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quinta-feira, 28 de março de 2019

Ser bem informado ou ser feliz?



           
Há alguns dias afirmei para algumas pessoas que devido ao momento pelo qual passa o país, todos somos subconscientemente chamados a fazer uma opção: sermos bem informados ou sermos felizes. No caso deste escriba, viciado na busca da informação e do conhecimento, a felicidade trata-se de hiatos que se pronunciam entre os momentos de lucidez. Lembro-me de uma frase cuja autoria é por mim desconhecida e que afirma: “se você é capaz de manter a tranquilidade, quando todos ao seu redor a perderam, talvez você ainda não tenha entendido a gravidade da situação”. O país encontra-se à deriva, os tripulantes escolhidos pelo comandante são incompetentes e este não sabe como conduzir a embarcação. Não há uma carta de navegação (plano de governo) indicando a direção a ser tomada. O presidente parece ainda estar em campanha e pensando ser possível governar por meio de redes sociais. Com pouca cultura e um total despreparo demonstra não ter a envergadura moral e intelectual para o cargo que ocupa. Não para de se envolver em polêmicas. Sua aproximação com Israel e sua fala impensada e desastrada de mudar a embaixada brasileira para Jerusalém tendo a intenção de agradar Israel, desagradou fortemente os países árabes que deixaram de comprar carne de frango do Brasil, o que resultou em grandes prejuízos para o setor que demitiu um grande número de trabalhadores.
            A China é o nosso principal parceiro comercial. Temos um superávit formidável com este país. Um presidente inteligente preservaria e estimularia mais negócios e evitaria tecer críticas e falas de menosprezo a tal país visando salvaguardar os interesses comerciais que fortalecem nossa economia. Bolsonaro disse para os chineses que ao contrário dos presidentes anteriores, seu governo não daria prioridade à China e sim aos Estados Unidos. Notem que com os Estados Unidos há muito tempo temos uma balança comercial deficitária (importamos mais e exportamos pouco). A China decidiu então passar a comprar soja dos Estados Unidos, pois, assim agrada um pouco o Tio Sam cujo mimimi é enorme por conta da balança comercial amplamente desfavorável com o país asiático. O agronegócio brasileiro fica com o prejuízo. Soube que os contratos para a compra de soja brasileira estão abaixo do esperado. Não se sabe se pela exportação recorde do ano anterior ou se há em curso uma queda da procura. O tempo irá dizer.
            Bolsonaro fez uma visita aos Estados Unidos de Donald Trump cujo lema “a América primeiro” evidencia a tônica de seu governo. Apesar do lema de campanha de Bolsonaro ditar “[...] Brasil acima de todos”, a viagem foi patética. Bolsonaro parecia deslumbrado tal como uma criança que vai à Disneylândia. Lá prometeu abrir o mercado brasileiro para a compra de carne suína, prejudicando o produtor brasileiro e também que o Brasil não taxará mais o trigo estadunidense prejudicando a Argentina, nosso principal parceiro do MERCOSUL, que certamente tomará atitudes para compensar as perdas com as vendas ao Brasil, talvez limitando importações junto ao país. E ainda, num ato entreguista, antipatriótico e contrário a soberania nacional firmou acordo em que cede aos Estados Unidos a melhor base de lançamento de foguetes espaciais do mundo (devido sua localização privilegiada). Em Alcântara, os Estados Unidos terão em troca de aluguel um enclave dentro do território brasileiro. Lembrando que muitas vezes li acerca de problemas gerados pelos Estados Unidos e seus militares nos países que permitiram a instalação de bases americanas em seus territórios. Os Estados Unidos é um país que na qualidade de inquilino é extremamente incômodo. Como se não bastasse tanto vira-latismo, Bolsonaro cobrou dos EUA uma solução militar para a Venezuela, numa atitude que contraria o caráter da diplomacia brasileira que sempre adotou o diálogo e se opôs a interferências externas em países terceiros. Dessa forma, o Brasil perde um de seus capitais mais valiosos: o reconhecimento internacional como uma nação defensora do multilateralismo. O capitão liberou de visto os cidadãos estadunidenses sem uma contrapartida por parte do país ianque. Para ir aos EUA, os brasileiros, mesmo autoridades passam por inúmeros constrangimentos. Nunca um presidente brasileiro se humilhou tanto perante um presidente estadunidense, isso no dizer até mesmo da imprensa daquele país.
Se você achou pouco, há muito mais. Este espaço não é suficiente para relatar as desventuras de um presidente tolo que se cercou de incompetentes. Hoje, o brasileiro tem apenas duas opções: ser bem informado ou ser feliz na alienação!

quinta-feira, 21 de março de 2019

Os monopólios midiáticos como glifosato na lavoura da democracia!




                Durante o processo de impeachment contra a então presidenta Dilma, a mídia estrangeira chegou à constatação de que para ter um entendimento real da situação que transcorria no Brasil era necessário enviar correspondentes ao país. Não dava para confiar nas notícias veiculadas pela Grande Mídia brasileira, pois, estas eram carregadas de manipulações, distorções e omissões. 
            Não é a toa que a Grande Mídia é considerada o quarto poder. E este quarto poder sempre esteve a serviço da Casa Grande, ou seja, dos interesses da elite do capital financeiro do país. Mesmo os jornais e canais de TV, tradicionalmente tucanos, e que muito se empenharam para infrutiferamente eleger Alckmin, no segundo turno abraçaram a candidatura Bolsonaro. Eleito, Bolsonaro elegeu a TV Record do Bispo Edir Macedo como a sua favorita e teceu sérias críticas à Folha de São Paulo e à TV Globo. Tais meios de comunicação passaram a fazer denúncias acerca das irregularidades da campanha movida a fake news e ao desgoverno de sua gestão que já decepciona parte de seus eleitores como atestam pesquisas de opinião com a queda de aprovação do governo. No entanto, não se enganem caros leitores, se o governo Bolsonaro distribuir agrados (publicidade oficial) tais grupos amenizarão suas críticas em detrimento do bom jornalismo.
Esta é uma coluna de opinião, e ainda mais, ela é intitulada “A Vista de Meu Ponto!”, o leitor é sabedor de que a notícia passa pela minha interpretação que é baseada na minha vivência de eterno estudante e leitor contumaz, ou seja, a minha forma de ver o mundo, a partir de onde piso. Porém, a notícia na mídia televisiva e escrita deveria se referir aos fatos, pois, aos leitores e aos articulistas caberia opinar sobre elas. Não é o que acontece na Grande Mídia brasileira, onde a notícia já vem interpretada com o objetivo de moldar a opinião pública como professorou Noam Chomsky. 
A Grande Mídia teve um papel decisivo no processo de impeachment de Dilma. A TV Globo se esforçou em mostrar que o processo de impeachment seguiu o rito legal, e disso não discordo. O que a TV Globo esqueceu ou omitiu é que contra Dilma não havia provas de crimes de responsabilidade por ela cometidos. Sem a comprovação por meio de provas irrefutáveis o único caminho honesto seria o arquivamento do processo ou a absolvição da ré, mas, isto num país cujo Judiciário não se deixou corromper pelos interesses políticos e ainda aplica os princípios elementares do Direito, não aderindo desmesuradamente ao decisionismo. 
Afinal, o Judiciário participou do processo de Impeachment ao presidir o processo no Senado e ao estabelecer o rito por meio do Ministro Ricardo Lewandoski (STF). Além disso, caberia ao STF julgar a legalidade do próprio processo, o que denota ser co-participe do golpe. No mundo todo existe a clareza de ter sido o Brasil vítima de um golpe de Estado. Bolsonaro é sua cria, pois, dele se beneficiou alavancando sua candidatura. Se não houvesse ocorrido, hoje talvez tivéssemos PSDB ou PT no Poder.
Democracia é uma palavra linda, porém, são poucos que sabem o alcance de seu significado. Muitos são os que a invocam alegando defendê-la quando com suas ações demonstram justamente o contrário. Não podem se arvorar defensores dela, aqueles que apóiam os tortos caminhos tomados por autoridades políticas e do próprio Judiciário nos últimos tempos. Quem defende autocracias e todos os males delas resultantes não possui moral suficiente para falar em democracia e justiça. 
A justiça a qualquer custo é coisa de justiceiros e não é sinônimo da aplicação do Direito consagrado no mundo civilizado. A democratização da mídia é condição indispensável para que a democracia floresça no Brasil. Um povo mal informado, manipulado por uma mídia escrota é um povo facilmente dominado. 
O Brasil precisa urgentemente da regulação econômica dos meios de comunicação. A regulação não constitui censura. Todos sabem que sou contra a censura. A regulação visa democratizar a mídia tal como expresso na Constituição Federal (1988). Monopólios midiáticos são danosos à população e constituem o glifosato aplicado à lavoura da sociedade impedindo o florescimento da democracia, esta que é tida como verdadeira erva daninha pela elite antipatriótica deste país. Lula do alto de sua imensa aprovação errou ao não fazer a regulação. Não será no governo Bolsonaro que tal passo será dado. Deste governo só se espera passos para trás, como aqueles até aqui dados!

