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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Sobre fazer novo o ano novo!

                Todo final de ano se parece, as pessoas exaustas por um ano de muita labuta, divergem ao conceituar o ano que finda. Alguns comentam que o ano anterior foi muito bom e que esperam repetir a dose, outros desejam esquecer o ano que termina e apostam firmemente que o ano que se inicia será melhor. Chamou-me a atenção uma imagem do réveillon numa praia em que um menino negro sem camisa, com os pés na água, pois, provavelmente foi pular as sete ondas na passagem do ano, olha na direção do oceano com uma expressão preocupada (estaria ele olhando preocupadamente sobre o que as ondas do destino lhe trarão ou o oceano de preconceito e desigualdade no qual terá que navegar?), nesta imagem, ao fundo, pessoas brancas vestidas com a cor padrão da passagem do ano e de costas para o menino se abraçam (estariam elas a demonstrar seu caráter ao virar as costas, mesmo inconscientemente, para não ver algo que as tire de seu paraíso idílico?). A imagem diz tudo: o ano novo começou no calendário, mas, não nos corações e mentes das pessoas. Apesar do novo ano, o gari, mesmo tendo em vista sua grande importância social para a saúde e bem-estar da população, continuará sendo tratado por muitos como o “mais baixo na escala do trabalho” em conformidade com o pensamento de famoso apresentador de telejornal. Pobres continuarão sendo pessoas que “têm mesmo que trabalhar no dia de natal, pois, não estudaram” na opinião de um cliente abastado e daqueles que partilham de seu pensamento. Professores, apesar de seus imensos esforços em condições de trabalho cada vez mais precarizadas, e, em que pese sua extrema importância ante a crise civilizacional, continuarão a ser taxados de doutrinadores (que, no entanto, já não conseguem sequer fazer os educandos estudarem para as provas). E negros, serão sempre aqueles que inconvenientemente apertam a buzina dos automóveis na visão de outro apresentador de telejornal e daqueles que comungam de sua opinião.
            Há um texto genial de Roberto Pompeu de Toledo, geralmente atribuído de forma errônea a Carlos Drummond de Andrade do qual extraio um fragmento: “quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para frente vai ser diferente...”. A passagem de ano é uma celebração que Gramsci afirmava odiar, pois, entendia que esta se dava pelo signo do capitalismo, as pessoas celebravam porque seus antepassados celebraram. Ele não era contra as pessoas unirem-se em momentos festivos para celebrar o que fosse, mas, tal como Marx afirmava em relação à religião no século XIX, que a fé desprovida da luta, não muda o status societário, a passagem do ano, em si não mudava nada. Os opressores continuariam a ser opressores e os oprimidos continuariam oprimidos. Em seu ver, a não ser que a pessoa em seus propósitos resolvesse fazer de cada dia, um ano novo, e prestar contas consigo própria, porém, não em uma data fixa estabelecida pelo capitalismo, mas, a cada novo dia, em relação ao dia de ontem, o ano novo jamais ocorreria. Gramsci afirmava que não havia uma muralha que separasse o novo ano do que lhe antecedeu, pois, para a maioria, apesar do novo ano tudo continuaria como antes em virtude de seu imobilismo, de sua apatia em buscar fazer as mudanças ocorrerem ante as injustas situações postas.
            Para encerrar, cito um fragmento do artigo “Receita de Ano Novo” de Carlos Drummond de Andrade: “para ganhar um Ano Novo, que mereça este nome, você meu caro, tem de merecê-lo, têm de fazê-lo novo. Eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.
Afinal, fazer as coisas do mesmo modo e esperar um resultado diferente, não é mostra de persistência, mas de tolice! O ano de 2018 está dentro de você, cabe a você decidir se vai deixá-lo existir, ou se o aborta, e permanece em 2017, 2016, 1964, 1954, 1932...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Aqui não é o Brasil!

el          Observei neste ano que os carros 0 km não são mais vistos com tanta frequência em minha cidade como em anos anteriores. Em dezembro reapareceram em menor quantidade, mas, com um fato significativo, não são carros populares, mas, de alto valor e que logicamente foram adquiridos por pessoas mais aquinhoadas da sociedade. Lembrei que uma amiga foi a uma concessionária de outro município onde adquiriu um automóvel usado e ao notar que a loja comercializava veículos novos de alto luxo perguntou sobre a crise, e o proprietário respondeu que para ele não havia crise, pois, nunca houve redução do fluxo de vendas. Faz todo sentido, no capitalismo, em épocas de vento em popa, ninguém ganha mais dinheiro do que a burguesia, e, em épocas de crise, é a classe trabalhadora chamada a pagar a conta. Crise, cujas origens, comumente é a jogatina irresponsável dos grandes capitalistas nesse cassino global em que se transformou o capitalismo atual.
            Chama a atenção o silêncio dos manifestantes que se diziam contrários à corrupção e que foram fundamentais no encorajamento do grupo que hoje se encontra no poder e que nas palavras de Romero Jucá (PMDB) “num grande acordo nacional, com Supremo, com tudo”, estupraram a Constituição Federal, violentaram as mais elementares normas do Direito nacional e internacional desrespeitando até mesmo os Direitos Humanos e lançaram o país no grupo das nações com status de República das Bananas. Esses manifestantes não cessam de provar a sua hipocrisia, a sua desonestidade, o seu preconceito social. Nunca foram contra a corrupção. Sempre foram contra o PT, contra a classe trabalhadora, contra o que chamam de “essa ralé”, “essa gente desqualificada”. 
            Incomodava-lhes trabalhadores comprando automóveis e ocupando as ruas. Incomodava-lhes ver trabalhadores nos aeroportos. Incomodava à patroa, a empregada que utilizava a mesma marca de perfume. E incomodava muito observar que os trabalhadores, já não mais passavam fome e se davam ao luxo de escolher o emprego que melhor remunerava. A elite brasileira nunca deixou de ser escravocrata, a Lei Áurea não mudou a mentalidade dos capitalistas tupiniquins. Porém, a elite não é culpada de tudo, pois, ela tem forte apoio de pessoas da classe trabalhadora, que surrealmente formam um grande contingente de pobres de direita, dado o seu analfabetismo político, têm amor aos grilhões, à chibata e ao pelourinho do século XXI que atende pelo nome de Capitalismo Selvagem. São os escravos que não podem ser libertos, pois, não são conscientes de sua condição de escravidão.
Outro importante papel na manutenção da sociedade injusta que temos é aquele exercido pela pequena burguesia, que constitui verdadeira massa de manobra da grande burguesia nacional e internacional. São os feitores de escravos modernos, fazem a sustentação de um sistema que beneficia uma minoria de milionários e bilionários, tal como os feitores de escravos, muitas vezes negros, eram cruéis com sua própria gente, e se sentiam importantes, melhores do que os escravizados. Pensavam ter a consideração do Senhor de escravos que, no entanto, jamais o convidava para sentar-se à mesa para jantar na Casa Grande. Assim é a pequena burguesia, quer ser rica, como dizia Cazuza, porém, depende da classe trabalhadora para sobreviver, precisa vender seus produtos a ela, mas, por meio do voto ou do apoio a golpes de Estado ajuda a grande burguesia que vende para o mercado externo, a reduzir os salários dos trabalhadores que comprarão menos e consequentemente minguarão as vendas e os lucros no mercado interno. A pequena burguesia é extremamente alienada e não consegue sequer perceber o papel de massa de manobra que historicamente sempre desempenhou.
            A reforma trabalhista apresentada como benéfica para a classe trabalhadora é um embuste. A CLT e a Constituição Federal jamais negaram aos patrões o direito de oferecer benefícios extras aos trabalhadores. A reforma trabalhista apenas beneficia o patronato. O objetivo agora é a inviabilização de Lula, mesmo sem provas contra ele, senão o golpe não fecha. Vivemos um Estado de exceção, a Justiça já deu provas suficientes de seu partidarismo, de sua parcialidade e da corrupção que lhe impregna as entranhas. As instituições estão podres. A Grande Mídia é antidemocrática. A grande burguesia nacional que é impatriótica deseja e está conseguindo fazer o país voltar ao estágio de colônia das metrópoles.
