sábado, 13 de setembro de 2025
A falência
sábado, 6 de setembro de 2025
Comunista! Eu?
Há algum tempo, no auge do
radicalismo extremista de direita (perdoem a redundância, ela é necessária), representado
pela ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, muitos dele simpatizantes, se sentiam
representados/empoderados com a ascensão de seu "mito", e espumavam
ódio a todas as pessoas que tinham uma visão/compreensão de mundo diferente.
Sabedor que mesmo a noite mais escura passaria e, haveria
de novamente nascer o sol, assimilei o golpe, era necessário fazer a
resistência democrática. Não foi tranquilo, havia entre nós simpatizantes e
militantes da esquerda, o receio de ataques perpetrados por integrantes ensandecidos
das fileiras extremistas do bolsonarismo que, em várias oportunidades e locais
do país, infelizmente ocorreram.
Em um final de tarde qualquer, praticava a minha
caminhada diária, quando uma picape acelerada passou por mim, sendo que seu
motorista gritou: comunista!!! Eu não o reconheci e sequer tive tempo de
agradecer o elogio. Em outra oportunidade, na mesma época, em um carro
rebaixado, um jovem motorista, gritou de igual forma, no exato momento, em que
lembrei que havia sido cancelado o evento semanal para o qual ia, fiz o retorno
imediatamente, tomando o rumo de casa, então após notar que o seguia (não
intencionalmente), o rapaz acelerou. Para não desobedecer as regras de
trânsito, também não pude lhe agradecer o elogio.
A limitação cognitiva de ambos não lhes permitiu
entender, que ser chamado de comunista, é para nós da esquerda um elogio, que
poucos de nós merecemos. No meu caso, em um breve exame de consciência, me
falta leitura, meu embasamento teórico é incipiente e, me falta militância, eu
precisaria ser mais atuante nas lutas sociais.
Lembro que também fui chamado de vagabundo, por algumas pessoas
que, em seus veículos, passaram por mim, não me ofendi, sei que eles não
aguentariam a minha carga de trabalho semanal, nem teriam capacidade
intelectual e a responsabilidade necessária para lecionar para mais de
trezentos estudantes, nas péssimas condições de trabalho ofertadas aos
docentes. E se tivessem, teriam a polidez e a inteligência que não demonstraram
possuir.
Sei por algumas pessoas próximas, que afirmaram ter
ouvido de outras que sou comunista. Minha honestidade intelectual impede que assim
me considere, pois precisaria ser uma pessoa muito melhor do que em realidade
sou. No entanto, se estas pessoas assim me consideram, pois me promovem, não
serei eu a me rebaixar! Se você diz e,
apenas porque você diz, comunista eu sou!
P.S. Parcela significativa
das pessoas ignora o que de fato é o comunismo, inclusive seus detratores. Em
outra oportunidade abordarei o tema neste espaço.
sábado, 30 de agosto de 2025
As mentiras que os homens contam
Luis Fernando Veríssimo
(1936) é um escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e
romancista brasileiro. É ainda músico, tendo tocado saxofone em alguns
conjuntos. Com mais de oitenta títulos publicados, é um dos mais populares
escritores brasileiros contemporâneos (Wikipédia).
Tenho
centenas de livros não lidos em casa, mas, sempre faço olho gordo a algum livro
de minha esposa ou que algum(a) colega professor(a) está lendo e, após ver por
dias seguidos, abandonado em uma mesa na sala de professores de minha escola, o
livro que dá título a esse artigo, convidando à leitura, tomei-o emprestado sem
saber de quem, ao me ver lendo-o, uma professora revelou ser a dona e autorizou
o empréstimo, que já estava em curso.
A
época era propícia, fechamento de trimestre escolar, dado o agigantamento do
trabalho característico desse momento, em que os professores deixam de viver e
apenas sobrevivem. Uma leitura leve e com o bom humor e a sagacidade de Luis
Fernando Veríssimo, vinha mesmo a calhar.
Lembro
que, o escritor que nunca se omitiu em posicionar-se politicamente e sempre
defendeu a pauta progressista, desferiu críticas ao governo do então presidente
Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que as sentiu fortemente e, em resposta,
afirmou que Luis Fernando era escritor menor que seu pai Érico Veríssimo
(1905-1975).
