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sábado, 13 de junho de 2026

O mito da pureza ideológica e o declínio do Império Americano

 

        Me diga um país em que o socialismo puro deu certo, não essa mistura da China disparou meu interlocutor. Eu olhei para ele, um pequeno empresário, pessoa simples, de boa fé, e respondi na mesma hora: Me diga um país em que o capitalismo, em seu estado puro, sem Estado de Bem-Estar Social, deu certo.

          Ele ficou em silêncio. Não disse mais nada. E eu naquele instante, esperava que ele citasse os Estados Unidos. É o que todo mundo faz: citam os Estados Unidos como aquela terra dos sonhos, o grande exemplo do capitalismo que deu certo. Mas, ele preferiu se calar.

         Lembro de ter lido, há tempos, algo que concordo: que quanto menor o desenvolvimento cognitivo da pessoa, maior a tendência dela a idealizar os Estados Unidos como um paraíso. Não tenho a fonte à mão, mas a experiência cotidiana parece confirmar.

          A verdade, porém, é que a realidade desmonta essa ilusão. E desmonta com força. Vamos aos fatos: a taxa de pobreza nos Estados Unidos fica entre 10,6% e 14,8% da população. Dependendo da métrica, isso dá cerca de 36 milhões de pessoas vivendo na pobreza. Trinta e seis milhões. E a desigualdade social? Não para de crescer desde o governo Reagan, lá no início dos anos 80. Foi ali que o neoliberalismo entrou com tudo avançando sobre direitos trabalhistas, desmontando o pouco que restava do Estado de Bem-Estar Social.

         Uma em cada sete pessoas, nos EUA, passa fome ou vive em insegurança alimentar. 770 mil pessoas estão nas ruas ou em moradias improvisadas: carros velhos, barracas de camping, trailers. As famílias mais pobres gastam metade de toda a renda só para ter um teto. E uma em cada oito crianças vive abaixo da linha da miséria.

            Isso é sucesso? Isso é exemplo para o mundo?

            A desigualdade americana é uma das maiores entre os países ricos. O 1% mais rico detém de 30 a 35% de toda a riqueza nacional. Os 10% mais ricos ficam com algo entre 60 e 68%. Enquanto isso, a metade mais pobre da população (50% dos americanos) sobrevive com apenas 2 a 3% da riqueza acumulada pelo país.

            Pense nisso. A maior potência econômica do planeta. E os pobres de lá dividem migalhas.

            Os Estados Unidos nem sequer têm um sistema público e gratuito de saúde universal. Doente lá é negócio, literalmente. A expectativa de vida dos americanos é parecida com a de países emergentes. E a universidade? Mesmo quando é pública, é paga. A gratuidade só aparece em raras bolsas de estudo, geralmente para atletas.

            E sabe o que sustenta tudo isso? Uma mentalidade. Uma crença.

            Os Estados Unidos foram construídos sob os ideais do liberalismo econômico puro. A doutrina que sustenta o capitalismo americano é a da meritocracia: cada um que se vire. O Estado deve ser mínimo. E qualquer ajuda governamental ao pobre é tratada como imoral, sendo atacada por lideranças partidárias e por boa parte da classe média e alta.

           Curiosamente, essa mesma população não reclama dos gastos estratosféricos com o setor militar. Pelo contrário: aceita de bom grado. Bases militares no mundo inteiro. Guerras e intervenções em países ricos em recursos naturais. Tudo para manter o status quo estadunidense e para que os ricos continuem sendo os maiores beneficiados na partilha do botim de guerra.

            Reconheço: também é difícil encontrar um país onde o "socialismo puro" deu certo. Mas será que pureza ideológica de qualquer lado é mesmo o que devemos buscar? Talvez o problema esteja justamente aí: na obsessão por pureza, em vez de soluções concretas para gente de carne e osso. Na China, conta-se que Deng Xiaoping (1904-1997) ante seus inquisidores preocupados com reformas que acreditavam ser de caráter capitalista afirmava, não importa se o gato é preto ou branco, importa que ele cace o rato.

         Como leitor da obra de Marx, a minha modesta interpretação é a de que não há nada mais contrário ao espírito do velho Marx, do que sua obra ser tratada como dogma, portanto, inflexível. Sua escrita tem que ser interpretada e adaptada à luz dos novos tempos, sem no entanto, perder sua essência.

        Para muitos estudiosos, a liderança americana tenta, com todas as forças, evitar o inevitável: a queda do Império Americano. Como aconteceu com todos os impérios que vieram antes. Usam o braço militar, espalham caos e insegurança, mas o tempo corre contra eles.

       Lembro sempre de uma frase do pensador marxista italiano Antonio Gramsci, (1891-1937): "O Velho Mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse escuro-claro, irrompem os monstros."

         É exatamente o que estamos vivendo. A ordem global unipolar, empunhada pelos Estados Unidos, já quase não se sustenta. O novo mundo multipolar demora a nascer. E nesse meio do caminho surgem figuras grotescas e atrasadas para tentar  impedir o porvir.

            Mas a história ensina que mesmo a noite mais longa, uma hora, finda.

 

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