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terça-feira, 22 de outubro de 2013

[...] Sabendo que ela dará solução...

O Brasil em 1985 vivia um novo tempo, a ditadura havia findado e havia a esperança de um país melhor para todos os brasileiros que há muito estavam saturados do desgoverno da ditadura cujo famoso Ministro da Fazenda da época militar afirmava: “É necessário fazer o bolo crescer para depois dividir”, mas, cuja divisão jamais ocorreu, dessa forma, o país, se tornou um dos mais injustos do mundo em distribuição da renda e no que concerne à terra quase nada foi feito para alterar a estrutura fundiária que lembrava muito o Brasil Império embora a República estivesse consolidada há muito tempo. José Sarney, vice de Tancredo Neves assumiu a Presidência da República de forma inesperada diante da doença que acabou por ceifar a vida do presidente eleito e que era depositário da esperança da ampla maioria dos brasileiros que desejavam mudanças profundas na condução da política e da economia do país. A morte de Tancredo foi uma ducha de água fria para o povo que tinha desconfianças quanto ao vice-presidente José Sarney, tido como muito próximo aos militares, no entanto, em seu governo foi escrita a nova Constituição Federal (1988) e foi garantida a liberdade de expressão, mas o fracasso na condução da política econômica e de reforma agrária em que foi estabelecida a meta de assentar um milhão e quatrocentas mil famílias até o fim do seu governo assentando apenas noventa mil, fez com que o anseio da população por grandes transformações da realidade nacional tornassem sua popularidade fugaz. A insatisfação era tanta que Sarney aceitou reduzir um ano de seu mandato anteriormente previsto para seis anos. O movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST) cuja origem remonta à Cascavel-PR (1984) ainda estava se organizando e a pressão exercida sobre o Governo Sarney foi infrutífera, como também o foi no Governo Collor que era declaradamente contra a reforma agrária e tinha aliados ruralistas em seu governo, dessa forma, apesar da forte pressão dos movimentos campesinos e da violência que estourava no campo, Collor (que reprimiu duramente os movimentos campesinos principalmente o MST) em trinta meses de governo assentou apenas 42.030 famílias, um número pífio ante as necessidades do país. Collor, como sabemos, sofreu o processo de Impeachment e foi condenado pelo Congresso Nacional, em seu lugar assumiu o vice-presidente Itamar Franco que se declarou simpatizante da causa da reforma agrária e seu governo foi marcado pelo diálogo com os movimentos sociais especialmente o MST, apesar das boas relações e talvez à curta duração de seu mandato (1992/1993) promoveu o assentamento de apenas 14.627 famílias, se a modéstia foi a tônica na reforma agrária, Itamar foi exitoso na condução da política econômica com a criação do Plano Real, o controle da hiperinflação e a estabilidade monetária, foi o verdadeiro Pai do Real e não o seu sucessor Fernando Henrique Cardoso como muitos insistem em chamá-lo, penso que Itamar não recebeu em vida o reconhecimento devido. FHC em seu primeiro mandato (1994-1998) assentou 306.285 famílias buscando acalmar os movimentos socioterritoriais, porém, as pressões continuaram através da ocupação de terras e FHC passou então para a fase de repressão e criou uma medida provisória que impedia que a terra ocupada fosse destinada para fins de reforma agrária. A adoção de tal medida freou em parte as ações de ocupação e originou certa letargia no governo quanto à desapropriação de terras para reforma agrária, pois, em seu segundo mandato assentou 158.312 famílias, um número bem inferior ao do primeiro mandato. Segundo Bernardo Mançano Fernandes a questão agrária além de descaracterizada foi mercantilizada no governo FHC, pois, em seu governo se criou o Modelo de Reforma Agrária de Mercado em que o latifúndio improdutivo deixava de ser punido pelo não cumprimento da função social conforme estabelecia a Constituição Federal e passava a ser um ativo financeiro, uma vez que os latifundiários receberiam à vista pelas terras vendidas.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

[...] Ansiosas esperam a reforma agrária...

