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domingo, 16 de agosto de 2026

A escola como depósito? A parceria que muitos pais insistem em ignorar

A apresentadora Sabina Simonato se envolveu, recentemente, em uma polêmica de dimensão nacional ao criticar a liberação antecipada dos estudantes durante os jogos da seleção na Copa do Mundo de 2026. Seu argumento foi pragmático: a saída antecipada traria problemas logísticos para os pais que estavam trabalhando e haviam confiado seus filhos à escola naquele período. Segundo ela, os responsáveis precisariam buscar as crianças e encontrar quem as acolhesse até o fim do expediente.

Diante da repercussão negativa, Sabina pediu desculpas, afirmando que não quis dar a entender que escolas são depósitos de estudantes. O estrago, porém, já estava feito. E suas palavras não convenceram.

O leitor pode julgar que esse tema é anacrônico, afinal, o "hype" da Copa já passou. No entanto, professor que sou, convivo com esse debate diariamente no corredor e na sala de professores. E posso afirmar: a visão utilitarista da escola é discutida há muito tempo entre nós, educadores.

Lembro-me bem de que, durante a pandemia de Covid 19, as autoridades decretaram o isolamento social e as aulas passaram a ocorrer de forma remota, por meio de materiais impressos e plataformas digitais. Não houve, naquele período, aulas presenciais. Especialistas da área da saúde alertavam, insistentemente, sobre a necessidade do fechamento das escolas para reduzir a transmissão do vírus, já que a sala de aula é um ambiente insalubre por natureza (aglomeração, espaço reduzido e ventilação precária).

Ainda assim, houve forte reclamação de pais nos meios de comunicação. Muitos afirmavam que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos, fazendo pouco caso dos riscos de transmissão cruzada do vírus entre estudantes e familiares, inclusive aqueles com comorbidades. O que mais doía, na época, era perceber que, para uma parcela dos responsáveis, a escola importava menos como espaço de formação e mais como guarda de crianças e adolescentes.

É preciso, contudo, evitar a generalização. Estas linhas retratam uma parcela, jamais a totalidade dos pais de estudantes. Muitos foram os responsáveis que retiraram seus filhos antecipadamente ao cancelamento das aulas presenciais e que mantiveram o uso de máscaras quando muitos já as haviam abandonado. Esses merecem reconhecimento.

A insatisfação dos mestres, é verdade, dirige-se àqueles pais que encerram o acompanhamento da evolução da aprendizagem de seus filhos com o ato da matrícula. Não comparecem às reuniões de pais e mestres, nem mesmo para retirar os boletins. Muitos só aparecem na escola no final do ano, quando o filho está em risco de reprovação. Há os que se recusam a assinar a prova corrigida, como se a nota dissesse respeito apenas à criança, e não à construção conjunta de seu percurso.

Já ouvimos, na escola, sincericídios de algumas mães (minoria, é verdade) que se declararam contra as férias, dando a entender que preferem os filhos na escola do que em casa. Esse pensamento, externado por poucas, talvez reflita o entendimento de um número pequeno, mas significativo, de pais.

Um caso emblemático ilustra bem esse descompasso. A cantora Luiza Possi postou em suas redes sociais que a escola de seu filho a chamou para conversar sobre problemas de comportamento da criança. Sua resposta foi: “A escola que se vire, porque eu tenho os mesmos problemas em casa e não reclamo com a escola". Esse tipo de postura, infelizmente, é comum. Muitos pais se irritam com a escola quando convocados para tratar de comportamentos inadequados ou de dificuldades de aprendizagem de seus filhos. Muitos são os pais que não se comprometem com a aprendizagem cognitiva e social dos filhos: não orientam a agenda, não verificam os cadernos, não determinam horários de estudo em casa e não frequentam as reuniões.

Chegamos, muitos mestres, a uma conclusão desconcertante: há pais que não sabem nem mesmo a série ou o ano que seus filhos estudam. O leitor pode argumentar que isso se deve ao baixo nível de escolaridade desses responsáveis. Mas a experiência de sala de aula nos mostra o contrário: ao longo de nossa carreira, observamos inúmeros pais com poucos anos de estudo que são extremamente exigentes e zelosos com a aprendizagem dos filhos. Este escriba, por exemplo, teve pais com pouca instrução formal, mas foi rigorosamente cobrado quanto à dedicação aos estudos.

É por tudo isso que a fala de Sabina Simonato incomodou tanto. Ela reduziu a escola a um serviço de apoio à rotina dos pais, quando ela é, antes de tudo, um espaço de formação, descoberta e convívio. Ao tratar a saída antecipada como um problema logístico, ela revelou, mesmo sem intenção, uma visão distorcida que muitos pais compartilham: a de que a escola existe para resolver uma ausência, e não para construir uma presença.

Encerro com um apelo: os professores desejam, acima de tudo, uma parceria com os pais. Estudos da área educacional já comprovaram que os estudantes cujos pais são participantes ativos e assíduos na escola são os que alcançam melhores resultados não apenas em notas, mas em comportamento, autonomia e autoestima. A escola é importante demais para a transformação da vida de seu filho para ser relegada a um papel secundário.

Não queremos que os pais resolvam os problemas sozinhos. Queremos que caminhem ao nosso lado. Porque educar é um ato compartilhado, e sem esse elo, a corrente se rompe.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Marco Rubio, um mitômano incontrolável

 


     Lançado pela Editora Expressão Popular, Marco Rubio, um mitômano incontrolável chega ao leitor brasileiro em meio ao debate sobre o papel dos Estados Unidos na desestabilização de democracias latino-americanas. O jornalista cubano Hedelberto López Blanch propõe-se a dissecar a trajetória e o ideário de um dos nomes mais influentes do governo Trump: o secretário de Estado Marco Rubio.

        Com 144 páginas, a obra alterna biografia, escândalos de corrupção, análise de lobby e geopolítica. O tom é panfletário, mas lastreado em recortes de imprensa, documentos públicos e declarações do próprio Rubio.

          Filho de cubanos que imigraram durante o governo de Fulgêncio Batista (aliado histórico de Washington), Rubio construiu uma narrativa pessoal marcada por contradições. Em campanhas, afirmou que os pais haviam deixado Cuba por causa do regime castrista, versão desmentida por registros históricos. Formado em Direito graças a uma bolsa de atleta, disputou as primárias republicanas de 2016 contra Jeb Bush e Donald Trump. Derrotado, tornou-se aliado de Trump e foi nomeado secretário de Estado no atual mandato.

            Um dos eixos centrais do livro é a relação entre políticos cubano-americanos e o crime organizado na Flórida. Blanch documenta casos de corrupção e aponta que Rubio teria sido alvo de denúncias por tráfico de influência e enriquecimento ilícito, embora sem condenações formais. O autor também destaca a dependência de Rubio em relação ao capital financeiro e ao lobby sionista, principais doadores de suas campanhas. No plano doméstico, defende o livre porte de armas, opõe-se à anistia para imigrantes e rejeita o aumento de impostos sobre grandes fortunas.

            No campo internacional, Rubio articula pressão máxima contra Cuba, Nicarágua e Venezuela, além de propor aliança energética com Canadá, México, Colômbia e Brasil para deslocar o protagonismo do Oriente Médio e da Rússia. O livro sustenta que ele atua como mentor intelectual de grande parte das iniciativas desestabilizadoras do governo Trump, comparando sua influência à de Joseph Goebbels no Terceiro Reich pela habilidade em manipular narrativas e justificar violações do Direito Internacional.

            Marco Rubio, um mitômano incontrolável não é uma biografia neutra, tampouco um ensaio acadêmico isento. Trata-se de um livro escrito para municiar militantes como explicita a própria orelha. Do ponto de vista jornalístico, a obra peca pela ausência de fontes primárias inéditas e pela escassez de entrevistas, baseando-se em compilações de notícias já publicadas. Sua virtude é organizar informações dispersas em uma narrativa coerente e acessível.

            O livro cumpre o que promete: oferecer um retrato crítico e documentado de Rubio, expondo contradições entre discurso e prática. Recomenda-se a leitura a militantes, jornalistas e pesquisadores,  desde que cientes do viés assumido. Como ferramenta de debate, é valiosa; como fonte única, requer contraponto.


Sugestão de boa leitura:

Título:  Marco Rubio, um mitômano incontrolável.

Autor:  Hedelberto López Blanch.

Editora: Expressão Popular, 2026, 144 p.

sábado, 25 de julho de 2026

Nem tudo que parece é: o que Bridget Jones tem a ver com fake news?

 

     Tenho o hábito de assistir séries, mas neste recesso escolar resolvi mudar: nada de episódios que, em sua ordem cronológica, me lembram a rigidez com que nós, professores, ficamos presos ao relógio (horários, duração de aulas, sirenes). Optei por filmes aleatórios. Como assisto poucos, é fácil encontrar títulos inéditos para minha simples descontração.

        Foi assim que, num canal de streaming, deparei com O diário de Bridget Jones (2001). O título sempre me despertara curiosidade, mas, por alguma razão, nunca passara da intenção. Nada li a respeito. Em meu imaginário, tratava-se de uma repórter investigativa que desvendara uma grande rede de corrupção e, após ser assassinada, seu diário revelava os criminosos.

     Quem já assistiu ao filme sabe que não se trata de nada disso. Obviamente, não compartilhei minha suposição com ninguém, se o tivesse feito, alguém me corrigiria a tempo. Esse episódio banal me fez lembrar de uma frase de Karl Marx: "Se toda a essência coincidisse com a aparência, a ciência seria desnecessária." O filósofo quis dizer que, se as coisas fossem o que aparentam à primeira vista, não precisaríamos estudar, pesquisar ou investigar para descobrir seu real significado.

        Ocorreu-me, então, um caso parecido. Um companheiro de visão de mundo, alguém que compartilha comigo projeto de sociedade e país, confessou que não conseguia ler tudo o que eu postava nas redes, mas que assinava embaixo e repostava minhas publicações por me conhecer. Apontei-lhe o equívoco: ainda que eu leia tudo o que publico, já encontrei postagens de companheiros que contrariam a própria ideologia que sei que defendem. Tais contradições nascem, muitas vezes, de manchetes cujo conteúdo não corresponde ao título.

         Pensei, então: quanta gente deve republicar postagens cujo teor desconhece ou mesmo discorda? Quantos se limitam a comentar manchetes, sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo integral?

            Essa não é uma reflexão nova neste espaço. Em outubro de 2010, publiquei "A ilusão de descortinar o mundo real", onde já alertava: "A visão de mundo das pessoas é muito limitada, poderíamos dizer míope (com o perdão dos que sofrem desse problema visual). Não conseguem ver muito além do que lhes é próximo. Ver a essência dos fenômenos não é tarefa fácil; exige estudo, observação, reflexão. E, como sabemos, nem todos são afeitos ao ato de pensar. Pensar é uma árdua tarefa, já afirmava Einstein, completando que talvez por isso tão poucos se dediquem a ela. Assim, difunde-se o discurso de que se deve aceitar o mundo como ele aparenta ser, afinal, as coisas sempre foram assim e não há o que mudar."

            Há dias, um internauta postou que dos professores "muito se deve exigir, pois as consequências de seu trabalho se propagam por décadas". Concordo. Mas complemento: que se dê aos mestres as condições necessárias para tal. Reitero também que muito se fala dos professores, mas pouco se discute o peso da imprensa que omite ou manipula informações. E o que dizer dos internautas que propagam fake news e desinformam parcelas inteiras da sociedade, minando a própria democracia, que precisa, como subsídio para sua ação, da informação verdadeira?

            O que quero dizer, no fundo, é que a hipocrisia reina em muitos discursos. E poucos, muito poucos, passariam pelo crivo de seu próprio pensar.

            Se Bridget Jones me ensinou algo, além de boas risadas, foi isto: julgar um filme (ou uma notícia, ou uma pessoa) pela capa é um risco que, num mundo saturado de informações, já não podemos mais nos dar ao luxo de correr.

sábado, 18 de julho de 2026

O guarani

 


        José de Alencar (1829-1877) foi um romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário e defensor do sistema escravocrata, na política ficou reconhecido por sua atuação parlamentar na defesa de valores conservadores, patriarcais, mas também pátrios. A maturidade que adquiri ao longo da vida me permite separar José de Alencar, o homem (fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do Romantismo Brasileiro; dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e morte, paixão e ódio, mas também muito talento.

            A trama de O guarani, publicada por José de Alencar em 1857, conta uma história de amor ambientada no século XVII entre um indígena e a filha de um próspero colonizador português. Cecília (Ceci) é filha de D. Antonio Mariz (personagem inspirada em um dos fundadores do Rio de Janeiro). Em sua propriedade fortificada no alto de uma colina, vivem sua família, aventureiros, fidalgos e mercenários. A família de D. Antonio é composta pela esposa D. Lauriana, a bela filha Ceci, o filho D. Diogo e a filha mestiça Isabel, que D. Antonio teve com uma indígena.

            Peri é um índio goitacá inteligente e destemido que salvou Ceci de um ataque indígena e que, como missão de vida, se incumbiu da proteção dela. Na propriedade residem homens de má índole que não demoram a observar os dotes de Cecília. Isabel é apaixonada por Álvaro, capanga de D. Antonio, que por sua vez é apaixonado por Ceci, mas ela não o corresponde. Peri tem uma paixão platônica por Ceci. D. Lauriana se irrita com a presença do "selvagem" na propriedade, porém D. Antonio tem simpatia pelo indígena e o considera útil. D. Diogo sai para caçar e, não intencionalmente, mata uma indígena aymoré, isso se torna o estopim de um conflito feroz entre a tribo Aymoré e a família de colonizadores.

            O livro evidencia a fase nacionalista do Romantismo brasileiro, com forte influência europeia, mas é importante notar que Peri é mais um símbolo cavalheiresco do que uma representação realista do indígena. Mesmo assim, a obra prende o leitor do início ao fim, com cenas de ação, amor e tragédia que fazem jus ao talento de Alencar. Se você só leu O guarani na escola, vale a pena relê-lo agora, a experiência é completamente outra.

Sugestão de boa leitura:
Título: O guarani.
Autor: José de Alencar.
Editora: La Fonte, 2022, 304 p.

domingo, 12 de julho de 2026

Rir da própria tragédia: o professor e o espetáculo do descaso

 

            Na semana passada, estudantes colocaram cacos de vidro no copo d'água de uma professora do Ensino Fundamental. Esse caso, longe de ser isolado, expõe uma verdade que a sociedade brasileira prefere ignorar. O Brasil trata seus professores como inimigos. A Educação há muito se tornou uma tragédia nacional. É conhecida mundialmente a nossa capacidade de rir ante as tragédias. Rimos da própria desgraça. Há quem chame isso de resiliência; eu chamo de anestesia.

            É sabido que nossa indústria de memes é das mais criativas do mundo. O segundo povo mais ativo nas redes sociais transforma crítica social em entretenimento. Mas será que rir de tudo é benéfico? Especialistas alertam: essa postura pode gerar passividade. E passividade, num país onde "o público é maior que o povo, pois povo luta por seus direitos, enquanto o público apenas assiste" como alertou Lima Barreto, é um luxo perigoso.

