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sábado, 30 de março de 2024

De que lado você está?

 


            O grande intelectual socialista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) viveu apenas 46 anos e mesmo assim, parte desse curto tempo de vida como preso político. No cárcere registrou suas reflexões que mais tarde foram revisadas e publicadas formando uma imprescindível contribuição para o intelecto humano. Sua obra aponta caminhos a serem trilhados por todos aqueles que desejam uma educação crítica e formadora de lideranças prontas a desempenhar o protagonismo num mundo pensado e organizado pela burguesia e para a burguesia, sendo que esta reserva ao andar de baixo da sociedade, papel meramente figurativo.

            Gramsci em sua poesia “Odeio os indiferentes” afirmava que viver é tomar partido. Em nossa sociedade existem pessoas que procuram ser palatáveis aos diversos segmentos ideológicos. Eu, porém, não ligo a mínima em ter a aceitação de grupos e pessoas cujos ideais não comungo e quero ser lembrado como uma pessoa que sempre deixou claro aquilo em que acreditava, e, que jamais surfou a onda do oportunismo.

            Há alguns dias, como sempre faço, quando me encontro em centros maiores, percorri as livrarias em busca de livros, e eis que me vejo diante de um título sugestivo “De que lado você está?” de autoria de Guilherme Boulos e, na contracapa li a seguinte frase extraída de um de seus artigos no livro: “Jesus, se vivesse hoje, estaria ao lado dos direitos sociais e humanos. Estaria com os sem-teto e os sem-terra, com os negros, os imigrantes, as mulheres violentadas e os homossexuais vítimas de preconceito”.

            Em seguida, nova frase: “a corrupção no atacado é o verdadeiro problema. A burguesia brasileira pede um Estado mínimo e enxuto para o povo, mas, desde sempre teve para si um Estado máximo. Privatizar os lucros e socializar o prejuízo, esta é a sua diretriz”. E penso: Impossível deixar a obra na estante dessa livraria!

             O livro é uma coletânea de vários artigos de Boulos para a sua coluna semanal na Folha de São Paulo. A obra é impecável e assim como ataca a direita entreguista também aponta as falhas dos governos petistas e sua inoperância quanto à realização de reforma estruturais tais como: a reforma urbana, a reforma agrária, a reforma política, a reforma tributária, a reforma dos meios de comunicação e a reforma do sistema financeiro.

            Boulos que contava apenas 33 anos, era dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), militante da Frente de Resistência Urbana, professor de filosofia formado pela Universidade de São Paulo, especialista em psicanálise e atualmente faz pós-graduação em psiquiatria. Seus artigos empolgam pela lucidez, criticidade e independência.

            Vários de seus artigos poderiam ser aqui mencionados, porém, isto é inviável, volto então ao artigo “Natal sem hipocrisia” em que fala sobre os motivos que fizeram Jesus ser tão odiado pelos poderosos da época: “[...] Jesus defendeu a igualdade e os mais pobres, condenando aqueles que se apegavam demais às riquezas. [...] Defendeu a divisão dos bens, como signo da igualdade social. [...] Partilhou o pão e os peixes entre todos. [...] Enfrentou os preconceitos. [...] Acolheu os marginalizados. [...] Foi misericordioso com as prostitutas. [...] Combateu o ódio e a intolerância”.

            Boulos questiona a profunda desigualdade do mundo atual em que 2% da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. E termina o artigo afirmando que “Se Jesus vivesse hoje, talvez fosse preso e torturado, do mesmo modo que milhares de brasileiros que não há muito lutaram por igualdade e justiça e, que seria sem dúvida crucificado, não por autoridades romanas e sacerdotes judeus, mas, moralmente por muitos dos cristãos que, em seu nome, insistem em combater tudo aquilo que ele defendeu”.

 

Sugestão de boa leitura:

Título: De que lado você está?

Autor: Guilherme Boulos.

Editora: Boitempo Editorial, 2015, 144 p.

sábado, 23 de março de 2024

Um artista da fome

         

 


           

No conto "Um artista da fome" do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924) não há nomes, apenas o relato do ofício de cada personagem, tais como os açougueiros, os vigilantes, o inspetor, as moças, as crianças e, claro, o artista da fome e seu empresário. Kafka relata que, antigamente havia um artista que era muito reconhecido, porém, a popularidade de sua arte se perdeu no tempo, o artista da fome. O leitor certamente já ouviu, leu ou assistiu na TV que, no passado eram comuns atrações como mulheres barbadas, anões, etc.

            O artista da fome formava uma dupla com seu empresário, que o impedia de jejuar por mais de quarenta dias. O artista considerava que o jejum era uma arte e se lamentava por não estender o prazo além do que o empresário permitia. Sempre que chegavam em uma cidade, o artista dentro de uma jaula, atraía muitos curiosos que lhe vigiavam noite e dia, procurando desmascarar a "fraude" e, eram incentivados a fazê-lo, inclusive com a oferta de lanches pagos pelo empresário para os "fiscais". No entanto, ele tomava apenas água.

            O empresário cuidava do artista e o artista possibilitava ao empresário seu ganha-pão. Quando o interesse da população caía e não mais rendia algum dinheiro, eles mudavam para outra cidade. O tempo passou e a arte do artista da fome passou a não mais atrair a atenção das pessoas. O artista da fome dispensou o seu empresário e se juntou a um circo, pois lá teria acesso ao público.

            No circo teve direito a uma jaula junto aos animais e, pensava que era incompreendido, que não havia reconhecimento a bela arte de jejuar que tão bem executava. As pessoas passavam por ele no intervalo, liam a placa da jaula que o apresentava, mas, passavam direto para ver os animais. Com o tempo, foi esquecido pelos próprios integrantes do circo.

            O dono do circo viu a jaula com um cartaz cujo letreiro encontrava-se apagado e perguntou aos funcionários, por que aquela jaula estava vazia, eles não sabiam, abriu a porta, mexeu na palhada e encontrou um corpo inerte, cutucou-o e o artista da fome respondeu. O dono do circo perguntou se ainda estava fazendo o jejum, sendo que ele respondeu afirmativamente. Disse que fazia o jejum para que as pessoas o admirassem e, também por que não sabia fazer outra coisa, além disso, nunca encontrou alimento algum que ele gostasse, afinal se alimento assim houvesse, ele se fartaria até ficar pançudo como os demais. Após dizer isso, perdeu a consciência e morreu. O dono do circo pediu que providenciassem um enterro para o cadáver que era tão somente pele e ossos.

            Na jaula, o dono do circo mandou que colocassem uma pantera, que andava agitada pelo pequeno espaço que nela havia e, devorava vorazmente a carne que lhe era destinada para o deleite das pessoas que iam vê-la.

            Conto "contado", fica a interpretação a seu encargo, caro leitor. O conto é curto, mas a discussão do tema dá uma monografia!

 

Sugestão de boa leitura:

 

Título: Um artista da fome.

Autor: Franz Kafka.

Editora: Companhia das Letras, 1998, 120 p. 

sexta-feira, 15 de março de 2024

Lavoura arcaica

 


            O escritor, jornalista e agricultor Raduan Nasser nasceu em Pindorama (SP) em 1935, tem uma obra considerada pequena se considerada a quantidade de seus escritos. Porém, essa obra pequena agiganta-se tendo em vista a qualidade literária que apresenta. O autor foi várias vezes premiado, inclusive com o prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa concedido por Portugal e Brasil.

            A cerimônia de premiação (em 17/02/2017) foi motivo de vergonha nacional, pois, o Ministro da Cultura Roberto Freire (PPS) no então governo Temer, descontrolou-se emocionalmente ao ouvir o discurso de Raduan Nasser, que denunciava o golpe de Estado de 2016 ao mundo. Na verdade, Roberto Freire agiu de forma premeditada, e quebrando o protocolo pediu para falar depois de Raduan e o resultado foi um discurso de ódio, combatido pela platéia que buscava dar a Raduan o seu merecido dia de homenagem ante o desequilíbrio do Ministro da Cultura. Enquanto a situação vexaminosa se desenrolava, Raduan serenamente assistia ao triste espetáculo de horror protagonizado por Freire.

A obra “Lavoura Arcaica” (1975) chama a atenção pelo sentido poético e pela descrição minuciosa dos fatos vividos pela personagem André, que ora, apresenta-se quase como um narrador, noutras como o protagonista de uma história que mostra uma família presa a tradições culturais arraigadas no tempo, e a contestação adolescente a esta. A ansiedade como este busca seu lugar na vida saindo de casa, e a ela retornando, com a não resolução de um problema crucial: o amor recíproco que alimenta por sua própria irmã.

            Há quem considere a leitura de Lavoura Arcaica, difícil e até mesmo cansativa, pois, a escrita de Raduan foge do lugar-comum, cada palavra foi meticulosamente escolhida pelo autor para deslumbrar o leitor. Eis um “tira-gosto”: “Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, o quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo”.

 

Sugestão de boa leitura: 

Título: Lavoura arcaica.

Autor: Raduan Nassar.

Editora: Companhia das Letras, 1989, 200 p.

 

 

domingo, 3 de março de 2024

A metamorfose

 

          


       Franz Kafka nasceu aos três de junho de 1883 em Praga (atual capital da República Tcheca) em terras do então Império Austro-Húngaro. Viveu apenas 40 anos, pois faleceu em três de junho de 1924. Uma existência curta, em que teve várias namoradas, noivou algumas vezes, porém jamais se casou. Em seu leito de morte solicitou que seus manuscritos fossem destruídos, mas, graças ao bom senso da pessoa encarregada, seu último desejo não foi atendido.

            Os escritos literários de Kafka influenciaram vários pensadores entre eles: Jean Paul Sartre, Gabriel Garcia Marquez, Albert Camus, entre outros. A originalidade de sua obra deu origem ao termo kafkiano, empregado sempre que alguém descreve algo como surreal ou que confunde o real com a ficção. Também é utilizado tal termo quando a imaginação deste sobre si ou da sociedade sobre o indivíduo, se sobrepõe à realidade atormentando-o.

            Dentre as várias obras de Kafka, “A Metamorfose” (1912) conta a história de um caixeiro viajante solteiro, cujo trabalho exaustivo quase não lhe possibilita tempo para passar com a família. É do fruto de sua labuta que vive o pai, a mãe e a irmã. E todos o valorizam muito, reconhecem seu empenho e lhe são gratos até o momento em que Gregor Samsa sofre uma estranha metamorfose transformando-se num animal medonho.

            A sua família, esconde-o da sociedade confinando-o ao seu quarto, alimenta-o por algum tempo, e, como a situação não se resolve vêm-se forçados a procurar emprego (eles que eram sustentados por Gregor). Começam a falar mal do animal em que Gregor se transformou sem saber que este preservou sua capacidade de audição apesar da perda da capacidade de comunicação.

            O autor mostra por meio desta obra, como as pessoas são amistosas com outrem enquanto podem desfrutar de alguma vantagem material por ela oferecida. Alterada esta situação vantajosa, afastam-se, buscando substituir a pessoa por outra, que lhe dê um melhor retorno. Ler Kafka é adentrar o mundo do surreal para entender melhor as relações humanas que permeiam a realidade societária.

 

Sugestão de boa leitura:

Título: A metamorfose.

Autor: Franz Kafka.

Editora: Companhia das Letras, 1997, 96 p.

 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Vidas palestinas importam!

 

        Retorno a este tema, apesar da série de artigos aqui publicados com o título "O sionismo e o apartheid na Terra Santa: do holocausto judeu ao holocausto palestino". Sou chamado pela minha consciência a fazê-lo, tendo em vista a continuidade do massacre de vítimas inocentes em Gaza e a polêmica gerada em torno da fala do presidente Lula. A polarização que dividiu o país em "Nós" e "Eles" fez com que a sociedade brasileira ficasse dividida entre os que aplaudem Lula por sua fala corajosa e, aqueles que acreditam que o Brasil se tornou um pária internacional, por não apoiar Israel em sua campanha militar na Faixa de Gaza.

