"Os deuses têm sede", do francês Anatole France (Prêmio Nobel de Literatura em 1921), é muito mais do que um romance histórico ambientado no Período do Terror da Revolução Francesa. Publicado originalmente em 1912, a obra é um mergulho perturbador na alma humana quando ela se deixa cegar por ideais absolutos e pela violência institucionalizada.
Anatole France (pseudônimo de Jacques Anatole François Thibault -1844-1924) foi um escritor marcado pelo contato precoce com os livros, graças ao pai livreiro. Trabalhou como bibliotecário do Senado francês e dedicou-se à poesia e aos contos antes de se consagrar como romancista. Sua escrita combina elegância clássica, ironia sutil e uma profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, traços que lhe renderam o Nobel de Literatura em 1921.
Em "Os deuses têm sede", France transporta o leitor para os anos de 1793-1794, quando os jacobinos, liderados por Robespierre e Marat, governavam a França com mão de ferro. Foi o período em que o sufrágio universal masculino, a abolição da escravidão nas colônias e o tabelamento de preços conviveram com a Lei dos Suspeitos que permitia prender e julgar sumariamente qualquer cidadão acusado de traição, independentemente de sua posição social. A promessa de liberdade, igualdade e fraternidade rapidamente se degenerou em um banho de sangue.
No centro da história está Évariste Gamelin, um pintor iniciante e pobre, que vive com a mãe viúva em um quarto alugado. Para sobreviver, vende quadros contestados pelo pai de sua amada, que afirma que apenas aqueles que retratam mulheres têm venda garantida. Gamelin é secretamente apaixonado por Élodie, filha de um rico comerciante que jamais aceitaria um genro de condição tão humilde. O namoro, portanto, é às escondidas.
Mas Gamelin não é apenas um artista frustrado, ele é um revolucionário entusiasta, devoto de Robespierre e Marat, acreditando piamente que, uma vez extirpados os "inimigos da pátria", a França enfim conhecerá a era dourada da justiça e da abundância. Seu fervor não passa despercebido, e ele é convidado a integrar o Tribunal Revolucionário como juiz. A partir daí, sua vida muda, ganha status social, renda digna e um poder que jamais imaginara ter.
O drama de Gamelin, no entanto, reside na progressiva desumanização que o poder lhe impõe. O Tribunal Revolucionário, movido mais por convicções do que por provas, envia milhares de pessoas à guilhotina. Amigos, vizinhos e até mesmo Élodie começam a não reconhecer o homem que admiravam. Gamelin, porém, justifica cada sentença em nome do dever patriótico e da segurança da nação. Sua fé inabalável começa a ser testada apenas quando pessoas próximas a ele passam a ocupar o banco dos réus.
O título, longe de qualquer conotação religiosa ou mitológica, é uma metáfora cruel e terrena, os deuses a que France se refere são os próprios homens quando se arvoram em juízes absolutos do bem e do mal. E a sede que os consome não é por água mas sede de sangue, de vingança, de purificação política. Ao longo da obra, fica claro que quanto mais se tenta eliminar o "inimigo", mais se cria uma máquina de moer gente, que acaba devorando até mesmo seus criadores. O próprio Robespierre, como sabemos, terminou sob a lâmina da guilhotina.
"Os deuses têm sede" não é apenas uma aula de História. É um espelho incômodo para qualquer época em que a polarização política, o medo e a desconfiança predominam. Anatole France, com sua prosa irônica e ao mesmo tempo compassiva, não toma partido nem condena facilmente seus personagens, ele os mostra em toda sua complexidade, como seres movidos por esperança, medo, ambição e cegueira.
O romance nos convida a perguntar: até onde podemos ir em busca de um ideal? Quando a justiça se torna tirania? E como reconhecer o momento exato em que o algoz se torna vítima?
Com um desfecho que não revelarei (para não dar spoiler), France entrega uma obra que incomoda, emociona e provoca reflexões duradouras. Recomendo vivamente a leitores que apreciam ficção histórica com densidade filosófica, e também a quem deseja compreender, pelas entrelinhas da literatura, as fragilidades da condição humana.
Sugestão de boa leitura:
Título: Os deuses têm sede.
Autor: Anatole France.
Editora: Boitempo Editorial, 2007, 256 p.

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