suas palavras não convenceram.

O leitor pode julgar que esse tema é anacrônico, afinal, o "hype" da Copa já passou. No entanto, professor que sou, convivo com esse debate diariamente no corredor e na sala de professores. E posso afirmar: a visão utilitarista da escola é discutida há muito tempo entre nós, educadores.

Lembro-me bem de que, durante a pandemia de Covid 19, as autoridades decretaram o isolamento social e as aulas passaram a ocorrer de forma remota, por meio de materiais impressos e plataformas digitais. Não houve, naquele período, aulas presenciais. Especialistas da área da saúde alertavam, insistentemente, sobre a necessidade do fechamento das escolas para reduzir a transmissão do vírus, já que a sala de aula é um ambiente insalubre por natureza (aglomeração, espaço reduzido e ventilação precária).

Ainda assim, houve forte reclamação de pais nos meios de comunicação. Muitos afirmavam que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos, fazendo pouco caso dos riscos de transmissão cruzada do vírus entre estudantes e familiares, inclusive aqueles com comorbidades. O que mais doía, na época, era perceber que, para uma parcela dos responsáveis, a escola importava menos como espaço de formação e mais como guarda de crianças e adolescentes.

É preciso, contudo, evitar a generalização. Estas linhas retratam uma parcela, jamais a totalidade dos pais de estudantes. Muitos foram os responsáveis que retiraram seus filhos antecipadamente ao cancelamento das aulas presenciais e que mantiveram o uso de máscaras quando muitos já as haviam abandonado. Esses merecem reconhecimento.

A insatisfação dos mestres, é verdade, dirige-se àqueles pais que encerram o acompanhamento da evolução da aprendizagem de seus filhos com o ato da matrícula. Não comparecem às reuniões de pais e mestres, nem mesmo para retirar os boletins. Muitos só aparecem na escola no final do ano, quando o filho está em risco de reprovação. Há os que se recusam a assinar a prova corrigida, como se a nota dissesse respeito apenas à criança, e não à construção conjunta de seu percurso.

Já ouvimos, na escola, sincericídios de algumas mães (minoria, é verdade) que se declararam contra as férias, dando a entender que preferem os filhos na escola do que em casa. Esse pensamento, externado por poucas, talvez reflita o entendimento de um número pequeno, mas significativo, de pais.

Um caso emblemático ilustra bem esse descompasso. A cantora Luiza Possi postou em suas redes sociais que a escola de seu filho a chamou para conversar sobre problemas de comportamento da criança. Sua resposta foi: “A escola que se vire, porque eu tenho os mesmos problemas em casa e não reclamo com a escola". Esse tipo de postura, infelizmente, é comum. Muitos pais se irritam com a escola quando convocados para tratar de comportamentos inadequados ou de dificuldades de aprendizagem de seus filhos. Muitos são os pais que não se comprometem com a aprendizagem cognitiva e social dos filhos: não orientam a agenda, não verificam os cadernos, não determinam horários de estudo em casa e não frequentam as reuniões.

Chegamos, muitos mestres, a uma conclusão desconcertante: há pais que não sabem nem mesmo a série ou o ano que seus filhos estudam. O leitor pode argumentar que isso se deve ao baixo nível de escolaridade desses responsáveis. Mas a experiência de sala de aula nos mostra o contrário: ao longo de nossa carreira, observamos inúmeros pais com poucos anos de estudo que são extremamente exigentes e zelosos com a aprendizagem dos filhos. Este escriba, por exemplo, teve pais com pouca instrução formal, mas foi rigorosamente cobrado quanto à dedicação aos estudos.

É por tudo isso que a fala de Sabina Simonato incomodou tanto. Ela reduziu a escola a um serviço de apoio à rotina dos pais, quando ela é, antes de tudo, um espaço de formação, descoberta e convívio. Ao tratar a saída antecipada como um problema logístico, ela revelou, mesmo sem intenção, uma visão distorcida que muitos pais compartilham: a de que a escola existe para resolver uma ausência, e não para construir uma presença.

Encerro com um apelo: os professores desejam, acima de tudo, uma parceria com os pais. Estudos da área educacional já comprovaram que os estudantes cujos pais são participantes ativos e assíduos na escola são os que alcançam melhores resultados não apenas em notas, mas em comportamento, autonomia e autoestima. A escola é importante demais para a transformação da vida de seu filho para ser relegada a um papel secundário.

Não queremos que os pais resolvam os problemas sozinhos. Queremos que caminhem ao nosso lado. Porque educar é um ato compartilhado, e sem esse elo, a corrente se rompe.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Marco Rubio, um mitômano incontrolável

 


     Lançado pela Editora Expressão Popular, Marco Rubio, um mitômano incontrolável chega ao leitor brasileiro em meio ao debate sobre o papel dos Estados Unidos na desestabilização de democracias latino-americanas. O jornalista cubano Hedelberto López Blanch propõe-se a dissecar a trajetória e o ideário de um dos nomes mais influentes do governo Trump: o secretário de Estado Marco Rubio.

