Sugestão
de boa leitura:
Título: Os últimos dias de Pompeia.
Autor: Edward Bulwer-Lytton.
Editora: Sétimo
Selo, 2026, 472 p.
Sugestão
de boa leitura:
Título: Os últimos dias de Pompeia.
Autor: Edward Bulwer-Lytton.
Editora: Sétimo
Selo, 2026, 472 p.
Pensei muito se deveria
escrever estas linhas e considerei que, muitas vezes, aquilo que aqui publico é
uma externalização do que penso ou sinto. Confesso que não sabia que rumo dar a
este artigo, pois sou um dos milhões de inscritos no canal Aviões e Músicas de
Lito Sousa e todos estamos chocados com a notícia acerca do diagnóstico da
Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Aqui não escreverei sobre a grave
enfermidade, pois acredito que seja do conhecimento do leitor dada a ampla
divulgação do caso. Escrevo, sim, sobre o homem que nos ensinou, dia após dia,
que turbulência não derruba avião e que essa frase, repetida por ele
com tanta convicção, nunca fez tanto sentido como agora.
Lito é um apaixonado por aviação e trabalhou décadas como
mecânico de aeronaves em grandes companhias da aviação comercial. Sua paixão
era tanta que resolveu criar um canal no YouTube como hobby, com a intenção de
partilhar seu conhecimento e desmistificar falsas ideias sobre aquele que é o
meio de transporte mais seguro do mundo. Uma de suas frases mais repetidas é a
que dá título a este artigo e sobre a qual, inúmeras vezes, ele demonstrou sua
veracidade com dados, histórias e aquela paciência de quem realmente ama o que
faz.
O caminho deste escriba até a inscrição no canal Aviões e
Músicas passa, obviamente, por uma paixão por aviões que vem da infância.
Lembro de ter pedido ao "bom velhinho" um avião de brinquedo como
presente de Natal. Talvez ele não tenha entendido ou não encontrado, o fato é
que recebi uma pá carregadeira. No entanto, um amigo ganhou um avião e, não
estando contente, trocamos nossos brinquedos e ficamos ambos felizes. A bem da
verdade, o avião era menos elaborado do que a pá carregadeira, mas era um
avião. E, mesmo naquela troca simples, eu já aprendia, sem saber, o que Lito
tanto repete: o importante não é o tamanho da turbulência, mas a certeza de que
se está no caminho certo.
Quando adolescente, comprava e lia as revistas Asas e Força
Aérea a ponto de decorar dados técnicos de caças. Na época, meu sonho era
ser piloto da Força Aérea Brasileira. Por falta de informações e de condições
financeiras, não realizei meu sonho, mas segui acompanhando o mundo das asas fixas.
Lembro que meu primeiro voo de avião ocorreu em Laranjeiras do Sul, num
panorâmico sobre a cidade e o lago de Salto Santiago, no fim da década de 1970.
O piloto e proprietário da aeronave era o Sr. Gilberto Telli, amigo de meu pai,
que nos fez a gentileza do passeio. Não sei dizer se foi em um monomotor ou
bimotor (ele tinha os dois modelos), mas lembro de como tudo parecia pequeno
visto do alto. Naquele momento, eu já sentia o que Lito descreve com tanta
propriedade: a aviação nos dá uma perspectiva nova do mundo.
Laranjeiras do Sul tinha, em sua pista de pouso, quatro
ou cinco aeronaves pertencentes a empresários e médicos, guardadas em hangar.
Essa pista, hoje, sequer existe, virou lavoura. Lembro também do acidente e do
local da queda do avião do saudoso Dr. Carmosino. Aliás, meu interesse é
tamanho pela aviação que leio e assisto a tudo, mesmo sobre acidentes aéreos.
Aos que são próximos, costumo afirmar: "Comida que leva queijo e filme ou
livro sobre avião não tem erro, sempre é bom." É uma brincadeira, mas traduz
bem o prazer que esse tema me traz.
Foi nesse cenário de entusiasta que nunca perdeu o brilho
nos olhos por uma aeronave que encontrei o canal de Lito Sousa. E, de imediato,
reconheci nele não apenas um especialista, mas alguém que devolvia à aviação a
sua poesia e a sua verdade. Aqui neste espaço, dentre outras obras, resenhamos
o excelente livro "Onde morrem os aviões", de sua autoria. Digo
que, apesar de meu grande interesse pela aviação, minha experiência como
passageiro é pouca, tendo em vista que também amo a estrada e adoro dirigir.
Mas, ainda assim, o conteúdo de Lito me faz viajar (não apenas entre cidades),
mas no tempo, de volta àquelas tardes de infância em que um simples brinquedo
trocado já era suficiente para me fazer acreditar que eu poderia voar.
E todas essas memórias voltaram com uma força imensa
quando soube do diagnóstico de Lito. Porque ele foi, sem saber, o piloto que me
reconectou àquele garoto que colecionava revistas e sonhava com as asas da FAB.
Ele nos deu muito mais do que informação técnica; ele nos deu acolhimento,
entusiasmo e a certeza de que, mesmo diante do inesperado, há beleza em seguir
em frente.
Encerro dizendo que o adoecimento de Lito é uma
turbulência que todos nós, amantes da aviação e fãs do excepcional trabalho do
youtuber à frente do Canal Aviões e Músicas, estamos atravessando. Lito não é
apenas excelente no que faz, ele é uma das melhores pessoas da internet
brasileira. E, se há algo que ele nos ensinou com tanta insistência, é
que turbulência não derruba avião. Ela sacode, assusta, incomoda, mas não
derruba. Porque avião foi feito para voar, e pessoas como Lito foram feitas
para inspirar.
Força, Lito! A turbulência passa. O voo continua.
Desde o período colonial, o Brasil foi pensado e gerido por elites que raramente ousaram construir um projeto de nação soberana, inclusiva e desenvolvida. Quando refletimos sobre os rumos do país, é comum atribuirmos a culpa a este ou àquele presidente, a este ou àquele partido. Mas essa é uma leitura curta, que funciona como uma cortina de fumaça, pois esconde o essencial.
O sistema político brasileiro é o presidencialismo de
coalizão. Para governar, o Executivo precisa, obrigatoriamente, costurar
maioria no Congresso Nacional. E, no Brasil, essas casas legislativas sempre
foram, majoritariamente, ocupadas por forças conservadoras. Nas raras ocasiões
em que presidentes com agendas progressistas chegaram ao Planalto, encontraram
pela frente bancadas parlamentares que impuseram um preço alto pela
governabilidade. Os resultados foram governos do possível, não do necessário,
administrações que fizeram o que podiam, mas não o que seria preciso para
reverter o quadro estrutural de exclusão.
Basta olhar as urnas. Mesmo quando o eleitorado brasileiro elege
para o Planalto um nome com discurso de mudança, ao mesmo tempo reconduz ao
Congresso uma bancada profundamente alinhada ao conservadorismo, a chamada
bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), que representa, respectivamente, o
latifúndio, o armamentismo e a pauta moral conservadora. Esse bloco histórico
se organiza para barrar reformas socioeconômicas de caráter popular, freando
qualquer tentativa de redistribuição de renda, terra e poder.
O Brasil só avançará de verdade na redução da desigualdade
quando o Congresso Nacional refletir as várias cores, rostos e vozes do povo
trabalhador. Isso, porém, é um desafio imenso. O trabalhador brasileiro vive
imerso em urgências (a carestia, o desemprego, a luta diária pela sobrevivência).
Além disso, o subdesenvolvimento histórico limita o acesso a uma educação
crítica e emancipadora, o que torna mais difícil a percepção de que o
parlamento é tão ou mais decisivo que a presidência para seu futuro.
Nas democracias de baixa intensidade e sob o peso da
ditadura do neoliberalismo econômico, o voto nos dá a ilusão de que decidimos
nossos rumos. Na verdade, o capital financeiro, o agronegócio, a indústria de
armas e os grandes meios de comunicação detêm o controle das eleições: elegem a
imensa maioria da bancada parlamentar e, sem o Congresso, o Planalto fica
acorrentado. Saber disso não é derrotismo, é o primeiro passo para mudar.
O Congresso Nacional, tal como está conformado, é uma
fábrica de leis favoráveis aos mais aquinhoados. Acelera reformas neoliberais
quando o Executivo está alinhado a essa agenda, e funciona como um potente
freio de arrumação quando um governo progressista tenta apontar em direção contrária.
Essa dinâmica não é nova, mas nunca foi tão explícita.
Por isso, como povo trabalhador, precisamos aprender a olhar
com a mesma atenção que dedicamos ao Planalto para o Parlamento. É lá que se
decide se teremos um governo do possível ou um governo do necessário. É lá que
a democracia ganha ou perde densidade.
E, para que a democracia não seja apenas um ritual de
legitimação da desigualdade, é preciso que o povo ocupe não apenas as ruas, mas
também as cadeiras. Que o Congresso, enfim, seja pintado de povo.
A apresentadora Sabina Simonato se envolveu, recentemente, em uma polêmica de dimensão nacional ao criticar a liberação antecipada dos estudantes durante os jogos da seleção na Copa do Mundo de 2026. Seu argumento foi pragmático: a saída antecipada traria problemas logísticos para os pais que estavam trabalhando e haviam confiado seus filhos à escola naquele período. Segundo ela, os responsáveis precisariam buscar as crianças e encontrar quem as acolhesse até o fim do expediente.
Diante da repercussão negativa, Sabina pediu desculpas, afirmando que não quis dar a entender que escolas são depósitos de estudantes. O estrago, porém, já estava feito. E suas palavras não convenceram.
O leitor pode julgar que esse tema é
anacrônico, afinal, o "hype" da Copa já passou. No entanto, professor
que sou, convivo com esse debate diariamente no corredor e na sala de
professores. E posso afirmar: a visão utilitarista da escola é discutida há
muito tempo entre nós, educadores.
Lembro-me bem de que, durante a
pandemia de Covid 19, as autoridades decretaram o isolamento social e as aulas
passaram a ocorrer de forma remota, por meio de materiais impressos e
plataformas digitais. Não houve, naquele período, aulas presenciais.
Especialistas da área da saúde alertavam, insistentemente, sobre a necessidade
do fechamento das escolas para reduzir a transmissão do vírus, já que a sala de
aula é um ambiente insalubre por natureza (aglomeração, espaço reduzido e
ventilação precária).
Ainda assim, houve forte reclamação
de pais nos meios de comunicação. Muitos afirmavam que precisavam trabalhar e
não tinham onde deixar os filhos, fazendo pouco caso dos riscos de transmissão
cruzada do vírus entre estudantes e familiares, inclusive aqueles com
comorbidades. O que mais doía, na época, era perceber que, para uma parcela dos
responsáveis, a escola importava menos como espaço de formação e mais como
guarda de crianças e adolescentes.
É preciso, contudo, evitar a
generalização. Estas linhas retratam uma parcela, jamais a totalidade dos pais
de estudantes. Muitos foram os responsáveis que retiraram seus filhos
antecipadamente ao cancelamento das aulas presenciais e que mantiveram o uso de
máscaras quando muitos já as haviam abandonado. Esses merecem reconhecimento.
A insatisfação dos mestres, é
verdade, dirige-se àqueles pais que encerram o acompanhamento da evolução da
aprendizagem de seus filhos com o ato da matrícula. Não comparecem às reuniões
de pais e mestres, nem mesmo para retirar os boletins. Muitos só aparecem na
escola no final do ano, quando o filho está em risco de reprovação. Há os que
se recusam a assinar a prova corrigida, como se a nota dissesse respeito apenas
à criança, e não à construção conjunta de seu percurso.
Já ouvimos, na escola, sincericídios
de algumas mães (minoria, é verdade) que se declararam contra as férias, dando
a entender que preferem os filhos na escola do que em casa. Esse pensamento,
externado por poucas, talvez reflita o entendimento de um número pequeno, mas
significativo, de pais.
Um caso emblemático ilustra bem esse
descompasso. A cantora Luiza Possi postou em suas redes sociais que a escola de
seu filho a chamou para conversar sobre problemas de comportamento da criança.
Sua resposta foi: “A escola que se vire, porque eu tenho os mesmos problemas em
casa e não reclamo com a escola". Esse tipo de postura, infelizmente, é
comum. Muitos pais se irritam com a escola quando convocados para tratar de
comportamentos inadequados ou de dificuldades de aprendizagem de seus filhos. Muitos
são os pais que não se comprometem com a aprendizagem cognitiva e social dos
filhos: não orientam a agenda, não verificam os cadernos, não determinam horários
de estudo em casa e não frequentam as reuniões.
Chegamos, muitos mestres, a uma
conclusão desconcertante: há pais que não sabem nem mesmo a série ou o ano que
seus filhos estudam. O leitor pode argumentar que isso se deve ao baixo nível
de escolaridade desses responsáveis. Mas a experiência de sala de aula nos
mostra o contrário: ao longo de nossa carreira, observamos inúmeros pais com
poucos anos de estudo que são extremamente exigentes e zelosos com a
aprendizagem dos filhos. Este escriba, por exemplo, teve pais com pouca
instrução formal, mas foi rigorosamente cobrado quanto à dedicação aos estudos.
É por tudo isso que a fala de Sabina
Simonato incomodou tanto. Ela reduziu a escola a um serviço de apoio à rotina
dos pais, quando ela é, antes de tudo, um espaço de formação, descoberta e
convívio. Ao tratar a saída antecipada como um problema logístico, ela revelou,
mesmo sem intenção, uma visão distorcida que muitos pais compartilham: a de que
a escola existe para resolver uma ausência, e não para construir uma presença.
Encerro com um apelo: os professores desejam, acima de tudo, uma parceria com os pais. Estudos da área educacional já comprovaram que os estudantes cujos pais são participantes ativos e assíduos na escola são os que alcançam melhores resultados não apenas em notas, mas em comportamento, autonomia e autoestima. A escola é importante demais para a transformação da vida de seu filho para ser relegada a um papel secundário.
Não queremos que os pais resolvam os problemas sozinhos. Queremos que caminhem ao nosso lado. Porque educar é um ato compartilhado, e sem esse elo, a corrente se rompe.
Com 144 páginas, a obra alterna
biografia, escândalos de corrupção, análise de lobby e geopolítica. O tom é
panfletário, mas lastreado em recortes de imprensa, documentos públicos e
declarações do próprio Rubio.
Filho de cubanos que imigraram
durante o governo de Fulgêncio Batista (aliado histórico de Washington), Rubio
construiu uma narrativa pessoal marcada por contradições. Em campanhas, afirmou
que os pais haviam deixado Cuba por causa do regime castrista, versão
desmentida por registros históricos. Formado em Direito graças a uma bolsa de
atleta, disputou as primárias republicanas de 2016 contra Jeb Bush e Donald
Trump. Derrotado, tornou-se aliado de Trump e foi nomeado secretário de Estado
no atual mandato.
Um dos eixos centrais do livro é a
relação entre políticos cubano-americanos e o crime organizado na Flórida.
Blanch documenta casos de corrupção e aponta que Rubio teria sido alvo de
denúncias por tráfico de influência e enriquecimento ilícito, embora sem
condenações formais. O autor também destaca a dependência de Rubio em relação
ao capital financeiro e ao lobby sionista, principais doadores de suas
campanhas. No plano doméstico, defende o livre porte de armas, opõe-se à
anistia para imigrantes e rejeita o aumento de impostos sobre grandes fortunas.
No campo internacional, Rubio
articula pressão máxima contra Cuba, Nicarágua e Venezuela, além de propor
aliança energética com Canadá, México, Colômbia e Brasil para deslocar o
protagonismo do Oriente Médio e da Rússia. O livro sustenta que ele atua como
mentor intelectual de grande parte das iniciativas desestabilizadoras do
governo Trump, comparando sua influência à de Joseph Goebbels no Terceiro Reich
pela habilidade em manipular narrativas e justificar violações do Direito
Internacional.
Marco Rubio, um mitômano
incontrolável não é uma biografia neutra, tampouco um ensaio acadêmico
isento. Trata-se de um livro escrito para municiar militantes como explicita a
própria orelha. Do ponto de vista jornalístico, a obra peca pela ausência de
fontes primárias inéditas e pela escassez de entrevistas, baseando-se em
compilações de notícias já publicadas. Sua virtude é organizar informações
dispersas em uma narrativa coerente e acessível.
O livro cumpre o que promete:
oferecer um retrato crítico e documentado de Rubio, expondo contradições entre
discurso e prática. Recomenda-se a leitura a militantes, jornalistas e
pesquisadores, desde que cientes do viés
assumido. Como ferramenta de debate, é valiosa; como fonte única, requer
contraponto.
Sugestão de boa leitura:
Título:
Marco Rubio, um mitômano incontrolável.
Autor: Hedelberto López Blanch.
Editora:
Expressão Popular,
2026, 144 p.
Tenho
o hábito de assistir séries, mas neste recesso escolar resolvi mudar: nada de
episódios que, em sua ordem cronológica, me lembram a rigidez com que nós,
professores, ficamos presos ao relógio (horários, duração de aulas, sirenes).
Optei por filmes aleatórios. Como assisto poucos, é fácil encontrar títulos
inéditos para minha simples descontração.
Foi assim que, num canal de streaming,
deparei com O diário de Bridget Jones (2001). O título sempre me
despertara curiosidade, mas, por alguma razão, nunca passara da intenção. Nada
li a respeito. Em meu imaginário, tratava-se de uma repórter investigativa que
desvendara uma grande rede de corrupção e, após ser assassinada, seu diário
revelava os criminosos.
Quem já assistiu ao filme sabe que
não se trata de nada disso. Obviamente, não compartilhei minha suposição com
ninguém, se o tivesse feito, alguém me corrigiria a tempo. Esse episódio banal
me fez lembrar de uma frase de Karl Marx: "Se toda a essência
coincidisse com a aparência, a ciência seria desnecessária." O
filósofo quis dizer que, se as coisas fossem o que aparentam à primeira vista,
não precisaríamos estudar, pesquisar ou investigar para descobrir seu real
significado.
