Powered By Blogger

sábado, 27 de novembro de 2021

Relato de um náufrago

 

            


Quem frequenta o círculo mais íntimo de minhas relações pessoais sabe o prazer que sinto ao ganhar livros. Entendo, no entanto que essa não é uma tarefa fácil, afinal, escolher bons livros para me presentear é relativamente mais fácil do que saber se não o possuo. Não digo isso por ter tantos livros assim, mas, porque sou cirúrgico na aquisição dos melhores (segundo a minha opinião). 
        É verdade que adquiro mais livros do que a minha capacidade de ler e temo que deixarei esse plano sem ter zerado as minhas leituras. Há alguns dias recebi de minha irmã Salette, o livro "Relato de un náufrago" de Gabriel García Márquez (1927-2014). A obra em questão me foi presenteada na língua materna de "Gabo" como Márquez era carinhosamente chamado por seus admiradores.

            Gabriel García Marquez, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra, nas quais figuram como obras-primas "Cem anos de Solidão" e "O amor nos tempos do cólera" e várias outras que apesar de não terem o mesmo destaque, são obras que precisam ser lidas por todo apreciador da alta literatura. 

        No livro "Relato de um náufrago", uma obra no estilo literatura reportagem, o então pouco conhecido jornalista Gabriel García Márquez entrevista e publica o relato do marinheiro Luiz Alejandro Velasco. Velasco fora aclamado herói nacional por ter sobrevivido durante dez dias em uma balsa à deriva no Mar do Caribe. Velasco, juntamente com outros sete marinheiros colombianos caíram ao mar do destróier Caldas, sendo ele o único sobrevivente. A narrativa oficial dava conta que o destróier havia pegado uma forte tormenta que jogara o navio e arremessara ao mar os tripulantes que faziam guarda no convés. Luis nem sequer estava em sua escala de trabalho, havia ido à popa para fumar e fazer hora conversando, se estivesse deitado em sua cama, não teria passado tal revés.

    O livro desmistifica a história oficial de que o próprio Luis Alejandro se beneficiou momentaneamente, mas, que não teve dúvida de por ao chão tão logo foi esquecido pelo governo e pela imprensa. A fama fora efêmera e nada mais lhe rendia, então resolveu por fim à farsa. Procurou um jornalista corajoso, pois, pretendia confrontar a narrativa do governo ditatorial colombiano. Encontrou García Marquez. O náufrago era um excelente contador de histórias e tinha vívida lembrança dos acontecimentos, isso facilitou o trabalho do jornalista. 

        Velasco fazia parte do corpo da Marinha de Guerra da Colômbia e havia ido para os Estados Unidos da América com o destróier Caldas que passaria por um processo de manutenção e modernização de seus equipamentos naquele país. Os marinheiros ficaram nos EUA recebendo instrução para a operação dos novos equipamentos do navio, mas, havia muito tempo livre, que ele e seus companheiros desfrutavam gastando as diárias que o governo colombiano lhes enviava, seja indo ao cinema, aos bares e namorando moças estadunidenses. Na obra são relatadas várias personagens (colegas da marinha e civis estadunidenses) com quem conviveu e, a descrição dos locais a que iam.

            Apesar de ser marinheiro, Velasco tinha grande receio de tempestades em alto mar. O destróier, após vários meses ficara pronto e iria zarpar de volta para a Colômbia, não sem antes ser abarrotado de contrabando (geladeiras, freezers, televisores, etc.). É importante dizer que o navio não havia sido construído para carga e que a mesma, além de excessiva,  fora mal acomodada. Durante o trajeto eis que a carga se desequilibra e ao fazê-lo joga lateralmente o navio arremessando além da carga, oito marinheiros ao mar. Balsas de resgate do navio caem no mar junto com as mercadorias. Com grande esforço, Velasco alcança uma delas, tenta sem sucesso salvar alguns companheiros. Descobrirá mais tarde ser o único sobrevivente. 

        O navio segue seu rumo e chega sem atrasos no destino. Aviões e helicópteros fazem busca por alguns dias, mas, apesar de sobrevoarem a balsa não a avistam. A esperança fica cada vez menor. O náufrago passava calor, frio, sede e fome, momentos nos quais desejara a morte, sem a encontrar ante o corpo que teimava em viver. Passou então a buscar meios de sobreviver, inicialmente evita tomar água salgada e tenta desesperadamente conseguir alimento, com grande sentimento de culpa mata uma gaivota que pousou em sua balsa, mas, se recusa a comê-la. A sorte lhe sorriu quando um peixe grande salta para dentro da balsa, Velasco rapidamente o mata,  porém, resolve lavá-lo no mar, ocasião em que outros peixes o arrancam de sua mão. Luis chegou até mesmo a saber que os tubarões eram animais pontuais, pois, todo dia às 17 horas eles vinham lhe fazer companhia. Velasco temia que eles virassem a balsa.

            O náufrago remava nos horários noturnos e se deitava no fundo da balsa para se abrigar do sol durante o dia, isso enquanto tinha os remos, pois para se defender dos tubarões que rondavam sua balsa, perdeu-os, ficando à mercê da corrente marinha quando já não esperava mais por um resgate. Ignorava para onde a corrente o levava, enxergava água em todas as direções. Mas, começou a ver formas acinzentadas no horizonte e, mais tarde, aves que não se afastam muito da terra e quando se aproximou o suficiente reuniu forças que pensava não mais ter, nadou e quando pôde, caminhou até a praia.

         Esfarrapado, foi avistado por uma moça que dele fugiu por medo. Mais tarde foi encontrado e cuidado por pescadores da vila. As autoridades o buscaram e o colocaram num hospital para recuperar-se sob vigilância de soldados (não podia receber visitas). A narrativa oficial lhe fora imposta e ele se beneficiou dela, mas, a fama efêmera lhe levou, quando esquecido, a procurar o jornalista Gabriel García Márquez. O jornalista e o náufrago pagaram um alto preço por dizer a verdade, algo sempre tão raro e tão caro em períodos de governos ditatoriais!

Sugestão de boa leitura:

Título:  Relato de um náufrago.

Autor: Gabriel García Márquez.

Editora: Record, 2017, 41ª edição, 144 pág.

sábado, 13 de novembro de 2021

A Consolação da Filosofia

 

        


       Anício Mânlio Torquato Severino Boethius (480-524) foi um filósofo, poeta e político romano que viveu na época marcada pelo declínio do Império Romano. Boécio tinha grande apreço pela cultura e literatura grega e tinha como grande meta de vida traduzir para o latim a obra completa dos filósofos gregos Platão e Aristóteles. Anício tinha senso e valores de justiça muito apurados, também por isso, condenava a exploração dos pobres. Era considerado sábio e sua cultura tida como profunda, provocava grande admiração e, por isso não tardou a ascender na escala social ao tornar-se cônsul e membro do Senado aos 30 anos durante o reinado de Teodorico, o Grande. Casado com Rusticiana, filha de seu mentor Quinthus Aurelius Symmaehus chegou a ver seus dois filhos serem alçados ao Senado. Vivia momentos de profunda felicidade até que a Roda da Fortuna girou.

            Em 522, motivado por seu apurado senso de justiça defendeu o senador Albino que havia sido acusado de conspiração para restaurar a república. O senador Albino desejava aquilo que era vontade de grande parte do povo, a reunificação do Império Romano e o retorno dos dias gloriosos. Ao assim agir, Boécio foi acusado como traidor e preso, porém, ao contrário daqueles que em tal desgraça caíam, não foi executado rapidamente. Encerrado durante longo tempo em uma masmorra imunda, ele que era bem nascido, filho de família importante, sendo que também seu pai fora cônsul, passava por sessões de torturas diárias. Seus familiares e amigos fizeram o que era possível para livrá-lo, em vão. Políticos de mau caráter e de atitudes desonestas testemunharam falsamente contra ele. As calúnias aventadas contra ele agravaram sua situação. Aqueles que lhe julgavam estavam mais interessados em sua condenação do que na aplicação da Justiça.

            Afastado de sua família, com uma rotina diária terrível de humilhações e dores resultantes das torturas na masmorra, resolveu recorrer à mulher mais bela, porém austera, que em sua vida conheceu, a Filosofia. Por meio de tabuinhas e uma cunha registrou suas elucubrações filosóficas, tendo o cuidado de entregar tais tabuinhas a parentes, nela a sua obra-prima: "A Consolação da Filosofia". Enquanto esperava o dia da sua execução, procurou atingir um estágio de grande elevação filosófica e psicológica, certamente para evitar que fraquejasse ou enlouquecesse e visando manter elevado seu moral e alcançar a felicidade, a paz, e assim, se preparar para confrontar a morte. Ao terminar o livro, estava num estado de profunda paz. Apesar de sua família ter se convertido há um século ao cristianismo, a Igreja Católica Romana e a Igreja Católica Ortodoxa foram muito cuidadosas e somente o declararam mártir em 1800, quando foi beatificado por ambas. Tal cuidado se deve ao fato de que sua obra é a mais pura expressão da cultura greco-romana e apesar de sua imensa fé em um deus, jamais deixa claro ser o deus cristão.

            A obra é escrita na forma de prosa, mas poeta que era, Boécio entremeia poesias atinentes ao tema em reflexão. É interessante observar que ele não tinha obras à sua disposição para consultas na masmorra. A obra que produziu é resultado de suas leituras anteriores à prisão e de sua reflexão. Na obra poetizou suas dores, as injustiças sofridas, a fortuna dos desonestos e entabulava diálogos com a Filosofia, bela e austera, ela não tinha receio em lhe dar reprimendas afirmando-lhe que todo homem que abraça a Filosofia é um estranho no mundo a ser violentamente rejeitado, mas, que ele não pertencia a esta pátria, mas, à pátria da Filosofia e, esta não bane seus filhos. Boécio aconselhado pela Filosofia chega à conclusão que o Universo é cosmos, ou seja razão, ordem, e não caos, e que a desordem emocional é o esquecimento de quem ele realmente é. Também concluiu que não se deve dar valor demais ao que lhe pode ser retirado e que aquilo que realmente é dele ninguém pode tirar. A falibilidade da Justiça lhe tirou a vida, mas a Filosofia que Boécio trouxe à luz é cosmos a se contrapor ao caos das mentes rasas e de suas rasas visões de mundo em todos os tempos. De seu sofrimento, Boécio deixou um legado de luz para a humanidade.

Sugestão de boa leitura:

Título: A Consolação da Filosofia.

Autor: Boécio.

Editora: WMF Martins Fontes, 2012, 2ª edição, 4ª reimpressão,  200 pág.

sábado, 6 de novembro de 2021

Sinal amarelo para o agronegócio brasileiro

 

            Há uma discussão em voga na Alemanha, a questão da devastação ambiental em território brasileiro para a expansão da fronteira agrícola e as consequências dela resultantes. Há movimentos atuantes no seio da sociedade alemã que propagam a ideia de que aquela nação precisa parar de comprar soja brasileira e estimular receitas caseiras para a produção de ração animal. Em uma reportagem afirmavam que esta ração caseira ainda é mais cara do que a importação da soja, mas, que tende a ficar mais barata e, que mesmo que isso não ocorra, o fato de não contribuir para a concentração da terra no Brasil resultante da expropriação das terras de indígenas e pequenos agricultores e, principalmente, para a devastação de frágeis ecossistemas como o Cerrado e a Amazônia já torna válido o aumento do custo da ração.¹

            Nos Estados Unidos da América tramita um projeto de lei que certamente será aprovado, pois, está em consonância com a política externa de seu atual governo². O projeto pretende impedir a aquisição de produtos que tenham como origem áreas devastadas ilegalmente ou que deveriam ser preservadas, mas, sempre há a possibilidade de haver rescaldo e prejudicar quem trabalha em terras legalizadas. Entende isso quem vacina o seu gado bovino e é prejudicado pelo foco de febre aftosa (em algum canto distante do Brasil) por quem compra a vacina, mas, não aplica em seu rebanho, mesmo sendo o Brasil, um país continental. Sobre a questão, o general Hamilton Mourão, atual vice-presidente do país afirmou: "A maioria das pessoas que têm uma consciência ambiental maior, são de esquerda" e concluiu dizendo que "o governo federal é de direita e que os produtos exportados não são de áreas de preservação que teriam sido desmatadas". Que a esquerda tem no seu escopo ideário, maior preocupação com o meio ambiente, é inegável, porém, esse discurso típico do século XX não cola mais. O mundo mudou e o governo Bolsonaro age de forma anacrônica, pois se vivemos uma nova guerra fria, essa disputa não se faz pela contraposição capitalismo x socialismo / Ocidente x Oriente. Apenas mentes doentes como as que povoam o governo Bolsonaro pararam no tempo e, isso porque são vazias de conteúdo e de entendimento geopolítico. Bolsonaro faz grande mal ao país. O agronegócio brasileiro ainda vai pagar a conta por seus desvarios ou de seus comandados ao dirigir críticas ideológicas e fake news à China, o maior comprador de produtos brasileiros e, isso não é difícil de entender,  afinal, um dono de loja pode não gostar de seu principal cliente, mas, não o critica publicamente para não perdê-lo.

            Há alguns dias assisti à entrevista de um representante do agronegócio, que afirmou, com razão de que o país conta com uma das melhores e mais completas legislações ambientais do mundo. Disse ainda que o problema está na falta de fiscalização e de punição ao devastadores ambientais. Argumentou que o mundo inteiro vigia atentamente o que acontece com a Floresta Amazônica, mas, que nada fala sobre a Amazônia Azul, pois, não pode falar, afinal o mundo inteiro maltrata os oceanos e mares, os verdadeiros responsáveis pela liberação de oxigênio para a atmosfera. Tive que concordar com ele, os oceanos estão doentes por conta de toda a poluição gerada pela humanidade na forma de lixo sólido ou efluentes. O resultado, corais morrendo, espécies marinhas entrando em extinção devido a superexploração. Mas, não podemos negar que o Governo Bolsonaro tem grande culpa, pois ao promover uma fiscalização ambiental pífia e, com punições pouco rigorosas ou nulas, visando com isso agradar o agronegócio (e agrada), acabará por prejudicá-lo.

            Os capitalistas, independentemente de sua origem praticam um jogo pesado e sujo, pois, todos afirmam defender o livre-mercado e a eliminação/redução de barreiras que impeçam a livre circulação de mercadorias e serviços. Na prática, não é bem assim, os países mais capitalistas do mundo ficam o tempo todo vasculhando as ações alheias para encontrar meios de sabotar/eliminar vantagens específicas de outras nações aplicando barreiras sanitárias (nem sempre justas), subsídios, tarifas, cotas ou sanções. O governo federal e o setor do agronegócio precisam entender que discursar com base em fake news não cola, afinal, a ONU e os países têm acesso a imagens de satélite de alta resolução. Os capitalistas em geral (não apenas o agronegócio), precisam compreender que é cada vez maior a parcela da população (principalmente no mundo desenvolvido) que ao comprar produtos, procura saber como a empresa produtora trata o meio ambiente e se age com responsabilidade social. O Brasil terá que mostrar ações efetivas quanto à preservação ambiental, à fiscalização e ao rigor das punições, pois as nações não irão aceitar apenas discursos, ainda mais, de um governo cuja imagem no exterior é a pior possível!

FONTES:

1. Até quando a Alemanha continuará comprando soja do Brasil? - Disponível em https://www.dw.com/pt-br/at%C3%A9-quando-alemanha-continuar%C3%A1-importando-soja-do-brasil/a-59112846 - Acesso em 02 de Novembro de 2021.

2. EUA podem barrar importação de produtos oriundos do desmatamento ilegal - https://www.ecodebate.com.br/2021/10/07/eua-podem-barrar-importacao-de-produtos-oriundos-do-desmatamento-ilegal/ - Acesso em 02 de Novembro de 2021.

3. Estados Unidos e União Europeia discutem criar leis que podem prejudicar agronegócio brasileiro. Disponível em https://www.canalrural.com.br/noticias/eua-e-uniao-europeia-estudam-criar-leis-que-podem-prejudicar-agro-brasileiro/ - Acesso em 02 de Novembro de 2021.

 

sábado, 30 de outubro de 2021

Comuna de Paris 150

 


            Há 150 anos, mais especificamente entre os dias 18 de março a 28 de maio, teve lugar em Paris, a primeira experiência de um governo formado pela classe trabalhadora. Naquele distante ano de 1871, ainda sob os reflexos da Revolução Francesa (1789-1799) que implodiu a monarquia absolutista ao destronar Luis XVI no ano de 1792 irradiando seus efeitos além da França, pois, outros monarcas absolutistas abriram mão de parte do seu poder para preservar seus tronos e cabeças. A Revolução Francesa foi de tal forma importante que ela marca o fim da Idade Moderna e início da Idade Contemporânea, pois, enterrou o absolutismo e adaptou as nações para o capitalismo moderno. A Comuna de Paris de 1871 apesar de sua breve existência (72 dias) constitui não apenas um marco histórico, mas, um símbolo de resistência e de fortificação da utopia de uma sociedade governada pelo povo e para o povo.

           A França vivia uma turbulência política e encontrava-se em plena Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) resultante da disputa destas nações que tinham grandes ambições geopolíticas, ou seja, a obtenção da hegemonia na Europa Continental. A Prússia (atual Alemanha) demonstrou superioridade no campo de batalha. O Imperador Napoleão III da França foi capturado pela Prússia e, dessa forma, a Terceira República foi então proclamada na França e Louis Adolph Thiers (1797-1877) se tornou o presidente. O interior da França formava a maioria da população e constituía um eleitorado conservador. Na capital Paris, a classe trabalhadora tinha no operariado, a sua ponta de lança. O nome comuna se refere à comarca ou região de Paris e, não ao comunismo, embora tenha sido a primeira experiência da classe trabalhadora à frente do Poder. A Prússia, arrasadora avançou sobre a França, a classe trabalhadora se organizou e montou barricadas para defender Paris. A burguesia fugiu da capital, logo, também a Assembleia Nacional se transferiu para Versalhes. A elite e a parcela conservadora da população não gostaram de ver a classe trabalhadora armada, mesmo que fosse com o intuito de defender Paris e solicitou ao governo Thiers que a desarmasse. A burguesia viu no operariado armado uma ameaça ainda maior que a Prússia ocupando a França. Os soldados enviados para desarmar a Guarda Nacional (operários armados) foram convencidos a ficar do lado do povo e prenderam seus comandantes. O presidente Thiers fugiu para Versalhes. Os revolucionários de Paris não tinham a intenção de conquistar o restante do território francês, embora estimulassem que cada comarca ou distrito tomasse o poder local com o objetivo futuro de fazer da França uma Federação de Comunas.

            As eleições levadas a cabo pelos revolucionários levaram ao poder trabalhadores de vários segmentos, os quais não constituíam uma homogeneidade ideológica. É um engano atribuir a Karl Marx (1818-1883) grande influência sobre os desdobramentos da Comuna de Paris. Os revolucionários em sua maioria seguiam os ensinamentos de autores ideologicamente anarquistas. Karl Marx acompanhou os acontecimentos de Paris e, mais tarde chegou a escrever a obra "A Guerra Civil na França" em que fez uma análise crítica dos acontecimentos apontando os acertos e erros desta. Houve avanços notáveis tais como: Instituição do Estado laico; o trabalho noturno foi abolido; as oficinas foram reabertas e geridas na forma de cooperativas de trabalhadores; as casas vazias abandonadas pela burguesia foram concedidas para habitação da população sem moradia; foi estabelecido o ensino universal gratuito e laico; os descontos salariais foram abolidos; os sindicatos foram  legalizados; nas fábricas foi estabelecido o sistema de autogestão; o salário dos professores foram duplicados; Foi estabelecido que  os trabalhadores que exerciam cargos políticos receberiam salários iguais aos dos trabalhadores comuns. Visando acabar com as forças repressivas sempre utilizadas pela burguesia contra a população, o Exército e a polícia foram abolidos.

            A Comuna não atacou Versalhes quando isso lhe era amplamente favorável e nem se apossou das reservas do Banco Central  da França para se fortalecer, estes foram por Marx considerados erros capitais. A reação de Versalhes veio com um Tratado de Paz com a Prússia que, apesar de desvantajoso para a França, se mostrou de grande valia para a burguesia representada pelo governo Thiers, pois, a Prússia liberou os soldados franceses presos, juntamente com o retorno daqueles estacionados na frente de batalha  engrossando as fileiras no planejado ataque à Comuna de Paris. A Comuna resistiu bravamente, mas, a desproporção de forças era evidente. O governo Thiers avançou rapidamente sobre Paris promovendo um grande derramamento de sangue e causando  cerca de trinta mil mortes de comunards (como eram chamados os revolucionários). Após o fim da batalha, o banho de sangue não acabou de imediato, prosseguiram as execuções "a sangue frio", prisões e exílios forçados de trabalhadores que ousaram sonhar. Marx ao se referir aos comunards afirmou que eles agiram como "assaltantes do céu", ou seja, tentaram aquilo que era claramente impossível. Mais tarde, León Trotski (1879-1940) o corrigiu, afirmando: "As revoluções são impossíveis até que se tornam inevitáveis". A Comuna de Paris foi breve, mas, seus ensinamentos foram utilizados em 1917 na Rússia e, se perpetuam na história. Com seu exemplo, os comunards ensinaram que as utopias não devem jamais ser abandonadas.

Sugestão de boa leitura:

Obra: Comuna de Paris 150.

Autor: Vijay Prashad et al.

Editora: Expressão Popular, 1ª edição, 2021, 141 p.

sábado, 23 de outubro de 2021

A bandeira nacional e a indignação de Augusto Comte

            

          Há alguns dias enquanto caminhava com a esperança de deixar de ser uma pessoa de tão grande presença, não pude deixar de observar a quantidade de casas com a bandeira nacional, atualmente apropriada por um movimento político que pouco ou nada tem de patriótico, afinal, para começo de conversa, seu líder-mor Jair Bolsonaro bateu continência para a bandeira estadunidense. Que muitos brasileiros comuns tenham o complexo de vira-latas perante os Estados Unidos e a Europa, eu lamento, mas, aceito, afinal, faz parte da fraqueza de espírito de muitos. Difícil é ver investido no cargo de Presidente da República, quem tem tal complexo mais exaltado. 

        Não há na carreira militar ou política de Bolsonaro nada que endosse seu alçamento ao maior cargo eletivo da Nação. Não dá nem para alegar que ele iludiu o povo com seu discurso nos debates, afinal, ele não foi a nenhum debate e sua oratória é tosca. Foi um péssimo militar, sofreu processo disciplinar (planejou atentado a bombas). Em várias oportunidades demonstrou ser favorável à ditadura, à tortura, à misoginia, à homofobia, à sonegação fiscal, ao machismo, ao armamentismo, etc. Ao receber a faixa do golpista Michel Temer afirmou que com sua eleição iria libertar o povo do socialismo e do politicamente correto.

          Socialismo que no Brasil nunca houve, pois, jamais a propriedade privada dos meios de produção (fazendas, bancos, indústrias, etc.) foi extinta. Quanto ao politicamente correto, esta é a forma civilizada com que um presidente de uma grande nação deve se pautar, afinal ele é enquanto presidente, o cartão de apresentação do país. Com seu governo, recheado de militares para nenhum general da ditadura militar (1964-85) poder se comparar, a imagem que o mundo tem do Brasil, infelizmente, é de uma autêntica República das Bananas. Há quem ria do Brasil. Há quem se indigne com as ações governamentais em temas pungentes de discussão mundial como a questão ambiental e há quem tenha muita pena dos brasileiros. 

          Lembro que quando estudante, em plena ditadura militar, ouvíamos que o mundo inteiro admirava a beleza da bandeira brasileira, por todos considerada a mais bonita. Nunca consegui confirmar a fonte dessa afirmação tão popularizada, penso que se tratava de uma fake news para inspirar nos jovens um patriotismo ufanista embalado por "Eu te amo meu Brasil" de Don e Ravel, obrigatório nas escolas públicas juntamente com a execução dos hinos. Nem por isso, há evidências comprováveis cientificamente de que essa geração se tornou mais patriótica. Há muitos políticos dessa geração fazendo a velha política e, dela também muitos empresários roubando a Mãe-Pátria ao sonegar impostos.

      A bandeira nacional instituída em 19 de Novembro de 1889, trouxe poucas alterações àquela utilizada pelo Império. Manteve-se a cor verde da Casa de Bragança (D.Pedro I) e o amarelo da Casa de Habsburgo (D. Leopoldina). Falar de matas e ouro é conversa para boi dormir, digo mais, nossa bandeira deveria ser vermelha, afinal, na língua Tupi-Guarani "Brasil" significa vermelho. Na antiga base, se inseriu uma esfera celeste com as estrelas representando as unidades federativas. No centro do círculo a inscrição "Ordem e Progresso" vem do lema positivista de Augusto Comte (1798 - 1857) que dita: "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim". Há quem diga que a palavra "amor" não foi incluída, porque a tornaria longa. Outros dizem que isso ocorreu devido a necessidade de passar uma imagem viril. 

        Numa terra em que o sistema escravocrata vigorou por mais de três séculos, o face-lift superficial da bandeira nacional e a exclusão da palavra amor, evidencia toda a sua história cuja macro política nacional ao se ver ante a inevitabilidade da mudança, muda apenas para manter tudo como está. Bolsonaro no poder é uma contrarrevolução preventiva de  uma elite cruel, mesquinha, sanguinária e impatriótica. A falta de amor neste país não se denota apenas na bandeira, mas no olhar que se esquiva ante o mendigo que cata no lixo o que comer, nos ouvidos que se fazem moucos perante as notícias da miséria, da fome, da injustiça social. 

     Dói ver a bandeira nacional ser usada como símbolo de um movimento político nefasto à democracia, à liberdade, à Justiça Social, mas, entendo, embora não concorde que, quem sempre desfrutou de privilégios injustos os queira manter. O que corta o coração é ver tal bandeira (e o que ela hoje simboliza) na frente de casas humildes. Neste caso, o sentimento de repugnância ante mansões é tomado pelo sentimento de tristeza, de pena, de impotência.

sábado, 16 de outubro de 2021

Sem assunto

 

           Há tarefas para as quais nunca nos julgamos preparados adequadamente e, segundo um amigo professor universitário, nunca estaremos, pois temos a tendência a acreditar que com mais tempo poderemos fazer melhor e, isso não acaba nunca. Há um tempo para cada tarefa, embora muitas vezes, esta tenha que vir à luz sem que o tempo ideal para a sua gestação tenha ocorrido. Li que devemos sempre desconfiar das pessoas muito autoconfiantes, pois, nelas muitas vezes falta a competência para fazer algo bem feito. Há uma grande diferença entre ser capaz de realizar um trabalho e de fazer um trabalho de boa qualidade. 

        Vivemos na sociedade da aparência, das fake news e dos analistas políticos de manchetes noticiosas, os quais devem pensar: ler para quê a notícia, se pela manchete já sei o seu conteúdo? O presidente Bolsonaro disse que "os livros hoje em dia, como regra, são um montão de amontoados de muita coisa escrita e que precisam ser suavizados".  Essas notícias e esses livros, sempre tão extensos... por que não adotam o padrão Tweeter de 140 caracteres? Na sala de aula não são poucos os alunos que reclamam de ler uma lauda ou de que as questões exijam a interpretação de um pequeno texto. Na mídia digital, muitas vezes a manchete não condiz com o conteúdo e vejo gente compartilhando coisas que no fundo discordam.

            Tenho em minha estante centenas de livros não lidos, para garantir a posse, adquiro mais livros do que a minha capacidade de leitura. Já deixei de comprar livros que esgotaram e tive que adquirir usados em sebos. Tendo em vista os analistas de manchetes, para não ficar angustiado de não poder ler tanto quanto gostaria, talvez devesse ler apenas os títulos dos livros para adquirir o conhecimento pleno de seus conteúdos. Ledo engano, não se julga uma pessoa pela aparência, menos ainda um livro. Há que se desvelar a essência, há que se conhecer e para isso, é necessário ler as linhas e refletir as entrelinhas. "Pensar é o trabalho mais difícil que existe, talvez por isso tão poucas pessoas se dediquem a ele" disse o empresário Henry Ford (1863-1947), o filósofo grego Sócrates, anterior a Ford disse também: "quem não pensa, é pensado pelos outros". Mas ler, estudar, cansa, talvez seja melhor deixar a canoa seguir seu rumo a remar contra a correnteza. Quanto a possibilidade de haver uma catarata, basta não torcer contra que a economia brasileira vai bombar.

            As notícias dos últimos anos, mostraram a crise das livrarias. A pandemia agravou uma situação que já era difícil e grandes livrarias físicas fecharam pelo país. Apesar de não ser curitibano, senti fortemente o fechamento da Livraria Cultura do Shopping Curitiba. A sensação que sentia naquele local não é possível traduzir em palavras. Caminhar entre as estantes, garimpar obras, das quais muitas vezes nem sabia existir e trazer para casa juntamente com outras para a família. Dar livros para os filhos é importante, mas, o maior estímulo para eles é ver seus pais lendo. Eu sei que o livro, por seu preço é inacessível a grande parcela da população. O governo também não ajuda, o Ministro da Economia Paulo Guedes, resolveu tributá-los, pois, segundo ele quem lê são os ricos e não os pobres. Isso é de uma maldade gigantesca, ao invés de democratizar (subsidiar) o acesso aos livros, tributa-se e com isso deixa-os ainda mais inacessíveis aos pobres.

            No país onde o Ministro da Educação, o Ministro da Economia e vários parlamentares da base de apoio do governo são contra a democratização do acesso dos filhos da classe trabalhadora à universidade e o Ensino Médio é desfigurado em prejuízo do estudante pobre, logo se vê que Darcy Ribeiro (1922-1997) tinha razão quando afirmou: "A crise na educação nunca acaba, porque não é uma crise, mas um projeto". A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo disse Nelson Mandela (1918-2013). A elite brasileira sabe disso...e está desarmando a classe trabalhadora, pois, o único pobre que incomoda o seu olhar é aquele que pensa!

P.S. O título desse artigo se deve ao fato de que o escrevi sem ter uma pauta prévia (tema definido) dando vazão aos meus pensamentos conforme vinham à mente.

Em tempo: Parabéns aos/às professores/as pela passagem do seu dia!

sábado, 9 de outubro de 2021

Senna x Piquet no Brasil da polarização

 

        Há algum tempo li/assisti debates nas mídias sociais  acerca da eterna discussão sobre quem foi o melhor piloto brasileiro na Fórmula 1. Nas discussões, especialistas e amantes do esporte apresentavam seus argumentos enquanto imagens de disputas nas pistas entre Ayrton Senna (1960-1994) e Nelson Piquet eram exibidas. Os contendores também lembraram as desavenças entre os dois pilotos. Houve a citação de uma entrevista em que Senna foi cobrado por seu desaparecimento da mídia (após Piquet ser campeão) tendo ele respondido que se afastou para dar espaço para Piquet aparecer. Em várias oportunidades Piquet teceu críticas a Senna e inclusive ataques à sua honra. Não pude deixar de questionar-me: como esses fatos dizem respeito a algo do passado distante, por que ainda hoje há debates tão acalorados em defesa de um ou de outro?

            Intrigado, comecei ler os comentários das pessoas que leram/assistiram tais matérias e concentrei-me naqueles mais agressivos que eram em sua maioria dirigidos em desfavor de Senna. Constatei que quase todos eram perfis de apoiadores de Bolsonaro e que as alegações eram baseadas em valores emotivos (não racionais), pois não eram fundamentadas em dados estatísticos quanto ao aproveitamento de cada piloto. Lembrei-me de várias reportagens que li/assisti sobre Piquet que sempre fez o estilo "bad boy" desde os rachas da juventude na ruas de Brasília até sua carreira na Fórmula 1. Lembro que certa vez Piquet ganhou o "Prêmio Limão" por ser escolhido pelos jornalistas como a personalidade mais antipática no trato com a imprensa. Piquet em reportagens recentes disse que os jornalistas eram muitos burros e não entendiam nada do esporte. Piquet várias vezes dirigiu críticas à TV Globo, que abraçou Senna. Ayrton Senna fazia o estilo "bom moço" e era muito simpático com os jornalistas, Piquet, porém afirmava que Senna se utilizava de esperteza (estratégia de marketing) junto à imprensa.

            Ao visitar os perfis dos bolsonaristas fãs de Piquet,  tive a certeza que com ele  se sentiam identificados e supus que gostavam do seu estilo "bad boy". Até aquele momento (apesar de supor) não havia encontrado nenhuma fala de Piquet em apoio a Bolsonaro (agora há).  Essa dúvida acabou quando a TV mostrou Piquet dirigindo o Rolls Royce presidencial que conduzia Bolsonaro no último desfile do Dia da Pátria. Passei a me questionar sobre Senna, caso vivo estivesse, qual seria seu posicionamento (ante essa polarização)? Hoje sabemos que Senna sem publicizar contribuía com obras de caridade, mas, jamais se posicionou em favor de uma corrente política. Suponho que assim continuaria, falando de automobilismo e contribuindo com obras de caridade, porém, jamais emprestaria seu prestígio para alavancar alguma corrente político-partidária e, sabemos, o voto é secreto. Não tive,  com este artigo, a intenção de afirmar quem deles foi o melhor, porém, a estatística mostra que Piquet (apesar de ser um piloto formidável) é quem teria que ir ao encalço de Senna (não o contrário), porém (como ser humano) Senna (em vida) fez várias voltas de vantagem sobre Piquet!