Desde o período colonial, o Brasil foi pensado e gerido por elites que raramente ousaram construir um projeto de nação soberana, inclusiva e desenvolvida. Quando refletimos sobre os rumos do país, é comum atribuirmos a culpa a este ou àquele presidente, a este ou àquele partido. Mas essa é uma leitura curta, que funciona como uma cortina de fumaça, pois esconde o essencial.
O sistema político brasileiro é o presidencialismo de
coalizão. Para governar, o Executivo precisa, obrigatoriamente, costurar
maioria no Congresso Nacional. E, no Brasil, essas casas legislativas sempre
foram, majoritariamente, ocupadas por forças conservadoras. Nas raras ocasiões
em que presidentes com agendas progressistas chegaram ao Planalto, encontraram
pela frente bancadas parlamentares que impuseram um preço alto pela
governabilidade. Os resultados foram governos do possível, não do necessário,
administrações que fizeram o que podiam, mas não o que seria preciso para
reverter o quadro estrutural de exclusão.
Basta olhar as urnas. Mesmo quando o eleitorado brasileiro elege
para o Planalto um nome com discurso de mudança, ao mesmo tempo reconduz ao
Congresso uma bancada profundamente alinhada ao conservadorismo, a chamada
bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), que representa, respectivamente, o
latifúndio, o armamentismo e a pauta moral conservadora. Esse bloco histórico
se organiza para barrar reformas socioeconômicas de caráter popular, freando
qualquer tentativa de redistribuição de renda, terra e poder.
O Brasil só avançará de verdade na redução da desigualdade
quando o Congresso Nacional refletir as várias cores, rostos e vozes do povo
trabalhador. Isso, porém, é um desafio imenso. O trabalhador brasileiro vive
imerso em urgências (a carestia, o desemprego, a luta diária pela sobrevivência).
Além disso, o subdesenvolvimento histórico limita o acesso a uma educação
crítica e emancipadora, o que torna mais difícil a percepção de que o
parlamento é tão ou mais decisivo que a presidência para seu futuro.
Nas democracias de baixa intensidade e sob o peso da
ditadura do neoliberalismo econômico, o voto nos dá a ilusão de que decidimos
nossos rumos. Na verdade, o capital financeiro, o agronegócio, a indústria de
armas e os grandes meios de comunicação detêm o controle das eleições: elegem a
imensa maioria da bancada parlamentar e, sem o Congresso, o Planalto fica
acorrentado. Saber disso não é derrotismo, é o primeiro passo para mudar.
O Congresso Nacional, tal como está conformado, é uma
fábrica de leis favoráveis aos mais aquinhoados. Acelera reformas neoliberais
quando o Executivo está alinhado a essa agenda, e funciona como um potente
freio de arrumação quando um governo progressista tenta apontar em direção contrária.
Essa dinâmica não é nova, mas nunca foi tão explícita.
Por isso, como povo trabalhador, precisamos aprender a olhar
com a mesma atenção que dedicamos ao Planalto para o Parlamento. É lá que se
decide se teremos um governo do possível ou um governo do necessário. É lá que
a democracia ganha ou perde densidade.
E, para que a democracia não seja apenas um ritual de
legitimação da desigualdade, é preciso que o povo ocupe não apenas as ruas, mas
também as cadeiras. Que o Congresso, enfim, seja pintado de povo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário