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sábado, 10 de outubro de 2026

Germinal

 

Este escriba nas horas vagas e inveterado leitor adiou por anos a leitura do clássico Germinal, do consagrado escritor francês Émile Zola (1840–1902). Inicialmente, a leitura seria feita em uma edição em língua espanhola, mas, ao iniciá-la, percebi a importância da obra e a necessidade de aprofundamento da reflexão, que na língua materna (o português) seria mais fácil. Interrompi a leitura e aguardei a chegada da versão em português.

Émile Zola foi uma importante figura libertária da França. Nasceu em Paris e teve uma boa formação na infância; porém, com a morte do pai quando tinha 19 anos, passou por privações. Trabalhou em uma livraria, onde apurou seu gosto pela literatura, e mais tarde publicou seus primeiros escritos ao tornar-se jornalista. Era crítico de Napoleão e da Igreja, além de admirador da obra de Balzac e Flaubert.

Germinal não é meu primeiro contato com a literatura de Zola, pois já havia lido A morte de Olivier Bécaille e Eu acuso! A verdade em marcha. Zola é o criador e mais expressivo representante da escola literária naturalista. O naturalismo foi um movimento artístico e cultural que se manifestou na literatura, no teatro e nas artes plásticas, tendo como principais características o determinismo, o cientificismo, a zoomorfização (animalização) e o foco em temas patológicos ou sociais marginais.

Émile Zola morreu asfixiado por gás em sua residência, supostamente em um acidente. No entanto, devido ao descontentamento que seu ativismo gerava nas camadas superiores da sociedade, jamais teremos certeza disso.

Na obra Germinal, Zola situa a ação na década de 1860 e retrata a penúria dos mineiros de carvão submetidos à brutal exploração capitalista. Os trabalhadores são retratados com atitudes animalescas e rudes, e os danos à saúde decorrentes do trabalho na mina são evidentes. A mina Voraz é apresentada como um monstro que devora seres humanos (seja por mortes acidentais, seja por problemas de saúde). A transição para as novas tecnologias da Segunda Revolução Industrial leva as empresas a reduzir custos para manter elevados os lucros, e isso recai sobre os salários miseráveis dos trabalhadores. A época marca a criação da Associação Internacional de Trabalhadores (1864) e a divulgação das ideias de Karl Marx e Engels por meio de suas publicações.

O livro mostra um jovem recém-chegado ao trabalho na mineração de carvão, Etienne Lantier, que se interessa por livros, tem contato com obras de temática socialista e começa a ganhar consciência. Quando a empresa resolve reduzir a já baixa remuneração dos mineiros, ele convence os demais trabalhadores a negociar com a direção, que recusa voltar atrás na decisão tomada.

Em reunião, os trabalhadores votam pela greve. Os diretores mantêm a decisão de não atender os grevistas, cujo caixa de greve só foi suficiente para o primeiro mês. A fome aperta, alguns voltam a trabalhar e são taxados de traidores e perseguidos. A greve sai do controle de Etienne, a desordem se instala e o exército reprime com violência. A companhia traz imigrantes belgas; a fome vence e os mineradores retornam, apesar das muitas mortes sofridas pela fome e pela ação policial. Paro aqui, com a intenção de não dar spoilers.

Penso que se trata de um clássico cinco estrelas: denso, porém de fácil leitura. Não foi escrito com a intenção de agradar a todos os estratos sociais e isso fica claro tanto pela crueza com que retrata a miséria quanto pela simpatia com que abraça a causa dos trabalhadores. A obra incomoda quem lucra com a exploração e emociona quem a sofre.

PS. O título Germinal é uma metáfora que diz respeito à primavera no Hemisfério Norte, sendo, portanto, a semente germinada, a esperança de um novo porvir para os trabalhadores.

Sugestão de boa leitura:
Título: Germinal
Autor: Émile Zola
Editora: Estação Liberdade, 2026, 560 p.


sábado, 26 de setembro de 2026

Estados Unidos da América: o agente do caos e a soberania brasileira

 

                   Desde sua independência, em 4 de julho de 1776, os Estados Unidos da América conheceram períodos de paz, isto é, sem intervir militarmente ou interferir politicamente em outros países que, somados, não chegam a duas décadas. Isso significa que o país esteve envolvido em conflitos armados, ocupações ou intervenções externas em mais de 90% de sua história, conforme levantamentos que cruzam dados do Congressional Research Service e de historiadores como Lindsey O'Rourke.

            Sob a alegação da Doutrina do Destino Manifesto, conduziram-se as Guerras Indígenas (séculos XVIII e XIX) contra os povos nativos, para desalojá-los de suas terras e expropriá-las; as guerras contra o México em seu processo de expansão territorial, arrancando do país latino uma imensa área que vai do Texas à Califórnia; e as Guerras da Banana (início do século XX), resultantes de intervenções e ocupações ininterruptas na América Central.

            A participação na Primeira Guerra Mundial (1917-1918) e na Segunda Guerra Mundial (1941-1945) foram, para os Estados Unidos, praticamente inevitáveis, a primeira após a guerra submarina irrestrita e o Telegrama Zimmermann; a segunda, após Pearl Harbor. Após esta última, porém, não houve um único ano civil completo (365 dias) em que as forças estadunidenses não estivessem engajadas em operações ativas, seja defendendo posições de ocupação, seja bombardeando algum lugar do mundo, ainda que em alguns anos essas operações tenham sido de baixa intensidade.

            Após a última conflagração mundial, vieram a Guerra da Coreia, a do Vietnã, a do Golfo, a do Afeganistão e a do Iraque, sem falar nas intervenções cirúrgicas e nas proxy wars, dentre as quais se pode citar o apoio americano a um dos lados da guerra Irã-Iraque.

            É importante frisar que os Estados Unidos, em suas intervenções militares ou interferências políticas externas, sempre se utilizam de um verniz moral para disfarçar o indisfarçável aqui expresso nas palavras de Eduardo Galeano: "Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As guerras sempre invocam nobres motivos, matam em nome da paz, em nome de Deus, da civilização, em nome do progresso ou em nome da democracia".

            Os Estados Unidos, na condição de superpotência militar e econômica, dispõem de um poderoso arsenal para usar contra os países que não se curvam a suas chantagens econômicas ou políticas: o Soft Power (sanções, embargos, etc.) e o Hard Power (seu gigantesco poderio militar). Não importa o que digam instituições supranacionais como a ONU ou livros escritos por especialistas: democracias, ditaduras e terroristas são aquelas que os Estados Unidos a seu bel prazer assim classificam.

            Desde sua fundação, os Estados Unidos já ultrapassaram a marca de 500 intervenções internacionais (ações via CIA, ameaças de uso da força e pequenas invasões), segundo levantamento citado por O'Rourke em Covert Regime Change. O período de mais longa calmaria ocorreu durante a Grande Depressão, quando o país adotou uma política isolacionista e focou em sua própria crise interna ainda que, mesmo então, mantivesse bases e interesses ativos na América Latina.

            É de uma grande ingenuidade pensar que nações tenham amizades: as nações têm interesses. Porém, inversamente ao que disse o embaixador brasileiro Juracy Magalhães, representante do governo Castelo Branco junto a Washington na década de 1960, nem sempre o que é bom para os Estados Unidos da América é bom para o Brasil.

            Os Estados Unidos são potencialmente o maior adversário de qualquer tentativa de desenvolvimento econômico e social soberano da nação brasileira. Interessa enormemente ao país norte-americano manter o Brasil dependente e subserviente. O papel relegado ao Brasil é o de mero fornecedor de matérias-primas e produtos agrícolas, ou seja, uma colônia e não são poucos os que, aqui dentro, trabalham para que esse papel se perpetue.

            Em recente pesquisa, o Brasil apareceu à frente dos EUA em liberdade de expressão para a imprensa e também em democracia como nos rankings do Repórteres Sem Fronteiras e do V-Dem. João Goulart, quando presidente do Brasil, disse: "Os Estados Unidos falam muito em democracia, mas deveriam permiti-la" nos demais países e também em seu próprio território.

            Que esta reflexão sirva não para alimentar ressentimentos estéreis, mas para lembrar que soberania não se pede: conquista-se. E que nenhuma nação verdadeiramente independente delega a outro país o direito de definir seus parceiros, seus adversários e seu próprio futuro.

sábado, 19 de setembro de 2026

Agronegócio e política: entre o discurso e a prática

 


Há alguns meses, assisti a uma fala indignada do presidente Lula, que questionava: “Por que esse pessoal do agronegócio prefere o Bolsonaro, se ninguém fez mais por eles do que eu?” A pergunta me intrigou. Curioso, comecei a buscar respostas na internet, imaginando que ali encontraria pistas sobre a mentalidade desse setor. O que encontrei foi um verdadeiro festival de loas: canais de YouTube jogando confetes e serpentinas sobre os agentes do agronegócio, tratando-os como os únicos responsáveis por fazer o setor funcionar e por “carregar o Brasil nas costas”. Outros tantos concediam toda a glória ao governo de Jair Bolsonaro (2019–2022).

O problema é que boa parte desse conteúdo desinforma. Distorce e manipula os fatos. Basta comparar com os dados oficiais, afinal, fatos são fatos. O agronegócio não carrega o Brasil sozinho, e seus empresários e produtores não são os únicos responsáveis pelo seu sucesso. Quando se trata do agro, não há "mão invisível": há o Estado brasileiro com mãos, braços, pernas, cabeça e tronco apoiando e sustentando a atividade. O que seria do agronegócio sem as isenções e reduções tributárias? Sem os financiamentos públicos, como o Plano Safra e as linhas de crédito do Banco do Brasil? Sem as pesquisas científicas da Embrapa, que tanto beneficiaram o setor?

Encontrei também um vídeo da pecuarista e publicitária Juliana Giraldini¹, que respondia a um seguidor sobre qual teria sido o melhor governo para o agronegócio brasileiro. Segundo ela, no período da ditadura militar houve investimento no agro, mas a hiperinflação endividou os produtores. No governo Collor, com a taxação de 80% de juros, muitos não conseguiram pagar as dívidas. FHC tentou, com três planos, salvar o produtor e não conseguiu. Em 2003, houve uma conjuntura favorável: os benefícios da tecnologia da Embrapa, a entrada forte da China como cliente do agro brasileiro e o governo Lula, que concedeu vinte anos para o pagamento das dívidas dos produtores, além de criar o Plano Safra nas condições atuais. O governo Dilma elevou o Plano Safra a outro patamar, e os governos Temer e Bolsonaro deram continuidade. Juliana afirmou ainda que o governo Lula 3 bateu o recorde e investiu 2,1 trilhões de reais, sendo a maior parcela destinada ao grande produtor.

Segundo a pecuarista, o agro simpatiza com governos de direita devido à flexibilização da fiscalização. Para obter empréstimo rural, o produtor precisa apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Caso haja irregularidades ambientais (desmatamento, queimadas) ou trabalhistas (situações análogas à escravidão), em governos mais sérios e exigentes como costumam ser os de esquerda, os produtores não conseguem os recursos.

A fala de Juliana faz sentido. Todos sabemos que, no governo Bolsonaro, a fiscalização foi severamente reduzida. Seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi flagrado em vídeo em reunião ministerial (22 de abril de 2020) afirmando que a pandemia de Covid-19 era o momento ideal para “passar a boiada”², ou seja, flexibilizar normas e regras de proteção ambiental enquanto a imprensa estava distraída. Também tiveram grande destaque as falas politicamente incorretas de Bolsonaro sobre questões ambientais e as dificuldades que o Brasil impunha aos seus empresários.

No entanto, minha pesquisa revelou que há mais camadas nessa relação. O agronegócio espera menos regulação, mais livre mercado e afirma ter um maior alinhamento ideológico e cultural com a direita, inclusive nas pautas de costumes (religião, pátria e família) e, principalmente, na liberação do armamentismo. Ainda temem ocupações de terras, embora a legislação constitucional garanta a propriedade das terras produtivas. Sabem que, em governos de direita, a reforma agrária (embora prevista em lei) não avança. Ao mesmo tempo, embora defendam o Estado Mínimo, exigem para si um Estado Máximo em sua defesa. Veem todo o aparato de apoio (empréstimos, reduções e isenções tributárias) como obrigação governamental, e não como benefício.

Enfim, o agronegócio quer a “mão invisível” do mercado para o restante da sociedade, mas quer o Estado em corpo e alma a seu serviço.

Fonte:

1. https://www.facebook.com/reel/2073732216871159 - acesso em 16 de setembro de 2026.

2. https://www.youtube.com/watch?v=BWDemNNMbeU - acesso em 16 de setembro de 2026.

domingo, 13 de setembro de 2026

Os deuses têm sede



"Os deuses têm sede", do francês Anatole France (Prêmio Nobel de Literatura em 1921), é muito mais do que um romance histórico ambientado no Período do Terror da Revolução Francesa. Publicado originalmente em 1912, a obra é um mergulho perturbador na alma humana quando ela se deixa cegar por ideais absolutos e pela violência institucionalizada.

Anatole France (pseudônimo de Jacques Anatole François Thibault -1844-1924) foi um escritor marcado pelo contato precoce com os livros, graças ao pai livreiro. Trabalhou como bibliotecário do Senado francês e dedicou-se à poesia e aos contos antes de se consagrar como romancista. Sua escrita combina elegância clássica, ironia sutil e uma profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, traços que lhe renderam o Nobel de Literatura em 1921.

Em "Os deuses têm sede", France transporta o leitor para os anos de 1793-1794, quando os jacobinos, liderados por Robespierre e Marat, governavam a França com mão de ferro. Foi o período em que o sufrágio universal masculino, a abolição da escravidão nas colônias e o tabelamento de preços conviveram com a Lei dos Suspeitos que permitia prender e julgar sumariamente qualquer cidadão acusado de traição, independentemente de sua posição social. A promessa de liberdade, igualdade e fraternidade rapidamente se degenerou em um banho de sangue.

No centro da história está Évariste Gamelin, um pintor iniciante e pobre, que vive com a mãe viúva em um quarto alugado. Para sobreviver, vende quadros contestados pelo pai de sua amada, que afirma que apenas aqueles que retratam mulheres têm venda garantida. Gamelin é secretamente apaixonado por Élodie, filha de um rico comerciante que jamais aceitaria um genro de condição tão humilde. O namoro, portanto, é às escondidas.

Mas Gamelin não é apenas um artista frustrado, ele é um revolucionário entusiasta, devoto de Robespierre e Marat, acreditando piamente que, uma vez extirpados os "inimigos da pátria", a França enfim conhecerá a era dourada da justiça e da abundância. Seu fervor não passa despercebido, e ele é convidado a integrar o Tribunal Revolucionário como juiz. A partir daí, sua vida muda, ganha status social, renda digna e um poder que jamais imaginara ter.

O drama de Gamelin, no entanto, reside na progressiva desumanização que o poder lhe impõe. O Tribunal Revolucionário, movido mais por convicções do que por provas, envia milhares de pessoas à guilhotina. Amigos, vizinhos e até mesmo Élodie começam a não reconhecer o homem que admiravam. Gamelin, porém, justifica cada sentença em nome do dever patriótico e da segurança da nação. Sua fé inabalável começa a ser testada apenas quando pessoas próximas a ele passam a ocupar o banco dos réus.

O título, longe de qualquer conotação religiosa ou mitológica, é uma metáfora cruel e terrena, os deuses a que France se refere são os próprios homens quando se arvoram em juízes absolutos do bem e do mal. E a sede que os consome não é por água mas sede de sangue, de vingança, de purificação política. Ao longo da obra, fica claro que quanto mais se tenta eliminar o "inimigo", mais se cria uma máquina de moer gente, que acaba devorando até mesmo seus criadores. O próprio Robespierre, como sabemos, terminou sob a lâmina da guilhotina.

"Os deuses têm sede" não é apenas uma aula de História. É um espelho incômodo para qualquer época em que a polarização política, o medo e a desconfiança predominam. Anatole France, com sua prosa irônica e ao mesmo tempo compassiva, não toma partido nem condena facilmente seus personagens, ele os mostra em toda sua complexidade, como seres movidos por esperança, medo, ambição e cegueira.

O romance nos convida a perguntar: até onde podemos ir em busca de um ideal? Quando a justiça se torna tirania? E como reconhecer o momento exato em que o algoz se torna vítima?

Com um desfecho que não revelarei (para não dar spoiler), France entrega uma obra que incomoda, emociona e provoca reflexões duradouras. Recomendo vivamente a leitores que apreciam ficção histórica com densidade filosófica, e também a quem deseja compreender, pelas entrelinhas da literatura, as fragilidades da condição humana.



Sugestão de boa leitura:

Título: Os deuses têm sede.

Autor: Anatole France.

Editora: Boitempo Editorial, 2007, 256 p.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Os últimos dias de Pompeia

E
ste escriba sempre teve um fascínio por montanhas, em especial as de origem vulcânica. Não por acaso, o primeiro livro emprestado na biblioteca da universidade, da qual se tornaria assíduo frequentador, foi "Os vulcões e a deriva dos continentes", de Haroun Tazieff.

Há alguns anos, o professor de Geografia (e escriba nas horas vagas) teve a felicidade de realizar um sonho de juventude quando guiando seu próprio carro, chegou à Cordilheira dos Andes e, no caminho, avistou vários vulcões. Em San Pedro de Atacama, no coração do deserto, hospedou-se numa pousada cuja rua, no horizonte, oferecia uma visão desimpedida do belíssimo vulcão Licancabur.

Foi com grata satisfação que pude ler a obra "Os últimos dias de Pompéia", do escritor, poeta, romancista, dramaturgo e político inglês Edward Bulwer-Lytton (1803–1873). Publicado originalmente em 1834, o livro é um romance histórico que transporta o leitor para os momentos finais de uma das cidades mais emblemáticas da Antiguidade.

No dia 24 de outubro de 79 d.C., o vulcão Vesúvio, na atual Itália, entrou em erupção e soterrou com cinzas e materiais piroclásticos as cidades de Oplonte, Herculano e Pompéia. Esse trágico evento, porém, preservou esses núcleos urbanos como verdadeiros diários de pedra, permitindo que arqueólogos conhecessem não apenas a arquitetura original de uma cidade romana não modernizada, mas também as complexas relações sociais de seu espaço urbano.

A trama de Bulwer-Lytton entrelaça intrigas políticas, tensões religiosas, conflitos culturais e a decadência moral de uma sociedade que vivia despreocupada aos pés de uma montanha que não lhes inspirava temor, afinal, a última erupção havia ocorrido quase dois mil anos antes. É verdade que um terremoto, dezessete anos antes, causara enorme destruição na cidade, que ainda se encontrava em reformas no dia de sua destruição final.

O enredo gira em torno do jovem e nobre ateniense Glauco, apaixonado pela bela grega Jonia. Arbaces, um rico sacerdote egípcio, surge como seu antagonista, também disputando o amor da moça. Nydia, uma jovem escrava cega, nutre uma paixão silenciosa por Glauco, enquanto Júlia, filha do rico comerciante Diomedes, também se interessa pelo herói. Olinto, por sua vez, representa a chegada de uma nova fé (Cristianismo) que desafia os cultos pagãos locais.

Com base no conhecimento obtido pelas escavações arqueológicas, o autor recria com minúcia o ambiente político (em vésperas de eleições), religioso (com a convivência de divindades romanas, gregas, egípcias e o surgimento dos primeiros cristãos) e cultural de Pompéia. A cidade comercial contrastava com Herculano, que funcionava como um balneário exclusivo para cidadãos ricos. Em Pompéia, trabalhadores livres e escravizados garantiam o funcionamento da vida cotidiana, mas nem todos estavam satisfeitos: alguns reclamavam da falta de espetáculos no anfiteatro, já que faltavam condenados para serem lançados às feras recém-chegadas (um leão e um tigre). Nesses eventos, combates de gladiadores frequentemente terminavam em morte, a menos que a plateia ou as autoridades concedessem clemência, o que nem sempre acontecia.

E, em meio a tudo isso, o vulcão Vesúvio acorda...

 

Sugestão de boa leitura:

Título:  Os últimos dias de Pompeia.

Autor:  Edward Bulwer-Lytton.

Editora: Sétimo Selo, 2026, 472 p.

sábado, 29 de agosto de 2026

Turbulência não derruba avião

 

        Pensei muito se deveria escrever estas linhas e considerei que, muitas vezes, aquilo que aqui publico é uma externalização do que penso ou sinto. Confesso que não sabia que rumo dar a este artigo, pois sou um dos milhões de inscritos no canal Aviões e Músicas de Lito Sousa e todos estamos chocados com a notícia acerca do diagnóstico da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Aqui não escreverei sobre a grave enfermidade, pois acredito que seja do conhecimento do leitor dada a ampla divulgação do caso. Escrevo, sim, sobre o homem que nos ensinou, dia após dia, que turbulência não derruba avião e que essa frase, repetida por ele com tanta convicção, nunca fez tanto sentido como agora.

            Lito é um apaixonado por aviação e trabalhou décadas como mecânico de aeronaves em grandes companhias da aviação comercial. Sua paixão era tanta que resolveu criar um canal no YouTube como hobby, com a intenção de partilhar seu conhecimento e desmistificar falsas ideias sobre aquele que é o meio de transporte mais seguro do mundo. Uma de suas frases mais repetidas é a que dá título a este artigo e sobre a qual, inúmeras vezes, ele demonstrou sua veracidade com dados, histórias e aquela paciência de quem realmente ama o que faz.

            O caminho deste escriba até a inscrição no canal Aviões e Músicas passa, obviamente, por uma paixão por aviões que vem da infância. Lembro de ter pedido ao "bom velhinho" um avião de brinquedo como presente de Natal. Talvez ele não tenha entendido ou não encontrado, o fato é que recebi uma pá carregadeira. No entanto, um amigo ganhou um avião e, não estando contente, trocamos nossos brinquedos e ficamos ambos felizes. A bem da verdade, o avião era menos elaborado do que a pá carregadeira, mas era um avião. E, mesmo naquela troca simples, eu já aprendia, sem saber, o que Lito tanto repete: o importante não é o tamanho da turbulência, mas a certeza de que se está no caminho certo.

            Quando adolescente, comprava e lia as revistas Asas e Força Aérea a ponto de decorar dados técnicos de caças. Na época, meu sonho era ser piloto da Força Aérea Brasileira. Por falta de informações e de condições financeiras, não realizei meu sonho, mas segui acompanhando o mundo das asas fixas. Lembro que meu primeiro voo de avião ocorreu em Laranjeiras do Sul, num panorâmico sobre a cidade e o lago de Salto Santiago, no fim da década de 1970. O piloto e proprietário da aeronave era o Sr. Gilberto Telli, amigo de meu pai, que nos fez a gentileza do passeio. Não sei dizer se foi em um monomotor ou bimotor (ele tinha os dois modelos), mas lembro de como tudo parecia pequeno visto do alto. Naquele momento, eu já sentia o que Lito descreve com tanta propriedade: a aviação nos dá uma perspectiva nova do mundo.

            Laranjeiras do Sul tinha, em sua pista de pouso, quatro ou cinco aeronaves pertencentes a empresários e médicos, guardadas em hangar. Essa pista, hoje, sequer existe, virou lavoura. Lembro também do acidente e do local da queda do avião do saudoso Dr. Carmosino. Aliás, meu interesse é tamanho pela aviação que leio e assisto a tudo, mesmo sobre acidentes aéreos. Aos que são próximos, costumo afirmar: "Comida que leva queijo e filme ou livro sobre avião não tem erro, sempre é bom." É uma brincadeira, mas traduz bem o prazer que esse tema me traz.

            Foi nesse cenário de entusiasta que nunca perdeu o brilho nos olhos por uma aeronave que encontrei o canal de Lito Sousa. E, de imediato, reconheci nele não apenas um especialista, mas alguém que devolvia à aviação a sua poesia e a sua verdade. Aqui neste espaço, dentre outras obras, resenhamos o excelente livro "Onde morrem os aviões", de sua autoria. Digo que, apesar de meu grande interesse pela aviação, minha experiência como passageiro é pouca, tendo em vista que também amo a estrada e adoro dirigir. Mas, ainda assim, o conteúdo de Lito me faz viajar (não apenas entre cidades), mas no tempo, de volta àquelas tardes de infância em que um simples brinquedo trocado já era suficiente para me fazer acreditar que eu poderia voar.

            E todas essas memórias voltaram com uma força imensa quando soube do diagnóstico de Lito. Porque ele foi, sem saber, o piloto que me reconectou àquele garoto que colecionava revistas e sonhava com as asas da FAB. Ele nos deu muito mais do que informação técnica; ele nos deu acolhimento, entusiasmo e a certeza de que, mesmo diante do inesperado, há beleza em seguir em frente.