sexta-feira, 8 de março de 2019

Licença para morrer – parte 3




No artigo Licença para morrer – parte 1 (dezembro de 2016) afirmei: “Dentre as inúmeras farsas transformadas em verdades absolutas pela Grande Mídia de Massa [...] está a de que a Previdência Social apresenta um rombo que inviabiliza a própria gestão do governo federal. A professora Denise Gentil do Instituto de Economia da UFRJ comprovou com dados oficiais que a Previdência Social é superavitária e não possui rombo algum. A metodologia desenvolvida para o suprimento da receita necessária ao pagamento dos benefícios foi criada com a parcela de desconto que cabe aos trabalhadores, a contrapartida patronal/governamental e a receita de impostos como COFINS, CSLL, PIS/PASEP, etc. O governo de forma desonesta considera apenas os valores oriundos da arrecadação via trabalhador e empresarial, objetivando se apossar (como é de hábito) de receitas que tem uma finalidade específica e utilizá-la a seu bel prazer. A sonegação fiscal, se combatida, poderia livrar o país do aperto pelo qual passa, mas, Temer (agora, Bolsonaro) não tem estatura para governar em prol do interesse nacional, governa, então em favor de uma elite arcaica, egoísta e cruel, assim, mancomunados ferem de morte a democracia, para preservar privilégios imorais e ilegais em detrimento do desenvolvimento nacional e do bem-estar da população trabalhadora”.
Bolsonaro se elegeu com a promessa de campanha de acabar com os privilégios. Obviamente somente os ingênuos acreditaram que um parlamentar defensor das elites acostumado com os privilégios que sua função lhe garante há quase 30 anos iria fazer algo em tal sentido. Dessa forma, parlamentares, magistrados e militares não entraram nessa fase da reforma da previdência com a promessa de que em um segundo momento haverá uma reforma específica para estes. Isso lembra aquela criança que deseja algo e sua mãe fala: na volta nós compramos! Como todos sabem isso não ocorre. Lembrando ainda mais uma vez: a reforma da previdência tem como objetivo liberar recursos de impostos especialmente criados para a Previdência Social e destiná-los para outras pastas. Os impostos não serão extintos. Serão utilizados para aumentar a capacidade de endividamento do país garantindo aos bancos a nababesca remuneração dos juros aviltantes que o próprio governo concede ante o risco de a banca mobilizar suas forças e destituir do poder quem avança sobre o seu banquete, tal como fez com Dilma que ousou reduzir a taxa de juros, o que ocasionou a ruptura do pacto com as elites feito por Lula.
É importante observar que o que ocorre no Brasil é uma nova fase do capitalismo global que para aumentar a acumulação capitalista precisa avançar sobre os direitos dos trabalhadores, afinal, o capitalismo nunca foi sinônimo de justiça social. O capitalismo mostra sua verdadeira face desumana ao tolher dos trabalhadores os parcos direitos conquistados em décadas de muita luta sindical. Nossos filhos e netos terão uma existência mais pobre e com menos direitos assegurados que a nossa geração. O Chile é o país com o maior número de idosos que se suicidam em todo o mundo. A explicação para tal fenômeno é o sistema previdenciário adotado nos anos 1980 por imposição do ditador general Augusto Pinochet que transformou o país em laboratório neoliberal dos “Chicago Boys” sob a liderança de Milton Friedman e sob as bênçãos de Frederick Von Hayek da Escola Austríaca de Economia. No modelo chileno, patrões e governos não contribuem, apenas o trabalhador. Lá os bancos prometeram uma rentabilidade para o sistema que não se realizou e a maioria dos aposentados recebe menos que um salário mínimo chileno, o que torna impossível a vida em um momento em que há muitos gastos com saúde. No Chile, há uma iniciativa em rever o sistema de previdência, pois, este fracassou. No Brasil de Bolsonaro, o fracassado sistema previdenciário chileno é o modelo a ser seguido, pois, se este fracassar (e irá) será para os aposentados, não para os banqueiros que contarão com montanhas de dinheiro para sua jogatina (aplicação) como bem entenderem, além do recolhimento de generosas taxas de administração pagas pelo trabalhador. Paulo Guedes estudou na Universidade de Chicago onde obteve o grau de Doutor em economia exatamente no auge da divulgação do pensamento neoliberal o qual foi inicialmente implantado nos Estados Unidos e na Inglaterra. Em todos os países onde foi adotado, o neoliberalismo fez a desigualdade social aumentar. Mas, como afirmam os neoliberais: se você é trabalhador, portanto, pobre, é por incompetência sua! Afinal, você não teve o justo mérito de nascer numa família bem aquinhoada ou não se esforçou o suficiente para ser patrão e rico!
               