            Confesso que vivo entre dúvidas. Guimarães Rosa dizia que "não sabia de quase nada, mas desconfiava de muita coisa". É exatamente como me sinto. Na universidade, minha professora de filosofia nos ensinou: "venho para encher suas cabecinhas de dúvidas, não de respostas". Talvez por isso, até minhas certezas eu questiono.

            O caso do copo com vidro não é exceção. Em todo o país, professores sofrem agressões verbais, bullying, ciberbullying e, em situações extremas, agressões físicas cometidas por adolescentes e, às vezes, por seus pais. Não à toa, o Brasil ficou em último lugar no Global Teacher Status Index, ranking que mede a valorização dos docentes em 35 países.

            Fala-se muito em "apagão de professores". As licenciaturas encolhem; disciplinas inteiras ficam sem reposição. E o que ouvimos da chamada boa sociedade? "Quem não está contente, que saia." Pois bem: se todos os descontentes saírem, nossos filhos e netos não terão um único professor.

            Nós, mestres, amamos ensinar. O que odiamos é ser vilanizados, humilhados e reduzidos a bodes expiatórios. Odiamos salas superlotadas, montanhas de relatórios, falta de hora-atividade, metas impossíveis, assédio moral, salários defasados e a negação de direitos. E, pior: governantes que tratam educação como despesa, famílias que nos colocam como únicos culpados pelos fracassos dos filhos e uma sociedade que aplaude quando nos atacam.

            Já li dezenas de textos sobre nossa importância. Mas palavras não enchem estômago nem curam burnout, a doença que atinge mais de 70% dos professores. Somos cobrados como se fôssemos a Suécia, mas tratados como se estivéssemos no Haiti. E, ainda assim, pedem resultados de primeiro mundo.

            Na última semana, fui a Guarapuava assistir ao humorista Diogo Almeida, especialista em fazer humor das tragédias da educação. Plateia lotada, maioria de professores na meia-idade, o perfil atual da classe que envelhece e está às portas da aposentadoria, agravando o apagão. Ri muito. Precisava.

            Ri da própria tragédia, porque a luta cansa e a alienação alivia. Mas, enquanto ria, percebi: minha gargalhada era o eco de uma classe que não tem mais voz. Estamos medicados, sobrevivendo e fazendo piada, não porque somos fortes, mas porque o desespero, sem saída, vira espetáculo. O problema é que, no Brasil, até a tragédia vira produto. E o professor, de protagonista, virou plateia.

sábado, 4 de julho de 2026

A Bandeira, a Amarelinha e a Alma Brasileira

 

         Há alguns anos, discorri neste espaço sobre a necessidade de se recuperar a bandeira nacional, que havia sido apropriada pela extrema direita. Na ocasião, lamentei constatar seu uso como símbolo de uma parcela da população que segue os ideais de lideranças do mesmo espectro político de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Não é necessário repetir aqui a tragédia econômica e humanitária a que o mundo se submeteu por fingir não ver o monstro que se agigantava.

            Na época, em minhas caminhadas pela cidade, observei com grande tristeza residências muito humildes ostentando a bandeira nacional,  o mesmo símbolo que muitos associavam abertamente a um grupo político cujo protagonismo é de uma família que, na minha avaliação, muito mal fez ao país e ainda faz. Que os ricos defendam seus injustos privilégios, eu posso entender, embora não concorde. Mas dá muita pena ver o que a "falta de luz", leia-se, a ausência de informação e consciência crítica, faz às almas menos afortunadas de nossa sociedade.

            Felizmente, a Copa do Mundo de Futebol trouxe uma reviravolta inesperada. A parcela progressista da sociedade ousou, novamente, vestir a camisa da seleção. Alguns, temendo ser confundidos com o grupo político da extrema direita, optaram pela camiseta azul. Outros, mais corajosos, resgataram a amarela.

            Em solo pátrio, já não é mais possível afirmar a ideologia de quem usa a "amarelinha". O uso da camisa passou a ser compartilhado por pessoas de ambos os lados do espectro político. Também não se pode mais deduzir a posição dos moradores pela bandeira na janela,  afinal, o Brasil, mesmo polarizado, vive a febre da Copa. Como diz a canção (devidamente atualizada): "somos 215 milhões em ação / para frente Brasil / salve a seleção".

            Ainda que essa ressignificação seja um avanço, não posso esquecer que, até ontem, a mesma camisa era ostentada por aqueles que defendem o oposto do que acredito. O símbolo mudou de mãos, mas a memória não se apaga tão rápido. E é justamente essa tensão entre o passado recente e o presente de união, que torna o fenômeno tão fascinante.

            Impossível não lembrar, aqui, do Santos Futebol Clube da era Pelé. Em 1969, no auge da Guerra de Biafra, na Nigéria, a equipe santista conseguiu algo que diplomatas não haviam alcançado: um cessar-fogo entre as partes conflitantes para que a população pudesse assistir ao futebol arte do time liderado pelo gênio. O futebol, ali, provou ser mais que entretenimento, foi trégua humanitária.

            Esse humilde escriba confessa que jogou a toalha no fatídico 7 a 1 da Alemanha, em 2014. Mas voltou a assistir à seleção desde o primeiro jogo desta Copa. Retomou, inclusive, o hábito de torcer para as seleções dos países colonizados, especialmente da América Latina e da África, em seus confrontos contra as potências colonizadoras europeias. Com enorme arroubo de alegria, comemorei os feitos de Cabo Verde e, especialmente, do Paraguai. Não sei como agirei em confrontos entre nossos hermanos latino-americanos e nossos irmãos africanos; penso que terei de deixar o coração decidir.

            Encerro dizendo que, no "País do Futebol", tal como o Santos de Pelé, a seleção e a Copa do Mundo recolocaram as cores nacionais em seu devido lugar: no coração e nas mentes de todos os brasileiros. A Copa mostrou que é possível partilhar um símbolo, mas isso não apaga as desigualdades estruturais. O futebol é trégua, não paz definitiva.

            O país continuará polarizado, e isso é natural, pois é a luta de classes movendo a história nacional. Lamento apenas que muitos de nossos irmãos trabalhadores, confusamente, tenham se postado em trincheiras que, do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora, considero equivocadas. Mas a amarelinha, agora, não é mais somente deles, é nossa. E isso, por si só, já é uma pequena vitória.

sábado, 27 de junho de 2026

O Programa Agrinho e o lobby do agronegócio: um tentáculo na educação?

 

            Há alguns dias, alguns professores sentiram estranhamento quando um pai afirmou que não queria que seu filho participasse das atividades do Programa Agrinho na escola, pois a ele se opõe. O referido programa é da iniciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e das federações da agricultura estaduais em diversas regiões do Brasil. Tem por objetivo conectar as escolas ao agronegócio e ao meio ambiente, trabalhando com materiais didáticos exclusivos e em consonância com os temas transversais do currículo básico da educação básica. Os estudantes e professores desenvolvem atividades nas categorias de desenho e redação, experiências pedagógicas inovadoras e tecnologia.

            A este escriba, não houve estranheza, pois, apesar das supostas boas intenções do programa, jamais dele quis participar. Explico: em nosso ver e supostamente também ao pai, o Programa Agrinho é apenas mais um tentáculo do maior lobby nacional (o lobby do agronegócio), que remonta ao período colonial. Já abordamos em outras oportunidades que esse setor sempre contou com expressivas bancadas parlamentares e, dessa forma, sempre elaborou e aprovou leis em interesse próprio, tais como a Lei de Terras de 1850, para impedir que a terra fosse adquirida senão por moeda corrente. O objetivo era evitar que, ao findar a escravidão, os negros libertos e também os imigrantes que para o país vinham fossem proprietários de terras, pois, se assim fosse, quem trabalharia para os coronéis parlamentares e os latifundiários por eles representados?

            A sempre expressiva bancada do agronegócio (também conhecida como Bancada do Boi) une-se à Bancada da Bala e à Bancada da Bíblia e impõem ao país pautas reacionárias (independentemente do governo de plantão) e "pautas bombas" para o governo ao qual se opõem. Dentre elas está o perdão de dívidas de empresas ligadas ao setor, como a recentemente aprovada, que se utilizará de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Tais recursos, que tinham por destino a ampliação dos investimentos em saúde (fortalecimento do SUS), educação, meio ambiente, prevenção/atendimento de calamidades públicas, habitação e infraestrutura social, poderão agora ser usados para pagar dívidas de empresas do agronegócio (uma espécie de "securitização" do setor) em que quem paga o boleto é o contribuinte, que terá menos investimentos governamentais no que realmente importa: os serviços públicos.

            A Bancada do Agronegócio conta com 342 parlamentares (292 deputados federais e 50 senadores) de um total de 594 (513 deputados federais e 81 senadores). Somada à Bancada da Segurança Pública (Bancada da Bala) e à expressiva Bancada Evangélica (Bancada da Bíblia), fecham questão juntas e podem aprovar tudo aquilo que a pressão das ruas, via forte mobilização, não impeça. Tais bancadas conservadoras impediram, ao longo da história nacional, reformas de cunho social e de grande importância para a economia, como a reforma agrária, que é realizada a conta-gotas, muito aquém da necessidade de uma das maiores concentrações de terra entre as nações: 1% dos proprietários controla 47,5% das terras agrícolas brasileiras, sendo que 0,3% dos imóveis rurais (15.686 propriedades maiores) detêm 25% de toda a terra agrícola do país. É também para essa gente que, a partir de agora, se destinam os recursos do Pré-Sal.

      Isso sem falar na Lei Kandir, que isenta as exportações do agronegócio e causa fortes prejuízos arrecadatórios para os estados produtores. Dessa forma, o Governo Federal é obrigado a fazer repasses bilionários como compensação para Estados e Municípios, com recursos oriundos da tributação de pessoas físicas e jurídicas, a maioria sem ligação com o setor. Sabemos que tal lei beneficia as exportações, gera empregos, traz divisas e equilíbrio à balança comercial, mas tem alto custo para a economia nacional e, no exterior, é criticada como uma vantagem indevida concedida ao exportador brasileiro (incluindo o agronegócio).

        Segundo o estudo "Subsídios Tributários e Financeiros ao Agronegócio no Brasil" (IPEA, 2021), as renúncias fiscais e subsídios ao setor somam cerca de R$ 100 bilhões por ano (valor que supera o orçamento anual do Ministério da Saúde). Esse montante, somado ao perdão recente de dívidas via Fundo Social do Pré-Sal, evidencia um padrão histórico de transferência de recursos públicos para o setor, em detrimento de áreas como educação, saúde e habitação. Lembro que os valores arrecadados com o Imposto Territorial Rural (ITR) de todas as propriedades rurais equivalem ao valor arrecadado pelo Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) da cidade de São Paulo, isso porque a arrecadação do ITR corresponde a apenas 0,3% da arrecadação da Receita Federal, devido à não correspondência histórica do valor real de mercado das propriedades, sendo seu fim extra-fiscal o de desestimular a improdutividade.

           Durante a ditadura militar (1964-1985), subsídios, créditos subsidiados e renegociação de prazos com juros negativos de dívidas do agronegócio era a política para o setor que historicamente conta com financiamentos a juros subsidiados para aquisição de máquinas e veículos, inclusive com isenção parcial ou total de impostos.

         Reconheço que o agronegócio é vital para a balança comercial brasileira e gera milhões de empregos diretos e indiretos. No entanto, o problema não está na existência do setor, mas no desequilíbrio de poder que ele exerce sobre o Estado, transformando privilégios em política de Estado, em detrimento do interesse público.

        Voltando à questão do Programa Agrinho: mesmo que bem-intencionado, carece de maior transparência sobre seu material didático e seus objetivos pedagógicos. Relatos de professores indicam que os cadernos de atividades tendem a exaltar o agronegócio como sinônimo de progresso, sem problematizar a concentração de terras, os impactos ambientais ou as relações de trabalho no campo. Além disso, a bancada ruralista já se posicionou a favor do Movimento Escola Sem Partido (MESP) e afirmou desejar influir na escolha do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), questionando como determinados conteúdos, especialmente aqueles relacionados ao agronegócio são tratados em sala de aula. Isso revela que o programa não é apenas um projeto pedagógico isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla de ocupação do imaginário social desde a infância e adolescência.

            Lembro ainda que, durante a Ditadura Militar, foi promulgada a chamada Lei do Boi (Lei nº 5.465/1968), que estabelecia que 50% das vagas nos cursos federais de Agronomia e Veterinária seriam destinadas a agricultores ou seus filhos. Tal lei favoreceu os filhos dos grandes proprietários, uma vez que, naquele momento, a universalização da educação básica era algo inalcançado e os filhos dos pequenos proprietários, quando podiam estudar, era em precárias escolas multisseriadas, a universidade era algo distante.

            Encerro afirmando que sou filho de pequenos agricultores, vivi parte da vida no campo, defendo a reforma agrária, a limitação do tamanho das propriedades rurais, o ITR progressivo quanto à produtividade e extensão das propriedades e, principalmente, a agricultura familiar, que produz 70% da alimentação que chega à mesa da população da cidade. Não defendo o poderoso lobby do agronegócio, cujo apetite por privilégios parece não ter fim.

            Sugiro, então, que pais, professores e comunidades escolares exijam transparência sobre o material do Programa Agrinho, que as escolas abram debate democrático sobre sua adesão e que o Ministério da Educação submeta tais programas à avaliação de especialistas em pedagogia, sociologia e meio ambiente. Só assim a educação básica cumprirá seu papel de formar cidadãos críticos  e não de servir como vitrine de interesses econômicos.

sábado, 20 de junho de 2026

O ouro e a lama: a hipocrisia da FIFA na Copa de 2026

 

          Os grandes eventos esportivos como Olimpíadas e Copas do Mundo são vendidos à opinião pública como vitrines da confraternização universal, palcos onde povos de todas as cores e credos se abraçam em torno do esporte. Mas essa narrativa ingênua desaba quando observamos os bastidores. Por trás do espetáculo televisivo para bilhões, há uma teia de interesses econômicos, projeção geopolítica das nações anfitriãs e afirmação pessoal de seus governantes. Sediar uma Copa sempre foi um ato de empoderamento nacional, mas também um teste de submissão às regras não escritas do poder global.

            O que deveria ser festa, porém, frequentemente se torna arena de contradições morais. A Copa de 2026, sediada por Estados Unidos, México e Canadá (bloco USMCA), expõe essas fraturas de maneira escandalosa. Os EUA, sob Donald Trump, retomaram bombardeios ao Irã e endureceram o embargo a Cuba, dessa forma, a Copa já começou manchada. A FIFA, em vez de zelar pelos valores que diz defender, curvou-se. Gianni Infantino concedeu a Trump o "Prêmio da Paz da FIFA – o futebol une o mundo". A ironia beira o absurdo: o mesmo prêmio, dado a um presidente beligerante, ecoa a controvérsia do Nobel da Paz de 2025 à venezuelana María Corina Machado, honraria que já foi de Nelson Mandela e agora serve a propósitos bem menos nobres. María Corina, aliás, entregou seu prêmio a Trump em gesto de subserviência, revelando o alinhamento geopolítico por trás das cortinas institucionais.

