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domingo, 19 de abril de 2026

Teoria Geral do Esquecimento

 


          José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (1960) agrônomo de formação, tornou-se jornalista, escritor e editor por vocação. Angolano de ascendência portuguesa e brasileira, Agualusa juntamente com Mia Couto (1955) são considerados dois expoentes da literatura africana em língua portuguesa.

                Teoria Geral do Esquecimento é o mais famoso livro de José Eduardo. O título induz o público leigo ao equívoco de acreditar que a obra tem conteúdo academicista, no entanto, trata-se de ficção do início ao fim.

                Na trama, o narrador (Osga) diz que teve acesso aos diários, poemas e reflexões de Ludovica Fernandes Mano (Ludo) e relata o cotidiano de Ludovica que viera de Portugal para residir em Angola, na casa de sua irmã Odete que se casara com Orlando, um angolano de ascendência portuguesa que exercia o ofício de administrador de uma mina de diamantes.

                Ludo, devido seu trauma de infância, tem fobia a lugares abertos (agorafobia) e demandou muitos cuidados na viagem para Angola. Pouco tempo depois que se estabelece em Angola, estoura o movimento independentista (1961-1974) e, com ele, o racismo e a violência se intensificam. Os colonizadores portugueses passam a temer ataques da população nativa. Muitos portugueses organizam festas de despedidas. Orlando e Odete vão a um jantar de despedidas e não mais retornam.

                Ludovica fechada no apartamento do casal desaparecido, cujo prédio se esvaziou, pois era de moradia exclusiva de portugueses, recebe uma ligação ameaçadora pedindo os diamantes em troca da vida do casal, afirma não saber dos mesmos. Ela vai ao escritório do cunhado, encontra uma pistola. Alguém tenta arrombar a porta do apartamento. Ludo atira, fere um dos rapazes, os demais fogem. O jovem ferido suplica e Ludo abre a porta, lhe dá água, mas o rapaz morre. Ela enterra o assaltante no terraço, onde havia árvores frutíferas.

                Ludo tinha muita comida enlatada, pois seus vizinhos aos irem embora lhe doaram toda a sua despensa (comida e bebida). É com esses alimentos que Ludovica vai sobreviver juntamente com o cãozinho branco de nome Fantasma. Havia muito tumulto e tiros nas ruas, e Ludo que teme o espaço aberto após encontrar cimento de uma obra iniciada por seu cunhado no terraço resolve concretar a porta de acesso ao apartamento.

                Ela, uma estrangeira, numa terra tumultuada, se isola do mundo por trinta anos e por ele é esquecida. Essa solidão denota uma violência talvez maior do que a que reina lá fora devido ao caos instalado. A sociedade esquece dela e ela esquece do mundo exterior. Os dias passam, ela fica com a companhia de Fantasma e de inúmeros livros da biblioteca de seu cunhado.  Ludo lê e registra o que sente/vive, por falta de papel passa a escrever na parede. Ela quebra a perna, momento em que aparece um menino que escala o prédio para procurar alguma coisa de valor, encontra Ludo e passa a ajudá-la fazendo a conexão com o mundo de fora que estava em mutação.

                O livro tem essa história principal e vários outros fragmentos de memória de fatos do cotidiano que parecem não amalgamar, como peças de um quebra-cabeças, onde já não é mais possível saber o que foi ou é real e o que é criação da mente. Ao ler a obra, tudo parece confuso, como é confusa a nossa memória de fatos vividos e que ficaram distantes no tempo, os quais, apesar de estarem interligados parecem ter perdido a cola que os unia. Essa aparente desconexão dos fatos no livro não é falha da escrita de Agualusa, mas a prova de sua genialidade, pois a memória não é um arquivo organizado, mas um labirinto de fragmentos.

                O esquecimento pode ser uma tragédia (Alzheimer) ou pode ser uma dádiva quando as pessoas esquecem o que as fez sofrer (o que não aconteceu com Ludovica). É triste ser esquecido por seus amigos ou alguém querido, porém é motivo de felicidade ser esquecido por quem nos trouxe dias ruins. José Eduardo Agualusa insere Ludovica e seu trauma tendo como pano de fundo a traumática luta pela independência de Angola, uma jovem nação que precisou e ainda precisa reconciliar-se com sua própria história violenta, na qual o esquecimento deixa de ser apenas um tema psicológico para tornar-se uma questão coletiva.

P.S. Não contei o desfecho do livro, porque uma resenha deve sempre deixar uma parte "esquecida" para  que o leitor a descubra! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título:  Teoria Geral do Esquecimento.

Autor:  José Eduardo Agualusa.

Editora: Foz, 2012, 176 p.

domingo, 12 de abril de 2026

Lucíola

 


                 É incrível como mudamos com o passar das primaveras, no meu caso, dos invernos, a estação em que nasci. Há muito tempo deixei para trás, a adolescência e, também a adultescência. A maturidade trouxe a mudança de hábitos, na culinária,  nos hobbies (agora prefiro a tranquilidade à agitação dos eventos festivos) e, na literatura, agora posso dizer que entendo os motivos das indicações literárias feitas pelos mestres, para as quais torcia o nariz. Hoje, dentre outros autores indigestos em minha adolescência e juventude, posso dizer que muito aprecio a obra de José de Alencar.

                José de Alencar (1829-1877) foi um romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário e defensor do sistema escravocrata, na política, ficou  reconhecido por sua atuação parlamentar na defesa de valores conservadores, patriarcais, mas, também pátrios. A maturidade que adquiri ao longo da vida, me permite separar José de Alencar, o homem (fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do Romantismo Brasileiro, dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e morte, paixão e ódio, mas também muito talento.

                Em Lucíola, livro epistolar publicado em 1862, Paulo, o narrador, escreve a uma amiga contando sua vida após deixar Recife (PE), onde se formara, e sua chegada à Corte (Rio de Janeiro), onde é recebido por alguns amigos. Paulo se estabelece na capital da então jovem nação brasileira com a intenção de encontrar um bom emprego. Na chegada, fica extasiado ao ver uma jovem lindíssima e, ao vê-la passar a cumprimenta com todo o respeito dedicado a uma dama. Paulo e Lúcia (este é o seu nome) se apaixonam. Ao querer saber mais sobre a moça, seus amigos rindo, lhe desencantam, ao afirmar que todos eles "conhecem" Lúcia, a qual era uma cortesã (meretriz de luxo).

                Lúcia, com apenas 20 anos, levava uma vida confortável graças aos altos preços exigidos por seus préstimos derivados da necessidade que a vida lhe impôs e do desejo de independência que buscava. Tinha uma boa casa, funcionárias, dinheiro para adquirir artigos de valor em lojas de luxo, porém, sabia ser discreta, vestia-se bem, mas de forma sóbria. Ela, como as demais cortesãs, apesar de muito requisitada em eventos e festas, era estigmatizada na sociedade, mas tinha a liberdade que faltava às madames reclusas na Casa Grande. Paulo, ante a inadmissibilidade moral de tê-la como companheira de uma vida, para a qual,  em seu julgamento, ela não mais servia, decide que uma aventura passageira com tão linda moça, não era algo a se desperdiçar.

                Paulo encontra Lúcia e vai direto ao assunto e lhe pergunta seu preço. A moça se entristece, Paulo já sabe, lamenta isso e, lhe atende. Apesar de Lúcia ter como princípio não se envolver, o casal se encontra seguidamente. Paulo vê em Lúcia uma pureza que sua vida pregressa não condiz nem sustenta, e luta consigo mesmo entre a idealização e a razão. Lúcia se orgulha de não precisar que nenhum homem lhe sustente e, humilha Paulo, por sua pobreza, mas se cobra fortemente por  exercer a atividade que lhe rende seu dinheiro, apesar disso, mantém sua dignidade.

                A obra de José de Alencar escancara a hipocrisia da alta sociedade da capital brasileira, na qual, as mulheres ficavam trancafiadas dentro de suas casas enquanto seus maridos, muitos deles, fazendeiros e/ou políticos importantes dados a prática de belíssimos discursos em defesa da família e dos bons costumes, caíam em contradição participando de reuniões nem tão públicas, assim.

                Encerro essa resenha, com a certeza de que mais importante do que as linhas que escrevi, são aquelas que omiti, afinal, a intencionalidade de uma resenha não é a de saciar a curiosidade literária, mas, de estimular o apetite pela leitura. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título:  Lucíola.

Autor:  José de Alencar.

Editora: Principis, 2020, 176 p.