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sábado, 21 de setembro de 2013

A teoria do Direito x a teoria da Direita

 

              O escritor e editor Luiz Fernando Emediato da Geração Editorial classificou o livro “A outra história do Mensalão: as contradições de um julgamento político” de autoria do jornalista Paulo Moreira Leite (ex-diretor da revista Época, ex-redator-chefe da revista Veja e atual diretor da revista Istoé em Brasília) como uma obra corajosa, independente e honesta. 
                 No livro, o autor afirma que o julgamento do chamado “Mensalão” foi contraditório, injusto e político por ter feito condenações sem provas consistentes e sem obedecer a regra elementar do Direito segundo a qual todos são inocentes até que se prove o contrário. 
                Também afirma que os réus estavam condenados antes de o julgamento começar por aqueles que se consideram a própria opinião pública, os meios de comunicação, que segundo o autor tiveram total desprezo pela isenção, assumindo desde o princípio posicionamento pró-condenação, pressionando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como relatou o próprio ministro Lewandowski: “A imprensa acuou o Supremo. 
              Não ficou suficientemente comprovada a acusação. Todo mundo votou com a faca no pescoço”. No livro, o autor demonstra que o STF, guardião das leis e da Constituição cometeu injustiças, o que considerou preocupante, e, citando o romance “O Processo” de Franz Kafka, afirma: “[...] no limite podemos acreditar na possibilidade de sermos acusados e condenados por algo que não fizemos, ou pelo menos não fizemos na forma pela qual somos acusados”. 
                 O processo do Mensalão trouxe segundo a obra, penas robustas e provas fracas e ao contrário do que prega como já dissemos a regra elementar do Direito de que todos são inocentes até que se prove o contrário, a metodologia do julgamento foi realizada de forma a dificultar ao máximo a defesa, indo contra a lisura de um processo penal em que é assegurada ao réu a ampla defesa. 
            Estariam os ministros sendo influenciados pelo “reality show” em que se transformou o Mensalão? Os ministros viram-se atores do “reality show” e começaram a preocupar-se com sua atuação e perderam o foco no que é principal, o Direito? Sabemos que os ministros não podem julgar segundo sua ideologia, mas, claramente embasados no Direito! Isto é o que separa um Estado de Direito, portanto, democrático, de um Estado autoritário, ou seja, uma ditadura, em que suposições são suficientes para a perda da liberdade.
                 Pesa contra o STF o fato de que embora o Mensalão Tucano (que a imprensa evita tocar nesse assunto e quando o faz chama de “Mensalão Mineiro”), ocorrido anteriormente ao Mensalão Petista ter seu julgamento postergado, ora, se alguns atores são os mesmos, não seria o correto seguir uma linearidade no tempo, investigando, apurando, julgando conforme a ordem dos fatos? 
                    E por que ao Mensalão Tucano além da protelação, foi concedido pelo STF o benefício do desmembramento do processo que favorece a defesa e ao Mensalão Petista não? Ao dar tratamento diferente para o Mensalão Petista e ao Mensalão Tucano, o STF tem um sistema “dois pesos, dois mensalões”? Não seria ou não deveria ser o STF o principal interessado em possibilitar a mais ampla defesa? (Ao contrário do que ocorreu, uma vez que a defesa dos réus criticou o STF por dificultar o trabalho da mesma)? E por que a mídia não dá o mesmo destaque e cobrança quanto aos fatos envolvendo o Mensalão Tucano? Se o julgamento do Mensalão fosse a perfeição técnica que Joaquim Barbosa sustenta ser porque ele não é unanimidade entre seus pares e nem mesmo entre renomados juristas deste país que a ele não pouparam críticas? 
                Não se trata de afirmar que o Mensalão foi uma criação do subconsciente coletivo, mas de criticar a dinâmica condenatória que vai contra a Teoria do Direito e a acusação equivocada, crimes “podem” ter ocorrido (talvez, Caixa 2), mas não necessariamente aqueles pelos quais aos réus está se imputando culpa! 
                Os recursos eram públicos ou privados? (Não há consenso e isto é uma questão central)! E nisso reside outra constatação, se o que se pretende é acabar ou pelo menos reduzir os riscos do abuso do poder econômico e das negociatas pós-eleitorais, precisa-se então da reforma política e do financiamento público de campanhas eleitorais! Quem é contra? Aqueles que viram no atual sistema um celeiro de oportunidades! Grande parte dos quadros ligados à Direita! 
                 A Teoria do Domínio do Fato faz a alegria daqueles que desejam a condenação dos réus, tal teoria que embasa as acusações contra os réus tem como contraponto as investigações da Polícia Federal que nada encontraram de provas conclusivas, então se não há provas consistentes, aplica-se a Teoria do Domínio do Fato, que, diga-se, não é unanimidade entre os juristas, pois ela aponta responsabilidades invisíveis, ou seja, se determinado réu ocupava certo cargo, parte do princípio de que “não é possível que não soubesse...”, “não é plausível que não tivesse participação...”, etc. 
               Obviamente queremos um país livre da corrupção, no entanto, tal tema é frequentemente usado para golpes contra políticos democraticamente eleitos no mundo todo e o Brasil não é exceção, aliás, houve até ministro do STF que afirmou que a ditadura “foi um mal necessário” (Marco Aurélio de Mello), isso, e historicamente, várias absolvições ainda não digeridas pela população de réus comprovadamente culpados deixa sobre o STF um espectro de parcialidade, de facciosismo, etc. dando a impressão da justeza daquela famosa frase “aos amigos a lei, aos inimigos os rigores da lei”. 
                De uma coisa tenho certeza, a Direita incapaz de fazer oposição competente a um governo popular, cujos indicadores socioeconômicos demonstram claramente a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes se aquartelou no STF e espera que a Grande Mídia faça o discurso oposicionista esperando através desta o convencimento da população de que nosso país encontra-se no fundo do buraco e que deveríamos seguir a receita neoliberal dos países europeus que descobriram que o fundo do buraco tem subsolo! 
                Enfim, a Direita tem a sua teoria para voltar ao Poder e nela o STF e a Grande Mídia são fundamentais, esperamos nós (o povo) que vivemos atualmente o melhor momento socioeconômico da história desse país que o STF não fique em ilações e aplique a teoria do Direito e não a teoria da Direita, a qual alguns de seus membros parecem ter inclinação ideológica. 

