domingo, 22 de março de 2026
A hipocrisia da defesa da família e a jornada de trabalho
domingo, 15 de março de 2026
O que os Estados Unidos da América fizeram para o professor?
Houve um tempo em que minhas
aulas de Geopolítica, ao denunciar o caráter imperialista dos Estados Unidos, causavam
desconforto. Lembro de alunos e, pasmem, até pais indignados, questionando minhas
críticas ao modus operandi da
superpotência. Expliquei que, como professor, tinha não só o direito, mas o
dever de esclarecer como agem as potências imperialistas. Hoje, tentativas de
censura surgem, mas a legislação na área da educação ainda garante a liberdade
de cátedra.
Certa vez, uma ex-aluna confessou a alguém próximo que
fui um bom professor, mas nunca entendeu o que os EUA me fizeram, tamanha minha
indignação. Na época, o cinema de Hollywood vendia uma imagem idílica do país,
dificultando que nosso discurso, por mais fundamentado, rompesse essa ilusão.
Atualmente, a sociedade é moldada pelas redes sociais,
plataformas que operam com filtros ideológicos claros, guiados pelos interesses
econômicos e políticos de seus proprietários. Já tive meu livre pensamento
cerceado por essas empresas. Recentemente, fui informado de que meu perfil não
seria mais recomendado por violar regras da comunidade, sem qualquer
esclarecimento. Ao questionar, não obtive resposta. Suspeito que o motivo seja
meu espectro político de esquerda ou as críticas à guerra de EUA e Israel
contra o Irã, que constitui uma clara violação ao Direito Internacional. Meu relato
pessoal é apenas um em meio a tantos.
Essa realidade me preocupa diante das próximas eleições.
Os EUA, que sempre enxergaram a América Latina como seu quintal (Doutrina
Monroe), têm grande interesse em ditar nossos destinos. Para conter o avanço
chinês, farão de tudo para eleger um presidente subordinado e entreguista de
nossos recursos. As redes sociais, cruciais nas últimas eleições, repetirão seu
papel. A grande questão é como seus algoritmos irão operar.
A via eleitoral é o caminho mais fácil para Washington
retomar o controle sobre o Brasil. As alternativas são a guerra híbrida ou até
uma intervenção militar, como Trump já levou a efeito na Venezuela e no Irã.
Como pseudo-justificativa, pode usar a pretensa reclassificação de facções como o
Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas. Some-se a isso a presença de
lideranças locais que, como verdadeiros "cavalos de Tróia", já
pediram intervenção estrangeira e celebraram taxações de Trump ao nosso país.
A história nos ensina que a extrema-direita no poder
frequentemente conduz do atraso social à barbárie. Que saibamos, como
sociedade, preservar nossa soberania, a democracia e o bem-estar coletivo.
sábado, 7 de março de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - Parte 6 - O analfabetismo digital
domingo, 1 de março de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - Parte 5 - o analfabetismo cartográfico
Ao dar seguimento a essa
série abordando o analfabetismo e suas variantes, pesquisamos e descobrimos não
haver estudos que indiquem o percentual de pessoas analfabetas cartográficas.
No entanto, parcela dos especialistas consideram que tal número deve estar no
intermédio entre os dados do analfabetismo absoluto (7%) e do analfabetismo
funcional (30%). Há, entretanto, uma unanimidade em afirmar que o analfabetismo
cartográfico é resultante do analfabetismo funcional, sendo que vários são os
especialistas que consideram que o analfabetismo cartográfico supera os números
do analfabetismo funcional, dadas as especificidades estruturais e históricas
da Educação Básica brasileira.
O analfabeto cartográfico é a pessoa que não possui as
habilidades para ler, interpretar ou utilizar as representações espaciais como
mapas, gráficos, plantas e GPS. Essa incapacidade gera resistência ao uso de
mapas e limita a compreensão do espaço geográfico, de fenômenos no tempo e na
localização espacial, essenciais na vida cotidiana. A pessoa que não foi
devidamente alfabetizada cartograficamente tem incapacidade de leitura da
linguagem cartográfica, desorientação espacial, aversão a mapas e dificuldades
em converter a realidade espacial (3D) para uma representação plana (2D) e vice
versa. (CHIACHIO & BOMJARDIM in - Uma leitura desnorteada: a dificuldade na
alfabetização cartográfica - 2019).
Devido à inexistência de pesquisas na área e, dado o caráter de chão de escola de nossa atividade laboral, concluímos que citar nossa pesquisa no distante ano de 2002, por ocasião de nossa primeira especialização em Geografia intitulada "A alfabetização cartográfica nas séries iniciais do Ensino Fundamental no Município de Laranjeiras do Sul - PR" ainda tem caráter relevante. Naquela ocasião, afirmamos o caráter essencial da alfabetização cartográfica para um domínio significativo do conhecimento geográfico e para diversas situações da vida adulta que vão além de ler e interpretar os mapas temáticos (rodoviários, inclusive) e, de saber utilizar pontos de referência e os rumos (cardeais, colaterais e subcolaterais) no processo de orientação geográfica. Também dissemos que a alfabetização cartográfica é útil para adquirir, alugar ou construir imóveis para ter a melhor insolação evitando ambientes úmidos ou frios, nocivos à saúde, pois de posse de uma planta da cidade, podemos escolher o melhor lugar para investir quanto ao desenvolvimento e à segurança, evitando prejuízos e arrependimentos.
