Desde sua independência, em
4 de julho de 1776, os Estados Unidos da América conheceram períodos de paz,
isto é, sem intervir militarmente ou interferir politicamente em outros países
que, somados, não chegam a duas décadas. Isso significa que o país esteve
envolvido em conflitos armados, ocupações ou intervenções externas em mais de
90% de sua história, conforme levantamentos que cruzam dados do Congressional
Research Service e de historiadores como Lindsey O'Rourke.
Sob a alegação da Doutrina do Destino Manifesto,
conduziram-se as Guerras Indígenas (séculos XVIII e XIX) contra os povos
nativos, para desalojá-los de suas terras e expropriá-las; as guerras contra o
México em seu processo de expansão territorial, arrancando do país latino uma
imensa área que vai do Texas à Califórnia; e as Guerras da Banana (início do
século XX), resultantes de intervenções e ocupações ininterruptas na América
Central.
A participação na Primeira Guerra Mundial (1917-1918) e na
Segunda Guerra Mundial (1941-1945) foram, para os Estados Unidos, praticamente
inevitáveis, a primeira após a guerra submarina irrestrita e o Telegrama
Zimmermann; a segunda, após Pearl Harbor. Após esta última, porém, não houve um
único ano civil completo (365 dias) em que as forças estadunidenses não
estivessem engajadas em operações ativas, seja defendendo posições de ocupação,
seja bombardeando algum lugar do mundo, ainda que em alguns anos essas
operações tenham sido de baixa intensidade.
Após a última conflagração mundial, vieram a Guerra da
Coreia, a do Vietnã, a do Golfo, a do Afeganistão e a do Iraque, sem falar nas
intervenções cirúrgicas e nas proxy wars, dentre as quais se pode citar o apoio
americano a um dos lados da guerra Irã-Iraque.
É importante frisar que os Estados Unidos, em suas
intervenções militares ou interferências políticas externas, sempre se utilizam
de um verniz moral para disfarçar o indisfarçável aqui expresso nas palavras de
Eduardo Galeano: "Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato
para roubar. As guerras sempre invocam nobres motivos, matam em nome da paz, em
nome de Deus, da civilização, em nome do progresso ou em nome da democracia".
Os Estados Unidos, na condição de superpotência militar e
econômica, dispõem de um poderoso arsenal para usar contra os países que não se
curvam a suas chantagens econômicas ou políticas: o Soft Power (sanções,
embargos, etc.) e o Hard Power (seu gigantesco poderio militar). Não importa o
que digam instituições supranacionais como a ONU ou livros escritos por
especialistas: democracias, ditaduras e terroristas são aquelas que os Estados
Unidos a seu bel prazer assim classificam.
Desde sua fundação, os Estados Unidos já ultrapassaram a
marca de 500 intervenções internacionais (ações via CIA, ameaças de uso da
força e pequenas invasões), segundo levantamento citado por O'Rourke
em Covert Regime Change. O período de mais longa calmaria ocorreu durante
a Grande Depressão, quando o país adotou uma política isolacionista e focou em
sua própria crise interna ainda que, mesmo então, mantivesse bases e interesses
ativos na América Latina.
É de uma grande ingenuidade pensar que nações tenham
amizades: as nações têm interesses. Porém, inversamente ao que disse o
embaixador brasileiro Juracy Magalhães, representante do governo Castelo Branco
junto a Washington na década de 1960, nem sempre o que é bom para os Estados
Unidos da América é bom para o Brasil.
Os Estados Unidos são potencialmente o maior adversário
de qualquer tentativa de desenvolvimento econômico e social soberano da nação
brasileira. Interessa enormemente ao país norte-americano manter o Brasil
dependente e subserviente. O papel relegado ao Brasil é o de mero fornecedor de
matérias-primas e produtos agrícolas, ou seja, uma colônia e não são poucos os
que, aqui dentro, trabalham para que esse papel se perpetue.
Em recente pesquisa, o Brasil apareceu à frente dos EUA
em liberdade de expressão para a imprensa e também em democracia como nos
rankings do Repórteres Sem Fronteiras e do V-Dem. João Goulart, quando
presidente do Brasil, disse: "Os Estados Unidos falam muito em democracia,
mas deveriam permiti-la" nos demais países e também em seu próprio território.
Que esta reflexão sirva não para alimentar ressentimentos
estéreis, mas para lembrar que soberania não se pede: conquista-se. E que
nenhuma nação verdadeiramente independente delega a outro país o direito de
definir seus parceiros, seus adversários e seu próprio futuro.
