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sábado, 7 de novembro de 2026

Max Robert: um anjo de quatro patas - crônica de um Golden Retriever que ensinou uma família a desacelerar

 

        Quando meu filho foi ao primeiro dia de aula (pré-escola), minha esposa ficou aflita e vigiou por alguns minutos se ele ficaria bem. Naquele ano, a professora entregou um pintainho para que ficasse um dia na casa de cada um de seus alunos. Foi o suficiente para que meu filho começasse a pedir um pet. Não éramos adeptos dessa ideia, mas pensei que um aquário com alguns peixinhos ornamentais seria fácil de cuidar e atenderia ao seu desejo.

            Ledo engano: peixes ornamentais são vidas cujo cuidado é muito melindroso. É necessário conhecer as espécies e não se deixar levar pela beleza, pois há incompatibilidades em um mesmo aquário. Há que se cuidar do pH da água, trocá-la, sempre retirando previamente o cloro, manter uma temperatura controlada e, mesmo assim, mortes ocorriam, com enterros em caixinhas funerárias e muito choro.

            Decidimos não repor os peixinhos e, ao morrer o último, com a costumeira explicação do "Céu dos peixinhos", acordamos que não teríamos mais pets. No entanto, o padrinho de meu filho lhe deu um casal de periquitos australianos. Não gostamos, mas disfarçamos. Apesar dos cuidados e pássaros dão trabalho, ocorreu de morrer um deles. Assim, novos enterros com caixinhas funerárias e falas sobre o "Céu dos passarinhos". Ao ver o periquito restante triste, novas idas ao petshop com meu filho e a escolha de um novo parceiro (ou parceira), escolhido por ele pela beleza.

            Vieram então os filhotes, e todos os periquitos tinham nomes. Já não era mais uma gaiola, mas três. As mortes ocorriam, e decidimos que não mais buscaríamos novos exemplares no petshop, pois nos causava aflição ver as aves presas sem nunca conhecer a liberdade. Várias vezes pensamos em soltá-las, mas nunca o fizemos, pois sabíamos que as condenaríamos à morte.

            Quando o último periquito morreu, coloquei as gaiolas na frente de casa e alguém as levou. Não teríamos mais pets. Não queríamos mais ver o sofrimento deles quando um pet morria. Resistimos por alguns anos aos pedidos de minha filha caçula de um cachorrinho. Isso foi até o dia em que ela disse: "Não adianta, eu vou ficar adulta e vocês nunca vão deixar eu ter um cachorrinho". Meu coração de pai não resistiu, e falei com a minha esposa que eu não gostaria que ela, quando adulta, cobrasse isso de nós. Minha esposa aquiesceu.

            Comecei a ler e estudar sobre as raças, pois queria encontrar uma raça de cão que se mantivesse com espírito brincalhão mesmo depois de adulto, enfim, que fosse companhia de brincadeiras para ela; não queria um cão de guarda. Entre as raças estava o Golden Retriever. Era uma das três raças selecionadas e buscadas na Internet.

            A escolha recaiu sobre um Golden Retriever de 60 dias que não me deu nenhuma atenção (no local havia outras raças que vieram até mim); continuava escavando o chão. Solicitei que lhe dessem banho e, com minha filha, busquei-o: era véspera do Dia da Criança. Quando cheguei ao carro (em que minha filha, meu filho e minha esposa esperavam), eles ficaram deslumbrados com aquela bola de pelos dourados que eu trazia no colo.

            Minha filha não cabia em si de alegria; passava horas com ele. Fizemos muitas fotografias e vídeos lindos. Todos, sem exceção, se apegaram ao "Max Robert Vailati", o nome que minha filha deu para ele. Em nossa casa havia cercas de pingo de ouro; Max arrancou cada pé. Eu tinha um bonsai da idade de meu filho; esqueci-o fora de casa tomando sol, e o Max o destruiu.

            Quando queria atenção, ele pegava algum calçado, e era necessário um tempo de negociação para reavê-lo. Como minha filha era pequena e meu filho demorou um pouco mais a se apegar a ele (embora depois fosse quem mais fizesse caminhadas com ele), no início eu fazia tal tarefa. Tentava fazer com que ele fosse por caminhos que eu desejava; ele então deitava no chão. Falava, então, para ele que iríamos por onde ele quisesse, e ele levantava rapidamente e ia pelo caminho por ele desejado; afinal, o passeio era dele, não meu. Ele entendia tudo, só não falava.

            Nos passeios, algumas vezes, cães ferozes tentavam atacá-lo. Lembro que uma vez ele saiu em disparada, arrastando-me, e eu, já inclinado, inacreditavelmente consegui manter o equilíbrio. Depois, ele passou a ter confiança em mim, quando afastei alguns cães bravos.

            Quando saía às ruas, pais chamavam seus filhos pequenos para vê-lo, e até algumas pessoas nos paravam para conversar e acariciá-lo. Meu filho tomou para si a tarefa dos passeios, agora feitos pela manhã e à tarde. Nos finais de semana, a família toda passeava com ele; era o momento em que ele caminhava mais.

            Aprendi com suas estripulias a ser mais calmo. Eu me surpreendia que, justo quando estava emocionalmente exausto, com problemas que tive no meu trabalho como professor, o Max estivesse mais carente e colocasse a pata na minha perna para que eu o acariciasse; e, sempre que eu parava, ele colocava novamente a pata, pedindo nova carícia.

            Com todos apegados, eu me preocupava com a saúde dele. Sabia que um Golden vive entre 10 e 12 anos, e Max estava visivelmente acima do peso. A ordem foi: caminhadas, regime e dieta com a melhor ração para controle de peso.

            Quando Max tinha sete anos, ele adoeceu de um dia para o outro, apesar de todas as vacinações em dia e com as melhores vacinas (importadas). Na impossibilidade de tratamento em nossa cidade, levamo-lo a Guarapuava. Exames foram feitos, nada foi encontrado. Não havia tumores; os órgãos estavam normais. Não havia indícios de envenenamento. Ficamos com a suspeita de cinomose, apesar de ele ser vacinado: a vacina não garante 100% de proteção, e ele teve contato com uma cachorrinha que estava doente (que felizmente se curou), porém Max não.

            O que eu sempre temi aconteceu, mas a tristeza não ficou restrita aos meus dois filhos. Max morreu há um ano (3 de novembro de 2025). A pedido dos meus filhos, ele foi cremado em Guarapuava, e suas cinzas encontram-se conosco e também um molde de sua pata. Meus filhos não pediram outro pet. Pensam que ele é insubstituível.

            Eu sempre tive vontade de escrever sobre ele, mas, nos primeiros meses, não conseguiria, pois sequer conseguia falar sobre a morte dele. Talvez o leitor seja crítico ao que aqui escrevo; afinal, para muitas pessoas, animais são apenas animais. Em minha família, não pensamos assim, e passamos a não desejar a visita de pessoas cheias de "não me toque", pois nossa casa era também dele. Max amava qualquer ser humano e era capaz de fazer amizade até com um assaltante que, por ventura, invadisse nossa casa.

            Há alguns dias, li/assisti que os cães sentem o cheiro do hormônio do estresse quando não estamos bem. Agora sei que, naqueles dias em que eu chegava destruído da escola, não era Max precisando de mim, mas ele sabendo que eu precisava dele, pois a ciência já comprovou que acariciar um pet libera ocitocina, um hormônio que causa bem-estar. Temos a convicção do bem que ele fez a todos nós e acreditamos que foi um anjo com quem convivemos e aprendemos a ser mais pacientes, a parar um pouco com a correria da rotina e a buscar uma leveza no viver. Nós (eu inclusive) passamos a acreditar no "céu dos animais", e isso não está em discussão: é, para nós, um dogma. Sua opinião quanto a isso é meramente acessória. Só entende quem já teve e foi tocado por um anjo como Max Robert.

 

 




sábado, 31 de outubro de 2026

A cegueira branca da mente: crônica de uma pós-verdade brasileira

 

                Querido diário, nem sei por onde começar, mas preciso, afinal é meu dever. Estou rindo e nem sei dizer se é de emoção ou tique nervoso. Lembro de ter lido que somos a soma das pessoas com as quais convivemos e penso que preciso me afastar por algum tempo de certas companhias do meu convívio social ou virtual. É que estou com uma vontade irresistível de me autodeclarar "legítimo" Secretário-Geral da ONU. E não sou o único caso: tenho um colega que pensa em se autodeclarar "legítimo" Presidente do Banco Mundial, e outro que ambiciona ser o "legítimo" Presidente dos Estados Unidos, apesar de a Constituição daquele país determinar que apenas os nascidos em solo estadunidense possam ocupar o cargo. Sobre isso, ele diz que se sente um estadunidense nato. Rimos, mas o riso tem algo de nervoso.

            De repente, parece que a misteriosa cegueira branca que atingiu a população em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, ganhou uma variante contagiosa entre nós. Uma variante que não cega os olhos, mas a mente. É tão forte que não se consegue despertar ninguém do "Boa noite, Cinderela" a que foram submetidos: as pessoas estão acordadas, mas dormem um sono profundo, embaladas por sonhos de megalomania fascista. Nunca a frase "o ódio cega a mente" fez tanto sentido.

            O Brasil se tornou a lendária Torre de Babel, só que aqui todos falam a mesma língua e, ainda assim, ninguém se entende. Como disse Cazuza, "as (tuas) ideias já não correspondem aos fatos". Em plena era da pós-verdade, notícia verdadeira é aquela que agrada à visão de mundo em que se acredita; importa a interpretação, mesmo que seja obtida por contorcionismo sob tortura da realidade.

            Penso que, neste último embate eleitoral, como alguém disse, "todos ganharam, inclusive aqueles que perderam, pois ainda não sabem que também ganharam". Saberão quando as doses cavalares de paixão (e de ódio) que os cegaram forem arrefecendo, metabolizadas pelo organismo. Isso demanda tempo, e a reação varia de indivíduo para indivíduo. Alguns, ao retomar a lucidez, sentirão vergonha; outros silenciarão e jamais admitirão a cegueira de que foram acometidos. Há também aqueles que jamais se recuperarão: diante das evidências do erro, dobram a aposta, não por querer insistir no erro, mas por acreditar que são incapazes de errar e que, portanto, sempre estiveram certos.

            Lula venceu em 2026, depois de ficar atrás no primeiro turno, num feito épico. A vitória sobre o fascismo bolsonarista exigiu uma mobilização gigantesca da sociedade brasileira contra o ideário de extrema-direita empunhado por Flávio Bolsonaro. A juventude saiu às ruas; milhões seguiram orientações sobre como agir nas redes sociais (Exército do Lula), buscando convencer os indecisos, os abstencionistas do primeiro turno e os idosos sobre a importância que esta eleição tinha para o futuro do país, mais do que em qualquer outro momento histórico. 

           A vitória veio sofrida, porém maiúscula, para não deixar dúvida sobre a vontade da maioria: Lula obteve 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% (59.826.041 votos) de Flávio Bolsonaro. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, que um candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno virou a disputa e venceu . E a comemoração não foi apenas da população antifascista brasileira, mas de significativa parcela da sociedade internacional que já sentiu os danos causados pela extrema-direita no tecido social. Não se tratou de uma vitória de Lula (embora ele seja uma figura histórica gigante), mas das pessoas, em suas múltiplas nacionalidades, que dedicam a vida a defender a democracia.

sábado, 17 de outubro de 2026

Sinais na parede: a política, o fascismo e o silêncio dos confortáveis

              Há alguns dias, ouvi uma pessoa dizer que não se preocupa com política e que jamais se estressou ou perdeu um minuto de sono por causa disso. Entendo que a alienação, a não compreensão das especificidades e do alcance das consequências da política na vida de cada um atue como um analgésico que ameniza a dor momentânea. Porém, analgésico não cura um mal grave que se abate sobre a sociedade.

            Você pode evitar a política, pode se recusar a refletir e a falar sobre ela, mas ela inevitavelmente chega até você, pois afeta vários aspectos de sua vida. A política está em tudo, inclusive em sua omissão ou neutralidade, pois elas têm consequências (nem sempre favoráveis a você).

            Lembro da Guerra de Tróia, retratada na obra "Ilíada" de Homero. Sabemos que Tróia realmente existiu e foi destruída. Na Ilíada, há uma mesclagem de fatos históricos e ficcionais. Mesmo se tratando de ficção, certamente o leitor já pensou sobre como foram ingênuos os cidadãos troianos que aceitaram o pseudo-presente do chamado Cavalo de Tróia, ofertado pelos gregos. Pode-se imaginar que alguns desconfiassem do “presente de grego”; porém, diante das falas entusiasmadas e barulhentas daqueles que comemoravam algo que em realidade não conheciam (o interior do cavalo ou a sua intencionalidade), omitiram-se. Não por traição, mas por confiar cegamente em suas lideranças. E sua pátria foi destruída.