sexta-feira, 1 de março de 2019

Brasil: o país que fez a opção pelo suicídio!



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                Há alguns dias vi uma charge veiculada em um jornal europeu na qual havia uma urna brasileira tombada e no alto um corpo vestido com a camisa da seleção, suspenso e inerte. O jornal afirmava que o povo brasileiro ao votar em Bolsonaro cometeu suicídio. Automaticamente lembrei-me do político estadunidense que ao se referir ao Brasil disse: “todo país tem o direito de se suicidar. Se o Brasil escolheu se suicidar, ele tem esse direito”!
Ainda não completamos sessenta dias do novo governo. O festival de escândalos demonstra que a porta do inferno foi aberta e alguém se esqueceu de fechar. O novo governo (que nada tem de novo, pois pratica fidedignamente a velha política) muito se assemelha a empresa privada multinacional Vale, pois, de suas instalações flui um mar de lama. Aliás, lembro-me de ter lido o caso de um jovem pai de família, que munido de espingarda de pressão foi preso inafiançável por ter matado alguns passarinhos, e ao dizer isso, não estou questionando ou discordando da lei, ocorre que a Vale após sua privatização já teve vários acidentes, sendo os mais graves o rompimento da barragem em Mariana em 2015 que matou dezenove pessoas e causou prejuízos econômicos e ambientais irreparáveis dentre os quais os causados ao Rio Doce. Parece até um caso de premonição, a ex-estatal Vale do Rio Doce, após a privatização ter retirado do seu nome o Rio Doce, hoje seria piada de mau gosto ainda levar em seu nome o rio que matou. Agora foi a vez de Brumadinho com prejuízos econômicos e ambientais irreparáveis, tendo sido encontrados até o momento em que escrevo estas linhas, 177 corpos, sendo que 157 continuam desaparecidos. A questão é porque os grandes danos ambientais causados por empresas, madeireiros, fazendeiros, industriais, etc. não resultam em punição severa como no caso do caçador de passarinhos?
A resposta: desde que o Brasil é Brasil, o país é governado pela elite e para a elite, sendo a Justiça uma ferramenta a serviço da classe dominante. Pouquíssimos governos tentaram inverter a lógica que marca a história nacional. A marca da exclusão, do preconceito e da apropriação indevida dos bens alheios. Tivemos a colonização que dizimou a população indígena apropriando-se de suas terras. Depois veio a escravidão e africanos foram sequestrados ou comprados como se mercadorias fossem e com o aval da Igreja. Para não se sentirem mal, dos africanos tiraram sua humanidade. Consideravam que não tinham alma, podiam ser escravizados. Veio a libertação dos escravos, mas nunca a necessária indenização. Fizeram a Independência sem o povo e também a República, mas, preservaram as elites no comando. A ditadura civil-militar de 1964-1985 aprofundou a concentração de renda e aumentou exponencialmente a dívida pública e do governo saiu por não ter mais controle sobre a economia esfacelada. Quando perdeu o poder nas urnas, a direita especialista em dar golpes de Estado, uniu forças e superou seus antagonismos de classe congregando em suas fileiras, o empresariado, a Grande Mídia, os parlamentares conservadores e as forças militares que em nosso país se especializaram na contenção do inimigo interno: o povo que ousa sonhar por dias melhores. Em conversa com alguns integrantes da esquerda radical, soube que a possibilidade de união das esquerdas não existe. A divisão da esquerda é a força da extrema-direita. A direita que se intitula centrão se suicidou com o golpe de Estado de 2016, teria grande chance nas eleições de 2018, preferiu embarcar na aventura fascista, e fascista por fascista, Bolsonaro tem carreira longeva. Assim pensou e preferiu o eleitor.
A eleição de Bolsonaro foi um ato de insanidade do povo brasileiro. Penso que 1/3 dos eleitores de Bolsonaro seja formado por fanáticos, os quais jamais deixarão de apoiá-lo, mesmo ante as inúmeras provas de corrupção que envolve o clã Bolsonaro. O vice-presidente parece ser uma pessoa mais sensata que Bolsonaro, e dado o desequilíbrio psicológico e a pouca inteligência do presidente não chega a constituir elogio. Damares Alves, Ricardo Vélez e Ernesto Araújo jamais seriam ministros de Estado num país sério, mas, o Brasil também não é um país sério, ou dá para considerar sério um país que elege Bolsonaro como Presidente da República? Os escândalos envolvendo os laranjas, o caso Bebianno, o boicote aos frigoríficos brasileiros por parte dos países árabes, o fechamento da fábrica da Ford caminhões, a ameaça da Chevrolet de se retirar do Brasil, a reforma previdenciária que condenará milhões de brasileiros a morrer antes de conseguir se aposentar é apenas um prenúncio do que virá. Quanto aos 2/3 restantes que se deixaram levar pelo ódio ao PT e votaram contra os interesses de sua própria classe, e, também aos que se omitiram, eu rememoro Simone de Beauvoir quando disse: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos”. Cabe-lhes agora fazer um mea culpa e participar da luta para minimizar os inevitáveis estragos ou se calar e esperar que o espetáculo acabe e ver que país seu voto impensado lhe reservará após o fechar das cortinas.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Keep calm e preserve a lucidez!



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                Sou uma pessoa aficionada pela leitura, dessa forma, costumo entremear artigos de opinião com resenhas de obras que li e cuja leitura recomendo aos leitores. Estimular a leitura sempre foi um de meus propósitos neste espaço. Afinal, como afirmava Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. Porém, a leitura não prescinde da reflexão crítica, ainda mais em tempos de obscurantismo como os que vivemos. As resenhas têm a função de atender ao leitor que aprecia livros sugerindo-lhes obras e também a de oxigenar cérebros (o meu e os dos leitores) para não enlouquecermos ante a entrega da soberania nacional e de suas riquezas, da vilipendiação dos direitos sociais, da destruição da Constituição Federal (1988) e do total desrespeito às leis por quem deveria zelá-las.  É lamentável constatar a destruição do incipiente projeto de país soberano e observar a indiferença do povo. Não é com ele. Nunca foi. Nem na Independência (1822), nem na Proclamação da República (1889), nem nos golpes de 1964 e de 2016, etc. Aliás, sobre isso Lima Barreto professou: “O Brasil não tem povo, mas, apenas público. Povo luta por seus direitos, público só assiste de camarote”.
            Não pretendo aqui retornar ao tema da aposentadoria, caso queira acesse os links ao final do artigo (pouco mudou e o que mudou é para pior). Há alguns dias, uma professora me falava que “ante a destruição dos direitos trabalhistas e da reforma da previdência pelo amor que tem aos seus filhos, se lhe fosse dado o poder de voltar no tempo, não mais os teria. Ela disse que a universidade pública e gratuita tende a desaparecer. Os trabalhadores não terão mais os direitos que a nossa geração teve (13º salário, férias remuneradas, etc.) e a aposentadoria se houver será na hora da morte. Isso quando conseguir se aposentar, pois, com a idade os trabalhadores mais velhos serão substituídos pelos mais jovens. Nem a gente tem a garantia de conseguir se aposentar e se conseguir não sabe em que condições (concluiu)”. Não consegui contra-argumentar, apenas engoli em seco, pois tenho filhos pequenos e também sinto por eles.
            O jornalista Rogério Galindo ex-Gazeta do Povo e atualmente no Jornal Plural publicou artigo intitulado “A vitória da bancada do camburão” em que afirmava que quase todos os deputados que estavam no camburão e que votaram favoravelmente à tungagem da Paranaprevidência estão reeleitos e ocupando cargos de liderança na ALEP. O massacre dos professores que ocorreu no dia 29 de abril de 2015 foi divulgado internacionalmente e mesmo países costumeiramente às voltas com guerras ficaram estarrecidos com o covarde ataque imposto aos professores. Na ocasião, o Presidente da ALEP, Ademar Traiano (PSDB) insistiu na votação afirmando que “a bomba é lá fora”. A reeleição dos deputados do camburão que apostaram na memória curta da sociedade e desconsideraram a truculência empregada contra os professores é um triunfo deles e também um tapa na cara das sociedades civilizadas que não compartilham de ideais e métodos autocráticos.
            Temos uma longa e difícil travessia pela frente e o que importa agora é sobreviver. Provavelmente não serão apenas quatro anos. O Brasil será muito diferente do que é hoje e será para pior (exceto para a elite financeira do 1% mais rico). Há um provérbio que dita: “Ondas calmas nunca formaram bons marinheiros. É no mar bravio que surgem os grandes navegadores”. Por ora, mantenha a calma e preserve a lucidez! Olhe além da cortina de fumaça!

  1. http://avistademeuponto.blogspot.com/2016/12/licenca-para-morrer-parte-1.html
  2. http://avistademeuponto.blogspot.com/2016/12/licenca-para-morrer-parte-2.html
  3. https://www.plural.jor.br/a-vitoria-da-bancada-do-camburao/ - acesso em 09 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Canção do Mar



            Donald Patrick Conroy – “Pat Conroy” (1945-2016) foi um escritor estadunidense cujo pai batia na esposa e dava um tratamento desumano aos seus sete filhos para incutir-lhes a disciplina. A forma de ser de seu pai, um militar (piloto de caça) do corpo de fuzileiros navais que o tratou ainda com mais severidade (por ser o mais velho dos filhos) serviu de inspiração à sua obra que retrata a região pantanosa do litoral da Carolina do Sul onde morava. Dentre suas obras, “O Príncipe das Marés”, best-seller adaptado para o cinema foi o que obteve maior sucesso. O livro foi lançado em 1995 com o título original “Beach Music”. Não se trata de uma obra que pertença à classificação de romance romântico. Trata-se de um livro perturbador para as pessoas mais sensíveis, sendo difícil defini-lo dado os vários estilos e nuances da escrita que alternam o que há de mais trágico na vida e na sociedade humana e momentos cômicos ou ainda românticos. Porém, não há como deixar de reconhecer a qualidade da obra cuja trama não apresenta falhas nas divagações reflexivas de suas personagens sobre o passado e as consequências resultantes nas suas vidas.
            A obra começa com a morte por suicídio de Shyla, esposa de Jack, o mais velho dos cinco irmãos McCall. Jack com depressão é internado numa clínica psiquiátrica. Parcialmente recuperado precisa enfrentar um processo judicial movido por George e Ruth Fox, pais de Shyla que contestam a sua capacidade de criar a filha Leah, então com dois anos. No afã de conseguir a guarda de sua neta, George inventa mentiras sobre a forma como Jack tratava a filha. Uma carta de despedida de Shyla dá a guarda de Leah para Jack para fazer valer a vontade desta. Jack viaja sem avisar os parentes para a Itália e estabelece residência em Roma. Com a ajuda de Maria, uma senhora italiana contratada para ajudar a criar Leah, Jack um famoso escritor de livros sobre turismo gastronômico, procura fazer com que Leah tenha na Itália, a sua pátria. Leva-a escola e a passeios pela capital mostrando-lhe os pontos turísticos e históricos. Conta à sua filha o quanto a mãe era linda e o quanto a amava, mas, nada sobre o suicídio. Atendendo ao desejo de Shyla, cujos pais sofreram muito durante o holocausto, levava-a também na sinagoga. Leah cresce e se torna uma menina tão bela quanto a mãe, porém, feliz, conquanto Jack lembrasse que Shyla jamais conseguiu silenciar as vozes que somente ela ouvia jogando-a em abismos de tristeza.
            Um detetive particular a serviço de Martha Fox (irmã de Shyla) o encontra na capital italiana. Martha quer um encontro com ele e deseja ver a sobrinha. Sem opção, concorda, com a promessa de que nada deve ser falado sobre a forma que a mãe morreu. Mike Hess (seu amigo de infância) o descobre e marca um encontro na cidade de Veneza no qual estará presente sua ex-namorada Ledare Ashley, cujo namoro foi desestimulado pelos pais desta. Mike, agora é um famoso diretor de cinema de Hollywood e quer contratá-los para que juntos elaborem um roteiro sobre a história dos pioneiros na Carolina do Sul, o que inclui suas famílias. Da Carolina do Sul chega a informação de que sua mãe Lucy está com câncer em fase terminal e que ele precisa retornar o mais breve possível. Jack retorna, Lucy se recupera. Mais tarde visita a neta em Roma. Jack é ferido em um atentado terrorista no aeroporto da capital. Após se recuperar volta a Waterford para trabalhar no projeto de Mike que inclui o traidor e ricaço Casper Midleton que pretende se inserir na carreira política. Juntos relembram suas aventuras, os jogos de beisebol, as pescarias e a vez em que ficaram à deriva no Oceano Atlântico por culpa de Casper, ocasião em que quase morreram, mas, cuja liderança do amigo Jordan treinado pelo severo pai com técnicas militares de sobrevivência lhes salvou a vida. Jordan planejou e executou um atentado contra um avião da base aérea. Visava prejudicar a carreira militar do pai. Um casal de jovens fazendo amor no avião morre com a explosão. Todos pensam que Jordan havia morrido no mar, pois simulara suicídio. Jordan há quinze anos na Itália fora ordenado sacerdote resolve retornar para acertar contas com seu passado, não antes de várias traições de seu pai que fez de sua entrega às autoridades sua razão de viver, motivo que levou sua esposa a pedir o divórcio. Jordan se entrega às autoridades, sentenciado, passa a cumprir sua pena. Lucy, mãe de Jack após se separar de seu marido bêbado, vive poucos anos depois de ter se casado com um médico, o marido que afirma ter buscado na pessoa errada. Leah recebe de Jack a última medalha de ouro dentre as oito que foram usadas para comprar o salvo-conduto de Ruth Fox nos labirintos do Holocausto e que havia sido utilizada por Shyla. As vozes que Shyla ouvia a ligavam ao sofrimento do povo judeu durante o holocausto. Mike e Ledare se casam em Roma tendo como padrinhos, os pais de Shyla.

