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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Engana-me que eu gosto!



            A temporada de caça ao eleitor está aberta, e candidatos que pouco ou nada fizeram em benefício do povo, ou pior, pautaram suas ações em detrimento deste ao endossar a política do Governo Temer de redução de investimentos sociais, e em benefício do grande capital nacional e estrangeiro procuram convencer o eleitor de suas boas intenções, em que pese seu passado reprovador.
            O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) há muito abandonou suas raízes (a social democracia) e, deslocou-se para a direita. Isso ocorreu, talvez, devido ao avanço do Partido dos Trabalhadores (PT) nesta área do espectro político. O PT há muito deixou de fazer a defesa inegociável do socialismo, e, na atualidade é um partido social-democrata. Grande parte da população brasileira não sabe a diferença entre esquerda e direita no campo político. Não há como culpá-la por isso, sem leitura e observação atenta, a distinção é mesmo difícil. Há unanimidade no seio da população de que a vida piorou após o golpe de 2016. O fisiologismo reinou solto durante o golpe quando vários políticos deram sustentação ao governo ilegítimo de Temer cuja popularidade é igual à margem de erro das pesquisas. Como estamos no divisor de águas que a proximidade das eleições sempre representa, há candidatos que arrependidos, pedem “desculpas” aos seus eleitores, pois, afirmam terem sido “enganados” por Temer & Cia. Alguns estão desistindo de serem candidatos, pois, embarcaram no trem da alegria golpista, traíram suas bases, mas, não conseguiram apoio eleitoral em seus novos ninhos. É o caso dentre outros, de Marta Suplicy (MDB).
            Uma estratégia malandra é a do chamado “centrão”, que aposta na desinformação da população, pois, procura colocar no PT a marca da extrema-esquerda (coisa que há décadas deixou de ser) em contraposição à extrema-direita de Bolsonaro (PSC). Os políticos do “centrão” apresentam-se como limpinhos, inodoros, insípidos, simpáticos, amáveis, desideologizados, pois, não vestem as cores do radicalismo do PT e Bolsonaro. Buscam conquistar o eleitor incauto que se cansou da polarização entre esquerda e direita. Ledo engano, um exame acurado do “centrão” mostra que não faltam raposas velhas se habilitando a cuidar do galinheiro. O “centrão” é um reduto do que há de mais conservador, portanto, de direita deste país. Também notei que nas propagandas políticas os candidatos por partidos que apoiaram o golpe de 2016 inserem o número, mas, não as referidas siglas partidárias (o golpe está cobrando a fatura). O PMDB que nunca elegeu um presidente, mas, jamais deixou o poder desde o fim da ditadura militar (1964-1985) mudou a sigla para MDB, denominação utilizada durante a ditadura militar. O MDB combateu a ditadura, mas, também foi o partido criado e tolerado pela ditadura para dar “ares de democracia” ao regime do país perante o mundo. A ARENA (Aliança Renovadora Nacional), o partido que dava sustentação à ditadura militar é a origem histórica dos atuais DEM e PP. A mudança de sigla de partidos com imagem desgastada é comum para enganar o povo, mas, na prática, não costuma constituir nenhuma mudança de atitude do partido ou de seus integrantes.
            Os políticos estão visitando seus redutos eleitorais, prometendo a valorização do trabalhador, mais investimentos em saúde, educação, segurança, etc. e muitos fazem isso com a maior desfaçatez. Refiro-me àqueles ligados à direita que em sua quase totalidade votou favoravelmente à reforma trabalhista que precarizou as condições de trabalho do povo brasileiro para beneficiar o patronato, e, que também votou favorável à “PEC do fim do Mundo” (PEC 55/241), que congelou os investimentos em Educação, Saúde, Segurança, etc. e que trará graves prejuízos para a população. Muitos desses políticos virão até você eleitor e prometerão fazer caso reeleitos o contrário do que fizeram até aqui, cabe a você repelir a sua conversa barata, ou acatá-la. Concluo com um provérbio árabe: “Se você é enganado uma vez, a culpa é de quem o enganou. Mas, se você é enganado novamente pela mesma pessoa, a culpa é sua”!

