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sábado, 17 de outubro de 2026

Sinais na parede: a política, o fascismo e o silêncio dos confortáveis

              Há alguns dias, ouvi uma pessoa dizer que não se preocupa com política e que jamais se estressou ou perdeu um minuto de sono por causa disso. Entendo que a alienação, a não compreensão das especificidades e do alcance das consequências da política na vida de cada um atue como um analgésico que ameniza a dor momentânea. Porém, analgésico não cura um mal grave que se abate sobre a sociedade.

            Você pode evitar a política, pode se recusar a refletir e a falar sobre ela, mas ela inevitavelmente chega até você, pois afeta vários aspectos de sua vida. A política está em tudo, inclusive em sua omissão ou neutralidade, pois elas têm consequências (nem sempre favoráveis a você).

            Lembro da Guerra de Tróia, retratada na obra "Ilíada" de Homero. Sabemos que Tróia realmente existiu e foi destruída. Na Ilíada, há uma mesclagem de fatos históricos e ficcionais. Mesmo se tratando de ficção, certamente o leitor já pensou sobre como foram ingênuos os cidadãos troianos que aceitaram o pseudo-presente do chamado Cavalo de Tróia, ofertado pelos gregos. Pode-se imaginar que alguns desconfiassem do “presente de grego”; porém, diante das falas entusiasmadas e barulhentas daqueles que comemoravam algo que em realidade não conheciam (o interior do cavalo ou a sua intencionalidade), omitiram-se. Não por traição, mas por confiar cegamente em suas lideranças. E sua pátria foi destruída.

            No primeiro turno das eleições deste ano (2026), a extrema-direita, aqui entendida como o campo político que flerta com o autoritarismo, com a supressão de direitos e com a lógica do inimigo interno a ser combatido, engoliu a direita, e seu poder, se confirmado, terá uma magnitude que não se via desde a redemocratização. A última vez que um grupo dirigente concentrou tamanho poder, estávamos em plena ditadura militar (1964-1985), e as consequências para a sociedade são estudadas e investigadas até hoje. A esquerda está preocupada, e você, da direita pensante e civilizada, também deveria estar. Não dá para normalizar a extrema-direita. Embora ela esteja crescendo em várias partes do mundo, causou tragédias humanas e materiais das quais a humanidade levou décadas para se recuperar. Sua ascensão ao poder trouxe o tolhimento de direitos civis e humanos e a implantação de regimes autoritários.

            Bertolt Brecht (1898-1956) disse que “a cadela do fascismo está sempre no cio”. Os sinais estão aí há algum tempo: o ressurgimento do lema “Deus, Pátria e Família”, da fascista Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado (anos 1930); o lema “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”, paráfrase do lema da Alemanha Nazista; o copo de leite (símbolo de grupos supremacistas brancos e neonazistas estadunidenses) tomado por Jair Bolsonaro e demais partícipes de reunião de governo cuja gravação foi veiculada; a saudação nazista e o discurso do ministro Roberto Alvim (governo Jair Bolsonaro) imitando o conteúdo e a estética do Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista Joseph Goebbels; a alusão à face de Benito Mussolini no Palazzo Braschi por parte da candidatura de Flávio Bolsonaro; a tiara de flores (da pureza da mulher nazista) e o chicote (símbolo da imposição da força sobre as raças tidas como inferiores, ou seja, uma alusão à escravidão) de Julia Zanatta. Quando questionados, negam, mas a simbologia é amplamente conhecida e não precisa ser nenhum gênio para entender que sinalizam, para seus seguidores fascistas, que estão de volta e que os representam.

            Em "Como as democracias morrem", de Ziblatt e Levinski, vemos como a democracia é frágil e como ela pode ruir aos poucos, sem que nos demos conta e até mesmo por dentro da própria democracia. Nem sempre é uma ruptura abrupta. No caso da Alemanha, Hitler inicialmente tentou um golpe de Estado. Fracassou, foi preso e, na cadeia, escreveu o famigerado Mein Kampf. Foi pela via democrática que ele chegou ao poder, por meio da ascensão do Partido Nazista (de extrema-direita). Havia sinais: Hitler foi apoiado por milícias barulhentas conhecidas como “camisas-pardas” ou Sturmabteilung (SA), que se utilizavam da intimidação e da violência contra os opositores. O resultado é de todos conhecido, pelo menos para aqueles que têm memória histórica, capacidade de interpretação de texto e percepção dos interesses em jogo.

            O Cavalo de Tróia pode ter sido exclusivamente obra fictícia da mente de Homero. No entanto, no segundo turno da eleição majoritária (dia 25 de Outubro) abriremos as portas para dar um presente à toda a nação, à geração atual e às futuras. Há um "Presente de Grego" (melhor, de americano dada a submissa proximidade de Flávio Bolsonaro à Trump) logo ali no portão. Você vai no barulho da turba ou vai se informar sobre esse estranho e supostamente desinteressado presente?  O filósofo Confúcio (séc. V a.C.) disse: “O homem inferior busca fazer apenas o que é lucrativo. O homem superior busca fazer o que é certo”. Parafraseando o conceito de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que não nos falte serenidade, responsabilidade e disponibilidade de reflexão sobre o que é melhor para nosso país, para os idosos, os trabalhadores, as crianças e as futuras gerações. Qual é o país e a sociedade que deixaremos para eles?

            Encerro citando Dom Pedro Casaldáliga (1928–2020): “Na dúvida, fique do lado dos pobres!”

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