            O caso mais emblemático da seletividade moral da FIFA envolve Rússia e Israel. A Rússia foi expulsa das Copas de 2022 e 2026 e das Olimpíadas de Paris-2024 por invadir a Ucrânia, decisão baseada na violação da trégua olímpica e em sanções da WADA. Até aí, foi coerente. O problema é que Israel, sistematicamente acusado de desrespeito aos direitos humanos e de genocídio contra os palestinos, continuou participando das Olimpíadas e das eliminatórias e só não está na Copa de 2026 porque não se classificou em campo. Não houve sanção, veto ou constrangimento. A diferença de tratamento é tão gritante que só pode ser chamada de dois pesos e duas medidas. A FIFA, que se pretende guardiã da imparcialidade, revela-se refém das alianças geopolíticas de seus patrocinadores.

            Se a Rússia foi excluída e Israel poupado, os EUA estão sendo tratados com leniência que contrasta com o rigor imposto a outros anfitriões. Quando o Brasil sediou a Copa de 2014, a FIFA exigiu leis específicas como a que criminalizava a venda ambulante de ingressos e liberava a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. O mesmo ocorreu com a Rússia em 2018. Agora, com os EUA, a entidade perdeu a voz. Infantino, pressionado a explicar as humilhações a jogadores e torcedores, disse que "todos deveriam esfriar a cabeça e relaxar". Quando questionado se estava envergonhado por ter perdido as rédeas da Copa, respondeu que a FIFA "não tem poder para ditar regras a governos soberanos". Curiosa mudança: a mesma FIFA que exigia leis sob medida para o Brasil agora se refugia na soberania nacional.

            Os exemplos de desrespeito não param. A seleção do Irã, mesmo tendo seus jogos nos EUA, foi impedida de se hospedar em solo americano, forçada a desgastantes deslocamentos do México. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor da África, teve o visto negado sem explicação. Torcedores asiáticos e africanos relataram abordagens agressivas e racistas em aeroportos e estádios, um racismo estrutural que as câmeras não mostram, mas que as delegações vivem na pele. A FIFA, que sempre se vendeu como defensora da diversidade, calou-se.

            Lembra do Rei Midas? Transformava em ouro tudo o que tocava, mas seu dom virou maldição. Trump, com seu poder econômico e militar, transformou a Copa de 2026 em sucesso financeiro bilionário. Mas esse ouro tem preço: a dignidade de atletas, a segurança de torcedores, a credibilidade das instituições e o espírito do esporte. A FIFA, ao premiar Trump e afrouxar critérios éticos para agradar ao anfitrião, pratica o que se chama, sem exagero, de viralatismo institucional, ou seja, a submissão voluntária ao mais forte em troca de lucro e visibilidade.

            Ao final, a Copa de 2026 será lembrada não apenas pelos gols e pelas festas nas arquibancadas, mas também pela recepção hostil a quem veio de longe, pela hipocrisia geopolítica que trata iranianos, russos e palestinos de forma desigual, e pela imagem de um presidente da FIFA entregando um prêmio de paz a um líder sempre em clima de guerra. O futebol, como diz Infantino, pode até unir o mundo,  mas, sob sua gestão, parece unir apenas os interesses de sempre, deixando de lado o fair-play que deveria ser sua alma. Que fique registrado para a posteridade: o espetáculo foi lindo, mas os bastidores federam.

sábado, 13 de junho de 2026

O mito da pureza ideológica e o declínio do Império Americano

 

        Me diga um país em que o socialismo puro deu certo, não essa mistura da China disparou meu interlocutor. Eu olhei para ele, um pequeno empresário, pessoa simples, de boa fé, e respondi na mesma hora: Me diga um país em que o capitalismo, em seu estado puro, sem Estado de Bem-Estar Social, deu certo.

          Ele ficou em silêncio. Não disse mais nada. E eu naquele instante, esperava que ele citasse os Estados Unidos. É o que todo mundo faz: citam os Estados Unidos como aquela terra dos sonhos, o grande exemplo do capitalismo que deu certo. Mas, ele preferiu se calar.

         Lembro de ter lido, há tempos, algo que concordo: que quanto menor o desenvolvimento cognitivo da pessoa, maior a tendência dela a idealizar os Estados Unidos como um paraíso. Não tenho a fonte à mão, mas a experiência cotidiana parece confirmar.

          A verdade, porém, é que a realidade desmonta essa ilusão. E desmonta com força. Vamos aos fatos: a taxa de pobreza nos Estados Unidos fica entre 10,6% e 14,8% da população. Dependendo da métrica, isso dá cerca de 36 milhões de pessoas vivendo na pobreza. Trinta e seis milhões. E a desigualdade social? Não para de crescer desde o governo Reagan, lá no início dos anos 80. Foi ali que o neoliberalismo entrou com tudo avançando sobre direitos trabalhistas, desmontando o pouco que restava do Estado de Bem-Estar Social.

         Uma em cada sete pessoas, nos EUA, passa fome ou vive em insegurança alimentar. 770 mil pessoas estão nas ruas ou em moradias improvisadas: carros velhos, barracas de camping, trailers. As famílias mais pobres gastam metade de toda a renda só para ter um teto. E uma em cada oito crianças vive abaixo da linha da miséria.

            Isso é sucesso? Isso é exemplo para o mundo?

            A desigualdade americana é uma das maiores entre os países ricos. O 1% mais rico detém de 30 a 35% de toda a riqueza nacional. Os 10% mais ricos ficam com algo entre 60 e 68%. Enquanto isso, a metade mais pobre da população (50% dos americanos) sobrevive com apenas 2 a 3% da riqueza acumulada pelo país.

            Pense nisso. A maior potência econômica do planeta. E os pobres de lá dividem migalhas.

            Os Estados Unidos nem sequer têm um sistema público e gratuito de saúde universal. Doente lá é negócio, literalmente. A expectativa de vida dos americanos é parecida com a de países emergentes. E a universidade? Mesmo quando é pública, é paga. A gratuidade só aparece em raras bolsas de estudo, geralmente para atletas.

            E sabe o que sustenta tudo isso? Uma mentalidade. Uma crença.

            Os Estados Unidos foram construídos sob os ideais do liberalismo econômico puro. A doutrina que sustenta o capitalismo americano é a da meritocracia: cada um que se vire. O Estado deve ser mínimo. E qualquer ajuda governamental ao pobre é tratada como imoral, sendo atacada por lideranças partidárias e por boa parte da classe média e alta.

           Curiosamente, essa mesma população não reclama dos gastos estratosféricos com o setor militar. Pelo contrário: aceita de bom grado. Bases militares no mundo inteiro. Guerras e intervenções em países ricos em recursos naturais. Tudo para manter o status quo estadunidense e para que os ricos continuem sendo os maiores beneficiados na partilha do botim de guerra.

            Reconheço: também é difícil encontrar um país onde o "socialismo puro" deu certo. Mas será que pureza ideológica de qualquer lado é mesmo o que devemos buscar? Talvez o problema esteja justamente aí: na obsessão por pureza, em vez de soluções concretas para gente de carne e osso. Na China, conta-se que Deng Xiaoping (1904-1997) ante seus inquisidores preocupados com reformas que acreditavam ser de caráter capitalista afirmava, não importa se o gato é preto ou branco, importa que ele cace o rato.

         Como leitor da obra de Marx, a minha modesta interpretação é a de que não há nada mais contrário ao espírito do velho Marx, do que sua obra ser tratada como dogma, portanto, inflexível. Sua escrita tem que ser interpretada e adaptada à luz dos novos tempos, sem no entanto, perder sua essência.