Sugestão de boa leitura: 
Título: A outra história do Mensalão: As contradições de um julgamento político.
Autor: Paulo Moreira Leite.
Editora: Geração Editorial, 2013, 352 p.

sábado, 14 de setembro de 2013

A carapuça que te cabe..., cabe?

Sou admirador do apresentador, ator, compositor e cantor Rolando Boldrin (atualmente apresentando o Sr. Brasil na Rede Cultura de São Paulo) desde os tempos do Som Brasil, programa da Rede Globo que ia ao ar nas manhãs dominicais. Rolando Boldrin nascido a 22 de Outubro de 1936, em São Joaquim da Barra no interior de São Paulo, gravou pérolas da música sertaneja raiz como “Vide Vida Marvada” e “Eu, a viola e Deus” para lembrar apenas alguns de seus inúmeros sucessos. No programa Som Brasil, Boldrin recebia artistas que tocavam modas sertanejas e entre uma apresentação e outra de artistas contava piadas e “causos”. Gosto desse talento nato de pessoas que sabem contar essas estórias que traduzem a cultura popular tal como faz o companheiro João Olivir Camargo na sua coluna “O Ponto do Conto” no jornal Correio do Povo do Paraná. Sempre ouvi falar que aquele “amigo” que te coloca em situações difíceis é um “amigo da onça”, mas até então não sabia a origem dessa expressão, assim, numa certa manhã de domingo, algumas boas e bota boas primaveras atrás, Rolando Boldrin contou que: “um compadre chegou até o outro e disse: Compadre, se você estivesse sozinho e te aparecesse uma onça, o que você faria? – E o compadre respondeu: É fácil, compadre! Eu pegava a espingarda e matava a onça! – E o compadre então falou: Não! Imagine que você não tem espingarda! – O compadre responde: Então eu puxava da pistola e matava a onça! – O compadre diz: Não! Imagine que você não tem pistola! – Bom, então eu puxava da peixeira e matava a onça! – O compadre novamente: Não! Não! Imagine que você não tem peixeira, não tem nada! – Bom, então eu corria da onça e subia numa árvore bem alta e esperava a onça ir embora! – Ao que o compadre interfere: Não! Imagine que no lugar não tem nenhuma árvore por perto! – Aí, o compadre irritado responde perguntando: Peraí, compadre! Você é meu amigo ou é amigo da onça”? (Risos). Esse conto é a explicação para o assim chamado falso amigo que conhecemos como “amigo da onça”. Penso que “amigos da onça” só existem aqueles que se dedicam a preservação desse magnífico animal silvestre, de resto, não existe falso amigo, ou é amigo ou não é! Pessoas que te colocam em situações difíceis não são e não podem ser considerados amigos. Algumas vezes, pessoas se indignam com o que escrevo, no entanto, este espaço é para mim sagrado, não o uso para atingir ninguém, pois, discuto ideias e não pessoas! Vivemos num país democrático, e, portanto livre, e como Rosa Luxemburgo nos ensinou: “a liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente” e se isto não for suficiente, quem é amigo de verdade, sabe assim ser e quem é de mentira também! Há alguns dias li um post no Facebook que afirmava que se você lançar uma indireta na referida rede social visando apenas uma pessoa e não nominá-la você perderá todos os seus “amigos” (risos). Aí entra a questão da carapuça¹, cada um veste a carapuça que lhe servir. 1. Carapuça é uma espécie de barrete ou capuz de forma cônica e remonta ao período da Inquisição, em que os condenados eram obrigados a vestir trajes ridículos ao comparecer aos julgamentos. Além de usar uma túnica com o formato de um poncho, eles precisavam colocar sobre a cabeça um chapéu longo e pontiagudo, conhecido como carapuça. Daí a expressão "vestir a carapuça" ter se incorporado ao português escrito e falado com o sentido de "assumir a culpa". (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carapu%C3%A7a – Acesso em 10 de Setembro de 2013).