            Li, reli a fala do presidente Lula e, não vi nela nada mais que a verdade. Lula fez o que as lideranças do mundo desenvolvido, por covardia e conveniência, se omitiram. Nenhuma das grandes lideranças mundiais criticou Lula, mas, romperam o silêncio e exigiram que cessem os assassinatos de civis inocentes. Lembro que o apartheid na África do Sul somente acabou com forte pressão internacional e, que os Estados Unidos, o Reino Unido e o Estado de Israel apoiavam o governo segregacionista de minoria branca. A então primeira ministra do Reino Unido Margaret Thatcher (1925-2013) se recusou a adotar sanções contra a África do Sul e fez pronunciamentos nos quais acusava Nelson Mandela (1918-2013) de ser um terrorista. A história colocou Mandela num patamar muito acima de Thatcher dentre as grandes personalidades mundiais.

            Há um Estado de apartheid em Israel, no qual os palestinos estão confinados em seu próprio território (tal como os bantustões sul-africanos) sem a liberdade de ir e vir, pois passam por constrangimentos e humilhações diárias nos vários checkpoints instalados nas terras palestinas ocupadas por Israel. A África do Sul, cuja ferida do apartheid ainda não cicatrizou, foi certeira em denunciar Israel ao Tribunal Penal Internacional. Em pleno século XXI, Israel, que desrespeita e desobedece a ONU, é um dos países onde mais se descumpre os direitos humanos. O holocausto não pode servir de salvo-conduto para o Estado de Israel impunemente cometer crimes contra a humanidade.

            Criticar o governo Netanyahu por sua política de genocídio contra o povo palestino, não é desrespeitar a memória das vítimas do holocausto judeu, nem mesmo o presidente Lula fez a comparação quanto à magnitude do genocídio praticado pelos nazistas alemães com o genocídio que Israel pratica contra o povo palestino, afirmar o contrário é cometer desonestidade intelectual. Toda reação a um ato hostil deve ser balizado na proporcionalidade. Israel já passou longe da resposta equivalente que lhe caberia dar, e ataca civis inocentes, pois cerca de trinta mil civis (grande parte formada por mulheres e crianças) já foram mortos desde sete de outubro de 2023.

            Genocídios não deveriam ocorrer e comparar genocídios é absurdo! Mas, quantas pessoas devem morrer para que seja considerado um genocídio? Precisa chegar a seis milhões? Nesse caso, o genocídio contra os povos indígenas supera em muito tal número, 57 milhões, mas Benjamin Netanyahu insiste que o ocorrido com os judeus não tem comparação com nada na história mundial. A vida dos indígenas vale menos? A vida dos africanos escravizados, torturados e mortos no cativeiro em terras distantes valem menos? Toda vida humana importa! As vidas indígenas e negras importam! As vidas palestinas importam! Genocídio não é assim qualificado por um número absoluto de vítimas, mas pela sua natureza, ou seja,por ser uma política sistemática de limpeza étnica, de extermínio total ou parcial de um povo em situação de fragilidade. Lula acertou quando disse que em Gaza há o ataque de um dos mais preparados exércitos do mundo contra civis inocentes, vitimando em grande parte mulheres e crianças indefesas.

            Concordo com o assessor chefe da Presidência do Brasil Celso Amorin, quando disse "Israel não deve desculpas ao Brasil, mas que as deve à humanidade". Penso também que Netanyahu deve pedir desculpas à memória das vítimas do holocausto, pois, tenho certeza que elas, não gostariam que seus líderes fizessem com outras pessoas aquilo que lhes impuseram. Benjamin Netanyahu se irrita quando é acusado de praticar uma política de genocídio, porém, não há como classificar de forma diferente sua política de governo. Lembro do saudoso político Leonel Brizola (1922-2004) quando afirmou "tem focinho de jacaré, rabo de jacaré, patas de jacaré, corpo de jacaré...então como que não é jacaré? Essa frase cabe bem na caracterização do governo de Netanyahu e sua política genocida.

            É bizarro que um povo que sofreu nas mãos da extrema-direita nazista alemã tenha em sua história vários governos de extrema-direita. Penso que em memória às vítimas do holocausto, o povo judeu não deveria permitir que isso acontecesse. Ter a direita no poder é do jogo político, mas não a extrema-direita. Um exemplo disso é a Alemanha que repudia tal ideologia e vigia de perto os atos de grupos de extrema-direita no país, afinal, o nazismo deixou profundas cicatrizes na sociedade alemã. Infelizmente, uma das maiores infâmias da história mundial, colocou os judeus como vítimas, o holocausto. A ONU sob a liderança do Brasil (Oswaldo Aranha) na sessão da ONU (1947), criou o Estado de Israel e, na atualidade, a liderança sionista de Israel coloca o quarto exército mais poderoso do mundo como algoz de um povo, os palestinos. No entanto, sou sabedor que, assim como vacas às vezes vão parar em telhados e, nos perguntamos como isso aconteceu, tragédias também ocorrem na política, e sei que grande parte do povo judeu não compartilha do pensamento das lideranças que governam o país, dadas as notícias sobre os protestos de judeus contra a política de extermínio levada a cabo por Netanyahu.

            Em 1948, os judeus, Albert Einstein (1879-1955) e Hannah Arendt (1906-1975) que dispensam apresentações e, na companhia de uma centena de proeminentes personalidades judaicas em uma carta publicada no jornal estadunidense The New York Times já denunciavam que a extrema-direita (Partido da Liberdade) de Israel que mais tarde veio a formar o Likud, o partido de Benjamin Netanyahu, tinha por sua organização e metodologia, caráter semelhante ao nazifascismo. Sob a luz do sol, há muito pouco no planeta que se pareça tanto com o nazismo quanto a atual política governamental da liderança sionista de Israel para com a questão palestina. Netanyahu em uma fala até "passou pano" para Hitler quando disse que o líder nazista apenas queria expulsar os judeus e não pretendia fazer o Holocausto. O presidente da Turquia já havia comparado Netanyahu a Hitler e, não teve a mesma resposta irada dada a fala de Lula. É que Netanyahu sabe que a posição do Brasil perante o mundo e a fala de Lula tem um grande peso internacional, capaz de constranger as lideranças do mundo desenvolvido, tirando-as da omissão covarde ante o genocídio contra a população palestina em que se encontram. 

            Reafirmo o que disse em meu artigo, essa liderança sionista de Israel é o principal entrave para a paz na palestina, pois, jamais permitirá a criação do Estado Palestino independente, afinal os sionistas anseiam pela criação do Grande Israel (Eretz Israel) e, para isso é necessária a ampliação das fronteiras até alcançar os limites históricos e bíblicos. Para atingir tal objetivo, muitas guerras para ampliação do território e de limpeza étnica serão promovidas. Aproveito o ensejo, para explicar o subtítulo do artigo científico que produzi, "[...] do holocausto judeu ao holocausto palestino", afinal, alguém disse "vivemos um tempo em que afirmar o óbvio é necessário"! Estudioso da questão, jamais quis comparar a magnitude do holocausto judeu ao genocídio praticado sistematicamente desde 1948 e, mais especificamente após 1967 contra o povo palestino, mas, chamar a atenção para a natureza que é a mesma, uma guerra de limpeza étnica, de genocídio.

             A ONU e as lideranças internacionais não podem ficar omissas ante o genocídio contra a população palestina, nem por simpatias religiosas ou ideológicas, nem mesmo por conveniências estratégicas. A sociedade mundial não pode se furtar ao dever moral e humanitário de chamar as lideranças israelenses à razão, pois Israel rapidamente está se convertendo em um Estado pária. Vidas palestinas importam!

Internacionalismo ou extinção

 

                Avram Noam Chomsky (1928) é um linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político estadunidense. Noam Chomsky é também uma das mais renomadas figuras no campo da filosofia analítica (Wikipedia). Este escriba sempre que tem a possibilidade de ler um livro da lavra deste que é considerado um dos maiores intelectuais vivos da sociedade contemporânea, não se furta a tal tarefa, pois o resultado é sempre prazeroso. Noam cumpre o papel que é atribuído por "Deus" ou pela "energia cósmica do Universo" (como preferir) a algumas pessoas muito especiais, de serem luz para a humanidade, que caminha na escuridão.

            O livro "Internacionalismo ou extinção: reflexões sobre as grandes ameaças à existência humana" tem um prefácio sobre a pandemia de Covid 19. A obra é a transcrição de uma entrevista com Noam Chomsky, conversa esta realizada anualmente. Noam, à época da pandemia de Covid 19, disse que ela iria passar e que as ameaças à sobrevivência humana são outras. Cita o Relógio do Juízo Final, então ajustado para dois minutos para a meia-noite, sendo a meia-noite, o horário da extinção da espécie humana do planeta. Agora, em 2024, o relógio está marcando noventa segundos para a meia-noite. Nunca o fim da humanidade esteve tão próximo.

            Chomsky afirma que há três graves ameaças sobre a continuidade da vida no planeta, tal como a conhecemos hoje, são: 1. A ameaça da Guerra Nuclear Total; 2. A ameaça do Aquecimento Global; 3. A deterioração da democracia. O intelectual afirma que há dúvidas entre os cientistas sobre quando teve início o Antropoceno, sendo este o período das grandes alterações na natureza ocasionadas pelo ser humano. Chomsky afirma que não há como separar a Era Nuclear e o Antropoceno, pois se as grandes transformações da natureza iniciaram com a Revolução Industrial em meados do século XVIII, foi por meio do trágico evento das bombas atômicas, criadas e lançadas pelos Estados Unidos da América em 06 e 09 de Agosto de 1945, sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki, que o ser humano demonstrou ser capaz de ser o agente causador de sua auto-aniquilação, e de provocar a sexta extinção em massa da vida na Terra. A quinta extinção em massa foi o asteróide de 65 milhões de anos atrás que vitimou os grandes dinossauros. Noam diz que não é inacreditável  pensar que uma guerra nuclear acabe com a espécie humana, mas de que essa guerra nuclear não tenha acontecido ainda. As armas nucleares precisam ser eliminadas da face da Terra, enquanto existirem poderão ser usadas, até de forma equivocada, tais como os incidentes ocorridos durante a Guerra Fria (1945-1991).

            O aquecimento global é um fato, apesar do negacionismo neoliberal, o cenário apocalíptico está se  confirmando, tal como os cientistas há décadas alertavam. As mudanças climáticas ocasionadas pelo atual modelo de desenvolvimento econômico, baseado na queima de combustíveis fósseis, no consumismo e na alteração brutal do ecossistema terrestre, está dando origem a graves tragédias climáticas em todo o planeta. Secas e enchentes históricas, aumento da incidência de furacões e tornados, desertificação, derretimento de geleiras nas montanhas e nos pólos, o aumento do nível do mar e a inundação de cidades litorâneas e ilhas, fazem com que as Nações Unidas passem a atender e contabilizar um novo tipo de refugiado, o refugiado ambiental.

            Noam Chomsky afirma que a erosão da democracia com a ascensão da extrema-direita em vários países do mundo completa o quadro catastrófico. A ultra-direita se utiliza de fake news e da desinformação quanto à questão ambiental e, também para desmontar o Estado de Bem-Estar Social (onde ele existe), para colocar o Estado a serviço do Capital e não da sociedade carente de serviços públicos. Chomsky vê no neoliberalismo, que é um extremismo do capitalismo, ou seja, o fundamentalismo capitalista, uma séria ameaça à sobrevivência da humanidade, pois nega o Estado para quem dele mais precisa, as parcelas empobrecidas da sociedade e, acumula a riqueza em poucas mãos, além de ser a causa do desastre ecológico global, por sua irracionalidade ambiental, econômica e social.

            O intelectual estadunidense afirma que somente o internacionalismo pode salvar o planeta e a humanidade. A superação da crise ambiental, econômica e social precisa passar pelo engajamento da toda a sociedade mundial. Tal engajamento é difícil, mas é necessário crer nela, mesmo, com o negacionismo, as fake news, a ignorância de parcelas significativas da sociedade mundial acerca do risco pelo qual passa a humanidade. Acredita que é necessário criar a consciência social quanto a preservação do meio ambiente e que instrumentos tais como: a desobediência civil; o apoio aos movimentos sociais progressistas e também a formação da consciência social em massa quanto à necessidade do abandono do neoliberalismo como sistema econômico e de reforçar a democracia. Noam encerra afirmando que a história não se repete, mas que ela rima.

Sugestão de boa leitura:

Título: Internacionalismo ou extinção: reflexões sobre as grandes ameaças à existência humana.

Autor: Noam Chomsky.

