Há alguns meses, assisti a
uma fala indignada do presidente Lula, que questionava: “Por que esse
pessoal do agronegócio prefere o Bolsonaro, se ninguém fez mais por eles do que
eu?” A pergunta me intrigou. Curioso, comecei a buscar respostas na
internet, imaginando que ali encontraria pistas sobre a mentalidade desse
setor. O que encontrei foi um verdadeiro festival de loas: canais de YouTube jogando
confetes e serpentinas sobre os agentes do agronegócio, tratando-os como os
únicos responsáveis por fazer o setor funcionar e por “carregar o Brasil nas
costas”. Outros tantos concediam toda a glória ao governo de Jair Bolsonaro
(2019–2022).
O problema é que boa parte desse conteúdo desinforma.
Distorce e manipula os fatos. Basta comparar com os dados oficiais, afinal,
fatos são fatos. O agronegócio não carrega o Brasil sozinho, e seus empresários
e produtores não são os únicos responsáveis pelo seu sucesso. Quando se trata
do agro, não há "mão invisível": há o Estado brasileiro com mãos,
braços, pernas, cabeça e tronco apoiando e sustentando a atividade. O que seria
do agronegócio sem as isenções e reduções tributárias? Sem os financiamentos
públicos, como o Plano Safra e as linhas de crédito do Banco do Brasil? Sem as
pesquisas científicas da Embrapa, que tanto beneficiaram o setor?
Encontrei também um vídeo da pecuarista e publicitária
Juliana Giraldini¹, que respondia a um seguidor sobre qual teria sido o melhor
governo para o agronegócio brasileiro. Segundo ela, no período da ditadura
militar houve investimento no agro, mas a hiperinflação endividou os
produtores. No governo Collor, com a taxação de 80% de juros, muitos não
conseguiram pagar as dívidas. FHC tentou, com três planos, salvar o produtor e
não conseguiu. Em 2003, houve uma conjuntura favorável: os benefícios da
tecnologia da Embrapa, a entrada forte da China como cliente do agro brasileiro
e o governo Lula, que concedeu vinte anos para o pagamento das dívidas dos
produtores, além de criar o Plano Safra nas condições atuais. O governo Dilma
elevou o Plano Safra a outro patamar, e os governos Temer e Bolsonaro deram
continuidade. Juliana afirmou ainda que o governo Lula 3 bateu o recorde e investiu
2,1 trilhões de reais, sendo a maior parcela destinada ao grande produtor.
Segundo a pecuarista, o agro simpatiza com governos de
direita devido à flexibilização da fiscalização. Para obter empréstimo rural, o
produtor precisa apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Caso haja
irregularidades ambientais (desmatamento, queimadas) ou trabalhistas (situações
análogas à escravidão), em governos mais sérios e exigentes como costumam ser
os de esquerda, os produtores não conseguem os recursos.
A fala de Juliana faz sentido. Todos sabemos que, no
governo Bolsonaro, a fiscalização foi severamente reduzida. Seu ministro do
Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi flagrado em vídeo em reunião ministerial (22
de abril de 2020) afirmando que a pandemia de Covid-19 era o momento ideal para
“passar a boiada”², ou seja, flexibilizar normas e regras de proteção ambiental
enquanto a imprensa estava distraída. Também tiveram grande destaque as falas
politicamente incorretas de Bolsonaro sobre questões ambientais e as dificuldades
que o Brasil impunha aos seus empresários.
No entanto, minha pesquisa revelou que há mais camadas
nessa relação. O agronegócio espera menos regulação, mais livre mercado e
afirma ter um maior alinhamento ideológico e cultural com a direita, inclusive
nas pautas de costumes (religião, pátria e família) e, principalmente, na
liberação do armamentismo. Ainda temem ocupações de terras, embora a legislação
constitucional garanta a propriedade das terras produtivas. Sabem que, em
governos de direita, a reforma agrária (embora prevista em lei) não avança. Ao
mesmo tempo, embora defendam o Estado Mínimo, exigem para si um Estado Máximo
em sua defesa. Veem todo o aparato de apoio (empréstimos, reduções e isenções
tributárias) como obrigação governamental, e não como benefício.
Enfim, o agronegócio quer a “mão invisível” do mercado
para o restante da sociedade, mas quer o Estado em corpo e alma a seu serviço.
Fonte:
1. https://www.facebook.com/reel/2073732216871159
- acesso em 16 de setembro de 2026.
2.
https://www.youtube.com/watch?v=BWDemNNMbeU - acesso em 16 de setembro de 2026.

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