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sábado, 29 de agosto de 2026

Turbulência não derruba avião

 

        Pensei muito se deveria escrever estas linhas e considerei que, muitas vezes, aquilo que aqui publico é uma externalização do que penso ou sinto. Confesso que não sabia que rumo dar a este artigo, pois sou um dos milhões de inscritos no canal Aviões e Músicas de Lito Sousa e todos estamos chocados com a notícia acerca do diagnóstico da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Aqui não escreverei sobre a grave enfermidade, pois acredito que seja do conhecimento do leitor dada a ampla divulgação do caso. Escrevo, sim, sobre o homem que nos ensinou, dia após dia, que turbulência não derruba avião e que essa frase, repetida por ele com tanta convicção, nunca fez tanto sentido como agora.

            Lito é um apaixonado por aviação e trabalhou décadas como mecânico de aeronaves em grandes companhias da aviação comercial. Sua paixão era tanta que resolveu criar um canal no YouTube como hobby, com a intenção de partilhar seu conhecimento e desmistificar falsas ideias sobre aquele que é o meio de transporte mais seguro do mundo. Uma de suas frases mais repetidas é a que dá título a este artigo e sobre a qual, inúmeras vezes, ele demonstrou sua veracidade com dados, histórias e aquela paciência de quem realmente ama o que faz.

            O caminho deste escriba até a inscrição no canal Aviões e Músicas passa, obviamente, por uma paixão por aviões que vem da infância. Lembro de ter pedido ao "bom velhinho" um avião de brinquedo como presente de Natal. Talvez ele não tenha entendido ou não encontrado, o fato é que recebi uma pá carregadeira. No entanto, um amigo ganhou um avião e, não estando contente, trocamos nossos brinquedos e ficamos ambos felizes. A bem da verdade, o avião era menos elaborado do que a pá carregadeira, mas era um avião. E, mesmo naquela troca simples, eu já aprendia, sem saber, o que Lito tanto repete: o importante não é o tamanho da turbulência, mas a certeza de que se está no caminho certo.

            Quando adolescente, comprava e lia as revistas Asas e Força Aérea a ponto de decorar dados técnicos de caças. Na época, meu sonho era ser piloto da Força Aérea Brasileira. Por falta de informações e de condições financeiras, não realizei meu sonho, mas segui acompanhando o mundo das asas fixas. Lembro que meu primeiro voo de avião ocorreu em Laranjeiras do Sul, num panorâmico sobre a cidade e o lago de Salto Santiago, no fim da década de 1970. O piloto e proprietário da aeronave era o Sr. Gilberto Telli, amigo de meu pai, que nos fez a gentileza do passeio. Não sei dizer se foi em um monomotor ou bimotor (ele tinha os dois modelos), mas lembro de como tudo parecia pequeno visto do alto. Naquele momento, eu já sentia o que Lito descreve com tanta propriedade: a aviação nos dá uma perspectiva nova do mundo.

            Laranjeiras do Sul tinha, em sua pista de pouso, quatro ou cinco aeronaves pertencentes a empresários e médicos, guardadas em hangar. Essa pista, hoje, sequer existe, virou lavoura. Lembro também do acidente e do local da queda do avião do saudoso Dr. Carmosino. Aliás, meu interesse é tamanho pela aviação que leio e assisto a tudo, mesmo sobre acidentes aéreos. Aos que são próximos, costumo afirmar: "Comida que leva queijo e filme ou livro sobre avião não tem erro, sempre é bom." É uma brincadeira, mas traduz bem o prazer que esse tema me traz.

            Foi nesse cenário de entusiasta que nunca perdeu o brilho nos olhos por uma aeronave que encontrei o canal de Lito Sousa. E, de imediato, reconheci nele não apenas um especialista, mas alguém que devolvia à aviação a sua poesia e a sua verdade. Aqui neste espaço, dentre outras obras, resenhamos o excelente livro "Onde morrem os aviões", de sua autoria. Digo que, apesar de meu grande interesse pela aviação, minha experiência como passageiro é pouca, tendo em vista que também amo a estrada e adoro dirigir. Mas, ainda assim, o conteúdo de Lito me faz viajar (não apenas entre cidades), mas no tempo, de volta àquelas tardes de infância em que um simples brinquedo trocado já era suficiente para me fazer acreditar que eu poderia voar.

            E todas essas memórias voltaram com uma força imensa quando soube do diagnóstico de Lito. Porque ele foi, sem saber, o piloto que me reconectou àquele garoto que colecionava revistas e sonhava com as asas da FAB. Ele nos deu muito mais do que informação técnica; ele nos deu acolhimento, entusiasmo e a certeza de que, mesmo diante do inesperado, há beleza em seguir em frente.

            Encerro dizendo que o adoecimento de Lito é uma turbulência que todos nós, amantes da aviação e fãs do excepcional trabalho do youtuber à frente do Canal Aviões e Músicas, estamos atravessando. Lito não é apenas excelente no que faz, ele é uma das melhores pessoas da internet brasileira. E, se há algo que ele nos ensinou com tanta insistência, é que turbulência não derruba avião. Ela sacode, assusta, incomoda, mas não derruba. Porque avião foi feito para voar, e pessoas como Lito foram feitas para inspirar.

            Força, Lito! A turbulência passa. O voo continua.

 

sábado, 22 de agosto de 2026

Democracia de baixa intensidade: O Congresso como freio e povo como espectador

 

Neste espaço, já afirmei em outras ocasiões que o Brasil vive uma democracia de baixa intensidade. Não por acaso, mas porque nenhuma democracia plena pode florescer em uma sociedade tão profundamente desigual. O Índice de Gini de 2025 nos coloca como a quarta nação mais desigual do planeta e esse dado não é fruto do acaso, nem de fatalidades históricas. É resultado de escolhas, de projetos de poder que sempre privilegiaram poucos em detrimento de muitos.

Desde o período colonial, o Brasil foi pensado e gerido por elites que raramente ousaram construir um projeto de nação soberana, inclusiva e desenvolvida. Quando refletimos sobre os rumos do país, é comum atribuirmos a culpa a este ou àquele presidente, a este ou àquele partido. Mas essa é uma leitura curta, que funciona como uma cortina de fumaça, pois esconde o essencial.

O sistema político brasileiro é o presidencialismo de coalizão. Para governar, o Executivo precisa, obrigatoriamente, costurar maioria no Congresso Nacional. E, no Brasil, essas casas legislativas sempre foram, majoritariamente, ocupadas por forças conservadoras. Nas raras ocasiões em que presidentes com agendas progressistas chegaram ao Planalto, encontraram pela frente bancadas parlamentares que impuseram um preço alto pela governabilidade. Os resultados foram governos do possível, não do necessário, administrações que fizeram o que podiam, mas não o que seria preciso para reverter o quadro estrutural de exclusão.

Basta olhar as urnas. Mesmo quando o eleitorado brasileiro elege para o Planalto um nome com discurso de mudança, ao mesmo tempo reconduz ao Congresso uma bancada profundamente alinhada ao conservadorismo, a chamada bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), que representa, respectivamente, o latifúndio, o armamentismo e a pauta moral conservadora. Esse bloco histórico se organiza para barrar reformas socioeconômicas de caráter popular, freando qualquer tentativa de redistribuição de renda, terra e poder.

O Brasil só avançará de verdade na redução da desigualdade quando o Congresso Nacional refletir as várias cores, rostos e vozes do povo trabalhador. Isso, porém, é um desafio imenso. O trabalhador brasileiro vive imerso em urgências (a carestia, o desemprego, a luta diária pela sobrevivência). Além disso, o subdesenvolvimento histórico limita o acesso a uma educação crítica e emancipadora, o que torna mais difícil a percepção de que o parlamento é tão ou mais decisivo que a presidência para seu futuro.

Nas democracias de baixa intensidade e sob o peso da ditadura do neoliberalismo econômico, o voto nos dá a ilusão de que decidimos nossos rumos. Na verdade, o capital financeiro, o agronegócio, a indústria de armas e os grandes meios de comunicação detêm o controle das eleições: elegem a imensa maioria da bancada parlamentar e, sem o Congresso, o Planalto fica acorrentado. Saber disso não é derrotismo, é o primeiro passo para mudar.

O Congresso Nacional, tal como está conformado, é uma fábrica de leis favoráveis aos mais aquinhoados. Acelera reformas neoliberais quando o Executivo está alinhado a essa agenda, e funciona como um potente freio de arrumação quando um governo progressista tenta apontar em direção contrária. Essa dinâmica não é nova, mas nunca foi tão explícita.

Por isso, como povo trabalhador, precisamos aprender a olhar com a mesma atenção que dedicamos ao Planalto para o Parlamento. É lá que se decide se teremos um governo do possível ou um governo do necessário. É lá que a democracia ganha ou perde densidade.

E, para que a democracia não seja apenas um ritual de legitimação da desigualdade, é preciso que o povo ocupe não apenas as ruas, mas também as cadeiras. Que o Congresso, enfim, seja pintado de povo.

 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

A escola como depósito? A parceria que muitos pais insistem em ignorar

A apresentadora Sabina Simonato se envolveu, recentemente, em uma polêmica de dimensão nacional ao criticar a liberação antecipada dos estudantes durante os jogos da seleção na Copa do Mundo de 2026. Seu argumento foi pragmático: a saída antecipada traria problemas logísticos para os pais que estavam trabalhando e haviam confiado seus filhos à escola naquele período. Segundo ela, os responsáveis precisariam buscar as crianças e encontrar quem as acolhesse até o fim do expediente.

Diante da repercussão negativa, Sabina pediu desculpas, afirmando que não quis dar a entender que escolas são depósitos de estudantes. O estrago, porém, já estava feito. E suas palavras não convenceram.

O leitor pode julgar que esse tema é anacrônico, afinal, o "hype" da Copa já passou. No entanto, professor que sou, convivo com esse debate diariamente no corredor e na sala de professores. E posso afirmar: a visão utilitarista da escola é discutida há muito tempo entre nós, educadores.

Lembro-me bem de que, durante a pandemia de Covid 19, as autoridades decretaram o isolamento social e as aulas passaram a ocorrer de forma remota, por meio de materiais impressos e plataformas digitais. Não houve, naquele período, aulas presenciais. Especialistas da área da saúde alertavam, insistentemente, sobre a necessidade do fechamento das escolas para reduzir a transmissão do vírus, já que a sala de aula é um ambiente insalubre por natureza (aglomeração, espaço reduzido e ventilação precária).

Ainda assim, houve forte reclamação de pais nos meios de comunicação. Muitos afirmavam que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos, fazendo pouco caso dos riscos de transmissão cruzada do vírus entre estudantes e familiares, inclusive aqueles com comorbidades. O que mais doía, na época, era perceber que, para uma parcela dos responsáveis, a escola importava menos como espaço de formação e mais como guarda de crianças e adolescentes.

É preciso, contudo, evitar a generalização. Estas linhas retratam uma parcela, jamais a totalidade dos pais de estudantes. Muitos foram os responsáveis que retiraram seus filhos antecipadamente ao cancelamento das aulas presenciais e que mantiveram o uso de máscaras quando muitos já as haviam abandonado. Esses merecem reconhecimento.

A insatisfação dos mestres, é verdade, dirige-se àqueles pais que encerram o acompanhamento da evolução da aprendizagem de seus filhos com o ato da matrícula. Não comparecem às reuniões de pais e mestres, nem mesmo para retirar os boletins. Muitos só aparecem na escola no final do ano, quando o filho está em risco de reprovação. Há os que se recusam a assinar a prova corrigida, como se a nota dissesse respeito apenas à criança, e não à construção conjunta de seu percurso.

Já ouvimos, na escola, sincericídios de algumas mães (minoria, é verdade) que se declararam contra as férias, dando a entender que preferem os filhos na escola do que em casa. Esse pensamento, externado por poucas, talvez reflita o entendimento de um número pequeno, mas significativo, de pais.

Um caso emblemático ilustra bem esse descompasso. A cantora Luiza Possi postou em suas redes sociais que a escola de seu filho a chamou para conversar sobre problemas de comportamento da criança. Sua resposta foi: “A escola que se vire, porque eu tenho os mesmos problemas em casa e não reclamo com a escola". Esse tipo de postura, infelizmente, é comum. Muitos pais se irritam com a escola quando convocados para tratar de comportamentos inadequados ou de dificuldades de aprendizagem de seus filhos. Muitos são os pais que não se comprometem com a aprendizagem cognitiva e social dos filhos: não orientam a agenda, não verificam os cadernos, não determinam horários de estudo em casa e não frequentam as reuniões.

Chegamos, muitos mestres, a uma conclusão desconcertante: há pais que não sabem nem mesmo a série ou o ano que seus filhos estudam. O leitor pode argumentar que isso se deve ao baixo nível de escolaridade desses responsáveis. Mas a experiência de sala de aula nos mostra o contrário: ao longo de nossa carreira, observamos inúmeros pais com poucos anos de estudo que são extremamente exigentes e zelosos com a aprendizagem dos filhos. Este escriba, por exemplo, teve pais com pouca instrução formal, mas foi rigorosamente cobrado quanto à dedicação aos estudos.

