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domingo, 12 de abril de 2026

Lucíola

 


                 É incrível como mudamos com o passar das primaveras, no meu caso, dos invernos, a estação em que nasci. Há muito tempo deixei para trás, a adolescência e, também a adultescência. A maturidade trouxe a mudança de hábitos, na culinária,  nos hobbies (agora prefiro a tranquilidade à agitação dos eventos festivos) e, na literatura, agora posso dizer que entendo os motivos das indicações literárias feitas pelos mestres, para as quais torcia o nariz. Hoje, dentre outros autores indigestos em minha adolescência e juventude, posso dizer que muito aprecio a obra de José de Alencar.

                José de Alencar (1829-1877) foi um romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Homem rico, latifundiário e defensor do sistema escravocrata, na política, ficou  reconhecido por sua atuação parlamentar na defesa de valores conservadores, patriarcais, mas, também pátrios. A maturidade que adquiri ao longo da vida, me permite separar José de Alencar, o homem (fruto de seu tempo), do talentoso escritor, que acreditava que sua obra deveria auxiliar na construção do mito fundador da pátria brasileira e do valor de sua gente. Os alicerces de sua obra descansam sobre a rocha matriz do Romantismo Brasileiro, dessa forma, há nela certo exagero dramático, vida e morte, paixão e ódio, mas também muito talento.

                Em Lucíola, livro epistolar publicado em 1862, Paulo, o narrador, escreve a uma amiga contando sua vida após deixar Recife (PE), onde se formara, e sua chegada à Corte (Rio de Janeiro), onde é recebido por alguns amigos. Paulo se estabelece na capital da então jovem nação brasileira com a intenção de encontrar um bom emprego. Na chegada, fica extasiado ao ver uma jovem lindíssima e, ao vê-la passar a cumprimenta com todo o respeito dedicado a uma dama. Paulo e Lúcia (este é o seu nome) se apaixonam. Ao querer saber mais sobre a moça, seus amigos rindo, lhe desencantam, ao afirmar que todos eles "conhecem" Lúcia, a qual era uma cortesã (meretriz de luxo).

                Lúcia, com apenas 20 anos, levava uma vida confortável graças aos altos preços exigidos por seus préstimos derivados da necessidade que a vida lhe impôs e do desejo de independência que buscava. Tinha uma boa casa, funcionárias, dinheiro para adquirir artigos de valor em lojas de luxo, porém, sabia ser discreta, vestia-se bem, mas de forma sóbria. Ela, como as demais cortesãs, apesar de muito requisitada em eventos e festas, era estigmatizada na sociedade, mas tinha a liberdade que faltava às madames reclusas na Casa Grande. Paulo, ante a inadmissibilidade moral de tê-la como companheira de uma vida, para a qual,  em seu julgamento, ela não mais servia, decide que uma aventura passageira com tão linda moça, não era algo a se desperdiçar.

                Paulo encontra Lúcia e vai direto ao assunto e lhe pergunta seu preço. A moça se entristece, Paulo já sabe, lamenta isso e, lhe atende. Apesar de Lúcia ter como princípio não se envolver, o casal se encontra seguidamente. Paulo vê em Lúcia uma pureza que sua vida pregressa não condiz nem sustenta, e luta consigo mesmo entre a idealização e a razão. Lúcia se orgulha de não precisar que nenhum homem lhe sustente e, humilha Paulo, por sua pobreza, mas se cobra fortemente por  exercer a atividade que lhe rende seu dinheiro, apesar disso, mantém sua dignidade.

                A obra de José de Alencar escancara a hipocrisia da alta sociedade da capital brasileira, na qual, as mulheres ficavam trancafiadas dentro de suas casas enquanto seus maridos, muitos deles, fazendeiros e/ou políticos importantes dados a prática de belíssimos discursos em defesa da família e dos bons costumes, caíam em contradição participando de reuniões nem tão públicas, assim.

                Encerro essa resenha, com a certeza de que mais importante do que as linhas que escrevi, são aquelas que omiti, afinal, a intencionalidade de uma resenha não é a de saciar a curiosidade literária, mas, de estimular o apetite pela leitura. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título:  Lucíola.

Autor:  José de Alencar.

Editora: Principis, 2020, 176 p.

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