Os grandes eventos
esportivos como Olimpíadas e Copas do Mundo são vendidos à opinião pública como
vitrines da confraternização universal, palcos onde povos de todas as cores e
credos se abraçam em torno do esporte. Mas essa narrativa ingênua desaba quando
observamos os bastidores. Por trás do espetáculo televisivo para bilhões, há
uma teia de interesses econômicos, projeção geopolítica das nações anfitriãs e
afirmação pessoal de seus governantes. Sediar uma Copa sempre foi um ato de
empoderamento nacional, mas também um teste de submissão às regras não escritas
do poder global.
O que deveria ser festa, porém, frequentemente se torna
arena de contradições morais. A Copa de 2026, sediada por Estados Unidos,
México e Canadá (bloco USMCA), expõe essas fraturas de maneira escandalosa. Os
EUA, sob Donald Trump, retomaram bombardeios ao Irã e endureceram o embargo a
Cuba, dessa forma, a Copa já começou manchada. A FIFA, em vez de zelar pelos
valores que diz defender, curvou-se. Gianni Infantino concedeu a Trump o
"Prêmio da Paz da FIFA – o futebol une o mundo". A ironia beira o
absurdo: o mesmo prêmio, dado a um presidente beligerante, ecoa a controvérsia
do Nobel da Paz de 2025 à venezuelana María Corina Machado, honraria que já foi
de Nelson Mandela e agora serve a propósitos bem menos nobres. María Corina,
aliás, entregou seu prêmio a Trump em gesto de subserviência, revelando o
alinhamento geopolítico por trás das cortinas institucionais.
O caso mais emblemático da seletividade moral da FIFA
envolve Rússia e Israel. A Rússia foi expulsa das Copas de 2022 e 2026 e das
Olimpíadas de Paris-2024 por invadir a Ucrânia, decisão baseada na violação da
trégua olímpica e em sanções da WADA. Até aí, foi coerente. O problema é que
Israel, sistematicamente acusado de desrespeito aos direitos humanos e de
genocídio contra os palestinos, continuou participando das Olimpíadas e das
eliminatórias e só não está na Copa de 2026 porque não se classificou em campo.
Não houve sanção, veto ou constrangimento. A diferença de tratamento é tão
gritante que só pode ser chamada de dois pesos e duas medidas. A FIFA, que se
pretende guardiã da imparcialidade, revela-se refém das alianças geopolíticas
de seus patrocinadores.
Se a Rússia foi excluída e Israel poupado, os EUA estão
sendo tratados com leniência que contrasta com o rigor imposto a outros
anfitriões. Quando o Brasil sediou a Copa de 2014, a FIFA exigiu leis
específicas como a que criminalizava a venda ambulante de ingressos e liberava
a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. O mesmo ocorreu com a Rússia em
2018. Agora, com os EUA, a entidade perdeu a voz. Infantino, pressionado a
explicar as humilhações a jogadores e torcedores, disse que "todos
deveriam esfriar a cabeça e relaxar". Quando questionado se estava
envergonhado por ter perdido as rédeas da Copa, respondeu que a FIFA "não
tem poder para ditar regras a governos soberanos". Curiosa mudança: a
mesma FIFA que exigia leis sob medida para o Brasil agora se refugia na
soberania nacional.
Os exemplos de desrespeito não param. A seleção do Irã,
mesmo tendo seus jogos nos EUA, foi impedida de se hospedar em solo americano,
forçada a desgastantes deslocamentos do México. O árbitro somali Omar
Abdulkadir Artan, eleito o melhor da África, teve o visto negado sem
explicação. Torcedores asiáticos e africanos relataram abordagens agressivas e
racistas em aeroportos e estádios, um racismo estrutural que as câmeras não
mostram, mas que as delegações vivem na pele. A FIFA, que sempre se vendeu como
defensora da diversidade, calou-se.
Lembra do Rei Midas? Transformava em ouro tudo o que
tocava, mas seu dom virou maldição. Trump, com seu poder econômico e militar,
transformou a Copa de 2026 em sucesso financeiro bilionário. Mas esse ouro tem
preço: a dignidade de atletas, a segurança de torcedores, a credibilidade das
instituições e o espírito do esporte. A FIFA, ao premiar Trump e afrouxar
critérios éticos para agradar ao anfitrião, pratica o que se chama, sem exagero,
de viralatismo institucional, ou seja, a submissão voluntária ao mais forte em
troca de lucro e visibilidade.
Ao final, a Copa de 2026 será lembrada não apenas pelos
gols e pelas festas nas arquibancadas, mas também pela recepção hostil a quem
veio de longe, pela hipocrisia geopolítica que trata iranianos, russos e
palestinos de forma desigual, e pela imagem de um presidente da FIFA entregando
um prêmio de paz a um líder sempre em clima de guerra. O futebol, como diz Infantino,
pode até unir o mundo, mas, sob sua
gestão, parece unir apenas os interesses de sempre, deixando de lado o
fair-play que deveria ser sua alma. Que fique registrado para a posteridade: o
espetáculo foi lindo, mas os bastidores federam.

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