Na
semana passada, estudantes colocaram cacos de vidro no copo d'água de uma
professora do Ensino Fundamental. Esse caso, longe de ser isolado, expõe uma
verdade que a sociedade brasileira prefere ignorar. O Brasil trata seus
professores como inimigos. A Educação há muito se tornou uma tragédia nacional.
É conhecida mundialmente a nossa capacidade de rir ante as tragédias. Rimos da
própria desgraça. Há quem chame isso de resiliência; eu chamo de anestesia.
É sabido que nossa indústria de
memes é das mais criativas do mundo. O segundo povo mais ativo nas redes
sociais transforma crítica social em entretenimento. Mas será que rir de tudo é
benéfico? Especialistas alertam: essa postura pode gerar passividade. E
passividade, num país onde "o público é maior que o povo, pois povo luta
por seus direitos, enquanto o público apenas assiste" como alertou Lima
Barreto, é um luxo perigoso.
Confesso que vivo entre dúvidas.
Guimarães Rosa dizia que "não sabia de quase nada, mas desconfiava de
muita coisa". É exatamente como me sinto. Na universidade, minha
professora de filosofia nos ensinou: "venho para encher suas cabecinhas de
dúvidas, não de respostas". Talvez por isso, até minhas certezas eu
questiono.
O caso do copo com vidro não é
exceção. Em todo o país, professores sofrem agressões verbais, bullying,
ciberbullying e, em situações extremas, agressões físicas cometidas por
adolescentes e, às vezes, por seus pais. Não à toa, o Brasil ficou em último
lugar no Global Teacher Status Index, ranking que mede a valorização dos
docentes em 35 países.
Fala-se muito em "apagão de
professores". As licenciaturas encolhem; disciplinas inteiras ficam sem
reposição. E o que ouvimos da chamada boa sociedade? "Quem não está contente,
que saia." Pois bem: se todos os descontentes saírem, nossos filhos e
netos não terão um único professor.
Nós, mestres, amamos ensinar. O que
odiamos é ser vilanizados, humilhados e reduzidos a bodes expiatórios. Odiamos
salas superlotadas, montanhas de relatórios, falta de hora-atividade, metas
impossíveis, assédio moral, salários defasados e a negação de direitos. E,
pior: governantes que tratam educação como despesa, famílias que nos colocam
como únicos culpados pelos fracassos dos filhos e uma sociedade que aplaude
quando nos atacam.
Já li dezenas de textos sobre nossa
importância. Mas palavras não enchem estômago nem curam burnout, a doença que
atinge mais de 70% dos professores. Somos cobrados como se fôssemos a Suécia,
mas tratados como se estivéssemos no Haiti. E, ainda assim, pedem resultados de
primeiro mundo.
Na última semana, fui a Guarapuava
assistir ao humorista Diogo Almeida, especialista em fazer humor das tragédias
da educação. Plateia lotada, maioria de professores na meia-idade, o perfil atual
da classe que envelhece e está às portas da aposentadoria, agravando o apagão.
Ri muito. Precisava.
Ri da própria tragédia, porque a
luta cansa e a alienação alivia. Mas, enquanto ria, percebi: minha gargalhada
era o eco de uma classe que não tem mais voz. Estamos medicados, sobrevivendo e
fazendo piada, não porque somos fortes, mas porque o desespero, sem saída, vira
espetáculo. O problema é que, no Brasil, até a tragédia vira produto. E o professor,
de protagonista, virou plateia.

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