        Para muitos estudiosos, a liderança americana tenta, com todas as forças, evitar o inevitável: a queda do Império Americano. Como aconteceu com todos os impérios que vieram antes. Usam o braço militar, espalham caos e insegurança, mas o tempo corre contra eles.

       Lembro sempre de uma frase do pensador marxista italiano Antonio Gramsci, (1891-1937): "O Velho Mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse escuro-claro, irrompem os monstros."

         É exatamente o que estamos vivendo. A ordem global unipolar, empunhada pelos Estados Unidos, já quase não se sustenta. O novo mundo multipolar demora a nascer. E nesse meio do caminho surgem figuras grotescas e atrasadas para tentar  impedir o porvir.

            Mas a história ensina que mesmo a noite mais longa, uma hora, finda.

 

sábado, 6 de junho de 2026

Sub Terra: quadros mineiros


     

Baldomero Lillo (1867-1923) foi um escritor naturalista chileno. Seu pai participou da corrida do ouro na Califórnia (EUA), onde aprendeu o ofício da mineração, mas voltou sem fazer fortuna. Mudou-se então para Lota, na região de Concepción (Chile), para trabalhar nas minas de carvão. Em Lota, Baldomero Lillo nasceu, cresceu e trabalhou nas minas.

            As minas de Lota possuíam o carvão com o maior poder calorífico e metalúrgico do país, ainda que tecnicamente impuro. Os túneis de Lota foram as primeiras e únicas minas submarinas do mundo, avançando centenas de metros sob o Oceano Pacífico. Apesar dos inúmeros acidentes e perdas de vidas de mineiros, as minas da região foram mantidas em funcionamento enquanto a exploração do carvão se manteve viável economicamente, e somente foram fechadas por decisão do governo chileno em 1997.

            Lillo, inspirado explicitamente no naturalismo de Émile Zola (1840-1902), não se limita a documentar os acidentes e os baixos salários. Em contos como "A comporta número 12", ele cria cenas de alto impacto dramático (um mineiro isolado em uma galeria inundada, sem chance de escapar) para mostrar como o determinismo do meio ambiente e das relações de produção aniquila qualquer possibilidade de escolha individual. No entanto, o leitor contemporâneo pode sentir que as personagens de Lillo por vezes funcionam mais como símbolos da opressão do que como indivíduos psicologicamente complexos, o que é uma limitação típica de certo naturalismo panfletário.

            Lillo escreveu a obra "Sub Terra: quadros mineiros", que conta com treze contos retratando a difícil realidade cotidiana dos mineiros que, devido à falta de alternativas de emprego, se sujeitam ao árduo e perigoso trabalho nas minas, expostos a desabamentos e explosões causados pelo grizu (vazamento de gás metano altamente explosivo em minas de carvão). Os gerentes das minas, além de pagarem pouco pelo carvão retirado pelos mineiros, descontavam valores excessivos sobre supostas impurezas e obrigavam os trabalhadores a comprar mantimentos unicamente do armazém da empresa, cujos preços eram superfaturados. Dessa forma, muitas vezes, ao final do mês, não havia salário a receber, mas uma dívida a ser paga no mês seguinte.

            As revoltas dos trabalhadores (por melhor remuneração ou mais segurança) eram contidas pelos seguranças armados da empresa. Quem ousasse comprar produtos fora do armazém da vila da empresa perdia o trabalho e a casa em que morava, pois esta também era de propriedade da companhia. Muitas eram as famílias que perderam entes em desabamentos ou explosões; mesmo assim, a necessidade imperiosa levava mães a colocar seus filhos para trabalhar no mesmo local que fora o túmulo de seus maridos.

            A prosa seca e precisa de Lillo prende a atenção durante a leitura, sempre acompanhada da sensação de angústia, tristeza e mesmo indignação diante da humilhante situação dos trabalhadores. Ler esta obra magistralmente escrita possibilita entender o preço pago por indivíduos desconhecidos que, sem outra opção de sobrevivência, assumiram um trabalho vital para todo o progresso advindo do surgimento da sociedade industrial. A leitura do livro também nos permite compreender que, apesar de todo progresso científico e tecnológico, ainda há trabalhos perigosos para a saúde e a vida humana e sempre haverá quem se submeta a eles para não faltar, à sua mesa e a de seus dependentes, o pão de cada dia. 

Sugestão de boa leitura:

Título: Sub Terra: quadros mineiros

Autor: Baldomero Lillo

Editora: Expressão Popular, 2025, 209 p.

 

sábado, 30 de maio de 2026

Sobre palácios, choupanas e o óbvio que precisa ser dito

 

            Há alguns dias, li uma frase de Karl Marx (1818-1883), na qual ele retoma Ludwig Feuerbach (1804-1872) que tinha o seguinte enunciado: "Os que vivem em um palácio não pensam nas mesmas coisas nem da mesma maneira que aqueles que vivem em uma choupana". A frase por si é auto-explicativa, mas vivemos uma época em que o óbvio precisa ser dito, pois há pessoas que vivem em redomas isoladas hermeticamente do mundo exterior, no caso, o mundo das pessoas comuns, as que labutam diariamente pela mera sobrevivência, incapazes de sonhar dias melhores.

            Iniciam a segunda-feira esperando pela noite para o merecido descanso, no qual exaustos, pouco convivem com a família e vão dormir. Trabalham a semana de seis dias esperando pelo domingo, para o merecido descanso, no qual colocam seus afazeres domésticos em dia. Trabalham o mês esperando pelo fim para receber o seu minguado salário e pagar as contas de sua mera subsistência. Na labuta diária pelo pão, passa-se o ano, as décadas e se gasta uma vida inteira. Pouco tempo sobra para aposentadoria, na qual muitas vezes é preciso continuar trabalhando, pois o patrão o registrou com salário mínimo (para pagar menos impostos) e com ele a sobrevivência é quase impossível.

            Uma parcela significativa dos moradores de palácios dizem que aos trabalhadores falta planejamento financeiro, afinal, eles gastam 1/3 de seus rendimentos com a sobrevivência, 1/3 para o lazer (viagens de férias, etc.) e  1/3 para a independência financeira (aposentadoria), então, segundo eles, o salário, mesmo o mínimo, não é pouco, falta planejamento (educação financeira). Dizem que basta aplicar a mesma fórmula e qualquer um pode viver bem com o pouco que ganha. Sabemos que o papel aceita qualquer teoria, mesmo a mais esdrúxula e, que também os discursos podem ser belíssimos, com uma boa dose de hipocrisia ou de alienação da realidade social.

            Assisti uma fala em que o apresentador de TV Luciano Huck criticava a concessão de Bolsa-Família, citando uma cidade com grande parte da população dela dependente. Dizia que se oferecia o auxílio, mas não se incentivava as pessoas a saírem dela. Essa é uma fala comum de muitos empresários, que vêm no auxílio, um obstáculo para a contratação de mão-de-obra, no caso, barata, a custo da mera sobrevivência. Penso que boa parte dos moradores de palácio têm grande culpa, nessa sociedade que é uma das mais desiguais do mundo, segundo o Índice de Gini, afinal, desde a época imperial, a elite brasileira governou esse país para o fortalecimento e manutenção dos injustos privilégios dos moradores de palácios.

            O Congresso Nacional, em todos os tempos, teve sua ampla maioria de parlamentares formada por latifundiários e empresários. Diante disso, o Youtuber Thiago Foltran chamou de covardes quem critica a concessão de Bolsa-Família às pessoas que do referido benefício precisam. Concordo plenamente, principalmente quando sabemos que valores muito maiores são destinados aos capitalistas do campo e da cidade, na forma de isenção/redução de impostos e financiamentos subsidiados (abaixo da Selic) via BNDES e, perdão total ou parcial de dívidas arrancadas muitas vezes ao longo da história, por suas bancadas parlamentares, isto sem falar na sonegação fiscal.

            Penso que se o empresário não consegue atrair trabalhadores devido ao Bolsa-Família é porque quer escravos, não funcionários. Segundo o DIEESE, o salário mínimo para cumprir o artigo constitucional que dele trata deveria ser R$ 7.612,49. O grande problema nacional é desigualdade social e, para combatê-la, três são as ferramentas: 1. Transferência direta de renda (Bolsa-Família); 2. Tributação progressiva sobre a renda e pouco sobre o consumo (ricos pagam mais e pobres pagam menos); 3. Serviços públicos gratuitos e políticas de valorização salarial (acima da inflação). É importante observar que tais ferramentas estão sendo implementadas conjuntamente pelo Governo Federal, porém seus resultados demandam tempo.

            A fala de Huck é descontextualizada, pois em 2025, mais de dois milhões de famílias deixaram  o programa Bolsa-Família (Fonte: Infomoney), por aumento de renda e melhora na empregabilidade, sendo que 24 mil famílias pediram o desligamento por conta própria. As famílias que recebem o auxílio estão em situação de pobreza extrema (renda per capita de até R$ 218,00 mensais). Auxílio de combate à pobreza extrema não é uma jabuticaba brasileira, pois existe mesmo em países desenvolvidos. O combate à pobreza e a desigualdade regional constituem preceitos estabelecidos na Constituição Federal e, como contribuinte, prefiro que o valor dos meus impostos auxiliem o morador de choupana na sua sobrevivência, pois os moradores de palácios, apesar de sua saciedade inalcançável, já têm a sua sobrevivência garantida.

sábado, 23 de maio de 2026

A polícia da memória

 

Yôko Ogawa (1962) é uma escritora japonesa que arrebatou todos os principais prêmios da literatura daquele país oriental, no entanto, a maior parte de sua vasta obra (50 livros) ainda não foi traduzida para outros idiomas. A obra "A polícia da memória" foi traduzida por Andrei Cunha (que oferece uma experiência de leitura prazerosa) diretamente do idioma original e publicada em língua portuguesa por iniciativa da Editora Estação Liberdade. A editora que leva o nome do tradicional bairro de colonização japonesa em São Paulo (SP) busca na fonte grandes obras do mundo todo, em especial do País do Sol Nascente.    

            Yôko Ogawa, após casar-se, abandonou seu emprego e se dedicou à escrita como hobby, sendo que seu marido tomou conhecimento da sua condição de escritora quando ela recebeu seu primeiro prêmio. A discrição da autora explica o tom contido e introspectivo de suas obras, tanto de ficção quanto de não ficção, nas quais explora aspectos psicológicos individuais e coletivos.

            A trama de "A polícia da memória" ocorre numa ilha cujo nome não é revelado, na qual pessoas abandonam categorias de objetos e coisas, algumas vezes por livre vontade, outras por imposição da polícia da memória. Dessa forma, livros são queimados, flores, chapéus são destruídos e toda a referência a estes objetos é apagada até o ponto em que as pessoas, não consigam mais lembrar o significado referencial entre as palavras e os respectivos objetos.

            As pessoas que não esquecem são levadas pela polícia da memória, algumas morrem supostamente por motivos naturais, outras simplesmente desaparecem. Dentre as pessoas que não esquecem, algumas buscam esconderijos, tentam fugir da ilha, o que é difícil, pois as balsas também não existem mais.

            A obra leva-nos à reflexão sobre profissões, objetos e pessoas que sumiram do nosso cotidiano/convívio ao longo do tempo e induz ao questionamento sobre o esquecimento como liberdade ou como prisão.

            "A polícia da memória" é uma distopia silenciosa e perturbadora, que dialoga com clássicos do gênero ao questionar o papel da memória na construção da identidade individual e coletiva. Recomendado para leitores que apreciam ficção especulativa de caráter filosófico e ritmo contemplativo, ainda que a obra exija paciência com sua narrativa elíptica e propositalmente ambígua.

Sugestão de boa leitura:

Título:  A polícia da memória.

Autor:  Yôko Ogawa.

Editora: Estação Liberdade, 2021, 320 p.

sábado, 9 de maio de 2026

Do garimpo ao clube, uma vida entre livros

 

        Lembro que, em meus tempos de juventude, o dinheiro era item escasso. Dessa forma, a biblioteca da escola e os livros da Coleção Vaga-Lume eram a minha salvação para a sede literária. Algum tempo passou e eu me socorria com a farta biblioteca da Unicentro, em Guarapuava. Com o passar dos anos, quando comecei a ganhar algum dinheiro, passei a comprar livros do saudoso Renato César Klein, às vezes sob encomenda, por ocasião de suas viagens à capital do Estado. Renato era proprietário da Livraria e Papelaria Lorena e um grande incentivador da leitura em nossa cidade.

        Nesse tempo, também adquiria livros por meio de catálogos da Editora Record, que depois eram enviados para casa pelos Correios. No entanto, grande foi minha satisfação quando assinei o Círculo do Livro da Editora Globo, que contava com grande variedade de títulos e excelente qualidade editorial (todas as obras com capa dura). Havia o Livro do Mês, uma obra selecionada pela curadoria da editora, a qual o assinante recebia pelos Correios caso não solicitasse outro título no prazo devido. A alegria durou pouco: o Círculo do Livro encerrou suas atividades (pouco tempo depois que nele ingressei) em meados dos anos 1990.

      Naquele período entre esses fatos e a popularização da internet, dada a pouca variedade de títulos em nossa pequena cidade, eu aproveitava as viagens para cursos a fim de adquirir livros de vendedores presentes nos eventos ou ainda para visitar as livrarias de Curitiba. Nessas oportunidades, passava horas, geralmente à noite, "garimpando" livros na majestosa Livraria Cultura do Shopping Curitiba. Lamentei muito o fechamento da loja, sentindo-me órfão daquele templo dos livros.

      A internet e o e-commerce facilitaram a vida dos bibliófilos. Hoje, mesmo na cidade mais interiorana do país, o leitor pode adquirir qualquer livro em catálogo e recebê-lo em casa. No entanto, nada supera o prazer de "garimpar" livros em uma livraria física, ainda que os preços no e-commerce sejam, via de regra, mais atrativos. Mas não é só de saudade que se faz um bibliófilo. Continuo buscando novas fontes de leitura, e foi assim que descobri um clube diferente de todos os que conheci antes.

    Há alguns anos, um companheiro do sindicato dos professores (APP-Sindicato) me entregou um folheto sobre o recém-criado Clube do Livro da Editora Expressão Popular. Essa editora é uma iniciativa de vários movimentos sociais, dentre os quais o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A editora foi criada para publicar obras de ficção e não ficção a preços módicos, visando à formação militante de seus quadros e do público em geral. Esse objetivo só foi alcançado graças a parcerias generosas com editoras e autores que disponibilizam suas obras para capacitar pessoas interessadas na batalha das ideias por uma sociedade com justiça social.

       Hoje, em nosso país, há vários clubes do livro com diferentes ênfases (literatura clássica, política, filosofia, etc.). O leitor pode escolher aquele com o perfil e os preços que julgar convenientes. Eu, tendo em conta meus interesses no preenchimento de lacunas de minha formação acadêmica e atuação sindical, indico o Clube do Livro da Expressão Popular (do qual sou assinante) pela formação militante de suas obras e preços módicos. A formação acadêmica, como sabemos, em qualquer área ou curso, é sempre superficial e generalista. A excelência é inatingível, mas a busca de um conhecimento minimamente razoável se faz com uma dedicação incessante ao longo da vida. E para essa busca, os livros (e um clube que os coloque a serviço da justiça social) são ferramentas imprescindíveis.

sábado, 2 de maio de 2026

Lincoln, um líder forjado no fogo (versão reeditada e sintetizada)





        Sobre Abraham Lincoln, já li muito a respeito, sobretudo lições motivacionais. Para me aprofundar, comprei um livro que só consegui ler dois anos depois. Percebi lacunas históricas que precisei preencher com pesquisas na internet. A obra pecou ao não incluir mapas das batalhas da Guerra da Secessão. Descobri que a versão brasileira foi sintetizada; a original americana é mais detalhada. O livro deu origem a um filme homônimo que ainda não assisti, mas ouvi bons comentários. A edição brasileira foca na candidatura de 1860, sua presidência (1861-1865), a Guerra Civil, a reeleição em 1864 e sua morte em 1865.

      Lincoln nasceu em 1809, no Kentucky, dentro de uma cabana rústica. Teve infância pobre. O pai perdeu as terras por problemas de documento. O avô foi morto por indígenas. A mãe faleceu quando ele tinha nove anos. Na juventude, foi condutor de barcaças e lenhador. Era muito magro e alto: 1,93m.

        Adorava contar causos, evitava brigas, mas quando se envolvia, saía vitorioso. Não teve nem dois anos de ensino formal, mas era autodidata, sempre com livros por perto. Tentou ingressar na faculdade de Direito e não passou. Estudou por conta própria, fez um exame nacional e conseguiu a licença para advogar. Cobrava pouco, pois todos precisavam sobreviver. Atuou nas áreas Penal e Cível. Era temido nos tribunais por sua habilidade em apontar contradições. Como empresário, fracassou. Também perdeu quase todas as eleições que disputou. Sofreu a morte prematura de dois de seus quatro filhos. Em 1860, tinha o pior currículo entre os pré-candidatos, mas conseguiu a indicação e venceu. Surpreendeu ao convidar os adversários derrotados para seu gabinete. Ignorou os alertas de que eles o ofuscariam. Delegava, mas dava a palavra final. A imprensa o atacava com força.

     A Guerra Civil estourou quando os estados do Sul, temendo o abolicionista Lincoln, ameaçaram se separar para manter a escravidão. Lincoln não ofereceu a guerra, mas não recuou dela. Após quatro anos e 600 mil mortos, derrotou o Sul, manteve a União, aboliu a escravidão e modernizou a economia. Ao defender o voto para negros, irritou radicais sulistas. Sofreu um atentado contra sua vida, seu secretário de Estado e seu vice. Lincoln foi o único morto, assassinado por um ator, enquanto assistia a uma peça de teatro. É considerado um dos maiores líderes dos EUA. Fica a dica.

Sugestão de boa leitura:

Título: Lincoln.

Autor: Doris Kearns Goodwin.

Editora: Record, 2013, 322 p.

domingo, 19 de abril de 2026

Teoria Geral do Esquecimento

 


          José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (1960) agrônomo de formação, tornou-se jornalista, escritor e editor por vocação. Angolano de ascendência portuguesa e brasileira, Agualusa juntamente com Mia Couto (1955) são considerados dois expoentes da literatura africana em língua portuguesa.

                Teoria Geral do Esquecimento é o mais famoso livro de José Eduardo. O título induz o público leigo ao equívoco de acreditar que a obra tem conteúdo academicista, no entanto, trata-se de ficção do início ao fim.

                Na trama, o narrador (Osga) diz que teve acesso aos diários, poemas e reflexões de Ludovica Fernandes Mano (Ludo) e relata o cotidiano de Ludovica que viera de Portugal para residir em Angola, na casa de sua irmã Odete que se casara com Orlando, um angolano de ascendência portuguesa que exercia o ofício de administrador de uma mina de diamantes.

                Ludo, devido seu trauma de infância, tem fobia a lugares abertos (agorafobia) e demandou muitos cuidados na viagem para Angola. Pouco tempo depois que se estabelece em Angola, estoura o movimento independentista (1961-1974) e, com ele, o racismo e a violência se intensificam. Os colonizadores portugueses passam a temer ataques da população nativa. Muitos portugueses organizam festas de despedidas. Orlando e Odete vão a um jantar de despedidas e não mais retornam.

                Ludovica fechada no apartamento do casal desaparecido, cujo prédio se esvaziou, pois era de moradia exclusiva de portugueses, recebe uma ligação ameaçadora pedindo os diamantes em troca da vida do casal, afirma não saber dos mesmos. Ela vai ao escritório do cunhado, encontra uma pistola. Alguém tenta arrombar a porta do apartamento. Ludo atira, fere um dos rapazes, os demais fogem. O jovem ferido suplica e Ludo abre a porta, lhe dá água, mas o rapaz morre. Ela enterra o assaltante no terraço, onde havia árvores frutíferas.

                Ludo tinha muita comida enlatada, pois seus vizinhos aos irem embora lhe doaram toda a sua despensa (comida e bebida). É com esses alimentos que Ludovica vai sobreviver juntamente com o cãozinho branco de nome Fantasma. Havia muito tumulto e tiros nas ruas, e Ludo que teme o espaço aberto após encontrar cimento de uma obra iniciada por seu cunhado no terraço resolve concretar a porta de acesso ao apartamento.

                Ela, uma estrangeira, numa terra tumultuada, se isola do mundo por trinta anos e por ele é esquecida. Essa solidão denota uma violência talvez maior do que a que reina lá fora devido ao caos instalado. A sociedade esquece dela e ela esquece do mundo exterior. Os dias passam, ela fica com a companhia de Fantasma e de inúmeros livros da biblioteca de seu cunhado.  Ludo lê e registra o que sente/vive, por falta de papel passa a escrever na parede. Ela quebra a perna, momento em que aparece um menino que escala o prédio para procurar alguma coisa de valor, encontra Ludo e passa a ajudá-la fazendo a conexão com o mundo de fora que estava em mutação.

                O livro tem essa história principal e vários outros fragmentos de memória de fatos do cotidiano que parecem não amalgamar, como peças de um quebra-cabeças, onde já não é mais possível saber o que foi ou é real e o que é criação da mente. Ao ler a obra, tudo parece confuso, como é confusa a nossa memória de fatos vividos e que ficaram distantes no tempo, os quais, apesar de estarem interligados parecem ter perdido a cola que os unia. Essa aparente desconexão dos fatos no livro não é falha da escrita de Agualusa, mas a prova de sua genialidade, pois a memória não é um arquivo organizado, mas um labirinto de fragmentos.

                O esquecimento pode ser uma tragédia (Alzheimer) ou pode ser uma dádiva quando as pessoas esquecem o que as fez sofrer (o que não aconteceu com Ludovica). É triste ser esquecido por seus amigos ou alguém querido, porém é motivo de felicidade ser esquecido por quem nos trouxe dias ruins. José Eduardo Agualusa insere Ludovica e seu trauma tendo como pano de fundo a traumática luta pela independência de Angola, uma jovem nação que precisou e ainda precisa reconciliar-se com sua própria história violenta, na qual o esquecimento deixa de ser apenas um tema psicológico para tornar-se uma questão coletiva.

P.S. Não contei o desfecho do livro, porque uma resenha deve sempre deixar uma parte "esquecida" para  que o leitor a descubra! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título:  Teoria Geral do Esquecimento.

Autor:  José Eduardo Agualusa.

Editora: Foz, 2012, 176 p.