        Com 144 páginas, a obra alterna biografia, escândalos de corrupção, análise de lobby e geopolítica. O tom é panfletário, mas lastreado em recortes de imprensa, documentos públicos e declarações do próprio Rubio.

          Filho de cubanos que imigraram durante o governo de Fulgêncio Batista (aliado histórico de Washington), Rubio construiu uma narrativa pessoal marcada por contradições. Em campanhas, afirmou que os pais haviam deixado Cuba por causa do regime castrista, versão desmentida por registros históricos. Formado em Direito graças a uma bolsa de atleta, disputou as primárias republicanas de 2016 contra Jeb Bush e Donald Trump. Derrotado, tornou-se aliado de Trump e foi nomeado secretário de Estado no atual mandato.

            Um dos eixos centrais do livro é a relação entre políticos cubano-americanos e o crime organizado na Flórida. Blanch documenta casos de corrupção e aponta que Rubio teria sido alvo de denúncias por tráfico de influência e enriquecimento ilícito, embora sem condenações formais. O autor também destaca a dependência de Rubio em relação ao capital financeiro e ao lobby sionista, principais doadores de suas campanhas. No plano doméstico, defende o livre porte de armas, opõe-se à anistia para imigrantes e rejeita o aumento de impostos sobre grandes fortunas.

            No campo internacional, Rubio articula pressão máxima contra Cuba, Nicarágua e Venezuela, além de propor aliança energética com Canadá, México, Colômbia e Brasil para deslocar o protagonismo do Oriente Médio e da Rússia. O livro sustenta que ele atua como mentor intelectual de grande parte das iniciativas desestabilizadoras do governo Trump, comparando sua influência à de Joseph Goebbels no Terceiro Reich pela habilidade em manipular narrativas e justificar violações do Direito Internacional.

            Marco Rubio, um mitômano incontrolável não é uma biografia neutra, tampouco um ensaio acadêmico isento. Trata-se de um livro escrito para municiar militantes como explicita a própria orelha. Do ponto de vista jornalístico, a obra peca pela ausência de fontes primárias inéditas e pela escassez de entrevistas, baseando-se em compilações de notícias já publicadas. Sua virtude é organizar informações dispersas em uma narrativa coerente e acessível.

            O livro cumpre o que promete: oferecer um retrato crítico e documentado de Rubio, expondo contradições entre discurso e prática. Recomenda-se a leitura a militantes, jornalistas e pesquisadores,  desde que cientes do viés assumido. Como ferramenta de debate, é valiosa; como fonte única, requer contraponto.


Sugestão de boa leitura:

Título:  Marco Rubio, um mitômano incontrolável.

Autor:  Hedelberto López Blanch.

Editora: Expressão Popular, 2026, 144 p.

sábado, 25 de julho de 2026

Nem tudo que parece é: o que Bridget Jones tem a ver com fake news?

 

     Tenho o hábito de assistir séries, mas neste recesso escolar resolvi mudar: nada de episódios que, em sua ordem cronológica, me lembram a rigidez com que nós, professores, ficamos presos ao relógio (horários, duração de aulas, sirenes). Optei por filmes aleatórios. Como assisto poucos, é fácil encontrar títulos inéditos para minha simples descontração.

        Foi assim que, num canal de streaming, deparei com O diário de Bridget Jones (2001). O título sempre me despertara curiosidade, mas, por alguma razão, nunca passara da intenção. Nada li a respeito. Em meu imaginário, tratava-se de uma repórter investigativa que desvendara uma grande rede de corrupção e, após ser assassinada, seu diário revelava os criminosos.

     Quem já assistiu ao filme sabe que não se trata de nada disso. Obviamente, não compartilhei minha suposição com ninguém, se o tivesse feito, alguém me corrigiria a tempo. Esse episódio banal me fez lembrar de uma frase de Karl Marx: "Se toda a essência coincidisse com a aparência, a ciência seria desnecessária." O filósofo quis dizer que, se as coisas fossem o que aparentam à primeira vista, não precisaríamos estudar, pesquisar ou investigar para descobrir seu real significado.

        Ocorreu-me, então, um caso parecido. Um companheiro de visão de mundo, alguém que compartilha comigo projeto de sociedade e país, confessou que não conseguia ler tudo o que eu postava nas redes, mas que assinava embaixo e repostava minhas publicações por me conhecer. Apontei-lhe o equívoco: ainda que eu leia tudo o que publico, já encontrei postagens de companheiros que contrariam a própria ideologia que sei que defendem. Tais contradições nascem, muitas vezes, de manchetes cujo conteúdo não corresponde ao título.

         Pensei, então: quanta gente deve republicar postagens cujo teor desconhece ou mesmo discorda? Quantos se limitam a comentar manchetes, sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo integral?

            Essa não é uma reflexão nova neste espaço. Em outubro de 2010, publiquei "A ilusão de descortinar o mundo real", onde já alertava: "A visão de mundo das pessoas é muito limitada, poderíamos dizer míope (com o perdão dos que sofrem desse problema visual). Não conseguem ver muito além do que lhes é próximo. Ver a essência dos fenômenos não é tarefa fácil; exige estudo, observação, reflexão. E, como sabemos, nem todos são afeitos ao ato de pensar. Pensar é uma árdua tarefa, já afirmava Einstein, completando que talvez por isso tão poucos se dediquem a ela. Assim, difunde-se o discurso de que se deve aceitar o mundo como ele aparenta ser, afinal, as coisas sempre foram assim e não há o que mudar."

            Há dias, um internauta postou que dos professores "muito se deve exigir, pois as consequências de seu trabalho se propagam por décadas". Concordo. Mas complemento: que se dê aos mestres as condições necessárias para tal. Reitero também que muito se fala dos professores, mas pouco se discute o peso da imprensa que omite ou manipula informações. E o que dizer dos internautas que propagam fake news e desinformam parcelas inteiras da sociedade, minando a própria democracia, que precisa, como subsídio para sua ação, da informação verdadeira?

            O que quero dizer, no fundo, é que a hipocrisia reina em muitos discursos. E poucos, muito poucos, passariam pelo crivo de seu próprio pensar.

            Se Bridget Jones me ensinou algo, além de boas risadas, foi isto: julgar um filme (ou uma notícia, ou uma pessoa) pela capa é um risco que, num mundo saturado de informações, já não podemos mais nos dar ao luxo de correr.

sábado, 18 de julho de 2026

O guarani

 


        José de Alencar (1829-1877) foi um romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário e defensor do sistema escravocrata, na política ficou reconhecido por sua atuação parlamentar na defesa de valores conservadores, patriarcais, mas também pátrios. A maturidade que adquiri ao longo da vida me permite separar José de Alencar, o homem (fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do Romantismo Brasileiro; dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e morte, paixão e ódio, mas também muito talento.

            A trama de O guarani, publicada por José de Alencar em 1857, conta uma história de amor ambientada no século XVII entre um indígena e a filha de um próspero colonizador português. Cecília (Ceci) é filha de D. Antonio Mariz (personagem inspirada em um dos fundadores do Rio de Janeiro). Em sua propriedade fortificada no alto de uma colina, vivem sua família, aventureiros, fidalgos e mercenários. A família de D. Antonio é composta pela esposa D. Lauriana, a bela filha Ceci, o filho D. Diogo e a filha mestiça Isabel, que D. Antonio teve com uma indígena.

            Peri é um índio goitacá inteligente e destemido que salvou Ceci de um ataque indígena e que, como missão de vida, se incumbiu da proteção dela. Na propriedade residem homens de má índole que não demoram a observar os dotes de Cecília. Isabel é apaixonada por Álvaro, capanga de D. Antonio, que por sua vez é apaixonado por Ceci, mas ela não o corresponde. Peri tem uma paixão platônica por Ceci. D. Lauriana se irrita com a presença do "selvagem" na propriedade, porém D. Antonio tem simpatia pelo indígena e o considera útil. D. Diogo sai para caçar e, não intencionalmente, mata uma indígena aymoré, isso se torna o estopim de um conflito feroz entre a tribo Aymoré e a família de colonizadores.

            O livro evidencia a fase nacionalista do Romantismo brasileiro, com forte influência europeia, mas é importante notar que Peri é mais um símbolo cavalheiresco do que uma representação realista do indígena. Mesmo assim, a obra prende o leitor do início ao fim, com cenas de ação, amor e tragédia que fazem jus ao talento de Alencar. Se você só leu O guarani na escola, vale a pena relê-lo agora, a experiência é completamente outra.

Sugestão de boa leitura:
Título: O guarani.
Autor: José de Alencar.
Editora: La Fonte, 2022, 304 p.

domingo, 12 de julho de 2026

Rir da própria tragédia: o professor e o espetáculo do descaso

 

            Na semana passada, estudantes colocaram cacos de vidro no copo d'água de uma professora do Ensino Fundamental. Esse caso, longe de ser isolado, expõe uma verdade que a sociedade brasileira prefere ignorar. O Brasil trata seus professores como inimigos. A Educação há muito se tornou uma tragédia nacional. É conhecida mundialmente a nossa capacidade de rir ante as tragédias. Rimos da própria desgraça. Há quem chame isso de resiliência; eu chamo de anestesia.

            É sabido que nossa indústria de memes é das mais criativas do mundo. O segundo povo mais ativo nas redes sociais transforma crítica social em entretenimento. Mas será que rir de tudo é benéfico? Especialistas alertam: essa postura pode gerar passividade. E passividade, num país onde "o público é maior que o povo, pois povo luta por seus direitos, enquanto o público apenas assiste" como alertou Lima Barreto, é um luxo perigoso.

            Confesso que vivo entre dúvidas. Guimarães Rosa dizia que "não sabia de quase nada, mas desconfiava de muita coisa". É exatamente como me sinto. Na universidade, minha professora de filosofia nos ensinou: "venho para encher suas cabecinhas de dúvidas, não de respostas". Talvez por isso, até minhas certezas eu questiono.

            O caso do copo com vidro não é exceção. Em todo o país, professores sofrem agressões verbais, bullying, ciberbullying e, em situações extremas, agressões físicas cometidas por adolescentes e, às vezes, por seus pais. Não à toa, o Brasil ficou em último lugar no Global Teacher Status Index, ranking que mede a valorização dos docentes em 35 países.

            Fala-se muito em "apagão de professores". As licenciaturas encolhem; disciplinas inteiras ficam sem reposição. E o que ouvimos da chamada boa sociedade? "Quem não está contente, que saia." Pois bem: se todos os descontentes saírem, nossos filhos e netos não terão um único professor.

            Nós, mestres, amamos ensinar. O que odiamos é ser vilanizados, humilhados e reduzidos a bodes expiatórios. Odiamos salas superlotadas, montanhas de relatórios, falta de hora-atividade, metas impossíveis, assédio moral, salários defasados e a negação de direitos. E, pior: governantes que tratam educação como despesa, famílias que nos colocam como únicos culpados pelos fracassos dos filhos e uma sociedade que aplaude quando nos atacam.

            Já li dezenas de textos sobre nossa importância. Mas palavras não enchem estômago nem curam burnout, a doença que atinge mais de 70% dos professores. Somos cobrados como se fôssemos a Suécia, mas tratados como se estivéssemos no Haiti. E, ainda assim, pedem resultados de primeiro mundo.

            Na última semana, fui a Guarapuava assistir ao humorista Diogo Almeida, especialista em fazer humor das tragédias da educação. Plateia lotada, maioria de professores na meia-idade, o perfil atual da classe que envelhece e está às portas da aposentadoria, agravando o apagão. Ri muito. Precisava.

            Ri da própria tragédia, porque a luta cansa e a alienação alivia. Mas, enquanto ria, percebi: minha gargalhada era o eco de uma classe que não tem mais voz. Estamos medicados, sobrevivendo e fazendo piada, não porque somos fortes, mas porque o desespero, sem saída, vira espetáculo. O problema é que, no Brasil, até a tragédia vira produto. E o professor, de protagonista, virou plateia.

sábado, 4 de julho de 2026

A Bandeira, a Amarelinha e a Alma Brasileira

 

         Há alguns anos, discorri neste espaço sobre a necessidade de se recuperar a bandeira nacional, que havia sido apropriada pela extrema direita. Na ocasião, lamentei constatar seu uso como símbolo de uma parcela da população que segue os ideais de lideranças do mesmo espectro político de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Não é necessário repetir aqui a tragédia econômica e humanitária a que o mundo se submeteu por fingir não ver o monstro que se agigantava.

            Na época, em minhas caminhadas pela cidade, observei com grande tristeza residências muito humildes ostentando a bandeira nacional,  o mesmo símbolo que muitos associavam abertamente a um grupo político cujo protagonismo é de uma família que, na minha avaliação, muito mal fez ao país e ainda faz. Que os ricos defendam seus injustos privilégios, eu posso entender, embora não concorde. Mas dá muita pena ver o que a "falta de luz", leia-se, a ausência de informação e consciência crítica, faz às almas menos afortunadas de nossa sociedade.

            Felizmente, a Copa do Mundo de Futebol trouxe uma reviravolta inesperada. A parcela progressista da sociedade ousou, novamente, vestir a camisa da seleção. Alguns, temendo ser confundidos com o grupo político da extrema direita, optaram pela camiseta azul. Outros, mais corajosos, resgataram a amarela.

            Em solo pátrio, já não é mais possível afirmar a ideologia de quem usa a "amarelinha". O uso da camisa passou a ser compartilhado por pessoas de ambos os lados do espectro político. Também não se pode mais deduzir a posição dos moradores pela bandeira na janela,  afinal, o Brasil, mesmo polarizado, vive a febre da Copa. Como diz a canção (devidamente atualizada): "somos 215 milhões em ação / para frente Brasil / salve a seleção".

            Ainda que essa ressignificação seja um avanço, não posso esquecer que, até ontem, a mesma camisa era ostentada por aqueles que defendem o oposto do que acredito. O símbolo mudou de mãos, mas a memória não se apaga tão rápido. E é justamente essa tensão entre o passado recente e o presente de união, que torna o fenômeno tão fascinante.