Eu
duvido que Luís Fernando tenha tomado como crítica a fala de FHC. Para ele deve
ter soado algo assim: "Lionel Messi joga mais futebol do que você"! e
ele, diria: óbvio!!! Quem em sã
consciência, sendo filho ou não, teria a pretensão de superar o gigante
literato Érico Veríssimo?
Meu
primeiro contato com a obra do autor foi com o livro "todas as histórias
do Analista de Bagé", com as histórias absurdas e muito divertidas da
famosa e impagável personagem. Muito atarefado e estressado, foi aos poucos que
a leitura da obra "As mentiras que os homens contam" me ganhou,
aliviou meu estresse e pude rir um pouco com as quarenta histórias bem
humoradas e criativas.
Deixo
a dica e, também o registro da minha concordância com o autor, em gênero,
número e grau de que "nós homens, não mentimos, apenas inventamos
histórias para proteger as mulheres".
Muita
força Luis Fernando Veríssimo!!!
Sugestão
de boa leitura:
Título: As mentiras que os homens contam.
Autor: Luis Fernando
Veríssimo
Editora: Objetiva,
2001, 166 p.
P.S. Infelizmente, na data da publicação desse artigo, Luis Fernando Veríssimo deixou esse plano! Obrigado Luis Fernando Veríssimo por sua contribuição à literatura brasileira e por seu posicionamento político sempre a favor dos mais humildes!
domingo, 24 de agosto de 2025
A Rússia na Guerra Fria 2.0 - Parte 6
sábado, 16 de agosto de 2025
Os Bórgias
Alexandre Dumas (1802-1870)
foi um romancista e dramaturgo francês que, apesar de sua extensa e maravilhosa
obra, é mais conhecido por ser o autor de Os Três Mosqueteiros e de O Conde de
Monte Cristo. Dumas, cuja família tinha um pé na nobreza e outro na senzala,
trafegou como ninguém, ao escrever obras retratando realidades tão díspares. Digo
isso, pois Dumas teve ancestrais da nobreza francesa e teve como pais, um
militar renomado, o General Dumas (Thomas Alexandre) e uma escrava liberta (Marie-Césette
Dumas).
A obra "Os Bórgias"
pretende ser uma ficção histórica acerca da família de origem espanhola que,
acumulou grande fortuna e poder na Itália. A família emplacou dois papas,
Alfonso de Bórgia (Papa Calisto III) em 1455 e teve seu apogeu de riqueza e
poder com a ascensão de Rodrigo Bórgia
(Papa Alexandre VI).
O papado de Alexandre VI
(1492-1503), foi marcado por escândalos, manipulações, corrupção, guerras e
assassinatos. Sua eleição foi por meio da compra de votos de Cardeais. Tal
estratégia custou ao Cardeal Rodrigo Bórgia, uma verdadeira fortuna. Bórgia via
neste movimento, um investimento cujo retorno na forma de poder e dinheiro
seria garantido.
Rodrigo Bórgia teve várias amantes,
sendo que com uma delas, teve quatro filhos (três homens e uma mulher). Foi um
homem sempre à busca de alianças visando manter o poder para si e sua família.
Com tal intento, utilizava-se de alianças matrimoniais, com a sua belíssima
filha Lucrécia, cujos noivados/casamentos eram desfeitos, conforme a conjuntura
política. À Lucrécia restava obedecer.
O Papa Alexandre XI, foi
provavelmente, o mais perverso e certamente, o mais polêmico Papa. Seu papado
baseou-se na venda de simonia (cargos e benefícios eclesiásticos), e na prática
de nepotismo. Como encaminhou algumas boas almas ou nem tão boas almas para o
paraíso com vinho "batizado" (se é que vocês me entendem), cercou-se
de familiares, pois não confiava em ninguém.
Alexandre XI garantiu poder e
patrimônio a seus filhos. Destes, César foi alçado a Cardeal, mas preferiu
abandonar o cargo eclesiástico e assumir o posto militar de general,
tornando-se o braço direito armado de Alexandre VI. Naquele período, o Vaticano
mantinha um exército (na acepção da palavra) e pretendia unificar os Estados da
Igreja. Á época, a Itália (moderna) ainda não existia, haviam vários Estados que,
via de regra encontravam-se sempre às turras, com períodos de paz conforme as
famílias que ascendiam ao poder.
A obra, como dissemos, é
classificada como ficção histórica, no entanto, dá a impressão de ser uma
literatura-reportagem, não por seu conteúdo, mas pela característica de sua
escrita, que carece do espírito romanesco. Fica a dica!
Sugestão
de boa leitura:
Título: Os
Bórgias.
Autor:
Alexandre Dumas.
Editora: Principis,
2021, 256 p.
sábado, 9 de agosto de 2025
A importância do ato de ler
Freire
criticava a educação mecânica e defendia a "leiturização", ou seja,
entender e intervir nas questões sociais. Infelizmente, ainda estamos longe
disso, especialmente nos países pobres, onde o analfabetismo e a "má
formação" (pessoas que leem, mas não refletem) perpetuam desigualdades.
Muitos, mesmo com diplomas, têm visões limitadas do mundo, repetindo opiniões
vazias sem compreender o contexto em que vivem.
A
verdadeira leitura exige reflexão sobre o vivido e o lido, desvendando a
essência das coisas. A educação não pode ser neutra, como pregam os defensores
do neoliberalismo, afinal, essa falsa neutralidade serve aos interesses da
elite. Cabe aos educadores despertar nos alunos a consciência crítica,
mostrando que o sistema atual concentra riqueza e gera fome.
Freire
nos convoca à coerência: unir teoria e prática, sonhar com uma sociedade justa
e lutar por ela. "Estudar é um ato revolucionário", dizia, pois só o
conhecimento liberta. O Brasil, foi criado "de cima para baixo" e
precisa ser reinventado pela educação popular, onde todos sejam construtores da
história, não espectadores.
Tal
qual o filósofo Sócrates, "sabemos que nada sabemos", mas seguimos
aprendendo, porque transformar o mundo começa pela leitura crítica dele.
Afinal, ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo, mas todos podemos lutar por
justiça social.
Sugestão
de boa leitura:
Título: A importância do ato de ler: em três artigos
que se completam.
Autor: Paulo Freire.49 ed.,
São Paulo, Cortez, 2008.
Editora: Cortez,
2008, 49 ed., 104 p.
sábado, 2 de agosto de 2025
Guerreiros do Sol (com spoiler)
Há
alguns dias, devido o recesso escolar, resolvi escolher um livro que fosse
interessante e cuja leitura não exigisse grande concentração, afinal, a mente,
o instrumento de trabalho de todo professor, também precisa de descanso. Eis
que me deparo com o livro Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste
do escritor Frederico Pernambucano de Mello (1947). Na ocasião, ainda não tinha
conhecimento da série de título homônimo do canal de streaming Globoplay, que
pretendo assistir brevemente.
O escritor escocês Charles
MacFarlane (1799-1858) citado no livro de Mello, afirma acertadamente:
"Existem poucos assuntos que nos interessem mais que as aventuras de
salteadores e bandidos". Provavelmente foi essa a causa da escolha que fiz
dessa obra, mesmo já tendo lido alguns clássicos sobre o tema.
Ao iniciar a leitura, observo que a
obra, não traz apenas relatos históricos, mas toda uma discussão sociológica,
geográfica, histórica e política sobre o cangaço, sua origem, extensão, personalidades
principais e partícipes. Mesmo assim, dada a boa escrita do autor, a qual torna
a leitura prazerosa, não desanimei e encarei o calhamaço.
Ao tratar do tema do cangaço, uma
das perguntas sempre feitas, é o que levou tais pessoas dele participarem.
Houve escritores que afirmaram se tratar de uma revolta contra o monopólio da
terra e a exploração do trabalhador rural pelo latifundiário; Houve quem
considerasse que o cangaço era uma revolta contra o capitalismo explorador,
mesmo que seus atores (cangaceiros) fossem ignorantes da teoria marxista que,
no entanto, agiam imbuídos pelo sentimento intrínseco. Também há aqueles que
viram no cangaço, uma resposta ao autoritarismo dos coronéis políticos do sertão.
Segundo
Frederico, não há um único motivo, mas três, a saber: 1. O cangaço como meio de
vida, na qual os criminosos, têm no cangaço, a sua forma de subsistência, sendo
que muitos chegaram a enriquecer no ofício e se "aposentaram", indo
morar em paragens em que não eram conhecidos (muitos não viveram para tal). 2.
O cangaço de vingança, quando os criminosos entraram para o cangaço, para fazer
a vingança, seja de um pai/irmão assassinado ou de uma moça da família que
tenha sido deflorada e que deixaram o cangaço após a realização da vingança. 3.