O Brasil precisa de muitas reformas, a reforma política, a reforma tributária, a reforma agrária, etc., porém, das reformas supracitadas nenhuma é desejada há mais tempo pelo conjunto da classe trabalhadora e tão fortemente combatida pela elite dominante. O Brasil tem um grave problema no que tange à sua estrutura fundiária, ou seja, à forma como estão divididas as terras agrícolas a qual teve sua origem quando da chegada dos colonizadores portugueses ao país, ocasião na qual a Coroa Portuguesa criou as Capitanias Hereditárias (1530) e distribuiu as sesmarias que eram grandes glebas às pessoas com as quais tinha afinidade, e estas, lealdade com a mesma. Os sesmeiros tinham por dever repassar à Coroa um sexto da produção, em troca recebiam terras virgens, férteis, a possibilidade de enriquecer e ter muito poder. Tal invenção do Brasil feita de cima para baixo somente poderia dar em desastre e foi o que ocorreu com a disputa pela terra entre fazendeiros e grileiros que gerou muita violência, inclusive com a ação de bandos armados e o derramamento de muito sangue, um detalhe, não havia a ação de trabalhadores rurais, uma vez que nesta época estes eram em sua maioria escravos. Em 1822, o Brasil se tornou um país independente, mas sua estrutura fundiária mostrava ao mundo que o Brasil era um país de poucos e que por assim ser exercia o papel de serviçal dos países desenvolvidos ao fornecer-lhes gêneros agrícolas a baixo custo somente obtido com a chaga da escravidão. Em 1850, o Governo Imperial editou a Lei de Terras a qual estabeleceu que as terras devolutas são propriedade da União não podendo ser ocupadas e a aquisição de terras somente poderia ser realizada com o pagamento em dinheiro. A Lei de Terras parece ter sido criada naquele sistema do “mudar para não mudar”, pois beneficiava a classe proprietária e impossibilitava/dificultava o acesso à terra por parte dos escravos libertos em 1888 e também os imigrantes que para cá vieram e que não estavam incluídos nos processos de colonização abertos pelo Governo Imperial nos quais houve a distribuição de terras para pagamento a longo prazo. Para tais trabalhadores não havia alternativa que trabalhar como empregados rurais aos fazendeiros de café, cana de açúcar, etc. ou tentar a sorte como operários na incipiente indústria localizada nos grandes centros urbanos do país. O tempo passou, veio a República em 1889 e apesar desta surgir com o ideal de reformas, nada mudou no campo, a concentração fundiária tornava os grandes fazendeiros donos de imenso poder, os “coronéis” eram temidos pela população e ditavam os rumos da política. Os coronéis não eram combatidos pelos governantes que buscavam fazer com eles alianças, uma vez que parte destes eram também políticos, razão pela qual, propostas de melhor distribuição das terras agrícolas não entraram em pauta. Em 1961, Janio Quadros mandou ao Congresso a primeira proposta de Reforma Agrária a qual foi evidentemente engavetada pelos parlamentares conservadores, pouco depois, a forte oposição levou Janio a renunciar e assumiu João Goulart (Jango) que resolveu realizar as reformas de base (fiscal, bancária, educacional, eleitoral, urbana e agrária). Tais medidas eram de caráter nacionalista e previam uma maior intervenção do Estado na economia, no entanto, como sabemos, o golpe militar de 1964 impediu que tais medidas fossem de fato implantadas e a reforma agrária foi uma vez mais postergada. A ditadura militar, no entanto, surpreende e cria o Estatuto da Terra para acalmar os ânimos dos movimentos campesinos que vinham crescendo desde a década de 1950 devido à insatisfação com a situação no campo. Tal atitude do governo é explicada pelo fato deste recear a ocorrência no país de uma revolução camponesa e ao mesmo tempo pretendia tranquilizar a classe proprietária que temia a implantação da reforma agrária em grande escala como a verificada em países como o México, a Bolívia, etc. O Estatuto da Terra tinha duas metas principais: Fazer a reforma agrária e desenvolver a agricultura, a primeira meta ficou apenas no papel, pois as iniciativas governamentais se resumiram a alguns poucos projetos na Amazônia e que não deram o resultado esperado devido à falta de infraestrutura, a não ambientação dos assentados ao clima equatorial e solos frágeis, e, principalmente ao isolamento da região resultando em fracasso. A segunda meta era o desenvolvimento da agricultura e esta teve grande incentivo por parte do governo militar principalmente a agricultura comercial de exportação, ou seja, os latifundiários transformaram suas propriedades em empresas agrícolas contando sempre com o apoio do governo, e durante esse período, além de não ocorrer a reforma agrária, o êxodo rural, o inchaço das cidades e a concentração da terra só fizeram aumentar.

domingo, 6 de outubro de 2013

A classe roceira e a classe operária [...]

Sendo eu um professor de Geografia causa grande estranheza (até para mim!) não ter dedicado até o presente momento um artigo neste espaço sobre a reforma agrária. Muito embora somente agora escreva sobre o tema, a anotação para fazê-lo está registrada num papel amarelado pelo tempo, pois sempre havia um tema do momento ou da inspiração. Logicamente se levasse em conta tão somente a importância do tema teria feito tais linhas no primeiro ano de “A Vista de Meu Ponto!”. O leitor poderia julgar pela demora em escrever que tenho pouca familiaridade com a temática, pois sou fruto da educação pública propiciada pelo repressivo regime militar que infelizmente tivemos em nosso país, o qual cerceava a criticidade dos mestres que temerosos evitavam fazer denúncias sobre as mazelas que afetavam o país. Poderia ainda o leitor pensar que o assunto me é indigesto, pois tenho amigos que discordam do mesmo, nada mais equivocado, pois, penso que se uma amizade não resiste à divergência de opiniões ela não deve ser vivida. Nos primeiros anos da juventude eu fazia parte de um Grupo de Jovens subordinado à Pastoral da Juventude da Igreja Católica no qual além das temáticas religiosas discutíamos as questões políticas e as injustiças que afetavam a classe trabalhadora. Foi neste Grupo de Jovens que eu tive meu primeiro contato com a temática da concentração da terra e da violência no campo e da consequente necessidade da reforma agrária. São comuns críticas às Igrejas (é bom que se diga, nem todas injustamente) e o silêncio quando de boas ações por elas tomadas, então, eu torno público o meu elogio pela iniciativa da Igreja Católica via Pastoral da Juventude em promover tais discussões entre os jovens naquela época chegando aonde muitas vezes a escola pública não chegava! Nas reuniões aprendíamos os “gritos de ordem” e os hinos cantados durante a realização da Romaria da Terra e até hoje me lembro das romarias sempre que ouço a canção “Grande Esperança” que foi gravada por Chico Rey e Paraná: “A classe roceira e a classe operária / Ansiosas esperam a reforma agrária / Sabendo que ela dará solução / Para a situação que está precária / Saindo projeto do chão brasileiro / De cada roceiro ganhar sua área / Sei que miséria ninguém viveria / E a produção já aumentaria / Quinhentos por cento até na pecuária! [...]”. Além de discutirmos os dados sobre a concentração da terra e da violência no campo e a necessidade da democratização do acesso à terra, algumas vezes fomos além da teoria ao exercitar a cidadania por meio da participação em Romarias da Terra em municípios para os quais nos deslocávamos sempre com ônibus lotado. As romarias são organizadas pela Comissão Pastoral da Terra que alterna os municípios que sediam a realização do referido evento anual cuja ênfase é a defesa da dignidade humana em contraponto ao vigente sistema capitalista concentrador da renda e da terra. Até o presente ano (2013) já foram contabilizadas 27 edições da Romaria da Terra, sendo que a última foi realizada em 18 de Agosto no município de Faxinal (PR). Lembro-me que os meios de comunicação divulgavam pouco as romarias, mas o faziam e hoje tais eventos parecem ter caído no ostracismo, (o que não causa surpresa) uma vez que a grande mídia representa os interesses da classe dominante e divulga o que a esta convém. Penso que tal como na letra Ideologia de Cazuza muitos de nós (da minha geração) éramos “aquele garoto que ia mudar o mundo e hoje assiste a tudo em cima do muro [...]”. Porém, como meu equilíbrio para ficar em cima do muro sempre foi pouco, breve mostrarei qual é a minha visão a partir do lado do muro em que sempre me postei.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A vida... Que fase! (?)

Em decorrência do fato de ser pai e professor observo crianças, adolescentes e adultos e me vejo frequentemente refletindo sobre as fases da vida e não me refiro aos períodos de vacas magras e/ou gordas comuns à grande maioria das pessoas na sobrevivência nesse planeta chamado Capitalismo. Explico: Ao nascermos passamos pela nossa primeira provação deixamos o útero aconchegante de nossas mães e nos sentindo desprotegidos choramos a sensação de insegurança e desconforto que o novo mundo ao qual somos apresentados nos traz. Nessa fase nossas necessidades são prontamente atendidas quando choramos, mas o tempo vai mostrar que o nosso choro será por muitas vezes ignorado. Basta que cresçamos e deixemos a infância e nos sentimos tal como na letra da música “Não vou me adaptar” de Arnaldo Antunes: “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia/ Eu não encho mais a casa de alegria/ Os anos se passaram enquanto eu dormia/ E quem eu queria bem me esquecia/ Será que eu falei o que ninguém ouvia?/ Será que eu escutei o que ninguém dizia?/ Eu não vou me adaptar... me adaptar”. A entrada na adolescência é um período de adaptação com as dificuldades impostas pelo fato de não saber como se encaixar na sociedade com adultos que esperam de você maturidade, afinal, seu corpo evidencia que você não é mais criança, mas sua mente não concorda totalmente com isso mesmo que você se esforce nesse sentido. É um período difícil, muitas vezes você planeja fugir para Marte, mas na vida tudo passa e você então torna-se um adulto, mas, mesmo assim não consegue se desligar totalmente da adolescência, tal como uma colega afirmou: “Tenho sonhos adolescentes, mas as costas doem. Sou jovem pra ser velha. E velha pra ser jovem”. É uma nova fase da vida que chegou a “adultescência,” nela, você vive tal como o adolescente a angústia de não conseguir encaixar-se na sociedade que lhe cobra atitude, determinação, independência, etc. quando na verdade você ainda gosta de ser cuidado pelos pais e não se sente preparado(a) para um voo solo e passa a maior parte do tempo jogando/falando de videogames e/ou sonhando com o rico príncipe encantado ao invés de ir à luta. Você faz parte da geração canguru. O tempo passa você enfrenta muitos desafios, constitui família (ou não), trabalha muito, precisa garantir seu futuro e/ou dar sustentação financeira à sua família, até pode ter dinheiro, mas já não tem tanto tempo para o lazer, está mais ambientado nas rodas de conversa com os mais velhos e começa a dar razão aos mesmos nas conversas sobre o quanto a geração mais nova se encontra perdida e “o quanto a sua geração era determinada”, vê nos hábitos da nova geração o “fim dos tempos” (embora esconda ter alguma inveja). Como o tempo não para, você de repente se vê sexagenário (com filhos crescidos, talvez até com netos), mas como tem muita energia busca viver o máximo possível e além do trabalho quer desfrutar o lazer que muitas vezes abdicou. Você entrou numa nova fase é agora “sexalescente”, ou seja, é uma pessoa que do alto dos seus sessenta e poucos anos não aceita a velhice e isto algumas vezes o leva a visitar o guarda-roupa dos/das filhos(as) e/ou netos(as) em busca de uma roupa mais “adequada”. Você resolve cuidar da máquina (o corpo), pois não dá mais para adiar tais cuidados, quer viajar, praticar esportes, estudar, namorar muito e sabe que se precisar pode contar com a ajuda da medicina, você é agora um “sexygenário”. Você entra na quarta idade (80 anos), foi na “despedida” de muitos(as) de seus/suas colegas, tem um tesouro inestimável (a experiência) que falta a todo(a) jovem, sua pele não tem mais o viço da juventude e infelizmente em nosso país ao contrário do Japão não é valorizado(a) como deveria ser e ainda precisa se preocupar com a injustiça do sistema de aposentadoria que a cada ano faz com que seu dinheiro míngue e do alto de sua sabedoria não teme a morte embora a considere injusta, pois tal como Charles Chaplin pensa que deveria ser assim: "A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo”! Não seria perfeito?

