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quinta-feira, 17 de março de 2016

O Estado Democrático de Direito sob risco!

O intelectual estadunidense Noam Chomsky certa vez afirmou: “a população em geral não sabe o que está acontecendo, e nem mesmo sabe que não sabe” e é dessa forma que vejo as reações de parte da população que apoiou as ações de Joaquim Barbosa durante o processo do Mensalão e do Juiz Sergio Moro na Operação Lava-Jato quando preceitos constitucionais, direitos e garantias individuais foram afastados e relativizados. O Advogado Antonio Carlos de Almeida Castro (um dos principais criminalistas do país) condenou a espetacularização da ilegal condução coercitiva de Lula e disse na ocasião: “aqueles que aplaudem hoje esse autoritarismo, espero que não precisem bater às portas de um escritório de advocacia no futuro buscando a defesa do devido processo legal, do respeito à Constituição, e, enfim, da liberdade”. Sergio Moro várias vezes reclamou que os advogados abusam do direito de defesa e afirmou que isto dificulta seu trabalho e há alguns dias disse que era preciso ouvir os clamores da rua se referindo à parcela da população constituída por antipetistas, fascistas, golpistas e também pessoas ingênuas que cabem na definição de Noam Chomsky e que pediam punição aos corruptos, sendo, no entanto, incitados a fazer tais manifestações por líderes corruptos. O Instituto Vox Populi pode dar uma grande contribuição ao Juiz Moro, uma vez que fez pesquisa de opinião pública e constatou que 65% dos entrevistados afirmaram que o Juiz exagerou na condução coercitiva de Lula, 56% desaprovaram a inclusão de Lula na Lava-Jato e 43% desaprovaram a conduta de Moro contra 34% que aprovaram. O Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais e Juiz de Direito Rubens Casara escreveu um brilhante artigo no qual relatou que em 1938, Hitler foi escolhido como Homem do Ano pela Revista Time e foi capa de várias outras revistas por sua luta contra a corrupção e o combate ao comunismo. A Grande Mídia alemã, europeia e estadunidense rendeu loas a Hitler e as matérias tendenciosas buscavam conquistar forte apelo popular tratando de temas como a corrupção, os valores tradicionais, o “inimigo”, etc. Hitler buscando relativizar/flexibilizar e desconsiderar os direitos e garantias individuais insistia na fraqueza dos dispositivos legais que impediriam o combate ao crime e fazendo uso de seu prestígio cogitava alterações legislativas em matéria penal sempre contando com o apoio da maioria dos meios de comunicação. E conseguiu tal intento, houve Juízes autoritários que por convicção e outros que acovardados mudaram posicionamentos jurisprudenciais sedimentados por medo de desagradar a opinião pública. E com o apoio dos meios de comunicação e sua enorme capacidade de criar fatos, transformar insinuações em certezas e distorcer o real, foi fácil taxar de inimigo todo e qualquer opositor do regime. Sempre que para o crescimento do Estado Penal era necessário afastar limites legais ou jurisprudenciais ao exercício do poder penal, “juristas” recorriam ao discurso de que era necessário ouvir o povo, ouvir sua voz através de seus ventríloquos, em especial de Hitler, o elo entre o povo e o Estado, o símbolo da luta contra o crime e a corrupção. O resultado do que ocorreu no período de Hitler no Poder alemão é por todos conhecidos, a máquina de assassinatos em massa montada sob uma base legal, tanto que Adolf Eichmann condenado à morte em Israel por sua participação no holocausto judeu foi um fiel cumpridor das leis alemãs daquele período. O trabalho dos juristas na desconstrução dos direitos e garantias individuais dos cidadãos considerados obstáculos ao avanço do Estado Totalitário foi por Hitler reconhecida na frase por ele proferida: “Que teríamos feito sem os juristas alemães?” Segundo Rubens Casara o Estado Democrático de Direito foi pensado como um modelo à superação do Estado de Direito com a finalidade precípua de impor limites ao exercício do Poder, impedir violações a direitos como as ocorridas no Estado Nazista. No Estado Democrático de Direito existem decisões que devem ser tomadas e, sobretudo decisões que não podem ser tomadas como afastar direitos ou garantias fundamentais com base no argumento de que essa era a vontade do povo, lembrando que Hitler era fortemente apoiado pelo povo e a vontade deste amparada no clamor do povo, deu no que deu. Espero que não chegue o dia em que Bolsonaro, ou outro assemelhado afirme: “que teríamos feito sem os juízes brasileiros?”

quinta-feira, 10 de março de 2016

Pode ser? Ou não vem ao caso?

        “A cadela do fascismo está sempre no cio”! Disse o genial Bertolt Brecht, nada mais propício para designar o êxtase de pessoas reacionárias e saudosas da ditadura militar que tiveram na sexta-feira dia 04 de março o maior orgasmo de suas vidas, ocasião em que o Juiz Sergio Moro atropelou o Direito, pois, Lula jamais se recusou anteriormente a depor e sob o falso pretexto de proteger, impôs ao ex-presidente Lula, (salvo Moro seja um tolo e, portanto inapto para o cargo que ocupa) uma humilhante condução coercitiva ante uma exposição midiática pré-anunciada por vazamentos seletivos (ao gosto da Grande Mídia e da elite entreguista desse país) que se tornaram a marca da operação Lava-Jato que tem como objetivo a perseguição ao Partido dos Trabalhadores, a tentativa de fazer o Impeachment de Dilma e de inviabilizar Lula como potencial candidato das eleições de 2018. 
         Qualquer pessoa imparcial, portanto, que não tenha o perfil fascista, fanático e alienado dos assim chamados “coxinhas”, que costumam defender o fim da corrupção (dos outros) e que fecham os olhos, a boca e os ouvidos para a corrupção do partido e das lideranças que defendem, já percebeu que temos no país um judiciário partidarizado que não representa os interesses do povo brasileiro e sim de sua elite de sempre, os integrantes da Casa Grande que buscam reaver o que sempre foi seu, o controle do país e enviar de volta para a Senzala os trabalhadores que andavam muito “saidinhos”, afinal, se nada for feito, logo teremos uma legião de médicos e juízes vindos da Senzala da sociedade, sendo, que tais espaços deveriam continuar reservados aos “cidadãos de bem” da Casa Grande, não importa, que algumas vezes esses “cidadãos de bem”, não o sejam assim chamados por seus ideais humanitários e de justiça social, mas, sim por sua semelhança com os “cidadãos de bem” da Ku Klux Klan. 
            A operação Lava-Jato, caso não fosse partidarizada, poderia ser uma grande oportunidade de passar o período recente, notadamente, a Era do Real a limpo, bastaria que o Judiciário e a Polícia Federal agissem com imparcialidade e todos os corruptos delatados fossem de fato investigados e caso culpados, punidos, independentemente da ideologia e da bandeira partidária. Mas, vivemos tempos de exceção, atropelam-se as regras mais elementares do Direito, desrespeita-se a constituição desde que a teoria nazista do Domínio do Fato foi indevidamente empregada no julgamento do Mensalão por Joaquim Barbosa, em que se passou como afirmou a Ministra Rosa Weber do STF a “condenar sem provas porque a literatura jurídica permite”. 
                Rui Barbosa disse certa vez: “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário, contra ela não há a quem recorrer”! Dessa forma, delações contra Aécio Neves, FHC, etc. são varridas para debaixo do tapete na Operação Lava-Jato do Senhor Moro que inclusive foi o mesmo Juiz da investigação do escândalo bilionário do Banestado cujo desfecho foi à época previsível com os corruptos sorridentes e a montanha de dinheiro ilegal seguro no exterior. 
           Quem tal como eu ouve as delações da Lava-Jato se enoja com as falas de Moro e dos procuradores tais como “não vem ao caso!” e “não foi o que eu perguntei!” quando os delatores insistem em falar da corrupção de membros da direita, pois, a Lava-Jato tem foco, e os envolvidos já estão de antemão condenados, pois, trata-se de uma operação política que visa desconstruir o mito Lula e sua obra que tirou 36 milhões de pessoas da miséria e devolver o poder aos “cidadãos de bem” da Casa Grande. 
              Os coxinhas, por sua vez, que reclamam quando no futebol, o juiz apita para um lado só, não reclamam da perseguição implacável que o Judiciário aliado da elite faz sobre o PT, Dilma e Lula, visando auxiliar no golpe institucional midiático que se tenta implantar com a destituição de Dilma e a desconstrução de Lula porque essa elite se borra nas calças de medo de enfrentá-lo nas eleições de 2018, e como não teve capacidade para vencer nas urnas, tenta fazê-lo no tapetão. 
            De minha parte gostaria de acreditar no Judiciário, mas o que vejo me envergonha perante as nações desenvolvidas do mundo, nas quais o Judiciário aplica o Direito e não age de forma partidarizada como nestas terras onde muitos cidadãos togados fazem o papel de justiceiros da elite e de uma parcela fascista da sociedade. Então suplico, dá para investigar e punir de acordo com as garantias constitucionais e elementares do Direito, além dos Petistas, também os Tucanos? Pode ser? Ou não vem ao caso?

