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domingo, 12 de julho de 2026

Rir da própria tragédia: o professor e o espetáculo do descaso

 

            Na semana passada, estudantes colocaram cacos de vidro no copo d'água de uma professora do Ensino Fundamental. Esse caso, longe de ser isolado, expõe uma verdade que a sociedade brasileira prefere ignorar. O Brasil trata seus professores como inimigos. A Educação há muito se tornou uma tragédia nacional. É conhecida mundialmente a nossa capacidade de rir ante as tragédias. Rimos da própria desgraça. Há quem chame isso de resiliência; eu chamo de anestesia.

            É sabido que nossa indústria de memes é das mais criativas do mundo. O segundo povo mais ativo nas redes sociais transforma crítica social em entretenimento. Mas será que rir de tudo é benéfico? Especialistas alertam: essa postura pode gerar passividade. E passividade, num país onde "o público é maior que o povo, pois povo luta por seus direitos, enquanto o público apenas assiste" como alertou Lima Barreto, é um luxo perigoso.

            Confesso que vivo entre dúvidas. Guimarães Rosa dizia que "não sabia de quase nada, mas desconfiava de muita coisa". É exatamente como me sinto. Na universidade, minha professora de filosofia nos ensinou: "venho para encher suas cabecinhas de dúvidas, não de respostas". Talvez por isso, até minhas certezas eu questiono.

            O caso do copo com vidro não é exceção. Em todo o país, professores sofrem agressões verbais, bullying, ciberbullying e, em situações extremas, agressões físicas cometidas por adolescentes e, às vezes, por seus pais. Não à toa, o Brasil ficou em último lugar no Global Teacher Status Index, ranking que mede a valorização dos docentes em 35 países.

            Fala-se muito em "apagão de professores". As licenciaturas encolhem; disciplinas inteiras ficam sem reposição. E o que ouvimos da chamada boa sociedade? "Quem não está contente, que saia." Pois bem: se todos os descontentes saírem, nossos filhos e netos não terão um único professor.

            Nós, mestres, amamos ensinar. O que odiamos é ser vilanizados, humilhados e reduzidos a bodes expiatórios. Odiamos salas superlotadas, montanhas de relatórios, falta de hora-atividade, metas impossíveis, assédio moral, salários defasados e a negação de direitos. E, pior: governantes que tratam educação como despesa, famílias que nos colocam como únicos culpados pelos fracassos dos filhos e uma sociedade que aplaude quando nos atacam.

            Já li dezenas de textos sobre nossa importância. Mas palavras não enchem estômago nem curam burnout, a doença que atinge mais de 70% dos professores. Somos cobrados como se fôssemos a Suécia, mas tratados como se estivéssemos no Haiti. E, ainda assim, pedem resultados de primeiro mundo.

            Na última semana, fui a Guarapuava assistir ao humorista Diogo Almeida, especialista em fazer humor das tragédias da educação. Plateia lotada, maioria de professores na meia-idade, o perfil atual da classe que envelhece e está às portas da aposentadoria, agravando o apagão. Ri muito. Precisava.

            Ri da própria tragédia, porque a luta cansa e a alienação alivia. Mas, enquanto ria, percebi: minha gargalhada era o eco de uma classe que não tem mais voz. Estamos medicados, sobrevivendo e fazendo piada, não porque somos fortes, mas porque o desespero, sem saída, vira espetáculo. O problema é que, no Brasil, até a tragédia vira produto. E o professor, de protagonista, virou plateia.

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