Yôko Ogawa (1962) é uma
escritora japonesa que arrebatou todos os principais prêmios da literatura
daquele país oriental, no entanto, a maior parte de sua vasta obra (50 livros)
ainda não foi traduzida para outros idiomas. A obra "A polícia da memória"
foi traduzida por Andrei Cunha (que oferece uma experiência de leitura
prazerosa) diretamente do idioma original e publicada em língua portuguesa por
iniciativa da Editora Estação Liberdade. A editora que leva o nome do
tradicional bairro de colonização japonesa em São Paulo (SP) busca na fonte
grandes obras do mundo todo, em especial do País do Sol Nascente.
Yôko Ogawa, após
casar-se, abandonou seu emprego e se dedicou à escrita como hobby, sendo que seu
marido tomou conhecimento da sua condição de escritora quando ela recebeu seu
primeiro prêmio. A discrição da autora explica o tom contido e introspectivo de
suas obras, tanto de ficção quanto de não ficção, nas quais explora aspectos
psicológicos individuais e coletivos.
A trama de "A polícia da memória" ocorre numa
ilha cujo nome não é revelado, na qual pessoas abandonam categorias de objetos
e coisas, algumas vezes por livre vontade, outras por imposição da polícia da
memória. Dessa forma, livros são queimados, flores, chapéus são destruídos e
toda a referência a estes objetos é apagada até o ponto em que as pessoas, não
consigam mais lembrar o significado referencial entre as palavras e os
respectivos objetos.
As pessoas que não esquecem são levadas pela polícia da
memória, algumas morrem supostamente por motivos naturais, outras simplesmente
desaparecem. Dentre as pessoas que não esquecem, algumas buscam esconderijos,
tentam fugir da ilha, o que é difícil, pois as balsas também não existem mais.
A obra leva-nos à reflexão sobre profissões, objetos e
pessoas que sumiram do nosso cotidiano/convívio ao longo do tempo e induz ao
questionamento sobre o esquecimento como liberdade ou como prisão.
"A polícia da memória" é uma distopia
silenciosa e perturbadora, que dialoga com clássicos do gênero ao questionar o
papel da memória na construção da identidade individual e coletiva. Recomendado
para leitores que apreciam ficção especulativa de caráter filosófico e ritmo
contemplativo, ainda que a obra exija paciência com sua narrativa elíptica e
propositalmente ambígua.
Sugestão
de boa leitura:
Título: A polícia da memória.
Autor: Yôko Ogawa.
Editora: Estação
Liberdade, 2021, 320 p.