quinta-feira, 3 de março de 2016

Gabo: um século de solidão!

Gabriel José García Márquez nasceu na cidade colombiana de Aracataca a seis de março de 1927 e faleceu na Cidade do México a 17 de abril de 2014 ao lado da mulher Mercedes e os filhos Rodrigo e Gonzalo. Em seus últimos anos de vida García Márquez se surpreendia com as demonstrações de carinho de seus apaixonados leitores por ocasião da passagem de seus aniversários e em certa ocasião, perguntou a sua esposa porque as pessoas gostavam tanto dele, pois, Gabo, como era carinhosamente chamado estava acometido de câncer linfático e demência senil, motivo que o levou a aposentar sua caneta e renunciar à escrita de novos livros. Márquez se popularizou por ser um escritor de contos, novelista, jornalista e ativista político defensor dos ideais da esquerda. Em 1982, Gabo ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e discordava de leitores e críticos literários que consideravam como sendo sua obra expoente “Cem anos de solidão” reservando tal posto para a obra “O amor nos tempos de cólera”. García Marquez é considerado o criador do estilo literário “realismo mágico” em que a realidade se mistura à ficção na tessitura de suas tramas, apesar da surrealidade de sua escrita afirmava que não havia nada nela que não fosse a realidade, pois, dizia ser carente de imaginação. Em sua obra “Cem anos de solidão” conta a história da família Buendía na fictícia Macondo, que em realidade se tratava de uma fazenda dedicada ao cultivo de banana, na qual inicia discorrendo sobre a saga dos primos José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán que se casam e tal como as pessoas afirmavam, o casamento entre familiares produzia aberrações, e, assim, por iniciativa de Úrsula o casal evitou ter filhos por muito tempo, mas, como o tempo passou e o casal não teve filhos, a virilidade de José Arcádio Buendía foi colocada em dúvida por um morador do povoado e que José Arcádio desafiou para um duelo e o venceu, porém, após a morte deste, seu espírito não lhe dá sossego aparecendo para ele a todo o momento. Para ter paz, o casal se muda para o interior e numa área despovoada funda Macondo. É em Macondo que eles têm os fillhos José Arcadio e Aureliano Buendía. Tal como dizia a crença popular, os filhos nascem com rabo de porco, porém, após a troca da dentição, os rabos eram cortados e estes tinham vida normal. Aureliano Buendía se apaixona por uma pré-adolescente de nome Remédios e propõe um acordo aos seus pais que a liberem para se casar com ele assim que ela entrar na puberdade e assim foi feito, porém, ela morre no parto de gêmeos e seus sogros que o estimavam muito lhe afirmam que é muito jovem para ficar sozinho e que ficariam felizes caso escolhesse uma de suas outras filhas para se casar novamente, mas, o país vivia uma turbulência política e das conversas com seu sogro conservador sobre política Aureliano se descobriu entusiasticamente liberal e resolveu entrar na guerra em prol desta corrente política vindo a participar de 32 guerras e todas perdeu, mas, é reconhecido como uma importante figura histórica do país, muito embora jamais receba de seu país a pensão que tanto aguardara, e por isso, passa seus últimos anos confeccionando miniatura de peixes de ouro que vendia em troca de moedas de ouro que eram derretidas para fazer novas miniaturas com o único objetivo de ocupar o tempo. A obra é surreal, e faz uma amálgama de fatos da realidade com fictícios em que pessoas levitam, ossos humanos se movimentam, borboletas amarelas acompanham um personagem aonde ele vai, ciganos, cartomantes e videntes fazem a leitura das mãos, além de repressão militar, eleições fajutas, exploração sobre os trabalhadores e greves, guerras e solidão, muita solidão, apenas menor do que a deixada por Gabo quando de sua partida! Sugestão de boa leitura: Cien años de soledad (Cem anos de solidão) – Gabriel García Márquez. Ed. Debolsillo, 2014.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O lucro Brasil!

Da mesma forma que Sócrates (o famoso filósofo grego), costumo conversar com os mais diferentes perfis de pessoas, empresários, trabalhadores, professores, etc. Não pretendo é claro ao afirmar esse gosto pessoal em ouvir as pessoas comparar-me ao sábio grego, real ou criado pelo também famoso filósofo grego Platão (não vou entrar nesta seara), pois, sei de minha pobreza intelectual e que muito tenho por aprender. Recentemente conversei com um amigo que ao computador mostrava a variação de preços de artigos de informática no mercado nacional e que estavam muito acima da valorização do dólar frente ao real e ele me contou que grandes distribuidoras que controlam o mercado nacional abarrotaram seus estoques com os preços baixos antes da forte alta do dólar e buscam lucrar bastante mesmo com número de vendas inferiores ao que poderiam alcançar com preços mais competitivos, pois, a concorrência acaba não ocorrendo devido à formação de cartéis. Na continuidade da conversa emendei que isso ocorre também com os produtos vendidos nos supermercados que costumam extrapolar os percentuais de correção inflacionária e acabam por anular o todo ou parte significativa do reajuste anual dos salários dos trabalhadores. Os empresários do setor afirmam que repassam os reajustes dos distribuidores e da indústria, e não os contradigo, mas, também é verdade que devido à inflação galopante existente em grande parte da história nacional (e que apenas os muito jovens não viveram) criou-se uma mentalidade em boa parte da classe empresarial de busca de lucros exorbitantes, e, portanto, muito acima do verificado em países capitalistas desenvolvidos. Há algum tempo assisti a um vídeo na Internet que comparava os preços dos automóveis no Brasil e nos Estados Unidos da América, e mostrava a grande diferença de preços do modelo Toyota Corola, fabricado no Brasil e outro na terra do Tio Sam. O brasileiro costuma reclamar dos preços dos automóveis nacionais e costuma atribuir aos impostos o alto valor dos veículos nacionais. Mas, o vídeo que assisti demonstrava didaticamente que isso não corresponde à verdade, pois, retirava o valor dos impostos nacionais e o carro nacional continuava mais caro que o modelo estadunidense. Comparou o valor da mão de obra, mas, este era inferior à daquele país. Em seguida, fez o mesmo com o custo de produção e este era menor no Brasil. Ao final demonstrou que as margens de lucros das montadoras brasileiras são 300% superiores às praticadas pelas montadoras estadunidenses. Em outro artigo, que há algum tempo li, estas informações eram confirmadas e ainda acrescentava que as margens de lucros das concessionárias também são superiores às praticadas nos países desenvolvidos. Quando adolescente, me indignava ao saber que montadoras multinacionais instaladas em nosso país entregavam aos brasileiros veículos espartanos e estes mesmos veículos recheados de opcionais eram exportados a preços muito inferiores. Isso ocorre ainda hoje e a explicação não está na isenção de impostos para a exportação, mas, nos percentuais de lucros maiores aplicados aos carros aqui comercializados. Com a desvalorização cambial e os preços inferiores aos praticados no mercado interno aliado ao custo de produção nacional menor do que em várias plagas, a venda de automóveis nacionais para o exterior não para de crescer. Nossas vantagens competitivas apenas não conseguem garantir veículos nacionais a preços mais acessíveis ao povo brasileiro, pois, sustentam matrizes em crise lá fora por meio do “Lucro Brasil” que se converteu em nossa grande desvantagem, lembrando que as montadoras obtêm sucesso ao cobrar internamente lucros escorchantes, porque, nós inversamente aos consumidores do centro capitalista mundial aceitamos pagar! P.S. A expressão “Lucro Brasil” foi criada pelo jornalista Joel Leite

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A tragédia no Mar de Barents!

A cidade de Kursk localizada na parte europeia da Rússia é uma das mais antigas daquele país e possui cerca de 400 mil habitantes. A cidade é considerada aprazível e oferta diversas oportunidades de lazer para os habitantes locais e seus visitantes. O verão apresenta temperaturas amenas sendo que para o mês de Julho a média é de 19ºC e o inverno não tem o rigor extremo do que conhecemos por inverno russo, pois, a temperatura média no mês de janeiro é de -8ºC. Kursk também dá nome à maior batalha de blindados da Segunda Guerra Mundial entre a Alemanha (que levava a cabo sua estratégia do “Blitzkrieg” ou guerra relâmpago e que se utilizava dos tanques para avançar rapidamente sobre o território inimigo) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A Batalha de Kursk vencida pelos soviéticos também teve a maior perda de caças em um só dia na Segunda Guerra Mundial. Kursk foi novamente lembrada nos noticiários internacionais a partir do dia 12 de agosto de 2000, quando uma nova tragédia se abateu sobre a Rússia, porém, dessa vez envolvendo o mais poderoso e moderno submarino nuclear russo que foi lançado ao mar em 1994, três anos após o desmembramento da superpotência soviética em 15 países, dos quais a Rússia foi herdeira natural de seu arsenal nuclear. Tratava-se do maior exercício naval realizado pela Rússia desde o fim da Era Soviética (e como de praxe havia na região de forma furtiva pelo menos um submarino nuclear estadunidense espionando as ações russas) e o submarino Kursk cujo nome era uma homenagem a homônima cidade russa fazia parte dessas ações. Dentro do submarino russo havia 118 tripulantes, sendo dois deles civis, e, os objetivos eram o treinamento prático dos submarinistas e testes de torpedos antigos recém modernizados. No momento em que o submarino russo se preparava para lançar torpedos, o submarino espião estadunidense e os sistemas de espionagem com microfones à prova d’água utilizada pelos países ocidentais, bem como os sismógrafos da Noruega captaram as vibrações resultantes de uma explosão seguida de outra maior e o Kursk afundou numa área com cerca de 130 metros de profundidade e não mais respondeu às tentativas de comunicação da frota naval russa. Vladimir Putin estava na presidência há cerca de 100 dias quando da tragédia ocorrida no Mar de Barents durante a realização de exercícios navais simulados entre embarcações da Frota do Norte que faz a guarnição do país no Oceano Glacial Ártico. Os militares russos acostumados à doutrina soviética de resolver problemas, e evitar levá-los às autoridades, não evidenciaram a gravidade da situação ao Presidente Putin que confiou excessivamente na capacidade destes em resolver a situação. O receio de que segredos militares do Kursk pudessem ser roubados pelas potências ocidentais levou os burocratas a postergar a decisão de aceitar ajuda externa diante da impossibilidade russa de fazer o salvamento dos submarinistas ainda vivos que esperavam o resgate. Putin reagiu tardiamente, pois, não compreendeu no tempo devido, a necessidade imperiosa de sua ação. Dias depois, quando o resgate com ajuda externa, enfim ocorreu, não havia mais vidas a salvar e cerca de um ano depois quando o submarino foi enfim resgatado das profundezas do Mar de Barents se concluiu que apesar da sobrevida pós-explosão (8 horas) de 23 submarinistas o resgate jamais ocorreria a tempo, salvo se no local do acidente a Rússia tivesse os equipamentos necessários. A tragédia foi um duro golpe na Rússia que buscava recuperar seu status de grande potência militar e mostrou a dificuldade dos burocratas russos em conciliar a estratégia de segurança nacional sem prejuízo do maior valor de uma nação: a preservação da vida de seus cidadãos sejam eles civis ou militares. Sugestão de boa leitura: Kursk: o orgulho perdido da Rússia – Autor: Peter Truscott – 2003 - Ed. Landscape

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Argentina: Um passo atrás!

A Argentina já esteve entre os países mais ricos do mundo e ainda hoje Buenos Aires é considerada a capital europeia da América Latina, mas, há muito tempo a nação vive o trauma da percepção da queda da qualidade de vida que foi agravado com a experiência da ditadura militar que cometeu a sandice de levar a cabo a malfadada aventura militar pela retomada das Ilhas Malvinas contra a Inglaterra em 1982, apesar da justiça de sua reivindicação. Com o fim da ditadura, o povo argentino considerado mais politizado que o brasileiro exerceu forte pressão que resultou na abertura de investigação e processos que culminaram na prisão de vários militares envolvidos em torturas e assassinatos de opositores políticos. A partir dos anos 1980, a Argentina foi varrida pelo vento neoliberal que saqueou o seu patrimônio público, sendo que empresas estatais foram privatizadas, o mercado foi aberto ao capital externo e a política neoliberal trouxe desindustrialização, concentração da renda, arrocho salarial e perda progressiva do poder aquisitivo da população. Tal como no Brasil (privataria tucana), as denúncias de corrupção envolveram o nome do Presidente Carlos Menem (o FHC da Argentina em termos de ideários políticos) e em 2015 ele foi condenado a 4,5 anos de prisão (no Brasil, FHC segue solto e pregando contra a corrupção, apesar de entre outros atos corruptos ter comprado votos de parlamentares para a emenda de sua própria reeleição). O país perdeu o rumo e mergulhou em crise profunda até que Néstor Kirchner conseguiu colocar o país novamente nos trilhos, mesmo que em marcha lenta, o governante (já falecido) e depois, sua sucessora, a então esposa e atual viúva Cristina Kirchner criaram programas de subsídios para a população pobre, renegociaram a dívida externa e limitaram o envio de dólares para o exterior sempre com forte oposição do Grupo Clarín (equivalente à Rede Globo) e da burguesia local, principalmente, os grandes latifundiários. O Governo de Cristina Kirchner conseguiu inclusive fazer o debate e a implantação da “Ley de Medios”, a regulação econômica da propriedade de meios de comunicação que no Brasil constitui verdadeiros monopólios em contrariedade com a Constituição Federal de 1988. Em fins de 2015, a direita argentina elegeu Macri e em menos de sessenta dias, grande parte das conquistas sociais foram demolidas, o custo de vida explodiu devido à eliminação dos subsídios, o câmbio foi liberado com forte desvalorização da moeda local, não há mais restrições para o envio de dólares ao exterior, e a redução de impostos para importação de automóveis de luxo mostram a face do atual governo. O Presidente adotou medidas autoritárias nomeando ministros na Suprema Corte sem a aprovação do Senado e destituindo de seus cargos os responsáveis pela implantação da “Ley de Medios”, iniciativa que rendeu a Macri o apelido de “Presidente do Clarín”, além disso, proibiu manifestações que ocupem as ruas evidenciando que não é necessário que os militares cheguem ao Poder para que se implante uma ditadura. Numa clara mostra de arrogância e nenhum conhecimento geopolítico, Macri cobrou do Brasil e dos demais países do MERCOSUL a expulsão da Venezuela do bloco. No Brasil, a Grande Mídia não faz mais críticas diárias à Argentina, pois, o Governo Macri segue a Cartilha Neoliberal do Consenso de Washington e embora os argentinos saiam às ruas para protestar e nelas esteja a tropa de choque com seus tanques à semelhança da ditadura que viveu no passado, isso não chama a atenção da Grande Mídia brasileira que considera mais importantes os panelaços da elite argentina que protestava contra a prioridade dada aos pobres na Era Kirchner. Concluo com uma frase de Maria Eugenia Vidal, Governadora da Província de Buenos Aires quando da eleição de Macri: “Esta noite estamos fazendo história. Esta noite fizemos o possível e o impossível: trocamos o futuro pelo passado”.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Michael Moore me representa! – Parte 2

Como o leitor pode observar pelo título acima, não é a primeira vez que neste espaço dedico minha reflexão sobre a obra do escritor, documentarista e cineasta Michael Moore. Lembro que a mais de duas décadas escrevi um artigo com o título “O outro lado da Guerra do Golfo Pérsico”, pois, desde os tempos em que cursava a Universidade sempre fui crítico das ações imperialistas estadunidenses no Oriente Médio, artigo, ao qual dei continuidade em 2003, pois, embora os noticiários informassem que a ONU não havia encontrado provas da posse de armas de destruição em massa por parte do Iraque então governado pelo ditador Sadam Hussein, George W. Bush não desistiu de seu desejo de atacar aquele país. Assim, em 2003, ao saber que um cineasta estadunidense acabara de ganhar o Oscar pelo melhor documentário intitulado “Tiros em Columbine” que investiga a fascinação dos estadunidenses por armas de fogo, o fácil acesso e a produção de tragédias no país e que ao receber a estatueta fez uma crítica antológica ao Presidente George Walker Bush, não tive outra reação que procurar saber mais sobre ele. A minha curiosidade sobre “Mike”, como é chamado, me levou a assistir “Capitalismo: uma história de amor” em que ele faz duras críticas ao sistema que penaliza ainda mais a classe trabalhadora em épocas de crise e ao documentário Fahrenheit 11/9 acerca do atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001 e a ler os livros: “Stupid White Man: Uma nação de idiotas!”; “Cara: cadê o meu país?” e “Fahrenheit 11de Setembro”. Minha admiração pela obra de Michael Moore é tanta que sempre que encontro um livro recomendado por ele acabo o adquirindo. Concluí a leitura de mais uma obra sua, “Adoro problemas: histórias de minha vida”. No livro o autor relata histórias de sua vida desde seus relacionamentos nem sempre fáceis com as garotas; seus problemas na escola; a sua desistência do seminário quando foi informado que não tinha vocação para ser padre, pois, questionava o que não devia ser questionado; a sua oposição à guerra do Vietnã e seu firme desejo de pedir asilo ao Canadá para não ir à guerra, o que não foi necessário, pois, foi dispensado, e, o fato de ter sido o mais jovem estadunidense eleito para cargo público. Mike foi dono de um pequeno jornal no qual se recusava a tratar de amenidades, pois, não tinha receio em fazer denúncias e criar polêmicas, justamente por isso tinha dificuldades em conseguir publicidade para manter o jornal. O autor inicia a obra em questão discorrendo acerca do Oscar que recebeu e do discurso que proferiu e comenta que é costume do cerimonial, após, a entrega do Oscar, uma moça esculturalmente linda oferecer champanhe e um rapaz igualmente belo oferecer uma bala de menta e que nessa ocasião o rapaz lhe chamou de imbecil pela crítica feita a “Dáblio” como chama George W. Bush. Mike também comenta os percalços que passou para levar a cabo seu primeiro documentário: “Roger & Eu” sobre o descaso de uma grande empresa automobilística com relação às pessoas e municípios de suas áreas de atuação, pois, mudou os locais de suas atividades para turbinar os lucros por meio da maior exploração sobre os trabalhadores de regiões com menor organização sindical. Tenho por costume buscar artigos de Michael Moore na Internet, ou que se referem a ele, o que é uma dificuldade, pois, a tradução por meio de softwares fica um tanto quanto distorcida. Quanto à obra em questão, não concordo com The New York Times quanto a este ser o melhor livro de Mike, mas, afirmo que sua leitura é prazerosa e inspiradora e alterna lembranças um tanto quanto meigas de fatos que marcaram a sua juventude com momentos de genialidade crítica expressada na forma de seu característico humor sarcástico ao tratar de grandes temas. Sugestão de boa leitura: Michael Moore. Adoro problemas: Histórias de minha vida. Editora Lua de Papel, 2011.