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sábado, 25 de fevereiro de 2023

Um olhar para o Irã e uma reflexão necessária sobre o Brasil

 

É preciso retirar a venda colocada pela mídia ocidental e se colocar na posição do Irã para entendê-lo e tirar lições!

           

            Imagine que todos os países vizinhos do Brasil são seus inimigos e gastam fábulas em armamentos. Imagine que os Estados Unidos da América têm grande interesse de colocar nossas riquezas naturais à sua disposição, possuem bases militares em quase todos eles e colocam porta-aviões e destróieres próximos a nossa costa e nos ameaçam o tempo todo.

            Imagine que os EUA nos considera integrantes "do eixo do mal", não aceitam nossa cultura e nossa organização política, tendo várias vezes interferido, apoiando golpes de Estado e fazendo guerra por procuração utilizando um país vizinho (a Argentina, por exemplo), o que ocasionou uma enorme perda de vidas e de recursos financeiros para os países contendores e lucrativos negócios para a indústria bélica estadunidense.

            Imagine (apenas imagine) que os Estados Unidos já se utilizou da Argentina, o país mais armado da região (inclusive possuidor de bombas atômicas e a qual os EUA repassa grande parte das armas mais avançadas de seu arsenal)  para nos intimidar e inclusive destruir nossas instalações militares onde desenvolvemos pesquisas nucleares com fins pacíficos (medicina nuclear e energia nuclear).

             Imagine que os Estados Unidos proíbe a venda de equipamentos militares ao Brasil que possuam componentes com tecnologia de empresas estadunidenses e os fornece à profusão aos nossos inimigos. Imagine que os Estados Unidos proíbam que suas empresas façam comércio com o Brasil e também que proíbam que as empresas estrangeiras que atuam em território estadunidense façam comércio com o Brasil. Imagine que os Estados Unidos impeçam que organismos internacionais forneçam empréstimos ao Brasil, além de ter expulsado o Brasil do sistema de compensação bancária global (Swift) prejudicando as exportações e importações brasileiras.  Imagine que os Estados Unidos promovam além do que falei outras sanções contra o Brasil e inclusive pressionem outros países a não fazer comércio com o Brasil. Imagine que já tivéssemos tido guerras com os países vizinhos e que eles odiassem o povo brasileiro e se aliassem aos Estados Unidos esperando a hora de nos destruir. O que faríamos?

            Antes que haja ataque raivoso, não sou filiado a nenhum partido político, sou formado em Geopolítica e Relações Internacionais e defendo um caminho de independência do país com relação a sua soberania. Não posso deixar de observar que russos e chineses nunca embargaram ou sancionaram o Brasil, mesmo assim, penso que o Brasil não deve estar em posição de submissão a nenhuma das potências. A médio e longo prazo o Brasil precisa desenvolver sua indústria nacional de defesa de forma independente e, no curto prazo encontrar fornecedores mais confiáveis. Os países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) já demonstraram que não são, pois, os Estados Unidos da América em várias oportunidades embargaram a venda de equipamentos militares brasileiros (aviões e tanques) a outros países por estes possuírem dispositivos estadunidenses. Nesse momento, a Alemanha faz o mesmo impedindo a venda dos blindados Guarani (que utiliza dispositivos alemães) às Filipinas (114 blindados) e à Argentina (156 blindados). O embargo alemão se deve à posição brasileira de manter a neutralidade e não somar esforços no processo de armamento da Ucrânia com vistas à guerra que aquele país trava com a Rússia.

             Penso também que, os Estados Unidos é a potência que tem o maior interesse em que nos mantenhamos submissos, que não consigamos aumentar a nossa influência na América do Sul e em todo o Sul (mundo subdesenvolvido). Aos Estados Unidos não interessa que tenhamos uma indústria de defesa capaz e competente tecnologicamente, prova disso são as dezenas de embargos quanto a equipamentos, componentes e tecnologias que foram vetadas ao nosso país sob a alegação de que excede a capacidade que os Estados Unidos aceitam para o nosso país. As riquezas nacionais, sobretudo a Amazônia, despertam a cobiça internacional, não falta na Europa ou na América Anglo-Saxônica quem defenda a sua internacionalização, sobre o pretexto da preservação ambiental (que deve ser feita! Por nós!), mas, que sabemos haver outros interesses, não sejamos ingênuos!

