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sábado, 22 de agosto de 2026

Democracia de baixa intensidade: O Congresso como freio e povo como espectador

 

Neste espaço, já afirmei em outras ocasiões que o Brasil vive uma democracia de baixa intensidade. Não por acaso, mas porque nenhuma democracia plena pode florescer em uma sociedade tão profundamente desigual. O Índice de Gini de 2025 nos coloca como a quarta nação mais desigual do planeta e esse dado não é fruto do acaso, nem de fatalidades históricas. É resultado de escolhas, de projetos de poder que sempre privilegiaram poucos em detrimento de muitos.

Desde o período colonial, o Brasil foi pensado e gerido por elites que raramente ousaram construir um projeto de nação soberana, inclusiva e desenvolvida. Quando refletimos sobre os rumos do país, é comum atribuirmos a culpa a este ou àquele presidente, a este ou àquele partido. Mas essa é uma leitura curta, que funciona como uma cortina de fumaça, pois esconde o essencial.

O sistema político brasileiro é o presidencialismo de coalizão. Para governar, o Executivo precisa, obrigatoriamente, costurar maioria no Congresso Nacional. E, no Brasil, essas casas legislativas sempre foram, majoritariamente, ocupadas por forças conservadoras. Nas raras ocasiões em que presidentes com agendas progressistas chegaram ao Planalto, encontraram pela frente bancadas parlamentares que impuseram um preço alto pela governabilidade. Os resultados foram governos do possível, não do necessário, administrações que fizeram o que podiam, mas não o que seria preciso para reverter o quadro estrutural de exclusão.

Basta olhar as urnas. Mesmo quando o eleitorado brasileiro elege para o Planalto um nome com discurso de mudança, ao mesmo tempo reconduz ao Congresso uma bancada profundamente alinhada ao conservadorismo, a chamada bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), que representa, respectivamente, o latifúndio, o armamentismo e a pauta moral conservadora. Esse bloco histórico se organiza para barrar reformas socioeconômicas de caráter popular, freando qualquer tentativa de redistribuição de renda, terra e poder.

O Brasil só avançará de verdade na redução da desigualdade quando o Congresso Nacional refletir as várias cores, rostos e vozes do povo trabalhador. Isso, porém, é um desafio imenso. O trabalhador brasileiro vive imerso em urgências (a carestia, o desemprego, a luta diária pela sobrevivência). Além disso, o subdesenvolvimento histórico limita o acesso a uma educação crítica e emancipadora, o que torna mais difícil a percepção de que o parlamento é tão ou mais decisivo que a presidência para seu futuro.

Nas democracias de baixa intensidade e sob o peso da ditadura do neoliberalismo econômico, o voto nos dá a ilusão de que decidimos nossos rumos. Na verdade, o capital financeiro, o agronegócio, a indústria de armas e os grandes meios de comunicação detêm o controle das eleições: elegem a imensa maioria da bancada parlamentar e, sem o Congresso, o Planalto fica acorrentado. Saber disso não é derrotismo, é o primeiro passo para mudar.

O Congresso Nacional, tal como está conformado, é uma fábrica de leis favoráveis aos mais aquinhoados. Acelera reformas neoliberais quando o Executivo está alinhado a essa agenda, e funciona como um potente freio de arrumação quando um governo progressista tenta apontar em direção contrária. Essa dinâmica não é nova, mas nunca foi tão explícita.

Por isso, como povo trabalhador, precisamos aprender a olhar com a mesma atenção que dedicamos ao Planalto para o Parlamento. É lá que se decide se teremos um governo do possível ou um governo do necessário. É lá que a democracia ganha ou perde densidade.

E, para que a democracia não seja apenas um ritual de legitimação da desigualdade, é preciso que o povo ocupe não apenas as ruas, mas também as cadeiras. Que o Congresso, enfim, seja pintado de povo.

 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

A escola como depósito? A parceria que muitos pais insistem em ignorar

A apresentadora Sabina Simonato se envolveu, recentemente, em uma polêmica de dimensão nacional ao criticar a liberação antecipada dos estudantes durante os jogos da seleção na Copa do Mundo de 2026. Seu argumento foi pragmático: a saída antecipada traria problemas logísticos para os pais que estavam trabalhando e haviam confiado seus filhos à escola naquele período. Segundo ela, os responsáveis precisariam buscar as crianças e encontrar quem as acolhesse até o fim do expediente.

Diante da repercussão negativa, Sabina pediu desculpas, afirmando que não quis dar a entender que escolas são depósitos de estudantes. O estrago, porém, já estava feito. E suas palavras não convenceram.

O leitor pode julgar que esse tema é anacrônico, afinal, o "hype" da Copa já passou. No entanto, professor que sou, convivo com esse debate diariamente no corredor e na sala de professores. E posso afirmar: a visão utilitarista da escola é discutida há muito tempo entre nós, educadores.

Lembro-me bem de que, durante a pandemia de Covid 19, as autoridades decretaram o isolamento social e as aulas passaram a ocorrer de forma remota, por meio de materiais impressos e plataformas digitais. Não houve, naquele período, aulas presenciais. Especialistas da área da saúde alertavam, insistentemente, sobre a necessidade do fechamento das escolas para reduzir a transmissão do vírus, já que a sala de aula é um ambiente insalubre por natureza (aglomeração, espaço reduzido e ventilação precária).

Ainda assim, houve forte reclamação de pais nos meios de comunicação. Muitos afirmavam que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos, fazendo pouco caso dos riscos de transmissão cruzada do vírus entre estudantes e familiares, inclusive aqueles com comorbidades. O que mais doía, na época, era perceber que, para uma parcela dos responsáveis, a escola importava menos como espaço de formação e mais como guarda de crianças e adolescentes.

É preciso, contudo, evitar a generalização. Estas linhas retratam uma parcela, jamais a totalidade dos pais de estudantes. Muitos foram os responsáveis que retiraram seus filhos antecipadamente ao cancelamento das aulas presenciais e que mantiveram o uso de máscaras quando muitos já as haviam abandonado. Esses merecem reconhecimento.

A insatisfação dos mestres, é verdade, dirige-se àqueles pais que encerram o acompanhamento da evolução da aprendizagem de seus filhos com o ato da matrícula. Não comparecem às reuniões de pais e mestres, nem mesmo para retirar os boletins. Muitos só aparecem na escola no final do ano, quando o filho está em risco de reprovação. Há os que se recusam a assinar a prova corrigida, como se a nota dissesse respeito apenas à criança, e não à construção conjunta de seu percurso.

Já ouvimos, na escola, sincericídios de algumas mães (minoria, é verdade) que se declararam contra as férias, dando a entender que preferem os filhos na escola do que em casa. Esse pensamento, externado por poucas, talvez reflita o entendimento de um número pequeno, mas significativo, de pais.

Um caso emblemático ilustra bem esse descompasso. A cantora Luiza Possi postou em suas redes sociais que a escola de seu filho a chamou para conversar sobre problemas de comportamento da criança. Sua resposta foi: “A escola que se vire, porque eu tenho os mesmos problemas em casa e não reclamo com a escola". Esse tipo de postura, infelizmente, é comum. Muitos pais se irritam com a escola quando convocados para tratar de comportamentos inadequados ou de dificuldades de aprendizagem de seus filhos. Muitos são os pais que não se comprometem com a aprendizagem cognitiva e social dos filhos: não orientam a agenda, não verificam os cadernos, não determinam horários de estudo em casa e não frequentam as reuniões.

Chegamos, muitos mestres, a uma conclusão desconcertante: há pais que não sabem nem mesmo a série ou o ano que seus filhos estudam. O leitor pode argumentar que isso se deve ao baixo nível de escolaridade desses responsáveis. Mas a experiência de sala de aula nos mostra o contrário: ao longo de nossa carreira, observamos inúmeros pais com poucos anos de estudo que são extremamente exigentes e zelosos com a aprendizagem dos filhos. Este escriba, por exemplo, teve pais com pouca instrução formal, mas foi rigorosamente cobrado quanto à dedicação aos estudos.

É por tudo isso que a fala de Sabina Simonato incomodou tanto. Ela reduziu a escola a um serviço de apoio à rotina dos pais, quando ela é, antes de tudo, um espaço de formação, descoberta e convívio. Ao tratar a saída antecipada como um problema logístico, ela revelou, mesmo sem intenção, uma visão distorcida que muitos pais compartilham: a de que a escola existe para resolver uma ausência, e não para construir uma presença.

Encerro com um apelo: os professores desejam, acima de tudo, uma parceria com os pais. Estudos da área educacional já comprovaram que os estudantes cujos pais são participantes ativos e assíduos na escola são os que alcançam melhores resultados não apenas em notas, mas em comportamento, autonomia e autoestima. A escola é importante demais para a transformação da vida de seu filho para ser relegada a um papel secundário.

Não queremos que os pais resolvam os problemas sozinhos. Queremos que caminhem ao nosso lado. Porque educar é um ato compartilhado, e sem esse elo, a corrente se rompe.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Marco Rubio, um mitômano incontrolável

 


     Lançado pela Editora Expressão Popular, Marco Rubio, um mitômano incontrolável chega ao leitor brasileiro em meio ao debate sobre o papel dos Estados Unidos na desestabilização de democracias latino-americanas. O jornalista cubano Hedelberto López Blanch propõe-se a dissecar a trajetória e o ideário de um dos nomes mais influentes do governo Trump: o secretário de Estado Marco Rubio.

        Com 144 páginas, a obra alterna biografia, escândalos de corrupção, análise de lobby e geopolítica. O tom é panfletário, mas lastreado em recortes de imprensa, documentos públicos e declarações do próprio Rubio.

          Filho de cubanos que imigraram durante o governo de Fulgêncio Batista (aliado histórico de Washington), Rubio construiu uma narrativa pessoal marcada por contradições. Em campanhas, afirmou que os pais haviam deixado Cuba por causa do regime castrista, versão desmentida por registros históricos. Formado em Direito graças a uma bolsa de atleta, disputou as primárias republicanas de 2016 contra Jeb Bush e Donald Trump. Derrotado, tornou-se aliado de Trump e foi nomeado secretário de Estado no atual mandato.

            Um dos eixos centrais do livro é a relação entre políticos cubano-americanos e o crime organizado na Flórida. Blanch documenta casos de corrupção e aponta que Rubio teria sido alvo de denúncias por tráfico de influência e enriquecimento ilícito, embora sem condenações formais. O autor também destaca a dependência de Rubio em relação ao capital financeiro e ao lobby sionista, principais doadores de suas campanhas. No plano doméstico, defende o livre porte de armas, opõe-se à anistia para imigrantes e rejeita o aumento de impostos sobre grandes fortunas.

            No campo internacional, Rubio articula pressão máxima contra Cuba, Nicarágua e Venezuela, além de propor aliança energética com Canadá, México, Colômbia e Brasil para deslocar o protagonismo do Oriente Médio e da Rússia. O livro sustenta que ele atua como mentor intelectual de grande parte das iniciativas desestabilizadoras do governo Trump, comparando sua influência à de Joseph Goebbels no Terceiro Reich pela habilidade em manipular narrativas e justificar violações do Direito Internacional.

            Marco Rubio, um mitômano incontrolável não é uma biografia neutra, tampouco um ensaio acadêmico isento. Trata-se de um livro escrito para municiar militantes como explicita a própria orelha. Do ponto de vista jornalístico, a obra peca pela ausência de fontes primárias inéditas e pela escassez de entrevistas, baseando-se em compilações de notícias já publicadas. Sua virtude é organizar informações dispersas em uma narrativa coerente e acessível.

            O livro cumpre o que promete: oferecer um retrato crítico e documentado de Rubio, expondo contradições entre discurso e prática. Recomenda-se a leitura a militantes, jornalistas e pesquisadores,  desde que cientes do viés assumido. Como ferramenta de debate, é valiosa; como fonte única, requer contraponto.


Sugestão de boa leitura:

Título:  Marco Rubio, um mitômano incontrolável.

Autor:  Hedelberto López Blanch.

Editora: Expressão Popular, 2026, 144 p.

sábado, 25 de julho de 2026

Nem tudo que parece é: o que Bridget Jones tem a ver com fake news?

 

     Tenho o hábito de assistir séries, mas neste recesso escolar resolvi mudar: nada de episódios que, em sua ordem cronológica, me lembram a rigidez com que nós, professores, ficamos presos ao relógio (horários, duração de aulas, sirenes). Optei por filmes aleatórios. Como assisto poucos, é fácil encontrar títulos inéditos para minha simples descontração.

        Foi assim que, num canal de streaming, deparei com O diário de Bridget Jones (2001). O título sempre me despertara curiosidade, mas, por alguma razão, nunca passara da intenção. Nada li a respeito. Em meu imaginário, tratava-se de uma repórter investigativa que desvendara uma grande rede de corrupção e, após ser assassinada, seu diário revelava os criminosos.

     Quem já assistiu ao filme sabe que não se trata de nada disso. Obviamente, não compartilhei minha suposição com ninguém, se o tivesse feito, alguém me corrigiria a tempo. Esse episódio banal me fez lembrar de uma frase de Karl Marx: "Se toda a essência coincidisse com a aparência, a ciência seria desnecessária." O filósofo quis dizer que, se as coisas fossem o que aparentam à primeira vista, não precisaríamos estudar, pesquisar ou investigar para descobrir seu real significado.

        Ocorreu-me, então, um caso parecido. Um companheiro de visão de mundo, alguém que compartilha comigo projeto de sociedade e país, confessou que não conseguia ler tudo o que eu postava nas redes, mas que assinava embaixo e repostava minhas publicações por me conhecer. Apontei-lhe o equívoco: ainda que eu leia tudo o que publico, já encontrei postagens de companheiros que contrariam a própria ideologia que sei que defendem. Tais contradições nascem, muitas vezes, de manchetes cujo conteúdo não corresponde ao título.

         Pensei, então: quanta gente deve republicar postagens cujo teor desconhece ou mesmo discorda? Quantos se limitam a comentar manchetes, sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo integral?

            Essa não é uma reflexão nova neste espaço. Em outubro de 2010, publiquei "A ilusão de descortinar o mundo real", onde já alertava: "A visão de mundo das pessoas é muito limitada, poderíamos dizer míope (com o perdão dos que sofrem desse problema visual). Não conseguem ver muito além do que lhes é próximo. Ver a essência dos fenômenos não é tarefa fácil; exige estudo, observação, reflexão. E, como sabemos, nem todos são afeitos ao ato de pensar. Pensar é uma árdua tarefa, já afirmava Einstein, completando que talvez por isso tão poucos se dediquem a ela. Assim, difunde-se o discurso de que se deve aceitar o mundo como ele aparenta ser, afinal, as coisas sempre foram assim e não há o que mudar."

            Há dias, um internauta postou que dos professores "muito se deve exigir, pois as consequências de seu trabalho se propagam por décadas". Concordo. Mas complemento: que se dê aos mestres as condições necessárias para tal. Reitero também que muito se fala dos professores, mas pouco se discute o peso da imprensa que omite ou manipula informações. E o que dizer dos internautas que propagam fake news e desinformam parcelas inteiras da sociedade, minando a própria democracia, que precisa, como subsídio para sua ação, da informação verdadeira?

            O que quero dizer, no fundo, é que a hipocrisia reina em muitos discursos. E poucos, muito poucos, passariam pelo crivo de seu próprio pensar.

            Se Bridget Jones me ensinou algo, além de boas risadas, foi isto: julgar um filme (ou uma notícia, ou uma pessoa) pela capa é um risco que, num mundo saturado de informações, já não podemos mais nos dar ao luxo de correr.

sábado, 18 de julho de 2026

O guarani

 


        José de Alencar (1829-1877) foi um romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário e defensor do sistema escravocrata, na política ficou reconhecido por sua atuação parlamentar na defesa de valores conservadores, patriarcais, mas também pátrios. A maturidade que adquiri ao longo da vida me permite separar José de Alencar, o homem (fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do Romantismo Brasileiro; dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e morte, paixão e ódio, mas também muito talento.

            A trama de O guarani, publicada por José de Alencar em 1857, conta uma história de amor ambientada no século XVII entre um indígena e a filha de um próspero colonizador português. Cecília (Ceci) é filha de D. Antonio Mariz (personagem inspirada em um dos fundadores do Rio de Janeiro). Em sua propriedade fortificada no alto de uma colina, vivem sua família, aventureiros, fidalgos e mercenários. A família de D. Antonio é composta pela esposa D. Lauriana, a bela filha Ceci, o filho D. Diogo e a filha mestiça Isabel, que D. Antonio teve com uma indígena.

            Peri é um índio goitacá inteligente e destemido que salvou Ceci de um ataque indígena e que, como missão de vida, se incumbiu da proteção dela. Na propriedade residem homens de má índole que não demoram a observar os dotes de Cecília. Isabel é apaixonada por Álvaro, capanga de D. Antonio, que por sua vez é apaixonado por Ceci, mas ela não o corresponde. Peri tem uma paixão platônica por Ceci. D. Lauriana se irrita com a presença do "selvagem" na propriedade, porém D. Antonio tem simpatia pelo indígena e o considera útil. D. Diogo sai para caçar e, não intencionalmente, mata uma indígena aymoré, isso se torna o estopim de um conflito feroz entre a tribo Aymoré e a família de colonizadores.

            O livro evidencia a fase nacionalista do Romantismo brasileiro, com forte influência europeia, mas é importante notar que Peri é mais um símbolo cavalheiresco do que uma representação realista do indígena. Mesmo assim, a obra prende o leitor do início ao fim, com cenas de ação, amor e tragédia que fazem jus ao talento de Alencar. Se você só leu O guarani na escola, vale a pena relê-lo agora, a experiência é completamente outra.

Sugestão de boa leitura:
Título: O guarani.
Autor: José de Alencar.
Editora: La Fonte, 2022, 304 p.

domingo, 12 de julho de 2026

Rir da própria tragédia: o professor e o espetáculo do descaso

 

            Na semana passada, estudantes colocaram cacos de vidro no copo d'água de uma professora do Ensino Fundamental. Esse caso, longe de ser isolado, expõe uma verdade que a sociedade brasileira prefere ignorar. O Brasil trata seus professores como inimigos. A Educação há muito se tornou uma tragédia nacional. É conhecida mundialmente a nossa capacidade de rir ante as tragédias. Rimos da própria desgraça. Há quem chame isso de resiliência; eu chamo de anestesia.

            É sabido que nossa indústria de memes é das mais criativas do mundo. O segundo povo mais ativo nas redes sociais transforma crítica social em entretenimento. Mas será que rir de tudo é benéfico? Especialistas alertam: essa postura pode gerar passividade. E passividade, num país onde "o público é maior que o povo, pois povo luta por seus direitos, enquanto o público apenas assiste" como alertou Lima Barreto, é um luxo perigoso.

            Confesso que vivo entre dúvidas. Guimarães Rosa dizia que "não sabia de quase nada, mas desconfiava de muita coisa". É exatamente como me sinto. Na universidade, minha professora de filosofia nos ensinou: "venho para encher suas cabecinhas de dúvidas, não de respostas". Talvez por isso, até minhas certezas eu questiono.

            O caso do copo com vidro não é exceção. Em todo o país, professores sofrem agressões verbais, bullying, ciberbullying e, em situações extremas, agressões físicas cometidas por adolescentes e, às vezes, por seus pais. Não à toa, o Brasil ficou em último lugar no Global Teacher Status Index, ranking que mede a valorização dos docentes em 35 países.

            Fala-se muito em "apagão de professores". As licenciaturas encolhem; disciplinas inteiras ficam sem reposição. E o que ouvimos da chamada boa sociedade? "Quem não está contente, que saia." Pois bem: se todos os descontentes saírem, nossos filhos e netos não terão um único professor.

            Nós, mestres, amamos ensinar. O que odiamos é ser vilanizados, humilhados e reduzidos a bodes expiatórios. Odiamos salas superlotadas, montanhas de relatórios, falta de hora-atividade, metas impossíveis, assédio moral, salários defasados e a negação de direitos. E, pior: governantes que tratam educação como despesa, famílias que nos colocam como únicos culpados pelos fracassos dos filhos e uma sociedade que aplaude quando nos atacam.

            Já li dezenas de textos sobre nossa importância. Mas palavras não enchem estômago nem curam burnout, a doença que atinge mais de 70% dos professores. Somos cobrados como se fôssemos a Suécia, mas tratados como se estivéssemos no Haiti. E, ainda assim, pedem resultados de primeiro mundo.

            Na última semana, fui a Guarapuava assistir ao humorista Diogo Almeida, especialista em fazer humor das tragédias da educação. Plateia lotada, maioria de professores na meia-idade, o perfil atual da classe que envelhece e está às portas da aposentadoria, agravando o apagão. Ri muito. Precisava.

            Ri da própria tragédia, porque a luta cansa e a alienação alivia. Mas, enquanto ria, percebi: minha gargalhada era o eco de uma classe que não tem mais voz. Estamos medicados, sobrevivendo e fazendo piada, não porque somos fortes, mas porque o desespero, sem saída, vira espetáculo. O problema é que, no Brasil, até a tragédia vira produto. E o professor, de protagonista, virou plateia.

sábado, 4 de julho de 2026

A Bandeira, a Amarelinha e a Alma Brasileira

 

         Há alguns anos, discorri neste espaço sobre a necessidade de se recuperar a bandeira nacional, que havia sido apropriada pela extrema direita. Na ocasião, lamentei constatar seu uso como símbolo de uma parcela da população que segue os ideais de lideranças do mesmo espectro político de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Não é necessário repetir aqui a tragédia econômica e humanitária a que o mundo se submeteu por fingir não ver o monstro que se agigantava.

            Na época, em minhas caminhadas pela cidade, observei com grande tristeza residências muito humildes ostentando a bandeira nacional,  o mesmo símbolo que muitos associavam abertamente a um grupo político cujo protagonismo é de uma família que, na minha avaliação, muito mal fez ao país e ainda faz. Que os ricos defendam seus injustos privilégios, eu posso entender, embora não concorde. Mas dá muita pena ver o que a "falta de luz", leia-se, a ausência de informação e consciência crítica, faz às almas menos afortunadas de nossa sociedade.

            Felizmente, a Copa do Mundo de Futebol trouxe uma reviravolta inesperada. A parcela progressista da sociedade ousou, novamente, vestir a camisa da seleção. Alguns, temendo ser confundidos com o grupo político da extrema direita, optaram pela camiseta azul. Outros, mais corajosos, resgataram a amarela.

            Em solo pátrio, já não é mais possível afirmar a ideologia de quem usa a "amarelinha". O uso da camisa passou a ser compartilhado por pessoas de ambos os lados do espectro político. Também não se pode mais deduzir a posição dos moradores pela bandeira na janela,  afinal, o Brasil, mesmo polarizado, vive a febre da Copa. Como diz a canção (devidamente atualizada): "somos 215 milhões em ação / para frente Brasil / salve a seleção".

            Ainda que essa ressignificação seja um avanço, não posso esquecer que, até ontem, a mesma camisa era ostentada por aqueles que defendem o oposto do que acredito. O símbolo mudou de mãos, mas a memória não se apaga tão rápido. E é justamente essa tensão entre o passado recente e o presente de união, que torna o fenômeno tão fascinante.

            Impossível não lembrar, aqui, do Santos Futebol Clube da era Pelé. Em 1969, no auge da Guerra de Biafra, na Nigéria, a equipe santista conseguiu algo que diplomatas não haviam alcançado: um cessar-fogo entre as partes conflitantes para que a população pudesse assistir ao futebol arte do time liderado pelo gênio. O futebol, ali, provou ser mais que entretenimento, foi trégua humanitária.

            Esse humilde escriba confessa que jogou a toalha no fatídico 7 a 1 da Alemanha, em 2014. Mas voltou a assistir à seleção desde o primeiro jogo desta Copa. Retomou, inclusive, o hábito de torcer para as seleções dos países colonizados, especialmente da América Latina e da África, em seus confrontos contra as potências colonizadoras europeias. Com enorme arroubo de alegria, comemorei os feitos de Cabo Verde e, especialmente, do Paraguai. Não sei como agirei em confrontos entre nossos hermanos latino-americanos e nossos irmãos africanos; penso que terei de deixar o coração decidir.

            Encerro dizendo que, no "País do Futebol", tal como o Santos de Pelé, a seleção e a Copa do Mundo recolocaram as cores nacionais em seu devido lugar: no coração e nas mentes de todos os brasileiros. A Copa mostrou que é possível partilhar um símbolo, mas isso não apaga as desigualdades estruturais. O futebol é trégua, não paz definitiva.

            O país continuará polarizado, e isso é natural, pois é a luta de classes movendo a história nacional. Lamento apenas que muitos de nossos irmãos trabalhadores, confusamente, tenham se postado em trincheiras que, do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora, considero equivocadas. Mas a amarelinha, agora, não é mais somente deles, é nossa. E isso, por si só, já é uma pequena vitória.