Querido
diário, nem sei por onde começar, mas preciso, afinal é meu dever. Estou rindo
e nem sei dizer se é de emoção ou tique nervoso. Lembro de ter lido que somos a
soma das pessoas com as quais convivemos e penso que preciso me afastar por
algum tempo de certas companhias do meu convívio social ou virtual. É que estou
com uma vontade irresistível de me autodeclarar "legítimo" Secretário-Geral
da ONU. E não sou o único caso: tenho um colega que pensa em se autodeclarar
"legítimo" Presidente do Banco Mundial, e outro que ambiciona ser o
"legítimo" Presidente dos Estados Unidos, apesar de a Constituição
daquele país determinar que apenas os nascidos em solo estadunidense possam
ocupar o cargo. Sobre isso, ele diz que se sente um estadunidense nato. Rimos,
mas o riso tem algo de nervoso.
De repente, parece que a misteriosa
cegueira branca que atingiu a população em Ensaio sobre a cegueira, de
José Saramago, ganhou uma variante contagiosa entre nós. Uma variante que não
cega os olhos, mas a mente. É tão forte que não se consegue despertar ninguém
do "Boa noite, Cinderela" a que foram submetidos: as pessoas estão
acordadas, mas dormem um sono profundo, embaladas por sonhos de megalomania
fascista. Nunca a frase "o ódio cega a mente" fez tanto sentido.
O Brasil se tornou a lendária Torre
de Babel, só que aqui todos falam a mesma língua e, ainda assim, ninguém se
entende. Como disse Cazuza, "as (tuas) ideias já não correspondem aos
fatos". Em plena era da pós-verdade, notícia verdadeira é aquela que
agrada à visão de mundo em que se acredita; importa a interpretação, mesmo que
seja obtida por contorcionismo sob tortura da realidade.
Penso que, neste último embate
eleitoral, como alguém disse, "todos ganharam, inclusive aqueles que
perderam, pois ainda não sabem que também ganharam". Saberão quando as
doses cavalares de paixão (e de ódio) que os cegaram forem arrefecendo,
metabolizadas pelo organismo. Isso demanda tempo, e a reação varia de indivíduo
para indivíduo. Alguns, ao retomar a lucidez, sentirão vergonha; outros
silenciarão e jamais admitirão a cegueira de que foram acometidos. Há também
aqueles que jamais se recuperarão: diante das evidências do erro, dobram a
aposta, não por querer insistir no erro, mas por acreditar que são incapazes de
errar e que, portanto, sempre estiveram certos.
Lula venceu em 2026, depois de ficar atrás no primeiro turno, num feito épico. A vitória sobre o fascismo bolsonarista exigiu uma mobilização gigantesca da sociedade brasileira contra o ideário de extrema-direita empunhado por Flávio Bolsonaro. A juventude saiu às ruas; milhões seguiram orientações sobre como agir nas redes sociais (Exército do Lula), buscando convencer os indecisos, os abstencionistas do primeiro turno e os idosos sobre a importância que esta eleição tinha para o futuro do país, mais do que em qualquer outro momento histórico.
A vitória veio sofrida, porém
maiúscula, para não deixar dúvida sobre a vontade da maioria: Lula obteve
51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% (59.826.041 votos)
de Flávio Bolsonaro. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, que um
candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno virou a disputa e
venceu . E a comemoração não foi apenas da população antifascista
brasileira, mas de significativa parcela da sociedade internacional que já
sentiu os danos causados pela extrema-direita no tecido social. Não se tratou
de uma vitória de Lula (embora ele seja uma figura histórica gigante), mas das
pessoas, em suas múltiplas nacionalidades, que dedicam a vida a defender a
democracia.

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