            Impossível não lembrar, aqui, do Santos Futebol Clube da era Pelé. Em 1969, no auge da Guerra de Biafra, na Nigéria, a equipe santista conseguiu algo que diplomatas não haviam alcançado: um cessar-fogo entre as partes conflitantes para que a população pudesse assistir ao futebol arte do time liderado pelo gênio. O futebol, ali, provou ser mais que entretenimento, foi trégua humanitária.

            Esse humilde escriba confessa que jogou a toalha no fatídico 7 a 1 da Alemanha, em 2014. Mas voltou a assistir à seleção desde o primeiro jogo desta Copa. Retomou, inclusive, o hábito de torcer para as seleções dos países colonizados, especialmente da América Latina e da África, em seus confrontos contra as potências colonizadoras europeias. Com enorme arroubo de alegria, comemorei os feitos de Cabo Verde e, especialmente, do Paraguai. Não sei como agirei em confrontos entre nossos hermanos latino-americanos e nossos irmãos africanos; penso que terei de deixar o coração decidir.

            Encerro dizendo que, no "País do Futebol", tal como o Santos de Pelé, a seleção e a Copa do Mundo recolocaram as cores nacionais em seu devido lugar: no coração e nas mentes de todos os brasileiros. A Copa mostrou que é possível partilhar um símbolo, mas isso não apaga as desigualdades estruturais. O futebol é trégua, não paz definitiva.

            O país continuará polarizado, e isso é natural, pois é a luta de classes movendo a história nacional. Lamento apenas que muitos de nossos irmãos trabalhadores, confusamente, tenham se postado em trincheiras que, do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora, considero equivocadas. Mas a amarelinha, agora, não é mais somente deles, é nossa. E isso, por si só, já é uma pequena vitória.

sábado, 27 de junho de 2026

O Programa Agrinho e o lobby do agronegócio: um tentáculo na educação?

 

            Há alguns dias, alguns professores sentiram estranhamento quando um pai afirmou que não queria que seu filho participasse das atividades do Programa Agrinho na escola, pois a ele se opõe. O referido programa é da iniciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e das federações da agricultura estaduais em diversas regiões do Brasil. Tem por objetivo conectar as escolas ao agronegócio e ao meio ambiente, trabalhando com materiais didáticos exclusivos e em consonância com os temas transversais do currículo básico da educação básica. Os estudantes e professores desenvolvem atividades nas categorias de desenho e redação, experiências pedagógicas inovadoras e tecnologia.

            A este escriba, não houve estranheza, pois, apesar das supostas boas intenções do programa, jamais dele quis participar. Explico: em nosso ver e supostamente também ao pai, o Programa Agrinho é apenas mais um tentáculo do maior lobby nacional (o lobby do agronegócio), que remonta ao período colonial. Já abordamos em outras oportunidades que esse setor sempre contou com expressivas bancadas parlamentares e, dessa forma, sempre elaborou e aprovou leis em interesse próprio, tais como a Lei de Terras de 1850, para impedir que a terra fosse adquirida senão por moeda corrente. O objetivo era evitar que, ao findar a escravidão, os negros libertos e também os imigrantes que para o país vinham fossem proprietários de terras, pois, se assim fosse, quem trabalharia para os coronéis parlamentares e os latifundiários por eles representados?

            A sempre expressiva bancada do agronegócio (também conhecida como Bancada do Boi) une-se à Bancada da Bala e à Bancada da Bíblia e impõem ao país pautas reacionárias (independentemente do governo de plantão) e "pautas bombas" para o governo ao qual se opõem. Dentre elas está o perdão de dívidas de empresas ligadas ao setor, como a recentemente aprovada, que se utilizará de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Tais recursos, que tinham por destino a ampliação dos investimentos em saúde (fortalecimento do SUS), educação, meio ambiente, prevenção/atendimento de calamidades públicas, habitação e infraestrutura social, poderão agora ser usados para pagar dívidas de empresas do agronegócio (uma espécie de "securitização" do setor) em que quem paga o boleto é o contribuinte, que terá menos investimentos governamentais no que realmente importa: os serviços públicos.

            A Bancada do Agronegócio conta com 342 parlamentares (292 deputados federais e 50 senadores) de um total de 594 (513 deputados federais e 81 senadores). Somada à Bancada da Segurança Pública (Bancada da Bala) e à expressiva Bancada Evangélica (Bancada da Bíblia), fecham questão juntas e podem aprovar tudo aquilo que a pressão das ruas, via forte mobilização, não impeça. Tais bancadas conservadoras impediram, ao longo da história nacional, reformas de cunho social e de grande importância para a economia, como a reforma agrária, que é realizada a conta-gotas, muito aquém da necessidade de uma das maiores concentrações de terra entre as nações: 1% dos proprietários controla 47,5% das terras agrícolas brasileiras, sendo que 0,3% dos imóveis rurais (15.686 propriedades maiores) detêm 25% de toda a terra agrícola do país. É também para essa gente que, a partir de agora, se destinam os recursos do Pré-Sal.