            No primeiro turno das eleições deste ano (2026), a extrema-direita, aqui entendida como o campo político que flerta com o autoritarismo, com a supressão de direitos e com a lógica do inimigo interno a ser combatido, engoliu a direita, e seu poder, se confirmado, terá uma magnitude que não se via desde a redemocratização. A última vez que um grupo dirigente concentrou tamanho poder, estávamos em plena ditadura militar (1964-1985), e as consequências para a sociedade são estudadas e investigadas até hoje. A esquerda está preocupada, e você, da direita pensante e civilizada, também deveria estar. Não dá para normalizar a extrema-direita. Embora ela esteja crescendo em várias partes do mundo, causou tragédias humanas e materiais das quais a humanidade levou décadas para se recuperar. Sua ascensão ao poder trouxe o tolhimento de direitos civis e humanos e a implantação de regimes autoritários.

            Bertolt Brecht (1898-1956) disse que “a cadela do fascismo está sempre no cio”. Os sinais estão aí há algum tempo: o ressurgimento do lema “Deus, Pátria e Família”, da fascista Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado (anos 1930); o lema “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”, paráfrase do lema da Alemanha Nazista; o copo de leite (símbolo de grupos supremacistas brancos e neonazistas estadunidenses) tomado por Jair Bolsonaro e demais partícipes de reunião de governo cuja gravação foi veiculada; a saudação nazista e o discurso do ministro Roberto Alvim (governo Jair Bolsonaro) imitando o conteúdo e a estética do Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista Joseph Goebbels; a alusão à face de Benito Mussolini no Palazzo Braschi por parte da candidatura de Flávio Bolsonaro; a tiara de flores (da pureza da mulher nazista) e o chicote (símbolo da imposição da força sobre as raças tidas como inferiores, ou seja, uma alusão à escravidão) de Julia Zanatta. Quando questionados, negam, mas a simbologia é amplamente conhecida e não precisa ser nenhum gênio para entender que sinalizam, para seus seguidores fascistas, que estão de volta e que os representam.

            Em "Como as democracias morrem", de Ziblatt e Levinski, vemos como a democracia é frágil e como ela pode ruir aos poucos, sem que nos demos conta e até mesmo por dentro da própria democracia. Nem sempre é uma ruptura abrupta. No caso da Alemanha, Hitler inicialmente tentou um golpe de Estado. Fracassou, foi preso e, na cadeia, escreveu o famigerado Mein Kampf. Foi pela via democrática que ele chegou ao poder, por meio da ascensão do Partido Nazista (de extrema-direita). Havia sinais: Hitler foi apoiado por milícias barulhentas conhecidas como “camisas-pardas” ou Sturmabteilung (SA), que se utilizavam da intimidação e da violência contra os opositores. O resultado é de todos conhecido, pelo menos para aqueles que têm memória histórica, capacidade de interpretação de texto e percepção dos interesses em jogo.

            O Cavalo de Tróia pode ter sido exclusivamente obra fictícia da mente de Homero. No entanto, no segundo turno da eleição majoritária (dia 25 de Outubro) abriremos as portas para dar um presente à toda a nação, à geração atual e às futuras. Há um "Presente de Grego" (melhor, de americano dada a submissa proximidade de Flávio Bolsonaro à Trump) logo ali no portão. Você vai no barulho da turba ou vai se informar sobre esse estranho e supostamente desinteressado presente?  O filósofo Confúcio (séc. V a.C.) disse: “O homem inferior busca fazer apenas o que é lucrativo. O homem superior busca fazer o que é certo”. Parafraseando o conceito de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que não nos falte serenidade, responsabilidade e disponibilidade de reflexão sobre o que é melhor para nosso país, para os idosos, os trabalhadores, as crianças e as futuras gerações. Qual é o país e a sociedade que deixaremos para eles?