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O pior dos mundos!



            Nos últimos dias tenho me dedicado a ler livros sobre distopia. Utopia é um conceito popularizado e que se refere a um sonho de difícil realização. Distopia, por seu turno, é a antítese de utopia. É a realização do pior mundo possível com as características do totalitarismo, da opressão, da inexistência da liberdade de expressão, da perseguição ideológica aos intelectuais sejam eles jornalistas, professores ou cientistas.
            Segundo recente pesquisa, para 70% dos entrevistados a vida piorou após o Golpe de Estado de 2016. O governo golpista de Temer (MDB/PSDB/DEM e nanicos conservadores) aplicou o projeto neoliberal Ponte para o Futuro que levou o Brasil de volta ao passado. O Brasil voltou a fazer parte do Mapa da Fome da ONU, o desemprego cresceu, os preços dos combustíveis dispararam e a inflação percebida pela população ao fazer compras no mercado não bate com os índices de que tanto o governo Temer se vangloria, pois, o orçamento familiar está cada vez mais apertado. Com o falso pretexto de gerar empregos, o governo neoliberal acionou sua imensa base de apoio no Congresso Nacional e fez aprovar a reforma trabalhista, destruindo o legado da CLT de Getúlio Vargas. A verdadeira intenção é a precarização das condições de trabalho, sendo que há até quem fale em extinguir a Justiça do Trabalho. O objetivo é fazer com que o mercado de trabalho brasileiro seja a expressão das condições de trabalho semi-escravo verificado em alguns países da Ásia para o deleite dos capitalistas exportadores, que obviamente, não dependem do mercado interno brasileiro que será reduzido ante a perda de poder aquisitivo da classe trabalhadora.
O pior é constatar que a classe média e mesmo parcela da classe trabalhadora apóia ou se omite ante essas reformas, o que evidencia além da falta de consciência de classe, uma enorme falta de inteligência, pois, o que gera emprego é economia aquecida que ao reduzir a taxa de desemprego eleva o poder aquisitivo da classe trabalhadora que ao consumir mais retorna maiores lucros aos empresários que visam o mercado interno. Para corroborar o que digo, não é necessário sequer se referir ao economista John Maynard Keynes (1883-1946), basta ler o que pensava o mega-empresário Henry Ford (1863-1947) que irritava os demais capitalistas ao pagar salários acima do mercado (numa atitude que gostaria ver multiplicada), pois, refletia: “injetar dinheiro na mão dos trabalhadores é injetar no consumo, e, consumo gera os lucros que todo capitalista almeja”. Parte dos empresários parece ter uma utopia: sonha que enquanto esfola seus trabalhadores com salários vis, os demais pagarão os mais altos salários possíveis para que possam consumir. Ledo engano, afinal, se todos os capitalistas pagarem salários de fome, quanto e a quem venderão?
            A distopia que vivemos na forma do governo Temer caracteriza-se pela perda de soberania nacional, redução dos investimentos sociais e no perdão de dívidas e isenções fiscais em benefício de grandes empresas, petroleiras estrangeiras, bancos e latifundiários, que no conjunto causa um prejuízo à nação que ultrapassa a casa do trilhão de reais. Trata-se da antiga e costumeira política de transferir renda da classe média e baixa diretamente para os bolsos dos privilegiados que formam a elite (parcela de 1% mais rico do país). Engana-se quem pensa que a corrupção é obra exclusiva ou majoritária de políticos, os quais pouco fariam em matéria de corrupção sem a associação com os empresários que buscam nos cofres públicos o aumento de suas fortunas. O que se observa é que muitas vezes quem mais fala sobre corrupção também a pratica, e isso vale para os políticos, como vale para o cidadão comum.
            Nestes tempos cabulosos em que criaturas das trevas saíram à luz do dia para matar a utopia de um Brasil menos injusto, as eleições representam a perspectiva de retomada dos dias melhores que deixamos para trás com o golpe de 2016. Um colega levantou a seguinte questão: mas, e se no segundo turno der: Alckmin x Bolsonaro? Disse-lhe que considero altamente improvável, porém, pelo que eles representam se trataria: “de uma sinuca de bico quando o adversário já disputa a bola oito! É o pior dos mundos”!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Número Zero – de Umberto Eco



            Umberto Eco (1932-2016) era considerado pela imprensa italiana como o homem que sabia de tudo. Nascido em Alexandria e falecido em Milão, foi escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo. Lecionou em várias universidades de renome nos principais centros acadêmicos do mundo. É dele a famosa obra “O nome da Rosa” retratada também nas telas de cinema. A obra “Número Zero” se refere ao costumeiro exemplar experimental de uma revista ou jornal feito para ser demonstrado a possíveis anunciantes e assinantes com a intenção de verificar a sua aceitação.
Em sua obra, Número Zero, Umberto Eco tem como enredo a criação de um jornal intitulado “Amanhã” cujo objetivo é manipular, constranger e chantagear adversários políticos com a intenção de conseguir vantagens para seu financiador (um figurão milionário sedento por mais poder). Eco cria personagens como Maia, uma moça que vindo de uma revista de fofoca sobre celebridades, sonha que no jornal terá a possibilidade de enfim lançar-se ao sucesso profissional e pessoal realizando reportagens de grande impacto. Mas, desde o início sua capacidade é menosprezada por seu editor-chefe que lhe reserva a tarefa de fazer a imprescindível seção de horóscopo tão característica de qualquer jornal. 
A personagem central é Bragadoccio, um repórter investigativo que se aprofunda nas mais loucas teorias da conspiração desde uma suposta fuga de Mussolini organizada e escoltada por um grupo nazi-fascista, sendo que o cadáver tido como de Mussolini seria na verdade de um sósia dele. A trama envolve uma suposta participação do Vaticano ocultando o verdadeiro Duce e discorre até sobre a morte do Papa João Paulo I. O leitor bem informado encontrará nas páginas do livro alusões a personagens reais da história italiana, sendo que para as pessoas que não acompanham a história daquele país não constitui entrave para o entendimento da trama. Número Zero é a última obra de Umberto Eco antes de sua morte e é uma contundente crítica aos jornais e revistas que esquecem que seu principal ativo deveria ser o respeito ao leitor com a prestação de um jornalismo informativo de boa qualidade é quase sempre esquecido.

Sugestão de boa leitura:
  

Título da obra: Número Zero
Autor: Umberto Eco
Editora: Record
Ano: 2015
Páginas: 240
Preço no mercado: R$ 19,50 a R$ 84,00 (livro físico) e R$ 18,95 (e-book).




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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Você também trabalha ou só dá aulas?


O título acima causa a revolta dos educadores, pois, se trata de uma situação bem comum pela qual passam em diálogos com pessoas não atuantes na área da educação, e que surpreendentemente assim agem sem qualquer maldade. Isto se explica pelo fato de que somos um país cuja população em seu inconsciente coletivo considera trabalho como sendo apenas o braçal. Este escriba na qualidade de professor certa vez ouviu de um educando: “professor nem trabalha, fica só falando, queria ver por no cabo de uma enxada”. Penso que este educando, por sua pouca idade, repetiu falas que ouviu em sua casa ou meio social. E esse é um pensamento mais comum do que se imagina, tendo em vista que para parte da sociedade parece muito fácil ser professor, afinal como me disse um empresário: “é só ficar jogando conversa fora com os estudantes sem ter grandes preocupações como vender o suficiente para pagar os empregados e os impostos”. Minha mãe em resposta ao questionamento de uma lojista citou as profissões dos filhos. A lojista ao tomar conhecimento de que o filho mais novo (eu) era professor, afirmou: “mas, ele tem bastante estudo, com o tempo arranja uma coisa melhor”, note-se que minha mãe tem orgulho de eu ser professor.            
Se o magistério é uma profissão tão fácil, por que tantas matérias jornalísticas e artigos científicos estão sendo produzidos alertando sobre o risco de um apagão educacional por falta de professores? Se a educação é o paraíso das profissões por que os jovens da classe alta e média não a escolhem como seu futuro profissional? Se professor ganha tão bem como alguns dizem por que os jovens bem nascidos não são incentivados por seus pais a seguir em tão promissora carreira? Se o trabalho de professor é tão suave por que tantas pesquisas científicas mostram grandes índices de adoecimento entre seus profissionais? Se o magistério é uma atividade laboral tão tranquila, por que os educandos que dividem a rotina diária com seus mestres, nas diversas classes, em sua quase totalidade, não a desejam para si? Se o professor é o profissional responsável por formar os trabalhadores das mais diversas áreas, do operário ao empresário; do médico ao cientista; do advogado ao Juiz de Direito por que ele é tão pouco valorizado socialmente?
Segundo recente pesquisa metade dos professores não recomenda a profissão para um jovem. E se engana quem pensa que os problemas na educação se referem unicamente à questão salarial em que dentre as profissões que exigem igual formação, o magistério continua a ser a menos remunerada, não somente no Brasil, mas, na América Latina. As pesquisas mostram que além dos baixos salários, a falta de autonomia, a sobrecarga de trabalho, a pressão vinda de cima para baixo na busca de resultados, salas superlotadas, indisciplina e desinteresse de estudantes que não raras vezes acabam em violência verbal e física levam ao adoecimento dos profissionais da educação cujas enfermidades mais constatadas são: problemas gastrointestinais, enxaquecas, dores de cabeça persistentes, falta de sono, esgotamento físico e psicológico, varizes, bursites, doenças osteomusculares, perda parcial da audição e da voz, estresse, depressão e a síndrome de Bournout.
Vivemos um momento em que professores são tratados quase como criminosos. A eles é atribuída toda a culpa pelo insucesso dos educandos, e isso é feito de forma perversa, pois, se omite as péssimas condições de trabalho a eles entregues. Se cobra resultados dos educadores como se apenas deles dependesse o sucesso dos educandos, e muitas vezes tomando como base comparativa, os resultados alcançados pelos estudantes avaliados nos países da OCDE, mas, sem levar em conta a desigualdade social que nos diferencia de tais países, e que ceifa dos jovens pobres o que lhes é mais precioso: o sonho de uma vida melhor para si e sua família!

Fontes:







quinta-feira, 26 de julho de 2018

A tolice da inteligência brasileira: uma leitura crítica e necessária!



Em sua obra “A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite” Jessé Souza afirma que a dominação das classes privilegiadas sobre as demais ocorre por meio do convencimento. É necessário convencer o povo de que privilégios resultantes do capital financeiro adquirido por herança ou pelo capital cultural adquirido de berço são merecidos e que os excluídos são culpados de sua extrema miséria econômica e cultural. Souza alega que no passado o povo era convencido da justeza dos privilégios das elites pelos sacerdotes que garantiam que a nobreza tinha sangue azul por determinação divina e que hoje são os intelectuais a fazer este papel. Os privilegiados não querem apenas manter os privilégios, querem também convencer os excluídos de que seus privilégios são justos e que fazem por merecê-los. Para isso contam com intelectuais que tanto podem ser oriundos da elite ou conquistados mediante o poder financeiro. O autor faz profundas críticas a Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Roberto DaMata, Raymundo Faoro, etc. e desconstrói as teses da herança maldita de Portugal, do personalismo, do patrimonialismo, do brasileiro cordial, etc. demonstrando que a nossa sociedade é assim porque tem suas bases fincadas no sistema escravocrata e isso explica o caráter de nossas elites, no dizer de Darcy Ribeiro: “O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso” ou ainda “O Brasil tem uma classe dominante ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa, que não deixa o país ir pra frente”.
O autor reitera que há muito tempo o Brasil está entre dois projetos: continuar a ser uma sociedade com herança escravocrata em que cerca de 20% da população forma uma sociedade de consumo e mantém à margem a maioria da população, ou  incluir o restante da sociedade e formar uma grande sociedade de consumo em massa em que os pobres teriam asseguradas condições dignas de sobrevivência e os já ricos poderiam se beneficiar ainda mais. Jessé desmistifica o discurso meritocrático e prova ser ele falso ao demonstrar que a pessoa saída dos extratos mais pobres não tem a mesma condição para competir com a pessoa bem nascida (classe alta e classe média). Souza afirma que a classe média (capital cultural) tem uma inveja ressentida da classe alta (capital financeiro) e, que se considera melhor que aquela, pois, o que possui é seu por mérito tendo em vista não ter herdado grandes somas de capital e, por se localizar no meio, entre a classe alta (que sonha utopicamente ser), e a classe baixa (a ralé) constituída por pessoas excluídas do sistema. A classe média é muito importante para a classe alta, pois, constitui sua massa de manobra na manutenção da sociedade tal como se encontra. Assim, a classe média posa de moralista, faz o discurso da pseudo-meritocracia e luta contra qualquer possível avanço social das classes mais baixas. Nas palavras do saudoso intelectual Milton Santos (1926-2001): "A classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar."  Neste sentido, a classe média quer manter para si o filão dos empregos melhor remunerados, seja na Medicina, na Magistratura, etc. conservando as vagas nas universidades públicas para seus filhos. O avanço dos setores populares quanto ao ingresso nestas universidades, ainda mais por meio de cotas, é motivo de grande revolta nesta categoria de pessoas bem nascidas.
Jessé Souza demonstra que a herança escravocrata falou mais alto em 1954 contra Getúlio Vargas (cujo suicídio adiou o golpe civil-militar em 10 anos), no golpe de 1964 contra Jango, e contra Dilma em 2016. O autor fala que a política de inclusão social dos governos progressistas de Lula e Dilma provocou leves mudanças na estrutura social, mas, foi o suficiente para a “elite do atraso” acionar seus buldózers destruindo as fundações da nova pirâmide social que se pretendia inversa. Jessé demonstra em seu livro que as mesmas elites que combatem o Estado e o desejam mínimo para a população que dele necessita, o quer máximo a serviço de seu enriquecimento privado. As mesmas elites que se dizem contra a corrupção, construíram impérios por meio dela e na maioria das vezes fazendo uso do Estado em seu benefício, seja por empréstimos a juros subsidiados e muitas vezes não pagos; por leis que privilegiam os latifundiários com a baixíssima tributação; ou ainda, por maracutaias financeiras livres de punição por meio de leis construídas por políticos aliados e/ou financiados para este fim; ou ainda pela omissão/participação do Poder Judiciário. Souza afirma ainda que a teoria sociológica hegemônica no país é utilizada por grupos corruptos que hipocritamente erguem a bandeira do combate à corrupção, e tal como o ilusionista (mágico) desvia o olhar da população que vê no Estado a causa de todos os seus males, quando na realidade este se encontra no sistema capitalista que favorece a corrupção não apenas no Brasil, mas, em todo o planeta, e no qual os verdadeiros e maiores agentes da corrupção (grupos financeiros, industriais e comerciais) encontram-se no mercado tido como virtuoso.
Jessé Souza pretende contribuir para que a multidão de excluídos e as parcelas da classe média progressista e a aquela feita de tola entenda que este país pode ser melhor para todos, quando todos conseguirem enxergar o que há por trás desse discurso cientificamente construído (para manter intactas as estruturas de uma das sociedades mais perversas do mundo), e, de posse deste saber renovado reconstruam o país de forma que a todos seja garantida a dignidade humana, e ao país, a soberania nacional.

Sugestão de boa leitura:

A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite – Jessé Souza.  Ed. Leya, 2015.


           

domingo, 15 de julho de 2018

O grande salto para trás!



