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sábado, 19 de setembro de 2026

Agronegócio e política: entre o discurso e a prática

 


Há alguns meses, assisti a uma fala indignada do presidente Lula, que questionava: “Por que esse pessoal do agronegócio prefere o Bolsonaro, se ninguém fez mais por eles do que eu?” A pergunta me intrigou. Curioso, comecei a buscar respostas na internet, imaginando que ali encontraria pistas sobre a mentalidade desse setor. O que encontrei foi um verdadeiro festival de loas: canais de YouTube jogando confetes e serpentinas sobre os agentes do agronegócio, tratando-os como os únicos responsáveis por fazer o setor funcionar e por “carregar o Brasil nas costas”. Outros tantos concediam toda a glória ao governo de Jair Bolsonaro (2019–2022).

O problema é que boa parte desse conteúdo desinforma. Distorce e manipula os fatos. Basta comparar com os dados oficiais, afinal, fatos são fatos. O agronegócio não carrega o Brasil sozinho, e seus empresários e produtores não são os únicos responsáveis pelo seu sucesso. Quando se trata do agro, não há "mão invisível": há o Estado brasileiro com mãos, braços, pernas, cabeça e tronco apoiando e sustentando a atividade. O que seria do agronegócio sem as isenções e reduções tributárias? Sem os financiamentos públicos, como o Plano Safra e as linhas de crédito do Banco do Brasil? Sem as pesquisas científicas da Embrapa, que tanto beneficiaram o setor?

Encontrei também um vídeo da pecuarista e publicitária Juliana Giraldini¹, que respondia a um seguidor sobre qual teria sido o melhor governo para o agronegócio brasileiro. Segundo ela, no período da ditadura militar houve investimento no agro, mas a hiperinflação endividou os produtores. No governo Collor, com a taxação de 80% de juros, muitos não conseguiram pagar as dívidas. FHC tentou, com três planos, salvar o produtor e não conseguiu. Em 2003, houve uma conjuntura favorável: os benefícios da tecnologia da Embrapa, a entrada forte da China como cliente do agro brasileiro e o governo Lula, que concedeu vinte anos para o pagamento das dívidas dos produtores, além de criar o Plano Safra nas condições atuais. O governo Dilma elevou o Plano Safra a outro patamar, e os governos Temer e Bolsonaro deram continuidade. Juliana afirmou ainda que o governo Lula 3 bateu o recorde e investiu 2,1 trilhões de reais, sendo a maior parcela destinada ao grande produtor.

Segundo a pecuarista, o agro simpatiza com governos de direita devido à flexibilização da fiscalização. Para obter empréstimo rural, o produtor precisa apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Caso haja irregularidades ambientais (desmatamento, queimadas) ou trabalhistas (situações análogas à escravidão), em governos mais sérios e exigentes como costumam ser os de esquerda, os produtores não conseguem os recursos.

A fala de Juliana faz sentido. Todos sabemos que, no governo Bolsonaro, a fiscalização foi severamente reduzida. Seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi flagrado em vídeo em reunião ministerial (22 de abril de 2020) afirmando que a pandemia de Covid-19 era o momento ideal para “passar a boiada”², ou seja, flexibilizar normas e regras de proteção ambiental enquanto a imprensa estava distraída. Também tiveram grande destaque as falas politicamente incorretas de Bolsonaro sobre questões ambientais e as dificuldades que o Brasil impunha aos seus empresários.

No entanto, minha pesquisa revelou que há mais camadas nessa relação. O agronegócio espera menos regulação, mais livre mercado e afirma ter um maior alinhamento ideológico e cultural com a direita, inclusive nas pautas de costumes (religião, pátria e família) e, principalmente, na liberação do armamentismo. Ainda temem ocupações de terras, embora a legislação constitucional garanta a propriedade das terras produtivas. Sabem que, em governos de direita, a reforma agrária (embora prevista em lei) não avança. Ao mesmo tempo, embora defendam o Estado Mínimo, exigem para si um Estado Máximo em sua defesa. Veem todo o aparato de apoio (empréstimos, reduções e isenções tributárias) como obrigação governamental, e não como benefício.

Enfim, o agronegócio quer a “mão invisível” do mercado para o restante da sociedade, mas quer o Estado em corpo e alma a seu serviço.

Fonte:

1. https://www.facebook.com/reel/2073732216871159 - acesso em 16 de setembro de 2026.

2. https://www.youtube.com/watch?v=BWDemNNMbeU - acesso em 16 de setembro de 2026.

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