sábado, 2 de maio de 2026
Lincoln, um líder forjado no fogo (versão reeditada e sintetizada)
domingo, 19 de abril de 2026
Teoria Geral do Esquecimento
José Eduardo Agualusa Alves
da Cunha (1960) agrônomo de formação, tornou-se jornalista, escritor e editor
por vocação. Angolano de ascendência portuguesa e brasileira, Agualusa
juntamente com Mia Couto (1955) são considerados dois expoentes da literatura
africana em língua portuguesa.
Teoria Geral do Esquecimento é o mais famoso livro de
José Eduardo. O título induz o público leigo ao equívoco de acreditar que a
obra tem conteúdo academicista, no entanto, trata-se de ficção do início ao
fim.
Na trama, o narrador (Osga) diz que teve acesso aos
diários, poemas e reflexões de Ludovica Fernandes Mano (Ludo) e relata o
cotidiano de Ludovica que viera de Portugal para residir em Angola, na casa de
sua irmã Odete que se casara com Orlando, um angolano de ascendência portuguesa
que exercia o ofício de administrador de uma mina de diamantes.
Ludo, devido seu trauma de infância, tem fobia a
lugares abertos (agorafobia) e demandou muitos cuidados na viagem para Angola.
Pouco tempo depois que se estabelece em Angola, estoura o movimento
independentista (1961-1974) e, com ele, o racismo e a violência se
intensificam. Os colonizadores portugueses passam a temer ataques da população
nativa. Muitos portugueses organizam festas de despedidas. Orlando e Odete vão
a um jantar de despedidas e não mais retornam.
Ludovica fechada no apartamento do casal
desaparecido, cujo prédio se esvaziou, pois era de moradia exclusiva de
portugueses, recebe uma ligação ameaçadora pedindo os diamantes em troca da
vida do casal, afirma não saber dos mesmos. Ela vai ao escritório do cunhado,
encontra uma pistola. Alguém tenta arrombar a porta do apartamento. Ludo atira,
fere um dos rapazes, os demais fogem. O jovem ferido suplica e Ludo abre a
porta, lhe dá água, mas o rapaz morre. Ela enterra o assaltante no terraço,
onde havia árvores frutíferas.
Ludo tinha muita comida enlatada, pois seus vizinhos
aos irem embora lhe doaram toda a sua despensa (comida e bebida). É com esses
alimentos que Ludovica vai sobreviver juntamente com o cãozinho branco de nome Fantasma.
Havia muito tumulto e tiros nas ruas, e Ludo que teme o espaço aberto após
encontrar cimento de uma obra iniciada por seu cunhado no terraço resolve concretar
a porta de acesso ao apartamento.
Ela, uma estrangeira, numa terra tumultuada, se isola
do mundo por trinta anos e por ele é esquecida. Essa solidão denota uma
violência talvez maior do que a que reina lá fora devido ao caos instalado. A
sociedade esquece dela e ela esquece do mundo exterior. Os dias passam, ela fica
com a companhia de Fantasma e de inúmeros livros da biblioteca de seu
cunhado. Ludo lê e registra o que sente/vive,
por falta de papel passa a escrever na parede. Ela quebra a perna, momento em
que aparece um menino que escala o prédio para procurar alguma coisa de valor,
encontra Ludo e passa a ajudá-la fazendo a conexão com o mundo de fora que
estava em mutação.
O livro tem essa história principal e vários outros
fragmentos de memória de fatos do cotidiano que parecem não amalgamar, como
peças de um quebra-cabeças, onde já não é mais possível saber o que foi ou é
real e o que é criação da mente. Ao ler a obra, tudo parece confuso, como é
confusa a nossa memória de fatos vividos e que ficaram distantes no tempo, os
quais, apesar de estarem interligados parecem ter perdido a cola que os unia. Essa
aparente desconexão dos fatos no livro não é falha da escrita de Agualusa, mas
a prova de sua genialidade, pois a memória não é um arquivo organizado, mas um
labirinto de fragmentos.
O esquecimento pode ser uma tragédia (Alzheimer) ou
pode ser uma dádiva quando as pessoas esquecem o que as fez sofrer (o que não
aconteceu com Ludovica). É triste ser esquecido por seus amigos ou alguém
querido, porém é motivo de felicidade ser esquecido por quem nos trouxe dias
ruins. José Eduardo Agualusa insere Ludovica e seu trauma tendo como pano de
fundo a traumática luta pela independência de Angola, uma jovem nação que
precisou e ainda precisa reconciliar-se com sua própria história violenta, na
qual o esquecimento deixa de ser apenas um tema psicológico para tornar-se uma
questão coletiva.
P.S. Não contei o desfecho
do livro, porque uma resenha deve sempre deixar uma parte "esquecida"
para que o leitor a descubra! Fica a
dica!
Sugestão
de boa leitura:
Título: Teoria Geral do Esquecimento.
Autor: José Eduardo Agualusa.
Editora: Foz,
2012, 176 p.
domingo, 12 de abril de 2026
Lucíola
José de Alencar (1829-1877) foi um romancista,
dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário
e defensor do sistema escravocrata, na política, ficou reconhecido por sua atuação parlamentar na
defesa de valores conservadores, patriarcais, mas, também pátrios. A maturidade
que adquiri ao longo da vida, me permite separar José de Alencar, o homem
(fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra
deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor
de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do
Romantismo Brasileiro, dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e
morte, paixão e ódio, mas também muito talento.
Em Lucíola, livro epistolar publicado em 1862, Paulo,
o narrador, escreve a uma amiga contando sua vida após deixar Recife (PE), onde
se formara, e sua chegada à Corte (Rio de Janeiro), onde é recebido por alguns
amigos. Paulo se estabelece na capital da então jovem nação brasileira com a
intenção de encontrar um bom emprego. Na chegada, fica extasiado ao ver uma
jovem lindíssima e, ao vê-la passar a cumprimenta com todo o respeito dedicado
a uma dama. Paulo e Lúcia (este é o seu nome) se apaixonam. Ao querer saber
mais sobre a moça, seus amigos rindo, lhe desencantam, ao afirmar que todos
eles "conhecem" Lúcia, a qual era uma cortesã (meretriz de luxo).
Lúcia, com apenas 20 anos, levava uma vida
confortável graças aos altos preços exigidos por seus préstimos derivados da
necessidade que a vida lhe impôs e do desejo de independência que buscava. Tinha
uma boa casa, funcionárias, dinheiro para adquirir artigos de valor em lojas de
luxo, porém, sabia ser discreta, vestia-se bem, mas de forma sóbria. Ela, como
as demais cortesãs, apesar de muito requisitada em eventos e festas, era
estigmatizada na sociedade, mas tinha a liberdade que faltava às madames
reclusas na Casa Grande. Paulo, ante a inadmissibilidade moral de tê-la como companheira
de uma vida, para a qual, em seu
julgamento, ela não mais servia, decide que uma aventura passageira com tão
linda moça, não era algo a se desperdiçar.
Paulo encontra Lúcia e vai direto ao assunto e lhe
pergunta seu preço. A moça se entristece, Paulo já sabe, lamenta isso e, lhe
atende. Apesar de Lúcia ter como princípio não se envolver, o casal se encontra
seguidamente. Paulo vê em Lúcia uma pureza que sua vida pregressa não condiz
nem sustenta, e luta consigo mesmo entre a idealização e a razão. Lúcia se
orgulha de não precisar que nenhum homem lhe sustente e, humilha Paulo, por sua
pobreza, mas se cobra fortemente por exercer
a atividade que lhe rende seu dinheiro, apesar disso, mantém sua dignidade.
A obra de José de Alencar escancara a hipocrisia da
alta sociedade da capital brasileira, na qual, as mulheres ficavam trancafiadas
dentro de suas casas enquanto seus maridos, muitos deles, fazendeiros e/ou
políticos importantes dados a prática de belíssimos discursos em defesa da
família e dos bons costumes, caíam em contradição participando de reuniões nem
tão públicas, assim.
Encerro essa resenha, com a certeza de que mais
importante do que as linhas que escrevi, são aquelas que omiti, afinal, a
intencionalidade de uma resenha não é a de saciar a curiosidade literária, mas,
de estimular o apetite pela leitura. Fica a dica!
Sugestão
de boa leitura:
Título: Lucíola.
Autor:
José de Alencar.
Editora: Principis,
2020, 176 p.
domingo, 29 de março de 2026
Os preços na bomba de combustíveis: uma tentativa de explicação
Em meio à escalada de preços
dos combustíveis, sabendo que o Brasil é autossuficiente em petróleo,
perguntamos: por que sofremos com os efeitos da guerra? A resposta exige uma
retrospectiva histórica.
Após a campanha “O petróleo é nosso”, de Monteiro Lobato,
a Petrobras foi criada em 1953, por Getúlio Vargas, com monopólio estatal sobre
exploração, refino e transporte.
Nos anos 1990, foram impostas pelo FMI ao país (e
acolhidas pelos governantes e parlamentares) as regras neoliberais do Consenso
de Washington. No governo FHC, a quebra do monopólio e a abertura de capital da
Petrobras (1997) transformaram a empresa em estatal de capital misto. O marco
legal impede que a Petrobras descole seus preços do mercado internacional sob
alegação de concorrência desleal. É uma emenda constitucional, difícil de
mudar. Prova disso é que o governo Dilma foi processado no STF por praticar
preços baixos que supostamente reduziam lucros da estatal e de acionistas.
Nos governos Temer e Bolsonaro, os preços seguiram o
mercado internacional. A Petrobras importava mais combustível e subutilizava
refinarias. A privatização de refinarias e da BR Distribuidora não cumpriu a
promessa de reduzir preços. Enfraquecida, a Petrobras não conseguiu suprir o
mercado, e as estrangeiras seguem Preços de Paridade de Importação (PPI).
No governo Lula, o repasse do PPI não é instantâneo, e a
produção nas refinarias aumentou. Mas o Brasil carece de refinarias (a maioria
é do período da ditadura militar), exceto duas construídas no primeiro governo
Lula, depois privatizadas ou desinvestidas. Lula, em nosso ver, errou ao não
apresentar estudos de reestatização.
Parte do petróleo brasileiro é pesado: exportamos o óleo
pesado e importamos o leve, mais caro. A histórica escolha equivocada pelo
modal rodoviário nos força a importar 30% do diesel que não conseguimos suprir. Impostos estaduais variam de 22 a
34%; federais, 11%. Há ainda margens abusivas de distribuidoras e revendedoras,
possíveis práticas de cartelização, ações da OPEP, a inflação e a privatização
da BR Distribuidora, que tirou o governo da concorrência. Prova disso é
que mesmo com cortes na refinaria, o
preço nas bombas não caiu.
O Brasil sente os efeitos da guerra ao Irã, mas não é o
epicentro, graças à Petrobras e ao pré-sal. Enfrentamos dificuldades, porém
menores que outros países. Esse é o momento para estudos de reestatização da BR
Distribuidora e fortalecimento do parque de refino.
PS: O
Brasil tem a 38ª gasolina mais barata entre países, mas a segunda mais cara
entre os países produtores de petróleo.
domingo, 22 de março de 2026
A hipocrisia da defesa da família e a jornada de trabalho
domingo, 15 de março de 2026
O que os Estados Unidos da América fizeram para o professor?
Houve um tempo em que minhas
aulas de Geopolítica, ao denunciar o caráter imperialista dos Estados Unidos, causavam
desconforto. Lembro de alunos e, pasmem, até pais indignados, questionando minhas
críticas ao modus operandi da
superpotência. Expliquei que, como professor, tinha não só o direito, mas o
dever de esclarecer como agem as potências imperialistas. Hoje, tentativas de
censura surgem, mas a legislação na área da educação ainda garante a liberdade
de cátedra.
Certa vez, uma ex-aluna confessou a alguém próximo que
fui um bom professor, mas nunca entendeu o que os EUA me fizeram, tamanha minha
indignação. Na época, o cinema de Hollywood vendia uma imagem idílica do país,
dificultando que nosso discurso, por mais fundamentado, rompesse essa ilusão.
Atualmente, a sociedade é moldada pelas redes sociais,
plataformas que operam com filtros ideológicos claros, guiados pelos interesses
econômicos e políticos de seus proprietários. Já tive meu livre pensamento
cerceado por essas empresas. Recentemente, fui informado de que meu perfil não
seria mais recomendado por violar regras da comunidade, sem qualquer
esclarecimento. Ao questionar, não obtive resposta. Suspeito que o motivo seja
meu espectro político de esquerda ou as críticas à guerra de EUA e Israel
contra o Irã, que constitui uma clara violação ao Direito Internacional. Meu relato
pessoal é apenas um em meio a tantos.
Essa realidade me preocupa diante das próximas eleições.
Os EUA, que sempre enxergaram a América Latina como seu quintal (Doutrina
Monroe), têm grande interesse em ditar nossos destinos. Para conter o avanço
chinês, farão de tudo para eleger um presidente subordinado e entreguista de
nossos recursos. As redes sociais, cruciais nas últimas eleições, repetirão seu
papel. A grande questão é como seus algoritmos irão operar.
A via eleitoral é o caminho mais fácil para Washington
retomar o controle sobre o Brasil. As alternativas são a guerra híbrida ou até
uma intervenção militar, como Trump já levou a efeito na Venezuela e no Irã.
Como pseudo-justificativa, pode usar a pretensa reclassificação de facções como o
Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas. Some-se a isso a presença de
lideranças locais que, como verdadeiros "cavalos de Tróia", já
pediram intervenção estrangeira e celebraram taxações de Trump ao nosso país.
A história nos ensina que a extrema-direita no poder
frequentemente conduz do atraso social à barbárie. Que saibamos, como
sociedade, preservar nossa soberania, a democracia e o bem-estar coletivo.