sábado, 21 de setembro de 2013

A teoria do Direito x a teoria da Direita

 

              O escritor e editor Luiz Fernando Emediato da Geração Editorial classificou o livro “A outra história do Mensalão: as contradições de um julgamento político” de autoria do jornalista Paulo Moreira Leite (ex-diretor da revista Época, ex-redator-chefe da revista Veja e atual diretor da revista Istoé em Brasília) como uma obra corajosa, independente e honesta. 
                 No livro, o autor afirma que o julgamento do chamado “Mensalão” foi contraditório, injusto e político por ter feito condenações sem provas consistentes e sem obedecer a regra elementar do Direito segundo a qual todos são inocentes até que se prove o contrário. 
                Também afirma que os réus estavam condenados antes de o julgamento começar por aqueles que se consideram a própria opinião pública, os meios de comunicação, que segundo o autor tiveram total desprezo pela isenção, assumindo desde o princípio posicionamento pró-condenação, pressionando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como relatou o próprio ministro Lewandowski: “A imprensa acuou o Supremo. 
              Não ficou suficientemente comprovada a acusação. Todo mundo votou com a faca no pescoço”. No livro, o autor demonstra que o STF, guardião das leis e da Constituição cometeu injustiças, o que considerou preocupante, e, citando o romance “O Processo” de Franz Kafka, afirma: “[...] no limite podemos acreditar na possibilidade de sermos acusados e condenados por algo que não fizemos, ou pelo menos não fizemos na forma pela qual somos acusados”. 
                 O processo do Mensalão trouxe segundo a obra, penas robustas e provas fracas e ao contrário do que prega como já dissemos a regra elementar do Direito de que todos são inocentes até que se prove o contrário, a metodologia do julgamento foi realizada de forma a dificultar ao máximo a defesa, indo contra a lisura de um processo penal em que é assegurada ao réu a ampla defesa. 
            Estariam os ministros sendo influenciados pelo “reality show” em que se transformou o Mensalão? Os ministros viram-se atores do “reality show” e começaram a preocupar-se com sua atuação e perderam o foco no que é principal, o Direito? Sabemos que os ministros não podem julgar segundo sua ideologia, mas, claramente embasados no Direito! Isto é o que separa um Estado de Direito, portanto, democrático, de um Estado autoritário, ou seja, uma ditadura, em que suposições são suficientes para a perda da liberdade.
                 Pesa contra o STF o fato de que embora o Mensalão Tucano (que a imprensa evita tocar nesse assunto e quando o faz chama de “Mensalão Mineiro”), ocorrido anteriormente ao Mensalão Petista ter seu julgamento postergado, ora, se alguns atores são os mesmos, não seria o correto seguir uma linearidade no tempo, investigando, apurando, julgando conforme a ordem dos fatos? 
                    E por que ao Mensalão Tucano além da protelação, foi concedido pelo STF o benefício do desmembramento do processo que favorece a defesa e ao Mensalão Petista não? Ao dar tratamento diferente para o Mensalão Petista e ao Mensalão Tucano, o STF tem um sistema “dois pesos, dois mensalões”? Não seria ou não deveria ser o STF o principal interessado em possibilitar a mais ampla defesa? (Ao contrário do que ocorreu, uma vez que a defesa dos réus criticou o STF por dificultar o trabalho da mesma)? E por que a mídia não dá o mesmo destaque e cobrança quanto aos fatos envolvendo o Mensalão Tucano? Se o julgamento do Mensalão fosse a perfeição técnica que Joaquim Barbosa sustenta ser porque ele não é unanimidade entre seus pares e nem mesmo entre renomados juristas deste país que a ele não pouparam críticas? 
