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domingo, 29 de março de 2026

Os preços na bomba de combustíveis: uma tentativa de explicação

 

       Em meio à escalada de preços dos combustíveis, sabendo que o Brasil é autossuficiente em petróleo, perguntamos: por que sofremos com os efeitos da guerra? A resposta exige uma retrospectiva histórica.

            Após a campanha “O petróleo é nosso”, de Monteiro Lobato, a Petrobras foi criada em 1953, por Getúlio Vargas, com monopólio estatal sobre exploração, refino e transporte.

            Nos anos 1990, foram impostas pelo FMI ao país (e acolhidas pelos governantes e parlamentares) as regras neoliberais do Consenso de Washington. No governo FHC, a quebra do monopólio e a abertura de capital da Petrobras (1997) transformaram a empresa em estatal de capital misto. O marco legal impede que a Petrobras descole seus preços do mercado internacional sob alegação de concorrência desleal. É uma emenda constitucional, difícil de mudar. Prova disso é que o governo Dilma foi processado no STF por praticar preços baixos que supostamente reduziam lucros da estatal e de acionistas.

            Nos governos Temer e Bolsonaro, os preços seguiram o mercado internacional. A Petrobras importava mais combustível e subutilizava refinarias. A privatização de refinarias e da BR Distribuidora não cumpriu a promessa de reduzir preços. Enfraquecida, a Petrobras não conseguiu suprir o mercado, e as estrangeiras seguem Preços de Paridade de Importação (PPI).

            No governo Lula, o repasse do PPI não é instantâneo, e a produção nas refinarias aumentou. Mas o Brasil carece de refinarias (a maioria é do período da ditadura militar), exceto duas construídas no primeiro governo Lula, depois privatizadas ou desinvestidas. Lula, em nosso ver, errou ao não apresentar estudos de reestatização.

            Parte do petróleo brasileiro é pesado: exportamos o óleo pesado e importamos o leve, mais caro. A histórica escolha equivocada pelo modal rodoviário nos força a importar 30% do diesel que não conseguimos suprir. Impostos estaduais variam de 22 a 34%; federais, 11%. Há ainda margens abusivas de distribuidoras e revendedoras, possíveis práticas de cartelização, ações da OPEP, a inflação e a privatização da BR Distribuidora, que tirou o governo da concorrência. Prova disso é que  mesmo com cortes na refinaria, o preço nas bombas não caiu.

            O Brasil sente os efeitos da guerra ao Irã, mas não é o epicentro, graças à Petrobras e ao pré-sal. Enfrentamos dificuldades, porém menores que outros países. Esse é o momento para estudos de reestatização da BR Distribuidora e fortalecimento do parque de refino.

PS: O Brasil tem a 38ª gasolina mais barata entre países, mas a segunda mais cara entre os países produtores de petróleo.

domingo, 22 de março de 2026

A hipocrisia da defesa da família e a jornada de trabalho

 

    

        Em 13 de Maio de 1888, contrariando a firme disposição das elites, o Brasil deu um passo em direção à humanização das relações de trabalho, deixando para trás a barbárie da escravidão, nódoa que o tempo não apagará. Nosso destino foi calcado no tolhimento da liberdade de seres humanos sequestrados e comercializados como mercadorias, sujeitos a maus tratos, torturas, estupros e à proibição de sua língua e tradições pelos Senhores da Casa Grande, que detinham poder de vida e morte sobre eles.

        As elites sempre estiveram nos círculos de poder. No Império, a bancada ruralista (barões do açúcar, café e boi) contrapôs-se a visões industrializantes como a de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813-1889). Nada mudou: hoje a bancada do Boi, da Bala e da Bíblia segue impondo pautas reacionárias.

        A História não é linear; direitos conquistados podem ser revogados. Na Argentina, o presidente Javier Milei aprovou uma "deforma" trabalhista que retirou décadas de conquistas: jornada de até 12 horas, ataques aos sindicatos e cortes de direitos. Um alerta de que o passado está mais próximo do que parece.

      Dias atrás, encontrei um empresário e, após ouvir o discurso habitual sobre dificuldades com pagamento de salários de funcionários e de impostos, igual ao de tantos outros com quem conversei, sugeri que vendesse o negócio e se tornasse empregado, pois, sem estresse, estaria melhor.

       Quando discutimos a redução da jornada de 44 para 40 horas e a escala 5x2, ele disse que eu pensaria diferente se fosse empresário. Respondi que não sou empresário, mas há anos tenho uma funcionária doméstica registrada, com todos os direitos, trabalhando 40 horas semanais em escala 5x2 (muito antes do debate atual). Minha esposa e eu sempre entendemos que ela precisa de tempo para cuidar da própria casa e da sua família.

     Na Europa Ocidental, países conhecidos por suas jornadas inferiores a 40 horas, agora experimentam com sucesso a semana 4x3, com ganhos de produtividade nas empresas e de qualidade de vida para seus funcionários. A surrealidade brasileira é que o governo Lula defende a redução da jornada, mas enfrenta a oposição de empresários conservadores que pregam a defesa da família como lema, enquanto negam aos seus funcionários dois dias integrais para conviverem com suas famílias. É muita hipocrisia.

domingo, 15 de março de 2026

O que os Estados Unidos da América fizeram para o professor?

 

      Houve um tempo em que minhas aulas de Geopolítica, ao denunciar o caráter imperialista dos Estados Unidos, causavam desconforto. Lembro de alunos e, pasmem, até pais indignados, questionando minhas críticas ao modus operandi da superpotência. Expliquei que, como professor, tinha não só o direito, mas o dever de esclarecer como agem as potências imperialistas. Hoje, tentativas de censura surgem, mas a legislação na área da educação ainda garante a liberdade de cátedra.

     Certa vez, uma ex-aluna confessou a alguém próximo que fui um bom professor, mas nunca entendeu o que os EUA me fizeram, tamanha minha indignação. Na época, o cinema de Hollywood vendia uma imagem idílica do país, dificultando que nosso discurso, por mais fundamentado, rompesse essa ilusão.

    Atualmente, a sociedade é moldada pelas redes sociais, plataformas que operam com filtros ideológicos claros, guiados pelos interesses econômicos e políticos de seus proprietários. Já tive meu livre pensamento cerceado por essas empresas. Recentemente, fui informado de que meu perfil não seria mais recomendado por violar regras da comunidade, sem qualquer esclarecimento. Ao questionar, não obtive resposta. Suspeito que o motivo seja meu espectro político de esquerda ou as críticas à guerra de EUA e Israel contra o Irã, que constitui uma clara violação ao Direito Internacional. Meu relato pessoal é apenas um em meio a tantos.

      Essa realidade me preocupa diante das próximas eleições. Os EUA, que sempre enxergaram a América Latina como seu quintal (Doutrina Monroe), têm grande interesse em ditar nossos destinos. Para conter o avanço chinês, farão de tudo para eleger um presidente subordinado e entreguista de nossos recursos. As redes sociais, cruciais nas últimas eleições, repetirão seu papel. A grande questão é como seus algoritmos irão operar.

     A via eleitoral é o caminho mais fácil para Washington retomar o controle sobre o Brasil. As alternativas são a guerra híbrida ou até uma intervenção militar, como Trump já levou a efeito na Venezuela e no Irã. Como pseudo-justificativa, pode usar a pretensa reclassificação de facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas. Some-se a isso a presença de lideranças locais que, como verdadeiros "cavalos de Tróia", já pediram intervenção estrangeira e celebraram taxações de Trump ao nosso país.

      A história nos ensina que a extrema-direita no poder frequentemente conduz do atraso social à barbárie. Que saibamos, como sociedade, preservar nossa soberania, a democracia e o bem-estar coletivo.

 

sábado, 7 de março de 2026

Sobre o analfabetismo e suas variantes - Parte 6 - O analfabetismo digital

       Encerrando a nossa série "Sobre o analfabetismo e suas variantes", trazemos à discussão o analfabetismo digital. Segundo Ana Lúcia Lima, coordenadora do Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), “Vivemos em uma sociedade cada vez mais digital, e quem não domina minimamente esse ambiente enfrenta desvantagens”.

        O leitor certamente já observou a dificuldade com que muitas pessoas têm ao acessar serviços bancários no caixa eletrônico, quase sempre precisando da ajuda de funcionários do banco. Seja para retirar dinheiro ou para votar, lá está a máquina eletrônica e, embora as pessoas idosas (geralmente com menor escolarização) estejam entre as que apresentam mais dificuldade em se inserir nesse mundo digital, o INAF revela que há pessoas escolarizadas que não conseguem realizar tarefas básicas online.

        "Saber ler e escrever não garante a autonomia no uso do mundo digital" é o título da reportagem de Ana Luísa D'Maschio que informa que mesmo entre os alfabetizados em nível consolidado, quatro de cada dez pessoas apresentaram médio ou baixo desempenho em tarefas digitais, cuja pesquisa envolveu pessoas na faixa etária de 15 a 64 anos. A faixa etária que apresenta maiores dificuldades na realização de tarefas digitais envolvem as pessoas com 40 anos de idade ou mais.

        Segundo um estudo da Anatel, 48% das pessoas não têm habilidades mínimas para interagir no mundo digital, sendo 20% com desempenho muito baixo. A desigualdade social também aparece como fator responsável pela falta de habilidades digitais, pois os índices mais baixos em tais habilidades ocorrem na população de menor renda, escolaridade, nas regiões rurais e na região Nordeste.

        A falta de acesso à Internet ou o acesso à Internet apenas pelo celular são fatores limitadores da aprendizagem no mundo digital, e nem mesmo a posse de diplomas de ensino superior livram muitas pessoas das dificuldades em realizar tarefas online, seja no e-commerce ou no pagamento de impostos. Segundo os especialistas na área, o combate ao analfabetismo digital passa por programas governamentais de democratização do acesso à Internet de banda larga e dispositivos, a implementação de programas de alfabetização digital para populações vulneráveis e a integração do letramento midiático na educação básica e a capacitação dos professores.