            Encerro dizendo que o adoecimento de Lito é uma turbulência que todos nós, amantes da aviação e fãs do excepcional trabalho do youtuber à frente do Canal Aviões e Músicas, estamos atravessando. Lito não é apenas excelente no que faz, ele é uma das melhores pessoas da internet brasileira. E, se há algo que ele nos ensinou com tanta insistência, é que turbulência não derruba avião. Ela sacode, assusta, incomoda, mas não derruba. Porque avião foi feito para voar, e pessoas como Lito foram feitas para inspirar.

            Força, Lito! A turbulência passa. O voo continua.

 

sábado, 22 de agosto de 2026

Democracia de baixa intensidade: O Congresso como freio e povo como espectador

 

Neste espaço, já afirmei em outras ocasiões que o Brasil vive uma democracia de baixa intensidade. Não por acaso, mas porque nenhuma democracia plena pode florescer em uma sociedade tão profundamente desigual. O Índice de Gini de 2025 nos coloca como a quarta nação mais desigual do planeta e esse dado não é fruto do acaso, nem de fatalidades históricas. É resultado de escolhas, de projetos de poder que sempre privilegiaram poucos em detrimento de muitos.

Desde o período colonial, o Brasil foi pensado e gerido por elites que raramente ousaram construir um projeto de nação soberana, inclusiva e desenvolvida. Quando refletimos sobre os rumos do país, é comum atribuirmos a culpa a este ou àquele presidente, a este ou àquele partido. Mas essa é uma leitura curta, que funciona como uma cortina de fumaça, pois esconde o essencial.

O sistema político brasileiro é o presidencialismo de coalizão. Para governar, o Executivo precisa, obrigatoriamente, costurar maioria no Congresso Nacional. E, no Brasil, essas casas legislativas sempre foram, majoritariamente, ocupadas por forças conservadoras. Nas raras ocasiões em que presidentes com agendas progressistas chegaram ao Planalto, encontraram pela frente bancadas parlamentares que impuseram um preço alto pela governabilidade. Os resultados foram governos do possível, não do necessário, administrações que fizeram o que podiam, mas não o que seria preciso para reverter o quadro estrutural de exclusão.

Basta olhar as urnas. Mesmo quando o eleitorado brasileiro elege para o Planalto um nome com discurso de mudança, ao mesmo tempo reconduz ao Congresso uma bancada profundamente alinhada ao conservadorismo, a chamada bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), que representa, respectivamente, o latifúndio, o armamentismo e a pauta moral conservadora. Esse bloco histórico se organiza para barrar reformas socioeconômicas de caráter popular, freando qualquer tentativa de redistribuição de renda, terra e poder.

O Brasil só avançará de verdade na redução da desigualdade quando o Congresso Nacional refletir as várias cores, rostos e vozes do povo trabalhador. Isso, porém, é um desafio imenso. O trabalhador brasileiro vive imerso em urgências (a carestia, o desemprego, a luta diária pela sobrevivência). Além disso, o subdesenvolvimento histórico limita o acesso a uma educação crítica e emancipadora, o que torna mais difícil a percepção de que o parlamento é tão ou mais decisivo que a presidência para seu futuro.

Nas democracias de baixa intensidade e sob o peso da ditadura do neoliberalismo econômico, o voto nos dá a ilusão de que decidimos nossos rumos. Na verdade, o capital financeiro, o agronegócio, a indústria de armas e os grandes meios de comunicação detêm o controle das eleições: elegem a imensa maioria da bancada parlamentar e, sem o Congresso, o Planalto fica acorrentado. Saber disso não é derrotismo, é o primeiro passo para mudar.

O Congresso Nacional, tal como está conformado, é uma fábrica de leis favoráveis aos mais aquinhoados. Acelera reformas neoliberais quando o Executivo está alinhado a essa agenda, e funciona como um potente freio de arrumação quando um governo progressista tenta apontar em direção contrária. Essa dinâmica não é nova, mas nunca foi tão explícita.

Por isso, como povo trabalhador, precisamos aprender a olhar com a mesma atenção que dedicamos ao Planalto para o Parlamento. É lá que se decide se teremos um governo do possível ou um governo do necessário. É lá que a democracia ganha ou perde densidade.

E, para que a democracia não seja apenas um ritual de legitimação da desigualdade, é preciso que o povo ocupe não apenas as ruas, mas também as cadeiras. Que o Congresso, enfim, seja pintado de povo.