Este escriba nas horas vagas
e inveterado leitor adiou por anos a leitura do clássico Germinal, do
consagrado escritor francês Émile Zola (1840–1902). Inicialmente, a leitura
seria feita em uma edição em língua espanhola, mas, ao iniciá-la, percebi a
importância da obra e a necessidade de aprofundamento da reflexão, que na
língua materna (o português) seria mais fácil. Interrompi a leitura e aguardei
a chegada da versão em português.
Émile Zola foi uma importante figura libertária da
França. Nasceu em Paris e teve uma boa formação na infância; porém, com a morte
do pai quando tinha 19 anos, passou por privações. Trabalhou em uma livraria,
onde apurou seu gosto pela literatura, e mais tarde publicou seus primeiros
escritos ao tornar-se jornalista. Era crítico de Napoleão e da Igreja, além de
admirador da obra de Balzac e Flaubert.
Germinal não é meu primeiro contato com a literatura de Zola, pois já havia lido A morte de Olivier Bécaille e Eu acuso! A verdade em marcha. Zola é o criador e mais expressivo representante da escola literária naturalista. O naturalismo foi um movimento artístico e cultural que se manifestou na literatura, no teatro e nas artes plásticas, tendo como principais características o determinismo, o cientificismo, a zoomorfização (animalização) e o foco em temas patológicos ou sociais marginais.
Émile Zola morreu asfixiado por gás em sua residência, supostamente em um acidente. No entanto, devido ao descontentamento que seu ativismo gerava nas camadas superiores da sociedade, jamais teremos certeza disso.
Na obra Germinal, Zola situa a ação na década de
1860 e retrata a penúria dos mineiros de carvão submetidos à brutal exploração
capitalista. Os trabalhadores são retratados com atitudes animalescas e rudes,
e os danos à saúde decorrentes do trabalho na mina são evidentes. A mina Voraz
é apresentada como um monstro que devora seres humanos (seja por mortes
acidentais, seja por problemas de saúde). A transição para as novas tecnologias
da Segunda Revolução Industrial leva as empresas a reduzir custos para manter
elevados os lucros, e isso recai sobre os salários miseráveis dos
trabalhadores. A época marca a criação da Associação Internacional de
Trabalhadores (1864) e a divulgação das ideias de Karl Marx e Engels por meio
de suas publicações.
O livro mostra um jovem recém-chegado ao trabalho na mineração de carvão, Etienne Lantier, que se interessa por livros, tem contato com obras de temática socialista e começa a ganhar consciência. Quando a empresa resolve reduzir a já baixa remuneração dos mineiros, ele convence os demais trabalhadores a negociar com a direção, que recusa voltar atrás na decisão tomada.
Em reunião, os trabalhadores votam pela greve. Os diretores mantêm a decisão de não atender os grevistas, cujo caixa de greve só foi suficiente para o primeiro mês. A fome aperta, alguns voltam a trabalhar e são taxados de traidores e perseguidos. A greve sai do controle de Etienne, a desordem se instala e o exército reprime com violência. A companhia traz imigrantes belgas; a fome vence e os mineradores retornam, apesar das muitas mortes sofridas pela fome e pela ação policial. Paro aqui, com a intenção de não dar spoilers.
Penso que se trata de um clássico cinco estrelas: denso,
porém de fácil leitura. Não foi escrito com a intenção de agradar a todos os
estratos sociais e isso fica claro tanto pela crueza com que retrata a miséria
quanto pela simpatia com que abraça a causa dos trabalhadores. A obra incomoda
quem lucra com a exploração e emociona quem a sofre.
PS. O
título Germinal é uma metáfora que diz respeito à primavera no
Hemisfério Norte, sendo, portanto, a semente germinada, a esperança de um novo
porvir para os trabalhadores.
Sugestão
de boa leitura:
Título: Germinal
Autor: Émile Zola
Editora: Estação Liberdade, 2026,
560 p.