É por tudo isso que a fala de Sabina Simonato incomodou tanto. Ela reduziu a escola a um serviço de apoio à rotina dos pais, quando ela é, antes de tudo, um espaço de formação, descoberta e convívio. Ao tratar a saída antecipada como um problema logístico, ela revelou, mesmo sem intenção, uma visão distorcida que muitos pais compartilham: a de que a escola existe para resolver uma ausência, e não para construir uma presença.

Encerro com um apelo: os professores desejam, acima de tudo, uma parceria com os pais. Estudos da área educacional já comprovaram que os estudantes cujos pais são participantes ativos e assíduos na escola são os que alcançam melhores resultados não apenas em notas, mas em comportamento, autonomia e autoestima. A escola é importante demais para a transformação da vida de seu filho para ser relegada a um papel secundário.

Não queremos que os pais resolvam os problemas sozinhos. Queremos que caminhem ao nosso lado. Porque educar é um ato compartilhado, e sem esse elo, a corrente se rompe.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Marco Rubio, um mitômano incontrolável

 


     Lançado pela Editora Expressão Popular, Marco Rubio, um mitômano incontrolável chega ao leitor brasileiro em meio ao debate sobre o papel dos Estados Unidos na desestabilização de democracias latino-americanas. O jornalista cubano Hedelberto López Blanch propõe-se a dissecar a trajetória e o ideário de um dos nomes mais influentes do governo Trump: o secretário de Estado Marco Rubio.

        Com 144 páginas, a obra alterna biografia, escândalos de corrupção, análise de lobby e geopolítica. O tom é panfletário, mas lastreado em recortes de imprensa, documentos públicos e declarações do próprio Rubio.

          Filho de cubanos que imigraram durante o governo de Fulgêncio Batista (aliado histórico de Washington), Rubio construiu uma narrativa pessoal marcada por contradições. Em campanhas, afirmou que os pais haviam deixado Cuba por causa do regime castrista, versão desmentida por registros históricos. Formado em Direito graças a uma bolsa de atleta, disputou as primárias republicanas de 2016 contra Jeb Bush e Donald Trump. Derrotado, tornou-se aliado de Trump e foi nomeado secretário de Estado no atual mandato.

            Um dos eixos centrais do livro é a relação entre políticos cubano-americanos e o crime organizado na Flórida. Blanch documenta casos de corrupção e aponta que Rubio teria sido alvo de denúncias por tráfico de influência e enriquecimento ilícito, embora sem condenações formais. O autor também destaca a dependência de Rubio em relação ao capital financeiro e ao lobby sionista, principais doadores de suas campanhas. No plano doméstico, defende o livre porte de armas, opõe-se à anistia para imigrantes e rejeita o aumento de impostos sobre grandes fortunas.

            No campo internacional, Rubio articula pressão máxima contra Cuba, Nicarágua e Venezuela, além de propor aliança energética com Canadá, México, Colômbia e Brasil para deslocar o protagonismo do Oriente Médio e da Rússia. O livro sustenta que ele atua como mentor intelectual de grande parte das iniciativas desestabilizadoras do governo Trump, comparando sua influência à de Joseph Goebbels no Terceiro Reich pela habilidade em manipular narrativas e justificar violações do Direito Internacional.

            Marco Rubio, um mitômano incontrolável não é uma biografia neutra, tampouco um ensaio acadêmico isento. Trata-se de um livro escrito para municiar militantes como explicita a própria orelha. Do ponto de vista jornalístico, a obra peca pela ausência de fontes primárias inéditas e pela escassez de entrevistas, baseando-se em compilações de notícias já publicadas. Sua virtude é organizar informações dispersas em uma narrativa coerente e acessível.

            O livro cumpre o que promete: oferecer um retrato crítico e documentado de Rubio, expondo contradições entre discurso e prática. Recomenda-se a leitura a militantes, jornalistas e pesquisadores,  desde que cientes do viés assumido. Como ferramenta de debate, é valiosa; como fonte única, requer contraponto.


Sugestão de boa leitura:

Título:  Marco Rubio, um mitômano incontrolável.

Autor:  Hedelberto López Blanch.

Editora: Expressão Popular, 2026, 144 p.