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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 4

     O primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) sempre se jactou da superioridade do povo anglo-saxão. Durante o período da colonização da África e da Ásia, os europeus afirmavam empreender uma missão civilizatória em benefício do povo africano e/ou asiático. Nada mais falso, o fardo do homem branco foi e continua a ser carregado pelos povos explorados, pois, suas riquezas se tornaram a causa de sua pobreza e das guerras que assolam principalmente o continente africano. 
                Os Estados Unidos que poderiam ter empreendido um papel proativo nas causas humanitárias e ambientais saíram pela tangente. Mas, os EUA, talvez por ser uma nação de colonização anglo-saxã adotaram o discurso do fardo do homem branco. A missão civilizatória dos EUA consiste em fazer guerras, invadir países, financiar e apoiar golpes de Estado. 
            Sob o falso discurso da defesa da democracia apóiam a implantação de ditaduras capitalistas para supostamente evitar ditaduras comunistas. Destroem a infra-estrutura dos países que lhe servem de alvo para em seguida oferecer suas empresas de engenharia para a reconstrução mediante pagamentos ou concessões. Enfim, os EUA com seu aparato bélico em ação estão a dizer: OK, garotos queremos negócios! O que vocês têm a nos oferecer em troca da nossa “Pax americana”? 
            Os Estados Unidos buscam impor ao mundo o “american way of life”, no entanto, segundo Perry Anderson citado por Kiernan: “se todos os povos da Terra possuíssem a mesma quantidade de geladeiras e automóveis quanto os da América do Norte e da Europa Ocidental, o planeta se tornaria inabitável. Hoje na economia global do capital, o privilégio de poucos exige a miséria de muitos para ser sustentável”. 
            Kiernan cita ainda Walter Lippmann: “todos pensam nos Estados Unidos como um império exceto o povo dos Estados Unidos. Nós nos arrepiamos com a palavra “império”. Insistimos que ela não deveria ser usada para descrever o domínio que exercemos do Alasca até as Filipinas, de Cuba ao Panamá, e além. Pensamos que tem de haver outro nome para o “trabalho civilizatório” (aspas nossas) que fazemos de modo “tão relutante” (aspas nossas) nesses países atrasados”.
               Ainda sobre a alienação do povo estadunidense acerca do papel global desempenhado por seu país, Kiernan cita Midge Decter, biógrafo adulador do então secretário de defesa Donald Rumsfeld: “Afinal de contas, os americanos são em geral pessoas boas, provavelmente as melhores do mundo, com medo da mesquinhez em outros, e talvez até mais temerosos da acusação de serem eles mesmos mesquinhos”. Kiernan afirma: “o americano médio acredita que os EUA dediquem 15% do orçamento nacional a ajuda externa, em vez do número verdadeiro de 0,1% o que faz do governo americano o menos generoso dentre as 22 nações da OCDE” (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). 
                Contribui para o analfabetismo político de considerável parcela da população estadunidense, a grande mídia, que é considerada antipatriótica pelas lideranças políticas, e até mesmo por outras empresas de mídia, sempre que se posiciona contra guerras ou interferências dos EUA em outros países. O ex-presidente George H.W. Bush citado por Kiernan, e se referindo a um avião iraniano lotado com 290 civis derrubado pelos Estados Unidos afirmou: “Eu nunca pedirei desculpas pelos Estados Unidos. Os fatos não me importam”. E assim são os EUA, que até hoje não pediram desculpas pelo lançamento das bombas atômicas contra o Japão. Acredito que tal nação continue a agir dessa forma até a extinção da humanidade neste pequeno planeta, que poderá ocorrer, quem sabe, por meio de bombas atômicas.

