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sábado, 26 de setembro de 2026

Estados Unidos da América: o agente do caos e a soberania brasileira

 

                   Desde sua independência, em 4 de julho de 1776, os Estados Unidos da América conheceram períodos de paz, isto é, sem intervir militarmente ou interferir politicamente em outros países que, somados, não chegam a duas décadas. Isso significa que o país esteve envolvido em conflitos armados, ocupações ou intervenções externas em mais de 90% de sua história, conforme levantamentos que cruzam dados do Congressional Research Service e de historiadores como Lindsey O'Rourke.

            Sob a alegação da Doutrina do Destino Manifesto, conduziram-se as Guerras Indígenas (séculos XVIII e XIX) contra os povos nativos, para desalojá-los de suas terras e expropriá-las; as guerras contra o México em seu processo de expansão territorial, arrancando do país latino uma imensa área que vai do Texas à Califórnia; e as Guerras da Banana (início do século XX), resultantes de intervenções e ocupações ininterruptas na América Central.

            A participação na Primeira Guerra Mundial (1917-1918) e na Segunda Guerra Mundial (1941-1945) foram, para os Estados Unidos, praticamente inevitáveis, a primeira após a guerra submarina irrestrita e o Telegrama Zimmermann; a segunda, após Pearl Harbor. Após esta última, porém, não houve um único ano civil completo (365 dias) em que as forças estadunidenses não estivessem engajadas em operações ativas, seja defendendo posições de ocupação, seja bombardeando algum lugar do mundo, ainda que em alguns anos essas operações tenham sido de baixa intensidade.

            Após a última conflagração mundial, vieram a Guerra da Coreia, a do Vietnã, a do Golfo, a do Afeganistão e a do Iraque, sem falar nas intervenções cirúrgicas e nas proxy wars, dentre as quais se pode citar o apoio americano a um dos lados da guerra Irã-Iraque.

            É importante frisar que os Estados Unidos, em suas intervenções militares ou interferências políticas externas, sempre se utilizam de um verniz moral para disfarçar o indisfarçável aqui expresso nas palavras de Eduardo Galeano: "Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As guerras sempre invocam nobres motivos, matam em nome da paz, em nome de Deus, da civilização, em nome do progresso ou em nome da democracia".

            Os Estados Unidos, na condição de superpotência militar e econômica, dispõem de um poderoso arsenal para usar contra os países que não se curvam a suas chantagens econômicas ou políticas: o Soft Power (sanções, embargos, etc.) e o Hard Power (seu gigantesco poderio militar). Não importa o que digam instituições supranacionais como a ONU ou livros escritos por especialistas: democracias, ditaduras e terroristas são aquelas que os Estados Unidos a seu bel prazer assim classificam.

            Desde sua fundação, os Estados Unidos já ultrapassaram a marca de 500 intervenções internacionais (ações via CIA, ameaças de uso da força e pequenas invasões), segundo levantamento citado por O'Rourke em Covert Regime Change. O período de mais longa calmaria ocorreu durante a Grande Depressão, quando o país adotou uma política isolacionista e focou em sua própria crise interna ainda que, mesmo então, mantivesse bases e interesses ativos na América Latina.

            É de uma grande ingenuidade pensar que nações tenham amizades: as nações têm interesses. Porém, inversamente ao que disse o embaixador brasileiro Juracy Magalhães, representante do governo Castelo Branco junto a Washington na década de 1960, nem sempre o que é bom para os Estados Unidos da América é bom para o Brasil.

            Os Estados Unidos são potencialmente o maior adversário de qualquer tentativa de desenvolvimento econômico e social soberano da nação brasileira. Interessa enormemente ao país norte-americano manter o Brasil dependente e subserviente. O papel relegado ao Brasil é o de mero fornecedor de matérias-primas e produtos agrícolas, ou seja, uma colônia e não são poucos os que, aqui dentro, trabalham para que esse papel se perpetue.

            Em recente pesquisa, o Brasil apareceu à frente dos EUA em liberdade de expressão para a imprensa e também em democracia como nos rankings do Repórteres Sem Fronteiras e do V-Dem. João Goulart, quando presidente do Brasil, disse: "Os Estados Unidos falam muito em democracia, mas deveriam permiti-la" nos demais países e também em seu próprio território.

            Que esta reflexão sirva não para alimentar ressentimentos estéreis, mas para lembrar que soberania não se pede: conquista-se. E que nenhuma nação verdadeiramente independente delega a outro país o direito de definir seus parceiros, seus adversários e seu próprio futuro.

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