            Encerro citando Dom Pedro Casaldáliga (1928–2020): “Na dúvida, fique do lado dos pobres!”

sábado, 10 de outubro de 2026

Germinal

 

Este escriba nas horas vagas e inveterado leitor adiou por anos a leitura do clássico Germinal, do consagrado escritor francês Émile Zola (1840–1902). Inicialmente, a leitura seria feita em uma edição em língua espanhola, mas, ao iniciá-la, percebi a importância da obra e a necessidade de aprofundamento da reflexão, que na língua materna (o português) seria mais fácil. Interrompi a leitura e aguardei a chegada da versão em português.

Émile Zola foi uma importante figura libertária da França. Nasceu em Paris e teve uma boa formação na infância; porém, com a morte do pai quando tinha 19 anos, passou por privações. Trabalhou em uma livraria, onde apurou seu gosto pela literatura, e mais tarde publicou seus primeiros escritos ao tornar-se jornalista. Era crítico de Napoleão e da Igreja, além de admirador da obra de Balzac e Flaubert.

Germinal não é meu primeiro contato com a literatura de Zola, pois já havia lido A morte de Olivier Bécaille e Eu acuso! A verdade em marcha. Zola é o criador e mais expressivo representante da escola literária naturalista. O naturalismo foi um movimento artístico e cultural que se manifestou na literatura, no teatro e nas artes plásticas, tendo como principais características o determinismo, o cientificismo, a zoomorfização (animalização) e o foco em temas patológicos ou sociais marginais.

Émile Zola morreu asfixiado por gás em sua residência, supostamente em um acidente. No entanto, devido ao descontentamento que seu ativismo gerava nas camadas superiores da sociedade, jamais teremos certeza disso.

Na obra Germinal, Zola situa a ação na década de 1860 e retrata a penúria dos mineiros de carvão submetidos à brutal exploração capitalista. Os trabalhadores são retratados com atitudes animalescas e rudes, e os danos à saúde decorrentes do trabalho na mina são evidentes. A mina Voraz é apresentada como um monstro que devora seres humanos (seja por mortes acidentais, seja por problemas de saúde). A transição para as novas tecnologias da Segunda Revolução Industrial leva as empresas a reduzir custos para manter elevados os lucros, e isso recai sobre os salários miseráveis dos trabalhadores. A época marca a criação da Associação Internacional de Trabalhadores (1864) e a divulgação das ideias de Karl Marx e Engels por meio de suas publicações.

O livro mostra um jovem recém-chegado ao trabalho na mineração de carvão, Etienne Lantier, que se interessa por livros, tem contato com obras de temática socialista e começa a ganhar consciência. Quando a empresa resolve reduzir a já baixa remuneração dos mineiros, ele convence os demais trabalhadores a negociar com a direção, que recusa voltar atrás na decisão tomada.

Em reunião, os trabalhadores votam pela greve. Os diretores mantêm a decisão de não atender os grevistas, cujo caixa de greve só foi suficiente para o primeiro mês. A fome aperta, alguns voltam a trabalhar e são taxados de traidores e perseguidos. A greve sai do controle de Etienne, a desordem se instala e o exército reprime com violência. A companhia traz imigrantes belgas; a fome vence e os mineradores retornam, apesar das muitas mortes sofridas pela fome e pela ação policial. Paro aqui, com a intenção de não dar spoilers.

Penso que se trata de um clássico cinco estrelas: denso, porém de fácil leitura. Não foi escrito com a intenção de agradar a todos os estratos sociais e isso fica claro tanto pela crueza com que retrata a miséria quanto pela simpatia com que abraça a causa dos trabalhadores. A obra incomoda quem lucra com a exploração e emociona quem a sofre.

PS. O título Germinal é uma metáfora que diz respeito à primavera no Hemisfério Norte, sendo, portanto, a semente germinada, a esperança de um novo porvir para os trabalhadores.

Sugestão de boa leitura:
Título: Germinal
Autor: Émile Zola
Editora: Estação Liberdade, 2026, 560 p.


sábado, 26 de setembro de 2026

Estados Unidos da América: o agente do caos e a soberania brasileira

 

                   Desde sua independência, em 4 de julho de 1776, os Estados Unidos da América conheceram períodos de paz, isto é, sem intervir militarmente ou interferir politicamente em outros países que, somados, não chegam a duas décadas. Isso significa que o país esteve envolvido em conflitos armados, ocupações ou intervenções externas em mais de 90% de sua história, conforme levantamentos que cruzam dados do Congressional Research Service e de historiadores como Lindsey O'Rourke.

            Sob a alegação da Doutrina do Destino Manifesto, conduziram-se as Guerras Indígenas (séculos XVIII e XIX) contra os povos nativos, para desalojá-los de suas terras e expropriá-las; as guerras contra o México em seu processo de expansão territorial, arrancando do país latino uma imensa área que vai do Texas à Califórnia; e as Guerras da Banana (início do século XX), resultantes de intervenções e ocupações ininterruptas na América Central.

            A participação na Primeira Guerra Mundial (1917-1918) e na Segunda Guerra Mundial (1941-1945) foram, para os Estados Unidos, praticamente inevitáveis, a primeira após a guerra submarina irrestrita e o Telegrama Zimmermann; a segunda, após Pearl Harbor. Após esta última, porém, não houve um único ano civil completo (365 dias) em que as forças estadunidenses não estivessem engajadas em operações ativas, seja defendendo posições de ocupação, seja bombardeando algum lugar do mundo, ainda que em alguns anos essas operações tenham sido de baixa intensidade.

            Após a última conflagração mundial, vieram a Guerra da Coreia, a do Vietnã, a do Golfo, a do Afeganistão e a do Iraque, sem falar nas intervenções cirúrgicas e nas proxy wars, dentre as quais se pode citar o apoio americano a um dos lados da guerra Irã-Iraque.

            É importante frisar que os Estados Unidos, em suas intervenções militares ou interferências políticas externas, sempre se utilizam de um verniz moral para disfarçar o indisfarçável aqui expresso nas palavras de Eduardo Galeano: "Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As guerras sempre invocam nobres motivos, matam em nome da paz, em nome de Deus, da civilização, em nome do progresso ou em nome da democracia".

            Os Estados Unidos, na condição de superpotência militar e econômica, dispõem de um poderoso arsenal para usar contra os países que não se curvam a suas chantagens econômicas ou políticas: o Soft Power (sanções, embargos, etc.) e o Hard Power (seu gigantesco poderio militar). Não importa o que digam instituições supranacionais como a ONU ou livros escritos por especialistas: democracias, ditaduras e terroristas são aquelas que os Estados Unidos a seu bel prazer assim classificam.

            Desde sua fundação, os Estados Unidos já ultrapassaram a marca de 500 intervenções internacionais (ações via CIA, ameaças de uso da força e pequenas invasões), segundo levantamento citado por O'Rourke em Covert Regime Change. O período de mais longa calmaria ocorreu durante a Grande Depressão, quando o país adotou uma política isolacionista e focou em sua própria crise interna ainda que, mesmo então, mantivesse bases e interesses ativos na América Latina.

            É de uma grande ingenuidade pensar que nações tenham amizades: as nações têm interesses. Porém, inversamente ao que disse o embaixador brasileiro Juracy Magalhães, representante do governo Castelo Branco junto a Washington na década de 1960, nem sempre o que é bom para os Estados Unidos da América é bom para o Brasil.

            Os Estados Unidos são potencialmente o maior adversário de qualquer tentativa de desenvolvimento econômico e social soberano da nação brasileira. Interessa enormemente ao país norte-americano manter o Brasil dependente e subserviente. O papel relegado ao Brasil é o de mero fornecedor de matérias-primas e produtos agrícolas, ou seja, uma colônia e não são poucos os que, aqui dentro, trabalham para que esse papel se perpetue.

            Em recente pesquisa, o Brasil apareceu à frente dos EUA em liberdade de expressão para a imprensa e também em democracia como nos rankings do Repórteres Sem Fronteiras e do V-Dem. João Goulart, quando presidente do Brasil, disse: "Os Estados Unidos falam muito em democracia, mas deveriam permiti-la" nos demais países e também em seu próprio território.