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Eduardo Galeano, um rapaz latino americano

        Impossível ler o título que escolhi para este artigo e não lembrar de Belchior quando entoava a linda canção “Apenas um rapaz latino americano” cuja letra iniciava com a seguinte estrofe: “Eu sou apenas um rapaz/ Latino-Americano/Sem dinheiro no banco/Sem parentes importantes/E vindo do interior...”, no entanto, apesar da belíssima obra de Belchior, a razão de ser destas linhas se refere ao genial, insubstituível e incomparável Eduardo Hughes Galeano, (exagero?) Não existe redundância ao se falar deste uruguaio nascido em Montevidéu a três de Setembro de 1940 e autor de mais de quarenta livros traduzidos para diversos idiomas. 
            Galeano é possuidor de um estilo todo próprio e conquista seus leitores pela contundência com que denuncia as injustiças e pela beleza poética que suas palavras tomam em seus textos de abordagem política e histórica. Meu primeiro contato com a obra de Galeano foi nos anos 1990, quando cursava Geografia na Unicentro (Guarapuava) e soube através de uma colega sobre um livro fantástico chamado “As veias abertas da América Latina”, imediatamente fui à biblioteca da Universidade e tomei emprestada a obra que li num final de semana, pois, era impossível parar de ler e na semana seguinte encomendei na livraria da faculdade um exemplar que reli outras duas vezes. 
        Como tenho um registro das obras que disponho em meu acervo particular, dei a este livro o número 0001 embora esta não seja nem de longe a primeira obra que adquiri, mas pela importância que teve e tem sobre a minha formação e orientação política. Tenho grande orgulho de ter esta obra capaz de lapidar mentes para o utópico, porém necessário trabalho de construção de uma América Latina livre da exploração predatória das potências imperialistas que sempre contaram e contam com a anuência das elites locais, sócias na espoliação das riquezas naturais e na exploração do fruto do trabalho das pessoas humildes dessa “sub-América”, pois, como Galeano reclama, “no caminho perdemos o direito até de nos chamarmos americanos”. 
         Penso que embora Eduardo Galeano tenha escrito tantas obras, ao publicar “As veias abertas da América Latina”, ele não precisava fazer mais nada, já teria cumprido sua missão de iluminar a escuridão de nossos dias, mas Galeano é a generosidade em pessoa e não cansa em ofertar sabedoria para todos que em meio às trevas do imperialismo globalizado estão sedentos por claridade. 
         A sua obra principal é pelas circunstâncias que permeiam a nossa história uma declaração de amor platônico pela América Latina, ou seja, por uma região que não aprendeu a se orgulhar de suas raízes, pois somos um povo que cedo foi doutrinado a admirar a cultura alienígena imposta brutalmente pelas potências estrangeiras com a aquiescência das elites, verdadeiros “testas de ferro” na exploração das riquezas nativas.
         Como disse, a obra é uma declaração de amor e patriotismo por nossa cultura, história, enfim, por nosso tão único e verdadeiro jeito de ser, um povo apaixonado, e que precisa urgentemente descobrir a si próprio e parar de admirar o progresso alheio movido à usurpação das riquezas dos países pobres do mundo. Nenhuma pessoa que se pretenda crítico pode deixar de ler As veias abertas da América Latina, aliás, todo latino americano deve ler esta obra a fim de entender as raízes de nosso subdesenvolvimento.         Eduardo Galeano é um celeiro de sabedoria, um oceano de patriotismo que transborda do pequeno território de seu país natal e abarca toda a América Latina, sua verdadeira “pátria”. Reconhecemos que o Uruguai é o seu país de nascimento, mas ao povo uruguaio pedimos que perdoe nosso “imperialismo”, pois Galeano não pode ser somente uruguaio, ele é e precisamos que seja um pouco brasileiro, argentino, cubano, etc. enfim, um eterno rapaz latino americano.

P.S. Nesta data em que finalizo este artigo é aniversário de Galeano (03/Set./2013), sei que jamais saberá destas linhas, mesmo, assim, parabenizo-lhe pela passagem desta tão importante data e desejo-lhe muitas felicidades! 

Sugestão de boa leitura: Galeano, Eduardo H. As veias abertas da América Latina. Editora L&PM.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Um certo 30 de Agosto!

Em 1988, eu um concluinte do segundo grau, ainda não sabia direito o que iria fazer da vida, trabalhava numa joalheria (ourives) e pensava que após dominar todo o conhecimento necessário, montaria a minha própria loja e até pensava em cursar faculdade (jornalismo), mas não pensava em ser professor. Num certo dia daquele mês de Agosto, estava na rua XV de Novembro quando um repórter (um então jovem velho conhecido) da Rádio Educadora de Laranjeiras do Sul me parou perguntando sobre o meu apoio ou não à greve dos professores, respondi brevemente que os professores estavam certos, eles tinham mesmo que lutar por seus direitos e tinham o meu apoio. No sábado à tarde (não recordo a data!), foi ao ar mais uma edição do extinto, porém excelente programa Visão sob o comando do sempre competente Jaime Spazzini o qual costumeiramente tinha a colaboração especial do saudoso Renato Cesar Klein. No programa em questão estavam entrevistando uma professora líder do comando de greve em nosso município, lembro que a minha fala foi uma das poucas consonantes com a greve. A professora ao ouvir minha fala chamou-me de colega, algo que na época soou estranho para mim, pois, eu não imaginava que isso um dia teria razão de ser. Há alguns dias, portanto, vinte e cinco anos depois, saindo de uma sala de aula, um aluno me questionou: “professor é verdade que teve um governador que soltou os cachorros para cima dos professores?” Respondi que não, e expliquei-lhe sem entrar em muitos detalhes (pois outra sala me esperava) que o governador da época mandou a polícia retirar os professores da área em que faziam passeata (concentração) e os PMs avançaram com a cavalaria para cima dos mestres e que teve feridos. O aluno então falou: “e como pode ele continuar se elegendo?” Respondi: Não sei! E fui para outra sala! Depois, comentei com alguns professores e em casa refleti acerca da questão e cheguei à conclusão que a constatação dele era coerente, afinal, se de fato a Educação e os professores tivessem pela sociedade a valorização que merecem tal político cujo nome recuso falar, não por medo de represália, mas pela energia negativa que pensar em seu nome traz, (e nem é necessário, o fato é por todos conhecido), jamais se elegeria novamente. Naquela ocasião (1988), o Magistério perdeu uma batalha, mas não a guerra! Nestes vinte e cinco anos aumentamos a nossa organização e mobilização e fizemos da APP-Sindicato, o maior e mais atuante sindicato do Estado, sempre em busca de melhorias na Educação possibilitando melhores condições de trabalho para os educadores (professores e funcionários) e consequentemente de aprendizagem para os educandos. Certamente há muito que avançar, mas seguimos em busca da utopia necessária de uma educação pública, universal, gratuita e de excelente qualidade como sustentáculo de uma sociedade justa, solidária e fraterna, tal como disse Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Se os políticos fossem sensatos e realmente engajados num projeto de país e não apenas de poder, educadores não precisariam sair de suas salas para reivindicar justos direitos, e se o fazem merecem ser bem recebidos pela importância da profissão que exercem e não da forma truculenta como foram tratados em 30 de Agosto de 1988. Se você discorda pergunte para um médico, um advogado, um engenheiro, um professor, etc. qual foi o profissional mais importante de sua vida e verá que existe a figura do professor que abriu as portas para o exercício de sua profissão. No Japão o professor é o profissional mais respeitado, inclusive o Imperador não raras vezes também se curva para este como prova de mútuo respeito quando dele recebe o cumprimento. Os países desenvolvidos fizeram da Educação prioridade e do professor um grande aliado para galgar ao topo da hierarquia do IDH entre as nações, e se mesmo assim você discorda, deixo a frase proferida por Derek Bok, quando Reitor da Universidade de Harvard: “Se você acha a educação cara, experimente a ignorância”. Penso que o 30 de Agosto (de 1988) não deveria ter ocorrido, mas é fato, então que a passagem dessa data seja sempre um momento de luta por dias melhores para a educação e que a lembrança seja eterna para que aquele “dia(s)” nunca mais se repita!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O gênio pop star


Alguns leitores gostam das sugestões de livros que faço neste espaço, então, como acabo de fazer uma leitura muito aprazível, indico a obra “Einstein: Sua vida, seu universo” de Walter Isaacson.
 Trata-se de uma leitura agradável que conduz a um passeio entre a vida particular e a carreira científica daquele que é considerado o maior gênio da história. Isaacson consegue com grande sensibilidade retratar um Einstein humano com seus problemas de ordem pessoal (familiar e financeira), suas dificuldades para ingressar no meio acadêmico e desenvolver ciência, descreve sua carreira, os acertos e erros e os erros que se converteram em acertos, pois, mesmo quando esteve equivocado Einstein contribuiu para o avanço da Ciência. 
Com a leitura da obra é possível avistar uma tênue luz no fim do túnel que leva ao entendimento dessa revolução na história da Ciência chamada Teoria da Relatividade.
O gênio que assombrou o mundo nasceu a 14 de Março de 1879 em Ulm, alemão de nascimento, porém de ascendência judaica, quando criança demorou a falar, foi considerado um garoto idiota por algumas pessoas próximas, mas, quando iniciou seus estudos esteve sempre entre os melhores da turma (ao contrário do que muito se fala a seu respeito). Sempre teve ojeriza à autoridade e dessa forma muitas vezes seu comportamento como acadêmico não era exatamente adequado, por conta disso, adquiriu a antipatia de alguns mestres que dificultaram sua inserção no meio acadêmico como professor universitário.
Einstein mergulhava cada vez mais na ciência conforme os problemas de ordem pessoal se avolumavam, e apesar de seus esforços desenvolvendo artigos científicos teve que se contentar com o emprego de examinador de patentes do Escritório Federal de Propriedade Intelectual de Berna (Suíça), trabalho no qual, durante as horas vagas em 1905 desenvolveu quatro artigos que se complementavam e davam a certidão de nascimento à teoria da Relatividade Especial afirmando que o tempo e o espaço não eram absolutos colocou a ciência de cabeça para baixo.
Mudou-se para Berlim, e em 1915 desenvolveu a Teoria da Relatividade Geral, com a confirmação da veracidade de suas teorias em experiências desenvolvidas por outros cientistas tornou-se celebridade mundial, e, realizou palestras itinerantes por vários países cujos ingressos eram disputados e contados aos milhares. Em 1933, o Nazismo ascendeu ao poder na Alemanha e o gênio resolveu aceitar o convite para trabalhar nos Estados Unidos, país no qual viveu o resto de seus dias, foi muito investigado pela CIA, por ser simpatizante do socialismo em plena época da “caça às bruxas” do Macarthismo. 
Era contra qualquer tipo de opressão e não aceitava o cerceamento da liberdade de expressão e por isso não poupava críticas referente ações dos EUA neste sentido e nem mesmo ao stalinismo soviético, líder pacifista, pregava a desobediência civil quando da convocação para as Forças Armadas, por tudo isso foi muito criticado, sendo considerado um asno por políticos e populares, sendo assim, falou: “Grandes espíritos sempre encontram forte oposição de mentes medíocres”.
O receio que os nazistas desenvolvessem a bomba levou-o a escrever uma carta para o Governo Estadunidense sobre a necessidade de fabricar a bomba atômica que a ciência por ele desenvolvida tornava possível, porém, nunca participou diretamente do desenvolvimento da arma, por não ser considerado confiável pelas autoridades militares. Após a explosão das bombas em Hiroshima e Nagazaki, fato que considerou lamentável foi questionado por um repórter sobre como seria a Terceira Guerra Mundial, afirmou que “sabia apenas como seria a Quarta Guerra Mundial: com pedras”.
 Até o último dia de sua vida esteve às voltas com as equações buscando entender o Universo e tentando resolver o problema que a criação da bomba atômica ocasionou, defendia a criação de um Governo Mundial para evitar as guerras (o único a ter posse das armas atômicas). O “passageiro do raio de luz” finalizou sua viagem por esta dimensão espaço-tempo de forma absoluta em 18 de Abril de 1955 aos 76 anos, no entanto, sua partida será sempre relativa, imortalizado em sua ciência, seu corpo foi cremado e suas cinzas liberadas no Rio Delaware conforme seu pedido, pois não queria que seu túmulo fosse local de peregrinação. Embora o gênio tivesse algumas vezes falado que não gostava de sua popularidade, isso não correspondia ao seu comportamento, ele adorava repórteres e os repórteres o adoravam. 
Einstein era pop e gostava disso!