O cangaço como refúgio que trata-se de homens que cometeram crimes, tais como
homicídios e/ou estupros e têm a cabeça a prêmio, dessa forma entram para o
cangaço para ter maior proteção, sendo que dele não podiam se retirar.
Surpreendentemente, o cangaço também
recebeu rapazes das melhores famílias, sem qualquer influência doméstica e, sem um motivo
aparente que não a imaginação fértil, da vida de aventura e suposto heroísmo,
prova de fogo de sua masculinidade. Tais jovens sumiam de suas casas e, depois
a família, atônita recebia a notícia de que estavam fazendo parte de algum
grupo de cangaço. Há relato de um cangaceiro que não soube explicar por que
entrou para o cangaço.
Na obra, Mello descreve os papeis de
sertanejos, cabras, capangas, jagunços, pistoleiros e cangaceiros. Descreve
ainda os hábitos dos cangaceiros que abusavam de perfumes, jóias e roupas com
detalhes bordados com uma vaidade que não ficava aquém do sexo feminino. Também
suas crenças (religiosas ou não), como a de que após o ato sexual o homem
perdia sua "oração" e ficava vulnerável às balas, por isso era
melhor, não ter mulher no bando.
O cangaço foi um fenômeno que
ocorreu no século XIX e XX, sendo o apogeu de 1870 a 1940. Estudos demonstram que
após as grandes crises de seca no sertão nordestino, as ações dos cangaceiros
se intensificavam. Frederico classifica os surtos de cangaço como endêmicos em
alguns períodos que ficaram restritos a algumas áreas específicas e como
epidêmicos quando se disseminava por grande parte da região nordeste.
O sertão nordestino nos estados de
Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará foi o
ambiente ideal para que os criminosos agissem, utilizando a estratégia de
guerra de guerrilha, atacavam fazendas, vilas e cidades e se embrenhavam na
caatinga, fazendo longas caminhadas diárias, para surgir em um local distante,
para fazer nova surtida. A geografia do sertão nordestino quanto ao relevo, ao
clima e à vegetação é perfeita para os criminosos se esconderem, pois se
tornaram exímios na orientação e deslocamento e faziam seus locais de descanso
em pontos estratégicos para o enfrentamento, caso fossem surpreendidos.
É importante dizer que os
cangaceiros não tinham patrão, e em suas longas travessias, eram protegidos por
alguns fazendeiros que lhe davam pouso temporário, para fins de descanso em
suas terras e, que por isso eram chamados de coiteiros. Os fazendeiros em troca
recebiam "proteção" dos cangaceiros, mas, não havia relação de submissão
de nenhuma das partes, que se beneficiavam mutuamente desse esquema. Também
coronéis políticos da região mantinham relações de troca de favores com
cangaceiros.
A sociedade sertaneja não gostava da
polícia, que era considerada muito violenta e muitas vezes repassavam
informações de sua chegada aos cangaceiros. Havia dentre os cangaceiros, alguns
que distribuíam algum dinheiro para as pessoas pobres por onde passavam. Também
não se pode romancear o período, pois os ataques de grupos de cangaço à localidades
sertanejas costumavam resultar em saques, destruição, mortes e estupros,
principalmente quando havia resistência da população local.
Os cangaceiros sempre afirmavam ter
um "escudo ético", ou seja, um motivo que os levou para o mundo do
crime. A crença popular era a de que no sertão quem não se vinga, já está
moralmente morto. Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião (1898-1938)
afirmava que tinha entrado para o cangaço para se vingar de seus desafetos José
Saturnino e do tenente José Lucena.
Apesar de seu escudo ético, estudos
mostram que Lampião nunca se esforçou em fazer sua vingança. Há até um relato
de um famoso pistoleiro que se ofereceu para "fazer o serviço" para
Lampião, mas este afirmou que não precisava, pois era assunto antigo, caduco,
tendo agradecido a oferta com alguns agrados materiais, uma faca finamente
acabada e algum dinheiro.
Por esse motivo, Lampião é classificado como
integrante do cangaço meio de vida. Lampião, sempre que era questionado sobre
por que não aproveitava a fortuna que tinha e se retirava do cangaço, se
irritava e devolvia a resposta com uma pergunta: o senhor se retiraria de um
negócio que está rendendo bem?