Ocorreu-me, então, um caso parecido.
Um companheiro de visão de mundo, alguém que compartilha comigo projeto de
sociedade e país, confessou que não conseguia ler tudo o que eu postava nas
redes, mas que assinava embaixo e repostava minhas publicações por me conhecer.
Apontei-lhe o equívoco: ainda que eu leia tudo o que publico, já encontrei
postagens de companheiros que contrariam a própria ideologia que sei que
defendem. Tais contradições nascem, muitas vezes, de manchetes cujo conteúdo
não corresponde ao título.
Pensei, então: quanta gente deve
republicar postagens cujo teor desconhece ou mesmo discorda? Quantos se limitam
a comentar manchetes, sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo integral?
Essa não é uma reflexão nova neste
espaço. Em outubro de 2010, publiquei "A ilusão de descortinar o
mundo real", onde já alertava: "A visão de mundo das pessoas é
muito limitada, poderíamos dizer míope (com o perdão dos que sofrem desse
problema visual). Não conseguem ver muito além do que lhes é próximo. Ver a
essência dos fenômenos não é tarefa fácil; exige estudo, observação, reflexão.
E, como sabemos, nem todos são afeitos ao ato de pensar. Pensar é uma árdua
tarefa, já afirmava Einstein, completando que talvez por isso tão poucos se
dediquem a ela. Assim, difunde-se o discurso de que se deve aceitar o mundo
como ele aparenta ser, afinal, as coisas sempre foram assim e não há o que
mudar."
Há dias, um internauta postou que
dos professores "muito se deve exigir, pois as consequências de seu
trabalho se propagam por décadas". Concordo. Mas complemento: que se dê
aos mestres as condições necessárias para tal. Reitero também que muito se fala
dos professores, mas pouco se discute o peso da imprensa que omite ou manipula
informações. E o que dizer dos internautas que propagam fake news e
desinformam parcelas inteiras da sociedade, minando a própria democracia, que
precisa, como subsídio para sua ação, da informação verdadeira?
O que quero dizer, no fundo, é que a
hipocrisia reina em muitos discursos. E poucos, muito poucos, passariam pelo
crivo de seu próprio pensar.
Se Bridget Jones me ensinou algo,
além de boas risadas, foi isto: julgar um filme (ou uma notícia, ou uma pessoa)
pela capa é um risco que, num mundo saturado de informações, já não podemos
mais nos dar ao luxo de correr.
A trama de O guarani, publicada
por José de Alencar em 1857, conta uma história de amor ambientada no século
XVII entre um indígena e a filha de um próspero colonizador português. Cecília
(Ceci) é filha de D. Antonio Mariz (personagem inspirada em um dos fundadores
do Rio de Janeiro). Em sua propriedade fortificada no alto de uma colina, vivem
sua família, aventureiros, fidalgos e mercenários. A família de D. Antonio é
composta pela esposa D. Lauriana, a bela filha Ceci, o filho D. Diogo e a filha
mestiça Isabel, que D. Antonio teve com uma indígena.
Peri é um índio goitacá inteligente
e destemido que salvou Ceci de um ataque indígena e que, como missão de vida,
se incumbiu da proteção dela. Na propriedade residem homens de má índole que
não demoram a observar os dotes de Cecília. Isabel é apaixonada por Álvaro,
capanga de D. Antonio, que por sua vez é apaixonado por Ceci, mas ela não o
corresponde. Peri tem uma paixão platônica por Ceci. D. Lauriana se irrita com
a presença do "selvagem" na propriedade, porém D. Antonio tem simpatia
pelo indígena e o considera útil. D. Diogo sai para caçar e, não intencionalmente,
mata uma indígena aymoré, isso se torna o estopim de um conflito feroz entre a
tribo Aymoré e a família de colonizadores.
O livro evidencia a fase
nacionalista do Romantismo brasileiro, com forte influência europeia, mas é
importante notar que Peri é mais um símbolo cavalheiresco do que uma
representação realista do indígena. Mesmo assim, a obra prende o leitor do
início ao fim, com cenas de ação, amor e tragédia que fazem jus ao talento de
Alencar. Se você só leu O guarani na escola, vale a pena relê-lo
agora, a experiência é completamente outra.
Sugestão de boa leitura:
Título: O guarani.
Autor: José de Alencar.
Editora: La Fonte, 2022, 304 p.