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sábado, 23 de abril de 2022

O Pagador de Promessas

 

    O livro "O Pagador de Promessas" do romancista, contista e teatrólogo Dias Gomes (1922-1999) é uma peça teatral do gênero dramático. Para quem não é familiarizado com a leitura de obras escritas para o teatro, elas vêm estruturadas em atos e cenas inclusive com as indicações do autor para a representação conforme ele a idealizou.

         A narrativa se desenvolve  acerca do pagamento de uma promessa cuja graça foi alcançada por Zé do Burro (personagem principal). O burro de nome Nicolau acompanhava seu tutor a todo lugar onde ia. Zé considerava o animal como seu melhor amigo. Ocorre que uma tempestade de raios ao atingir uma árvore fez com que um galho caísse sobre o animal. Acometido de forte hemorragia, o animal começou a definhar apesar de todos os cuidados prestados pelo "doutor". 

        Para salvar seu amigo, Zé recorreu a curandeiros, mas, foi em um terreiro de candomblé em que diante da imagem de Iansã (orixá feminino correspondente a Santa Bárbara no rito católico) que ele fez a promessa de dividir em partes iguais seu sítio com algumas pessoas despossuídas de terra e carregar uma cruz tão pesada quanto a de Cristo até a Igreja de Santa Bárbara que distava sete léguas (46,2 km) e colocá-la no altar da referida igreja. 

        Rosa, a matuta e sexy esposa de Zé do Burro o acompanha e eles chegam de madrugada e encontram a igreja ainda fechada. Pelo local passava um cafetão cuja alcunha é "Bonitão" que logo busca se inteirar do fato inusitado e se engraça com a atraente esposa de Zé do Burro. Rosa corresponde, talvez pela carência em um matrimônio no qual pouca atenção recebe.

            Após se inteirar da promessa de Zé do Burro, Bonitão se oferece para encontrar um hotel para eles descansarem, porém, Zé afirma que receia que a cruz seja roubada e Bonitão lhe diz que a região tem muito ladrão e que ele poderia levar Rosa para um hotel próximo para que ela então descansasse. Ardil que funcionou e dessa forma Bonitão e Rosa ficam juntos no hotel. 

           Amanhece o dia de Santa Bárbara e logo pela manhã a Igreja é aberta e o sacristão conversa com Zé do Burro e fica sabendo das intenções deste. O padre Olavo conversa com Zé do Burro e o questiona sobre sua promessa, momento em que começa a confusão. A promessa feita em um terreiro de candomblé em frente a uma imagem de Iansã para ser paga em frente a um altar da igreja católica de Santa Bárbara em troca da salvação de um animal quadrúpede (um burro) não tem a aceitação do padre que se recusa a deixá-lo entrar na Igreja. Logo a cidade toda fica sabendo do fato, e com a confusão formada, muitos querem se aproveitar da situação. 

        O comerciante busca fazer publicidade de seu estabelecimento junto ao burburinho e um jornal sensacionalista amplia o acontecimento dando ao mesmo significados totalmente distorcidos. Zé do Burro que apenas queria pagar sua promessa estampa a pagina principal do jornal ora como um revolucionário comunista que é contra a exploração do homem pelo homem, ora como um militante em favor da reforma agrária. Para a polícia passa a ser visto como um agitador social comunista que passa a vigiá-lo. O povo começa a ver nele um novo Cristo e pessoas vão até ele pedir a cura de suas doenças.

        O jornal continua a imprimir suas manchetes dando a ele novos tons: "místico ou agitador?" e a questionar o papel da Igreja na recusa de receber a cruz no altar embora não tenha nenhum interesse no desfecho do caso que lhe está possibilitando o aumento da publicidade em suas páginas e do incremento de vendas de exemplares.

            Preocupado com a dimensão que o caso tomou, o bispo vai até a paróquia para tentar resolver a situação. O bispo diz estar preocupado com a dimensão política que o caso tomou, pois, pode afetar a imagem da Igreja Católica. O padre Olavo afirma que somente viu pelo aspecto religioso no qual condenou o curandeirismo e o paganismo. O bispo tenta fazer com que Zé renuncie à sua promessa (sem sucesso). 

        A obra denuncia a intolerância religiosa, a opressão do Estado por meio da polícia e divulga aspectos da cultura popular, os bailes, a prostituição e a ingenuidade das pessoas e, claro, a ação da imprensa sensacionalista, cuja opinião é mais importante do que o fato em si. O final, obviamente, tem uma carga dramática espetacular que não revelarei aqui, apesar da ampla popularidade que alcançou. 

          A peça foi retratada em duas versões cinematográficas e, em uma minissérie pela TV Globo. Indico a versão cinematográfica de 1962, sob a direção de Anselmo Duarte e com Leonardo Villar no papel de Zé do Burro e Glória Menezes (então moça) no papel de Rosa, a qual apesar de ser em preto e branco é a melhor.

Sugestão de boa leitura:

Título: O Pagador de Promessas.

Autor: Dias Gomes.

Editora: Nova Fronteira, 2010, 152 p.

 

 


terça-feira, 19 de abril de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - parte 5

            

            O genial escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) afirmava que sempre que alguém tenta esgotar um assunto, esgota também a paciência do leitor. Ciente disso, peço desculpas por uma vez mais trazer a temática retratada no título. Peço que considere o fato de ser este humilde escriba sofredor de distúrbios psicológicos que o cobrariam pela omissão de aspectos relevantes. Prometo também que na próxima edição mudarei o tema de nossa conversa. Como aqui já disse, "em uma guerra, a primeira vítima é a verdade". A guerra entre Rússia e Ucrânia segue o script, ou seja, é uma guerra de narrativas. Denúncias de crimes de guerra contra a Rússia foram feitas e, com uma agilidade imprudente, pelo Ocidente foram chanceladas como verdadeiras, apesar de carecerem de investigação. A Rússia, por sua vez, acusa a Ucrânia de montar cenários e produzir provas falsas com o intuito de posar como vítima e conseguir apoio internacional. Afirma ainda que a Ucrânia utiliza a população civil como escudo de proteção de alvos militares daquele país.

            A Rússia acusou os EUA de  colaborar com a Ucrânia em experimentos de armas biológicas conforme vestígios encontrados nesta última. A Rússia também acusa a Ucrânia pela forte presença de grupos nazistas no aparato estatal, especialmente no setor militar após o golpe de 2014. O que chama atenção é como as denúncias ucranianas sobre crimes de guerra da Rússia são logo acatadas como verdade incontestável pelo Ocidente. Engana-se quem pensa que essa guerra de narrativas tem como origem apenas os países beligerantes. A mídia ocidental está engajada como sempre na disputa da hegemonia do discurso, algo que faz eficientemente. A Rússia reclama de uma campanha ocidental na semeadura da russofobia nas mentes da humanidade. É impossível se chegar à verdade sem ouvir os dois lados de uma contenda. Não por acaso, a mídia russa foi banida das redes sociais do mundo ocidental.

            Nunca um país sofreu tantas sanções econômicas como a Rússia. O que estranha é que outros países que promoveram conflitos (internos ou externos) e comprovadamente cometeram crimes de guerra passaram incólumes. A OTAN, em especial, os Estados Unidos da América são exemplos disso, porém, acusam a Rússia de atos que também praticaram nos conflitos onde se envolveram. Como popularmente se fala: "é o sujo falando do mal lavado". Os EUA tem uma longa lista de crimes de guerra, podemos citar como exemplos, o bombardeio de inocentes com as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki (ato impiedoso ímpar na história da humanidade), o bombardeio com armas químicas no Vietnã, o apoio e colaboração com ditaduras sanguinárias na América Latina durante a Guerra Fria e, recentemente, as torturas praticadas contra prisioneiros em Abu Ghraib (Iraque) e em Guantánamo (possessão estadunidense em Cuba). Os Estados Unidos jamais foram punidos por seus crimes de guerra, da mesma forma, nações imperialistas europeias que promoveram genocídios na colonização do continente americano, africano e asiático. Se poderá falar que à época da colonização, não havia tribunais internacionais, no entanto, nem depois da sua criação após a Segunda Guerra Mundial isso acontece. É verdadeira a frase do escritor inglês George Orwell (1903-1950) quando disse:  "a lei é para todos, mas, alguns são mais iguais que os outros".

            Qualquer pessoa minimamente esclarecida, já percebeu que a contenda entre Ucrânia e Rússia é de grande interesse para os EUA e a OTAN. Ela propiciou às potências ocidentais uma oportunidade de ouro para promover o estrangulamento econômico da Rússia e, assim enfraquecer tal país e consequentemente atingir a aliança com a China. Como já disse, o pano de fundo do conflito na Ucrânia é a disputa pela hegemonia mundial. O Ocidente a quer manter no Atlântico ante os indícios de que ela tende a migrar para o Pacífico (China - Rússia). Fala-se até na possibilidade de que o BRICS que constitui até o presente momento um grupo informal de discussão e cooperação entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul possa a vir formar uma aliança militar nos moldes da OTAN. A se efetivar tal intento, o Brasil teria que optar em estreitar laços com estes países, o que desagradaria os Estados Unidos da América e a Europa. Estreitar ainda mais os laços econômicos com o grupo seria muito bom, porém, no campo militar a situação se complica, pois, teria que romper com sua histórica política de neutralidade. A iniciativa esbarra ainda no histórico de conflitos territoriais entre China e Índia, embora, esta última tenha criticado as sanções impostas à Rússia e tenha afirmado que poderá realizar compras da Rússia em rublos se esta assim solicitar.

            Encerro dizendo, que os direitos humanos são universais e, as penalidades da lei internacional deveriam ser aplicadas a todos. Líderes nazistas alemães foram corretamente levados a julgamento em tribunais internacionais, o presidente estadunidense Harry Trumann (1884-1972) que autorizou o lançamento de bombas atômicas sobre o Japão, não. É óbvio que poderoso como é, os Estados Unidos não permitiria. É utópico pensar que nações poderosas e seus líderes paguem por seus crimes contra a humanidade. Mas é um objetivo que deve ser perseguido. O mecanismo de funcionamento da ONU, em especial, do Conselho de Segurança precisa ser revisto. O combate à desinformação e à manipulação ideológica midiática é necessária e urgente. Um mundo melhor se faz com pessoas esclarecidas e críticas!

domingo, 3 de abril de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - parte 4

 

        O filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677) afirmou que "A paz não é mera ausência de guerra. É uma virtude, um estado mental, uma disposição para a benevolência, confiança e justiça". Essa frase resume o que faltou aos líderes europeus e estadunidenses após o fim da Guerra Fria, afinal, a beligerância dos discursos foi sempre na contramão do que o bom senso e a inteligência recomendavam para aquele momento. Também não se pode ser ingênuo, afinal, como disse o estrategista Carl Von Clausewitz "a guerra é a continuidade da política por outros meios".  E a política que sempre norteou e norteia o pensamento europeu e estadunidense é o imperialismo.

            Vivemos um tempo surreal, a narrativa (opinião) vale mais do que o fato (real) em si. É preciso dizer também o óbvio. Digo então, (por mais ridículo que pareça precisar dizê-lo), que sou pacifista e concordo com o general estadunidense Norman Schwarzkopf, comandante da Operação Tempestade no Deserto quando disse: "Nenhuma pessoa sendo verdadeiramente inteligente pode ser a favor da guerra". Digo isso, porque em várias oportunidades ao explicar as razões que levaram à Rússia a tomar a trágica decisão beligerante  demonstrando as minhas críticas ao papel desempenhado pelos EUA e pela OTAN, pessoas pensaram que eu tinha um posicionamento favorável à Guerra, o que não corresponde a verdade.

            Lembremos que "numa guerra, a primeira vítima é a verdade" (autoria desconhecida).  A Guerra na Ucrânia está sendo uma guerra de narrativas, sendo que a mídia russa está sendo censurada e proibida de circular nos países ocidentais. Importantes meios de comunicação russos foram proibidos no Facebook  e no You Tube e isso é péssimo para a informação e para a democracia, afinal jamais se chega a verdade sem ouvir os dois lados conflitantes. Trata-se de uma agressão ao público que ouve apenas um lado (mídia ocidental), o qual não por acaso coincide com os interesses das potências ocidentais. Sobre isso o linguista, filósofo, escritor e ativista político estadunidense Noam Chomsky professorou: "O propósito da mídia não é o de informar o que acontece, mas sim de moldar a opinião pública de acordo com a vontade do poder dominante".

             Em uma guerra sabemos, o poder da narrativa é tão importante quanto o poderio militar. A Alemanha nazista tinha como um de seus grandes trunfos, a publicidade do regime conduzida pelo eficientíssimo ministro da Propaganda Joseph Goebbels, que talentoso e comunicativo, conseguiu o apoio da população alemã a um governo que conduziu aquele país e o mundo à catástrofe da Segunda Guerra Mundial. Ditadores, disso também não descuidam, Getúlio Vargas teve seu Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) para promover a publicidade do regime e a censura à notícias críticas. A mídia ocidental faz uma cobertura parcial e manipuladora da guerra na Ucrânia e contribui para a desinformação enquanto doutrina as pessoas alimentando a russofobia.

             Em geopolítica, aprende-se que não há nada mais ilógico do que o maniqueísmo. Nunca ou quase nunca é a luta do bem x mal, do mocinho x bandido. Cada nação beligerante tem a sua porção vítima e a sua porção agressora. Ingênua é a pessoa, que escolhe um lado como sendo o do bem. Não há boas intenções na guerra. Os EUA e a OTAN ganharam a oportunidade de sancionar a ascendente economia russa causando-lhe enormes danos e fornecem armamentos para a Ucrânia (possibilitando fabulosos lucros para a sua indústria bélica) a fim de estender a guerra pelo maior tempo possível com o objetivo de desgastar a principal aliada da China. O que está acontecendo é uma contestação a atual Ordem Mundial que tem o Atlântico como centro (EUA/Europa) para outra em que o poder militar e econômico (hegemonia) poderá estar no Pacífico (China/Rússia). E isso é algo que os Estados Unidos e a Europa no papel de coadjuvante tentam impedir.

            O físico Isaac Newton afirmou: "toda ação corresponde a uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto". Obviamente, Newton se referia à física, mas, isso também vale para as relações internacionais e como exemplo, imaginemos que o Brasil tivesse mantido o projeto de construir a bomba atômica, como reflexo, a Argentina também teria mantido o seu e, ambos estariam acumulando armas nucleares apontadas para o país vizinho. A ideia da Ucrânia de solicitar a entrada na OTAN (previsto na Constituição Nacional) foi insensata, um país dependente de recursos energéticos e do comércio com a Rússia deveria manter a neutralidade, até porque a Rússia reagiria em defesa de sua segurança, porém, mais imprudente é a política da OTAN em expandir para o leste europeu, afinal, a busca da paz deve estar nas atitudes e não apenas nos discursos. A diplomacia deve superar o poder militar, sempre!

sábado, 26 de março de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - parte 3

 

            É consenso que todo país tem direito de livremente fazer suas escolhas. Mas existem escolhas insensatas, equivocadas e prejudiciais que jamais devem ser tomadas. Há alguns dias a OTAN recusou-se a fazer uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia (sitiada pela Rússia) pois, caso fizesse teria que utilizar suas aeronaves para patrulhar os céus daquele país e abater todo caça russo que estivesse na área e isso seria o início da terceira guerra mundial. É uma pena que tal sensatez não tenha sido adotada pela OTAN ao fazer sua expansão para o leste europeu. Basta olhar um mapa da Eurásia e ver porque a Rússia se sente insegura com a presença cada vez maior desta aliança em suas fronteiras, afinal, um cerco está sendo fechado em seu entorno. Lembro do livro "A arte da Guerra" de Sun Tzu, um estrategista militar chinês que deixou para a humanidade essa obra fantástica cujos ensinamentos são muito utilizados em diversas áreas (esportes, negócios, educação e, claro, militar). Sun Tzu professorou que "Se você não deseja um embate direto com seu inimigo, nunca o cerque, deixe sempre um espaço para a sua retirada, caso contrário, em não tendo saída, ele lutará encarniçadamente contra você".

            Lembremos da Crise dos Mísseis de 1962, naquela ocasião como revide ao fato dos EUA terem implantados mísseis nucleares na Itália e na Turquia, a URSS implantou mísseis nucleares em Cuba. Quase houve uma guerra nuclear entre as duas superpotências. Ambas cederam e retiraram seus mísseis e é devido a esse fato que você está lendo essas linhas. Há alguns dias, o presidente russo Vladimir Putin acenou que tal como os EUA se julgam no direito de colocar bases militares nas portas da Rússia, a Rússia poderia pensar em instalar bases militares em Cuba e na Venezuela. Foi o suficiente para que Washington respondesse que tomariam as medidas necessárias para evitar a "desestabilização" da América Latina. Por desestabilização entendam a perda do seu controle total sobre a região tratada como seu quintal.

            Com o fim da Guerra Fria em 1991, com a derrocada do perigo representado pela extinção do Pacto de Varsóvia e do desmoronamento da URSS e, mais, com o colapso das economias daqueles países que faziam a transição para o capitalismo é de se perguntar: por que a OTAN ainda existe? A resposta é que sempre há um inimigo e se não há, ele precisa ser criado. Afinal, é necessário justificar perante o contribuinte que paga a conta dos fabulosos gastos militares a necessidade da manutenção dessa gigantesca máquina de guerra. É importante salientar também que a indústria de armamentos é muito lucrativa e contribui fortemente com recursos financeiros para as campanhas parlamentares e presidenciais. Isso posto, é importante lembrar que a OTAN nascida como aliança militar defensiva passou a ser a ponta de lança do imperialismo estadunidense e europeu na região do Velho Mundo, afinal, intervenções militares dessa aliança foram realizadas contra países que jamais ameaçaram a segurança de qualquer de seus membros, exemplos são as intervenções da OTAN no Kosovo, no Afeganistão e na Líbia.

            O decadente imperialismo europeu, perdeu o trono, mas, não a majestade e precisa do apoio militar estadunidense para com mãos armadas defender os seus interesses estratégicos. Os Estados Unidos da América, a nação mais beligerante do planeta e, cujos discursos moralistas sobre a democracia, o respeito aos direitos humanos e a paz, demonstram ter os governantes mais hipócritas do mundo, precisam manter a OTAN como um braço direito para os seus interesses estratégicos mais escusos e como justificativa para manter bases militares na Europa. O império estadunidense está em declínio e, como os demais impérios que lhe precederam, tudo faz para evitar a derrocada. Os EUA são a nação mais endividada do planeta, e seus gastos militares estratosféricos (para manter a fabulosa máquina de guerra de que dispõe) contribuem para o sempre crescente déficit orçamentário, que tem na China seu maior credor. Os EUA precisam do apoio militar e financeiro da Europa e há muito reclamam do baixo investimento de países como a Alemanha no setor militar. A se tomar como fato, os discursos de líderes europeus, a Guerra na Ucrânia deu início a uma nova corrida armamentista no velho continente. Enquanto mulheres choram a perda de seus entes queridos, homens à frente da indústria de armas sorriem!

segunda-feira, 21 de março de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - parte 2

 

                A desintegração da URSS trouxe para as pessoas ingênuas, a falsa impressão de um mundo mais seguro. Foi o "equilíbrio do terror", ou seja, a impossibilidade de um confronto direto entre as superpotências que evitou a Terceira Guerra Mundial/Guerra Nuclear, dado o fato que implicaria na destruição mútua assegurada (MAD). A Rússia, como dissemos, abriu mão da disputa pela hegemonia mundial, afinal, o desmantelamento territorial e econômico do país exigiam a atenção total de seus governantes que precisavam conter novos focos separatistas. A transição do país para o capitalismo foi traumática, com ela veio o fim de vários serviços públicos gratuitos oferecidos pelo Estado socialista, fato que muito desagradou a população. A Rússia é hoje um país capitalista e, como tal possui os problemas característicos deste sistema.

            Moscou é atualmente, a capital de país com o maior número de bilionários. Significativa parcela dessas fortunas são de antigos burocratas soviéticos, que, por suas relações de proximidade com o poder (corrupção) se tornaram proprietários de empresas e detentores de direitos que os tornaram em magnatas. O povo em geral, não teve a mesma sorte. O poder aquisitivo e a qualidade de vida despencaram com o fim do socialismo e da política de pleno emprego do país. Inúmeras reportagens foram realizadas no país e nelas, pessoas choravam pelo fim do socialismo, enquanto outras (em pequeno número) exibiam-se com seus iates, helicópteros e carros de luxo. A miséria, a fome, o desemprego reinaram forte nos anos que se seguiram ao fim da URSS. A situação começou a melhorar com a ascensão de Vladimir Putin ao poder no ano de 1999. Ainda assim, a Rússia é hoje um país com uma das maiores desigualdades sociais do mundo, embora esteja melhor neste quesito do que o Brasil.

            A Rússia (herdeira da URSS) foi admitida ainda nos anos 1990 no G7 (sete nações mais ricas do mundo) e que passou a se chamar G8, no qual a Rússia, fazia um papel de primo pobre, sendo considerada apenas pelo fato de ainda manter um poderoso arsenal nuclear. A Nova Ordem Mundial pós Guerra-Fria se fez unipolar do ponto de vista militar, pois, contava com uma única superpotência militar (EUA) e multipolar na esfera econômica, com a forte ascensão da União Europeia, do Japão e mais recentemente da China. Houve muitas reuniões entre os EUA e a Rússia tendo como tema o desarmamento nuclear e o fim das hostilidades entre os países.

            Os Estados Unidos e a OTAN se comprometeram verbalmente de não pressionar/encurralar a Rússia em suas fronteiras (países limítrofes). No entanto, a OTAN que nasceu como uma aliança político-militar de proteção contra um eventual ataque de país/países socialistas a algum de seus membros, não cumpriu a promessa e em ondas sucessivas de ampliação de sua área de atuação foi incorporando novos aliados demonstrando aplicar a teoria geopolítica clássica da Heartland (coração da Terra) do geógrafo inglês Halford Mackinder (1861-1947) segundo a qual "quem controlar o leste europeu controlará toda a Eurásia e, quem controlar a Eurásia, governará o mundo". O leitor já deve ter percebido que há muitas fichas sobre a mesa de jogo referente à Guerra na Ucrânia e elas não são resultantes apenas das apostas de Rússia e Ucrânia, mas, principalmente dos Estados Unidos da América e dos países da OTAN que têm mais a ganhar com a referida  guerra do que os referidos contendores.

 

domingo, 6 de março de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - Parte 1

 

          Guerra Fria foi o termo utilizado para designar a rivalidade entre Estados Unidos da América (EUA) e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) no período compreendido entre 1945 (bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki) e o fim da superpotência socialista em 1991. A superpotência capitalista (EUA) e a superpotência socialista (URSS) buscavam a hegemonia mundial. Desse modo, o mundo foi dividido em dois blocos principais, o capitalista e o socialista. Havia ainda um terceiro bloco de países (os não alinhados) e que contava com países capitalistas e socialistas que discordavam (em meu ver, acertadamente) da forma de atuação de ambas as superpotências. A corrida espacial e a corrida armamentista do período (passadas três décadas) ainda afetam o mundo atual, afinal, muitas tecnologias (para o bem ou para o mal) foram criadas e aperfeiçoadas com base em conhecimentos desenvolvidos no período. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi criada em 1949 e, na época, tal como no jogo de xadrez, a ação preventiva de um lado gera outra no lado oposto, em 1955 era criado o Pacto de Varsóvia. Ambas eram alianças político-militares de apoio militar mútuo no caso de um ataque a um dos membros por parte de um país ou de toda a aliança militar adversária.

            É importante lembrar que o acirramento da corrida armamentista foi uma estratégia estadunidense para quebrar a economia soviética. A superpotência socialista precisava investir 40% de seu orçamento na economia militar para fazer frente aos EUA que precisava gastar menos (12%). A economia civil da URSS ia mal, precisava de mais investimentos. O povo tinha dinheiro, mas, a produção de artigos de consumo duráveis e não duráveis para a população era insuficiente e isso a incomodava. Obviamente que a falta de liberdade de expressão (de democracia) também foram fatores que ajudaram a causar o desgaste junto à população, mas, esta (em sua maioria) queria mudanças e, não especificamente o fim do socialismo, pois, também era crítica ao capitalismo. O governo do reformista Mikhail Gorbachev (1985-1991) era de coalizão (membros reformistas e linha-duras). O Secretário Geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) que governava o país era pressionado pelos reformistas que desejavam acelerar as reformas e pelos linha-duras que não queriam as reformas e desejavam a manutenção do regime e do status da URSS na Guerra Fria.

             Gorbachev insistia muito em tratados de desarmamento com os EUA. Desejava fazer a Perestróica (reestruturação da economia soviética) investindo mais na economia civil e menos na economia militar e, para tal precisava de um tratado de contenção de gastos militares, afinal, a URSS também não podia se tornar frágil perante os EUA. Gorbachev pretendia também implantar sua política da glasnost (transparência) que visava democratizar o socialismo soviético, ou seja, abandonar o autoritarismo que havia caracterizado o regime e conceder liberdade de expressão para a população e transparência quanto aos atos governamentais. O Leste Europeu aproveita o momento, abandona a órbita de influência da URSS e inicia sua transição para o capitalismo sem que a URSS impeça como fez noutras vezes como no episódio conhecido como Primavera de Praga (1968). Não demorou e as coisas saíram do controle, Gorbachev sofre um golpe de estado, é sequestrado e mantido preso na Criméia. Lideranças importantes das repúblicas soviéticas chamam o povo às ruas e conseguem fazer com que os soldados (atordoados pelos rápidos acontecimentos) troquem de lado. O golpe é frustrado. A URSS se desmantela com a independência de quinze repúblicas a saber: Estônia, Lituânia, Letônia, Ucrânia, Azerbaijão, Cazaquistão, Turcomenistão, Tajiquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Belarus, Geórgia, Moldávia, Armênia e Rússia (a maior delas).

            Com a desintegração da URSS em 1991, o Pacto de Varsóvia deixou de existir, pois a superpotência socialista (em crise) não tinha condições financeiras para mantê-lo e, mesmo porque o leste europeu se afastou da URSS. Com sérios problemas separatistas em seu território a Rússia (a herdeira da ex-URSS) se concentrou nestes abandonando seu protagonismo internacional, havia muito o que resolver, dentre estes assuntos urgentes estavam o espólio militar e nuclear da URSS. A Rússia desejava ficar com todo o arsenal nuclear e contou com o apoio dos EUA em tal intento. Os EUA consideravam mais seguro que o arsenal nuclear estivesse todo ele em mãos de um único país (a Rússia), pois, temiam que os artefatos nucleares pudessem ser usados por lideranças extremistas que assumissem o poder nestas ex-repúblicas ou ainda que políticos e militares corruptos os vendessem a terroristas. Além de pressionar, os EUA ofereceram preciosos recursos financeiros para as repúblicas ex-socialistas que se encontravam em crise econômica na etapa de transição do socialismo para o capitalismo e que consideraram ser irrecusáveis. Foi uma atitude sensata por parte destas, pois, as ex-repúblicas não tinham recursos financeiros para a manutenção e modernização do arsenal soviético, exemplo disso é que centenas de aeronaves tecnologicamente avançadas e inúmeros outros equipamentos bélicos modernos (à época) viraram sucatas.

 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o martelo

 

É importante que eu diga que no meio literário há o consenso de que nenhum leitor lê o mesmo livro, afinal, a interpretação da obra também passa pela bagagem cultural e de vida de cada pessoa. Como o leitor sabe, não sou  formado em filosofia, então, na condição de leigo, escrevo apenas as minhas impressões sobre a obra em questão. "Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 - 1900) foi um filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano do século XIX, nascido na atual Alemanha. Escreveu vários textos criticando a religião, a moral, a cultura contemporânea, exibindo uma predileção pela metáfora, ironia e aforismos (WIKIPÉDIA)". A obra tem como título completo "Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o martelo". O que o autor afirma ser a filosofia do martelo diz respeito a sua intenção de quebrar ideologias que são em seu entender ídolos com pés de barro, ou seja, não se sustentam. Nietzsche afirma ser loucura sacrificar a vida por uma causa ideológica, pois, em seu ver tudo é ilusão, portanto deve-se apenas desfrutar da vida. Segundo Nietzsche dizer sim à vida é esperar menos do futuro, lamentar menos o passado que não foi bom e aceitar a vida como ela é. E considera doentio quem nega a vida como ela é (apesar de seus inúmeros pesares). Nisso critica a moral cristã, pois faz com que o homem abra mão dos seus instintos carnais para viver um ideal que em seu ver não passa de ilusão.

            O autor faz fortes críticas à cultura ocidental e à Igreja (a qual considera fator de atraso da sociedade). Como o leitor pode constatar nestas poucas linhas, o filósofo era polêmico, por isso mesmo, odiado por uns, amado por outros. Ninguém passa indiferente à leitura de sua obra. O próprio Nietzsche se considerava muito avançado para a época que estava inserido e alegava ser este o motivo de seus livros não venderem o que ele esperava. O filósofo odiava o método dialético de Sócrates e se colocava em defesa dos interlocutores humilhados pelo filósofo grego. Afirmava que a arte e não a razão deveria ser endeusada, pois, as forças ativas estariam ligadas à criação (arte) e as forças reativas à moral. Nietzsche afirmava que o racionalismo em excesso estava acabando com a humanidade.

            Interessante observar como o autor insere o termo niilismo, pois, no dicionário o mesmo se refere ao ponto de vista que considera as crenças e os valores tradicionais infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. Nietzsche chama de niilistas as pessoas que desperdiçam a vida moldando sua mente e sua forma de viver em conformidade com as ideologias, a moral ou a crença cristã de uma vida após a morte, que (em seu ver) eram ídolos (com pés de barro) que pretendia destruir com sua filosofia do martelo para que o homem, enfim, livre pudesse viver (mesmo que a vida não tivesse nenhum sentido). Ao dizer sua famosa frase "deus morreu", Nietzsche estava na verdade afirmando que sua filosofia demonstrava/confirmava a morte de todas as utopias. O filósofo criticava até mesmo o ideal de igualdade dos comunistas e questionava sobre a quem interessava ou servia, pois, segundo ele a sociedade é desigual por natureza e a maioria dos indivíduos da sociedade é medíocre. Também o conceito de bem e de mal, não passou incólume ao olhar e à mente ferina do filósofo, pois, dizia que tais conceitos mudam com o passar do tempo e se diferenciam de uma região do mundo para outra e, afinal, quem afirmou que são verdadeiros? Trata-se de apenas mais um ídolo com pés de barro.

            Rememorando as instigantes aulas da disciplina isolada de filosofia de meu curso universitário nos quais tive a honra de ser aluno da Mestra Ruth Rieth Leonhardt, digo que concluí com êxito a leitura desta obra filosófica pois tenho mais dúvidas do que certezas e, segundo a citada professora esta é a função da filosofia!

Sugestão de boa leitura:

Título: Crepúsculo dos ídolos ou de como se filosofa com o martelo.

Autor: Friedrich Nietzsche.

Editora: Vozes de bolso, 2014, 120 pág.