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            Há alguns dias ao ler sobre a China e as reformas que tornaram o dragão asiático, no país cuja economia mais cresce no planeta há mais de duas décadas. Reformas estas lideradas por Deng Xiaoping. Recuei um pouco mais no tempo e lembrei-me do programa “O grande salto para frente” do timoneiro Mao Tsé-Tung. Não vou aqui discutir a eficácia do programa de Mao, até, porque, para o bem ou para o mal, as glórias ou as críticas cabíveis quanto ao sucesso da China atual cabem a Deng Xiaoping. Num insight tive a ideia de escrever um artigo intitulado “O grande salto para trás” retratando as reformas que promoveram o retrocesso do Brasil delineando em quais áreas. Mas, resolvi pesquisar no oráculo que tudo sabe (Google) se alguém já havia escrito sobre tal tema ou título e descubro um documentário francês sobre o golpe de Estado de 2016 e o retrocesso que ele causou ao nosso país, tão logo li a descrição do que se tratava comecei a assistir.
O documentário começa mostrando o espetáculo horrendo daquele “domingo da vergonha”, a data em que as TVs brasileiras bateram recordes de audiência mostrando “cidadãos de bem” ou seria “de bens” que em sua miséria intelectual e ética declaravam que seu voto contra Dilma, era dedicado à esposa, à família, etc. num espetáculo grotesco, 54 milhões de votos foram cassados fazendo com que a vontade da maioria do povo brasileiro fosse desrespeitada, a Constituição Federal rasgada e a democracia estuprada por um Congresso Nacional que não representa o povo, pois, as campanhas eleitorais são caras e 80% dos parlamentares representam os interesses de 10% da população (a elite do capital financeiro) e não o povo constituído em sua ampla maioria por trabalhadores. Parte do povo que sonhava com um Brasil inclusivo, atônito, silencia, chora, enraivece. Do outro lado, comemorações e estas não se resumem à parte do topo da pirâmide social. O golpe tem a força de um nocaute, a mídia dominada por seis famílias, manipula e desinforma a população. O Brasil está muito próximo de uma ditadura da mídia. Uma mídia que neste país sempre agiu em benefício das elites e contra a democracia. O golpe é moderno, não há tanques, nem pessoas torturadas. As Instituições funcionam, a questão é de que forma? Para quê? Para quem? O rito processual foi cumprido, só faltava o crime. Não há crime. Cortar juros e lucros da elite financeira? Para a banca isso está fora de questão!  A banca se cansou de Dilma! E precisa dar um jeito nisso!
A mídia confunde a população, grande parte da sociedade sequer sabia que Dilma nada tinha a ver com a operação Lava-Jato. O procurador Dallagnol, O Juiz Moro (que apesar de ser da primeira instância, tem poderes tais que desconhece hierarquias) e vários policiais federais miram no PT (um partido que nem é tão esquerda assim), em Dilma e Lula, e ao avistar políticos da direita desviam o olhar: não vem ao caso! E afirmam: “como o PT estava no poder, as delações se referem unicamente a este”! Há controvérsias. Caciques tucanos são considerados intocáveis. A perseguição à Lula se faz com várias arbitrariedades e com muita pirotecnia televisiva. Busca-se destruir a reputação daquele que é considerado o maior presidente da história nacional. As redes sociais reagem conta o pseudo-jornalismo da Grande Mídia. As grandes revistas utilizam seus obuses contra Lula e o PT o objetivo da força-tarefa midiático-judiciário-parlamentar é prender Lula e impedir sua candidatura que certamente seria vitoriosa, pois, “o povo não sabe votar. A elite é que sabe”. O processo contra Dilma e principalmente contra Lula é Kafkiano. Temer faz jantares para os parlamentares e neles devoram os direitos dos trabalhadores. A receita do golpe conduz a mais de setenta anos de retrocesso, mais, um pouco e a Lei Áurea seria revogada. Os índices de popularidade de Temer se equivalem à margem de erro da pesquisa. E Temer liga para pesquisa? É apenas o fantoche a fazer o serviço sujo que em programa de governo jamais seria eleito nas urnas. O objetivo é levar o país o mais próximo possível de sua origem: o regime escravocrata, pois, a elite é branca, rica, masculina, heterossexual e velha mentalmente como eram os senhores de escravos, cujos filhos não se conformam com a libertação dos escravos. Certamente ninguém quer desembolsar um vintém por escravos, mas, dói para a elite observar essa gentalha (negros, mulatos, pardos, indígenas, sindicalistas, esquerdistas, feministas, etc.) se achando gente.
