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sábado, 30 de maio de 2026

Sobre palácios, choupanas e o óbvio que precisa ser dito

 

            Há alguns dias, li uma frase de Karl Marx (1818-1883), na qual ele retoma Ludwig Feuerbach (1804-1872) que tinha o seguinte enunciado: "Os que vivem em um palácio não pensam nas mesmas coisas nem da mesma maneira que aqueles que vivem em uma choupana". A frase por si é auto-explicativa, mas vivemos uma época em que o óbvio precisa ser dito, pois há pessoas que vivem em redomas isoladas hermeticamente do mundo exterior, no caso, o mundo das pessoas comuns, as que labutam diariamente pela mera sobrevivência, incapazes de sonhar dias melhores.

            Iniciam a segunda-feira esperando pela noite para o merecido descanso, no qual exaustos, pouco convivem com a família e vão dormir. Trabalham a semana de seis dias esperando pelo domingo, para o merecido descanso, no qual colocam seus afazeres domésticos em dia. Trabalham o mês esperando pelo fim para receber o seu minguado salário e pagar as contas de sua mera subsistência. Na labuta diária pelo pão, passa-se o ano, as décadas e se gasta uma vida inteira. Pouco tempo sobra para aposentadoria, na qual muitas vezes é preciso continuar trabalhando, pois o patrão o registrou com salário mínimo (para pagar menos impostos) e com ele a sobrevivência é quase impossível.

            Uma parcela significativa dos moradores de palácios dizem que aos trabalhadores falta planejamento financeiro, afinal, eles gastam 1/3 de seus rendimentos com a sobrevivência, 1/3 para o lazer (viagens de férias, etc.) e  1/3 para a independência financeira (aposentadoria), então, segundo eles, o salário, mesmo o mínimo, não é pouco, falta planejamento (educação financeira). Dizem que basta aplicar a mesma fórmula e qualquer um pode viver bem com o pouco que ganha. Sabemos que o papel aceita qualquer teoria, mesmo a mais esdrúxula e, que também os discursos podem ser belíssimos, com uma boa dose de hipocrisia ou de alienação da realidade social.

            Assisti uma fala em que o apresentador de TV Luciano Huck criticava a concessão de Bolsa-Família, citando uma cidade com grande parte da população dela dependente. Dizia que se oferecia o auxílio, mas não se incentivava as pessoas a saírem dela. Essa é uma fala comum de muitos empresários, que vêm no auxílio, um obstáculo para a contratação de mão-de-obra, no caso, barata, a custo da mera sobrevivência. Penso que boa parte dos moradores de palácio têm grande culpa, nessa sociedade que é uma das mais desiguais do mundo, segundo o Índice de Gini, afinal, desde a época imperial, a elite brasileira governou esse país para o fortalecimento e manutenção dos injustos privilégios dos moradores de palácios.

            O Congresso Nacional, em todos os tempos, teve sua ampla maioria de parlamentares formada por latifundiários e empresários. Diante disso, o Youtuber Thiago Foltran chamou de covardes quem critica a concessão de Bolsa-Família às pessoas que do referido benefício precisam. Concordo plenamente, principalmente quando sabemos que valores muito maiores são destinados aos capitalistas do campo e da cidade, na forma de isenção/redução de impostos e financiamentos subsidiados (abaixo da Selic) via BNDES e, perdão total ou parcial de dívidas arrancadas muitas vezes ao longo da história, por suas bancadas parlamentares, isto sem falar na sonegação fiscal.

            Penso que se o empresário não consegue atrair trabalhadores devido ao Bolsa-Família é porque quer escravos, não funcionários. Segundo o DIEESE, o salário mínimo para cumprir o artigo constitucional que dele trata deveria ser R$ 7.612,49. O grande problema nacional é desigualdade social e, para combatê-la, três são as ferramentas: 1. Transferência direta de renda (Bolsa-Família); 2. Tributação progressiva sobre a renda e pouco sobre o consumo (ricos pagam mais e pobres pagam menos); 3. Serviços públicos gratuitos e políticas de valorização salarial (acima da inflação). É importante observar que tais ferramentas estão sendo implementadas conjuntamente pelo Governo Federal, porém seus resultados demandam tempo.

            A fala de Huck é descontextualizada, pois em 2025, mais de dois milhões de famílias deixaram  o programa Bolsa-Família (Fonte: Infomoney), por aumento de renda e melhora na empregabilidade, sendo que 24 mil famílias pediram o desligamento por conta própria. As famílias que recebem o auxílio estão em situação de pobreza extrema (renda per capita de até R$ 218,00 mensais). Auxílio de combate à pobreza extrema não é uma jabuticaba brasileira, pois existe mesmo em países desenvolvidos. O combate à pobreza e a desigualdade regional constituem preceitos estabelecidos na Constituição Federal e, como contribuinte, prefiro que o valor dos meus impostos auxiliem o morador de choupana na sua sobrevivência, pois os moradores de palácios, apesar de sua saciedade inalcançável, já têm a sua sobrevivência garantida.

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