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sábado, 4 de julho de 2026

A Bandeira, a Amarelinha e a Alma Brasileira

 

         Há alguns anos, discorri neste espaço sobre a necessidade de se recuperar a bandeira nacional, que havia sido apropriada pela extrema direita. Na ocasião, lamentei constatar seu uso como símbolo de uma parcela da população que segue os ideais de lideranças do mesmo espectro político de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Não é necessário repetir aqui a tragédia econômica e humanitária a que o mundo se submeteu por fingir não ver o monstro que se agigantava.

            Na época, em minhas caminhadas pela cidade, observei com grande tristeza residências muito humildes ostentando a bandeira nacional,  o mesmo símbolo que muitos associavam abertamente a um grupo político cujo protagonismo é de uma família que, na minha avaliação, muito mal fez ao país e ainda faz. Que os ricos defendam seus injustos privilégios, eu posso entender, embora não concorde. Mas dá muita pena ver o que a "falta de luz", leia-se, a ausência de informação e consciência crítica, faz às almas menos afortunadas de nossa sociedade.

            Felizmente, a Copa do Mundo de Futebol trouxe uma reviravolta inesperada. A parcela progressista da sociedade ousou, novamente, vestir a camisa da seleção. Alguns, temendo ser confundidos com o grupo político da extrema direita, optaram pela camiseta azul. Outros, mais corajosos, resgataram a amarela.

            Em solo pátrio, já não é mais possível afirmar a ideologia de quem usa a "amarelinha". O uso da camisa passou a ser compartilhado por pessoas de ambos os lados do espectro político. Também não se pode mais deduzir a posição dos moradores pela bandeira na janela,  afinal, o Brasil, mesmo polarizado, vive a febre da Copa. Como diz a canção (devidamente atualizada): "somos 215 milhões em ação / para frente Brasil / salve a seleção".

            Ainda que essa ressignificação seja um avanço, não posso esquecer que, até ontem, a mesma camisa era ostentada por aqueles que defendem o oposto do que acredito. O símbolo mudou de mãos, mas a memória não se apaga tão rápido. E é justamente essa tensão entre o passado recente e o presente de união, que torna o fenômeno tão fascinante.

            Impossível não lembrar, aqui, do Santos Futebol Clube da era Pelé. Em 1969, no auge da Guerra de Biafra, na Nigéria, a equipe santista conseguiu algo que diplomatas não haviam alcançado: um cessar-fogo entre as partes conflitantes para que a população pudesse assistir ao futebol arte do time liderado pelo gênio. O futebol, ali, provou ser mais que entretenimento, foi trégua humanitária.

            Esse humilde escriba confessa que jogou a toalha no fatídico 7 a 1 da Alemanha, em 2014. Mas voltou a assistir à seleção desde o primeiro jogo desta Copa. Retomou, inclusive, o hábito de torcer para as seleções dos países colonizados, especialmente da América Latina e da África, em seus confrontos contra as potências colonizadoras europeias. Com enorme arroubo de alegria, comemorei os feitos de Cabo Verde e, especialmente, do Paraguai. Não sei como agirei em confrontos entre nossos hermanos latino-americanos e nossos irmãos africanos; penso que terei de deixar o coração decidir.

            Encerro dizendo que, no "País do Futebol", tal como o Santos de Pelé, a seleção e a Copa do Mundo recolocaram as cores nacionais em seu devido lugar: no coração e nas mentes de todos os brasileiros. A Copa mostrou que é possível partilhar um símbolo, mas isso não apaga as desigualdades estruturais. O futebol é trégua, não paz definitiva.

            O país continuará polarizado, e isso é natural, pois é a luta de classes movendo a história nacional. Lamento apenas que muitos de nossos irmãos trabalhadores, confusamente, tenham se postado em trincheiras que, do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora, considero equivocadas. Mas a amarelinha, agora, não é mais somente deles, é nossa. E isso, por si só, já é uma pequena vitória.

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