                Não se trata de afirmar que o Mensalão foi uma criação do subconsciente coletivo, mas de criticar a dinâmica condenatória que vai contra a Teoria do Direito e a acusação equivocada, crimes “podem” ter ocorrido (talvez, Caixa 2), mas não necessariamente aqueles pelos quais aos réus está se imputando culpa! 
                Os recursos eram públicos ou privados? (Não há consenso e isto é uma questão central)! E nisso reside outra constatação, se o que se pretende é acabar ou pelo menos reduzir os riscos do abuso do poder econômico e das negociatas pós-eleitorais, precisa-se então da reforma política e do financiamento público de campanhas eleitorais! Quem é contra? Aqueles que viram no atual sistema um celeiro de oportunidades! Grande parte dos quadros ligados à Direita! 
                 A Teoria do Domínio do Fato faz a alegria daqueles que desejam a condenação dos réus, tal teoria que embasa as acusações contra os réus tem como contraponto as investigações da Polícia Federal que nada encontraram de provas conclusivas, então se não há provas consistentes, aplica-se a Teoria do Domínio do Fato, que, diga-se, não é unanimidade entre os juristas, pois ela aponta responsabilidades invisíveis, ou seja, se determinado réu ocupava certo cargo, parte do princípio de que “não é possível que não soubesse...”, “não é plausível que não tivesse participação...”, etc. 
               Obviamente queremos um país livre da corrupção, no entanto, tal tema é frequentemente usado para golpes contra políticos democraticamente eleitos no mundo todo e o Brasil não é exceção, aliás, houve até ministro do STF que afirmou que a ditadura “foi um mal necessário” (Marco Aurélio de Mello), isso, e historicamente, várias absolvições ainda não digeridas pela população de réus comprovadamente culpados deixa sobre o STF um espectro de parcialidade, de facciosismo, etc. dando a impressão da justeza daquela famosa frase “aos amigos a lei, aos inimigos os rigores da lei”. 
                De uma coisa tenho certeza, a Direita incapaz de fazer oposição competente a um governo popular, cujos indicadores socioeconômicos demonstram claramente a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes se aquartelou no STF e espera que a Grande Mídia faça o discurso oposicionista esperando através desta o convencimento da população de que nosso país encontra-se no fundo do buraco e que deveríamos seguir a receita neoliberal dos países europeus que descobriram que o fundo do buraco tem subsolo! 
                Enfim, a Direita tem a sua teoria para voltar ao Poder e nela o STF e a Grande Mídia são fundamentais, esperamos nós (o povo) que vivemos atualmente o melhor momento socioeconômico da história desse país que o STF não fique em ilações e aplique a teoria do Direito e não a teoria da Direita, a qual alguns de seus membros parecem ter inclinação ideológica. 

Sugestão de boa leitura: 
Título: A outra história do Mensalão: As contradições de um julgamento político.
Autor: Paulo Moreira Leite.
Editora: Geração Editorial, 2013, 352 p.

sábado, 14 de setembro de 2013

A carapuça que te cabe..., cabe?

Sou admirador do apresentador, ator, compositor e cantor Rolando Boldrin (atualmente apresentando o Sr. Brasil na Rede Cultura de São Paulo) desde os tempos do Som Brasil, programa da Rede Globo que ia ao ar nas manhãs dominicais. Rolando Boldrin nascido a 22 de Outubro de 1936, em São Joaquim da Barra no interior de São Paulo, gravou pérolas da música sertaneja raiz como “Vide Vida Marvada” e “Eu, a viola e Deus” para lembrar apenas alguns de seus inúmeros sucessos. No programa Som Brasil, Boldrin recebia artistas que tocavam modas sertanejas e entre uma apresentação e outra de artistas contava piadas e “causos”. Gosto desse talento nato de pessoas que sabem contar essas estórias que traduzem a cultura popular tal como faz o companheiro João Olivir Camargo na sua coluna “O Ponto do Conto” no jornal Correio do Povo do Paraná. Sempre ouvi falar que aquele “amigo” que te coloca em situações difíceis é um “amigo da onça”, mas até então não sabia a origem dessa expressão, assim, numa certa manhã de domingo, algumas boas e bota boas primaveras atrás, Rolando Boldrin contou que: “um compadre chegou até o outro e disse: Compadre, se você estivesse sozinho e te aparecesse uma onça, o que você faria? – E o compadre respondeu: É fácil, compadre! Eu pegava a espingarda e matava a onça! – E o compadre então falou: Não! Imagine que você não tem espingarda! – O compadre responde: Então eu puxava da pistola e matava a onça! – O compadre diz: Não! Imagine que você não tem pistola! – Bom, então eu puxava da peixeira e matava a onça! – O compadre novamente: Não! Não! Imagine que você não tem peixeira, não tem nada! – Bom, então eu corria da onça e subia numa árvore bem alta e esperava a onça ir embora! – Ao que o compadre interfere: Não! Imagine que no lugar não tem nenhuma árvore por perto! – Aí, o compadre irritado responde perguntando: Peraí, compadre! Você é meu amigo ou é amigo da onça”? (Risos). Esse conto é a explicação para o assim chamado falso amigo que conhecemos como “amigo da onça”. Penso que “amigos da onça” só existem aqueles que se dedicam a preservação desse magnífico animal silvestre, de resto, não existe falso amigo, ou é amigo ou não é! Pessoas que te colocam em situações difíceis não são e não podem ser considerados amigos. Algumas vezes, pessoas se indignam com o que escrevo, no entanto, este espaço é para mim sagrado, não o uso para atingir ninguém, pois, discuto ideias e não pessoas! Vivemos num país democrático, e, portanto livre, e como Rosa Luxemburgo nos ensinou: “a liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente” e se isto não for suficiente, quem é amigo de verdade, sabe assim ser e quem é de mentira também! Há alguns dias li um post no Facebook que afirmava que se você lançar uma indireta na referida rede social visando apenas uma pessoa e não nominá-la você perderá todos os seus “amigos” (risos). Aí entra a questão da carapuça¹, cada um veste a carapuça que lhe servir. 1. Carapuça é uma espécie de barrete ou capuz de forma cônica e remonta ao período da Inquisição, em que os condenados eram obrigados a vestir trajes ridículos ao comparecer aos julgamentos. Além de usar uma túnica com o formato de um poncho, eles precisavam colocar sobre a cabeça um chapéu longo e pontiagudo, conhecido como carapuça. Daí a expressão "vestir a carapuça" ter se incorporado ao português escrito e falado com o sentido de "assumir a culpa". (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carapu%C3%A7a – Acesso em 10 de Setembro de 2013).

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Eduardo Galeano, um rapaz latino americano

        Impossível ler o título que escolhi para este artigo e não lembrar de Belchior quando entoava a linda canção “Apenas um rapaz latino americano” cuja letra iniciava com a seguinte estrofe: “Eu sou apenas um rapaz/ Latino-Americano/Sem dinheiro no banco/Sem parentes importantes/E vindo do interior...”, no entanto, apesar da belíssima obra de Belchior, a razão de ser destas linhas se refere ao genial, insubstituível e incomparável Eduardo Hughes Galeano, (exagero?) Não existe redundância ao se falar deste uruguaio nascido em Montevidéu a três de Setembro de 1940 e autor de mais de quarenta livros traduzidos para diversos idiomas. 
            Galeano é possuidor de um estilo todo próprio e conquista seus leitores pela contundência com que denuncia as injustiças e pela beleza poética que suas palavras tomam em seus textos de abordagem política e histórica. Meu primeiro contato com a obra de Galeano foi nos anos 1990, quando cursava Geografia na Unicentro (Guarapuava) e soube através de uma colega sobre um livro fantástico chamado “As veias abertas da América Latina”, imediatamente fui à biblioteca da Universidade e tomei emprestada a obra que li num final de semana, pois, era impossível parar de ler e na semana seguinte encomendei na livraria da faculdade um exemplar que reli outras duas vezes. 
        Como tenho um registro das obras que disponho em meu acervo particular, dei a este livro o número 0001 embora esta não seja nem de longe a primeira obra que adquiri, mas pela importância que teve e tem sobre a minha formação e orientação política. Tenho grande orgulho de ter esta obra capaz de lapidar mentes para o utópico, porém necessário trabalho de construção de uma América Latina livre da exploração predatória das potências imperialistas que sempre contaram e contam com a anuência das elites locais, sócias na espoliação das riquezas naturais e na exploração do fruto do trabalho das pessoas humildes dessa “sub-América”, pois, como Galeano reclama, “no caminho perdemos o direito até de nos chamarmos americanos”. 
         Penso que embora Eduardo Galeano tenha escrito tantas obras, ao publicar “As veias abertas da América Latina”, ele não precisava fazer mais nada, já teria cumprido sua missão de iluminar a escuridão de nossos dias, mas Galeano é a generosidade em pessoa e não cansa em ofertar sabedoria para todos que em meio às trevas do imperialismo globalizado estão sedentos por claridade. 
         A sua obra principal é pelas circunstâncias que permeiam a nossa história uma declaração de amor platônico pela América Latina, ou seja, por uma região que não aprendeu a se orgulhar de suas raízes, pois somos um povo que cedo foi doutrinado a admirar a cultura alienígena imposta brutalmente pelas potências estrangeiras com a aquiescência das elites, verdadeiros “testas de ferro” na exploração das riquezas nativas.
         Como disse, a obra é uma declaração de amor e patriotismo por nossa cultura, história, enfim, por nosso tão único e verdadeiro jeito de ser, um povo apaixonado, e que precisa urgentemente descobrir a si próprio e parar de admirar o progresso alheio movido à usurpação das riquezas dos países pobres do mundo. Nenhuma pessoa que se pretenda crítico pode deixar de ler As veias abertas da América Latina, aliás, todo latino americano deve ler esta obra a fim de entender as raízes de nosso subdesenvolvimento.         Eduardo Galeano é um celeiro de sabedoria, um oceano de patriotismo que transborda do pequeno território de seu país natal e abarca toda a América Latina, sua verdadeira “pátria”. Reconhecemos que o Uruguai é o seu país de nascimento, mas ao povo uruguaio pedimos que perdoe nosso “imperialismo”, pois Galeano não pode ser somente uruguaio, ele é e precisamos que seja um pouco brasileiro, argentino, cubano, etc. enfim, um eterno rapaz latino americano.

P.S. Nesta data em que finalizo este artigo é aniversário de Galeano (03/Set./2013), sei que jamais saberá destas linhas, mesmo, assim, parabenizo-lhe pela passagem desta tão importante data e desejo-lhe muitas felicidades! 

Sugestão de boa leitura: Galeano, Eduardo H. As veias abertas da América Latina. Editora L&PM.