Baldomero
Lillo
(1867-1923) foi um escritor naturalista chileno. Seu pai participou da
corrida do ouro na Califórnia (EUA), onde aprendeu o ofício da mineração, mas
voltou sem fazer fortuna. Mudou-se então para Lota, na região de Concepción
(Chile), para trabalhar nas minas de carvão. Em Lota, Baldomero Lillo nasceu,
cresceu e trabalhou nas minas.
As minas de Lota possuíam o carvão com o maior poder
calorífico e metalúrgico do país, ainda que tecnicamente impuro. Os túneis de
Lota foram as primeiras e únicas minas submarinas do mundo, avançando centenas
de metros sob o Oceano Pacífico. Apesar dos inúmeros acidentes e perdas de
vidas de mineiros, as minas da região foram mantidas em funcionamento enquanto
a exploração do carvão se manteve viável economicamente, e somente foram
fechadas por decisão do governo chileno em 1997.
Lillo, inspirado explicitamente no naturalismo de Émile
Zola (1840-1902), não se limita a documentar os acidentes e os baixos
salários. Em contos como "A comporta número 12", ele cria cenas de
alto impacto dramático (um mineiro isolado em uma galeria inundada, sem chance
de escapar) para mostrar como o determinismo do meio ambiente e das relações de
produção aniquila qualquer possibilidade de escolha individual. No entanto, o
leitor contemporâneo pode sentir que as personagens de Lillo por vezes
funcionam mais como símbolos da opressão do que como indivíduos
psicologicamente complexos, o que é uma limitação típica de certo naturalismo
panfletário.
Lillo escreveu a obra "Sub Terra: quadros
mineiros", que conta com treze contos retratando a difícil realidade
cotidiana dos mineiros que, devido à falta de alternativas de emprego, se
sujeitam ao árduo e perigoso trabalho nas minas, expostos a desabamentos e
explosões causados pelo grizu (vazamento de gás metano altamente
explosivo em minas de carvão). Os gerentes das minas, além de pagarem pouco
pelo carvão retirado pelos mineiros, descontavam valores excessivos sobre
supostas impurezas e obrigavam os trabalhadores a comprar mantimentos
unicamente do armazém da empresa, cujos preços eram superfaturados. Dessa
forma, muitas vezes, ao final do mês, não havia salário a receber, mas uma
dívida a ser paga no mês seguinte.
As revoltas dos trabalhadores (por melhor remuneração ou
mais segurança) eram contidas pelos seguranças armados da empresa. Quem ousasse
comprar produtos fora do armazém da vila da empresa perdia o trabalho e a casa
em que morava, pois esta também era de propriedade da companhia. Muitas eram as
famílias que perderam entes em desabamentos ou explosões; mesmo assim, a
necessidade imperiosa levava mães a colocar seus filhos para trabalhar no mesmo
local que fora o túmulo de seus maridos.
A prosa seca e precisa de Lillo prende a atenção durante
a leitura, sempre acompanhada da sensação de angústia, tristeza e mesmo
indignação diante da humilhante situação dos trabalhadores. Ler esta obra
magistralmente escrita possibilita entender o preço pago por indivíduos
desconhecidos que, sem outra opção de sobrevivência, assumiram um trabalho
vital para todo o progresso advindo do surgimento da sociedade industrial. A
leitura do livro também nos permite compreender que, apesar de todo progresso
científico e tecnológico, ainda há trabalhos perigosos para a saúde e a vida
humana e sempre haverá quem se submeta a eles para não faltar, à sua mesa e a
de seus dependentes, o pão de cada dia.
Sugestão
de boa leitura:
Título: Sub
Terra: quadros mineiros
Autor: Baldomero
Lillo
Editora: Expressão
Popular, 2025, 209 p.

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