            Que esta reflexão sirva não para alimentar ressentimentos estéreis, mas para lembrar que soberania não se pede: conquista-se. E que nenhuma nação verdadeiramente independente delega a outro país o direito de definir seus parceiros, seus adversários e seu próprio futuro.

sábado, 19 de setembro de 2026

Agronegócio e política: entre o discurso e a prática

 


Há alguns meses, assisti a uma fala indignada do presidente Lula, que questionava: “Por que esse pessoal do agronegócio prefere o Bolsonaro, se ninguém fez mais por eles do que eu?” A pergunta me intrigou. Curioso, comecei a buscar respostas na internet, imaginando que ali encontraria pistas sobre a mentalidade desse setor. O que encontrei foi um verdadeiro festival de loas: canais de YouTube jogando confetes e serpentinas sobre os agentes do agronegócio, tratando-os como os únicos responsáveis por fazer o setor funcionar e por “carregar o Brasil nas costas”. Outros tantos concediam toda a glória ao governo de Jair Bolsonaro (2019–2022).

O problema é que boa parte desse conteúdo desinforma. Distorce e manipula os fatos. Basta comparar com os dados oficiais, afinal, fatos são fatos. O agronegócio não carrega o Brasil sozinho, e seus empresários e produtores não são os únicos responsáveis pelo seu sucesso. Quando se trata do agro, não há "mão invisível": há o Estado brasileiro com mãos, braços, pernas, cabeça e tronco apoiando e sustentando a atividade. O que seria do agronegócio sem as isenções e reduções tributárias? Sem os financiamentos públicos, como o Plano Safra e as linhas de crédito do Banco do Brasil? Sem as pesquisas científicas da Embrapa, que tanto beneficiaram o setor?

Encontrei também um vídeo da pecuarista e publicitária Juliana Giraldini¹, que respondia a um seguidor sobre qual teria sido o melhor governo para o agronegócio brasileiro. Segundo ela, no período da ditadura militar houve investimento no agro, mas a hiperinflação endividou os produtores. No governo Collor, com a taxação de 80% de juros, muitos não conseguiram pagar as dívidas. FHC tentou, com três planos, salvar o produtor e não conseguiu. Em 2003, houve uma conjuntura favorável: os benefícios da tecnologia da Embrapa, a entrada forte da China como cliente do agro brasileiro e o governo Lula, que concedeu vinte anos para o pagamento das dívidas dos produtores, além de criar o Plano Safra nas condições atuais. O governo Dilma elevou o Plano Safra a outro patamar, e os governos Temer e Bolsonaro deram continuidade. Juliana afirmou ainda que o governo Lula 3 bateu o recorde e investiu 2,1 trilhões de reais, sendo a maior parcela destinada ao grande produtor.

Segundo a pecuarista, o agro simpatiza com governos de direita devido à flexibilização da fiscalização. Para obter empréstimo rural, o produtor precisa apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Caso haja irregularidades ambientais (desmatamento, queimadas) ou trabalhistas (situações análogas à escravidão), em governos mais sérios e exigentes como costumam ser os de esquerda, os produtores não conseguem os recursos.

A fala de Juliana faz sentido. Todos sabemos que, no governo Bolsonaro, a fiscalização foi severamente reduzida. Seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi flagrado em vídeo em reunião ministerial (22 de abril de 2020) afirmando que a pandemia de Covid-19 era o momento ideal para “passar a boiada”², ou seja, flexibilizar normas e regras de proteção ambiental enquanto a imprensa estava distraída. Também tiveram grande destaque as falas politicamente incorretas de Bolsonaro sobre questões ambientais e as dificuldades que o Brasil impunha aos seus empresários.

No entanto, minha pesquisa revelou que há mais camadas nessa relação. O agronegócio espera menos regulação, mais livre mercado e afirma ter um maior alinhamento ideológico e cultural com a direita, inclusive nas pautas de costumes (religião, pátria e família) e, principalmente, na liberação do armamentismo. Ainda temem ocupações de terras, embora a legislação constitucional garanta a propriedade das terras produtivas. Sabem que, em governos de direita, a reforma agrária (embora prevista em lei) não avança. Ao mesmo tempo, embora defendam o Estado Mínimo, exigem para si um Estado Máximo em sua defesa. Veem todo o aparato de apoio (empréstimos, reduções e isenções tributárias) como obrigação governamental, e não como benefício.

Enfim, o agronegócio quer a “mão invisível” do mercado para o restante da sociedade, mas quer o Estado em corpo e alma a seu serviço.

Fonte:

1. https://www.facebook.com/reel/2073732216871159 - acesso em 16 de setembro de 2026.

2. https://www.youtube.com/watch?v=BWDemNNMbeU - acesso em 16 de setembro de 2026.

domingo, 13 de setembro de 2026

Os deuses têm sede



"Os deuses têm sede", do francês Anatole France (Prêmio Nobel de Literatura em 1921), é muito mais do que um romance histórico ambientado no Período do Terror da Revolução Francesa. Publicado originalmente em 1912, a obra é um mergulho perturbador na alma humana quando ela se deixa cegar por ideais absolutos e pela violência institucionalizada.

Anatole France (pseudônimo de Jacques Anatole François Thibault -1844-1924) foi um escritor marcado pelo contato precoce com os livros, graças ao pai livreiro. Trabalhou como bibliotecário do Senado francês e dedicou-se à poesia e aos contos antes de se consagrar como romancista. Sua escrita combina elegância clássica, ironia sutil e uma profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, traços que lhe renderam o Nobel de Literatura em 1921.

Em "Os deuses têm sede", France transporta o leitor para os anos de 1793-1794, quando os jacobinos, liderados por Robespierre e Marat, governavam a França com mão de ferro. Foi o período em que o sufrágio universal masculino, a abolição da escravidão nas colônias e o tabelamento de preços conviveram com a Lei dos Suspeitos que permitia prender e julgar sumariamente qualquer cidadão acusado de traição, independentemente de sua posição social. A promessa de liberdade, igualdade e fraternidade rapidamente se degenerou em um banho de sangue.

No centro da história está Évariste Gamelin, um pintor iniciante e pobre, que vive com a mãe viúva em um quarto alugado. Para sobreviver, vende quadros contestados pelo pai de sua amada, que afirma que apenas aqueles que retratam mulheres têm venda garantida. Gamelin é secretamente apaixonado por Élodie, filha de um rico comerciante que jamais aceitaria um genro de condição tão humilde. O namoro, portanto, é às escondidas.

Mas Gamelin não é apenas um artista frustrado, ele é um revolucionário entusiasta, devoto de Robespierre e Marat, acreditando piamente que, uma vez extirpados os "inimigos da pátria", a França enfim conhecerá a era dourada da justiça e da abundância. Seu fervor não passa despercebido, e ele é convidado a integrar o Tribunal Revolucionário como juiz. A partir daí, sua vida muda, ganha status social, renda digna e um poder que jamais imaginara ter.

O drama de Gamelin, no entanto, reside na progressiva desumanização que o poder lhe impõe. O Tribunal Revolucionário, movido mais por convicções do que por provas, envia milhares de pessoas à guilhotina. Amigos, vizinhos e até mesmo Élodie começam a não reconhecer o homem que admiravam. Gamelin, porém, justifica cada sentença em nome do dever patriótico e da segurança da nação. Sua fé inabalável começa a ser testada apenas quando pessoas próximas a ele passam a ocupar o banco dos réus.

O título, longe de qualquer conotação religiosa ou mitológica, é uma metáfora cruel e terrena, os deuses a que France se refere são os próprios homens quando se arvoram em juízes absolutos do bem e do mal. E a sede que os consome não é por água mas sede de sangue, de vingança, de purificação política. Ao longo da obra, fica claro que quanto mais se tenta eliminar o "inimigo", mais se cria uma máquina de moer gente, que acaba devorando até mesmo seus criadores. O próprio Robespierre, como sabemos, terminou sob a lâmina da guilhotina.

"Os deuses têm sede" não é apenas uma aula de História. É um espelho incômodo para qualquer época em que a polarização política, o medo e a desconfiança predominam. Anatole France, com sua prosa irônica e ao mesmo tempo compassiva, não toma partido nem condena facilmente seus personagens, ele os mostra em toda sua complexidade, como seres movidos por esperança, medo, ambição e cegueira.

O romance nos convida a perguntar: até onde podemos ir em busca de um ideal? Quando a justiça se torna tirania? E como reconhecer o momento exato em que o algoz se torna vítima?

Com um desfecho que não revelarei (para não dar spoiler), France entrega uma obra que incomoda, emociona e provoca reflexões duradouras. Recomendo vivamente a leitores que apreciam ficção histórica com densidade filosófica, e também a quem deseja compreender, pelas entrelinhas da literatura, as fragilidades da condição humana.



Sugestão de boa leitura:

Título: Os deuses têm sede.

Autor: Anatole France.

Editora: Boitempo Editorial, 2007, 256 p.