Os tempos são outros, líderes evangélicos impõem uma cunha fundamentalista religiosa retrógrada e conservadora no Estado laico. O financiamento para a agricultura familiar sai de cena, entra mais recursos para os latifundiários. O financiamento de casas para a baixa renda dá lugar a mais recursos para casas de alto valor para a classe média e alta. A produção de alimentos orgânicos dá lugar ao pacote plus, ou seja, mais veneno nos alimentos mais envenenados do mundo na mesa da população. A pergunta: os veneneiros se alimentarão destes mesmos alimentos? Ou plantarão/comprarão orgânicos? Mas, liberar o veneno não era suficiente, nossos nobres parlamentares resolveram que para o “bem” da população era necessário dificultar o acesso aos perigosos alimentos orgânicos, principalmente aqueles produzidos pelo maior produtor da América Latina (MST).
 A grande mídia que seguiu à risca os ensinamentos do Ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels do governo de Hitler fez com perfeição seu papel. O povo pobre odeia ou vê com desconfiança quem unicamente poderia lhe libertar e sabemos é impossível libertar quem não se reconhece na condição de escravo. Honduras, Paraguai, e finalmente, o Brasil, todas, Repúblicas das Bananas que recentemente tiveram seus governantes retirados do Poder por meio de golpes de Estado suaves ou se preferir, modernos. Nenhuma grande nação considera mais o Brasil como uma nação com algo importante a contribuir para o mundo. Somos motivo de estarrecimento, de preocupação ou de riso. O judiciário não se envergonha mais. Faz política. Rasgou a Constituição Federal e queimou os princípios elementares do Direito. Magistrados já não falam pelos autos, mas, buscam os holofotes da Mídia que tal como cocaína, os sacia de seu desejo e os aprisiona, afinal, assim como o viciado busca ter a simpatia do traficante, há magistrados que lambem as botas dos coronéis da mídia, seja pela busca do prazer que a exposição midiática lhe traz, ou quem sabe, por medo. Manter Lula preso é garantia de popularidade mesmo que parcial e de recursos por meio de palestras pagas por quem quer manter Lula atrás das grades (o grande capital nacional e estrangeiro). Carmem Lúcia disse que se o brasileiro soubesse o que ela sabe não dormiria de noite, e penso: e ela consegue? Se ela consegue, confirma não estar à altura do cargo que ocupa!
Penso que Temer no poder, age como um viciado em drogas pesadas vendendo tudo que há na casa para pagar o traficante, se satisfazer e ganhar mais tempo, o problema que a casa é o Brasil e o Brasil é o lar do povo brasileiro e o que ele vende pertence não somente a esta, mas, a futura geração de brasileirinhos e de brasileirinhas. O traficante é o grande capital nacional e estrangeiro. Eu disse povo? Essa é a estupefação dos europeus ao ver o desmonte que os abutres do MDB, PSDB, DEM e apaniguados estão fazendo com o país sem obter nenhuma resistência. Mas, isto é algo já explicado por Lima Barreto: “O Brasil não tem povo, o Brasil tem público. Povo luta por seus direitos, público apenas assiste”. Somos um país cuja população lamenta mais a perda da Copa do que a perda do Pré-Sal, da Embraer, dos direitos trabalhistas e previdenciários como se estes também não lhes estivessem sendo roubados. Somos um país que olha para os políticos e vê neles seu patrão ou pai e não seus funcionários.
A maior pobreza do povo brasileiro é a intelectual. Olhamos e não vemos. Escutamos e não ouvimos. Lemos e não compreendemos. Falamos e não dialogamos. Respiramos e não vivemos, porque viver é lutar, e em luta, antes há que se tomar partido, mas, delegamos ao outro que empreenda a nossa luta. O Problema é que ele faz o mesmo!

P.S.: O artigo é um misto de inspiração livre (liberdade poética) e relato do documentário Brasil: O Grande Salto para Trás (Brésil: Le grand bond en arrière) -  disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XDZ5UtlsqdA – acesso em 09 de Julho de 2018.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

A chave do enigma acerca do STF está em Lula ou em Jucá?



Lula (em grampo ilegal solicitado por Sergio Moro) disse a então presidenta Dilma: “[...] Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada”. Em outro grampo Jucá (um dos líderes do golpe de Estado de 2016) falava com Sérgio Machado sobre: “[...] um grande acordo Nacional, com Supremo, com tudo” [...] para retirar Dilma e estancar a sangria (da Lava Jato). Em qual destas frases repousa a verdade sobre as estranhas e esquizofrênicas decisões e chicanes que o STF vem impondo ao país? Em se tratando dessa turma de Ministros do STF nada mais deveria nos surpreender, não é mesmo? Mas, a gente sempre espera algo (a retomada da legalidade, do zelo na observação das leis, e, especialmente, o respeito à Constituição Federal), e fazemos isso, apesar do aviso do Barão de Itararé que afirmava: “De onde menos se espera é que não sai nada mesmo”! O deputado federal Paulo Pimenta (PT) a respeito da manobra chicaneira do Ministro do STF Edson Fachin que manteve a prisão de Lula (considerada inconstitucional até por seu colega Ministro Marco Aurélio Mello em entrevista a uma Rede de TV de Portugal), postou em rede social: "Fico a me perguntar, que interesses poderosos são esses, que agem nos subterrâneos, e que transformam advogados progressistas em Ministros covardes e servis nos tribunais superiores. Chego a pensar se não existe uma inteligência perversa por trás de tudo isso que estamos vivendo¹”? Wilson Ramos Filho foi além, escreveu um desabafo, que segundo pessoas que lhes são próximas é dirigida a Fachin. Eis o desabafo de Wilson Ramos Filho.

Meu amigo morreu²
Por Wilson Ramos Filho - Professor de Direito e advogado

Entramos juntos na faculdade, em 1976. Fizemos política estudantil, perdendo todas as eleições.  Rimos e choramos variadas vezes. Na vida é assim. Celebramos o nascimento de sua filha bem antes da nossa formatura. Meu amigo, inteligência vivaz, sempre tinha uma tirada, um sujeito de espírito. Nunca nos afastamos. Ele foi ser advogado público, lecionava Civil. Eu, advogado trabalhista. Tivemos muitas causas em comum, defendendo coletivos vulneráveis. Por culpa dele, grande incentivador, voltei para a vida acadêmica sem abandonar as lutas sociais. Devo-lhe isso. Um grande sujeito. Sempre houve reciprocidade, entretanto. Quando sua companheira precisou, eu era dirigente estadual da OAB. Na segunda vez deu certo. Fui de conselheiro em conselheiro por ela, não como favor. Ela tinha todas as credenciais e era a melhor opção.
Meu amigo queria ser magnífico, com maiúscula. Novamente me envolvi por inteiro na pré-campanha. Na última hora, achou melhor não disputar. Meu amigo não gostava de perder. Fizemos viagens juntos, pelo Brasil, ao México, à Europa. Algumas vezes em casais, outras só os meninos, oportunidades em que esticávamos a prosa no bar dos hotéis. Eu adorava a sagacidade dele. Era um sujeito adorável sob vários aspectos. Apoiei-o quando quis ser nomeado, não sem antes enfaticamente desaconselhar. Dizia-lhe que aquilo lá iria acabar com a vida dele, perderia a privacidade, a liberdade e teria que conviver com um monte de gente que nada tem a ver conosco. Sentia-se convocado. Quase como se fosse predestinado. Ele tanto fez que conseguiu. Cumprimentei-o, explicitando que desta última vez, a em que ele foi escolhido, meu candidato era outro. Elegante, compreendeu. Era muito gentil esse meu falecido amigo.
E deste jeito morreu. Não posso dizer que foi surpreendente seu passamento. Já vinha dando sinais. Não foi uma morte súbita. Mas muito me entristeceu. A morte tem dessas coisas. Ainda que esperada. Ao cabo de longa enfermidade ou ultrapassado o limite razoável de anos, deixa um vazio, um aperto no peito, uma angústia, sei lá. No fundo, até o último momento, ficamos com a irracional esperança de que a morte não ocorra. Morrendo, só restam as virtudes. Na morte é assim. Morreu. Foi um grande amigo. Nunca mais riremos, choraremos, tomaremos vinho ou chimarrão. E já sinto saudades do meu finado amigo.

FONTE: