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sábado, 28 de dezembro de 2013

A escola como um vagão de trem

Sempre que o início de um novo ano se aproxima costumamos fazer um balanço do ano que ora finda e o fazemos de forma totalmente automática, assim, tal como as redes de TV apresentam as retrospectivas do ano, também o fazemos lembrando-se dos objetivos alcançados e das metas não realizadas sempre com a esperança de que o ano vindouro seja melhor. Há algum tempo li uma mensagem que comparava a vida a um vagão de trem, a mensagem além de muito bela trazia o conceito de que em nossa vida tudo é passageiro. Ao olharmos para as pessoas que conosco convivem em casa, na rua, no clube ou no trabalho, não temos a certeza de quanto tempo estaremos juntos. Essa é uma realidade sempre presente no Magistério, todos os anos, conhecemos jovens com os quais convivemos naqueles 50 minutos de aula por meses ou anos até que um dia eles desembarquem numa das estações e assumam lugar noutro vagão no trem da vida. Há dentre esses ex-alunos, alguns que por educação ou gratidão, eternamente nos chamarão de professor e, outros, que nos chamarão pelo nome, por não gostar do conceito de autoridade, ou, ainda, aqueles que sequer nos cumprimentarão, e, isto ocorre, por não terem em seu tempo devido, a maturidade do entendimento que o professor exigente tal como o pai severo muitas vezes ama mais o seu pupilo/filho que o professor ou pai permissivo. Sei disso por experiência própria, aprendi muito mais com professores exigentes do que com os assim chamados “gente fina”, tenho mais prazer ao encontrar os professores chamados “durões” (que realmente contribuíram com a minha aprendizagem) do que aqueles que para ter a simpatia (da classe toda) arriscaram prejudicar o nosso futuro. Educador que sou, neste momento, a lembrança dos vários anos na profissão me traz à mente a imagem de colegas (alguns inclusive meus professores) que vencendo o seu tempo no vagão, desceram na estação que lhe era devida para desfrutar do descanso dos grandes guerreiros e se dedicar a outras atividades que sabemos a vida de professor não permite, pois, exige dedicação integral e que muitas vezes trata-se de dar aos (as) netos (as) a atenção que não pode dar aos (as) filhos (as) ou mesmo a si próprio (a). Também me lembro dos (as) colegas que foram lecionar no “andar de cima” deixando em nossa mente a lembrança dos últimos momentos convividos (a última conversa) bem como de educandos (as) cujas carteiras repentinamente se tornaram vazias e que por vezes me fizeram dar aulas com um nó na garganta com a imperiosa convicção de que a Educação não pode parar, apesar dos pesares. A Educação se realiza num vagão e o trem nem sempre anda na velocidade adequada ao fazer escolar, assim, algumas vezes, célere, a educação arrisca sair dos trilhos, noutras a lentidão, quase não sai do lugar e cabe aos professores (as) saber equilibrar a ansiedade que a falta do ritmo adequado, ora a velocidade, ora a lentidão ocasionam. A vida dos professores, tal como a mensagem, se realiza num vagão de trem, parte dos mestres (concursados) sabe de antemão o vagão de trem que lhes é reservado, outros, principalmente, aqueles em início de carreira vivem a angústia de ao ver o final de ano se aproximando não saber qual vagão lhes será determinado para prestarem seus inestimáveis serviços no ano seguinte. Sei que alguns dos (as) colegas e educandos (as) que tive ao final do ano desceram do vagão em que permanecerei no próximo ano e com esse corte no convívio diário deixaram saudades, mas quero que saibam que, se daqui para frente nem sempre estaremos juntos, também nunca estaremos sozinhos, pois, a Educação é uma força que move montanhas, transpõe abismos e desconhece fronteiras. Aos (às) colegas de profissão e aos (as) educandos (as) desejo que as férias sejam boas e energizantes e aos demais leitores deixo meus votos de um próspero ano novo!

sábado, 30 de novembro de 2013

Michael Moore me representa!

Não me canso de ler sobre o 11 de setembro de 2001, penso que cada nova obra traz contribuições importantes e tal como um quebra-cabeça vou montando a imagem (que ainda tem alguns espaços vazios) sobre o fato e os consequentes desdobramentos dele resultantes. Concluí a leitura do Livro Fahrenheit 11 de Setembro, que ao contrário de outras obras escritas que mais tarde viraram filmes, esta é a história de um filme que depois virou livro. Faz todo sentido a escolha do título Fahrenheit 11 de Setembro para a obra cinematográfica de Michael Moore premiada com a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Canes em 2004, com tal título Moore, provavelmente estava mostrando que as coisas estavam ficando quentes para George Walker Bush ou que talvez ele estivesse numa fria. Michael Moore é dono de uma inteligência aguçada, grande sensibilidade e senso de humor, e, produziu um documentário que bateu recordes de bilheteria e mudou o voto de milhões de americanos na eleição que acabou infelizmente culminando com a reeleição do presidente George “War” (Guerra) Bush. Mike como é conhecido declarou guerra a “dáblio” como chamava Bush então presidente a quem se recusou chamar por tal título devido à fraude na eleição presidencial de 2000. Mike é um vencedor, possui inclusive uma estatueta do Oscar por “Tiros em Columbine”, cineasta engajado, politizado e considerado de esquerda num país onde esquerda sequer existe, pois, na prática, nos Estados Unidos há a direita representada pelos democratas e a extrema direita representada pelos republicanos. Dessa forma, Moore tem preocupações sociais, sim, mas é no máximo um social democrata, além de grande patriota. Mike mostra em sua obra que Bush ganhou a eleição de forma fraudulenta e que se houvesse recontagem dos votos Al Gore seria o vencedor, também demonstra que na Flórida governada na época pelo irmão Jeb Bush milhares de pessoas foram impedidas de votar, principalmente negros e pobres (os eleitores de Gore), e essa eleição foi um vexame mundial, pois, as autoridades não conseguiam definir legalmente o vencedor. Mas, nada é complicado demais, para quem é filho de uma família milionária que fez fortuna com petróleo e cujo chefe do clã (George H.W.Bush) dirigiu ou fez parte do conselho administrativo de empresas fabricantes de armas e/ou de apoio estratégico às tropas em combate e foi vice de Ronald Reagan (1981-1989), além de presidente do país no período 1989 a 1993, (mesmo após sua saída do cargo continua a receber informações confidenciais da CIA) e que contava com muitos amigos na Suprema Corte (o equivalente ao nosso STF) tudo ficou mais fácil e com certeza essas amizades de “papai” na Suprema Corte foram decisivas para “dáblio” ser declarado vencedor O documentário mostra as estreitas relações entre a família Bush e os árabes das famílias real saudita e Bin Laden que investiam em empresas do grupo Bush ou que estavam sendo administradas pelo clã estadunidense e após o ataque de 11 de Setembro quando nenhum avião podia cruzar os céus dos EUA além dos caças da Força Aérea, alguns aviões foram autorizados por ordens superiores a voar (quando nem o ex-presidente Clinton podia fazer) levando para fora do país aproximadamente 160 passageiros árabes ( na maioria integrantes da família real saudita e número significativo de membros da família Bin Laden), e pasmem, sem serem interrogados, aliás, Bush tentou impedir investigações independentes do Congresso (por que será?). Bush também recebeu numa missão de negócios em seu rancho em Crowford (algum tempo antes), os Talebãs afegãos, cujo país mais tarde atacou, uma vez que neste país se encontrava Osama Bin Laden e uma importante base de treinamento da Al Qaeda. Após o fatídico 11 de setembro de 2001, Bush ao invés de solicitar uma investigação sobre a autoria do ataque, ordenou enfaticamente que fossem encontradas provas da culpabilidade de Sadam Hussein (atacar o Iraque era uma obsessão de Bush filho desde a época de campanha), estranho, pois, os EUA é segundo G.W.Bush “uma nação pacífica”. Sabemos que algumas verdades são desconcertantes e não devem ser ditas, mas seguidas, dessa forma, Tio Sam pilotado por Bush exibiu seus “músculos” para convencer os países subdesenvolvidos (ricos em recursos naturais principalmente petróleo) colaborarem, pois, “as guerras não são de todo ruins, (não!), elas fazem a economia crescer (há os contratos de reconstrução, as ações das empresas fabricantes de armas valorizam-se e distribuem bônus para os administradores, etc.), mortes são apenas efeitos colaterais”. O que Bush não falou é que o governo estadunidense mentiu, forjou relatórios, deu crédito à fontes suspeitas sobre as armas de destruição em massa de Sadam, desafiou e desrespeitou a ONU, e, que mandou soldados na sua quase totalidade pobres (cujo alistamento é a única forma de obter renda) para morrer e matar principalmente inocentes no Iraque para enriquecer ainda mais os nada inocentes ricos estadunidenses que formam a elite. Essa mesma elite que evita deixar seus filhos ir para a guerra (dáblio não foi enviado ao Vietnã), pois, a frente de combate é lugar para pobres, “os ricos precisam ficar para comandar e fazer crescer a economia do país”. Sabemos que Sadam era um monstro, aliás, criado e sustentado por muito tempo pela Casa Branca (Guerra Irã-Iraque – 1980-1988) e somente caiu em desgraça quando resolveu agir sozinho, o mesmo podemos dizer de Osama que serviu como aliado dos Estados Unidos da América na expulsão dos soviéticos do Afeganistão (1979-1989). Enfim, Michael Moore diz aos dirigentes estadunidenses e ao povo americano tudo aquilo que eu gostaria de dizer e jamais teria a oportunidade, por isso, de coração, obrigado Mike! Sugestão de boa leitura: ( vale a pena ver também o documentário!). Moore, Michael. Fharenheit 11 de setembro. Editora Francis, 2004.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

E você vai de coringa?

No início de 2013, em companhia dos amigos do motogrupo “Malandrões do Asfalto” estive em viagem pela Província de Misiones na Argentina e numa destas noites após a jornada motociclística do dia, fomos a um cassino e observei que muitos frequentadores do local eram pessoas idosas, aposentadas, passando o tempo, e resolvi também fazê-lo passar, porém, como não tenho intimidade com jogos troquei alguns pesos por fichas e fui brincar nas famosas máquinas caça-níqueis e apesar deste cassino ser barato e o câmbio nos favorecer, uma vez que o Peso argentino equivale a cerca de pouco mais de um terço do valor do Real descobri porque tais máquinas chamam-se “caça-níqueis” (elas definitivamente “caçam” os nossos níqueis!) e também o significado dos assim chamados “jogos de azar” (são de azar mesmo!), pois, à exceção de 01 (isso mesmo, um) colega “malandrão”, voltamos todos levemente mais pobres. Em nosso país os cassinos são proibidos, porém, muitas pessoas jogam por diversão e alguns desses jogos de baralho têm uma carta especial, o coringa, que na língua inglesa é chamado de “Joker”. Essa carta permite sua utilização em diversas situações e é um grande trunfo para quem a possui, também as mulheres possuem os seus trunfos, as assim chamadas “roupas coringa”, ou seja, aquelas que permitem fazer várias combinações sendo, portanto roupas multiuso ou multi-look. Sem falar no futebol, onde os assim chamados “jogadores coringas” podem ser adaptados em várias posições resolvendo problemas de escalação dos técnicos de futebol quando da falta de um especialista na posição. Falando em trunfo, o homo sapiens (alguns nem tão sapiens assim), a espécie a qual pertencemos somente chegou até os dias atuais porque aprendeu a viver em comunidades que com o passar do tempo foram evoluindo e tornando-se mais complexas, portanto, na aurora da humanidade viver em comunidade era a possibilidade de subsistir, mesmo que isso significasse (e significava!) ter que se sujeitar à normas e/ou regras, ditadas pelo grupo ou por aquele(s) que detinha(m) o poder sobre o grupo. O leitor talvez ainda não tenha chegado à conclusão alguma sobre onde quero chegar com tais elucubrações, talvez isso ocorra porque estou segurando o coringa na mão fechada, pois aprendi que não devemos mostrar o jogo rapidamente e que devemos ter muita calma no desenvolvimento da jogada. Sou uma pessoa observadora e reflexiva e uso minhas meditações para entender (ou tentar entender) a sociedade e o mundo em que vivemos. Dentre essas observações, constatei que existem muitas pessoas “coringas”, porém, ao contrário da referida carta de jogo, não as vejo de forma positiva, pois, são pessoas que no anseio de serem aceitas num ou vários grupos sociais, identificam as características que tais grupos consideram palatáveis nos indivíduos e atuam como personagens deixando de ser aquilo que de fato são. Penso que algumas vezes, isso é desenvolvido de forma tão natural que as próprias pessoas não percebem que no intuito de agradar, deixam de desenvolver seus pensamentos e opiniões próprias, pois, quem pensa e emite valor de juízo agrada alguns e desagrada outros tantos. Isso ocorre nas rodas de amigos (para não contrariar a opinião de velhos conhecidos a quem tanto prezam) e também quando as pessoas preocupadas em agradar a todos fazem um discurso para não desagradar ninguém e acabam se tornando insossas, pois, não marcam seu território, não estabelecem de qual lado da trincheira estão, perdendo a oportunidade de contribuir com uma verdadeira reflexão e posicionamento crítico dizendo à sociedade aquilo que deve ser dito para ouvidos e olhos que estão ávidos por ouvir e ler, mesmo sabendo que muitos ouvidos nada ouvirão e muitos olhos permanecerão fechados. Mas, enquanto tais pessoas renunciam a si próprios para ser aquilo que deles se espera, penso que grande sabedoria adquiriu quem já descobriu que buscar agradar a todos é abortar o seu próprio “vir a ser”, é suicidar-se diariamente, e, contraditoriamente permanecer vivo, é morrer um pouco a cada fala “encomendada” e continuar vivendo sem, no entanto ter existência real, pois quem desistiu de cultivar a si mesmo já não tem mais nada a oferecer à sociedade que não a aparência, pois, a essência se perdeu na mesa de jogo da vida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

