Em 13 de Maio de 1888, contrariando a firme disposição das elites, o Brasil deu um passo em direção à humanização das relações de trabalho, deixando para trás a barbárie da escravidão, nódoa que o tempo não apagará. Nosso destino foi calcado no tolhimento da liberdade de seres humanos sequestrados e comercializados como mercadorias, sujeitos a maus tratos, torturas, estupros e à proibição de sua língua e tradições pelos Senhores da Casa Grande, que detinham poder de vida e morte sobre eles.
As elites sempre estiveram nos círculos de poder. No Império, a bancada ruralista (barões do açúcar, café e boi) contrapôs-se a visões industrializantes como a de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813-1889). Nada mudou: hoje a bancada do Boi, da Bala e da Bíblia segue impondo pautas reacionárias.
A História não é linear; direitos conquistados podem ser revogados. Na Argentina, o presidente Javier Milei aprovou uma "deforma" trabalhista que retirou décadas de conquistas: jornada de até 12 horas, ataques aos sindicatos e cortes de direitos. Um alerta de que o passado está mais próximo do que parece.
Dias atrás, encontrei um empresário e, após ouvir o discurso habitual sobre dificuldades com pagamento de salários de funcionários e de impostos, igual ao de tantos outros com quem conversei, sugeri que vendesse o negócio e se tornasse empregado, pois, sem estresse, estaria melhor.
Quando discutimos a redução da jornada de 44 para 40 horas e a escala 5x2, ele disse que eu pensaria diferente se fosse empresário. Respondi que não sou empresário, mas há anos tenho uma funcionária doméstica registrada, com todos os direitos, trabalhando 40 horas semanais em escala 5x2 (muito antes do debate atual). Minha esposa e eu sempre entendemos que ela precisa de tempo para cuidar da própria casa e da sua família.
Na Europa Ocidental, países conhecidos por suas jornadas inferiores a 40 horas, agora experimentam com sucesso a semana 4x3, com ganhos de produtividade nas empresas e de qualidade de vida para seus funcionários. A surrealidade brasileira é que o governo Lula defende a redução da jornada, mas enfrenta a oposição de empresários conservadores que pregam a defesa da família como lema, enquanto negam aos seus funcionários dois dias integrais para conviverem com suas famílias. É muita hipocrisia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário