Powered By Blogger

sábado, 23 de maio de 2026

A polícia da memória

 

Yôko Ogawa (1962) é uma escritora japonesa que arrebatou todos os principais prêmios da literatura daquele país oriental, no entanto, a maior parte de sua vasta obra (50 livros) ainda não foi traduzida para outros idiomas. A obra "A polícia da memória" foi traduzida por Andrei Cunha (que oferece uma experiência de leitura prazerosa) diretamente do idioma original e publicada em língua portuguesa por iniciativa da Editora Estação Liberdade. A editora que leva o nome do tradicional bairro de colonização japonesa em São Paulo (SP) busca na fonte grandes obras do mundo todo, em especial do País do Sol Nascente.    

            Yôko Ogawa, após casar-se, abandonou seu emprego e se dedicou à escrita como hobby, sendo que seu marido tomou conhecimento da sua condição de escritora quando ela recebeu seu primeiro prêmio. A discrição da autora explica o tom contido e introspectivo de suas obras, tanto de ficção quanto de não ficção, nas quais explora aspectos psicológicos individuais e coletivos.

            A trama de "A polícia da memória" ocorre numa ilha cujo nome não é revelado, na qual pessoas abandonam categorias de objetos e coisas, algumas vezes por livre vontade, outras por imposição da polícia da memória. Dessa forma, livros são queimados, flores, chapéus são destruídos e toda a referência a estes objetos é apagada até o ponto em que as pessoas, não consigam mais lembrar o significado referencial entre as palavras e os respectivos objetos.

            As pessoas que não esquecem são levadas pela polícia da memória, algumas morrem supostamente por motivos naturais, outras simplesmente desaparecem. Dentre as pessoas que não esquecem, algumas buscam esconderijos, tentam fugir da ilha, o que é difícil, pois as balsas também não existem mais.

            A obra leva-nos à reflexão sobre profissões, objetos e pessoas que sumiram do nosso cotidiano/convívio ao longo do tempo e induz ao questionamento sobre o esquecimento como liberdade ou como prisão.

            "A polícia da memória" é uma distopia silenciosa e perturbadora, que dialoga com clássicos do gênero ao questionar o papel da memória na construção da identidade individual e coletiva. Recomendado para leitores que apreciam ficção especulativa de caráter filosófico e ritmo contemplativo, ainda que a obra exija paciência com sua narrativa elíptica e propositalmente ambígua.

Sugestão de boa leitura:

Título:  A polícia da memória.

Autor:  Yôko Ogawa.

Editora: Estação Liberdade, 2021, 320 p.

sábado, 9 de maio de 2026

Do garimpo ao clube, uma vida entre livros

 

        Lembro que, em meus tempos de juventude, o dinheiro era item escasso. Dessa forma, a biblioteca da escola e os livros da Coleção Vaga-Lume eram a minha salvação para a sede literária. Algum tempo passou e eu me socorria com a farta biblioteca da Unicentro, em Guarapuava. Com o passar dos anos, quando comecei a ganhar algum dinheiro, passei a comprar livros do saudoso Renato César Klein, às vezes sob encomenda, por ocasião de suas viagens à capital do Estado. Renato era proprietário da Livraria e Papelaria Lorena e um grande incentivador da leitura em nossa cidade.

        Nesse tempo, também adquiria livros por meio de catálogos da Editora Record, que depois eram enviados para casa pelos Correios. No entanto, grande foi minha satisfação quando assinei o Círculo do Livro da Editora Globo, que contava com grande variedade de títulos e excelente qualidade editorial (todas as obras com capa dura). Havia o Livro do Mês, uma obra selecionada pela curadoria da editora, a qual o assinante recebia pelos Correios caso não solicitasse outro título no prazo devido. A alegria durou pouco: o Círculo do Livro encerrou suas atividades (pouco tempo depois que nele ingressei) em meados dos anos 1990.

      Naquele período entre esses fatos e a popularização da internet, dada a pouca variedade de títulos em nossa pequena cidade, eu aproveitava as viagens para cursos a fim de adquirir livros de vendedores presentes nos eventos ou ainda para visitar as livrarias de Curitiba. Nessas oportunidades, passava horas, geralmente à noite, "garimpando" livros na majestosa Livraria Cultura do Shopping Curitiba. Lamentei muito o fechamento da loja, sentindo-me órfão daquele templo dos livros.

      A internet e o e-commerce facilitaram a vida dos bibliófilos. Hoje, mesmo na cidade mais interiorana do país, o leitor pode adquirir qualquer livro em catálogo e recebê-lo em casa. No entanto, nada supera o prazer de "garimpar" livros em uma livraria física, ainda que os preços no e-commerce sejam, via de regra, mais atrativos. Mas não é só de saudade que se faz um bibliófilo. Continuo buscando novas fontes de leitura, e foi assim que descobri um clube diferente de todos os que conheci antes.

    Há alguns anos, um companheiro do sindicato dos professores (APP-Sindicato) me entregou um folheto sobre o recém-criado Clube do Livro da Editora Expressão Popular. Essa editora é uma iniciativa de vários movimentos sociais, dentre os quais o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A editora foi criada para publicar obras de ficção e não ficção a preços módicos, visando à formação militante de seus quadros e do público em geral. Esse objetivo só foi alcançado graças a parcerias generosas com editoras e autores que disponibilizam suas obras para capacitar pessoas interessadas na batalha das ideias por uma sociedade com justiça social.

       Hoje, em nosso país, há vários clubes do livro com diferentes ênfases (literatura clássica, política, filosofia, etc.). O leitor pode escolher aquele com o perfil e os preços que julgar convenientes. Eu, tendo em conta meus interesses no preenchimento de lacunas de minha formação acadêmica e atuação sindical, indico o Clube do Livro da Expressão Popular (do qual sou assinante) pela formação militante de suas obras e preços módicos. A formação acadêmica, como sabemos, em qualquer área ou curso, é sempre superficial e generalista. A excelência é inatingível, mas a busca de um conhecimento minimamente razoável se faz com uma dedicação incessante ao longo da vida. E para essa busca, os livros (e um clube que os coloque a serviço da justiça social) são ferramentas imprescindíveis.

sábado, 2 de maio de 2026

Lincoln, um líder forjado no fogo (versão reeditada e sintetizada)





        Sobre Abraham Lincoln, já li muito a respeito, sobretudo lições motivacionais. Para me aprofundar, comprei um livro que só consegui ler dois anos depois. Percebi lacunas históricas que precisei preencher com pesquisas na internet. A obra pecou ao não incluir mapas das batalhas da Guerra da Secessão. Descobri que a versão brasileira foi sintetizada; a original americana é mais detalhada. O livro deu origem a um filme homônimo que ainda não assisti, mas ouvi bons comentários. A edição brasileira foca na candidatura de 1860, sua presidência (1861-1865), a Guerra Civil, a reeleição em 1864 e sua morte em 1865.

      Lincoln nasceu em 1809, no Kentucky, dentro de uma cabana rústica. Teve infância pobre. O pai perdeu as terras por problemas de documento. O avô foi morto por indígenas. A mãe faleceu quando ele tinha nove anos. Na juventude, foi condutor de barcaças e lenhador. Era muito magro e alto: 1,93m.

        Adorava contar causos, evitava brigas, mas quando se envolvia, saía vitorioso. Não teve nem dois anos de ensino formal, mas era autodidata, sempre com livros por perto. Tentou ingressar na faculdade de Direito e não passou. Estudou por conta própria, fez um exame nacional e conseguiu a licença para advogar. Cobrava pouco, pois todos precisavam sobreviver. Atuou nas áreas Penal e Cível. Era temido nos tribunais por sua habilidade em apontar contradições. Como empresário, fracassou. Também perdeu quase todas as eleições que disputou. Sofreu a morte prematura de dois de seus quatro filhos. Em 1860, tinha o pior currículo entre os pré-candidatos, mas conseguiu a indicação e venceu. Surpreendeu ao convidar os adversários derrotados para seu gabinete. Ignorou os alertas de que eles o ofuscariam. Delegava, mas dava a palavra final. A imprensa o atacava com força.

     A Guerra Civil estourou quando os estados do Sul, temendo o abolicionista Lincoln, ameaçaram se separar para manter a escravidão. Lincoln não ofereceu a guerra, mas não recuou dela. Após quatro anos e 600 mil mortos, derrotou o Sul, manteve a União, aboliu a escravidão e modernizou a economia. Ao defender o voto para negros, irritou radicais sulistas. Sofreu um atentado contra sua vida, seu secretário de Estado e seu vice. Lincoln foi o único morto, assassinado por um ator, enquanto assistia a uma peça de teatro. É considerado um dos maiores líderes dos EUA. Fica a dica.

Sugestão de boa leitura:

Título: Lincoln.

Autor: Doris Kearns Goodwin.

Editora: Record, 2013, 322 p.

domingo, 19 de abril de 2026

Teoria Geral do Esquecimento

 


          José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (1960) agrônomo de formação, tornou-se jornalista, escritor e editor por vocação. Angolano de ascendência portuguesa e brasileira, Agualusa juntamente com Mia Couto (1955) são considerados dois expoentes da literatura africana em língua portuguesa.

                Teoria Geral do Esquecimento é o mais famoso livro de José Eduardo. O título induz o público leigo ao equívoco de acreditar que a obra tem conteúdo academicista, no entanto, trata-se de ficção do início ao fim.

                Na trama, o narrador (Osga) diz que teve acesso aos diários, poemas e reflexões de Ludovica Fernandes Mano (Ludo) e relata o cotidiano de Ludovica que viera de Portugal para residir em Angola, na casa de sua irmã Odete que se casara com Orlando, um angolano de ascendência portuguesa que exercia o ofício de administrador de uma mina de diamantes.

                Ludo, devido seu trauma de infância, tem fobia a lugares abertos (agorafobia) e demandou muitos cuidados na viagem para Angola. Pouco tempo depois que se estabelece em Angola, estoura o movimento independentista (1961-1974) e, com ele, o racismo e a violência se intensificam. Os colonizadores portugueses passam a temer ataques da população nativa. Muitos portugueses organizam festas de despedidas. Orlando e Odete vão a um jantar de despedidas e não mais retornam.

                Ludovica fechada no apartamento do casal desaparecido, cujo prédio se esvaziou, pois era de moradia exclusiva de portugueses, recebe uma ligação ameaçadora pedindo os diamantes em troca da vida do casal, afirma não saber dos mesmos. Ela vai ao escritório do cunhado, encontra uma pistola. Alguém tenta arrombar a porta do apartamento. Ludo atira, fere um dos rapazes, os demais fogem. O jovem ferido suplica e Ludo abre a porta, lhe dá água, mas o rapaz morre. Ela enterra o assaltante no terraço, onde havia árvores frutíferas.

                Ludo tinha muita comida enlatada, pois seus vizinhos aos irem embora lhe doaram toda a sua despensa (comida e bebida). É com esses alimentos que Ludovica vai sobreviver juntamente com o cãozinho branco de nome Fantasma. Havia muito tumulto e tiros nas ruas, e Ludo que teme o espaço aberto após encontrar cimento de uma obra iniciada por seu cunhado no terraço resolve concretar a porta de acesso ao apartamento.

                Ela, uma estrangeira, numa terra tumultuada, se isola do mundo por trinta anos e por ele é esquecida. Essa solidão denota uma violência talvez maior do que a que reina lá fora devido ao caos instalado. A sociedade esquece dela e ela esquece do mundo exterior. Os dias passam, ela fica com a companhia de Fantasma e de inúmeros livros da biblioteca de seu cunhado.  Ludo lê e registra o que sente/vive, por falta de papel passa a escrever na parede. Ela quebra a perna, momento em que aparece um menino que escala o prédio para procurar alguma coisa de valor, encontra Ludo e passa a ajudá-la fazendo a conexão com o mundo de fora que estava em mutação.

                O livro tem essa história principal e vários outros fragmentos de memória de fatos do cotidiano que parecem não amalgamar, como peças de um quebra-cabeças, onde já não é mais possível saber o que foi ou é real e o que é criação da mente. Ao ler a obra, tudo parece confuso, como é confusa a nossa memória de fatos vividos e que ficaram distantes no tempo, os quais, apesar de estarem interligados parecem ter perdido a cola que os unia. Essa aparente desconexão dos fatos no livro não é falha da escrita de Agualusa, mas a prova de sua genialidade, pois a memória não é um arquivo organizado, mas um labirinto de fragmentos.

                O esquecimento pode ser uma tragédia (Alzheimer) ou pode ser uma dádiva quando as pessoas esquecem o que as fez sofrer (o que não aconteceu com Ludovica). É triste ser esquecido por seus amigos ou alguém querido, porém é motivo de felicidade ser esquecido por quem nos trouxe dias ruins. José Eduardo Agualusa insere Ludovica e seu trauma tendo como pano de fundo a traumática luta pela independência de Angola, uma jovem nação que precisou e ainda precisa reconciliar-se com sua própria história violenta, na qual o esquecimento deixa de ser apenas um tema psicológico para tornar-se uma questão coletiva.

P.S. Não contei o desfecho do livro, porque uma resenha deve sempre deixar uma parte "esquecida" para  que o leitor a descubra! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título:  Teoria Geral do Esquecimento.

Autor:  José Eduardo Agualusa.

Editora: Foz, 2012, 176 p.

domingo, 12 de abril de 2026

Lucíola

 


                 É incrível como mudamos com o passar das primaveras, no meu caso, dos invernos, a estação em que nasci. Há muito tempo deixei para trás, a adolescência e, também a adultescência. A maturidade trouxe a mudança de hábitos, na culinária,  nos hobbies (agora prefiro a tranquilidade à agitação dos eventos festivos) e, na literatura, agora posso dizer que entendo os motivos das indicações literárias feitas pelos mestres, para as quais torcia o nariz. Hoje, dentre outros autores indigestos em minha adolescência e juventude, posso dizer que muito aprecio a obra de José de Alencar.

                José de Alencar (1829-1877) foi um romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário e defensor do sistema escravocrata, na política, ficou  reconhecido por sua atuação parlamentar na defesa de valores conservadores, patriarcais, mas, também pátrios. A maturidade que adquiri ao longo da vida, me permite separar José de Alencar, o homem (fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do Romantismo Brasileiro, dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e morte, paixão e ódio, mas também muito talento.

                Em Lucíola, livro epistolar publicado em 1862, Paulo, o narrador, escreve a uma amiga contando sua vida após deixar Recife (PE), onde se formara, e sua chegada à Corte (Rio de Janeiro), onde é recebido por alguns amigos. Paulo se estabelece na capital da então jovem nação brasileira com a intenção de encontrar um bom emprego. Na chegada, fica extasiado ao ver uma jovem lindíssima e, ao vê-la passar a cumprimenta com todo o respeito dedicado a uma dama. Paulo e Lúcia (este é o seu nome) se apaixonam. Ao querer saber mais sobre a moça, seus amigos rindo, lhe desencantam, ao afirmar que todos eles "conhecem" Lúcia, a qual era uma cortesã (meretriz de luxo).

                Lúcia, com apenas 20 anos, levava uma vida confortável graças aos altos preços exigidos por seus préstimos derivados da necessidade que a vida lhe impôs e do desejo de independência que buscava. Tinha uma boa casa, funcionárias, dinheiro para adquirir artigos de valor em lojas de luxo, porém, sabia ser discreta, vestia-se bem, mas de forma sóbria. Ela, como as demais cortesãs, apesar de muito requisitada em eventos e festas, era estigmatizada na sociedade, mas tinha a liberdade que faltava às madames reclusas na Casa Grande. Paulo, ante a inadmissibilidade moral de tê-la como companheira de uma vida, para a qual,  em seu julgamento, ela não mais servia, decide que uma aventura passageira com tão linda moça, não era algo a se desperdiçar.

                Paulo encontra Lúcia e vai direto ao assunto e lhe pergunta seu preço. A moça se entristece, Paulo já sabe, lamenta isso e, lhe atende. Apesar de Lúcia ter como princípio não se envolver, o casal se encontra seguidamente. Paulo vê em Lúcia uma pureza que sua vida pregressa não condiz nem sustenta, e luta consigo mesmo entre a idealização e a razão. Lúcia se orgulha de não precisar que nenhum homem lhe sustente e, humilha Paulo, por sua pobreza, mas se cobra fortemente por  exercer a atividade que lhe rende seu dinheiro, apesar disso, mantém sua dignidade.

                A obra de José de Alencar escancara a hipocrisia da alta sociedade da capital brasileira, na qual, as mulheres ficavam trancafiadas dentro de suas casas enquanto seus maridos, muitos deles, fazendeiros e/ou políticos importantes dados a prática de belíssimos discursos em defesa da família e dos bons costumes, caíam em contradição participando de reuniões nem tão públicas, assim.

                Encerro essa resenha, com a certeza de que mais importante do que as linhas que escrevi, são aquelas que omiti, afinal, a intencionalidade de uma resenha não é a de saciar a curiosidade literária, mas, de estimular o apetite pela leitura. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título:  Lucíola.

Autor:  José de Alencar.

Editora: Principis, 2020, 176 p.

domingo, 29 de março de 2026

Os preços na bomba de combustíveis: uma tentativa de explicação

 

       Em meio à escalada de preços dos combustíveis, sabendo que o Brasil é autossuficiente em petróleo, perguntamos: por que sofremos com os efeitos da guerra? A resposta exige uma retrospectiva histórica.

            Após a campanha “O petróleo é nosso”, de Monteiro Lobato, a Petrobras foi criada em 1953, por Getúlio Vargas, com monopólio estatal sobre exploração, refino e transporte.

            Nos anos 1990, foram impostas pelo FMI ao país (e acolhidas pelos governantes e parlamentares) as regras neoliberais do Consenso de Washington. No governo FHC, a quebra do monopólio e a abertura de capital da Petrobras (1997) transformaram a empresa em estatal de capital misto. O marco legal impede que a Petrobras descole seus preços do mercado internacional sob alegação de concorrência desleal. É uma emenda constitucional, difícil de mudar. Prova disso é que o governo Dilma foi processado no STF por praticar preços baixos que supostamente reduziam lucros da estatal e de acionistas.

            Nos governos Temer e Bolsonaro, os preços seguiram o mercado internacional. A Petrobras importava mais combustível e subutilizava refinarias. A privatização de refinarias e da BR Distribuidora não cumpriu a promessa de reduzir preços. Enfraquecida, a Petrobras não conseguiu suprir o mercado, e as estrangeiras seguem Preços de Paridade de Importação (PPI).

            No governo Lula, o repasse do PPI não é instantâneo, e a produção nas refinarias aumentou. Mas o Brasil carece de refinarias (a maioria é do período da ditadura militar), exceto duas construídas no primeiro governo Lula, depois privatizadas ou desinvestidas. Lula, em nosso ver, errou ao não apresentar estudos de reestatização.

            Parte do petróleo brasileiro é pesado: exportamos o óleo pesado e importamos o leve, mais caro. A histórica escolha equivocada pelo modal rodoviário nos força a importar 30% do diesel que não conseguimos suprir. Impostos estaduais variam de 22 a 34%; federais, 11%. Há ainda margens abusivas de distribuidoras e revendedoras, possíveis práticas de cartelização, ações da OPEP, a inflação e a privatização da BR Distribuidora, que tirou o governo da concorrência. Prova disso é que  mesmo com cortes na refinaria, o preço nas bombas não caiu.

            O Brasil sente os efeitos da guerra ao Irã, mas não é o epicentro, graças à Petrobras e ao pré-sal. Enfrentamos dificuldades, porém menores que outros países. Esse é o momento para estudos de reestatização da BR Distribuidora e fortalecimento do parque de refino.

PS: O Brasil tem a 38ª gasolina mais barata entre países, mas a segunda mais cara entre os países produtores de petróleo.

domingo, 22 de março de 2026

A hipocrisia da defesa da família e a jornada de trabalho

 

    

        Em 13 de Maio de 1888, contrariando a firme disposição das elites, o Brasil deu um passo em direção à humanização das relações de trabalho, deixando para trás a barbárie da escravidão, nódoa que o tempo não apagará. Nosso destino foi calcado no tolhimento da liberdade de seres humanos sequestrados e comercializados como mercadorias, sujeitos a maus tratos, torturas, estupros e à proibição de sua língua e tradições pelos Senhores da Casa Grande, que detinham poder de vida e morte sobre eles.

        As elites sempre estiveram nos círculos de poder. No Império, a bancada ruralista (barões do açúcar, café e boi) contrapôs-se a visões industrializantes como a de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813-1889). Nada mudou: hoje a bancada do Boi, da Bala e da Bíblia segue impondo pautas reacionárias.

        A História não é linear; direitos conquistados podem ser revogados. Na Argentina, o presidente Javier Milei aprovou uma "deforma" trabalhista que retirou décadas de conquistas: jornada de até 12 horas, ataques aos sindicatos e cortes de direitos. Um alerta de que o passado está mais próximo do que parece.

      Dias atrás, encontrei um empresário e, após ouvir o discurso habitual sobre dificuldades com pagamento de salários de funcionários e de impostos, igual ao de tantos outros com quem conversei, sugeri que vendesse o negócio e se tornasse empregado, pois, sem estresse, estaria melhor.

       Quando discutimos a redução da jornada de 44 para 40 horas e a escala 5x2, ele disse que eu pensaria diferente se fosse empresário. Respondi que não sou empresário, mas há anos tenho uma funcionária doméstica registrada, com todos os direitos, trabalhando 40 horas semanais em escala 5x2 (muito antes do debate atual). Minha esposa e eu sempre entendemos que ela precisa de tempo para cuidar da própria casa e da sua família.

     Na Europa Ocidental, países conhecidos por suas jornadas inferiores a 40 horas, agora experimentam com sucesso a semana 4x3, com ganhos de produtividade nas empresas e de qualidade de vida para seus funcionários. A surrealidade brasileira é que o governo Lula defende a redução da jornada, mas enfrenta a oposição de empresários conservadores que pregam a defesa da família como lema, enquanto negam aos seus funcionários dois dias integrais para conviverem com suas famílias. É muita hipocrisia.