sábado, 11 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 3

        No final da Segunda Guerra Mundial, soldados estadunidenses e soviéticos comemoravam juntos às margens do Rio Elba a vitória sobre as tropas alemãs. Não podiam imaginar que o caminho da cooperação trilhado por suas nações seria abandonado no período seguinte conhecido como Guerra Fria. Hoje se sabe que o Japão estava disposto à rendição ainda em Maio de 1945, pois, sabia que a prometida entrada da União Soviética no front asiático era sua sentença de morte. Fazia uma única exigência: a preservação do Imperador tido como um semideus na tradição japonesa ante a afirmativa estadunidense de que não poderia impor nenhuma condição. 
        O desejo dos EUA de não mais cumprir as cessões já acordadas de áreas de influência para a União Soviética, o levam a lançar as bombas atômicas para intimidar esta, porém, Stalin por meio de seus espiões já sabia da bomba antes mesmo da explosão experimental (Trinity) no deserto de Alamogordo. Stalin mantém suas intenções por áreas de influência e acelera o programa nuclear soviético. 
        O presidente Truman, considerado despreparado para o cargo que assumiu após a morte de Roosevelt acreditava que os soviéticos jamais conseguiriam desenvolver sua própria bomba atômica. Ele estava enganado, os EUA ficaram pouco tempo no monopólio do poder nuclear. Algo já esperado pelo físico Julius Robert Oppenheimer líder do projeto Manhattan, afinal, “não havia segredo a esconder de um país que contasse com bons físicos”. 
            A Guerra Fria se traduziu numa disputa por áreas de influências entre os EUA e a URSS. Nunca houve um confronto direto, pois, este se traduzira na M.A.D. (mutually assured destruction), a destruição mutuamente assegurada tendo em vista o tamanho de seus arsenais nucleares. O mundo passou a ser dividido entre países alinhados aos EUA ou à URSS. Houve também o grupo dos não alinhados que discordavam da forma de agir de ambas as superpotências. 
             Após o soco no estômago recebido pela Revolução Cubana de 1959, os EUA não mediram mais esforços para intervir em outras nações especialmente as latino-americanas. A nação ianque preferia ditaduras a regimes socialistas em seu quintal. Várias destas nações sentiram-se envolvidas na Guerra Fria, quando golpes de Estado patrocinados, estimulados ou até orquestrados por Washington foram postos em prática. Malas de dólares foram dadas para generais corruptos do Exército Brasileiro. O Brasil recebeu em seu litoral uma frota estadunidense inteira inclusive com porta-aviões para apoiar o golpe caso o Exército não conseguisse dar conta do recado. 
             Os EUA treinaram militares brasileiros na prática de métodos de interrogatórios (tortura) na chamada Escola das Américas. O Brasil repassou seus ensinamentos aos países vizinhos que implantaram ditaduras com o aval e assistência técnica e financeira dos EUA (justamente o país que se declara o maior defensor da democracia no mundo). Sobre isto o presidente João Goulart deposto em 1964 disse: “Os EUA falam muito em democracia, mas, deveriam permiti-la”. 
         Em 1965, um ano após o golpe, empresas estrangeiras, principalmente estadunidenses, começaram a desfrutar dos benefícios da troca do governo democrata e patriota de João Goulart pela entrada de um governo autocrata e dócil a Washington. O caminho para os recursos naturais e o mercado brasileiro estava agora plenamente acessível. Veio o famigerado AI-5, o fim das garantias individuais, as prisões ilegais, as torturas, os assassinatos, a censura, etc. E até hoje, se busca ocultar o que ocorreu naquele período (1964-1985), mas, que parafraseando Kiernan ao falar do Haiti, compreende também o Brasil: “há um excesso de cadáveres no armário. Também, é claro, quanto mais tirânico e impopular um ditador, mais ele está ligado por lealdade a Washington”.

sábado, 4 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jônatas se transformou em Tio Sam” - Parte 2

          O estímulo concedido à economia dos EUA pelos países em esforço de guerra havia passado. Os EUA entraram, então, na sua maior crise econômica (1929). Os índices de desemprego e de pobreza eram alarmantes. Os preços das ações na bolsa de valores de Nova Iorque despencaram. Tal como na brincadeira de enfileirar peças de dominó, a crise se alastrou pelo planeta, derrubando as economias de inúmeros países. 
          O presidente Franklin Delano Roosevelt lançou o plano New Deal, cuja ênfase se deu em maciços investimentos estatais em infraestrutura, na forte regulação e intervenção estatal na economia para o constrangimento dos liberais radicais. No entanto, graças ao intervencionismo estatal amparado na teoria econômica de John Maynard Keynes, o capitalismo estadunidense foi salvo da ação destruidora dos próprios capitalistas. 
            Segundo Kiernan, “na Alemanha nazista, o capitalismo era recuperado por meios ainda mais drásticos, eliminando agitadores socialistas ou sindicalistas” (e pensar que em pleno século XXI, ainda há analfabetos políticos que acreditam que o governo de extrema direita de Hitler era socialista, apesar de este ter enviado milhares de socialistas e sindicalistas para as câmaras de gás). 
           Antes de finda a Segunda Guerra Mundial, o mundo mergulha na Guerra Fria. Os Estados Unidos da América resolve apressar o fim da guerra para evitar maiores perdas de vidas de soldados estadunidenses. O presidente Harry Truman autoriza o uso das famigeradas bombas atômicas contra o Japão. Segundo especialistas, a ação foi injustificada, pois, mantido o cerco naval, em poucas semanas, o Japão se renderia. Os EUA, pensando no mundo pós-guerra, resolvem fazer uma demonstração de poder ao mundo, e principalmente à União Soviética (sua aliada na luta contra a Alemanha nazista) e futura adversária na Guerra Fria. 
               Os EUA se tornam a primeira e única nação covarde o suficiente para utilizar o mais poderoso e vergonhoso artefato bélico já inventado contra uma população civil. Milhares de pessoas morreram na hora. As sobreviventes, certamente invejaram aquelas que morreram instantaneamente, devido aos terríveis sofrimentos e sequelas que lhes foram impostos. No Japão, ainda hoje, nascem pessoas com deficiências e má-formação congênita resultantes de alterações genéticas de seus ascendentes, sobreviventes do maior ato terrorista da humanidade, infligido pela nação mais terrorista da história. 
             A indústria bélica estadunidense é a mais desenvolvida do planeta e tem em seu próprio país, o maior comprador de armas. Ninguém investe tanto em armas e as utiliza tanto. Nenhuma nação fez mais intervenções em assuntos internos de outros países que os EUA, e para tal se utilizam do “Soft Power” que se traduz em pressões diplomáticas ou econômicas, e quando este falha, a opção seguinte é a utilização do “Hard Power”, quando o país exibe e utiliza seus músculos. 
            No entender de Kiernan: “a colossal máquina de guerra estadunidense é o punho que se esconde por trás da “mão invisível” do mercado”, e que torna possível a abertura de mercados para os produtos estadunidenses, e faz de sua economia, a superpotência que é. Ou ainda, conforme Michael Ledeen, citado por Kiernan: “a cada dez anos mais ou menos, os Estados Unidos precisam pegar algum país pequeno e sem importância e jogá-lo contra a parede, só para mostrar ao mundo que queremos negócios”. 
               A economia dos Estados Unidos foi enormemente beneficiada pelas duas Guerras Mundiais, pois, não sofreu grandes perdas por seu território não ser palco delas (exceção ao Havaí). Por ser grande provedor de armas e víveres para as nações em esforço de Guerra, os estoques de ouro das nações européias foram conduzidos aos cofres estadunidenses como pagamento. O país passou a ter banqueiros a financiar atividades econômicas no mundo todo, sendo estas de iniciativa de compatriotas ou não.
         Sempre disposto a desenvolver o capitalismo, a nação estadunidense por meio de seu representante na ONU sugeriu aos países subdesenvolvidos que realizassem a reforma agrária, pois, esta é essencial para elevar padrões de vida e de consumo da população. Então, para os EUA, a reforma agrária é ótima para o capitalismo. No entanto, as elites alienadas dos países latino-americanos não gostaram da idéia e afirmaram ver nela indícios de socialismo. O estranho é que a tal “proposta socialista” veio do país mais capitalista do planeta. Estão certos os Estados Unidos ou as “sábias” elites latino-americanas?

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 1

            O professor escocês Victor Gordon Kiernan (1913-2009) foi dono de uma mente iluminada, cujo conhecimento, mesmo após sua partida desse plano, continua a trazer luzes sobre as sombras da ignorância, que despudoradamente já não mais se escondem. Nestes tempos em que segundo Umberto Eco “a Internet e as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, pessoas não afeitas ao hábito da leitura e da reflexão se julgam donas de um saber que de fato não possuem, pois, ao se utilizarem do mero senso comum, de forma pretensiosa e arrogante, reduzem à mera opinião pessoal, todo o conhecimento científico exaustivamente produzido por intelectuais da área das humanidades. Tal fato confirma a constatação do saudoso geógrafo Milton Santos quando afirmou: “é muito difícil ser intelectual no Brasil. As pessoas não gostam de ouvir”. 
          Sabemos que a neutralidade científica inexiste, e, que todo posicionamento é político, e, portanto, ideológico, principalmente aquele que se diz neutro, pois ao se esconder por trás de uma impossível neutralidade, visa ocultar suas reais intenções para dela tirar proveito ou em benefício de outrem (pessoa, grupo ou classe social), no que desvela o caráter conservador e dissimulado. O intelectual é chamado a fazer a opção entre desenvolver ciência com viés inclusivo ou exclusivo, mas, isto jamais pode ser considerado mera opinião pessoal (senso comum).
          A obra: “Estados Unidos, o novo imperialismo: da colonização branca à hegemonia mundial”, mostra o caminho trilhado pelos Estados Unidos da América desde quando o navio Mayflower trouxe a primeira leva de imigrantes a se estabelecer nas terras que mais tarde formariam o país. Nos primórdios da nação ianque foram estabelecidas as treze colônias da Nova Inglaterra, as quais se encontram representadas nas faixas da atual bandeira (sete vermelhas e seis brancas). 
          A declaração de independência em IV de julho de 1776 teve como resposta da Inglaterra, uma guerra que durou até 1783. Reconhecida a independência pela Inglaterra, o Irmão Jonatas (como os ingleses chamavam os EUA quando ainda podiam considerá-lo um irmão caçula e não um pai de família) se lançou numa conquista territorial que se fez com cessões por parte do primo John Bull (como os estadunidenses chamam a Inglaterra) e da Espanha, aquisições territoriais junto à França e à Rússia, e de muito sangue derramado dos habitantes nativos peles-vermelhas, sobre os quais um cultuado herói estadunidense chegou absurdamente a afirmar: “índio bom é índio morto”. 
         Os indígenas que se recusaram a vender suas terras pelas ninharias determinadas pelas companhias colonizadoras, ou mudar-se para as reservas criadas em locais diversos ao solo sagrado de seus ancestrais, foram vítimas de massacres levados a cabo pelo próprio exército nacional. O México foi a principal nação prejudicada, pois, perdeu grande parte de suas terras (se de onde estamos, os EUA já incomodam, imagine sendo seus vizinhos). As pretensões da nação ianque não foram plenamente atingidas, pois, elas abarcavam a totalidade do território mexicano e a ilha de Cuba, isto sem falar em inúmeras ilhas do Oceano Pacífico.
             Em 1860, o presidente Abraham Lincoln iniciou seu mandato e logo em seguida ocorreu a deflagração da Guerra Civil ou de Secessão. O sul escravocrata sob a bandeira dos Estados Confederados da América pretendia separar-se do restante do país, dentre outras razões, e principalmente, para continuar a escravizar a população negra introduzida à força no território. Abraham Lincoln, em meio ao esforço de guerra, se reelege em 1864, as tropas da União vencem a guerra, e logo no início de seu segundo mandato (1865), Lincoln é assassinado por um ator defensor da causa sulista, enquanto assistia a uma peça no Teatro Ford. 
            Mesmo após sua formação territorial, os EUA ainda agiam como sendo o Irmão Jonatas. Embora sua estatura houvesse aumentado enormemente, como adolescente não sabia ainda como se portar no palco das nações. Titubeava entre ser um país solidário com as demais nações cujo grau de desenvolvimento lhe era inferior, ou fazer como seu primo John Bull (Inglaterra) e lançar-se ao mar para fazer guerras contra povos considerados atrasados e pilhar suas riquezas. Os EUA não demorariam muito a optar pela segunda opção. 
            Inicialmente, capitalistas ianques foram adquirindo terras e empresas na América Central, aproveitando-se das elites corruptas e entreguistas destes países, e com o auxílio governamental estadunidense na manutenção destas no poder. O caráter das elites latino-americanas é definido da seguinte forma pelo Padre Combrin citado por Kiernan: “as elites da América Latina são as mais alienadas do mundo, são cheias de pesar por não terem nascido européias ou norte-americanas”.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

“A falta que Brizola faz”

Em 15 de Novembro de 1989, o país comemorava o centenário da Proclamação da República, embora isto significasse muito pouco para um povo acostumado a não participar dos momentos decisivos da história nacional, geralmente tramados e executados pela elite. Acertadamente Lima Barreto afirmou: “o Brasil não tem um povo, mas um público. Povo luta por seus direitos e público apenas assiste de camarote”. Por ocasião da Proclamação da República tivemos algo que é rotineiro no Brasil: um golpe de Estado que visava atender os interesses da elite, e como é costume, o povo brasileiro se mostrou indiferente. Somos um país de tradição autocrática, os golpes de Estado se sucedem periodicamente após breves hiatos democráticos. Talvez por isso, que mesmo entre os trabalhadores é comum observar pessoas que pedem a volta de regimes ditatoriais. Em nosso país, a cultura democrática não está amadurecida. De um lado temos uma elite parasita que desde os primórdios da história da pátria suga os recursos públicos para fazer a manutenção dos injustos privilégios que desfruta à custa de milhões que não têm o mínimo para viver com dignidade. De outro, temos um povo com baixa instrução e reduzidíssima consciência política e de classe que contribui para a sustentação da parcela que os explora. Quando a Itália concluiu seu processo de unificação, o político Massimo D’Azeglio disse: “fizemos a Itália, precisamos agora fazer os italianos”. Massimo sabia que não se faz um país apenas com o território. É necessário um povo com sentimento de pertença ao território e ao sonho conjunto de nele construir uma grande nação. A Itália unificou seu território e foi bem sucedida na criação do povo italiano. Talvez devêssemos entrar em contato com historiadores e cientistas políticos italianos solicitando ajuda sobre como criar no Brasil, o povo brasileiro. Um povo com sentimento de pertença a este chão, e que seja comprometido em fazer deste rico território, aquilo que por natureza lhe está inevitavelmente reservado, ser uma grande nação, não apenas em tamanho de território. Afinal, ser uma potência é a vocação natural do Brasil. Se ainda não é, isto se deve às sabotagens de uma elite mesquinha, egocêntrica, cruel e com mente colonizada que prefere fazer o papel de feitor de escravos de seu povo em troca de benefícios espúrios a serviço dos senhores de escravos do grande capital nacional e estrangeiro. Neste momento obscuro pelo qual passa o país do “futuro”, que teima em nunca chegar e diante da crise moral em que se encontra, a falta de um grande líder político é muito sentida por todos aqueles que ainda têm em seus espíritos uma chama de patriotismo acesa. E esse líder é o saudoso Leonel de Moura Brizola (1922-2004). Brizola dedicou sua vida às grandes causas nacionais. Era acima de tudo um patriota. Orador eloquente, sua fala não passava despercebida, emocionava as pessoas que compartilhavam de seus ideais e irritava profundamente seus adversários. Escrevia tão bem quanto falava. A grande mídia lhe recusava espaço para divulgar seus pronunciamentos sempre de forte conteúdo, por isso, com recursos próprios e de seus companheiros comprava espaços na mídia para publicar seus artigos conhecidos como “tijolaços”. O grupo Globo lhe fazia oposição e buscava a todo custo prejudicar a sua imagem e campanhas políticas. Brizola, porém, nunca se curvou. Afirmava que não era caro o preço a se pagar para manter a dignidade e o caráter intactos. Vários de seus artigos foram direcionados em tom de resposta ao grupo Globo, e outros em forma de denúncias acerca de favorecimentos concedidos por governos e empresas estatais às empresas do referido grupo. Considerava o império midiático de Roberto Marinho (1904-2003) uma ameaça à população brasileira e à democracia nacional. Em certa oportunidade entrou para a história do jornalismo nacional ao ganhar na justiça um direito de resposta em horário nobre, mais especificamente durante o Jornal Nacional. O direito de resposta em questão foi lido pelo próprio apresentador âncora do JN Cid Moreira. Uma dura resposta à Globo e a Roberto Marinho, o que causou o êxtase da parcela mais esclarecida da sociedade. No dia 15 de Novembro de 1989, este escriba, então um jovem, depositava seu primeiro voto numa urna, e este foi em Leonel Brizola. Políticos como Brizola fazem muita falta neste momento sombrio pelo qual passa o país em que valores como o patriotismo e a decência na ocupação de cargo eletivo viraram tema de ficção, pois, a julgar por suas atitudes, grande parcela dos representantes eleitos zombam da sociedade. É importante que se diga que Brizola não se acomodaria ante o estado de coisas ocorridas após junho de 2013, quando milhões de manifestantes que se diziam insatisfeitos com a corrupção foram transformados em massa de manobra (devido o seu elevado grau de analfabetismo político), desestabilizando um governo democraticamente eleito e oportunizando a condução (via golpe) ao Poder de um grupo político que representa o suprassumo da corrupção nacional e que está destruindo qualquer possibilidade de desenvolvimento soberano do Brasil. O “público” brasileiro segue assistindo a destruição do país, a entrega de seus ricos recursos naturais ao capital estrangeiro e o desmonte da tímida tentativa de criação de um Estado de Bem-Estar Social. Rosa Luxemburgo disse: “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. Apáticos como são, os brasileiros sentem-se confortáveis presos aos grilhões da TV Globo, e não enxergam em suas miseráveis existências, a senzala da vida real!

 Sugestão de boa leitura:

 Tijolaços – Leonel Brizola – Ed. Galpão de idéias Leonel Brizola. 2017.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Não é comigo!

“Esta é uma estória sobre quatro pessoas: Todo Mundo, Alguém, Qualquer Um e Ninguém. Havia um importante trabalho a ser feito, e Todo Mundo tinha certeza que Alguém o faria. Qualquer Um poderia ter feito, mas Ninguém o fez. Alguém se zangou porque este era um trabalho para Todo Mundo. Todo Mundo pensou que Qualquer Um poderia fazê-lo, mas Ninguém imaginou que Todo Mundo deixaria de fazê-lo. Ao final, Todo Mundo culpou Alguém quando Ninguém fez o que Qualquer Um poderia ter feito”. A frase citada (de autoria desconhecida) é muito utilizada no meio empresarial, mas se encaixa muito bem ao momento que vivemos em nosso país. Afinal todas as pessoas esperam que as demais tenham o comprometimento, a honestidade, a dedicação, o respeito às leis, o patriotismo, o interesse no bem coletivo, a retidão de caráter, que, raramente seus rígidos padrões adotados lho aprovariam caso fosse avaliado pelos mesmos critérios aos quais julga os demais. Recentemente, um presidenciável viajou à Paris e fez uma “reunião de faz de conta” com uma importante autoridade local, haja vista que a referida autoridade não se encontrava na cidade, dessa forma, a reunião não aconteceu, mas, a notícia acerca da reunião sim, afinal, na sociedade atual se um evento ocorre, mas não é divulgado na mídia, afirma-se que ele não ocorreu! Esse tipo de gente pensa que para algo ocorrer não há a necessidade de sua materialidade, mas de sua publicização. Já tivemos em nosso país um caçador de marajás, que jamais caçou marajás. A Grande Mídia passa seus dias procurando encontrar um novo Salvador da Pátria de mentirinha, pois, se for de verdade não interessa às grandes oligarquias nacionais, que são abutres e desejam ter mais carniça, para se alimentar de seus despojos. Em nosso país, temos um “Presidente de faz de conta”, ele finge defender os interesses nacionais! Ele finge que tem alguma legalidade, mas ocupa seu cargo por meio de um Golpe de Estado Suave e sofisticado, que contou com o apoio do Departamento de Estado Americano. Uma vez no poder, Temer mostra a que veio, não para de entregar as riquezas nacionais estratégicas para grupos estrangeiros protegidos sob as bandeiras nacionais de potências, que não fizeram outra coisa na história do capitalismo mundial, que saquear as riquezas de outros povos e promover massacres, cujas vítimas são incontáveis, pois foram varridas para debaixo do tapete dos vencedores. O usurpador do cargo eletivo máximo da nação age com maldade impetuosa contra a classe baixa e média, porém, de forma terna, amistosa e generosa com a alta burguesia nacional e estrangeira. Para completar o quadro de pesadelo que o país vive, e parafraseando François Guizot (1787-1874), temos como ponta de lança do Judiciário “magistrados de faz de conta” cujos recintos nos quais trabalham foram contaminados pelo partidarismo político e munidos da parcialidade, da seletividade, há muito a Justiça se retirou pela porta dos fundos, escorraçada e humilhada. No Congresso, os “representantes de faz de conta” do povo que nada mais representam que seus mais espúrios interesses fisiológicos, são o câncer que ataca e enfraquece a nossa democracia e torna distante a possibilidade de desenvolvimento soberano. Eles nada mais fazem do que a metástase do atual regime corruptocrata, por tudo quanto suas influências alcançam torna-se corrupção! Nunca houve democracia plena no Brasil, apenas democracia de baixa intensidade. Hoje nem isso, pois, há apenas uma “democracia de faz de conta” e principalmente “cidadãos de faz de conta”. Lima Barreto já dizia: “O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos. Público apenas assiste de camarote”! Recentemente “paneleiros” indignados com a corrupção protestaram. Mas era uma “indignação de faz de conta”, pois era seletiva, portanto hipócrita, haja vista que com a maior quadrilha de criminosos instalada no Poder, suas panelas permanecem mudas! Enfim, o Brasil é um país que Todo Mundo faz de conta que é patriota, mas está ocupado demais com o próprio umbigo, e espera que Alguém faça algo para impedir a aniquilação do sonho de Qualquer Um em ter um país soberano! Porém, Ninguém faz nada e coloca a culpa em Todo Mundo! Todo mundo faz de conta que não é com ele e diz que Qualquer Um pode fazer. Mas, Ninguém faz! Todo Mundo diz que é necessário recorrer a Alguém para recuperar o país que foi sequestrado por uma quadrilha de criminosos, mas, não há a quem recorrer, porque não há como saber quem é cidadão e quem faz de conta!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

“Self made man” – parte 4 - Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá

Irineu Evangelista de Sousa nasceu em 28 de dezembro de 1813, no município de Arroio Grande (RS). Ainda criança perdeu seu pai, o fazendeiro e pecuarista João Evangelista de Ávila e Souza, o qual foi assassinado por ladrões de gado. Sua mãe, Mariana de Jesus Batista de Carvalho casou-se novamente e, seu novo marido não aceitou a permanência dos filhos de Mariana na casa. Guilhermina Evangelista de Sousa (13 anos de idade) teve que casar-se e Irineu com oito anos foi para o Rio de Janeiro com seu tio José Batista de Carvalho. No Rio de Janeiro, passou a trabalhar na casa de comércio do Sr. Pereira de Almeida, um português radicado no Brasil, e que vendia quase tudo, mas, cuja fonte principal de lucros era o comércio de africanos escravizados. O menino Irineu era tão inteligente e dedicado ao trabalho que aos doze anos já foi promovido a “guarda-livros”, profissão atualmente exercida pelo técnico contábil ou bacharel em Contabilidade (contador). Como a Inglaterra estava aprisionando os navios destinados ao tráfico de africanos, o preço destes subiu às alturas, os riscos de perdas financeiras se elevaram, porém, também as margens de lucros. E numa destas empreitadas seu Pereira de Almeida teve enorme prejuízo que quase o levou à ruína. Irineu negociou com o Sr. Carruthers, um credor escocês da dívida de seu patrão e conseguiu a dilatação do prazo para o pagamento desta. Envidou esforços e conseguiu receber os recursos que eram devidos ao Sr Pereira de Almeida por vários fazendeiros, cujos haveres já eram considerados perdidos. Irineu conseguiu manter para seu patrão, o palacete no Rio de Janeiro e sua fazenda. Ao comparecer ao escritório do Sr. Carruthers para quitar a dívida como havia prometido, teve seu talento reconhecido e foi convidado a trabalhar na empresa de importação e exportação deste. Por indicação de seu novo patrão, estudou os autores do liberalismo clássico, tinha então quinze anos. Quando contava vinte e três anos já era rico, e, sozinho passou a comandar a empresa de exportação e importação, pois, o Sr. Carruthers decidiu voltar para a Inglaterra. Numa visita à Inglaterra em 1840, maravilhou-se com as indústrias daquele país. Passou a sonhar em trazer a modernidade para o Brasil. Sua empresa de importação e exportação estava no auge, liquidou-a mesmo assim, pois, queria investir em indústria num país, cuja elite acreditava que a vocação do Brasil era e deveria ser sempre agrícola. Montou a fábrica de Ponta da Areia, uma fundição que produzia artefatos bélicos, canos metálicos, etc. além de ser também estaleiro, o qual chegou a ter mais de mil empregados. Opositor do regime escravista que considerava fator de atraso do país, acreditava que as pessoas deveriam ser remuneradas por seu trabalho para poderem consumir e movimentar a economia. Sonhava com o fim da escravidão para que o montante empregado no sistema fluísse para o financiamento da atividade industrial. Abriu o segundo Banco do Brasil, o primeiro (estatal) tinha sido liquidado alguns anos antes. Especulou com o câmbio e chegou a passar a perna na família Rotschilds, dona do mais poderoso banco inglês, causando a este perdas financeiras, mas, também espanto e admiração. Foi também construtor de ferrovias e por isso é considerado o patrono dos transportes. Estátuas e bustos seus estão espalhados pelo país em campus de cursos de administração de várias universidades. Sua ousadia nos negócios, sua metodologia estranha às oligarquias, seu enriquecimento rápido (aos trinta anos já possuía mais riqueza que todo o Império do Brasil, e sua fortuna se corrigida monetariamente, o colocaria na lista dos dez mais ricos do planeta com cerca de 60 bilhões de dólares) trazia-lhe admiração e repulsa de seus contemporâneos. Chegou a ter dezessete empresas, estas contavam com modernos padrões de gerenciamento e quatro de suas empresas estavam entre as seis maiores do país. Foi vítima de inveja e traições. Foi atraiçoado por políticos e até mesmo pelo Imperador Dom Pedro II. Sua derrocada começou com um incêndio criminoso em sua fábrica de Ponta de Areia. Também teve contra si, políticas que beneficiavam a importação de produtos manufaturados em detrimento do produto nacional e políticos que o atacavam e visavam prejudicar suas empresas. Montou empresas em seis países (Brasil, Argentina, Uruguai, Inglaterra, França e Estados Unidos). Possuía fazendas e seu plantel contava cento e trinta mil cabeças de gado bovino. Foi casado com sua sobrinha Maria Joaquina (May) com a qual teve muitos filhos, dos quais, apenas sete chegaram à idade adulta e somente cinco sobreviveram à sua morte. Foi à falência, mas, fez questão de pagar todos os seus credores, pois, dizia que seu nome era o maior patrimônio que possuía. Refez-se e ao final da vida era tão rico quanto aos 30 anos de idade (antes de montar a fábrica da Ponta da Areia), corretor de negócios de café, fazendeiro e pecuarista, não quis mais recriar o sonho do “império pessoal que durasse séculos”, pois, considerava que a mentalidade da elite brasileira ainda não estava amadurecida para suas idéias. Passou o resto da vida recebendo homenagens (Barão e Visconde de Mauá), e convites para recepções na corte, sem, no entanto atendê-los. Faleceu em 21 de outubro de 1889, três semanas antes da Proclamação da República.

 Sugestão de boa leitura:

 MAUÁ, empresário do império. Jorge Caldeira. Companhia das Letras.

 PS: Não deixe de assistir o filme: Mauá: o Imperador e o Rei, disponível no site You Tube.