Lampião, em que pese, a sua fama de
violento e cruel, e isso é verdadeiro, em muitas ocasiões, com fazendeiros e autoridades que
lhe eram bem quistas, foi relatado como uma "moça" na delicadeza com
que tratava seus amigos de fina estirpe.
No auge do cangaço, alguns
estudiosos tiveram contato com membros do cangaço e os descreveram como
resolutos, bravos, vingativos e extremamente ignorantes, mas, também corajosos,
generosos, sinceros e hospitaleiros. Nem por isso, pode-se esquecer os inúmeros
crimes horrendos praticados por cangaceiros, um deles, José Baiano detestava
mulheres que mantinham cabelo curto. Há relatos de estupros perpetrados por
esse cangaceiro que marcava suas vítimas com ferro quente com suas iniciais,
uma delas, cuja fotografia aparece no livro, foi marcada em uma das faces.
Maria Gomes de Oliveira (Maria
Bonita) seguiu Lampião no cangaço por sua livre vontade, mas nem todas tiveram
essa opção. Havia dentre as mulheres, em grupos de cangaço, aquelas que foram
obrigadas a seguir o cangaceiro que lhe raptou. O grupo de Lampião, foi
pioneiro em admitir mulheres no bando, mas isso não era algo comum. Enquanto
Sérgia Ribeiro da Silva (1915-1994), vulgo Dadá (esposa de Corisco), pegou
realmente em armas, em geral, as cangaceiras não faziam a frente de luta
(apesar de portarem pistolas e facas) e nem abriam mão de sua feminilidade.
Eram para os cangaceiros um oásis de amor, paz e delicadeza em meio a
rusticidade, a aspereza da caatinga e do cotidiano do cangaço. Filhos quando
vinham eram enviados para adoção por pessoas devidamente selecionadas, às quais
era enviada uma carta e a recomendação quanto ao nome para batismo.
Lampião ficou rico com o cangaço e tinha
amigos que cuidavam do seu tesouro, emprestava dinheiro a juros e cobrava os
devedores inadimplentes com bilhetes ameaçadores. No sertão, embora houvesse
compreensão com quem cometia homicídio, isto não acontecia no caso de roubo. Um
cangaceiro, ao prestar depoimento, se exasperou com o delegado de polícia, que o
acusou de roubo, disse-lhe que o chamasse de assassino, jamais de ladrão, pois
não havia furtado, havia tomado bens à mão armada, ou seja, o proprietário
estava presente e poderia ter defendido seus bens.
Na obra, Mello relata que Cristino
Gomes da Silva Cleto, vulgo Corisco, havia alertado Lampião que a Grota do
Angico em Poço Redondo (SE) cheirava a defunto, Lampião que gostava de acampar
ali, não lhe deu ouvidos, estava com excesso de confiança e abdicando de
maiores cuidados quanto à proteção. No de 28 de julho de 1938, tendo obtido
informações prévias da presença de Lampião e seu bando e, vindo do município de
Piranhas (AL) que o tenente João Bezerra da Silva (1919-1955) de posse de três
metralhadoras, encontraram o bando dormindo e fuzilaram-nos, sem que estes
conseguissem reagir. As cabeças de Lampião e de seus integrantes foram
decepadas e expostas na escadaria de prefeitura de Piranhas.
Corisco foi o único cangaceiro do
bando de Lampião a sobreviver, mas, tendo continuado a agir e a ameaçar a polícia
foi morto dois anos depois. Dadá, sua esposa, foi presa e depois de ganhar a
liberdade, refez sua vida, casou-se novamente e morreu em 1994. O ano de 1940,
marcou oficialmente o fim do cangaço. O cangaço custou vultosa fortuna para o
erário público de estados e da própria União. O enfrentamento definitivo do
cangaço somente foi possível, com acordos feitos entres os entes federativos da
União, afetados pela ação dos criminosos, no sentido de que diligências de um
estado pudesse adentrar o estado vizinho quando em perseguição aos cangaceiros,
frustrando manobra muitas vezes realizadas para escapar das volantes.
P.S. De forma alguma, essa resenha substitui o prazer e o conhecimento obtido com a leitura da obra!
Sugestão de boa leitura:
Título:
Guerreiros do Sol:
violência e banditismo no Nordeste.
Autor:
Frederico
Pernambucano de Mello.
Editora:
CEPE, 2023, 612 p.
