Me
diga um país em que o socialismo puro deu certo, não essa mistura da China
disparou meu interlocutor. Eu olhei para ele, um pequeno empresário, pessoa
simples, de boa fé, e respondi na mesma hora: Me diga um país em que o
capitalismo, em seu estado puro, sem Estado de Bem-Estar Social, deu certo.
Ele ficou em silêncio. Não disse
mais nada. E eu naquele instante, esperava que ele citasse os Estados
Unidos. É o que todo mundo faz: citam os Estados Unidos como aquela terra
dos sonhos, o grande exemplo do capitalismo que deu certo. Mas, ele
preferiu se calar.
Lembro de ter lido, há
tempos, algo que concordo: que quanto menor o desenvolvimento cognitivo da
pessoa, maior a tendência dela a idealizar os Estados Unidos como um
paraíso. Não tenho a fonte à mão, mas a experiência cotidiana parece
confirmar.
A verdade, porém, é que a realidade
desmonta essa ilusão. E desmonta com força. Vamos aos fatos: a taxa de pobreza
nos Estados Unidos fica entre 10,6% e 14,8% da população. Dependendo da
métrica, isso dá cerca de 36 milhões de pessoas vivendo na pobreza.
Trinta e seis milhões. E a desigualdade social? Não para de crescer desde o governo
Reagan, lá no início dos anos 80. Foi ali que o neoliberalismo entrou com tudo
avançando sobre direitos trabalhistas, desmontando o pouco que restava do
Estado de Bem-Estar Social.
Uma em cada sete pessoas, nos EUA,
passa fome ou vive em insegurança alimentar. 770 mil pessoas estão
nas ruas ou em moradias improvisadas: carros velhos, barracas de camping,
trailers. As famílias mais pobres gastam metade de toda a renda só para ter um
teto. E uma em cada oito crianças vive abaixo da linha da miséria.
Isso é sucesso? Isso é exemplo para
o mundo?
A desigualdade americana é uma das
maiores entre os países ricos. O 1% mais rico detém de 30 a 35% de toda a
riqueza nacional. Os 10% mais ricos ficam com algo entre 60 e 68%. Enquanto
isso, a metade mais pobre da população (50% dos americanos) sobrevive com
apenas 2 a 3% da riqueza acumulada pelo país.
Pense nisso. A maior potência
econômica do planeta. E os pobres de lá dividem migalhas.
Os Estados Unidos nem sequer têm um
sistema público e gratuito de saúde universal. Doente lá é negócio,
literalmente. A expectativa de vida dos americanos é parecida com a de países
emergentes. E a universidade? Mesmo quando é pública, é paga. A gratuidade só
aparece em raras bolsas de estudo, geralmente para atletas.
E sabe o que sustenta tudo isso? Uma
mentalidade. Uma crença.
Os Estados Unidos foram construídos
sob os ideais do liberalismo econômico puro. A doutrina que sustenta o
capitalismo americano é a da meritocracia: cada um que se vire. O Estado
deve ser mínimo. E qualquer ajuda governamental ao pobre é tratada como imoral,
sendo atacada por lideranças partidárias e por boa parte da classe média e alta.
Curiosamente, essa mesma população
não reclama dos gastos estratosféricos com o setor militar. Pelo contrário: aceita
de bom grado. Bases militares no mundo inteiro. Guerras e intervenções em
países ricos em recursos naturais. Tudo para manter o status
quo estadunidense e para que os ricos continuem sendo os maiores
beneficiados na partilha do botim de guerra.
Reconheço: também é difícil
encontrar um país onde o "socialismo puro" deu certo. Mas será
que pureza ideológica de qualquer lado é mesmo o que devemos buscar? Talvez o
problema esteja justamente aí: na obsessão por pureza, em vez de soluções
concretas para gente de carne e osso. Na China, conta-se que Deng Xiaoping
(1904-1997) ante seus inquisidores preocupados com reformas que acreditavam ser
de caráter capitalista afirmava, não importa se o gato é preto ou branco,
importa que ele cace o rato.
Como leitor da obra de Marx, a minha
modesta interpretação é a de que não há nada mais contrário ao espírito do
velho Marx, do que sua obra ser tratada como dogma, portanto, inflexível. Sua
escrita tem que ser interpretada e adaptada à luz dos novos tempos, sem no
entanto, perder sua essência.
Para muitos estudiosos, a liderança
americana tenta, com todas as forças, evitar o inevitável: a queda do Império
Americano. Como aconteceu com todos os impérios que vieram antes. Usam o braço
militar, espalham caos e insegurança, mas o tempo corre contra eles.
Lembro sempre de uma frase do pensador
marxista italiano Antonio Gramsci, (1891-1937): "O Velho Mundo
agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse escuro-claro, irrompem os
monstros."
É exatamente o que estamos vivendo.
A ordem global unipolar, empunhada pelos Estados Unidos, já quase não se
sustenta. O novo mundo multipolar demora a nascer. E nesse meio do caminho
surgem figuras grotescas e atrasadas para tentar impedir o porvir.
Mas a história ensina que mesmo a
noite mais longa, uma hora, finda.

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