quinta-feira, 24 de julho de 2014
A Copa das Copas e o vexame dos vexames! - Parte 2
No campo enquanto o selecionado brasileiro levava uma estonteante surra da seleção alemã percebi que na segunda etapa os alemães haviam desacelerado e pensei que com o jogo já liquidado estavam poupando energia para a final, porém, dias depois, assisti num programa de TV que os atletas alemães combinaram no intervalo do jogo não humilhar a seleção brasileira, faz sentido, penso que se desejassem chegariam facilmente aos 10 gols e que fizeram isto nem tanto pelo respeito à seleção brasileira, mas pelo fato de o Brasil ser o anfitrião e cujo povo acolheu carinhosamente a seleção germânica que por sinal se demonstrou uma das mais simpáticas.
Se em campo a seleção brasileira protagonizou o maior fiasco em 100 anos de sua história, fora dele, ao contrário do que a parcela do povo que canta em verso a suposta “incapacidade nata” do povo brasileiro de organizar grandes eventos e de ocupar um lugar ao sol entre as grandes nações do mundo, a Copa de 2014 foi um sucesso e ganhou a nota 9,25 atribuída pela FIFA superando a Copa de 2006 na Alemanha e obtendo o segundo maior público da história. Ao contrário do que todos imaginam, na Alemanha também houve atrasos no cronograma de entrega de algumas obras e obras que ultrapassaram o valor orçado. A Alemanha investiu menos recursos que o Brasil, pois, convenhamos, aquele país já tinha uma boa infraestrutura no que concerne a mobilidade urbana e, por isso, os gastos foram menores. No Brasil, após a ditadura militar até a entrada de Lula e Dilma no governo federal, os governantes somente tinham uma preocupação: vender as “joias da coroa” e vender o quanto antes, não importa a que preço! Pois bem, as “joias” foram vendidas e a infraestrutura do país além de não ser ampliada foi sucateada com o “Estado do mínimo” efetivado naqueles duros tempos de verdadeiramente minguados recursos para a Educação, para a Saúde e para a infraestrutura do país, em que boas estradas somente havia aquelas que eram pedagiadas vendendo-nos a falsa impressão de que o pedágio era a única solução, quando na verdade o problema era de péssima gestão dos governantes de plantão.
A Copa de 2014 é pelo menos por enquanto, a Copa das Copas, pois, a FIFA e os jornalistas estrangeiros a elegeram como a melhor dos tempos modernos, e, na qual o povo brasileiro deu um show de acolhimento aos turistas estrangeiros vindos de 203 países diferentes e contados em cerca de um milhão. Penso que a conhecida frase “o melhor do Brasil é o brasileiro” é corretíssima, pois, excluída uma parcela de pessoas nascidas em berço de ouro que se consideram castigados por Deus ou por uma fatalidade do destino ter nascido nestas plagas e que apenas resmunga, o brasileiro ri de suas próprias desgraças. Durante o desenvolvimento da Copa uma poderosa revista semanal que parcela da população considera a “Bíblia da notícia” e nela creem com imensa fé e a maior rede de TV deste país que dita o que o povo deve pensar estavam ambas com o discurso totalmente descompassado com a imprensa internacional que cobria o mundial e que tecia rasgados elogios ao país e à Copa, dessa forma, tais meios de comunicação acabaram capitulando e abrandando as críticas que inclusive boa parte dos marcianos acredita: não tinham motivações eleitoreiras.
Fracassamos em campo com uma empresa privada, sim, a CBF é uma entidade privada e não tem nenhuma ligação com o Governo Federal e, portanto, a Presidenta Dilma não pode ser culpada pelo fracasso da seleção, pelo menos não racionalmente. A CBF é uma entidade com imagem bastante arranhada pela ineficiência na gestão do futebol brasileiro em que os negócios e as negociatas se sobrepõem ao verdadeiro esporte. As relações viciadas entre a CBF, as Federações Estaduais, os clubes, os patrocinadores e a principal rede de TV transmissora dos jogos comprometem o presente e o futuro do futebol brasileiro. A Alemanha conseguiu a atual hegemonia do futebol mundial com uma grande reformulação do futebol nacional que é gerido pela DFB (Federação Alemã de Futebol) que é um órgão ligado diretamente ao governo do país e que ao contrário da CBF investe nas categorias de base (são 366 centros oficiais), aplica uma espécie de Lei de Responsabilidade Fiscal aos clubes (Fair Play financeiro) e estes não podem gastar mais do que arrecadam (no Brasil com raras exceções os clubes vivem no vermelho). Naquele país, os clubes são obrigados a investir nas categorias de base e a distribuição dos recursos aos clubes referentes à transmissão dos jogos são mais justos do que aqui se verifica. Os ingressos estão entre os mais baratos da Europa, enquanto no Brasil estão cada vez mais caros. Enfim, enquanto fracassamos com uma entidade privada, a Alemanha foi vitoriosa com uma entidade estatal, mas deixando de lado a questão ideológica do privado x estatal que obviamente não constitui o axioma da questão, pois, este se encontra na gestão e a gestão do futebol levado a cabo pela CBF tem se demonstrado uma coisa de “Jênio” (assim mesmo, com jota!).
Fonte: Sucesso alemão inspira “novo” Brasil – Jornal Gazeta do Povo – 20 de Julho de 2014.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
A Copa das Copas e o vexame dos vexames!
Há quatro anos escrevi um artigo com o título “futebol e política” e nele comparava algumas semelhanças entre essas duas paixões do povo, pois, quase todo brasileiro pensa que no Governo ou na seleção brasileira falta apenas boa vontade para que todos os problemas sejam resolvidos instantaneamente. Na época afirmei que tínhamos um bom “técnico” (o presidente Lula), mas que nosso selecionado (o Congresso Nacional) estava maltratando a bola, e, reafirmo isso, penso que Dilma tem conduzido muito bem o país mesmo diante da maior crise econômica mundial desde 1929, a qual está levando inclusive alguns países europeus para o fundo do poço. Mas, quando penso na frase “maltratar a bola”, impossível não se lembrar da desastrosa atuação da seleção brasileira neste mundial realizado no país, porém, há um lado bom nisso, com este vexame frente à Alemanha viramos uma página da história e finalmente deixaremos em paz os valorosos atletas derrotados na final de 1950, principalmente o goleiro Barbosa para que descanse em paz.
Precisamos ter mais humildade, nunca fomos no futebol o que os Estados Unidos da América representam no basquetebol, ou seja, praticamente imbatíveis e isso não é algo ruim, um esporte em que você sabe de antemão quem será o vencedor não tem muita graça. Porém, o verdadeiro e retumbante vexame foi protagonizado por pessoas que embora bem nascidas demonstraram ter má educação, pois, diante das câmeras de TV cujas imagens percorreram o mundo vaiaram a presidente Dilma e o hino do Chile. Também foram motivo de vergonha nacional a imprensa vira-lata que apostou no fracasso da Copa não como uma constatação realista de falta de organização, mas, resultante de um desejo ardente que o fracasso ocorresse para que dividendos eleitorais fossem colhidos pelo grupo oposicionista por ela apoiado. Também contribuíram para o vexame os pseudorrevolucionários que escondidos atrás de máscaras promoveram vandalismo destruindo patrimônio público e privado e também os pseudointelectuais que sem conhecer os valores aplicados na Educação e na Saúde e, portanto, sem comparar os dados sobre os investimentos em Educação e Saúde desde a implantação do Plano Real proferiram discursos enganosos à população, pois, nunca se investiu tanto em Educação e Saúde como nos governos Lula e Dilma e o montante é várias vezes superior ao investido na Copa.
O futebol é imprevisível, em 1982, perdemos com uma seleção inteira formada por craques sendo que inclusive deixamos craques de fora da lista de convocados, e, apesar de nada conquistarmos, encantamos o mundo com um futebol maravilhoso, de lá para cá não vi mais espetáculos da seleção canarinho. A verdade é que uma derrota normal com esta fraca equipe não seria nenhuma surpresa, pois, na Copa havia seleções melhores e algumas nem chegaram às semifinais. Nesta Copa, com a humilhante derrota para a Alemanha, as câmeras mostraram idosos muito tristes, pois, jamais em suas vidas tiveram uma decepção tão grande com o selecionado brasileiro. Também foram emocionantes as imagens de crianças chorando, certo, as decepções fazem parte do processo de amadurecimento, no entanto, quando sabemos a forma como é organizado o futebol brasileiro em que a estrutura é toda viciada e a corrupção impera, traz certa revolta. Infelizmente, não tenho muita esperança que esse fracasso resulte numa reforma da CBF, das federações, do calendário do futebol brasileiro e da Lei Pelé que nada mais é que o neoliberalismo aplicado ao futebol para reservar o lucrativo mercado de atletas para os empresários causando o enfraquecimento dos clubes. A Lei Pelé precisa ser revista, não podemos continuar exportando craques que muitas vezes iniciam a carreira em campos estrangeiros sem nunca terem vestido camisas de equipes profissionais nacionais.
Vários comentaristas esportivos e ex-jogadores afirmaram que é preciso que os clubes voltem a investir nas categorias de base, eu, particularmente, penso que seria possível e necessário formar uma seleção com base em jogadores que atuam no país e acrescentar ao elenco apenas alguns craques imprescindíveis que atuam no exterior, pois, precisamos de uma equipe com jogadores que se identifiquem com os torcedores brasileiros, pois, o que vejo na seleção é uma legião estrangeira. Precisamos fortalecer os clubes e os campeonatos nacionais e talvez extinguir os deficitários certames estaduais e esse é o “nó górdio” da questão, pois, a CBF e as federações estaduais e mesmo grande parte dos clubes estão amarrados a um sistema viciado para o qual não adianta fazer maquiagem, a mudança precisa ser radical, o caminho é difícil, mas, se não o percorremos, as frustrações em campo se tornarão cada vez mais corriqueiras com clubes cada vez mais endividados e fracos competitivamente e a CBF maquiando soluções e seleções ad eternum.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Globalização: O alvorecer de uma Nova (velha) Era?
Nos anos 1990, quando cursava a Universidade tive contato com um pequeno livro azul, uma obra elucidativa sobre o mundo que estava sendo gestado e que veio a ser confirmado com o passar do tempo. O livro “Nova Era: A civilização Planetária” de Leonardo Boff (cujas várias obras mais tarde se tornariam minhas leituras frequentes) discorria sobre os novos tempos que a humanidade estava inaugurando sob a hegemonia do Capitalismo Neoliberal imposto ao mundo pelas lideranças globais (representantes dos países centrais e de poderosos grupos transnacionais) através do processo de mundialização ou globalização pela via do mercado, da política, da estratégia militar, da tecnociência, da comunicação e da espiritualidade. O autor também discorreu na obra sobre os grandiosos avanços científicos na área da Tecnologia, da Biotecnologia (Genoma Humano), da Informática e da Robótica e sobre a forma como tais avanços científicos estavam mudando o processo de produção industrial com uma produtividade crescente à custa da redução progressiva dos postos de trabalho.
O autor não faz oposição na obra à mundialização em si, mas ao caminho percorrido para se chegar a ela, ou seja, a via do mercado concorrencial, cujo egocentrismo das nações mais poderosas não lhes permite enxergar a possibilidade de levar a humanidade para outro patamar, o da dignidade humana para todos independentemente da origem étnica ou de gênero. Para Boff, outra mundialização seria possível, a mundialização da solidariedade, da compaixão com os pobres e famintos, e, sobretudo de esforços das nações desenvolvidas para assegurar o desenvolvimento para toda a população mundial. Criar uma sociedade planetária que garantisse a todos a dignidade humana para que o básico a ninguém faltasse ao contrário do que Leonardo já observava nos anos 1990 e hoje temos certeza absoluta, um mundo de exclusão sempre crescente em que apenas 85 pessoas são donas de 1% da riqueza global (uma fatia equivalente à que caberia para uma população de setenta milhões de habitantes caso a divisão da riqueza fosse equânime). No mundo que temos hoje, a fatia que cabe à parcela que forma os 1% mais ricos da humanidade equivale a 50% de toda a riqueza global e na outra ponta temos cerca de um bilhão de pessoas provando a fome, a miséria, o analfabetismo, etc. como vítimas do egocentrismo humano levada a cabo pelas principais lideranças políticas e empresariais globais, pois, como o autor afirmou na obra “quem não interessa ao mercado, não existe”.
Uma parte interessantíssima da obra é quando Leonardo relata a injustiça que o processo de informatização/robotização está fazendo ao aumentar os lucros do patrão e diminuir os postos de trabalho, e, que em seu ver deveria ser uma oportunidade de reduzir a jornada de trabalho em 50% com a manutenção de pelo menos 75% do antigo salário e dos postos de trabalho, ou ainda, a criação de um salário tecnológico (participação nos lucros da empresa com alta utilização de tecnologia no processo produtivo) que seria recolhido pelo Estado e repassado às pessoas que perderam seus postos de trabalho em virtude do avanço tecnológico que dispensou o trabalho humano. O autor defende ainda “a criação de um salário de sobrevivência humana para todos os bilhões de desamparados da Terra que possibilitasse a todos a dignidade humana como um dever ético exigido aos países ricos outrora colonizadores e que à base da exploração colonial conseguiram obter a acumulação primitiva que lhes possibilitou o salto para a modernidade e a industrialização”. Boff afirma que ao “conceder um salário de sobrevivência aos hoje pobres e colonizados de outrora seria um imperativo de justiça e não de caridade social”, afirma ainda que seriam necessárias algumas reorientações globais da economia mundial, mas, que isso é tecnicamente viável caso uma visão da dignidade humana para todos fosse se impondo e houvesse vontade política para tal.
A obra apesar das poucas páginas é densa, e, caso fosse aqui esmiuçá-la resultaria numa monografia, pois, Leonardo disse muito com poucas palavras com a sua sensibilidade e intelectualidade ímpar sempre traz mais luz à humanidade que vive na escuridão de um mundo imagético, artificial e cada vez mais desprovido de espiritualidade. Leonardo Boff é no mundo atual em que o capitalismo global veste novas roupas para continuar a fazer aquilo que sempre o caracterizou (a apropriação de mais-valia da classe proletária e a exploração das riquezas naturais e do mercado de nações do Sul) uma leitura necessária e urgente!
Sugestão de boa leitura:
BOFF, Leonardo. Nova Era: A civilização planetária. São Paulo, Editora Ática: 1994.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
A monoleitura e o monossaber
Há alguns meses estávamos debatendo num grupo de estudos questões que afligem a Educação como um todo, ou seja, o Ensino Básico e também o Ensino Superior, na ocasião afirmei que os professores universitários se superespecializavam num determinado tema para o qual direcionavam seus estudos e pesquisas e também todo o tempo de que dispunham, dessa forma, se tornavam sabedores de tudo sobre pouco e ao mesmo tempo sabedores de pouco sobre tudo. E falei também que nós docentes do Ensino Básico por não termos as mesmas condições, pois temos nossa carga horária principalmente em classe e por termos dependendo da disciplina até 14 turmas com cerca de 40 alunos e a especificidade de nosso trabalho faz com que sejamos sabedores de um pouco sobre tudo e tudo de coisa nenhuma. Penso que o sistema educacional tal como enunciado inúmeras vezes por diversos educadores parece ser formado por gavetas e em cada uma delas uma disciplina e cada gaveta parece hermeticamente fechada para evitar o contágio que o contato com as demais poderia ocasionar, esse contágio tem nome chama-se interdisciplinaridade e que embora necessária muitas vezes acaba por não ocorrer tornando o processo Ensino-Aprendizagem fragmentado. É bom que se diga que a culpa não pode ser assumida unicamente pelo(a) professor(a) e nem mesmo pela escola, pois, existem vários fatores que fogem à alçada da mesma e que impedem ou dificultam o trabalho interdisciplinar, preocupadas com isso, as equipes pedagógicas das escolas visando amenizar tal falha incentivam o desenvolvimento de projetos interdisciplinares que são importantes, porém, pontuais.
Penso que parte dos(as) professores(as) do Ensino Básico e também do Ensino Superior devido à necessidade que a profissão impõe se encastela e realiza uma monoleitura, ou seja, lê principalmente aquilo que faz parte da sua área de atuação ou de pesquisa e adquire assim um monossaber e embora dessa forma se possa conseguir grande reconhecimento pelo notório saber adquirido e construído e que habilita tal profissional a dar cursos e palestras “país adentro ou afora” o(a) priva de ter uma visão mais abrangente do mundo e da humanidade e isto acaba por prejudicar a formação política (aqui não falo no sentido partidário) de seus educandos. Não faço crítica à especialização do(a) professor(a), apenas, penso que ele(a) deve às vezes sair um pouco do seu “quadrado”, se inteirar das questões políticas, econômicas e sociais, ou seja, ser um especialista, mas também, um profissional politizado e com consciência de classe, digo isso, porque percebo que em qualquer dos níveis de ensino, básico ou superior a falta de politização de parcela dos(as) educadores(as), não raro, vejo profissionais agindo contra os interesses da classe e/ou atacando propostas de cunho social que deveriam defender, tais como as cotas nas Universidades para alunos(as) de escola pública, afrodescendentes, etc., e também os programas Bolsa-Família, a política de valorização do salário mínimo, etc.. Tais programas devem ser defendidos como políticas de Estado independentemente do grupo político no Poder.
Como todos(as) sabem a Educação vive uma crise, porém, essa crise não se iniciou dentro do prédio escolar, mas veio do seu entorno, ou seja, da sociedade que a cerca e adentrou os muros escolares. Os fatores que afligem a escola e fogem ao controle dos(as) professores(as) é a desestruturação familiar, a miséria, a violência, a falta de sonhos, as culturas do prazer imediato, de não valorização do estudo e do conhecimento, e, principalmente, a da Pós-Modernidade que se torna visível em parcela dos(as) alunos(as), pais/mães, professores(as) e pessoas da sociedade. É muito fácil e cômodo culpar os(as) professores porque não ensinam direito ou os/as alunos(as) porque não aprendem, mas, como várias vezes discutimos entre nós docentes cada vez mais percebemos a impossibilidade de se ensinar, de trabalhar o conteúdo de forma eficiente, que, não é a eficiência empresarial, pois, educandos são seres humanos e neles não é possível colocar um selo de “qualidade total” e em se falando de qualidade total, qualidade para quê? Qualidade para quem? Uma formação de qualidade total para a Vida ou para o Mercado? Uma formação desenvolvida com o objetivo exclusivo de garantir o acesso à Universidade e/ou para garantir o acesso à cidadania colocando na sociedade uma pessoa esclarecida, crítica e atuante? Não há como formar o cidadão esclarecido, crítico e atuante sem o conhecimento científico que embasa tal agir, e, é por isto que trabalhamos também conteúdos que algumas pessoas consideram desnecessários e/ou refutáveis, pois, a escola é um lugar onde se tira vendas, não o contrário!
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra!
Em minha atuação docente, citando um exemplo mais específico, quando trabalho o conteúdo clima, eu costumo pedir aos alunos que olhem pela janela e afirmo que eles estão visualizando o tempo meteorológico (ensolarado, nublado, chuvoso, etc.) obtendo assim uma fotografia das condições atmosféricas locais e que o clima é algo mais difícil de ser precisado havendo a necessidade de um tempo de estudo não inferior a 30 anos para não se cometer equívocos, pois, pode-se estabelecer que numa determinada localidade neva no inverno porque foi observada a precipitação de neve num ano específico em que houve o hipotético estudo de um ano apenas, o mesmo erro pode ocorrer com as variações positivas ou negativas do índice pluviométrico na localidade. Para evitar equívocos os estudos são longos e cuidadosos e os registros precisos para que no passar do referido período de estudo se estabeleça um padrão para as condições atmosféricas predominantes nas quatro estações no espaço estudado. O padrão uma vez estabelecido é a “personalidade” do clima local, e se o tempo meteorológico corresponde à fotografia, o clima é um filme, ou seja, a sucessão de milhares de imagens momentâneas do tempo meteorológico no decorrer do tempo de estudo.
Mas, por que estamos falando de clima se o título indica outra direção? Explico primeiramente a frase utilizada no título cuja ideia é para que se evitem exageros e se busquem as ponderações. A introdução que fiz tratando de clima é de que não é possível conhecer o clima de um local ao analisar um dia ou um ano de forma isolada. Da mesma forma, pode-se utilizar uma fotografia da pobreza existente nos EUA e afirmar que isso é o Capitalismo e mostrar o que há de melhor em Cuba e dizer que isso é o Socialismo (a grande mídia costuma fazer o contrário mostrando o pior ângulo de Cuba e o melhor ângulo dos EUA) e ambas as formas são visões estereotipadas. Costumo afirmar para os alunos que nos países desenvolvidos também há pobreza e desigualdade social, porém, em menor grau, e que nos últimos anos estas vêm aumentando e que temos no Brasil, muitos problemas, mas também a capacidade de resolvê-los. Constato que boa parte das pessoas tem uma visão romântica de que nos EUA e na Europa tudo é perfeito, não há miséria, nem desemprego, nem corrupção, nem discriminação, nem crimes, etc. e que recebemos o castigo divino por nascermos nas terras tupiniquins. Lembro que turistas latino-americanos, muitos inclusive brasileiros já foram discriminados etnicamente ao aportar na Europa, alguns tiveram que retornar sem sair do aeroporto (Espanha) e que nos estádios europeus parte da torcida discrimina atletas negros (Espanha, Itália, etc.). Na Alemanha, o neonazismo vem crescendo no meio de uma geração de jovens que nunca conheceu a miséria e várias vezes li e assisti sobre casos de espancamentos de turistas inclusive brasileiros por skinheads que perambulam nas imediações de estações rodoviárias, ferroviárias e aeroportos na busca de estrangeiros para saciar a sua sede xenofóbica.
Na verdade, dependendo da intenção pode-se mostrar a Europa e os EUA como péssimos destinos turísticos evidenciando fatos negativos isolados ou exaltá-los em suas potencialidades. O mesmo ocorre sobre o Brasil, casos de agressões a estrangeiros aqui também ocorrem, porém, frutos de assaltos em algumas regiões específicas, mas, lá como cá são fatos preocupantes, porém, isolados, se comparado ao número dos que aqui aportaram e não tiveram tais problemas no período de permanência (nem por isso deve haver tolerância, a segurança pública precisa ser ampliada). Por outro lado, hoje ainda estive lendo sobre belíssimos exemplos de honestidade de brasileiros ao devolver ingressos de jogos e dinheiro perdido por turistas estrangeiros e também da boa acolhida dada pelos nossos conterrâneos aos visitantes que afirmam estar encantados com o país e que esta copa está sendo a “Copa da alegria”. Enfim, quero dizer que a Europa e os EUA não são o paraíso na terra e nem mesmo o Brasil, no entanto, os europeus e os estadunidenses amam e defendem o seu pedaço de chão e essa é a maior lição que uma parcela da sociedade brasileira deveria aprender.
domingo, 15 de junho de 2014
Sobre resiliência e ataraxia!
Quando acadêmico este escriba imaginava como deveriam ser os diálogos entre os professores na hora do recreio e pensava serem momentos de discussões filosóficas e também dos grandes problemas locais, nacionais e mundiais, no entanto, quando me tornei professor não tardei a descobrir que tal momento era utilizado para a necessária descontração e que nem sempre puxar um “papo-cabeça” era uma atitude vista com simpatia por parte de alguns colegas. Mas, como para toda a regra há a exceção, não demorei a descobrir que as pessoas são diferentes entre si e que havia aquelas que não torciam o nariz para uma conversa mais fundamentada. Num desses dias estava conversando com uma colega que é professora de Filosofia e contei-lhe que li dois livros sobre a aplicação terapêutica da Filosofia em consultas com pacientes que desejam conseguir ajuda para resolver os problemas da vida que se acumulam e os/as colocam em becos sem saídas. Comentei que essa tendência se observa mais fortemente fora do Brasil, principalmente nos Estados Unidos da América e também na Europa. Afirmei que existe muita gente da área da Psicologia que não está gostando dessa invasão dos filósofos em sua área de atuação e que os consideram despreparados para exercer tal função, enquanto, outros que já são psicólogos estão indo atrás dos ensinamentos de Filosofia para ao se especializar oferecer um algo a mais para os seus “clientes”, uma vez que os psicólogos, segundo li, não chamam as pessoas que atendem como pacientes.
Comentei com a minha colega que os filósofos clínicos auxiliam seus clientes a desatar os nós que a vida lhes apresentou através de sugestões embasadas na teoria de filósofos tais como Platão, ou seja, como Platão pensaria e resolveria o imbróglio em questão apresentado pelo(a) cliente. Particularmente gostei muito dos livros abaixo referenciados, porém, sou bastante eclético nas leituras e assim quem não aprecia filosofia e detesta livros de autoajuda talvez não goste das referidas obras. Aproveitei o ensejo e perguntei a minha interlocutora se conhecia o significado da palavra “resiliência” ao que afirmou não saber, expliquei-lhe que resiliência era a capacidade de transformar um trauma, uma situação estressante da vida em algo edificante de forma que a pessoa sai da situação vivida um alguém mais forte e competente, ou seja, mais resistente a situações de destruição da vida pessoal e/ou profissional. Todos conhecemos pessoas que passaram por uma situação traumática que dividiu sua vida ao meio com “um antes e um depois” que pode ser a morte de entes queridos ou a queda vertiginosa do padrão de vida e do status social, porém, a forma como as pessoas lidam com isso é sempre particular, algumas “tiram de letra”, outras demoram a se adaptar à nova situação, outras jamais conseguem superar e tornam-se consumidoras de calmantes e antidepressivos, inclusive, é digno de nota que o consumo de tais medicamentos em nosso país só faz aumentar.
A minha colega perguntou-me se conhecia o termo “ataraxia” e afirmei que não, ela então me apresentou um texto e explicou-me que por ataraxia entende-se “o estado do homem em que ele se encontra imperturbável frente às emoções, uma condição de tranquilidade, na qual, independentemente dos fatos, o indivíduo permanece inabalável, sem se deixar arrastar por alegrias e prazeres, nem por dores e tristezas”. Ela afirmou que gostaria de atingir tal estágio que era considerado pelos filósofos gregos “uma conquista possível e equivalente à própria felicidade humana”. Quem não queria, não é mesmo? Para encerrar, nada melhor que citar o gênio da psicanálise Freud quando disse “somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”, assim, caro(a) leitor(a) mantenha sempre em sua “farmácia caseira” doses de resiliência e de ataraxia, pois, desejo que nunca precises, mas, se precisares, que a superação seja rápida e o(a) torne um alguém mais forte.
Sugestão de boa leitura:
MARINOFF, L. Mais Platão e menos Prozac: A Filosofia aplicada ao cotidiano. 2002, Editora Record.
__________. Pergunte a Platão. Terapia para quem não precisa de terapia ou como a Filosofia pode mudar sua vida. 2005, Editora Record.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Vai ter Copa, Saúde e Educação!
Inicio estas linhas com a lembrança à mente de uma frase do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht que viveu no período de 1898 a 1956, mas, cuja vida ecoa nas palavras proferidas e imortalizadas chegando ao nosso tempo com uma sapiência estimulante e ao mesmo tempo demolidora, estimulante por que nos encaminha ao ato do pensar, atividade tão básica do ser humano e tão desprezada, visto que tão poucos a ela se dedicam e muitos que o fazem não saem da lâmina d´água num Oceano filosófico de profundidades abissais, e, o lado reverso a que me referi diz respeito a destruição de ideias tão em voga, mas, sem nenhuma racionalidade, portanto, instintivas. A frase de Brecht que me veio à memória é “que tempos são estes em que é necessário defender o óbvio”? Como sabemos a genialidade muitas vezes não se encontra nas verdadeiras respostas, mas, nas verdadeiras perguntas e a partir desta frase se poderiam fazer inúmeras elucubrações, no entanto, este artigo que ora inicio estava previsto na pauta para esta semana com um tema específico e que naturalmente vem ganhando cada vez mais tempo nos meios de comunicação, a Copa do Mundo que após 64 anos retorna aos gramados brasileiros.
Penso que numa democracia nada é mais natural e principalmente necessário do que a liberdade de expressão, a possibilidade de se fazer manifestações a favor ou contra qualquer coisa desde que respeitada a lei e a ordem, pois, apesar de apoiar manifestações e ver nelas o fermento da democracia sou radicalmente contra depredações de patrimônio público ou privado, pois, para dar um recado não há a necessidade de agir de forma vandálica e penso que devem ser detidas as pessoas que assim agirem. Estamos a poucos dias do início da Copa do Mundo e um grupo de manifestantes retardatários resolveu que irá utilizar o período da realização da Copa do Mundo para mostrar sua indignação afirmando que o dinheiro gasto na Copa deveria ser investido em Educação, Saúde, etc.. Penso que o momento certo para sair às ruas era aquele em que Lula então Presidente avisou através da imprensa nacional que iria colocar o nome do Brasil no processo de escolha da sede do então longínquo mundial, porém, naquele momento não houve protestos nas ruas, e, a desconfiança quanto à possibilidade de escolha do Brasil para sede era quase geral nas terras tupiniquins, mas, o Brasil foi escolhido e lembro-me que a mais poderosa rede de comunicações deste país mostrava o povo comemorando tal fato, aliás, tal empresa parece ter um comportamento bipolar uma vez que é talvez a empresa que mais vai lucrar com o mundial, mesmo assim, ao mesmo tempo parece pela atenção dada ao movimento “Não vai ter Copa” ser aquele atleta que todo técnico de futebol quer, o “coringa” que é assim chamado por jogar em várias posições, a Globo é assim, joga em qualquer posição, mas, não por amor à camisa e sim de acordo com os interesses que norteiam sua carreira e desta forma “profissional” não escolhe equipe, não raras vezes atua contra a nossa meta.
Há uma falácia com relação à Copa de que tais recursos dividiriam o “Mar Vermelho” que existe entre a Saúde e a Educação que o Brasil dispõe e a dos sonhos que nossos incansáveis “guerreiros do arco-íris” esperavam conseguir com o montante de recursos aplicados nas obras do Mundial, muitos totalmente desinformados pensam que o Governo Federal está gastando valores muito acima daqueles investidos em Educação e Saúde e pregam uma Educação e Saúde padrão FIFA, tais valores acrescidos ao orçamento de tais Ministérios certamente contribuiriam, mas, não teriam o impacto esperado pelos opositores ao mundial, pois, o investimento em Educação e Saúde desde 2010 segundo Carta Maior foi de R$ 850 bilhões e o investimento público total no mundial é de R$ 25 bilhões. Como os recursos já foram investidos e o mundial já está para começar agir contra a Copa é fazer gol contra e sabotar o país. Assim, sugiro que abandonem essa bobagem de Educação e Saúde Padrão FIFA, pois, não teríamos nenhuma condição de trabalho se o orçamento fosse tão drasticamente reduzido, lembrando que as obras de mobilidade urbana serão legado da Copa e os recursos dos Estádios são em grande parte empréstimos que serão devolvidos ao BNDES. Dessa forma, sugiro que torçam pelo Brasil, pois, o Brasil perdeu as Copas de 66, 74, 78 e 82 e mesmo assim a Ditadura Militar não caiu, e, FHC que viu o Brasil trazer o caneco de 2002 não conseguiu fazer o sucessor. Então dentro do campo ou fora dele que o Fair Play seja a regra. Boa Copa para todos e todas!
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