[...] De cada roceiro ganhar sua área!

A reforma agrária é o esteio do desenvolvimento socioeconômico, é condição necessária para se implantar no país a justiça social, pois, não se combate a desigualdade social sem reformar a estrutura fundiária que neste país foi configurada de forma a privilegiar poucos e como tal continua. Mas é tarefa árdua, o latifúndio detém o poder econômico e tem forte representação política no Congresso Nacional, além disso, o latifúndio mata, e suas vítimas são aqueles que ousam contestar a injusta distribuição da terra, e, que tentam fazer algo para mudar essa triste realidade, e, nisso não há nada de novo, pois, nos primórdios da história os irmãos Tibério e Caio Graco tombaram por terra ao tentar impor a reforma agrária em Roma respectivamente nos anos 133 A.C. e 121 A.C.. João Cabral de Melo Neto teve sensibilidade ímpar ao compor a música “Funeral de um lavrador”, eternizada no talento de Chico Buarque cuja letra reproduzo um trecho: Esta cova em que estás com palmos medida / É a conta menor que tiraste em vida / É de bom tamanho nem largo nem fundo / É a parte que te cabe deste latifúndio / Não é cova grande, é cova medida / É a terra que querias ver dividida[...]. Essa música retrata a questão da violência que se desenvolve no campo, cujos solos estão manchados de sangue, são muitos os massacres: Eldorado dos Carajás (PA); Corumbiara (RO); Felisburgo (MG), apenas para citar alguns dos inúmeros casos de assassinatos no campo (realizados pelo Estado (polícia) ou por jagunços contratados pelos latifundiários) e que na maioria das vezes terminam impunes. O Brasil possui uma das maiores áreas agricultáveis do mundo, trata-se de uma vastidão enorme de terras férteis (peço ao leitor que desculpe a redundância, pois, a achei necessária!) e grande parte delas é subaproveitada, com tanta terra, parece absurdo pensar que neste país hajam tantas pessoas reivindicando um pedaço de chão, no entanto, o estudo da história nacional explica porque nunca é desatado o nó que impede a realização da reforma da estrutura fundiária brasileira. O país, desde suas origens foi pensado e construído de cima para baixo para atender aos interesses da elite e prestar serviços para as potências estrangeiras exportando produtos, os quais, Eduardo Galeano em “As veias abertas da América Latina” afirmou que os compradores lucram mais (consumindo-os), do que aqueles que os vendem ganham (produzindo-os). O Congresso Nacional como já dissemos, conta com forte representação da bancada ruralista (proprietária), além disso, o Governo Federal ao longo da história privilegiou a agricultura comercial de exportação que traz divisas (dólares) para o país auxiliando a combalida economia nacional a equilibrar a balança comercial em detrimento dos produtores dos alimentos que abastecem a mesa dos brasileiros, os pequenos proprietários, que foram muitas vezes forçados a deixar o campo devido à impossibilidade de continuar trabalhando a terra por causa da cegueira e inoperância dos governos no que concerne à agricultura familiar, algo que somente agora começa a mudar, mas cujo caminho há muito que percorrer. Tenho grande admiração pelo MST, por sua organização, por sua luta incansável pela realização da reforma agrária e pela construção de um país onde a justiça social não seja mera falácia, me emociono quando vejo os militantes de tal movimento fazendo suas marchas e entoando seus cânticos e palavras de ordem, evidenciando, a politização (e a consequente união) de seus membros numa sociedade onde a alienação impera. Já li/ouvi muitas críticas quanto à metodologia utilizada pelo MST, no entanto, há um desvio de foco da questão que é a tradicional inércia governamental na realização da reforma agrária, dessa forma, o MST sabe que o governo é como feijão velho (só funciona na base da pressão). Parte da sociedade critica o MST, por julgar que tal movimento social tem interesses (políticos) que vão além da reforma agrária e em parte estão certos, pois, a reforma agrária dá acesso à terra, mas, a permanência nela depende uma nova política de Estado para a agricultura, é portanto necessário um novo país, para um novo produtor rural, ou seja, o movimento social busca não apenas a realização da reforma agrária, mas, também, uma nova política de Estado para uma agricultura mais sustentável ecologicamente e de forte apoio ao pequeno produtor. O MST é um exemplo de união e de luta em torno de um ideal para toda a classe trabalhadora, e, nós professores, militantes no sindicato ou não, mas devidamente politizados, sabemos que o Brasil somente será de todos, quando deixar de ser de poucos.

domingo, 3 de novembro de 2013

[...]Saindo projeto do chão brasileiro...

Nas aulas de Geografia, promovo há vários anos um debate entre os educandos do Ensino Médio sobre a questão da reforma agrária, assunto que muitos sequer sabem inicialmente do que se trata. Após os esclarecimentos iniciais, peço-lhes que conforme seu livre posicionamento ante o tema formem dois grupos (um para defender a reforma agrária e outro para fazer oposição à mesma); as discussões têm sido muito boas, pois, os alunos pesquisam intensamente o tema para bem representar seus papéis no debate (que ninguém quer perder!). Obviamente, como mediador, mantenho-me neutro, ou seja, não deixo que minhas convicções pessoais influenciem na avaliação do desempenho de cada integrante do debate valorizando dessa forma seus esforços para trazer à luz tão importante tema. No entanto, sou sabedor que fazer oposição à reforma agrária é ter diante de si uma árdua tarefa, pois, a própria Constituição Federal (1988) em seu Artigo 184 felizmente estabelece o instituto da reforma agrária como uma competência da União e declara que toda a terra que não cumpre a função social é passível de desapropriação para contemplação de interesse social. Após e encerramento do trabalho, ansiosos os alunos perguntam sobre quem venceu o debate e eu afirmo sempre que todos são vencedores, pois, pesquisaram e aprenderam sobre uma grande questão nacional, limitando-me a fazer observações sobre atos falhos e pontos positivos de suas atuações. Penso que boa parte da população brasileira entende a reforma agrária de forma reducionista, simplista e equivocada, isto decorre da falta de informação de boa qualidade e também pela manipulação midiática que divulga o ideário da elite dando à questão da reforma agrária matizes a seu bel-prazer, dessa forma, desinformando a sociedade que assim emite opinião acerca do assunto sem embasamento teórico consistente, ou seja, o senso comum predomina. Em nossa sociedade não há um debate realmente instalado acerca da necessidade da democratização do acesso a terra, muito embora existam atores importantes a forçá-lo (o MST é o maior exemplo) e grande parte da população ignora o processo histórico de aquisição da propriedade da terra em nosso país, cuja origem remonta ao sistema das capitanias hereditárias e sesmarias (o qual privilegiava poucos em detrimento de muitos) implantado pela Coroa Portuguesa, ou seja, o Brasil já nasceu latifúndio. A grande mídia não divulga, por exemplo, alguns estudos que apontam cerca de metade das grandes propriedades brasileiras como possuidoras de irregularidades na origem (grilagem), dessa forma, dentre os proprietários de terras no Brasil, temos, (não somente, mas também) os descendentes dos donatários de sesmarias e aqueles que apesar de nada terem feito de ilegal, receberam terras griladas de herança de seus antecessores. Parte da população também pensa ser a reforma agrária apenas uma questão ideológica de certos partidos e governantes e desconhecem os dados sobre a estrutura fundiária desse país em que pouco mais de 1% das propriedades detêm quase a metade das terras agricultáveis nacionais. Pensam ser a terra um bem, como outro qualquer, ignorando sua função social e desconhecem os benefícios da implantação da reforma agrária para a sociedade. Parte expressiva da população ignora que a lei estabelece a garantia do direito de propriedade da terra somente quando esta cumpre a sua função social, ou seja, o proprietário rural tem que fazer sua terra produzir de forma racional e adequada; preservar o meio ambiente e cumprir as leis trabalhistas, e, se um desses itens não estiver sendo observado, essa propriedade pode ser enquadrada como passível de desapropriação. Os países desenvolvidos realizaram a reforma agrária com sucesso, o Japão, inclusive o fez por determinação dos Estados Unidos da América (a nação mais capitalista do planeta) após a Segunda Guerra Mundial, e, o Brasil precisa fazer o mesmo, pois, manter a excessiva concentração da terra como a verificada em nosso país é preservar o DNA de país subdesenvolvido, é seguir na contramão do desenvolvimento socioeconômico.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

[...]Para situação que está precária...

Os anos 2003 a 2010 formam a assim chamada Era Lula, nesse período houve transformações na economia do país, grandes mudanças também eram esperadas no que tange à reforma agrária, pois, Lula se elegeu com o apoio dos movimentos sociais e dentre estes os socioterritoriais. Em seu governo Lula recebeu o MST no Palácio do Planalto e também os representantes dos ruralistas para conversar acerca da questão fundiária avisando que reforma agrária era uma necessidade do país, porém, deveria ser conduzida de forma serena e solicitou que se evitassem ações que resultassem em violência no campo. Alertou também que os transgressores da lei seriam colocados frente à Justiça. Em seu governo Lula não criminalizou as ocupações tal como fez FHC, também, é verdade que o MST não pressionou Lula com toda a disposição que poderia, pois, tal movimento social mesmo sabedor que “sem pressão a reforma agrária não anda” se viu numa situação nova, o novo governante, era um velho aliado e assim o MST concedeu tempo para que o governo implantasse a sua política de reforma agrária. O Governo Lula surpreendeu seguindo por outro caminho no qual ao invés de priorizar a desapropriação de terras e assentar o maior número possível de famílias optou por introduzir o conceito de que a qualidade era mais importante que a quantidade, dessa forma, era mais importante o acompanhamento e a oferta de soluções para os assentamentos rurais já existentes para que estes alcançassem o êxito. Nesse mesmo sentido, na gestão de Lula houve maior incentivo à agricultura familiar e maior acesso ao crédito para pequenos proprietários, porém, houve críticas dos movimentos sociais, bem como dos estudiosos da questão agrária brasileira, para os quais, a atitude governamental de qualificação dos assentamentos rurais já existentes era ótima, mas, seria ainda melhor se acompanhada de uma consistente política de redistribuição da terra visando amenizar os fortes contrastes existentes em nosso país quanto à distribuição da terra e da renda. Mesmo não priorizando números absolutos de desapropriações, Lula em seu primeiro mandato assentou mais famílias que FHC em igual período, a situação se inverte se comparamos o segundo mandato de ambos. Penso que o Governo Lula foi muito eficaz em vários campos de atuação, porém, deixou uma sensação de incompletude quanto à reforma agrária, pois, houve avanços, mas não ao ponto de corresponder à expectativa que talvez fosse exagerada, pois, não se reforma em oito anos uma estrutura fundiária nascida com os pés na colonização e as mãos na escravidão, mas ficou a sensação de que era necessário avançar mais, a tarefa ficou então para a sua sucessora, a Presidenta Dilma. A análise preliminar dos primeiros anos de Dilma no que concerne à redistribuição da terra não empolga, a reforma agrária caminha devagar e segundo informações de pessoas que lhes são próximas isso ocorre não pelo fato do não reconhecimento da importância da reforma agrária para o desenvolvimento nacional e sim pela exigência que faz de projetos de reforma agrária com alta qualificação, pois a Presidenta é muito minuciosa e analisa com rigor técnico cada novo projeto e não se empolga com números, quer qualidade. Dilma vem conduzindo com sucesso a economia nacional, pois, está conseguindo fazer o país atravessar a pés enxutos o lamaçal da crise mundial (logicamente, não sem alguns respingos de barro), e isso não é pouco se olharmos para o outro lado do Atlântico, onde a lama se assemelha à areia movediça e que a cada movimento dos países europeus faz suas economias ficarem ainda mais atoladas, porém, a reforma agrária parece andar em marcha lenta, os números são inferiores aos dos primeiros mandatos de FHC e Lula e isso traz certo sentimento de preocupação, pois, é preciso avançar com mais rapidez, a reforma agrária precisa ser desburocratizada.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

[...] Sabendo que ela dará solução...

O Brasil em 1985 vivia um novo tempo, a ditadura havia findado e havia a esperança de um país melhor para todos os brasileiros que há muito estavam saturados do desgoverno da ditadura cujo famoso Ministro da Fazenda da época militar afirmava: “É necessário fazer o bolo crescer para depois dividir”, mas, cuja divisão jamais ocorreu, dessa forma, o país, se tornou um dos mais injustos do mundo em distribuição da renda e no que concerne à terra quase nada foi feito para alterar a estrutura fundiária que lembrava muito o Brasil Império embora a República estivesse consolidada há muito tempo. José Sarney, vice de Tancredo Neves assumiu a Presidência da República de forma inesperada diante da doença que acabou por ceifar a vida do presidente eleito e que era depositário da esperança da ampla maioria dos brasileiros que desejavam mudanças profundas na condução da política e da economia do país. A morte de Tancredo foi uma ducha de água fria para o povo que tinha desconfianças quanto ao vice-presidente José Sarney, tido como muito próximo aos militares, no entanto, em seu governo foi escrita a nova Constituição Federal (1988) e foi garantida a liberdade de expressão, mas o fracasso na condução da política econômica e de reforma agrária em que foi estabelecida a meta de assentar um milhão e quatrocentas mil famílias até o fim do seu governo assentando apenas noventa mil, fez com que o anseio da população por grandes transformações da realidade nacional tornassem sua popularidade fugaz. A insatisfação era tanta que Sarney aceitou reduzir um ano de seu mandato anteriormente previsto para seis anos. O movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST) cuja origem remonta à Cascavel-PR (1984) ainda estava se organizando e a pressão exercida sobre o Governo Sarney foi infrutífera, como também o foi no Governo Collor que era declaradamente contra a reforma agrária e tinha aliados ruralistas em seu governo, dessa forma, apesar da forte pressão dos movimentos campesinos e da violência que estourava no campo, Collor (que reprimiu duramente os movimentos campesinos principalmente o MST) em trinta meses de governo assentou apenas 42.030 famílias, um número pífio ante as necessidades do país. Collor, como sabemos, sofreu o processo de Impeachment e foi condenado pelo Congresso Nacional, em seu lugar assumiu o vice-presidente Itamar Franco que se declarou simpatizante da causa da reforma agrária e seu governo foi marcado pelo diálogo com os movimentos sociais especialmente o MST, apesar das boas relações e talvez à curta duração de seu mandato (1992/1993) promoveu o assentamento de apenas 14.627 famílias, se a modéstia foi a tônica na reforma agrária, Itamar foi exitoso na condução da política econômica com a criação do Plano Real, o controle da hiperinflação e a estabilidade monetária, foi o verdadeiro Pai do Real e não o seu sucessor Fernando Henrique Cardoso como muitos insistem em chamá-lo, penso que Itamar não recebeu em vida o reconhecimento devido. FHC em seu primeiro mandato (1994-1998) assentou 306.285 famílias buscando acalmar os movimentos socioterritoriais, porém, as pressões continuaram através da ocupação de terras e FHC passou então para a fase de repressão e criou uma medida provisória que impedia que a terra ocupada fosse destinada para fins de reforma agrária. A adoção de tal medida freou em parte as ações de ocupação e originou certa letargia no governo quanto à desapropriação de terras para reforma agrária, pois, em seu segundo mandato assentou 158.312 famílias, um número bem inferior ao do primeiro mandato. Segundo Bernardo Mançano Fernandes a questão agrária além de descaracterizada foi mercantilizada no governo FHC, pois, em seu governo se criou o Modelo de Reforma Agrária de Mercado em que o latifúndio improdutivo deixava de ser punido pelo não cumprimento da função social conforme estabelecia a Constituição Federal e passava a ser um ativo financeiro, uma vez que os latifundiários receberiam à vista pelas terras vendidas.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

[...] Ansiosas esperam a reforma agrária...

O Brasil precisa de muitas reformas, a reforma política, a reforma tributária, a reforma agrária, etc., porém, das reformas supracitadas nenhuma é desejada há mais tempo pelo conjunto da classe trabalhadora e tão fortemente combatida pela elite dominante. O Brasil tem um grave problema no que tange à sua estrutura fundiária, ou seja, à forma como estão divididas as terras agrícolas a qual teve sua origem quando da chegada dos colonizadores portugueses ao país, ocasião na qual a Coroa Portuguesa criou as Capitanias Hereditárias (1530) e distribuiu as sesmarias que eram grandes glebas às pessoas com as quais tinha afinidade, e estas, lealdade com a mesma. Os sesmeiros tinham por dever repassar à Coroa um sexto da produção, em troca recebiam terras virgens, férteis, a possibilidade de enriquecer e ter muito poder. Tal invenção do Brasil feita de cima para baixo somente poderia dar em desastre e foi o que ocorreu com a disputa pela terra entre fazendeiros e grileiros que gerou muita violência, inclusive com a ação de bandos armados e o derramamento de muito sangue, um detalhe, não havia a ação de trabalhadores rurais, uma vez que nesta época estes eram em sua maioria escravos. Em 1822, o Brasil se tornou um país independente, mas sua estrutura fundiária mostrava ao mundo que o Brasil era um país de poucos e que por assim ser exercia o papel de serviçal dos países desenvolvidos ao fornecer-lhes gêneros agrícolas a baixo custo somente obtido com a chaga da escravidão. Em 1850, o Governo Imperial editou a Lei de Terras a qual estabeleceu que as terras devolutas são propriedade da União não podendo ser ocupadas e a aquisição de terras somente poderia ser realizada com o pagamento em dinheiro. A Lei de Terras parece ter sido criada naquele sistema do “mudar para não mudar”, pois beneficiava a classe proprietária e impossibilitava/dificultava o acesso à terra por parte dos escravos libertos em 1888 e também os imigrantes que para cá vieram e que não estavam incluídos nos processos de colonização abertos pelo Governo Imperial nos quais houve a distribuição de terras para pagamento a longo prazo. Para tais trabalhadores não havia alternativa que trabalhar como empregados rurais aos fazendeiros de café, cana de açúcar, etc. ou tentar a sorte como operários na incipiente indústria localizada nos grandes centros urbanos do país. O tempo passou, veio a República em 1889 e apesar desta surgir com o ideal de reformas, nada mudou no campo, a concentração fundiária tornava os grandes fazendeiros donos de imenso poder, os “coronéis” eram temidos pela população e ditavam os rumos da política. Os coronéis não eram combatidos pelos governantes que buscavam fazer com eles alianças, uma vez que parte destes eram também políticos, razão pela qual, propostas de melhor distribuição das terras agrícolas não entraram em pauta. Em 1961, Janio Quadros mandou ao Congresso a primeira proposta de Reforma Agrária a qual foi evidentemente engavetada pelos parlamentares conservadores, pouco depois, a forte oposição levou Janio a renunciar e assumiu João Goulart (Jango) que resolveu realizar as reformas de base (fiscal, bancária, educacional, eleitoral, urbana e agrária). Tais medidas eram de caráter nacionalista e previam uma maior intervenção do Estado na economia, no entanto, como sabemos, o golpe militar de 1964 impediu que tais medidas fossem de fato implantadas e a reforma agrária foi uma vez mais postergada. A ditadura militar, no entanto, surpreende e cria o Estatuto da Terra para acalmar os ânimos dos movimentos campesinos que vinham crescendo desde a década de 1950 devido à insatisfação com a situação no campo. Tal atitude do governo é explicada pelo fato deste recear a ocorrência no país de uma revolução camponesa e ao mesmo tempo pretendia tranquilizar a classe proprietária que temia a implantação da reforma agrária em grande escala como a verificada em países como o México, a Bolívia, etc. O Estatuto da Terra tinha duas metas principais: Fazer a reforma agrária e desenvolver a agricultura, a primeira meta ficou apenas no papel, pois as iniciativas governamentais se resumiram a alguns poucos projetos na Amazônia e que não deram o resultado esperado devido à falta de infraestrutura, a não ambientação dos assentados ao clima equatorial e solos frágeis, e, principalmente ao isolamento da região resultando em fracasso. A segunda meta era o desenvolvimento da agricultura e esta teve grande incentivo por parte do governo militar principalmente a agricultura comercial de exportação, ou seja, os latifundiários transformaram suas propriedades em empresas agrícolas contando sempre com o apoio do governo, e durante esse período, além de não ocorrer a reforma agrária, o êxodo rural, o inchaço das cidades e a concentração da terra só fizeram aumentar.

domingo, 6 de outubro de 2013

A classe roceira e a classe operária [...]

Sendo eu um professor de Geografia causa grande estranheza (até para mim!) não ter dedicado até o presente momento um artigo neste espaço sobre a reforma agrária. Muito embora somente agora escreva sobre o tema, a anotação para fazê-lo está registrada num papel amarelado pelo tempo, pois sempre havia um tema do momento ou da inspiração. Logicamente se levasse em conta tão somente a importância do tema teria feito tais linhas no primeiro ano de “A Vista de Meu Ponto!”. O leitor poderia julgar pela demora em escrever que tenho pouca familiaridade com a temática, pois sou fruto da educação pública propiciada pelo repressivo regime militar que infelizmente tivemos em nosso país, o qual cerceava a criticidade dos mestres que temerosos evitavam fazer denúncias sobre as mazelas que afetavam o país. Poderia ainda o leitor pensar que o assunto me é indigesto, pois tenho amigos que discordam do mesmo, nada mais equivocado, pois, penso que se uma amizade não resiste à divergência de opiniões ela não deve ser vivida. Nos primeiros anos da juventude eu fazia parte de um Grupo de Jovens subordinado à Pastoral da Juventude da Igreja Católica no qual além das temáticas religiosas discutíamos as questões políticas e as injustiças que afetavam a classe trabalhadora. Foi neste Grupo de Jovens que eu tive meu primeiro contato com a temática da concentração da terra e da violência no campo e da consequente necessidade da reforma agrária. São comuns críticas às Igrejas (é bom que se diga, nem todas injustamente) e o silêncio quando de boas ações por elas tomadas, então, eu torno público o meu elogio pela iniciativa da Igreja Católica via Pastoral da Juventude em promover tais discussões entre os jovens naquela época chegando aonde muitas vezes a escola pública não chegava! Nas reuniões aprendíamos os “gritos de ordem” e os hinos cantados durante a realização da Romaria da Terra e até hoje me lembro das romarias sempre que ouço a canção “Grande Esperança” que foi gravada por Chico Rey e Paraná: “A classe roceira e a classe operária / Ansiosas esperam a reforma agrária / Sabendo que ela dará solução / Para a situação que está precária / Saindo projeto do chão brasileiro / De cada roceiro ganhar sua área / Sei que miséria ninguém viveria / E a produção já aumentaria / Quinhentos por cento até na pecuária! [...]”. Além de discutirmos os dados sobre a concentração da terra e da violência no campo e a necessidade da democratização do acesso à terra, algumas vezes fomos além da teoria ao exercitar a cidadania por meio da participação em Romarias da Terra em municípios para os quais nos deslocávamos sempre com ônibus lotado. As romarias são organizadas pela Comissão Pastoral da Terra que alterna os municípios que sediam a realização do referido evento anual cuja ênfase é a defesa da dignidade humana em contraponto ao vigente sistema capitalista concentrador da renda e da terra. Até o presente ano (2013) já foram contabilizadas 27 edições da Romaria da Terra, sendo que a última foi realizada em 18 de Agosto no município de Faxinal (PR). Lembro-me que os meios de comunicação divulgavam pouco as romarias, mas o faziam e hoje tais eventos parecem ter caído no ostracismo, (o que não causa surpresa) uma vez que a grande mídia representa os interesses da classe dominante e divulga o que a esta convém. Penso que tal como na letra Ideologia de Cazuza muitos de nós (da minha geração) éramos “aquele garoto que ia mudar o mundo e hoje assiste a tudo em cima do muro [...]”. Porém, como meu equilíbrio para ficar em cima do muro sempre foi pouco, breve mostrarei qual é a minha visão a partir do lado do muro em que sempre me postei.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A vida... Que fase! (?)

