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sábado, 6 de junho de 2026

Sub Terra: quadros mineiros


     

Baldomero Lillo (1867-1923) foi um escritor naturalista chileno. Seu pai participou da corrida do ouro na Califórnia (EUA), onde aprendeu o ofício da mineração, mas voltou sem fazer fortuna. Mudou-se então para Lota, na região de Concepción (Chile), para trabalhar nas minas de carvão. Em Lota, Baldomero Lillo nasceu, cresceu e trabalhou nas minas.

            As minas de Lota possuíam o carvão com o maior poder calorífico e metalúrgico do país, ainda que tecnicamente impuro. Os túneis de Lota foram as primeiras e únicas minas submarinas do mundo, avançando centenas de metros sob o Oceano Pacífico. Apesar dos inúmeros acidentes e perdas de vidas de mineiros, as minas da região foram mantidas em funcionamento enquanto a exploração do carvão se manteve viável economicamente, e somente foram fechadas por decisão do governo chileno em 1997.

            Lillo, inspirado explicitamente no naturalismo de Émile Zola (1840-1902), não se limita a documentar os acidentes e os baixos salários. Em contos como "A comporta número 12", ele cria cenas de alto impacto dramático (um mineiro isolado em uma galeria inundada, sem chance de escapar) para mostrar como o determinismo do meio ambiente e das relações de produção aniquila qualquer possibilidade de escolha individual. No entanto, o leitor contemporâneo pode sentir que as personagens de Lillo por vezes funcionam mais como símbolos da opressão do que como indivíduos psicologicamente complexos, o que é uma limitação típica de certo naturalismo panfletário.

            Lillo escreveu a obra "Sub Terra: quadros mineiros", que conta com treze contos retratando a difícil realidade cotidiana dos mineiros que, devido à falta de alternativas de emprego, se sujeitam ao árduo e perigoso trabalho nas minas, expostos a desabamentos e explosões causados pelo grizu (vazamento de gás metano altamente explosivo em minas de carvão). Os gerentes das minas, além de pagarem pouco pelo carvão retirado pelos mineiros, descontavam valores excessivos sobre supostas impurezas e obrigavam os trabalhadores a comprar mantimentos unicamente do armazém da empresa, cujos preços eram superfaturados. Dessa forma, muitas vezes, ao final do mês, não havia salário a receber, mas uma dívida a ser paga no mês seguinte.

            As revoltas dos trabalhadores (por melhor remuneração ou mais segurança) eram contidas pelos seguranças armados da empresa. Quem ousasse comprar produtos fora do armazém da vila da empresa perdia o trabalho e a casa em que morava, pois esta também era de propriedade da companhia. Muitas eram as famílias que perderam entes em desabamentos ou explosões; mesmo assim, a necessidade imperiosa levava mães a colocar seus filhos para trabalhar no mesmo local que fora o túmulo de seus maridos.

            A prosa seca e precisa de Lillo prende a atenção durante a leitura, sempre acompanhada da sensação de angústia, tristeza e mesmo indignação diante da humilhante situação dos trabalhadores. Ler esta obra magistralmente escrita possibilita entender o preço pago por indivíduos desconhecidos que, sem outra opção de sobrevivência, assumiram um trabalho vital para todo o progresso advindo do surgimento da sociedade industrial. A leitura do livro também nos permite compreender que, apesar de todo progresso científico e tecnológico, ainda há trabalhos perigosos para a saúde e a vida humana e sempre haverá quem se submeta a eles para não faltar, à sua mesa e a de seus dependentes, o pão de cada dia. 

Sugestão de boa leitura:

Título: Sub Terra: quadros mineiros

Autor: Baldomero Lillo

Editora: Expressão Popular, 2025, 209 p.