          Desde que assumiu o poder por meio de um golpe de Estado, Michel Temer tem feito jantares sofisticados e oferecido cargos e recursos financeiros para os deputados apoiarem reformas que prejudicam a população e beneficiam banqueiros e grandes capitalistas nacionais e estrangeiros. Qual teria sido a repercussão se Lula ou Dilma tivessem feito tais jantares e oferecido cargos e recursos financeiros a deputados mesmo que com outros objetivos? A Grande Mídia permaneceria calada? Os batedores de panela ficariam calados? Afinal, Temer está no poder, por causa dos opositores à Dilma. Aos manifestantes que bateram panela e apoiaram o golpe de Estado. Temer era para ser sempre um vice decorativo. A culpa de Temer no poder, e da reforma trabalhista, da reforma previdenciária e do entreguismo dos recursos naturais e das estatais é dos opositores que contribuíram para o golpe.  Mas saber isto não nos redime! Somos todos covardes em ver o país sendo destruído e nada fazermos! O povo argentino em manifestação contra as reformas do governo Macri, bradou: aqui não é o Brasil! Fiquei com vergonha! Com muita vergonha!  

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O essencial é invisível aos olhos!

               Na obra mundialmente consagrada de Antoine de Saint-Exupéry, “O Pequeno Príncipe”, que deve ser lida tanto pelo público mais jovem e também pelo público adulto, Saint-Exupéry cunha uma frase que considero emblemática dentre outras tantas não menos significativas: “o essencial é invisível aos olhos e só poder ser visto pelo coração”! 
                No governo Jaime Lerner (PFL – atual DEM), ocorrido no período de 1995 a 2002, o famoso arquiteto demonstrou como político e gestor que é um bom arquiteto. Sua gestão foi péssima, endividou o estado do Paraná, promoveu uma política de arrocho salarial sem a reposição da inflação ao magistério paranaense, atrasava o pagamento de promoções, progressões e gratificações estabelecidas em lei. Além disso, contra a vontade do povo paranaense tentou privatizar entre outras estatais a Copel, além do Banestado, cuja privatização foi uma espécie de queima de arquivos por conta do escândalo da CPI do Banestado cujas contas CC5 enviaram ilegalmente para o exterior cento e trinta e quatro bilhões de dólares em plena época das privatizações tucanas de FHC. 
              O doleiro envolvido no escândalo Banestado era Alberto Youssef, o delator premiado com uma redução de pena de 122 anos para três anos na Operação Lava-jato. O juiz da época era Sergio Moro, o mesmo da operação Lava-jato. Havia vários políticos e empresários ligados ao grupo que estava no poder, tucanos e atucanados. Apesar das provas, tudo foi arquivado e todos escaparam ilesos. Não vinha ao caso! Contribuía para isso o Procurador Geral da República, Geraldo Brindeiro, que ficou conhecido como “Engavetador Geral da República”, uma versão anterior de Raquel Dodge, que ainda não nos cabe julgar, mas, cuja expectativa do governo golpista e corrupto de Temer é a de que exerça este papel (num grande acordo nacional, com Supremo, com tudo...).
            Lerner fazia um governo que no entender da oposição, e também desse escriba acabava quando a TV era desligada. Havia muito marketing e pouca eficiência na gestão. A mídia constrói gigantes com pés de barro. Ao se fazer um exame acurado eles não se sustentam. Jamais concorreu a outro cargo público. Nesse clima de revolta com o arrocho salarial, de escolas com os repasses de recursos para a manutenção das mesmas, congelados e atrasados, este escriba e centenas de outros colegas, foram a um curso de motivação (lavagem cerebral) promovida por uma empresa privada paga a preço de ouro, realizada em Faxinal do Céu, município de Pinhão (PR) com recursos oriundos de empréstimo junto ao Banco Mundial. 
            Universidade do Professor, marketing perfeito, mas, para motivar os trabalhadores em educação, o sensato seria melhorar suas condições de trabalho. Greves se fizeram sem visar avanços, mas, para não perder direitos. Jaime Lerner e seu partido representavam a ponta de lança do neoliberalismo nacional. Em uma das oficinas, assisti a um filme intitulado “Festa de Babette”, em que uma cozinheira francesa se refugia na casa de duas irmãs dinamarquesas fugindo da Comuna de Paris. Trabalha de graça em troca do abrigo. Babette ganha na loteria e gasta toda a sua fortuna num jantar para as irmãs e seus convidados com o que há de mais fino na gastronomia francesa. Na época com o coração magoado pelos maus tratos do governo, eu e vários colegas não entendemos o significado do filme. Pensamos ser ridículo, gastar a fortuna de uma vida num jantar e viver como pobre no dia seguinte. Apesar de que na película, a personagem falava: “eu sou uma artista e artistas nunca são pobres”.
            Hoje, após publicar meu livro e todos os cuidados que tive visando à perfeição, a revisão, a capa, o papel, o tamanho da fonte, o lançamento, etc., entendo isso. Neste mesmo sentido, arquitetos elaboram para si, projetos que visam à perfeição, tantas vezes podados por seus clientes. Engenheiros automobilísticos constroem carros-conceitos cuja perfeição e alto valor agregado tornam seu custo de produção inviável para a produção comercial. O “essencial é invisível aos olhos, só se pode ver com o coração” ensinou Saint-Exupéry, da mesma, forma, desejo a você caro (a) leitor (a) que esse mundo que se apresenta nunca turve o seu olhar!

sábado, 16 de dezembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” Parte 5

            O Presidente John Fitzgerald Kennedy assassinado no dia 22 de Novembro de 1963 em Dallas no Estado do Texas, JFK como era conhecido faz parte do rol dos presidentes estadunidenses que não terminaram seus mandatos. A lista inclui além de JFK: Abraham Lincoln (1865); James Garfield (1881); William McKinley (1901). Outros nove presidentes sofreram atentados, mas, sobreviveram: Andrew Jackson (1835); Theodore Roosevelt (1912); Franklin Delano Roosevelt (1945); Harry Truman (1950); Richard Nixon (1974); Gerald Ford (1975), Jimmy Carter (1979) e Ronald Reagan (1981). Não se pode afirmar com certeza, mas, talvez as incumbências do cargo, contribuíram para as mortes naturais de quatro presidentes: William Henry Harrison, problemas pulmonares (1841); Zachary Taylor, complicação gastrointestinal aguda (1850); Warren G., infarto (1923); Franklin Delano Roosevelt, de AVC (1945). 
            Ocupar o cargo de mandatário mais poderoso do mundo tem seus riscos. JFK passou por um período turbulento da Guerra Fria, em que sentiu o vento quente da guerra termonuclear soprando-lhe o rosto. No governo, logo entendeu que havia um Estado dentro do Estado e que no entender dos militares caberia ao presidente chancelar as decisões destes. Porém, JFK esteve na guerra, e, certa vez confidenciou a um assessor que se atendesse a tudo que os militares solicitavam, a espécie humana estaria extinta em questão de horas. 
         Quando houve a tentativa de invasão da Baía dos Porcos em Cuba, JFK não aprovou o bombardeio aéreo de Cuba solicitado pela CIA, por receio de que a URSS pudesse intervir. A tentativa de invasão resultou em fracasso. Em 1961, durante a crise dos mísseis, os militares queriam ir para cima da URSS, mas, JFK e Nikita Krushev (URSS) chegaram a um acordo evitando o fim do mundo. Pairam inúmeras dúvidas sobre as circunstâncias da morte de Kennedy e seus possíveis envolvidos, talvez, da própria CIA. No lado soviético, Nikita Krushev perdeu apoio político no PCUS, pois, ao evitar a guerra nuclear, retirando os mísseis de Cuba, teria demonstrado fraqueza. 
             A arrogância estadunidense levaria a nação ianque ao desastre da Guerra do Vietnã (1959-1975), ocasião em que os EUA apoiavam uma ditadura capitalista no Vietnã do Sul contra os guerrilheiros comunistas que desejavam a derrubada da ditadura capitalista, a reunificação do país e a adoção do sistema socialista considerado de caráter mais nacionalista. Apesar do imenso poderio tecnológico e militar, e de ter utilizado armas químicas, Tio Sam sofreu uma enorme derrota contra um adversário fraco, porém, determinado a defender seus ideais. Essa derrota abriu uma enorme cicatriz na face dos EUA. 
             A crise do petróleo de 1973-1980 foi resultante das guerras árabe-israelenses, quando em represália, os países árabes resolveram utilizar o petróleo como arma política reduzindo a produção e a exportação, o que elevou substancialmente o preço do barril de petróleo causando inflação global. De má-fé, a crise foi anunciada como resultante do esgotamento do modelo Keynesiano e do Estado de Bem-Estar Social.
                  Os teóricos neoliberais da Escola de Chicago (Chicago boys) que tinham utilizado o Chile do ditador Augusto Pinochet como laboratório do neoliberalismo, agora pretendiam ir ao centro do sistema, e de lá irradiá-lo para o mundo todo. A “Dama de Ferro” Margareth Thatcher na Inglaterra (1979), e Ronald Reagan (1981) que foi ator e presidente do sindicato dos artistas iniciaram o trabalho de desmonte dos Estados de Bem-Estar Social e de toda a regulação da economia então existente. Fizeram reformas, retirando direitos trabalhistas e envidaram esforços na destruição ou enfraquecimento de sindicatos para beneficiar a acumulação capitalista, o que aumentou a desigualdade social em seus países, bem como a miséria, até então praticamente inexistente. 
            As grandes corporações financeiras e industriais passaram a dominar o Estado e os investimentos sociais foram e continuam a ser reduzidos. O Estado, por meio do Governo, independentemente do partido no Poder, passou a ser uma espécie de cartório para carimbar as solicitações da alta burguesia. A livre-negociação ou a “lei da selva” se tornou o mantra sagrado dos capitalistas nas suas relações com a classe trabalhadora. O livre-mercado é defendido quando beneficia os EUA, porém, diante de concorrentes mais competitivos, é substituído pelo velho protecionismo. Quanto ao protecionismo dos outros, este é aberto por meio de pressões, chantagens ou dos músculos de Tio Sam.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 4

     O primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) sempre se jactou da superioridade do povo anglo-saxão. Durante o período da colonização da África e da Ásia, os europeus afirmavam empreender uma missão civilizatória em benefício do povo africano e/ou asiático. Nada mais falso, o fardo do homem branco foi e continua a ser carregado pelos povos explorados, pois, suas riquezas se tornaram a causa de sua pobreza e das guerras que assolam principalmente o continente africano. 
                Os Estados Unidos que poderiam ter empreendido um papel proativo nas causas humanitárias e ambientais saíram pela tangente. Mas, os EUA, talvez por ser uma nação de colonização anglo-saxã adotaram o discurso do fardo do homem branco. A missão civilizatória dos EUA consiste em fazer guerras, invadir países, financiar e apoiar golpes de Estado. 
            Sob o falso discurso da defesa da democracia apóiam a implantação de ditaduras capitalistas para supostamente evitar ditaduras comunistas. Destroem a infra-estrutura dos países que lhe servem de alvo para em seguida oferecer suas empresas de engenharia para a reconstrução mediante pagamentos ou concessões. Enfim, os EUA com seu aparato bélico em ação estão a dizer: OK, garotos queremos negócios! O que vocês têm a nos oferecer em troca da nossa “Pax americana”? 
            Os Estados Unidos buscam impor ao mundo o “american way of life”, no entanto, segundo Perry Anderson citado por Kiernan: “se todos os povos da Terra possuíssem a mesma quantidade de geladeiras e automóveis quanto os da América do Norte e da Europa Ocidental, o planeta se tornaria inabitável. Hoje na economia global do capital, o privilégio de poucos exige a miséria de muitos para ser sustentável”. 
            Kiernan cita ainda Walter Lippmann: “todos pensam nos Estados Unidos como um império exceto o povo dos Estados Unidos. Nós nos arrepiamos com a palavra “império”. Insistimos que ela não deveria ser usada para descrever o domínio que exercemos do Alasca até as Filipinas, de Cuba ao Panamá, e além. Pensamos que tem de haver outro nome para o “trabalho civilizatório” (aspas nossas) que fazemos de modo “tão relutante” (aspas nossas) nesses países atrasados”.
               Ainda sobre a alienação do povo estadunidense acerca do papel global desempenhado por seu país, Kiernan cita Midge Decter, biógrafo adulador do então secretário de defesa Donald Rumsfeld: “Afinal de contas, os americanos são em geral pessoas boas, provavelmente as melhores do mundo, com medo da mesquinhez em outros, e talvez até mais temerosos da acusação de serem eles mesmos mesquinhos”. Kiernan afirma: “o americano médio acredita que os EUA dediquem 15% do orçamento nacional a ajuda externa, em vez do número verdadeiro de 0,1% o que faz do governo americano o menos generoso dentre as 22 nações da OCDE” (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). 
                Contribui para o analfabetismo político de considerável parcela da população estadunidense, a grande mídia, que é considerada antipatriótica pelas lideranças políticas, e até mesmo por outras empresas de mídia, sempre que se posiciona contra guerras ou interferências dos EUA em outros países. O ex-presidente George H.W. Bush citado por Kiernan, e se referindo a um avião iraniano lotado com 290 civis derrubado pelos Estados Unidos afirmou: “Eu nunca pedirei desculpas pelos Estados Unidos. Os fatos não me importam”. E assim são os EUA, que até hoje não pediram desculpas pelo lançamento das bombas atômicas contra o Japão. Acredito que tal nação continue a agir dessa forma até a extinção da humanidade neste pequeno planeta, que poderá ocorrer, quem sabe, por meio de bombas atômicas.

sábado, 11 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 3

        No final da Segunda Guerra Mundial, soldados estadunidenses e soviéticos comemoravam juntos às margens do Rio Elba a vitória sobre as tropas alemãs. Não podiam imaginar que o caminho da cooperação trilhado por suas nações seria abandonado no período seguinte conhecido como Guerra Fria. Hoje se sabe que o Japão estava disposto à rendição ainda em Maio de 1945, pois, sabia que a prometida entrada da União Soviética no front asiático era sua sentença de morte. Fazia uma única exigência: a preservação do Imperador tido como um semideus na tradição japonesa ante a afirmativa estadunidense de que não poderia impor nenhuma condição. 
        O desejo dos EUA de não mais cumprir as cessões já acordadas de áreas de influência para a União Soviética, o levam a lançar as bombas atômicas para intimidar esta, porém, Stalin por meio de seus espiões já sabia da bomba antes mesmo da explosão experimental (Trinity) no deserto de Alamogordo. Stalin mantém suas intenções por áreas de influência e acelera o programa nuclear soviético. 
        O presidente Truman, considerado despreparado para o cargo que assumiu após a morte de Roosevelt acreditava que os soviéticos jamais conseguiriam desenvolver sua própria bomba atômica. Ele estava enganado, os EUA ficaram pouco tempo no monopólio do poder nuclear. Algo já esperado pelo físico Julius Robert Oppenheimer líder do projeto Manhattan, afinal, “não havia segredo a esconder de um país que contasse com bons físicos”. 
            A Guerra Fria se traduziu numa disputa por áreas de influências entre os EUA e a URSS. Nunca houve um confronto direto, pois, este se traduzira na M.A.D. (mutually assured destruction), a destruição mutuamente assegurada tendo em vista o tamanho de seus arsenais nucleares. O mundo passou a ser dividido entre países alinhados aos EUA ou à URSS. Houve também o grupo dos não alinhados que discordavam da forma de agir de ambas as superpotências. 
             Após o soco no estômago recebido pela Revolução Cubana de 1959, os EUA não mediram mais esforços para intervir em outras nações especialmente as latino-americanas. A nação ianque preferia ditaduras a regimes socialistas em seu quintal. Várias destas nações sentiram-se envolvidas na Guerra Fria, quando golpes de Estado patrocinados, estimulados ou até orquestrados por Washington foram postos em prática. Malas de dólares foram dadas para generais corruptos do Exército Brasileiro. O Brasil recebeu em seu litoral uma frota estadunidense inteira inclusive com porta-aviões para apoiar o golpe caso o Exército não conseguisse dar conta do recado. 
             Os EUA treinaram militares brasileiros na prática de métodos de interrogatórios (tortura) na chamada Escola das Américas. O Brasil repassou seus ensinamentos aos países vizinhos que implantaram ditaduras com o aval e assistência técnica e financeira dos EUA (justamente o país que se declara o maior defensor da democracia no mundo). Sobre isto o presidente João Goulart deposto em 1964 disse: “Os EUA falam muito em democracia, mas, deveriam permiti-la”. 
         Em 1965, um ano após o golpe, empresas estrangeiras, principalmente estadunidenses, começaram a desfrutar dos benefícios da troca do governo democrata e patriota de João Goulart pela entrada de um governo autocrata e dócil a Washington. O caminho para os recursos naturais e o mercado brasileiro estava agora plenamente acessível. Veio o famigerado AI-5, o fim das garantias individuais, as prisões ilegais, as torturas, os assassinatos, a censura, etc. E até hoje, se busca ocultar o que ocorreu naquele período (1964-1985), mas, que parafraseando Kiernan ao falar do Haiti, compreende também o Brasil: “há um excesso de cadáveres no armário. Também, é claro, quanto mais tirânico e impopular um ditador, mais ele está ligado por lealdade a Washington”.

sábado, 4 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jônatas se transformou em Tio Sam” - Parte 2

          O estímulo concedido à economia dos EUA pelos países em esforço de guerra havia passado. Os EUA entraram, então, na sua maior crise econômica (1929). Os índices de desemprego e de pobreza eram alarmantes. Os preços das ações na bolsa de valores de Nova Iorque despencaram. Tal como na brincadeira de enfileirar peças de dominó, a crise se alastrou pelo planeta, derrubando as economias de inúmeros países. 
          O presidente Franklin Delano Roosevelt lançou o plano New Deal, cuja ênfase se deu em maciços investimentos estatais em infraestrutura, na forte regulação e intervenção estatal na economia para o constrangimento dos liberais radicais. No entanto, graças ao intervencionismo estatal amparado na teoria econômica de John Maynard Keynes, o capitalismo estadunidense foi salvo da ação destruidora dos próprios capitalistas. 
            Segundo Kiernan, “na Alemanha nazista, o capitalismo era recuperado por meios ainda mais drásticos, eliminando agitadores socialistas ou sindicalistas” (e pensar que em pleno século XXI, ainda há analfabetos políticos que acreditam que o governo de extrema direita de Hitler era socialista, apesar de este ter enviado milhares de socialistas e sindicalistas para as câmaras de gás). 
           Antes de finda a Segunda Guerra Mundial, o mundo mergulha na Guerra Fria. Os Estados Unidos da América resolve apressar o fim da guerra para evitar maiores perdas de vidas de soldados estadunidenses. O presidente Harry Truman autoriza o uso das famigeradas bombas atômicas contra o Japão. Segundo especialistas, a ação foi injustificada, pois, mantido o cerco naval, em poucas semanas, o Japão se renderia. Os EUA, pensando no mundo pós-guerra, resolvem fazer uma demonstração de poder ao mundo, e principalmente à União Soviética (sua aliada na luta contra a Alemanha nazista) e futura adversária na Guerra Fria. 
               Os EUA se tornam a primeira e única nação covarde o suficiente para utilizar o mais poderoso e vergonhoso artefato bélico já inventado contra uma população civil. Milhares de pessoas morreram na hora. As sobreviventes, certamente invejaram aquelas que morreram instantaneamente, devido aos terríveis sofrimentos e sequelas que lhes foram impostos. No Japão, ainda hoje, nascem pessoas com deficiências e má-formação congênita resultantes de alterações genéticas de seus ascendentes, sobreviventes do maior ato terrorista da humanidade, infligido pela nação mais terrorista da história. 
             A indústria bélica estadunidense é a mais desenvolvida do planeta e tem em seu próprio país, o maior comprador de armas. Ninguém investe tanto em armas e as utiliza tanto. Nenhuma nação fez mais intervenções em assuntos internos de outros países que os EUA, e para tal se utilizam do “Soft Power” que se traduz em pressões diplomáticas ou econômicas, e quando este falha, a opção seguinte é a utilização do “Hard Power”, quando o país exibe e utiliza seus músculos. 
            No entender de Kiernan: “a colossal máquina de guerra estadunidense é o punho que se esconde por trás da “mão invisível” do mercado”, e que torna possível a abertura de mercados para os produtos estadunidenses, e faz de sua economia, a superpotência que é. Ou ainda, conforme Michael Ledeen, citado por Kiernan: “a cada dez anos mais ou menos, os Estados Unidos precisam pegar algum país pequeno e sem importância e jogá-lo contra a parede, só para mostrar ao mundo que queremos negócios”. 
               A economia dos Estados Unidos foi enormemente beneficiada pelas duas Guerras Mundiais, pois, não sofreu grandes perdas por seu território não ser palco delas (exceção ao Havaí). Por ser grande provedor de armas e víveres para as nações em esforço de Guerra, os estoques de ouro das nações européias foram conduzidos aos cofres estadunidenses como pagamento. O país passou a ter banqueiros a financiar atividades econômicas no mundo todo, sendo estas de iniciativa de compatriotas ou não.
         Sempre disposto a desenvolver o capitalismo, a nação estadunidense por meio de seu representante na ONU sugeriu aos países subdesenvolvidos que realizassem a reforma agrária, pois, esta é essencial para elevar padrões de vida e de consumo da população. Então, para os EUA, a reforma agrária é ótima para o capitalismo. No entanto, as elites alienadas dos países latino-americanos não gostaram da idéia e afirmaram ver nela indícios de socialismo. O estranho é que a tal “proposta socialista” veio do país mais capitalista do planeta. Estão certos os Estados Unidos ou as “sábias” elites latino-americanas?