Há alguns anos, discorri
neste espaço sobre a necessidade de se recuperar a bandeira nacional, que havia
sido apropriada pela extrema direita. Na ocasião, lamentei constatar seu uso
como símbolo de uma parcela da população que segue os ideais de lideranças do
mesmo espectro político de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Não é necessário
repetir aqui a tragédia econômica e humanitária a que o mundo se submeteu por
fingir não ver o monstro que se agigantava.
Na época, em minhas caminhadas pela cidade, observei com
grande tristeza residências muito humildes ostentando a bandeira nacional, o mesmo símbolo que muitos associavam
abertamente a um grupo político cujo protagonismo é de uma família que, na
minha avaliação, muito mal fez ao país e ainda faz. Que os ricos defendam seus
injustos privilégios, eu posso entender, embora não concorde. Mas dá muita pena
ver o que a "falta de luz", leia-se, a ausência de informação e
consciência crítica, faz às almas menos afortunadas de nossa sociedade.
Felizmente, a Copa do Mundo de Futebol trouxe uma
reviravolta inesperada. A parcela progressista da sociedade ousou, novamente,
vestir a camisa da seleção. Alguns, temendo ser confundidos com o grupo
político da extrema direita, optaram pela camiseta azul. Outros, mais
corajosos, resgataram a amarela.
Em solo pátrio, já não é mais possível afirmar a
ideologia de quem usa a "amarelinha". O uso da camisa passou a ser
compartilhado por pessoas de ambos os lados do espectro político. Também não se
pode mais deduzir a posição dos moradores pela bandeira na janela, afinal, o Brasil, mesmo polarizado, vive a
febre da Copa. Como diz a canção (devidamente atualizada): "somos 215
milhões em ação / para frente Brasil / salve a seleção".
Ainda que essa ressignificação seja um avanço, não posso
esquecer que, até ontem, a mesma camisa era ostentada por aqueles que defendem
o oposto do que acredito. O símbolo mudou de mãos, mas a memória não se apaga
tão rápido. E é justamente essa tensão entre o passado recente e o presente de
união, que torna o fenômeno tão fascinante.
Impossível não lembrar, aqui, do Santos Futebol Clube da
era Pelé. Em 1969, no auge da Guerra de Biafra, na Nigéria, a equipe santista
conseguiu algo que diplomatas não haviam alcançado: um cessar-fogo entre as
partes conflitantes para que a população pudesse assistir ao futebol arte do
time liderado pelo gênio. O futebol, ali, provou ser mais que entretenimento,
foi trégua humanitária.
Esse humilde escriba confessa que jogou a toalha no
fatídico 7 a 1 da Alemanha, em 2014. Mas voltou a assistir à seleção desde o
primeiro jogo desta Copa. Retomou, inclusive, o hábito de torcer para as
seleções dos países colonizados, especialmente da América Latina e da África,
em seus confrontos contra as potências colonizadoras europeias. Com enorme
arroubo de alegria, comemorei os feitos de Cabo Verde e, especialmente, do
Paraguai. Não sei como agirei em confrontos entre nossos hermanos latino-americanos
e nossos irmãos africanos; penso que terei de deixar o coração decidir.
Encerro dizendo que, no "País do Futebol", tal
como o Santos de Pelé, a seleção e a Copa do Mundo recolocaram as cores
nacionais em seu devido lugar: no coração e nas mentes de todos os brasileiros.
A Copa mostrou que é possível partilhar um símbolo, mas isso não apaga as
desigualdades estruturais. O futebol é trégua, não paz definitiva.
O país continuará polarizado, e isso é natural, pois é a
luta de classes movendo a história nacional. Lamento apenas que muitos de
nossos irmãos trabalhadores, confusamente, tenham se postado em trincheiras
que, do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora, considero
equivocadas. Mas a amarelinha, agora, não é mais somente deles, é nossa. E
isso, por si só, já é uma pequena vitória.
