Powered By Blogger

domingo, 16 de agosto de 2026

A escola como depósito? A parceria que muitos pais insistem em ignorar

A apresentadora Sabina Simonato se envolveu, recentemente, em uma polêmica de dimensão nacional ao criticar a liberação antecipada dos estudantes durante os jogos da seleção na Copa do Mundo de 2026. Seu argumento foi pragmático: a saída antecipada traria problemas logísticos para os pais que estavam trabalhando e haviam confiado seus filhos à escola naquele período. Segundo ela, os responsáveis precisariam buscar as crianças e encontrar quem as acolhesse até o fim do expediente.

Diante da repercussão negativa, Sabina pediu desculpas, afirmando que não quis dar a entender que escolas são depósitos de estudantes. O estrago, porém, já estava feito. E suas palavras não convenceram.

O leitor pode julgar que esse tema é anacrônico, afinal, o "hype" da Copa já passou. No entanto, professor que sou, convivo com esse debate diariamente no corredor e na sala de professores. E posso afirmar: a visão utilitarista da escola é discutida há muito tempo entre nós, educadores.

Lembro-me bem de que, durante a pandemia de Covid 19, as autoridades decretaram o isolamento social e as aulas passaram a ocorrer de forma remota, por meio de materiais impressos e plataformas digitais. Não houve, naquele período, aulas presenciais. Especialistas da área da saúde alertavam, insistentemente, sobre a necessidade do fechamento das escolas para reduzir a transmissão do vírus, já que a sala de aula é um ambiente insalubre por natureza (aglomeração, espaço reduzido e ventilação precária).

Ainda assim, houve forte reclamação de pais nos meios de comunicação. Muitos afirmavam que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar os filhos, fazendo pouco caso dos riscos de transmissão cruzada do vírus entre estudantes e familiares, inclusive aqueles com comorbidades. O que mais doía, na época, era perceber que, para uma parcela dos responsáveis, a escola importava menos como espaço de formação e mais como guarda de crianças e adolescentes.

É preciso, contudo, evitar a generalização. Estas linhas retratam uma parcela, jamais a totalidade dos pais de estudantes. Muitos foram os responsáveis que retiraram seus filhos antecipadamente ao cancelamento das aulas presenciais e que mantiveram o uso de máscaras quando muitos já as haviam abandonado. Esses merecem reconhecimento.

A insatisfação dos mestres, é verdade, dirige-se àqueles pais que encerram o acompanhamento da evolução da aprendizagem de seus filhos com o ato da matrícula. Não comparecem às reuniões de pais e mestres, nem mesmo para retirar os boletins. Muitos só aparecem na escola no final do ano, quando o filho está em risco de reprovação. Há os que se recusam a assinar a prova corrigida, como se a nota dissesse respeito apenas à criança, e não à construção conjunta de seu percurso.

Já ouvimos, na escola, sincericídios de algumas mães (minoria, é verdade) que se declararam contra as férias, dando a entender que preferem os filhos na escola do que em casa. Esse pensamento, externado por poucas, talvez reflita o entendimento de um número pequeno, mas significativo, de pais.

Um caso emblemático ilustra bem esse descompasso. A cantora Luiza Possi postou em suas redes sociais que a escola de seu filho a chamou para conversar sobre problemas de comportamento da criança. Sua resposta foi: “A escola que se vire, porque eu tenho os mesmos problemas em casa e não reclamo com a escola". Esse tipo de postura, infelizmente, é comum. Muitos pais se irritam com a escola quando convocados para tratar de comportamentos inadequados ou de dificuldades de aprendizagem de seus filhos. Muitos são os pais que não se comprometem com a aprendizagem cognitiva e social dos filhos: não orientam a agenda, não verificam os cadernos, não determinam horários de estudo em casa e não frequentam as reuniões.

Chegamos, muitos mestres, a uma conclusão desconcertante: há pais que não sabem nem mesmo a série ou o ano que seus filhos estudam. O leitor pode argumentar que isso se deve ao baixo nível de escolaridade desses responsáveis. Mas a experiência de sala de aula nos mostra o contrário: ao longo de nossa carreira, observamos inúmeros pais com poucos anos de estudo que são extremamente exigentes e zelosos com a aprendizagem dos filhos. Este escriba, por exemplo, teve pais com pouca instrução formal, mas foi rigorosamente cobrado quanto à dedicação aos estudos.

É por tudo isso que a fala de Sabina Simonato incomodou tanto. Ela reduziu a escola a um serviço de apoio à rotina dos pais, quando ela é, antes de tudo, um espaço de formação, descoberta e convívio. Ao tratar a saída antecipada como um problema logístico, ela revelou, mesmo sem intenção, uma visão distorcida que muitos pais compartilham: a de que a escola existe para resolver uma ausência, e não para construir uma presença.

Encerro com um apelo: os professores desejam, acima de tudo, uma parceria com os pais. Estudos da área educacional já comprovaram que os estudantes cujos pais são participantes ativos e assíduos na escola são os que alcançam melhores resultados não apenas em notas, mas em comportamento, autonomia e autoestima. A escola é importante demais para a transformação da vida de seu filho para ser relegada a um papel secundário.

Não queremos que os pais resolvam os problemas sozinhos. Queremos que caminhem ao nosso lado. Porque educar é um ato compartilhado, e sem esse elo, a corrente se rompe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário