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sábado, 25 de julho de 2026

Nem tudo que parece é: o que Bridget Jones tem a ver com fake news?

 

     Tenho o hábito de assistir séries, mas neste recesso escolar resolvi mudar: nada de episódios que, em sua ordem cronológica, me lembram a rigidez com que nós, professores, ficamos presos ao relógio (horários, duração de aulas, sirenes). Optei por filmes aleatórios. Como assisto poucos, é fácil encontrar títulos inéditos para minha simples descontração.

        Foi assim que, num canal de streaming, deparei com O diário de Bridget Jones (2001). O título sempre me despertara curiosidade, mas, por alguma razão, nunca passara da intenção. Nada li a respeito. Em meu imaginário, tratava-se de uma repórter investigativa que desvendara uma grande rede de corrupção e, após ser assassinada, seu diário revelava os criminosos.

     Quem já assistiu ao filme sabe que não se trata de nada disso. Obviamente, não compartilhei minha suposição com ninguém, se o tivesse feito, alguém me corrigiria a tempo. Esse episódio banal me fez lembrar de uma frase de Karl Marx: "Se toda a essência coincidisse com a aparência, a ciência seria desnecessária." O filósofo quis dizer que, se as coisas fossem o que aparentam à primeira vista, não precisaríamos estudar, pesquisar ou investigar para descobrir seu real significado.

        Ocorreu-me, então, um caso parecido. Um companheiro de visão de mundo, alguém que compartilha comigo projeto de sociedade e país, confessou que não conseguia ler tudo o que eu postava nas redes, mas que assinava embaixo e repostava minhas publicações por me conhecer. Apontei-lhe o equívoco: ainda que eu leia tudo o que publico, já encontrei postagens de companheiros que contrariam a própria ideologia que sei que defendem. Tais contradições nascem, muitas vezes, de manchetes cujo conteúdo não corresponde ao título.

         Pensei, então: quanta gente deve republicar postagens cujo teor desconhece ou mesmo discorda? Quantos se limitam a comentar manchetes, sem se dar ao trabalho de ler o conteúdo integral?

            Essa não é uma reflexão nova neste espaço. Em outubro de 2010, publiquei "A ilusão de descortinar o mundo real", onde já alertava: "A visão de mundo das pessoas é muito limitada, poderíamos dizer míope (com o perdão dos que sofrem desse problema visual). Não conseguem ver muito além do que lhes é próximo. Ver a essência dos fenômenos não é tarefa fácil; exige estudo, observação, reflexão. E, como sabemos, nem todos são afeitos ao ato de pensar. Pensar é uma árdua tarefa, já afirmava Einstein, completando que talvez por isso tão poucos se dediquem a ela. Assim, difunde-se o discurso de que se deve aceitar o mundo como ele aparenta ser, afinal, as coisas sempre foram assim e não há o que mudar."

            Há dias, um internauta postou que dos professores "muito se deve exigir, pois as consequências de seu trabalho se propagam por décadas". Concordo. Mas complemento: que se dê aos mestres as condições necessárias para tal. Reitero também que muito se fala dos professores, mas pouco se discute o peso da imprensa que omite ou manipula informações. E o que dizer dos internautas que propagam fake news e desinformam parcelas inteiras da sociedade, minando a própria democracia, que precisa, como subsídio para sua ação, da informação verdadeira?

            O que quero dizer, no fundo, é que a hipocrisia reina em muitos discursos. E poucos, muito poucos, passariam pelo crivo de seu próprio pensar.

            Se Bridget Jones me ensinou algo, além de boas risadas, foi isto: julgar um filme (ou uma notícia, ou uma pessoa) pela capa é um risco que, num mundo saturado de informações, já não podemos mais nos dar ao luxo de correr.

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