Há alguns dias, li uma frase
de Karl Marx (1818-1883), na qual ele retoma Ludwig Feuerbach (1804-1872) que
tinha o seguinte enunciado: "Os que vivem em um palácio não pensam nas
mesmas coisas nem da mesma maneira que aqueles que vivem em uma choupana".
A frase por si é auto-explicativa, mas vivemos uma época em que o óbvio precisa
ser dito, pois há pessoas que vivem em redomas isoladas hermeticamente do mundo
exterior, no caso, o mundo das pessoas comuns, as que labutam diariamente pela
mera sobrevivência, incapazes de sonhar dias melhores.
Iniciam a segunda-feira esperando pela noite para o
merecido descanso, no qual exaustos, pouco convivem com a família e vão dormir.
Trabalham a semana de seis dias esperando pelo domingo, para o merecido
descanso, no qual colocam seus afazeres domésticos em dia. Trabalham o mês
esperando pelo fim para receber o seu minguado salário e pagar as contas de sua
mera subsistência. Na labuta diária pelo pão, passa-se o ano, as décadas e se
gasta uma vida inteira. Pouco tempo sobra para aposentadoria, na qual muitas
vezes é preciso continuar trabalhando, pois o patrão o registrou com salário
mínimo (para pagar menos impostos) e com ele a sobrevivência é quase
impossível.
Uma parcela significativa dos moradores de palácios dizem
que aos trabalhadores falta planejamento financeiro, afinal, eles gastam 1/3 de
seus rendimentos com a sobrevivência, 1/3 para o lazer (viagens de férias,
etc.) e 1/3 para a independência
financeira (aposentadoria), então, segundo eles, o salário, mesmo o mínimo, não
é pouco, falta planejamento (educação financeira). Dizem que basta aplicar a
mesma fórmula e qualquer um pode viver bem com o pouco que ganha. Sabemos que o
papel aceita qualquer teoria, mesmo a mais esdrúxula e, que também os discursos
podem ser belíssimos, com uma boa dose de hipocrisia ou de alienação da
realidade social.
Assisti uma fala em que o apresentador de TV Luciano Huck
criticava a concessão de Bolsa-Família, citando uma cidade com grande parte da
população dela dependente. Dizia que se oferecia o auxílio, mas não se
incentivava as pessoas a saírem dela. Essa é uma fala comum de muitos
empresários, que vêm no auxílio, um obstáculo para a contratação de
mão-de-obra, no caso, barata, a custo da mera sobrevivência. Penso que boa
parte dos moradores de palácio têm grande culpa, nessa sociedade que é uma das
mais desiguais do mundo, segundo o Índice de Gini, afinal, desde a época imperial,
a elite brasileira governou esse país para o fortalecimento e manutenção dos
injustos privilégios dos moradores de palácios.
O Congresso Nacional, em todos os tempos, teve sua ampla
maioria de parlamentares formada por latifundiários e empresários. Diante
disso, o Youtuber Thiago Foltran chamou de covardes quem critica a concessão de
Bolsa-Família às pessoas que do referido benefício precisam. Concordo
plenamente, principalmente quando sabemos que valores muito maiores são
destinados aos capitalistas do campo e da cidade, na forma de isenção/redução
de impostos e financiamentos subsidiados (abaixo da Selic) via BNDES e, perdão
total ou parcial de dívidas arrancadas muitas vezes ao longo da história, por
suas bancadas parlamentares, isto sem falar na sonegação fiscal.
Penso que se o empresário não consegue atrair
trabalhadores devido ao Bolsa-Família é porque quer escravos, não funcionários.
Segundo o DIEESE, o salário mínimo para cumprir o artigo constitucional que
dele trata deveria ser R$ 7.612,49. O grande problema nacional é desigualdade
social e, para combatê-la, três são as ferramentas: 1. Transferência direta de
renda (Bolsa-Família); 2. Tributação progressiva sobre a renda e pouco sobre o
consumo (ricos pagam mais e pobres pagam menos); 3. Serviços públicos gratuitos
e políticas de valorização salarial (acima da inflação). É importante observar
que tais ferramentas estão sendo implementadas conjuntamente pelo Governo
Federal, porém seus resultados demandam tempo.
A fala de Huck é descontextualizada, pois em 2025, mais
de dois milhões de famílias deixaram o
programa Bolsa-Família (Fonte: Infomoney), por aumento de renda e melhora na
empregabilidade, sendo que 24 mil famílias pediram o desligamento por conta
própria. As famílias que recebem o auxílio estão em situação de pobreza extrema
(renda per capita de até R$ 218,00 mensais). Auxílio de combate à pobreza
extrema não é uma jabuticaba brasileira, pois existe mesmo em países
desenvolvidos. O combate à pobreza e a desigualdade regional constituem
preceitos estabelecidos na Constituição Federal e, como contribuinte, prefiro
que o valor dos meus impostos auxiliem o morador de choupana na sua
sobrevivência, pois os moradores de palácios, apesar de sua saciedade
inalcançável, já têm a sua sobrevivência garantida.

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