        Encerramos esta série, mas não o assunto, afinal, muitas são as variantes do analfabetismo e, a nossa pretensão foi tão somente trazer aos nossos leitores, as formas que mais nos preocupam e que consideramos inadmissíveis em pleno século XXI. Vivemos um tempo onde muitos têm respostas para tudo, mas esqueceram a arte de fazer as verdadeiras perguntas. Talvez a verdadeira sabedoria resida na humildade da dúvida, especialmente quando tantos se agarram a certezas que alimentam apenas próprio ego. Somos todos, de algum modo, em alguma medida, analfabetos. Que possamos juntos buscar a luz.

domingo, 1 de março de 2026

Sobre o analfabetismo e suas variantes - Parte 5 - o analfabetismo cartográfico

 

          Ao dar seguimento a essa série abordando o analfabetismo e suas variantes, pesquisamos e descobrimos não haver estudos que indiquem o percentual de pessoas analfabetas cartográficas. No entanto, parcela dos especialistas consideram que tal número deve estar no intermédio entre os dados do analfabetismo absoluto (7%) e do analfabetismo funcional (30%). Há, entretanto, uma unanimidade em afirmar que o analfabetismo cartográfico é resultante do analfabetismo funcional, sendo que vários são os especialistas que consideram que o analfabetismo cartográfico supera os números do analfabetismo funcional, dadas as especificidades estruturais e históricas da Educação Básica brasileira.

            O analfabeto cartográfico é a pessoa que não possui as habilidades para ler, interpretar ou utilizar as representações espaciais como mapas, gráficos, plantas e GPS. Essa incapacidade gera resistência ao uso de mapas e limita a compreensão do espaço geográfico, de fenômenos no tempo e na localização espacial, essenciais na vida cotidiana. A pessoa que não foi devidamente alfabetizada cartograficamente tem incapacidade de leitura da linguagem cartográfica, desorientação espacial, aversão a mapas e dificuldades em converter a realidade espacial (3D) para uma representação plana (2D) e vice versa. (CHIACHIO & BOMJARDIM in - Uma leitura desnorteada: a dificuldade na alfabetização cartográfica - 2019).

            Devido à inexistência de pesquisas na área e, dado o caráter de chão de escola de nossa atividade laboral, concluímos que citar nossa pesquisa no distante ano de 2002, por ocasião de nossa primeira especialização em Geografia intitulada "A alfabetização cartográfica nas séries iniciais do Ensino Fundamental no Município de Laranjeiras do Sul - PR" ainda tem caráter relevante. Naquela ocasião, afirmamos o caráter essencial da alfabetização cartográfica para um domínio significativo do conhecimento geográfico e para diversas situações da vida adulta que vão além de ler e interpretar os mapas temáticos (rodoviários, inclusive) e, de saber utilizar pontos de referência e os rumos (cardeais, colaterais e subcolaterais) no processo de orientação geográfica. Também dissemos que a alfabetização cartográfica é útil para adquirir, alugar ou construir imóveis para ter a melhor insolação evitando ambientes úmidos ou frios, nocivos à saúde, pois de posse de uma planta da cidade, podemos escolher o melhor lugar para investir quanto ao desenvolvimento e à segurança, evitando prejuízos e arrependimentos.

            Em nossa pesquisa, verificamos as dificuldades dos professores da Educação Básica devido: 1. Ao não domínio pleno da cartografia por falhas no processo formativo; 2. À dificuldade de fazer a transposição didática para que crianças e adolescentes consigam compreender conceitos abstratos; 3. A ênfase dada a outras áreas do conhecimento, ficando a Geografia relegada a um papel praticamente insignificante; 4. O pouco número de aulas de Geografia e o extenso rol de conteúdos; 5. A dificuldade em compreender a linguagem dos professores universitários que não conseguem ser inteligíveis para os alunos (futuros professores) em aulas/cursos de formação, não raro, ter professores de Geografia (inclusive), traumatizados com a disciplina de Cartografia e que evitam tanto quanto possível, o trabalho com tal ferramenta na Educação Básica devido às dificuldades imanentes da compreensão por parte dos educandos de conceitos abstratos e de rudimentos matemáticos básicos (que em nossa prática de sala de aula, demonstra-se cada vez maior).

            Nossa pesquisa teve como intenção auxiliar professores, pois como vimos, ao longo de nossa explanação, as falhas no processo de alfabetização cartográfica são muitas e, saná-las exigiria que a ela também se desse prioridade governamental, não é o caso. A história da Educação Básica brasileira sempre foi a do "cobertor curto", descobre-se um santo para cobrir outro, sempre no afã de "gastar" menos com educação e priorizar aspectos que rendam marketing político ao governante de plantão. Em nosso trabalho, sugerimos naquela época, muitas e variadas atividades práticas para a transposição didática dos rudimentos da Cartografia e a sugestão de que a alfabetização cartográfica deve ser constante e diluída ao longo de todo o processo educativo básico.