Sugestão de boa leitura:
ISAACSON, Walter. Einstein: sua vida, seu universo. Companhia das Letras

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Efeito Gabriela

Há muito tempo observo o quão forte é o “Efeito Gabriela” em nossa sociedade, no entanto antes de discorrer sobre o mesmo é necessário que se explique a sua origem que remonta a 1975, quando o cantor e compositor Dorival Caymmi fez para Rede Globo “Modinha para Gabriela” então tema de abertura da telenovela Gabriela inspirada na obra “Gabriela, cravo e canela” do saudoso Jorge Amado. Sobre a novela, a imagem fixada na mente das pessoas que assistiram a primeira versão é a cena da então jovem e sensual atriz Sonia Braga trajando um vestido sobre o telhado de uma casa mexendo ficticiamente com o imaginário dos homens de Ilhéus e também com o imaginário dos homens que assistiram a obra televisiva, embora nem tão ficticiamente (se é que me entendem!). Mais recentemente, a não menos bela atriz Juliana Paes interpretou a referida personagem em uma regravação feita pela mesma emissora, não tenho o hábito de assistir novelas, mas soube que a regravação não teve o mesmo brilho da versão original com Sonia Braga. Reminiscências à parte, o nosso interesse é outro, a letra de “Modinha para Gabriela” que então composta ficou popularizada na voz de Gal Costa e tinha como refrão “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela!”. O refrão de tal música acabou se tornando a definição do que ficou conhecido como “Efeito Gabriela”, ou seja, aquelas pessoas que se recusam a mudar mesmo quando confrontadas com a realidade dos fatos ou de argumentos que desmontam a racionalidade da estrutura mental que embasa sua forma de agir perante a sociedade. Não raramente tais pessoas acometidas pelo “Efeito Gabriela” se irritam quando não conseguem triunfar na sua argumentação tentando justificar aquilo em que acreditam perante outras pessoas, mesmo assim, prosseguem acreditando em ideias equivocadas, porque para elas não se trata de um debate “no mundo das ideias” (uma oportunidade de ambos os debatedores crescerem), mas de se curvar perante aquele que apresentou a mais consistente argumentação, ou seja, algo que o orgulho (ou a teimosia) não admite, aqui se vê o “Efeito Gabriela” em ação: “Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela!”. Penso que é absolutamente normal e saudável que as pessoas tenham opiniões diferentes, pois se todos pensassem igualmente, nisso poderia residir o perigo ou no mínimo a burrice, no entanto, existem situações que carecem de qualquer racionalidade e pessoas insistem em acreditar e passar adiante inverdades, manipulações e boatos mesmo contra todas as provas possíveis e imagináveis em contrário. Algumas destas pessoas quando confrontadas com a irrealidade daquilo que estão proferindo se indignam e não raras vezes passam a nutrir um sentimento de antipatia com seus interlocutores. O “Efeito Gabriela” é um mal que acomete pessoas independentemente de sua posição social, nível de escolarização ou idade e parece ser incurável. Diante disso, o melhor é saber como lidar com as pessoas por ele acometidas, assim, meu conselho é: nem todo debate vale a pena, e, aceitar que pau é pedra e que elefantes dormem nos galhos das árvores da Floresta Amazônica pode lhe evitar dissabores (vai por mim!).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O moleque dono da bola!

Há alguns dias Aécio Neves (PSDB – MG) discursou propondo o fim das reeleições, para quem é jovem, é necessário que se diga que o instrumento da reeleição era algo negado pela Constituição Federal, ou seja, o governante precisava deixar o cargo por um mandato e então se recandidatar ao mandato seguinte. Eu disse precisava, pois, num país onde os políticos têm o costume de adaptar a Constituição à sua forma de governar e não o correto que seria adaptar a sua forma de governar à Constituição, os partidos políticos (liderados pelo PSDB) que davam sustentação ao Governo de FHC resolveram mudar a Constituição Federal para implantar a reeleição alegando que essa era uma metodologia adotada em várias democracias consolidadas do planeta entre elas os Estados Unidos da América e que quatro anos era um prazo insuficiente para a execução das reformas que o país precisava. Todos sabem que Fernando Henrique Cardoso tem grande zelo por sua biografia, mas, na ocasião não teve dúvidas de manchá-la (se bem que existem outras inúmeras manchas!) com um golpe branco alterando a Constituição Federal em benefício próprio, pois o correto seria alterá-la para o mandato seguinte, ou seja, somente quem se elegesse em 1998 teria o direito de se recandidatar. Em 2009, houve quem sugerisse dentro do PT a alteração da Constituição para que não houvesse a limitação de apenas uma recondução ao cargo, assim, Lula poderia novamente se candidatar do alto de sua imensa aprovação popular, no entanto, tal fala foi logo abafada pela oposição e pela grande mídia avessa à ideia e mesmo Lula se pronunciou contra tal estratagema contrariando alguns colegas de partido, sim, Lula não era FHC e tinha uma biografia a zelar. Na época escrevemos o artigo “Terceiro mandato: a oposição não dorme de touca” destacando a grande agilidade da oposição em não permitir que o mesmo artifício (golpe) aplicado por FHC fosse agora utilizado por Lula e apesar de aprovar a gestão de Lula e de ser admirador de sua trajetória política também me posicionei contra a rereeleição pelos riscos à democracia que ela podia implicar. Eu tenho orgulho de dizer que jamais votei em FHC, mas isso não me exime de lamentar muitas coisas que FHC fez em seus dois mandatos tais como o irresponsável e lesa-pátria programa de privatizações conhecida como “privataria” (privatização + pirataria) o qual se a Justiça realmente funcionasse neste país, FHC e muitos figurões do seu governo estariam respondendo por crimes de improbidade administrativa conforme ficou evidenciado com provas no Livro “A Privataria Tucana” de Amaury Ribeiro Jr. Em nenhum dos países considerados pela situação em 1997 (atual oposição) como “democracias consolidadas” a ferramenta da reeleição foi retirada e os Estados Unidos da América, país que muitos tupiniquins neoliberais sonhariam ter nascido continua permitindo a reeleição (Obama é presidente reeleito). Penso que uma recondução ao cargo é viável e algumas vezes até necessária, pois as questões governamentais são complexas e exigem ações cujo prazo de quatro anos pode ser pouco para efetivá-las, como afirmaram os tucanos em 1997. Então qual é o motivo pelo qual aqueles que implantaram a reeleição à custa inclusive de denúncias comprovadas de compras de votos para conseguir atingir os 3/5 dos parlamentares para a alteração constitucional agora desejam o seu fim? A resposta, caro leitor, eu tiro dos meus tempos de moleque, pois, pobre (embora nunca me faltasse o essencial) raras vezes fui dono de bola de futebol e naquele tempo o garoto dono da bola jogava sempre (mesmo que fosse perna-de-pau), escolhia os melhores jogadores para o seu time, assim, aumentava as possibilidades de ser vitorioso, porém, ao começar a levar um “vareio” no jogo e não vendo possibilidades de virá-lo, não raras vezes pegava a bola e ia para casa. Aécio Neves tem muito desse moleque dono da bola, pois, “ele e seu partido consideram que a reeleição somente é válida se os beneficiar” como disse um apresentador de telejornal cujo bordão utilizo para encerrar este artigo: Aécio, “isso é uma vergonha”!