      Isso sem falar na Lei Kandir, que isenta as exportações do agronegócio e causa fortes prejuízos arrecadatórios para os estados produtores. Dessa forma, o Governo Federal é obrigado a fazer repasses bilionários como compensação para Estados e Municípios, com recursos oriundos da tributação de pessoas físicas e jurídicas, a maioria sem ligação com o setor. Sabemos que tal lei beneficia as exportações, gera empregos, traz divisas e equilíbrio à balança comercial, mas tem alto custo para a economia nacional e, no exterior, é criticada como uma vantagem indevida concedida ao exportador brasileiro (incluindo o agronegócio).

        Segundo o estudo "Subsídios Tributários e Financeiros ao Agronegócio no Brasil" (IPEA, 2021), as renúncias fiscais e subsídios ao setor somam cerca de R$ 100 bilhões por ano (valor que supera o orçamento anual do Ministério da Saúde). Esse montante, somado ao perdão recente de dívidas via Fundo Social do Pré-Sal, evidencia um padrão histórico de transferência de recursos públicos para o setor, em detrimento de áreas como educação, saúde e habitação. Lembro que os valores arrecadados com o Imposto Territorial Rural (ITR) de todas as propriedades rurais equivalem ao valor arrecadado pelo Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) da cidade de São Paulo, isso porque a arrecadação do ITR corresponde a apenas 0,3% da arrecadação da Receita Federal, devido à não correspondência histórica do valor real de mercado das propriedades, sendo seu fim extra-fiscal o de desestimular a improdutividade.

           Durante a ditadura militar (1964-1985), subsídios, créditos subsidiados e renegociação de prazos com juros negativos de dívidas do agronegócio era a política para o setor que historicamente conta com financiamentos a juros subsidiados para aquisição de máquinas e veículos, inclusive com isenção parcial ou total de impostos.

         Reconheço que o agronegócio é vital para a balança comercial brasileira e gera milhões de empregos diretos e indiretos. No entanto, o problema não está na existência do setor, mas no desequilíbrio de poder que ele exerce sobre o Estado, transformando privilégios em política de Estado, em detrimento do interesse público.

        Voltando à questão do Programa Agrinho: mesmo que bem-intencionado, carece de maior transparência sobre seu material didático e seus objetivos pedagógicos. Relatos de professores indicam que os cadernos de atividades tendem a exaltar o agronegócio como sinônimo de progresso, sem problematizar a concentração de terras, os impactos ambientais ou as relações de trabalho no campo. Além disso, a bancada ruralista já se posicionou a favor do Movimento Escola Sem Partido (MESP) e afirmou desejar influir na escolha do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), questionando como determinados conteúdos, especialmente aqueles relacionados ao agronegócio são tratados em sala de aula. Isso revela que o programa não é apenas um projeto pedagógico isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla de ocupação do imaginário social desde a infância e adolescência.

            Lembro ainda que, durante a Ditadura Militar, foi promulgada a chamada Lei do Boi (Lei nº 5.465/1968), que estabelecia que 50% das vagas nos cursos federais de Agronomia e Veterinária seriam destinadas a agricultores ou seus filhos. Tal lei favoreceu os filhos dos grandes proprietários, uma vez que, naquele momento, a universalização da educação básica era algo inalcançado e os filhos dos pequenos proprietários, quando podiam estudar, era em precárias escolas multisseriadas, a universidade era algo distante.

            Encerro afirmando que sou filho de pequenos agricultores, vivi parte da vida no campo, defendo a reforma agrária, a limitação do tamanho das propriedades rurais, o ITR progressivo quanto à produtividade e extensão das propriedades e, principalmente, a agricultura familiar, que produz 70% da alimentação que chega à mesa da população da cidade. Não defendo o poderoso lobby do agronegócio, cujo apetite por privilégios parece não ter fim.

            Sugiro, então, que pais, professores e comunidades escolares exijam transparência sobre o material do Programa Agrinho, que as escolas abram debate democrático sobre sua adesão e que o Ministério da Educação submeta tais programas à avaliação de especialistas em pedagogia, sociologia e meio ambiente. Só assim a educação básica cumprirá seu papel de formar cidadãos críticos  e não de servir como vitrine de interesses econômicos.

sábado, 20 de junho de 2026

O ouro e a lama: a hipocrisia da FIFA na Copa de 2026

 

          Os grandes eventos esportivos como Olimpíadas e Copas do Mundo são vendidos à opinião pública como vitrines da confraternização universal, palcos onde povos de todas as cores e credos se abraçam em torno do esporte. Mas essa narrativa ingênua desaba quando observamos os bastidores. Por trás do espetáculo televisivo para bilhões, há uma teia de interesses econômicos, projeção geopolítica das nações anfitriãs e afirmação pessoal de seus governantes. Sediar uma Copa sempre foi um ato de empoderamento nacional, mas também um teste de submissão às regras não escritas do poder global.

            O que deveria ser festa, porém, frequentemente se torna arena de contradições morais. A Copa de 2026, sediada por Estados Unidos, México e Canadá (bloco USMCA), expõe essas fraturas de maneira escandalosa. Os EUA, sob Donald Trump, retomaram bombardeios ao Irã e endureceram o embargo a Cuba, dessa forma, a Copa já começou manchada. A FIFA, em vez de zelar pelos valores que diz defender, curvou-se. Gianni Infantino concedeu a Trump o "Prêmio da Paz da FIFA – o futebol une o mundo". A ironia beira o absurdo: o mesmo prêmio, dado a um presidente beligerante, ecoa a controvérsia do Nobel da Paz de 2025 à venezuelana María Corina Machado, honraria que já foi de Nelson Mandela e agora serve a propósitos bem menos nobres. María Corina, aliás, entregou seu prêmio a Trump em gesto de subserviência, revelando o alinhamento geopolítico por trás das cortinas institucionais.

            O caso mais emblemático da seletividade moral da FIFA envolve Rússia e Israel. A Rússia foi expulsa das Copas de 2022 e 2026 e das Olimpíadas de Paris-2024 por invadir a Ucrânia, decisão baseada na violação da trégua olímpica e em sanções da WADA. Até aí, foi coerente. O problema é que Israel, sistematicamente acusado de desrespeito aos direitos humanos e de genocídio contra os palestinos, continuou participando das Olimpíadas e das eliminatórias e só não está na Copa de 2026 porque não se classificou em campo. Não houve sanção, veto ou constrangimento. A diferença de tratamento é tão gritante que só pode ser chamada de dois pesos e duas medidas. A FIFA, que se pretende guardiã da imparcialidade, revela-se refém das alianças geopolíticas de seus patrocinadores.

            Se a Rússia foi excluída e Israel poupado, os EUA estão sendo tratados com leniência que contrasta com o rigor imposto a outros anfitriões. Quando o Brasil sediou a Copa de 2014, a FIFA exigiu leis específicas como a que criminalizava a venda ambulante de ingressos e liberava a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. O mesmo ocorreu com a Rússia em 2018. Agora, com os EUA, a entidade perdeu a voz. Infantino, pressionado a explicar as humilhações a jogadores e torcedores, disse que "todos deveriam esfriar a cabeça e relaxar". Quando questionado se estava envergonhado por ter perdido as rédeas da Copa, respondeu que a FIFA "não tem poder para ditar regras a governos soberanos". Curiosa mudança: a mesma FIFA que exigia leis sob medida para o Brasil agora se refugia na soberania nacional.

            Os exemplos de desrespeito não param. A seleção do Irã, mesmo tendo seus jogos nos EUA, foi impedida de se hospedar em solo americano, forçada a desgastantes deslocamentos do México. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor da África, teve o visto negado sem explicação. Torcedores asiáticos e africanos relataram abordagens agressivas e racistas em aeroportos e estádios, um racismo estrutural que as câmeras não mostram, mas que as delegações vivem na pele. A FIFA, que sempre se vendeu como defensora da diversidade, calou-se.

            Lembra do Rei Midas? Transformava em ouro tudo o que tocava, mas seu dom virou maldição. Trump, com seu poder econômico e militar, transformou a Copa de 2026 em sucesso financeiro bilionário. Mas esse ouro tem preço: a dignidade de atletas, a segurança de torcedores, a credibilidade das instituições e o espírito do esporte. A FIFA, ao premiar Trump e afrouxar critérios éticos para agradar ao anfitrião, pratica o que se chama, sem exagero, de viralatismo institucional, ou seja, a submissão voluntária ao mais forte em troca de lucro e visibilidade.

            Ao final, a Copa de 2026 será lembrada não apenas pelos gols e pelas festas nas arquibancadas, mas também pela recepção hostil a quem veio de longe, pela hipocrisia geopolítica que trata iranianos, russos e palestinos de forma desigual, e pela imagem de um presidente da FIFA entregando um prêmio de paz a um líder sempre em clima de guerra. O futebol, como diz Infantino, pode até unir o mundo,  mas, sob sua gestão, parece unir apenas os interesses de sempre, deixando de lado o fair-play que deveria ser sua alma. Que fique registrado para a posteridade: o espetáculo foi lindo, mas os bastidores federam.

sábado, 13 de junho de 2026

O mito da pureza ideológica e o declínio do Império Americano

 

        Me diga um país em que o socialismo puro deu certo, não essa mistura da China disparou meu interlocutor. Eu olhei para ele, um pequeno empresário, pessoa simples, de boa fé, e respondi na mesma hora: Me diga um país em que o capitalismo, em seu estado puro, sem Estado de Bem-Estar Social, deu certo.