Editora: Crítica, 2020, 128 p.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

A importância da leitura e da análise do que se lê (2023)

 

            O ano de 2023 foi ainda mais tenso que 2022, a geopolítica mundial cada vez mais complexa, a continuidade da guerra entre a Rússia e a Ucrânia se soma a guerra de Israel contra a Palestina ocupada e o risco de escalada das tensões no barril de pólvora também conhecido como Oriente Médio. O ano de 2023, tal como o ano anterior, foi extremamente desgastante do ponto de vista físico, mental e emocional. Sendo a leitura algo que me proporciona relaxamento e prazer, foi na leitura que consegui um pouco de paz ante o atribulado e exaustivo ano que passou.

            O trabalho como professor da rede pública estadual e suas exigências majoradas a cada ano, tiraram de mim e de meus colegas professores(as), um tempo cada vez maior para a elaboração e execução de tarefas do ofício, dessa forma, com o tempo e energia cada vez mais escassos, li apenas trinta e dois livros no ano passado (nos bons tempos lia cerca de setenta livros/ano).

            A iniciativa deste artigo não é a de se gabar, mas, a de inspirar. Algumas pessoas já me disseram que se iniciaram no hábito da leitura (ou a ele regressaram) ao ler as resenhas de livros que publico. Digo que também fui influenciado em tal sentido por mestres(as) que tive em toda a minha vida estudantil. Também foi assim quanto ao ato de escrever. A vida é uma troca entre gerações, apenas repasso as boas energias que recebi. No ano que passou, não fui muito criterioso na escolha das leituras, em relação a autoria/continentes, assim foram as minhas leituras: Oceania: 0,0%; Ásia: 0,0%; África: 0,0%; Europa: 22,0%; América: 78,0%. Das leituras de obras de autores americanos, a América Latina aparece com 78,2% e a América Anglo-Saxônica com 21,8%. Quanto a leitura de obras latino-americanas por país: Brasil: 95% (56,0% da leitura global) e Cuba 5%. Quanto a autoria/gênero das leituras realizadas: 87,5% sexo masculino e 12,5% sexo feminino. Dezembro foi o mês que li mais (6 livros) e, Janeiro, Setembro e Outubro, os meses que li menos (1 livro/mês). A partir desta análise, desejo ler em 2024 mais obras de autores latino-americanos (além do Brasil), africanos, asiáticos e, também mais obras de mulheres.

             As dez melhores leituras foram: 1. Uma breve história dos tratores em ucraniano (Marina Lewicka); 2. Bartleby: o escrivão (Herman Melville); 3. Beije-me onde o sol não alcança (Mary Del Priore); 4. Memórias da casa dos mortos (Fiódor Dostoievski); 5. Triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto); 6. O último dos moicanos (James Fenimore Cooper); 7. Walden ou a vida nos bosques (Henry David Thoreau); 8. O neocolonialismo à espreita: mudanças estruturais na sociedade brasileira (Marcio Pochmann); 9. Coleção Brasilis box 4 livros (Eduardo Bueno); 10. 0 diário de um homem supérfluo (Ivan Turguêniev). Atribuo menções honrosas às seguintes leituras: *O melhor de Nelson Rodrigues: teatro, contos e crônicas (Nelson Rodrigues); *A megera domada (William Shakespeare); *A história me absolverá e o Movimento 26 de Julho: 70 anos do assalto ao Quartel Moncada (Fidel Castro et. ali.); *Globalização, democracia e terrorismo (Eric Hobsbawn); * A retirada (Noam Chomski e Vijay Prashad); *Lava-jato: uma conspiração contra o Brasil (Milton Alves); *Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições (Giuliano Da Empoli). A minha decepção literária do ano foi com a obra Brasil: país do futuro do renomado escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), a qual considerei por vezes panfletária, noutras ingênua quanto ao perfil traçado sobre o Brasil e seu povo. Sei que o autor fugia do nazismo e se ressentia com as constantes guerras nas quais a Europa era palco, porém, a frustração se deve ao fato de já ter lido outros livros seus, dessa forma, minha expectativa era muito alta e não foi correspondida. 

                   O ano que passou deixou um sentimento de frustração, pois, penso que minhas leituras além de serem em número menor, a qualidade das leituras também ficou abaixo da média de anos anteriores. Enfim, encerro desejando um ano repleto de boas leituras!