Em decorrência do fato de ser pai e professor observo crianças, adolescentes e adultos e me vejo frequentemente refletindo sobre as fases da vida e não me refiro aos períodos de vacas magras e/ou gordas comuns à grande maioria das pessoas na sobrevivência nesse planeta chamado Capitalismo. Explico: Ao nascermos passamos pela nossa primeira provação deixamos o útero aconchegante de nossas mães e nos sentindo desprotegidos choramos a sensação de insegurança e desconforto que o novo mundo ao qual somos apresentados nos traz. Nessa fase nossas necessidades são prontamente atendidas quando choramos, mas o tempo vai mostrar que o nosso choro será por muitas vezes ignorado. Basta que cresçamos e deixemos a infância e nos sentimos tal como na letra da música “Não vou me adaptar” de Arnaldo Antunes: “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia/ Eu não encho mais a casa de alegria/ Os anos se passaram enquanto eu dormia/ E quem eu queria bem me esquecia/ Será que eu falei o que ninguém ouvia?/ Será que eu escutei o que ninguém dizia?/ Eu não vou me adaptar... me adaptar”. A entrada na adolescência é um período de adaptação com as dificuldades impostas pelo fato de não saber como se encaixar na sociedade com adultos que esperam de você maturidade, afinal, seu corpo evidencia que você não é mais criança, mas sua mente não concorda totalmente com isso mesmo que você se esforce nesse sentido. É um período difícil, muitas vezes você planeja fugir para Marte, mas na vida tudo passa e você então torna-se um adulto, mas, mesmo assim não consegue se desligar totalmente da adolescência, tal como uma colega afirmou: “Tenho sonhos adolescentes, mas as costas doem. Sou jovem pra ser velha. E velha pra ser jovem”. É uma nova fase da vida que chegou a “adultescência,” nela, você vive tal como o adolescente a angústia de não conseguir encaixar-se na sociedade que lhe cobra atitude, determinação, independência, etc. quando na verdade você ainda gosta de ser cuidado pelos pais e não se sente preparado(a) para um voo solo e passa a maior parte do tempo jogando/falando de videogames e/ou sonhando com o rico príncipe encantado ao invés de ir à luta. Você faz parte da geração canguru. O tempo passa você enfrenta muitos desafios, constitui família (ou não), trabalha muito, precisa garantir seu futuro e/ou dar sustentação financeira à sua família, até pode ter dinheiro, mas já não tem tanto tempo para o lazer, está mais ambientado nas rodas de conversa com os mais velhos e começa a dar razão aos mesmos nas conversas sobre o quanto a geração mais nova se encontra perdida e “o quanto a sua geração era determinada”, vê nos hábitos da nova geração o “fim dos tempos” (embora esconda ter alguma inveja). Como o tempo não para, você de repente se vê sexagenário (com filhos crescidos, talvez até com netos), mas como tem muita energia busca viver o máximo possível e além do trabalho quer desfrutar o lazer que muitas vezes abdicou. Você entrou numa nova fase é agora “sexalescente”, ou seja, é uma pessoa que do alto dos seus sessenta e poucos anos não aceita a velhice e isto algumas vezes o leva a visitar o guarda-roupa dos/das filhos(as) e/ou netos(as) em busca de uma roupa mais “adequada”. Você resolve cuidar da máquina (o corpo), pois não dá mais para adiar tais cuidados, quer viajar, praticar esportes, estudar, namorar muito e sabe que se precisar pode contar com a ajuda da medicina, você é agora um “sexygenário”. Você entra na quarta idade (80 anos), foi na “despedida” de muitos(as) de seus/suas colegas, tem um tesouro inestimável (a experiência) que falta a todo(a) jovem, sua pele não tem mais o viço da juventude e infelizmente em nosso país ao contrário do Japão não é valorizado(a) como deveria ser e ainda precisa se preocupar com a injustiça do sistema de aposentadoria que a cada ano faz com que seu dinheiro míngue e do alto de sua sabedoria não teme a morte embora a considere injusta, pois tal como Charles Chaplin pensa que deveria ser assim: "A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo”! Não seria perfeito?

sábado, 21 de setembro de 2013

A teoria do Direito x a teoria da Direita

O escritor e editor Luiz Fernando Emediato da Geração Editorial classificou o livro “A outra história do Mensalão: as contradições de um julgamento político” de autoria do jornalista Paulo Moreira Leite (ex-diretor da revista Época, ex-redator-chefe da revista Veja e atual diretor da revista Istoé em Brasília) como uma obra corajosa, independente e honesta. No livro, o autor afirma que o julgamento do chamado “Mensalão” foi contraditório, injusto e político por ter feito condenações sem provas consistentes e sem obedecer a regra elementar do Direito segundo a qual todos são inocentes até que se prove o contrário. Também afirma que os réus estavam condenados antes de o julgamento começar por aqueles que se consideram a própria opinião pública, os meios de comunicação, que segundo o autor tiveram total desprezo pela isenção, assumindo desde o princípio posicionamento pró-condenação, pressionando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como relatou o próprio ministro Lewandowski: “A imprensa acuou o Supremo. Não ficou suficientemente comprovada a acusação. Todo mundo votou com a faca no pescoço”. No livro, o autor demonstra que o STF, guardião das leis e da Constituição cometeu injustiças, o que considerou preocupante, e, citando o romance “O Processo” de Franz Kafka, afirma: “[...] no limite podemos acreditar na possibilidade de sermos acusados e condenados por algo que não fizemos, ou pelo menos não fizemos na forma pela qual somos acusados”. O processo do Mensalão trouxe segundo a obra, penas robustas e provas fracas e ao contrário do que prega como já dissemos a regra elementar do Direito de que todos são inocentes até que se prove o contrário, a metodologia do julgamento foi realizada de forma a dificultar ao máximo a defesa, indo contra a lisura de um processo penal em que é assegurada ao réu a ampla defesa. Estariam os ministros sendo influenciados pelo “reality show” em que se transformou o Mensalão? Os ministros viram-se atores do “reality show” e começaram a preocupar-se com sua atuação e perderam o foco no que é principal, o Direito? Sabemos que os ministros não podem julgar segundo sua ideologia, mas, claramente embasados no Direito! Isto é o que separa um Estado de Direito, portanto, democrático, de um Estado autoritário, ou seja, uma ditadura, em que suposições são suficientes para a perda da liberdade. Pesa contra o STF o fato de que embora o Mensalão Tucano (que a imprensa evita tocar nesse assunto e quando o faz chama de “Mensalão Mineiro”), ocorrido anteriormente ao Mensalão Petista ter seu julgamento postergado, ora, se alguns atores são os mesmos, não seria o correto seguir uma linearidade no tempo, investigando, apurando, julgando conforme a ordem dos fatos? E por que ao Mensalão Tucano além da protelação, foi concedido pelo STF o benefício do desmembramento do processo que favorece a defesa e ao Mensalão Petista não? Ao dar tratamento diferente para o Mensalão Petista e ao Mensalão Tucano, o STF tem um sistema “dois pesos, dois mensalões”? Não seria ou não deveria ser o STF o principal interessado em possibilitar a mais ampla defesa? (Ao contrário do que ocorreu, uma vez que a defesa dos réus criticou o STF por dificultar o trabalho da mesma)? E por que a mídia não dá o mesmo destaque e cobrança quanto aos fatos envolvendo o Mensalão Tucano? Se o julgamento do Mensalão fosse a perfeição técnica que Joaquim Barbosa sustenta ser porque ele não é unanimidade entre seus pares e nem mesmo entre renomados juristas deste país que a ele não pouparam críticas? Não se trata de afirmar que o Mensalão foi uma criação do subconsciente coletivo, mas de criticar a dinâmica condenatória que vai contra a Teoria do Direito e a acusação equivocada, crimes “podem” ter ocorrido (talvez, Caixa 2), mas não necessariamente aqueles pelos quais aos réus está se imputando culpa! Os recursos eram públicos ou privados? (Não há consenso e isto é uma questão central)! E nisso reside outra constatação, se o que se pretende é acabar ou pelo menos reduzir os riscos do abuso do poder econômico e das negociatas pós-eleitorais precisa-se então da reforma política e do financiamento público de campanhas eleitorais! Quem é contra? Aqueles que viram no atual sistema um celeiro de oportunidades! Grande parte dos quadros ligados à Direita! A Teoria do Domínio do Fato faz a alegria daqueles que desejam a condenação dos réus, tal teoria que embasa as acusações contra os réus tem como contraponto as investigações da Polícia Federal que nada encontraram de provas conclusivas, então se não há provas consistentes, aplica-se a Teoria do Domínio do Fato, que, diga-se, não é unanimidade entre os juristas, pois ela aponta responsabilidades invisíveis, ou seja, se determinado réu ocupava certo cargo, parte do princípio de que “não é possível que não soubesse...”, “não é plausível que não tivesse participação...”, etc. Obviamente queremos um país livre da corrupção, no entanto, tal tema é frequentemente usado para golpes contra políticos democraticamente eleitos no mundo todo e o Brasil não é exceção, aliás, houve até ministro do STF que afirmou que a ditadura “foi um mal necessário” (Marco Aurélio de Mello), isso, e historicamente, várias absolvições ainda não digeridas pela população de réus comprovadamente culpados deixa sobre o STF um espectro de parcialidade, de facciosismo, etc. dando a impressão da justeza daquela famosa frase “aos amigos a lei, aos inimigos os rigores da lei”. De uma coisa tenho certeza, a Direita incapaz de fazer oposição competente a um governo popular, cujos indicadores socioeconômicos demonstram claramente a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes se aquartelou no STF e espera que a Grande Mídia faça o discurso oposicionista esperando através desta o convencimento da população de que nosso país encontra-se no fundo do buraco e que deveríamos seguir a receita neoliberal dos países europeus que descobriram que o fundo do buraco tem subsolo! Enfim, a Direita tem a sua teoria para voltar ao Poder e nela o STF e a Grande Mídia são fundamentais, esperamos nós (o povo) que vivemos atualmente o melhor momento socioeconômico da história desse país que o STF não fique em ilações e aplique a teoria do Direito e não a teoria da Direita, a qual alguns de seus membros parecem ter inclinação ideológica. Sugestão de boa leitura: LEITE, Paulo M. A outra história do Mensalão: As contradições de um julgamento político. Geração Editorial.

sábado, 14 de setembro de 2013

A carapuça que te cabe..., cabe?