          Ele ficou em silêncio. Não disse mais nada. E eu naquele instante, esperava que ele citasse os Estados Unidos. É o que todo mundo faz: citam os Estados Unidos como aquela terra dos sonhos, o grande exemplo do capitalismo que deu certo. Mas, ele preferiu se calar.

         Lembro de ter lido, há tempos, algo que concordo: que quanto menor o desenvolvimento cognitivo da pessoa, maior a tendência dela a idealizar os Estados Unidos como um paraíso. Não tenho a fonte à mão, mas a experiência cotidiana parece confirmar.

          A verdade, porém, é que a realidade desmonta essa ilusão. E desmonta com força. Vamos aos fatos: a taxa de pobreza nos Estados Unidos fica entre 10,6% e 14,8% da população. Dependendo da métrica, isso dá cerca de 36 milhões de pessoas vivendo na pobreza. Trinta e seis milhões. E a desigualdade social? Não para de crescer desde o governo Reagan, lá no início dos anos 80. Foi ali que o neoliberalismo entrou com tudo avançando sobre direitos trabalhistas, desmontando o pouco que restava do Estado de Bem-Estar Social.

         Uma em cada sete pessoas, nos EUA, passa fome ou vive em insegurança alimentar. 770 mil pessoas estão nas ruas ou em moradias improvisadas: carros velhos, barracas de camping, trailers. As famílias mais pobres gastam metade de toda a renda só para ter um teto. E uma em cada oito crianças vive abaixo da linha da miséria.

            Isso é sucesso? Isso é exemplo para o mundo?

            A desigualdade americana é uma das maiores entre os países ricos. O 1% mais rico detém de 30 a 35% de toda a riqueza nacional. Os 10% mais ricos ficam com algo entre 60 e 68%. Enquanto isso, a metade mais pobre da população (50% dos americanos) sobrevive com apenas 2 a 3% da riqueza acumulada pelo país.

            Pense nisso. A maior potência econômica do planeta. E os pobres de lá dividem migalhas.

            Os Estados Unidos nem sequer têm um sistema público e gratuito de saúde universal. Doente lá é negócio, literalmente. A expectativa de vida dos americanos é parecida com a de países emergentes. E a universidade? Mesmo quando é pública, é paga. A gratuidade só aparece em raras bolsas de estudo, geralmente para atletas.

            E sabe o que sustenta tudo isso? Uma mentalidade. Uma crença.

            Os Estados Unidos foram construídos sob os ideais do liberalismo econômico puro. A doutrina que sustenta o capitalismo americano é a da meritocracia: cada um que se vire. O Estado deve ser mínimo. E qualquer ajuda governamental ao pobre é tratada como imoral, sendo atacada por lideranças partidárias e por boa parte da classe média e alta.

           Curiosamente, essa mesma população não reclama dos gastos estratosféricos com o setor militar. Pelo contrário: aceita de bom grado. Bases militares no mundo inteiro. Guerras e intervenções em países ricos em recursos naturais. Tudo para manter o status quo estadunidense e para que os ricos continuem sendo os maiores beneficiados na partilha do botim de guerra.

            Reconheço: também é difícil encontrar um país onde o "socialismo puro" deu certo. Mas será que pureza ideológica de qualquer lado é mesmo o que devemos buscar? Talvez o problema esteja justamente aí: na obsessão por pureza, em vez de soluções concretas para gente de carne e osso. Na China, conta-se que Deng Xiaoping (1904-1997) ante seus inquisidores preocupados com reformas que acreditavam ser de caráter capitalista afirmava, não importa se o gato é preto ou branco, importa que ele cace o rato.

         Como leitor da obra de Marx, a minha modesta interpretação é a de que não há nada mais contrário ao espírito do velho Marx, do que sua obra ser tratada como dogma, portanto, inflexível. Sua escrita tem que ser interpretada e adaptada à luz dos novos tempos, sem no entanto, perder sua essência.

        Para muitos estudiosos, a liderança americana tenta, com todas as forças, evitar o inevitável: a queda do Império Americano. Como aconteceu com todos os impérios que vieram antes. Usam o braço militar, espalham caos e insegurança, mas o tempo corre contra eles.

       Lembro sempre de uma frase do pensador marxista italiano Antonio Gramsci, (1891-1937): "O Velho Mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse escuro-claro, irrompem os monstros."

         É exatamente o que estamos vivendo. A ordem global unipolar, empunhada pelos Estados Unidos, já quase não se sustenta. O novo mundo multipolar demora a nascer. E nesse meio do caminho surgem figuras grotescas e atrasadas para tentar  impedir o porvir.

            Mas a história ensina que mesmo a noite mais longa, uma hora, finda.