Pensei muito se deveria
escrever estas linhas e considerei que, muitas vezes, aquilo que aqui publico é
uma externalização do que penso ou sinto. Confesso que não sabia que rumo dar a
este artigo, pois sou um dos milhões de inscritos no canal Aviões e Músicas de
Lito Sousa e todos estamos chocados com a notícia acerca do diagnóstico da
Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Aqui não escreverei sobre a grave
enfermidade, pois acredito que seja do conhecimento do leitor dada a ampla
divulgação do caso. Escrevo, sim, sobre o homem que nos ensinou, dia após dia,
que turbulência não derruba avião e que essa frase, repetida por ele
com tanta convicção, nunca fez tanto sentido como agora.
Lito é um apaixonado por aviação e trabalhou décadas como
mecânico de aeronaves em grandes companhias da aviação comercial. Sua paixão
era tanta que resolveu criar um canal no YouTube como hobby, com a intenção de
partilhar seu conhecimento e desmistificar falsas ideias sobre aquele que é o
meio de transporte mais seguro do mundo. Uma de suas frases mais repetidas é a
que dá título a este artigo e sobre a qual, inúmeras vezes, ele demonstrou sua
veracidade com dados, histórias e aquela paciência de quem realmente ama o que
faz.
O caminho deste escriba até a inscrição no canal Aviões e
Músicas passa, obviamente, por uma paixão por aviões que vem da infância.
Lembro de ter pedido ao "bom velhinho" um avião de brinquedo como
presente de Natal. Talvez ele não tenha entendido ou não encontrado, o fato é
que recebi uma pá carregadeira. No entanto, um amigo ganhou um avião e, não
estando contente, trocamos nossos brinquedos e ficamos ambos felizes. A bem da
verdade, o avião era menos elaborado do que a pá carregadeira, mas era um
avião. E, mesmo naquela troca simples, eu já aprendia, sem saber, o que Lito
tanto repete: o importante não é o tamanho da turbulência, mas a certeza de que
se está no caminho certo.
Quando adolescente, comprava e lia as revistas Asas e Força
Aérea a ponto de decorar dados técnicos de caças. Na época, meu sonho era
ser piloto da Força Aérea Brasileira. Por falta de informações e de condições
financeiras, não realizei meu sonho, mas segui acompanhando o mundo das asas fixas.
Lembro que meu primeiro voo de avião ocorreu em Laranjeiras do Sul, num
panorâmico sobre a cidade e o lago de Salto Santiago, no fim da década de 1970.
O piloto e proprietário da aeronave era o Sr. Gilberto Telli, amigo de meu pai,
que nos fez a gentileza do passeio. Não sei dizer se foi em um monomotor ou
bimotor (ele tinha os dois modelos), mas lembro de como tudo parecia pequeno
visto do alto. Naquele momento, eu já sentia o que Lito descreve com tanta
propriedade: a aviação nos dá uma perspectiva nova do mundo.
Laranjeiras do Sul tinha, em sua pista de pouso, quatro
ou cinco aeronaves pertencentes a empresários e médicos, guardadas em hangar.
Essa pista, hoje, sequer existe, virou lavoura. Lembro também do acidente e do
local da queda do avião do saudoso Dr. Carmosino. Aliás, meu interesse é
tamanho pela aviação que leio e assisto a tudo, mesmo sobre acidentes aéreos.
Aos que são próximos, costumo afirmar: "Comida que leva queijo e filme ou
livro sobre avião não tem erro, sempre é bom." É uma brincadeira, mas traduz
bem o prazer que esse tema me traz.
Foi nesse cenário de entusiasta que nunca perdeu o brilho
nos olhos por uma aeronave que encontrei o canal de Lito Sousa. E, de imediato,
reconheci nele não apenas um especialista, mas alguém que devolvia à aviação a
sua poesia e a sua verdade. Aqui neste espaço, dentre outras obras, resenhamos
o excelente livro "Onde morrem os aviões", de sua autoria. Digo
que, apesar de meu grande interesse pela aviação, minha experiência como
passageiro é pouca, tendo em vista que também amo a estrada e adoro dirigir.
Mas, ainda assim, o conteúdo de Lito me faz viajar (não apenas entre cidades),
mas no tempo, de volta àquelas tardes de infância em que um simples brinquedo
trocado já era suficiente para me fazer acreditar que eu poderia voar.
E todas essas memórias voltaram com uma força imensa
quando soube do diagnóstico de Lito. Porque ele foi, sem saber, o piloto que me
reconectou àquele garoto que colecionava revistas e sonhava com as asas da FAB.
Ele nos deu muito mais do que informação técnica; ele nos deu acolhimento,
entusiasmo e a certeza de que, mesmo diante do inesperado, há beleza em seguir
em frente.
Encerro dizendo que o adoecimento de Lito é uma
turbulência que todos nós, amantes da aviação e fãs do excepcional trabalho do
youtuber à frente do Canal Aviões e Músicas, estamos atravessando. Lito não é
apenas excelente no que faz, ele é uma das melhores pessoas da internet
brasileira. E, se há algo que ele nos ensinou com tanta insistência, é
que turbulência não derruba avião. Ela sacode, assusta, incomoda, mas não
derruba. Porque avião foi feito para voar, e pessoas como Lito foram feitas
para inspirar.
Força, Lito! A turbulência passa. O voo continua.

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