Sou admirador do apresentador, ator, compositor e cantor Rolando Boldrin (atualmente apresentando o Sr. Brasil na Rede Cultura de São Paulo) desde os tempos do Som Brasil, programa da Rede Globo que ia ao ar nas manhãs dominicais. Rolando Boldrin nascido a 22 de Outubro de 1936, em São Joaquim da Barra no interior de São Paulo, gravou pérolas da música sertaneja raiz como “Vide Vida Marvada” e “Eu, a viola e Deus” para lembrar apenas alguns de seus inúmeros sucessos. No programa Som Brasil, Boldrin recebia artistas que tocavam modas sertanejas e entre uma apresentação e outra de artistas contava piadas e “causos”. Gosto desse talento nato de pessoas que sabem contar essas estórias que traduzem a cultura popular tal como faz o companheiro João Olivir Camargo na sua coluna “O Ponto do Conto” no jornal Correio do Povo do Paraná. Sempre ouvi falar que aquele “amigo” que te coloca em situações difíceis é um “amigo da onça”, mas até então não sabia a origem dessa expressão, assim, numa certa manhã de domingo, algumas boas e bota boas primaveras atrás, Rolando Boldrin contou que: “um compadre chegou até o outro e disse: Compadre, se você estivesse sozinho e te aparecesse uma onça, o que você faria? – E o compadre respondeu: É fácil, compadre! Eu pegava a espingarda e matava a onça! – E o compadre então falou: Não! Imagine que você não tem espingarda! – O compadre responde: Então eu puxava da pistola e matava a onça! – O compadre diz: Não! Imagine que você não tem pistola! – Bom, então eu puxava da peixeira e matava a onça! – O compadre novamente: Não! Não! Imagine que você não tem peixeira, não tem nada! – Bom, então eu corria da onça e subia numa árvore bem alta e esperava a onça ir embora! – Ao que o compadre interfere: Não! Imagine que no lugar não tem nenhuma árvore por perto! – Aí, o compadre irritado responde perguntando: Peraí, compadre! Você é meu amigo ou é amigo da onça”? (Risos). Esse conto é a explicação para o assim chamado falso amigo que conhecemos como “amigo da onça”. Penso que “amigos da onça” só existem aqueles que se dedicam a preservação desse magnífico animal silvestre, de resto, não existe falso amigo, ou é amigo ou não é! Pessoas que te colocam em situações difíceis não são e não podem ser considerados amigos. Algumas vezes, pessoas se indignam com o que escrevo, no entanto, este espaço é para mim sagrado, não o uso para atingir ninguém, pois, discuto ideias e não pessoas! Vivemos num país democrático, e, portanto livre, e como Rosa Luxemburgo nos ensinou: “a liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente” e se isto não for suficiente, quem é amigo de verdade, sabe assim ser e quem é de mentira também! Há alguns dias li um post no Facebook que afirmava que se você lançar uma indireta na referida rede social visando apenas uma pessoa e não nominá-la você perderá todos os seus “amigos” (risos). Aí entra a questão da carapuça¹, cada um veste a carapuça que lhe servir. 1. Carapuça é uma espécie de barrete ou capuz de forma cônica e remonta ao período da Inquisição, em que os condenados eram obrigados a vestir trajes ridículos ao comparecer aos julgamentos. Além de usar uma túnica com o formato de um poncho, eles precisavam colocar sobre a cabeça um chapéu longo e pontiagudo, conhecido como carapuça. Daí a expressão "vestir a carapuça" ter se incorporado ao português escrito e falado com o sentido de "assumir a culpa". (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carapu%C3%A7a – Acesso em 10 de Setembro de 2013).

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Um rapaz latino americano

Impossível ler o título que escolhi para este artigo e não lembrar de Belchior quando entoava a linda canção “Apenas um rapaz latino americano” cuja letra iniciava com a seguinte estrofe: “Eu sou apenas um rapaz/ Latino-Americano/Sem dinheiro no banco/Sem parentes importantes/E vindo do interior...”, no entanto, apesar da belíssima obra de Belchior, a razão de ser destas linhas se refere ao genial, insubstituível e incomparável Eduardo Hughes Galeano, (exagero?) Não existe redundância ao se falar deste uruguaio nascido em Montevidéu a três de Setembro de 1940 e autor de mais de quarenta livros traduzidos para diversos idiomas. Galeano é possuidor de um estilo todo próprio e conquista seus leitores pela contundência com que denuncia as injustiças e pela beleza poética que suas palavras tomam em seus textos de abordagem política e histórica. Meu primeiro contato com a obra de Galeano foi nos anos 1990, quando cursava Geografia na Unicentro (Guarapuava) e soube através de uma colega sobre um livro fantástico chamado “As veias abertas da América Latina”, imediatamente fui à biblioteca da Universidade e tomei emprestada a obra que li num final de semana, pois, era impossível parar de ler e na semana seguinte encomendei na livraria da faculdade um exemplar que reli outras duas vezes. Como tenho um registro das obras que disponho em meu acervo particular, dei a este livro o número 001 embora esta não seja nem de longe a primeira obra que adquiri, mas pela importância que teve e tem sobre a minha formação e orientação política. Tenho grande orgulho de ter esta obra capaz de lapidar mentes para o utópico, porém necessário trabalho de construção de uma América Latina livre da exploração predatória das potências imperialistas que sempre contaram e contam com a anuência das elites locais, sócias na espoliação das riquezas naturais e na exploração do fruto do trabalho das pessoas humildes dessa “sub-América”, pois, como Galeano reclama, “no caminho perdemos o direito até de nos chamarmos americanos”. Penso que embora Eduardo Galeano tenha escrito tantas obras, ao publicar “As veias abertas da América Latina”, ele não precisava fazer mais nada, já teria cumprido sua missão de iluminar a escuridão de nossos dias, mas Galeano é a generosidade em pessoa e não cansa em ofertar sabedoria para todos que em meio às trevas do imperialismo globalizado estão sedentos por claridade. A sua obra principal é pelas circunstâncias que permeiam a nossa história uma declaração de amor platônico pela América Latina, ou seja, por uma região que não aprendeu a se orgulhar de suas raízes, pois somos um povo que cedo foi doutrinado a admirar a cultura alienígena imposta brutalmente pelas potências estrangeiras com a aquiescência das elites, verdadeiros “testas de ferro” na exploração das riquezas nativas. Como disse, a obra é uma declaração de amor e patriotismo por nossa cultura, história, enfim, por nosso tão único e verdadeiro jeito de ser, um povo apaixonado, e que precisa urgentemente descobrir a si próprio e parar de admirar o progresso alheio movido à usurpação das riquezas dos países pobres do mundo. Nenhuma pessoa que se pretenda crítico pode deixar de ler As veias abertas da América Latina, aliás, todo latino americano deve ler esta obra a fim de entender as raízes de nosso subdesenvolvimento. Eduardo Galeano é um celeiro de sabedoria, um oceano de patriotismo que transborda do pequeno território de seu país natal e abarca toda a América Latina, sua verdadeira “pátria”. Reconhecemos que o Uruguai é o seu país de nascimento, mas ao povo uruguaio pedimos que perdoe nosso “imperialismo”, pois Galeano não pode ser somente uruguaio, ele é e precisamos que seja um pouco brasileiro, argentino, cubano, etc. enfim, um eterno rapaz latino americano. P.S. Nesta data em que finalizo este artigo é aniversário de Galeano (03/Set./2013), sei que jamais saberá destas linhas, mesmo, assim, parabenizo-lhe pela passagem desta tão importante data e desejo-lhe muitas felicidades! Sugestão de boa leitura: Galeano, Eduardo H. As veias abertas da América Latina. Editora L&PM.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Um certo 30 de Agosto!

Em 1988, eu um concluinte do segundo grau, ainda não sabia direito o que iria fazer da vida, trabalhava numa joalheria (ourives) e pensava que após dominar todo o conhecimento necessário, montaria a minha própria loja e até pensava em cursar faculdade (jornalismo), mas não pensava em ser professor. Num certo dia daquele mês de Agosto, estava na rua XV de Novembro quando um repórter (um então jovem velho conhecido) da Rádio Educadora de Laranjeiras do Sul me parou perguntando sobre o meu apoio ou não à greve dos professores, respondi brevemente que os professores estavam certos, eles tinham mesmo que lutar por seus direitos e tinham o meu apoio. No sábado à tarde (não recordo a data!), foi ao ar mais uma edição do extinto, porém excelente programa Visão sob o comando do sempre competente Jaime Spazzini o qual costumeiramente tinha a colaboração especial do saudoso Renato Cesar Klein. No programa em questão estavam entrevistando uma professora líder do comando de greve em nosso município, lembro que a minha fala foi uma das poucas consonantes com a greve. A professora ao ouvir minha fala chamou-me de colega, algo que na época soou estranho para mim, pois, eu não imaginava que isso um dia teria razão de ser. Há alguns dias, portanto, vinte e cinco anos depois, saindo de uma sala de aula, um aluno me questionou: “professor é verdade que teve um governador que soltou os cachorros para cima dos professores?” Respondi que não, e expliquei-lhe sem entrar em muitos detalhes (pois outra sala me esperava) que o governador da época mandou a polícia retirar os professores da área em que faziam passeata (concentração) e os PMs avançaram com a cavalaria para cima dos mestres e que teve feridos. O aluno então falou: “e como pode ele continuar se elegendo?” Respondi: Não sei! E fui para outra sala! Depois, comentei com alguns professores e em casa refleti acerca da questão e cheguei à conclusão que a constatação dele era coerente, afinal, se de fato a Educação e os professores tivessem pela sociedade a valorização que merecem tal político cujo nome recuso falar, não por medo de represália, mas pela energia negativa que pensar em seu nome traz, (e nem é necessário, o fato é por todos conhecido), jamais se elegeria novamente. Naquela ocasião (1988), o Magistério perdeu uma batalha, mas não a guerra! Nestes vinte e cinco anos aumentamos a nossa organização e mobilização e fizemos da APP-Sindicato, o maior e mais atuante sindicato do Estado, sempre em busca de melhorias na Educação possibilitando melhores condições de trabalho para os educadores (professores e funcionários) e consequentemente de aprendizagem para os educandos. Certamente há muito que avançar, mas seguimos em busca da utopia necessária de uma educação pública, universal, gratuita e de excelente qualidade como sustentáculo de uma sociedade justa, solidária e fraterna, tal como disse Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Se os políticos fossem sensatos e realmente engajados num projeto de país e não apenas de poder, educadores não precisariam sair de suas salas para reivindicar justos direitos, e se o fazem merecem ser bem recebidos pela importância da profissão que exercem e não da forma truculenta como foram tratados em 30 de Agosto de 1988. Se você discorda pergunte para um médico, um advogado, um engenheiro, um professor, etc. qual foi o profissional mais importante de sua vida e verá que existe a figura do professor que abriu as portas para o exercício de sua profissão. No Japão o professor é o profissional mais respeitado, inclusive o Imperador não raras vezes também se curva para este como prova de mútuo respeito quando dele recebe o cumprimento. Os países desenvolvidos fizeram da Educação prioridade e do professor um grande aliado para galgar ao topo da hierarquia do IDH entre as nações, e se mesmo assim você discorda, deixo a frase proferida por Derek Bok, quando Reitor da Universidade de Harvard: “Se você acha a educação cara, experimente a ignorância”. Penso que o 30 de Agosto (de 1988) não deveria ter ocorrido, mas é fato, então que a passagem dessa data seja sempre um momento de luta por dias melhores para a educação e que a lembrança seja eterna para que aquele “dia(s)” nunca mais se repita!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O gênio pop star


Alguns leitores gostam das sugestões de livros que faço neste espaço, então, como acabo de fazer uma leitura muito aprazível, indico a obra “Einstein: Sua vida, seu universo” de Walter Isaacson. Trata-se de uma leitura agradável que conduz a um passeio entre a vida particular e a carreira científica daquele que é considerado o maior gênio da história. Isaacson consegue com grande sensibilidade retratar um Einstein humano com seus problemas de ordem pessoal (familiar e financeira), suas dificuldades para ingressar no meio acadêmico e desenvolver ciência, descreve sua carreira, os acertos e erros e os erros que se converteram em acertos, pois, mesmo quando esteve equivocado Einstein contribuiu para o avanço da Ciência. Com a leitura da obra é possível avistar uma tênue luz no fim do túnel que leva ao entendimento dessa revolução na história da Ciência chamada Teoria da Relatividade.
O gênio que assombrou o mundo nasceu a 14 de Março de 1879 em Ulm, alemão de nascimento, porém de ascendência judaica, quando criança demorou a falar, foi considerado um garoto idiota por algumas pessoas próximas, mas, quando iniciou seus estudos esteve sempre entre os melhores da turma (ao contrário do que muito se fala a seu respeito). Sempre teve ojeriza à autoridade e dessa forma muitas vezes seu comportamento como acadêmico não era exatamente adequado, por conta disso, adquiriu a antipatia de alguns mestres que dificultaram sua inserção no meio acadêmico como professor universitário.
Einstein mergulhava cada vez mais na ciência conforme os problemas de ordem pessoal se avolumavam, e apesar de seus esforços desenvolvendo artigos científicos teve que se contentar com o emprego de examinador de patentes do Escritório Federal de Propriedade Intelectual de Berna (Suíça), trabalho no qual, durante as horas vagas em 1905 desenvolveu quatro artigos que se complementavam e davam a certidão de nascimento à teoria da Relatividade Especial afirmando que o tempo e o espaço não eram absolutos colocou a ciência de cabeça para baixo.
Mudou-se para Berlim, e em 1915 desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral, com a confirmação da veracidade de suas teorias em experiências desenvolvidas por outros cientistas tornou-se celebridade mundial, e, realizou palestras itinerantes por vários países cujos ingressos eram disputados e contados aos milhares. Em 1933, o Nazismo ascendeu ao poder na Alemanha e o gênio resolveu aceitar o convite para trabalhar nos Estados Unidos, país no qual viveu o resto de seus dias, foi muito investigado pela CIA, por ser simpatizante do socialismo em plena época da “caça às bruxas” do Macarthismo. Era contra qualquer tipo de opressão e não aceitava o cerceamento da liberdade de expressão e por isso não poupava críticas referente ações dos EUA neste sentido e nem mesmo ao stalinismo soviético, líder pacifista, pregava a desobediência civil quando da convocação para as Forças Armadas, por tudo isso foi muito criticado, sendo considerado um asno por políticos e populares, sendo assim, falou: “Grandes espíritos sempre encontram forte oposição de mentes medíocres”.
O receio que os nazistas desenvolvessem a bomba levou-o a escrever uma carta para o Governo Estadunidense sobre a necessidade de fabricar a bomba atômica que a ciência por ele desenvolvida tornava possível, porém, nunca participou diretamente do desenvolvimento da arma, por não ser considerado confiável pelas autoridades militares. Após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagazaki, fato que considerou lamentável foi questionado por um repórter sobre como seria a Terceira Guerra Mundial, afirmou que “sabia apenas como seria a Quarta Guerra Mundial: com pedras”.
 Até o último dia de sua vida esteve às voltas com as equações buscando entender o Universo e tentando resolver o problema que a criação da bomba atômica ocasionou, defendia a criação de um Governo Mundial para evitar as guerras (o único a ter posse das armas atômicas). O “passageiro do raio de luz” finalizou sua viagem por esta dimensão espaço-tempo de forma absoluta em 18 de Abril de 1955 aos 76 anos, no entanto, sua partida será sempre relativa, imortalizado em sua ciência, seu corpo foi cremado e suas cinzas liberadas no Rio Delaware conforme seu pedido, pois não queria que seu túmulo fosse local de peregrinação. Embora o gênio tivesse algumas vezes falado que não gostava de sua popularidade, isso não correspondia ao seu comportamento, ele adorava repórteres e os repórteres o adoravam. 
Einstein era pop e gostava disso!

Sugestão de boa leitura:
ISAACSON, Walter. Einstein: sua vida, seu universo. Companhia das Letras

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Efeito Gabriela

Há muito tempo observo o quão forte é o “Efeito Gabriela” em nossa sociedade, no entanto antes de discorrer sobre o mesmo é necessário que se explique a sua origem que remonta a 1975, quando o cantor e compositor Dorival Caymmi fez para Rede Globo “Modinha para Gabriela” então tema de abertura da telenovela Gabriela inspirada na obra “Gabriela, cravo e canela” do saudoso Jorge Amado. Sobre a novela, a imagem fixada na mente das pessoas que assistiram a primeira versão é a cena da então jovem e sensual atriz Sonia Braga trajando um vestido sobre o telhado de uma casa mexendo ficticiamente com o imaginário dos homens de Ilhéus e também com o imaginário dos homens que assistiram a obra televisiva, embora nem tão ficticiamente (se é que me entendem!). Mais recentemente, a não menos bela atriz Juliana Paes interpretou a referida personagem em uma regravação feita pela mesma emissora, não tenho o hábito de assistir novelas, mas soube que a regravação não teve o mesmo brilho da versão original com Sonia Braga. Reminiscências à parte, o nosso interesse é outro, a letra de “Modinha para Gabriela” que então composta ficou popularizada na voz de Gal Costa e tinha como refrão “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela!”. O refrão de tal música acabou se tornando a definição do que ficou conhecido como “Efeito Gabriela”, ou seja, aquelas pessoas que se recusam a mudar mesmo quando confrontadas com a realidade dos fatos ou de argumentos que desmontam a racionalidade da estrutura mental que embasa sua forma de agir perante a sociedade. Não raramente tais pessoas acometidas pelo “Efeito Gabriela” se irritam quando não conseguem triunfar na sua argumentação tentando justificar aquilo em que acreditam perante outras pessoas, mesmo assim, prosseguem acreditando em ideias equivocadas, porque para elas não se trata de um debate “no mundo das ideias” (uma oportunidade de ambos os debatedores crescerem), mas de se curvar perante aquele que apresentou a mais consistente argumentação, ou seja, algo que o orgulho (ou a teimosia) não admite, aqui se vê o “Efeito Gabriela” em ação: “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela!”. Penso que é absolutamente normal e saudável que as pessoas tenham opiniões diferentes, pois se todos pensassem igualmente, nisso poderia residir o perigo ou no mínimo a burrice, no entanto, existem situações que carecem de qualquer racionalidade e pessoas insistem em acreditar e passar adiante inverdades, manipulações e boatos mesmo contra todas as provas possíveis e imagináveis em contrário. Algumas destas pessoas quando confrontadas com a irrealidade daquilo que estão proferindo se indignam e não raras vezes passam a nutrir um sentimento de antipatia com seus interlocutores. O “Efeito Gabriela” é um mal que acomete pessoas independentemente de sua posição social, nível de escolarização ou idade e parece ser incurável. Diante disso, o melhor é saber como lidar com as pessoas por ele acometidas, assim, meu conselho é: nem todo debate vale a pena, e, aceitar que pau é pedra e que elefantes dormem nos galhos das árvores da Floresta Amazônica pode lhe evitar dissabores (vai por mim!).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O moleque dono da bola!

Há alguns dias Aécio Neves (PSDB – MG) discursou propondo o fim das reeleições, para quem é jovem, é necessário que se diga que o instrumento da reeleição era algo negado pela Constituição Federal, ou seja, o governante precisava deixar o cargo por um mandato e então se recandidatar ao mandato seguinte. Eu disse precisava, pois, num país onde os políticos têm o costume de adaptar a Constituição à sua forma de governar e não o correto que seria adaptar a sua forma de governar à Constituição, os partidos políticos (liderados pelo PSDB) que davam sustentação ao Governo de FHC resolveram mudar a Constituição Federal para implantar a reeleição alegando que essa era uma metodologia adotada em várias democracias consolidadas do planeta entre elas os Estados Unidos da América e que quatro anos era um prazo insuficiente para a execução das reformas que o país precisava. Todos sabem que Fernando Henrique Cardoso tem grande zelo por sua biografia, mas, na ocasião não teve dúvidas de manchá-la (se bem que existem outras inúmeras manchas!) com um golpe branco alterando a Constituição Federal em benefício próprio, pois o correto seria alterá-la para o mandato seguinte, ou seja, somente quem se elegesse em 1998 teria o direito de se recandidatar. Em 2009, houve quem sugerisse dentro do PT a alteração da Constituição para que não houvesse a limitação de apenas uma recondução ao cargo, assim, Lula poderia novamente se candidatar do alto de sua imensa aprovação popular, no entanto, tal fala foi logo abafada pela oposição e pela grande mídia avessa à ideia e mesmo Lula se pronunciou contra tal estratagema contrariando alguns colegas de partido, sim, Lula não era FHC e tinha uma biografia a zelar. Na época escrevemos o artigo “Terceiro mandato: a oposição não dorme de touca” destacando a grande agilidade da oposição em não permitir que o mesmo artifício (golpe) aplicado por FHC fosse agora utilizado por Lula e apesar de aprovar a gestão de Lula e de ser admirador de sua trajetória política também me posicionei contra a rereeleição pelos riscos à democracia que ela podia implicar. Eu tenho orgulho de dizer que jamais votei em FHC, mas isso não me exime de lamentar muitas coisas que FHC fez em seus dois mandatos tais como o irresponsável e lesa-pátria programa de privatizações conhecida como “privataria” (privatização + pirataria) o qual se a Justiça realmente funcionasse neste país, FHC e muitos figurões do seu governo estariam respondendo por crimes de improbidade administrativa conforme ficou evidenciado com provas no Livro “A Privataria Tucana” de Amaury Ribeiro Jr. Em nenhum dos países considerados pela situação em 1997 (atual oposição) como “democracias consolidadas” a ferramenta da reeleição foi retirada e os Estados Unidos da América, país que muitos tupiniquins neoliberais sonhariam ter nascido continua permitindo a reeleição (Obama é presidente reeleito). Penso que uma recondução ao cargo é viável e algumas vezes até necessária, pois as questões governamentais são complexas e exigem ações cujo prazo de quatro anos pode ser pouco para efetivá-las, como afirmaram os tucanos em 1997. Então qual é o motivo pelo qual aqueles que implantaram a reeleição à custa inclusive de denúncias comprovadas de compras de votos para conseguir atingir os 3/5 dos parlamentares para a alteração constitucional agora desejam o seu fim? A resposta, caro leitor, eu tiro dos meus tempos de moleque, pois, pobre (embora nunca me faltasse o essencial) raras vezes fui dono de bola de futebol e naquele tempo o garoto dono da bola jogava sempre (mesmo que fosse perna-de-pau), escolhia os melhores jogadores para o seu time, assim, aumentava as possibilidades de ser vitorioso, porém, ao começar a levar um “vareio” no jogo e não vendo possibilidades de virá-lo, não raras vezes pegava a bola e ia para casa. Aécio Neves tem muito desse moleque dono da bola, pois, “ele e seu partido consideram que a reeleição somente é válida se os beneficiar” como disse um apresentador de telejornal cujo bordão utilizo para encerrar este artigo: Aécio, “isso é uma vergonha”!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O caixeiro-viajante, o professor e a sociedade!

Neste instante em que começo a escrever estas linhas me lembrei de um comercial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em que um caixeiro-viajante passava uma vez por ano em uma cidadezinha e toda vez que o fazia via a figura de um homem no meio de uma praça fazendo um discurso com o qual concordava, mas ninguém parava para ouvi-lo, após alguns anos vendo a mesma cena o caixeiro viajante resolveu interpelá-lo afirmando: Concordo com tudo o que diz, mas eles não lhe ouvem! E você não conseguirá mudar a forma de agir deles! Então, porque insiste? O homem então se voltando para o caixeiro-viajante disse em voz calma: é que se eu desistir, além de não mudá-los, eles é que terão mudado a minha forma de ser! Nós professores temos muito desse homem persistente, pois, muitas vezes em nossa prática de sala de aula devido ao descompromisso de parte de nossos educandos com a aprendizagem nos sentimos semeando nas rochas com a esperança que uma semente caia numa fenda, germine e cresça uma planta vigorosa. Vivemos um momento de mudanças radicais na sociedade, grande parte da juventude não aceita mais as respostas prontas que a geração anterior lhe proporciona, desconfia e considera inúteis as ideologias que deram sustentação à sociedade moderna, declaram não possuir ideologias, sendo isto na verdade uma ideologia conservadora, pois ao negar a luta de classes e o marxismo que se opõe ao Capitalismo Neoliberal, fortalecem este último. Alguns se declaram “pós-modernos”, a maioria presa à alienação, possui muita informação e pouco conhecimento. Empunham várias bandeiras, mas intencionalmente ou não, acabam por carregar a faixa do conservadorismo, pois, longe de transformar a sociedade em algo melhor perigosamente contribuem para trazer de volta ao palco do Poder os representantes do retrocesso, pois, minam um governo progressista que trouxe grandes avanços na área social. A sociedade age tal qual a Alegoria da Caverna de Platão em que algumas pessoas estavam acorrentadas no fundo de uma caverna e jamais tiveram contato com o mundo exterior, e assim, sem explicações para sombras projetadas pela luz vinda da entrada e que atingia a parede no fundo da caverna, associavam os sons que ouviam às sombras e criavam as suas noções da realidade, até que certo dia, um prisioneiro conseguiu se libertar, saiu e tomou contato com o mundo exterior, viu que os sons eram de pessoas que passavam e que as sombras projetadas caverna adentro eram de plantas e estátuas e volta para dentro da caverna para libertar da ignorância os seus companheiros e estes após ouvi-lo o matam e continuam com suas velhas crenças, assim é a nossa sociedade que até ouve mas não compreende, cultua sombras e dá as costas para a luz. Há muito da Alegoria da Caverna em nossa sociedade, há pessoas que insistem em acreditar no boato da Bolsa-Prostituta¹ na qual o Governo Federal iria dar R$ 2000,00 mensais para todas as prostitutas e que circulou nas redes sociais e que por iniciativa da Deputada Federal vítima da calúnia está sendo investigada pela Polícia Federal. Houve também a Bolsa-Crack² como se fosse um programa do Governo Federal (na verdade um programa do Governo do Estado de São Paulo – PSDB e que paga o tratamento de dependentes em clínicas particulares até o valor mensal de R$ 1350,00) uma atitude que não deve ser condenada, feita a ressalva de que seria melhor se realizada por clínicas/hospitais públicos e virasse política de Estado. A outra polêmica diz respeito à Bolsa-presidiário, ou seja, dizem as pessoas mal informadas que o criminoso é premiado com um valor mensal superior ao salário mínimo por ter cometido crimes, na verdade, o criminoso não recebe nada, o “auxílio-reclusão”³: é um benefício dos segurados do INSS, ou seja, ampara a família (esposa e filhos) do segurado. As pessoas que têm como senso de justiça que esposa e filhos do segurado não usufruam de um benefício instituído em 1991, além de negar tal amparo, condenam inocentes e indiretamente estimulam seus dependentes para que entrem no mundo do crime e da prostituição. Enfim, como disse o Dalai Lama “Seja a mudança que quer ver no mundo”, quer um país sem corrupção, não seja corrupto(r). Quer mais recursos para a Educação e a Saúde? Não sonegue! Quer um mundo mais humano? Seja humano, coloque-se no lugar do outro! Fonte: 1. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed747_ingenuidade_perigosa_nas_redes_sociais – Acesso em 23/07/2013. 2. http://odia.ig.com.br/portal/brasil/governo-de-s%C3%A3o-paulo-vai-dar-bolsa-crack-a-viciados-1.579518 – Acesso em 23/07/2013. 3. http://www.previdencia.gov.br/conteudoDinamico.php?id=22 – Acesso em 23/07/2013.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Um estranhamento necessário!

Algumas vezes escrevo sobre algo e posteriormente com grande felicidade encontro artigos de pessoas de notório saber com opiniões convergentes, não é o caso deste artigo que ora inicio, explico, antes de escrever as primeiras linhas tomei contato com o excelente artigo da jornalista Eliane Brum “Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando?”¹ embora tivesse a pretensão de escrever sobre tal tema a um bom tempo. Professor que sou sempre me intrigou o fato de a sociedade chamar médicos e advogados de “Doutores” e professores com doutorado apenas como professores. Há algum tempo conversei com um ex-aluno que me perguntou se eu “ainda” era professor como quem diz: Ainda não achou uma coisa melhor como profissão? Não dei importância, ou pelo menos procurei não demonstrar descontentamento, pois muitas pessoas fazem tal afirmação e me contou que estava cursando Direito, disse-lhe que considerava o Direito um curso muito interessante e ele afirmou entusiasmado que futuramente seria tratado como “Doutor” dando a impressão que isto era o mais importante e um diferencial da profissão. Noutra oportunidade, um agricultor de um município vizinho me contou que ao consultar um médico, este exigiu que lhe chamasse de “Doutor” e o agricultor lhe respondeu que Doutor é quem faz doutorado e que o chamaria se mostrasse o diploma de doutorado. Sempre pensei que este tratamento dado pela sociedade aos “doutores” em questão se devia à história educacional de nosso país, ou seja, em terra que o analfabetismo vigora quem tem um pouco de estudo é doutor, assim, teria nascido o “doutor das leis” (advogado) e o “doutor médico”. Lendo o excelente artigo de Eliane Brum, confirmei minhas suspeitas de que essa forma de tratamento se deve mesmo ao passado² que insiste em ser presente de uma nação gigantesca que não conseguiu ainda na segunda década do Século XXI se desvencilhar do analfabetismo, e, principalmente, mesmo sendo sabedores que há muito tempo a escravidão acabou, a divisão Casa Grande e Senzala permanece dando sustentação ao tecido social de nosso país tendo em vista termos uma das piores distribuições de renda do mundo. Eliane Brum em seu belíssimo artigo afirma que essa forma de tratamento deve ser cada vez mais tratada com estranhamento, pois diz respeito à realidade de nosso país, ou seja, ao chamar médicos e advogados de “Doutores”, o paciente e o cliente que já costumam entrar nos ambientes de trabalho de tais profissionais com um sentimento de submissão além de lhes conferir tal status de superioridade reconhecem como natural a extrema desigualdade social de nosso país. No caso dos professores que após a graduação e entre o Mestrado e o Doutorado dedicaram pelo menos seis anos de grandes esforços nos estudos desenvolvendo pesquisas para o progresso do conhecimento científico e que deveriam ser assim considerados, não o são, num país que não aprendeu ainda a valorizar a Educação (não falo somente das autoridades constituídas), pois, grande parte da sociedade nela incluindo pais e alunos não aprendeu dar à Educação o valor que ela não apenas merece, mas também necessita. Segundo Eliane Brum, embora os Professores Doutores em seus artigos e correspondências oficiais subscrevam o “Doutor” junto aos seus nomes, não se sentem à vontade em assim serem chamados. Faz sentido! Se Doutor é sinônimo de Casa Grande, professor no Brasil ainda é sinônimo de Senzala. Fonte: 1.http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/09/doutor-advogado-e-doutor-medico-ate-quando.html – Acesso em 16 de julho de 2013. 2. Há um decreto Imperial de D. Pedro I da época em que o Brasil era escravocrata, o detalhe é que como o Império acabou em 1889, questiona-se a validade de tal decreto! P.S. Em minha opinião doutor é quem faz doutorado e se fosse médico ou advogado (sem doutorado) dispensaria tal forma de tratamento.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Meu conselho ao Gigante!

Há um intenso debate sendo desenvolvido nas entrelinhas de discursos que por meio da exploração do senso comum tentam angariar a simpatia da opinião pública e este diz respeito ao tamanho do Estado Brasileiro. Há uma elite privilegiada que o quer mínimo, explica-se: um Estado Mínimo (tão saudado e desejado pelos neoliberais) é um Estado débil para atender as necessidades da população carente e ao mesmo tempo forte para impedir as manifestações dos trabalhadores tidas como desordem para os detentores do Poder Econômico e Político. O Estado do Mínimo tem um governo “testa de ferro” do Grande Capital, mas que concede algumas migalhas para a pequena burguesia alienada que sai cantando glória ao capitalismo, não percebendo ou não dando importância ao fato de ser ela também explorada na perversa hierarquia do Darwinismo Social. Assim, os defensores do Estado do Mínimo são contra as políticas de resgate social por eles chamadas de assistencialismo. Eu até entendo (embora considere egoísmo) que se a pessoa possui terras, ou é dona de banco, ou, retira a mais-valia¹ de alguém defenda o Capitalismo Neoliberal, mas o que dizer de quem é trabalhador e faz a defesa cega do mesmo? Um Capitalismo excludente cuja natureza intrínseca são as crises periódicas e rotineiras a ponto de quando sairmos da atual crise econômica que é mundial, a pergunta a nos perseguir não é se haverá uma nova crise, mas quando será? Teremos tempo para retomar o fôlego? A grande maioria dos brasileiros deseja que o Estado ofereça os serviços de excelente qualidade ofertados pela Suécia, no entanto, ignora que não há soluções mágicas, existe uma conta a se pagar na forma de impostos, a Suécia é o segundo colocado no ranking de tal quesito (56,6%), mas o cidadão sueco é cuidado pelo Estado do momento em que nasce até o seu sepultamento. Observei nos últimos dias nas redes sociais vários posts colocando o Brasil que na verdade é o 55º colocado no ranking como sendo possuidor do Leão mais esfomeado do mundo². Precisamos então escolher: queremos avançar em direção a um Estado de Bem-Estar Social? Se assim desejamos, devemos pagar por isso na forma de impostos! Ou queremos a redução dos mesmos? Então a única saída é o Estado Mínimo, ou seja, o “Reino Neoliberal do salve-se quem puder” onde a lei do mais forte impera e o desfavorecido morre à míngua, mas neste caso fica uma importante questão: É justo do ponto vista moral e ético condenarmos o presente e o futuro do próximo pelo fato deste não ter nascido em berço confortável? Há alguns anos publiquei um artigo com o título “Será que devemos comemorar o fim da CPMF?”, a maioria da população estava exultante com o fim da mesma, a CPMF destinava seus recursos para a saúde, o percentual máximo de tal contribuição sobre toda a movimentação financeira chegou a 0,38%, um percentual baixo, mas que representava um montante significativo conforme o tamanho das operações financeiras, ou seja, os privilegiados pagavam mais, por isso, a gritaria pela sua extinção. A elite desse país que representa o grande capital, começou a rufar seus tambores contra a cobrança e encontrou eco na classe média e em congressistas que quando formavam a base governista se diziam ferrenhos defensores da Saúde e, portanto da CPMF e quando o destino os jogou na oposição passaram a defenestrá-la. A cobrança da CPMF dava um importante indicativo para a fiscalização quanto a possíveis sonegações, pois evidenciava movimentações financeiras que fossem superiores às declaradas. Enfim, o gigante acordou e quer uma Educação e uma Saúde no padrão “FIFA”, mas quer pagar por elas o preço do campinho desnivelado sem arquibancada e com traves de madeira situado no potreiro da fazenda. Considero legítimo o direito da população brasileira em querer que a saúde, a educação, a segurança e a infraestrutura sejam de ótima qualidade, mas se deve ter a consciência que faltam recursos financeiros para isso se viabilizar, assim, o povo precisa se conscientizar quanto ao modelo de Estado que deseja (nesse caso o Estado de Bem-Estar Social), e, parar de reclamar tanto pelos impostos que paga. Devemos cobrar a boa administração dos recursos existentes e também uma fiscalização rigorosa no combate à sonegação que é estimada em mais de 400 bilhões de reais/ano, recursos estes que ajudariam muito na melhoria da qualidade dos serviços públicos que recebemos. Então, gigante, peço que não fique chateado com a minha pretensão, mas deixo-lhe um conselho: não compre discursos de quem tem ojeriza por tudo que é público e só vê no lucro individual a sua razão de viver. 1. Mais valia é o nome dado por Karl Marx à diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário pago ao trabalhador, que seria a base do lucro no sistema capitalista. 2. http://exame.abril.com.br/economia/noticias/os-dez-paises-onde-mais-se-paga-imposto-de-renda?p=10#11- Acesso em 09 de Julho de 2013.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Terra de ninguém

