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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Sobre o analfabetismo e suas variantes - parte 3


        Há uma relação direta entre o analfabetismo funcional e o analfabetismo político. A dificuldade de interpretar textos e contextos é a mesma enfrentada por quem não lê o mundo como campo de disputa. Engana-se quem pensa que o analfabetismo político atinge apenas os mais pobres: ele cruza classes, níveis de instrução, credos e raças.
    Ao publicar “O analfabeto político”, o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) chamou atenção para um problema ainda atual. O debate continua necessário, porque suas consequências são coletivas. Toda a sociedade perde quando parte significativa dos cidadãos se ausenta da vida política, ignora o passado e não enxerga no presente as marcas de decisões políticas que poderiam ter sido outras.
       O analfabeto político trata a palavra “política” como palavrão. Mas política é simplesmente o modo como nos organizamos coletivamente e deveria ser ensinada, não evitada. É dessa ingenuidade ou preguiça intelectual que se aproveitam políticos malandros. Eles convencem a sociedade majoritariamente formada por trabalhadores, por exemplo, de que uma greve é “política” como se pudesse ser religiosa, ou como se houvesse greve fora da política. Toda greve é política. Toda omissão também.
        A neutralidade da qual tantos se orgulham é, ela mesma, um posicionamento conservador: quem não age para mudar o jogo beneficia quem sempre venceu. A democracia não sobrevive de espectadores. Sobre isso o jornalista e escritor Lima Barreto (1881-1922) disse: "O Brasil não tem povo, tem público. Povo luta por seus direitos e se mobiliza, público apenas assiste".
      Também a filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975) lembra que a democracia exige participação ativa para se manter viva. Os ataques de 8 de janeiro de 2023 no Brasil e os movimentos da atual gestão Trump nos EUA escancaram sua fragilidade. Democracia é como bebê: precisa de adultos responsáveis que a protejam.
        Aqui e além, há quem culpe imigrantes, negros, LGBTQIAPN+ ou a esquerda por suas próprias frustrações. O fascismo se nutre dessa falta de autoconsciência, desse analfabetismo de si mesmo. Ele não floresce onde as pessoas compreendem a própria história. Reduzir o analfabetismo funcional e político é, antes de tudo, adubar o chão onde a democracia pode, enfim, criar raízes.

Clique no link abaixo e assista a apresentação do poema O analfabeto político de Bertolt Brecht.

 

 

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