Em nossa pesquisa, verificamos as dificuldades dos
professores da Educação Básica devido: 1. Ao não domínio pleno da cartografia
por falhas no processo formativo; 2. À dificuldade de fazer a transposição
didática para que crianças e adolescentes consigam compreender conceitos
abstratos; 3. A ênfase dada a outras áreas do conhecimento, ficando a Geografia
relegada a um papel praticamente insignificante; 4. O pouco número de aulas de
Geografia e o extenso rol de conteúdos; 5. A dificuldade em compreender a
linguagem dos professores universitários que não conseguem ser inteligíveis
para os alunos (futuros professores) em aulas/cursos de formação, não raro, ter
professores de Geografia (inclusive), traumatizados com a disciplina de
Cartografia e que evitam tanto quanto possível, o trabalho com tal ferramenta
na Educação Básica devido às dificuldades imanentes da compreensão por parte
dos educandos de conceitos abstratos e de rudimentos matemáticos básicos (que
em nossa prática de sala de aula, demonstra-se cada vez maior).
Nossa pesquisa teve como intenção auxiliar professores,
pois como vimos, ao longo de nossa explanação, as falhas no processo de
alfabetização cartográfica são muitas e, saná-las exigiria que a ela também se
desse prioridade governamental, não é o caso. A história da Educação Básica
brasileira sempre foi a do "cobertor curto", descobre-se um santo
para cobrir outro, sempre no afã de "gastar" menos com educação e
priorizar aspectos que rendam marketing político ao governante de plantão. Em
nosso trabalho, sugerimos naquela época, muitas e variadas atividades práticas
para a transposição didática dos rudimentos da Cartografia e a sugestão de que
a alfabetização cartográfica deve ser constante e diluída ao longo de todo o
processo educativo básico.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 4 - o analfabetismo geopolítico.
A
Geopolítica é um ramo da ciência que aborda a relação entre a Geografia,
acontecimentos históricos e políticos, com o objetivo de interpretar fenômenos
globais. A ideia é entender como os humanos interagem com seu ambiente,
considerando as relações de poder, para então compreender suas posições
políticas e impactos das ações a nível global (CNN Brasil 08/02/2023). O
objetivo é compreender o tabuleiro global das nações para melhor administrar o
país, seu território e suas potencialidades, visando suprir suas necessidades
ao inseri-lo da forma mais satisfatória possível nas relações internacionais.
O analfabetismo geopolítico é a
incapacidade de compreender as dinâmicas, conflitos e relações de poder no cenário
internacional. O analfabetismo geopolítico decorre de uma carência em sua
formação nas áreas de Geografia e História e isso, nem sempre é culpa do
indivíduo, pois o estudo de História e Geografia foram sempre negligenciados
por governos autocráticos e neoliberais. As ciências humanas formam seres
críticos e pensantes, os quais são mais difíceis de serem dominados, por isso,
as aulas de humanidades estão minguando nos currículos escolares. Não podemos
excluir a culpa dos mestres, pois, tal como o geógrafo e geopolítico francês
Yves Lacoste (1929) em sua obra "A Geografia, isso serve em primeiro
lugar, para fazer a guerra" sentenciou que "os professores (mesmo
inconscientemente) quase sempre apresentam a Geografia como um saber inútil, ao
mascarar seu verdadeiro significado por meio de um discurso inócuo em classe,
omitindo seu grande valor estratégico e de poder, seja para fazer a guerra ou
para desenvolver uma nação".
Se é facilmente verificável a condição
de analfabetismo político quando constatamos que uma pessoa ou grupo de pessoas
pede mais investimentos públicos em educação e saúde, mas apoia e vota em
partidos e candidatos da extrema-direita que, historicamente e até por seus
estatutos partidários e ideologias professadas defendem o Estado Mínimo e a
consequente privatização dos serviços públicos que deixam de ser direitos
sociais e passam a ser mercadorias remuneradas pelos seus consumidores. Da
mesma forma, ou seja, por meio do discurso fica latente o analfabetismo
geopolítico de parcela significativa da sociedade, pois sua análise geopolítica
denota um maniqueísmo (a divisão em bem x mal / nós x eles), pois na Geopolítica,
a análise superficial e apaixonada não tem lugar afinal, os países além de
amizades, têm interesses.
É verdade que as verdadeiras
intenções das potências imperialistas agressoras sempre são ocultadas por um
"verniz" moral. A colonização da África se fez com o "fardo do
homem branco" onde a Europa alegava levar a civilização aos povos
"atrasados" da África enquanto se apropriava de suas riquezas. Hoje,
a China atua fortemente na África e, embora os africanos prefiram o modus
operandi chinês, a reflexão sobre os interesses chineses no continente africano
não pode ser analisada de forma superficial.
Recentemente, os Estados Unidos da
América ao invadir a Venezuela, um país soberano, afirmaram ter o objetivo de
levar a democracia. Houve parcela significativa da sociedade brasileira que
acreditou, sem refletir e questionar sobre seus verdadeiros objetivos, apesar
de seu mandatário (Trump) falar abertamente sobre os grandes negócios que
poderão fazer com o petróleo venezuelano. Não há um país no mundo que, tendo
sido invadido pelos Estados Unidos da América, as condições de vida de sua
população tenha melhorado em decorrência disso. Há muitos países que possuem
governos autocratas, mas que não possuem recursos naturais cobiçados pela
potência americana e que não fazem parte do rol de países para os quais desejam
exportar a sua democracia. Repito: países têm interesses e não apenas amizades
com outros países e isso vale para os Estados Unidos e vale para a China.
O analfabetismo geopolítico leva as
pessoas a terem uma visão rasa e ingênua da realidade em que estão inseridas e
acarreta-lhes a falta de consciência de pertença à América Latina, ao Sul
Global, portanto aos países subdesenvolvidos. Ao modelo educacional deficiente
na oferta das humanidades, o trabalho inócuo de parcela significativa dos
mestres da área, soma-se as informações parciais e manipuladas da mídia
tradicional e a profusão de fake news além do fanatismo ideológico que causa
uma cegueira à razão, o que dificulta o entendimento do complexo jogo de xadrez
das nações.
Concluímos que o analfabetismo geopolítico, a
exemplo do analfabetismo político, é também consequência do analfabetismo
funcional. A recente reforma do Ensino Médio foi pautada sob os interesses
empresariais capitalistas visando mão de obra barata, eficiente e alienada,
indo na contramão de uma formação integral para a vida em sociedade. Com o Novo
Ensino Médio e, falando do chão que piso, o Estado do Paraná, teremos mais
analfabetos políticos e geopolíticos, dada a carga insignificante das
humanidades no novo currículo educacional revisado (2026). A reforma do Ensino
Médio piorou o que anteriormente havia e terá que ser não apenas revista, mas
totalmente reformulada no futuro.
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 3 - o analfabetismo político.
sábado, 7 de fevereiro de 2026
Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 2 - o analfabetismo funcional.
Os
profissionais da educação são sempre apontados como os culpados pelos
insucessos da educação brasileira, porém, a escola não é uma bolha separada da
sociedade, o seu entorno e suas mazelas sociais afetam os resultados escolares.
Reduzir as causas do insucesso dos estudantes unicamente ao trabalho dos
profissionais da educação é resultado de uma análise não apenas equivocada, mas
desonesta. Roberto Catelli (coordenador da área de educação de jovens e adultos
da Ação Educativa) citado pela Agência Brasil corrobora essa tese ao apontar
que "resultados melhores somente serão alcançados com políticas públicas
significativas no campo da educação e também na redução das desigualdades e na
melhoria das condições de vida da população".
Sabemos que os problemas estruturais
da educação brasileira e a desigualdade social constituem entraves nacionais a
impedir a melhora dos índices de analfabetismo funcional nas faixas etárias
mais jovens. No entanto, se engana o leitor que pensa isso ser problema da
educação pós ditadura militar (1964-1985), pois na faixa etária de 50 a 64
anos, o índice de analfabetismo funcional atinge 51% dos indivíduos e
historicamente o Brasil esteve sempre entre os dez piores colocados do planeta
no quesito.
O analfabetismo funcional é quase
tão grave quanto o analfabetismo absoluto, um analfabeto funcional é alguém que
não sabe interpretar o contexto que permeia a realidade vivida. É vítima fácil
das fake news, pois é incapaz de ler/interpretar as entrelinhas das informações
que recebe e, dessa forma, muitas vezes age contra seus próprios interesses,
sem disso ter consciência.
O educador e filósofo Paulo Freire
(1921-1997) afirmou que a alfabetização vai muito além da decodificação dos
códigos escritos, sobre isso, é mundialmente conhecida sua frase "Não
basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que
Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem
lucra com esse trabalho".
A Pedagogia Crítica desenvolvida por
Paulo Freire não somente era muito eficaz no combate ao analfabetismo
funcional, como também na formação da consciência crítica, algo considerado "perigoso
e subversivo". Por ousar ensinar o pobre a ler o livro da vida e a interpretar
as relações de trabalho nas quais estava inserido, foi preso e exilado durante
a ditadura militar (1964-1985) e ainda
hoje é odiado por ricos e também por pessoas não conscientes de sua própria
condição de classe social dado o seu analfabetismo funcional.