As recentes manifestações que tomaram conta do país se converteram numa “terra de ninguém”, ou seja, uma área em disputa entre as trincheiras do Governo e as da oposição, no entanto, a necessária penetração nessa área por qualquer uma das partes não se faz sem o risco de alguns arranhões na imagem, uma vez que a artilharia não atira numa só direção, mas em todas as direções possíveis e imagináveis. Compreender a motivação das manifestações a partir do senso comum é fácil, porém, o fazer tentando compreender a verdadeira motivação e o real teor sem cair na generalização constitui objeto de estudo para teses de pesquisadores nos próximos meses ou anos. Não por acaso intelectuais fizeram um enorme esforço para entender do que afinal se trata, pois, não há uma bandeira definida, são muitas bandeiras, trata-se de uma autêntica “Torre de Babel” onde há discursos os mais diversos e entre estes muitos incongruentes. A dificuldade em entender a mensagem se deve ao fato de que os manifestantes são de diversas “tribos” tais como os anarquistas, os punks, os neonazistas, os conservadores, os oposicionistas de direita e da esquerda (radicais). A origem se deve ao movimento do passe livre (MPL), que protestava contra o aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, mas a chamada por este movimento para as manifestações através das redes sociais teve o efeito de um rastilho de pólvora tomando uma proporção inimaginável. Na esteira deste movimento, vieram pessoas com o infeliz e inconsequente discurso da volta dos militares, ou seja, da ditadura, entre estes muitos pensam que com a ditadura não haveria mais corrupção e impunidade (ledo engano, um pouco mais de dedicação aos estudos ou uma boa pesquisa histórica derruba tal tese). Além disso, ecos se propagaram na sociedade ao ponto de pessoas comuns defenderem a volta da ditadura para coibir estes manifestos principalmente por causa da ação dos vândalos que agem ao final dos mesmos. Para quem acha exagero temer a volta dos militares, houve declarações de generais afirmando que o país está próximo de uma guerra civil e que a volta dos militares ao poder “não é impossível, embora improvável”, ou seja, o ovo da serpente está sendo chocado. No decorrer das manifestações muita gente bem intencionada que estava feliz com o fato de o povo brasileiro vencer a apatia desistiu de emprestar sua imagem e sua voz às manifestações conforme ia ficando evidente a manipulação exercida por setores conservadores da sociedade e da mídia. Durante os protestos movidos a muito senso comum, má informação e desinformação, pouco ou nenhum embasamento acerca dos avanços sociais que o país alcançou nos últimos anos, ficou evidente duas coisas: a manipulação exercida pelos grandes meios de comunicação de massa que resolveram capitalizar as manifestações como sendo unicamente contra o atual governo federal com o objetivo claro de trazer de volta ao país o receituário conservador e elitista que representam agindo condizentemente com aquilo que de fato significam: o maior partido de oposição deste país (Partido da Imprensa Golpista - P.I.G.). A outra evidência é de que a massa dos manifestantes é formada basicamente pela classe média e, dentre estes muitos jovens pós-modernos que como tal negam a história (a luta de classes) e pregam a neutralidade (sem ideologias) como se isto não fosse ideologia e, pior, ideologia conservadora. Entre os manifestantes há neonazistas (que dispensam apresentações), e, pessoas que nasceram em berços confortáveis criticando os programas sociais de amparo à população marginalizada desde que esse país é Brasil e enquanto não é “Brazil” como querem alguns que aderiram às passeatas. No início dos protestos o Governo ficou temeroso que a oposição se apossasse das manifestações, porém, com a continuidade das mesmas que parecem não ter fim, agora é a oposição a temer que o Governo se aproxime dos manifestantes e comece a carregar suas bandeiras em prejuízo da direita que almeja voltar ao Poder, enfim, como afirmei inicialmente, as manifestações tornaram-se uma terra de ninguém!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Telhado de vidro

Há alguns dias a Presidenta Dilma foi vaiada em solenidade de abertura da Copa das Confederações cujas imagens correram o mundo representando um vexame para o país, um significativo constrangimento para a Presidenta e um momento de êxtase para seus opositores. Sobre as vaias teve quem mesmo se declarando opositor ao atual governo achasse falta de educação por se tratar de representante eleita pelo povo e também quem as apoiasse, entre estes, alguns políticos de direita sentiram um prazer orgástico pela vaia, mais tarde foram chamados à luz da razão pelo Senador paranaense Roberto Requião que afirmou: “os políticos da oposição não devem se sentir afagados com a vaia: a vaia foi para os políticos em geral. “sintam-se vaiados”, disse ele, incluindo-se na lista”. Há um velho ditado que afirma: “se você possui telhado de vidro não deve jogar pedras no telhado do vizinho” que por razões obvias irá revidar e também seu telhado será atingido. Em diversas oportunidades assisti políticos que faziam fila para aparecer na TV fazendo discursos contra a corrupção e depois estes paladinos defensores da ética política e da moral societária nacional foram flagrados em atos de corrupção, não sabiam os mesmos que tinham telhado de vidro? Sabiam sim, mas dá Ibope falar contra a corrupção, houve até presidente que se elegeu com o apoio da mídia “Global” fazendo discursos pela caça aos “Marajás” e o fim da corrupção e saiu do Governo no meio do seu mandato caçado por corrupção. Sim, é delle que estou falando. Penso que além de um momento de reflexão da classe política como um todo, este deve ser um momento em que nós povo brasileiro devemos refletir sobre nossas práticas. Lembrei neste instante do craque da seleção brasileira Gérson que ao protagonizar um comercial de cigarros trouxe grandes prejuízos à sua imagem e cuja infeliz frase por ele proferida virou a famosa “Lei de Gérson”, a frase: “o importante é levar vantagem em tudo”, demonstra a cultura brasileira, assim, parte dos brasileiros, entre várias outras atitudes condenáveis do ponto de vista ético, compram produtos falsificados, CDs e DVD’s piratas, fazem “gatos” para receber o sinal de TV por assinatura sem pagar (cuja empresa não recebe pela prestação de serviços e assim não contribui com impostos ao país), compram produtos no exterior e não pagam os impostos devidos, se recusam a dar nota fiscal ou recibo por serviços prestados, não declaram rendas extras ao imposto de renda, etc. A sonegação em nosso país é tanta que o Sindicato dos Procuradores da Fazenda (Sinprofaz) lançou o “sonegômetro” um placar semelhante ao famoso “impostômetro” (que marca quanto de impostos o país arrecada em tempo real), ao contrário deste, o “sonegômetro” irá marcar em tempo real os valores desviados da arrecadação pelos golpes para fugir de tributos. Sabemos que a carga tributária Brasileira é alta (36%), porém, segundo o presidente do Sinprofaz Alan Titonelli Nunes ela poderia ser reduzida em 20% se houvesse uma diminuição da sonegação. Outro grave problema da tributação brasileira apontado por Nunes é que os mais pobres proporcionalmente pagam mais impostos que os mais ricos pelo fato de a tributação ocorrer sobre o consumo e não sobre a renda, além disso, não são os pobres os que mais sonegam, mas os mais ricos*. Dessa forma, acreditamos que deveria ser aberta a gaveta empoeirada e com teias de aranhas do Congresso Nacional e dela ser retirado o projeto para criação do Imposto sobre Grandes Fortunas, além disso, criar mais faixas de contribuição no Imposto de Renda (10 seria o ideal) de forma a tornar a arrecadação progressiva (mais renda, mais imposto) aliviando a carga tributária da população trabalhadora. Enfim, se alguém perguntasse tal como na passagem bíblica: “atire a primeira pedra quem nunca “pecou” (utilizou o jeitinho brasileiro)? Muito possivelmente quase todas as pedras (senão todas) seriam soltas ao chão, no entanto, se grande parte dos políticos não estão à altura do povo brasileiro, este também não está à altura da imagem que pretende enquanto povo de país que se espera um dia desenvolvido. Há alguns dias afirmei para alguns colegas professores que desenvolver uma cultura anticorrupção é um exercício diário que implica abandonar o “jeitinho brasileiro”, pois como afirmou o Dalai Lama: “Seja a mudança que quer ver no mundo”! Assim, como telhados de vidro não são exclusividade dos políticos, precisamos verificar constantemente de que material é feito o nosso telhado e substituir as telhas que se fizerem necessárias. Fonte: * http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/06/05/sonegometro-vai-calcular-quanto-o-brasil-deixa-de-arrecadar-em-impostos.htm - acesso em 22 de junho de 2013.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A difícil escalada!

Karl Marx afirmou que precisamos entender a sociedade como se estivéssemos escalando uma montanha, faz todo o sentido, pois, quanto mais tento entendê-la, mais cansado fico e com vontade de desistir, pois, a montanha que Marx falou certamente é a mais íngreme. Entendo que faz parte do jogo político fazer oposição e isso é salutar para a democracia, no entanto, o que me entristece é ver pessoas defendendo a volta dos militares ao poder sob o argumento de que há muita corrupção, como se no período militar não houvesse, a diferença é que hoje existe investigação, e, no tempo da ditadura os meios de comunicação eram censurados, deputados e senadores bem como os ministros do Supremo Tribunal Federal estavam de mãos atadas, nada podiam fazer contra a autoridade militar sob pena de correr riscos, portanto, não se trata de considerar a corrupção natural, mas, afirmar que nos governos militares não havia corrupção é próprio de alguém mal informado, quando não, mal intencionado. Penso que se ainda hoje pessoas que viveram a ditadura militar a defendem, o fazem por sua ideologia, endossando a exclusão social, os desaparecidos políticos, as torturas e as mortes e em nada são diferentes aos líderes estadunidenses que afirmam que danos colaterais (mortes de inocentes) se fazem necessários em suas guerras intervencionistas mundo afora (para que seus privilégios sejam mantidos). No entanto, preocupa-me haver jovens que eram crianças demais ou nem mesmo eram nascidos à época da ditadura militar defendendo a sua volta, certamente, o leitor já chegou à conclusão que os mesmos devem estar contaminados pelo meio em que vivem e por má informação acerca do período. Isto me fez lembrar um curso em que o palestrista, um grande amigo e lutador incansável pela causa da Educação Pública proferiu uma frase marcante, disse ele: “tem alunos que aprendem com o professor, sem o professor e apesar do professor”. Nada mais verdadeiro! Grande é a nossa culpa como professores se jovens que passaram pela escola, ainda hoje têm essa deformada visão do período militar e consideram que a solução para tudo aquilo que discordam está na absoluta ausência de democracia. Estes jovens esquecem, ou melhor, desconhecem a história nacional e por assim o fazer não reconhecem os esforços daqueles que prestaram anos de suas vidas lutando e muitas vezes derramando o próprio sangue para que pudéssemos hoje viver num país democrático. Em nossa sociedade há pessoas que acreditam serem críticos os que se posicionam contrariamente às decisões governamentais e alienados aqueles que as apoiam, no entanto, ser crítico é ter a capacidade de ler as entrelinhas, ver para onde o país está caminhando, que tipo de sociedade se quer formar, acompanhar os dados estatísticos e compará-los com períodos anteriores, e, de posse de tal fundamentação, apoiar o que é digno de ser apoiado e criticar aquilo que deve ser combatido. É pena que nem todo mundo leia a Constituição Federal, pois a mesma estabelece que o combate à miséria e às desigualdades regionais é obrigatoriamente prioridade de qualquer governo que cumpra a Carta Magna. Reafirmo isso, pois, há em nossa sociedade pessoas que nasceram em berços confortáveis que entendem que o país deve ser lar para alguns e não como de fato deve ser, para todos, sem discriminação de qualquer espécie. O Brasil somente será um país desenvolvido no dia em que conseguir reformar toda a sua estrutura social, fazer a reforma agrária por que nasceu latifúndio, redistribuir a renda porque nasceu Casa Grande e senzala, enquanto algumas pessoas não entenderem isso, continuarão defendendo ideias que exalam o odor de suas mentes impuras.