sábado, 14 de fevereiro de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 3
sábado, 7 de fevereiro de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 2
Os
profissionais da educação são sempre apontados como os culpados pelos
insucessos da educação brasileira, porém, a escola não é uma bolha separada da
sociedade, o seu entorno e suas mazelas sociais afetam os resultados escolares.
Reduzir as causas do insucesso dos estudantes unicamente ao trabalho dos
profissionais da educação é resultado de uma análise não apenas equivocada, mas
desonesta. Roberto Catelli (coordenador da área de educação de jovens e adultos
da Ação Educativa) citado pela Agência Brasil corrobora essa tese ao apontar
que "resultados melhores somente serão alcançados com políticas públicas
significativas no campo da educação e também na redução das desigualdades e na
melhoria das condições de vida da população".
Sabemos que os problemas estruturais
da educação brasileira e a desigualdade social constituem entraves nacionais a
impedir a melhora dos índices de analfabetismo funcional nas faixas etárias
mais jovens. No entanto, se engana o leitor que pensa isso ser problema da
educação pós ditadura militar (1964-1985), pois na faixa etária de 50 a 64
anos, o índice de analfabetismo funcional atinge 51% dos indivíduos e
historicamente o Brasil esteve sempre entre os dez piores colocados do planeta
no quesito.
O analfabetismo funcional é quase
tão grave quanto o analfabetismo absoluto, um analfabeto funcional é alguém que
não sabe interpretar o contexto que permeia a realidade vivida. É vítima fácil
das fake news, pois é incapaz de ler/interpretar as entrelinhas das informações
que recebe e, dessa forma, muitas vezes age contra seus próprios interesses,
sem disso ter consciência.
O educador e filósofo Paulo Freire
(1921-1997) afirmou que a alfabetização vai muito além da decodificação dos
códigos escritos, sobre isso, é mundialmente conhecida sua frase "Não
basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que
Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem
lucra com esse trabalho".
A Pedagogia Crítica desenvolvida por
Paulo Freire não somente era muito eficaz no combate ao analfabetismo
funcional, como também na formação da consciência crítica, algo considerado "perigoso
e subversivo". Por ousar ensinar o pobre a ler o livro da vida e a interpretar
as relações de trabalho nas quais estava inserido, foi preso e exilado durante
a ditadura militar (1964-1985) e ainda
hoje é odiado por ricos e também por pessoas não conscientes de sua própria
condição de classe social dado o seu analfabetismo funcional.
sábado, 31 de janeiro de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 1
O
analfabetismo (incapacidade de ler e escrever) é uma chaga que ainda atinge
aproximadamente 800 milhões de pessoas no planeta, principalmente na Ásia e na
África. No Brasil, o índice ainda atinge 9,1 milhões de habitantes (5,4% da
população), o que equivale a aproximadamente a população do Ceará (2025). Como
se o analfabetismo não fosse um mal suficiente, soma-se a ele, o analfabetismo
funcional que atinge três a cada dez brasileiros. A Região Sul do Brasil
apresenta o maior índice de analfabetos funcionais, que são aquelas pessoas
que, apesar de saberem ler e escrever, possuem grandes dificuldades na
interpretação de textos, operações matemáticas básicas e em utilizar a escrita
e a leitura em situações do cotidiano.
Nas últimas décadas, o analfabetismo
vem declinando no Brasil, não se pode falar o mesmo do analfabetismo funcional
que aumentou principalmente na faixa etária de 15 a 29 anos de idade ( de 14%
para 16%) segundo o INAF 2024-2025. Segundo especialistas as causas do
analfabetismo funcional são várias e não podem ser isoladas do conjunto, tais
como a desigualdade social, falhas históricas e estruturais do modelo educacional
brasileiro, a baixa qualidade da educação básica e a falta de estímulo à leitura
e aos estudos.
Monteiro Lobato (1882-1948) afirmou
categórico: "Um país se faz com homens e livros". A correção da frase
de Lobato é indiscutível, portanto, um projeto de país passa necessariamente
por uma sociedade melhor, a qual somente é possível com pessoas instruídas,
esclarecidas, críticas e atuantes. O analfabetismo foi erradicado em países
latino-americanos tais como: Cuba (1961), Venezuela (2005), Bolívia (2008),
Equador e Nicarágua (2009). Os países citados possuem PIB's muito inferiores ao
PIB brasileiro. Sendo o Brasil, por seu PIB, um país tão rico, o que deu
errado?
A desigualdade social não é a única
resposta, mas é a principal, o Brasil é a 11ª economia mundial, porém, possui a
84ª posição no IDH e historicamente figura entre as dez nações mais desiguais
do planeta no Índice de Gini. Isso demonstra que o país foi pensado e
construído por uma elite que jamais teve um projeto de desenvolvimento
nacional, meramente atuando como representante nacional dos interesses do
grande capital internacional em nossas terras, visando tão somente garantir seu
quinhão na espoliação das riquezas nacionais (recursos naturais e trabalho
humano).
sábado, 24 de janeiro de 2026
Becos da Memória
sábado, 10 de janeiro de 2026
O maior erro da natureza
Inicio
estas linhas recordando uma triste, porém verdadeira constatação do desenhista,
humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro Millôr
Fernandes (1923-2012) quando disse: "O maior erro da natureza é a burrice
não doer". Faz muito sentido, caso a burrice causasse dor, para
erradicá-la, a pessoa buscaria ler, estudar, enfim, pensar. Chamo aqui também o
escritor, filósofo, professor, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano
Umberto Eco (1932-2016), internacionalmente reconhecido pela sua
intelectualidade, que em certa ocasião disse: "A Internet deu voz a uma legião de
imbecis".
É estarrecedor a mediocridade
intelectual de parcela significativa dos internautas. A burrice é tamanha que
não lhes permite sequer reconhecer a grande defasagem intelectual da qual são
portadores. Dessa forma, ignorantes de sua própria ignorância, comentam temas
cujo escopo está muito além de sua capacidade cognitiva, sempre embasados em
fake news, preconceitos, estereótipos e ódio. Não conhecem termos, significado
de palavras elementares do vocabulário, mas, de posse de seu celular/computador
conectado a Internet se julgam capazes de se contrapor intelectualmente à
pessoas da ciência, da academia, etc.
Sabemos que nenhum de nós é portador
de todo o conhecimento, mas sabemos também que quanto mais conhecimento tem uma
pessoa, mais discernimento ela tem em reconhecer a insuficiência de
conhecimentos acerca de alguma área, portanto ela, não tendo a formação
específica, não irá debater especificidades da medicina com um médico, da
ciência com um cientista, ou ter a pretensão de ensinar a projetar prédios a um
engenheiro civil. No entanto, o ignorante não sabe que nada sabe, e dotado de
sua mera opinião embasada em fake news, senso comum e muito ódio, arrota
asneiras pensando dizer algo útil.
Ele é fruto dessa triste época, em
que mais importante do que o fato em si, é a opinião e na qual as fake news
repetidas milhares de vezes tornam-se verdades. Para essa parcela débil
cognitivamente, falar e escrever é mais importante do que estudar, buscar o
conhecimento, refletir previamente sobre o que se fala. Para encerrar lembro
uma frase, cuja autoria exata, a Internet não crava (Maurice Switzer, Mark
Twain ou Abraham Lincoln) e que seria de grande importância para essa parcela
de internautas que diz: "É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem
que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida"! Encerro estas
linhas sugerindo humildade, checagem de
fontes de informação e a leitura de bons livros para o combate à ignorância.
sábado, 3 de janeiro de 2026
A importância da leitura e da análise do que se lê (2025)
domingo, 28 de dezembro de 2025
E na curadoria, a professora!
A
curadoria de obras literárias compreende a seleção, análise e organização
criteriosa de livros por especialistas para um público-alvo, visando qualidade,
relevância temática e expansão do repertório cultural. Essencial em livrarias,
clubes de assinatura e feiras, diferencia-se da automatização ao promover a
diversidade e mediação da leitura. O curador é portanto, um expert literário,
uma pessoa com grande conhecimento da literatura nacional e internacional, ou
ainda, da obra de algum determinado autor.
Durante o ano que passou (2025),
minha filha solicitou alguns livros que não dispunha em minha biblioteca.
Tratavam-se de obras solicitadas pela sua professora da disciplina de
Literatura. Após a leitura, ela teria que fazer síntese crítica de cada obra.
Em minha casa, sempre disse, que livro não é despesa, mas, investimento. Após
minha filha fazer a leitura dos livros, peguei-os para ler, movido pela
curiosidade, pois se tratavam de obras que não havia lido.
Eu peguei o hábito pela leitura na
escola, tínhamos que fazer o diário de leitura e ler dois livros a cada
bimestre, para conseguir parte da nota da disciplina de Língua Portuguesa.
Confesso que inicialmente não era apegado na atividade da leitura. Lembro que
líamos os livros da coleção Vaga-lume, que em sua contra-capa trazia imagens
das capas de outros volumes da coleção. Era dessa forma que escolhíamos os
próximos livros a serem lidos e também por indicação de nossos colegas. No Ensino
de 1º Grau - séries iniciais (atual Ensino Fundamental I) a obra marcante foi
"Expedição aos Martírios" de Francisco Marins. No Ensino de 1º Grau -
séries finais (Ensino Fundamental II) o livro destaque para mim foi
"Spharion" de Lúcia Machado de Almeida e no Ensino de 2º Grau (Ensino
Médio) lembro do livro "A desintegração da morte" de Orígenes Lessa.
Ler é um hábito que raramente se
alcança de forma solitária, há que se ter sempre a influência dos pais, dos
irmãos, dos amigos e, principalmente dos professores, especialmente nesses
tempos de muitas distrações tecnológicas alienantes, o livro continua a ser a
principal ferramenta para obtenção de cultura e de conhecimento, muito além da
mera informação.
Sei que os deixei curiosos, com a
curadoria da professora de minha filha, li os livros "O auto de São Lourenço" de José de Anchieta, "Noite na
Taverna" (e também Macário) de Álvares de Azevedo; "O
seminarista" de Bernardo Guimarães, além de "O Guarani" e
"Lucíola" ambos de José de Alencar. Obras que foram por mim, muito
apreciadas! Concluo deixando minha gratidão aos professores que estimulam
nossos adolescentes ao maravilhoso hábito da leitura!
