José Eduardo Agualusa Alves
da Cunha (1960) agrônomo de formação, tornou-se jornalista, escritor e editor
por vocação. Angolano de ascendência portuguesa e brasileira, Agualusa
juntamente com Mia Couto (1955) são considerados dois expoentes da literatura
africana em língua portuguesa.
Teoria Geral do Esquecimento é o mais famoso livro de
José Eduardo. O título induz o público leigo ao equívoco de acreditar que a
obra tem conteúdo academicista, no entanto, trata-se de ficção do início ao
fim.
Na trama, o narrador (Osga) diz que teve acesso aos
diários, poemas e reflexões de Ludovica Fernandes Mano (Ludo) e relata o
cotidiano de Ludovica que viera de Portugal para residir em Angola, na casa de
sua irmã Odete que se casara com Orlando, um angolano de ascendência portuguesa
que exercia o ofício de administrador de uma mina de diamantes.
Ludo, devido seu trauma de infância, tem fobia a
lugares abertos (agorafobia) e demandou muitos cuidados na viagem para Angola.
Pouco tempo depois que se estabelece em Angola, estoura o movimento
independentista (1961-1974) e, com ele, o racismo e a violência se
intensificam. Os colonizadores portugueses passam a temer ataques da população
nativa. Muitos portugueses organizam festas de despedidas. Orlando e Odete vão
a um jantar de despedidas e não mais retornam.
Ludovica fechada no apartamento do casal
desaparecido, cujo prédio se esvaziou, pois era de moradia exclusiva de
portugueses, recebe uma ligação ameaçadora pedindo os diamantes em troca da
vida do casal, afirma não saber dos mesmos. Ela vai ao escritório do cunhado,
encontra uma pistola. Alguém tenta arrombar a porta do apartamento. Ludo atira,
fere um dos rapazes, os demais fogem. O jovem ferido suplica e Ludo abre a
porta, lhe dá água, mas o rapaz morre. Ela enterra o assaltante no terraço,
onde havia árvores frutíferas.
Ludo tinha muita comida enlatada, pois seus vizinhos
aos irem embora lhe doaram toda a sua despensa (comida e bebida). É com esses
alimentos que Ludovica vai sobreviver juntamente com o cãozinho branco de nome Fantasma.
Havia muito tumulto e tiros nas ruas, e Ludo que teme o espaço aberto após
encontrar cimento de uma obra iniciada por seu cunhado no terraço resolve concretar
a porta de acesso ao apartamento.
Ela, uma estrangeira, numa terra tumultuada, se isola
do mundo por trinta anos e por ele é esquecida. Essa solidão denota uma
violência talvez maior do que a que reina lá fora devido ao caos instalado. A
sociedade esquece dela e ela esquece do mundo exterior. Os dias passam, ela fica
com a companhia de Fantasma e de inúmeros livros da biblioteca de seu
cunhado. Ludo lê e registra o que sente/vive,
por falta de papel passa a escrever na parede. Ela quebra a perna, momento em
que aparece um menino que escala o prédio para procurar alguma coisa de valor,
encontra Ludo e passa a ajudá-la fazendo a conexão com o mundo de fora que
estava em mutação.
O livro tem essa história principal e vários outros
fragmentos de memória de fatos do cotidiano que parecem não amalgamar, como
peças de um quebra-cabeças, onde já não é mais possível saber o que foi ou é
real e o que é criação da mente. Ao ler a obra, tudo parece confuso, como é
confusa a nossa memória de fatos vividos e que ficaram distantes no tempo, os
quais, apesar de estarem interligados parecem ter perdido a cola que os unia. Essa
aparente desconexão dos fatos no livro não é falha da escrita de Agualusa, mas
a prova de sua genialidade, pois a memória não é um arquivo organizado, mas um
labirinto de fragmentos.
O esquecimento pode ser uma tragédia (Alzheimer) ou
pode ser uma dádiva quando as pessoas esquecem o que as fez sofrer (o que não
aconteceu com Ludovica). É triste ser esquecido por seus amigos ou alguém
querido, porém é motivo de felicidade ser esquecido por quem nos trouxe dias
ruins. José Eduardo Agualusa insere Ludovica e seu trauma tendo como pano de
fundo a traumática luta pela independência de Angola, uma jovem nação que
precisou e ainda precisa reconciliar-se com sua própria história violenta, na
qual o esquecimento deixa de ser apenas um tema psicológico para tornar-se uma
questão coletiva.
P.S. Não contei o desfecho
do livro, porque uma resenha deve sempre deixar uma parte "esquecida"
para que o leitor a descubra! Fica a
dica!
Sugestão
de boa leitura:
Título: Teoria Geral do Esquecimento.
Autor: José Eduardo Agualusa.
Editora: Foz,
2012, 176 p.