            Cabe a nós decidirmos, seremos eternos vassalos do imperialismo estadunidense e das decadentes potências europeias? Ou trilharemos o nosso próprio caminho, fazendo nossas próprias escolhas? Precisamos lentamente descolar das velhas potências imperialistas e do dólar. É frustrante observar essa louvação que existe aos Estados Unidos no Brasil, ideologias a parte, o país norte-americano representa uma ameaça maior aos nossos interesses desenvolvimentistas do que qualquer outro, até porque sempre consideraram a América Latina seu quintal. Hoje o Irã, é considerado parte do "eixo do mal" por não ter se ajoelhado perante o Ocidente (EUA/OTAN) e sofre todo tipo de sanções. Amanhã poderá ser o Brasil!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico

 

O/a leitor(a), obviamente ouviu inúmeras vezes que a depressão é o mal do século, sendo diretamente relacionado à modernidade (ou pós-modernidade) em que vivemos. A pessoa com depressão não passa incólume ante os fanáticos religiosos que à doença ou transtorno mental atribuem uma vida de pecados e a necessidade de conversão, ou ainda, a visão reducionista de que tudo sempre se resume à questão biológica, pois, o cérebro não estaria produzindo o hormônio da serotonina. A verdade é que a depressão continua a ser um grande desafio para a ciência e, se ainda hoje determinar a origem do sofrimento de um indivíduo é como caminhar em meio a um forte nevoeiro não vendo muito além do chão onde se pisa, imagine algumas décadas atrás.

            Os autores Christian Dunker, Nelson da Silva Junior e Vladimir Pinheiro Safatle na obra "Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico" demonstram que a expansão do neoliberalismo trouxe em seu bojo a multiplicação dos casos de depressão, sendo tal doença ou transtorno mental detalhadamente descrita quanto às suas características, porém, tal grau de investigação não é realizado quanto à causa comum (o neoliberalismo). O Neoliberalismo (novo liberalismo) é muito mais que uma retomada dos ideais do Liberalismo Clássico tal como proposto pelos pensadores clássicos Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1773-1824) ou seja, é a sua radicalização. Não se trata apenas de implantar o ideário neoliberal na economia e na gestão dos governos, mas de fincar raízes na mentalidade e na moralidade dos indivíduos que compõem a sociedade. Isso fica evidente na fala da então Primeira Ministra do Reino Unido Margareth Thatcher (1925 - 2013) quando disse "A economia é apenas um meio, nosso objetivo é mudar mentes e corações".

            O Neoliberalismo tem como objetivo construir uma sociedade livre (para o capital), baseada no Estado Mínimo, no individualismo, na quebra da solidariedade, no desmonte das leis trabalhistas, no enfraquecimento dos sindicatos, na despolitização da vida e na formação de um sujeito incapaz de pensar sobre sua própria realidade. Para atingir tais objetivos, o pensador neoliberal Friedrich Von Hayek (1899-1992) disse preferir uma "ditadura liberal a uma democracia sem liberalismo", essa frase fala por si só, nada mais é necessário acrescentar quanto ao caráter antidemocrático do Neoliberalismo que teve no Chile, sob a ditadura do General Augusto Pinochet, seu principal laboratório. Nos tempos atuais, o indivíduo jogado na informalidade devido à escassez da oferta de emprego formal é chamado de "empreendedor", mesmo que na imensa maioria dos casos preferisse ter um emprego formal e os direitos trabalhistas dele resultantes.

            Os trabalhadores, rebatizados como "colaboradores", numa tentativa de mascarar a exploração do trabalho e da luta de classes, afinal, o colaborador é quem colabora no processo e não quem de fato produz a riqueza, além disso, o ato de colaborar é "voluntário", embora a necessidade da sobrevivência ditada pelo Neoliberalismo não dê ao indivíduo outra possibilidade, apesar do discurso da liberdade para vender sua mão de obra no mercado, é o mercado que fixa o valor desta pela Lei da Oferta e da Procura. O mercado, por sua vez, considera como ideal a existência de razoável número de desempregados para não haver pressão sobre o valor da mercadoria mão de obra, majorando-a.

            A flexibilização dos direitos trabalhistas nada mais é que a destruição dos mesmos para possibilitar uma maior acumulação capitalista com o aumento da exploração da mão de obra, agora ainda mais precarizada. O indivíduo que abre uma microempresa individual e passa a prestar serviços para a empresa em que sempre trabalhou, agora é um "empresário de si mesmo", ou seja, torna-se escravo de si próprio. O seu rendimento financeiro está relacionado ao seu desempenho na prestação do serviço. Em busca de migalhas a mais, passa a ter uma forte auto-cobrança, precisa performar e melhorar mais. Seja pela exaustão ou visando ter melhor performance não são poucos os que recorrem aos médicos, ou seja, o Neoliberalismo esgota o trabalhador e lucra com sua exaustão vendendo os farmacológicos que lhe darão a pílula da felicidade ou da melhor performance.

            Seja no trabalho formal ou no assim chamado "empreendedorismo", os indivíduos são cobrados ou se cobram cada vez mais. O que fazem nunca é bom o suficiente (qualitativamente/quantitativamente). Estão sempre em débito com os outros ou consigo próprios. A necessidade de uma melhor performance quase nunca alcançável dado o grau de exigência os leva à incerteza, à insegurança, à angústia e a frustração. A doutrinação neoliberal impõe a culpa do fracasso no indivíduo, este por sua vez adoece com o sentimento de inadequação e da constatação de que não é produtivo o suficiente.

P.S. A obra é de grande profundidade teórica e o tema vasto e complexo. Este artigo constitui breve noção do tema retratado na obra. Fica a dica!

 

Sugestão de boa leitura:

 

Título: Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico.

Autor: Christian Dunker; Nelson da Silva Junior e Vladimir Pinheiro Safatle.

Editora: Autêntica, 2021, 288 pág.


sábado, 11 de fevereiro de 2023

O último dos Moicanos

 

James Fenimore Cooper (1789-1851) foi um político e popular escritor dos Estados Unidos da América do início do século XIX. Foi um dos mais populares romancistas do século XIX e considerado e escritor responsável pela criação de uma literatura e de uma personagem prototípica de herói genuinamente norte-americana (Wikipédia). Seu livro "O último dos Moicanos" aqui resenhado é considerado a sua obra-prima. O livro "O último dos Moicanos" certamente divide opiniões, porém, se você caro leitor(a) tal como eu, é "jovem há mais tempo" e não perdia a "Sessão Western" com filmes de faroeste nos sábados à tarde na TV Globo, então, esse livro é indicado para você. A trama ocorre no ano de 1757 na divisa entre Canadá e Estados Unidos nas proximidades da região dos Grandes Lagos. Uma característica marcante da obra é a descrição das paisagens que leva o leitor a vislumbrar o cenário enquanto lê. Isso se deve ao fato que o autor conhecia bem aqueles locais e também a trama retratada no livro que constitui parte da Guerra dos Sete Anos, mais especificamente, a Guerra Franco-Indígena. A referida guerra tinha como origem a disputa  territorial entre as potências colonizadoras, neste caso, entre Inglaterra e França.

            A Guerra Franco-Indígena (1754-1763) opôs algumas tribos indígenas que se aliaram na batalha com o Exército Francês ou com o Exército Inglês. A trama se inicia com o Major Duncan Heyward do Forte Eduard tendo a responsabilidade de levar as irmãs Cora e Alice Munro até o Forte William Henry, comandado pelo pai destas, o Coronel Munro. O grupo que conta com alguns soldados é guiado por um indígena huroniano chamado de Magua e que tem o apelido de "raposa sutil". Magua leva o grupo a uma emboscada e, sendo descoberto consegue fugir. Na emboscada, apenas as irmãs, Nathaniel Poe apelidado de "Olho de Falcão", mas, conhecido pelos indígenas que lutam ao lado dos franceses como "La Longue Carabine", devido a precisão com que atira com sua arma. Também sobreviveram os indígenas Chingachcook e Uncas, respectivamente pai e filhos, sendo estes os dois últimos representantes dessa ramificação menor do grupo indígena Delaware.

            Cora, a filha mais velha do Coronel Munro é alta e morena, sendo fruto de uma relação passageira de seu pai anterior ao casamento com a mãe de Alice que morre no parto desta. Alice é loira e de olhos azuis, de menor estatura, embora seja ainda uma adolescente de doze anos. O grupo após embates com indígenas huronianos, escapam à perseguição e chegam ao Forte William Henry que se encontra sitiado pelas forças franco-indígenas liderados pelo Coronel Montcalm. O Major Duncan Heyward se apaixona por Alice e comunica ao Coronel Munro seu desejo com ela contrair matrimônio, Cora, por sua vez, tem a atenção do moicano Uncas. A única esperança para que o Forte William Henry não caia é a chegada de reforços do Forte Eduard. O coronel francês estabelece diálogo com o comando do forte, ocasião em que mostram uma carta interceptada e endereçada ao Coronel Munro sobre a impossibilidade enviar reforço e orientando uma retirada das tropas inglesas do local. A contragosto, Munro se vê obrigado a deixar o forte com suas tropas, consegue, no entanto, a promessa de que não serão atacados durante a retirada.

            Os indígenas sob o comando de Montcalm não cumprem o disposto e atacam os ingleses durante a retirada. A ferocidade do ataque ficou conhecido como "Massacre de William Henry", milhares de pessoas foram mortas e tiveram seus escalpos retirados pelos nativos. Na confusão, Magua sequestrou as duas filhas de Munro. David Gamo, um soldado inglês, cuja religiosidade, gosto pela música e espírito pacifista é levado junto. Ao compreender que suas filhas foram sequestradas, o grupo formado pelo Coronel Munro, o Major Duncan Heyward, Olho de Falcão e os dois Moicanos Chingachcook e Uncas seguem as pistas com a intenção de resgatar as moças. Magua, sabendo que alguém tentará resgatar as moças, utiliza vários artifícios para não deixar pistas. O huroniano tem o desejo doentio de que Cora se torne sua esposa, mas, não por amá-la, mas como vingança contra seu pai, cujos comandados, mataram integrantes da família de Magua. O grupo acaba chegando no local do  acampamento (aldeia) de Magua e, encontra David foi mantido vivo e livre na aldeia, por ser considerado louco e inofensivo. David lhes conta que Alice está presa em uma caverna no centro da aldeia. Cora, por sua vez, foi levada presa a uma aldeia vizinha que mantém boas relações com a tribo de Magua. O objetivo é dificultar o resgate das irmãs. O grupo diminuto se divide para tentar o resgate das irmãs nas duas frentes, mas, tem centenas de guerreiros como adversários. A única alternativa é usar a inteligência! Paro aqui para não dar spoiler. Fica a dica!

P.S. A obra foi adaptada para o cinema, mas, não é fiel à versão publicada.

Sugestão de boa leitura:

Título: O último dos Moicanos.

Autor: James Fenimore Cooper

Editora: Nova Fronteira, 2018, 400 pág.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Professores, não se esqueçam de si (Jeferson Tenório)

 

Jeferson Tenório (1977) é escritor, professor e pesquisador brasileiro, tendo nascido no Rio de Janeiro é radicado em Porto Alegre. Seus textos teatrais e contos foram traduzidos para o inglês e o espanhol. Recebeu o Prêmio Jabuti em 2021 pela obra "O avesso da pele" publicado pela Companhia das Letras.

           

            Todo professor já deve ter assistido a algum filme ou lido algum livro sobre a docência. Eu mesmo gostava de me ver representado na ficção. Gostava de ver aqueles super-professores humilhados pelo sistema, tendo de dar aula numa escola com alunos violentos e indisciplinados, dentro de salas de aula degradadas. Então, este mesmo professor, com toda a sua perseverança, força de vontade e movido por grande paixão pela profissão, abria mão de sua vida particular, da sua vida afetiva e familiar para transformar aquela realidade. Tudo em nome do amor à docência.

            Além de todas essas adversidades, professores de escolas públicas ou privadas estão sempre devendo alguma coisa: relatórios, notas, devolução de provas, pareceres sobre aluno, ementa de projeto interdisciplinar, programa  de estudo, diários de classe e outras chateações. Um professor sempre deve alguma coisa para a direção. Mesmo quando não deve nada, ele continua em dívida, porque mesmo que você tenha entregado tudo que lhe foi solicitado, ainda assim sobrará aquele sentimento de que você não poderia estar descansando, e ainda fica com aquela sensação de domingo à tarde, em que você não relaxa por completo porque a segunda feira está chegando, e você não pode se dar ao luxo de relaxar.

            Lembro ainda do filme Escritores da Liberdade, em que uma professora, interpretada por Hilary Swank, estimula seus alunos a escreverem diários. No entanto, como se trata de uma escola pública, não havia recursos  para a compra de livros. É então que a professora resolve fazer um bico como vendedora de roupas no turno inverso para levantar dinheiro e assim comprar os exemplares. A atitude pode ser vista como louvável, e é; porém, isto tudo pode ser bonito na ficção, mas na vida real não é.

            Este artigo na verdade é uma carta aos professores. Me dirijo a vocês desse modo porque acho ser importante dizer que sim, somos apaixonados pelo que fazemos, que sim, fazemos muito mais do que nossas atribuições. No entanto, não podemos amara a profissão mais do que a nós mesmos. O amor pela docência não é incondicional. Não é anulando-se como pessoa que um professor prova seu valor. Por isso, faço uma apelo: professores, não se esqueçam de si.

            Por mais que haja uma ligação forte entre você e a sua instituição de ensino, a escola não é a sua casa. Escola é um lugar de formação social, mas não pode ser a extensão da sua vida. Um professor não é mais professor porque não relaxa, porque está sempre em estado de alerta. Um professor é bom quando cuida de suas aulas, mas sobretudo quando cuida de si mesmo.