Sugestão de boa leitura:

Canção do Mar – Pat Conroy - Editora Círculo do Livro – R$ 18,00.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

As vinhas da ira



           
John Steinbeck (Salinas, 1902 - Nova Iorque, 1968) é um grande autor estadunidense cuja literatura é marcada pelo compromisso com as questões sociais de seu país. O autor conquistou legiões de admiradores pela delicadeza como expressou em seus textos as graves contradições que observava nos Estados Unidos. O livro publicado com grande sucesso de vendas (1939) foi adaptado e lançado nas telas de cinema já no ano seguinte. O filme dirigido por John Ford e estrelado por Henry Fonda obteve cinco indicações para o Oscar. John Steinbeck recebeu o prêmio Pulitzer (1940) e o Nobel (1962). Steinbeck teve dezessete de suas obras adaptadas para o cinema.
            A obra conta a saga da família Joad e começa narrando a volta para casa de Tom Joad, um ex-presidiário que acabara de conquistar a liberdade condicional por conta de seu bom comportamento. Tom havia sido condenado por assassinato, mas, alegava ter sido em legítima defesa. Tom Joad pede carona a um caminhoneiro, que, mesmo contrariando o regulamento da empresa no qual trabalha resolve conceder. O caminhoneiro começa a lhe fazer muitas perguntas, o que lhe irrita e o leva a contar que estava saindo da cadeia e os motivos que o levaram para lá. Também conta que está indo para a casa de seus pais. O motorista lhe informa que muitas famílias naquele local para onde ele ia haviam perdido as terras para os bancos. Steinbeck descreve com grande riqueza de detalhes os locais onde a trama se desenvolve.
            Em uma estrada vicinal, o caminhoneiro pára, Tom desembarca e segue a pé rumo às terras que pertence à família a gerações. No caminho encontra Jim Casy, um pastor muito estimado pela família e por toda a localidade. Casy avisa Tom de que abandonou a missão, não é mais pastor. Dedica-se a refletir sobre a vida e que ainda não sabe que rumo a ela dará. Tom convida-o a ir junto à casa de sua família. Caminham e chegam ao anoitecer, mas, encontram a casa semidestruída e nenhum sinal de seus familiares. Tom observa que o pouco que havia de valor havia sido retirado. Em seguida encontram Muley Graves, proprietário de uma terra vizinha no local. Este conta que após alguns anos de intempéries, os proprietários não conseguiram pagar suas dívidas com os bancos e que estes os expulsaram e começaram a utilizar tratores. Informa ainda que teria sido a mando dos banqueiros que a casa dos Joad teria sido destruída para que se retirassem. Graves avisa Tom que seus familiares estão na casa do seu tio John. A fogueira acesa denuncia a presença deles nas terras e a chegada de seguranças os obriga a se esconderem.
            Quando no dia seguinte eles chegam à casa de Tio John, os familiares estão nos preparativos finais para a migração para a Califórnia. Haviam recebido folhetos de que a Califórnia era o paraíso para os migrantes em busca de empregos nas fazendas. A história narra a viagem em cima de um caminhão pela lendária rota 66, os perigos da estrada e também a solidariedade entre os viajantes durante a peregrinação à terra sagrada. No caminho morre o avô, enterrado no deserto por falta de dinheiro para o funeral e as devidas formalidades. Na jornada encontram milhares de viajantes com destino à Califórnia e que também haviam perdido as terras para os bancos. Encontram também quem estava voltando e os alertava de que a Califórnia não era aquilo que os folhetos diziam e que a população local odiava os migrantes. Não levaram a sério os avisos, e, se não fosse à Califórnia, não teriam para onde ir. Tinham que cumprir sua jornada. Ao chegar à Califórnia, morre a avó, enterrada como indigente, por falta de dinheiro para o funeral. Nos acampamentos, muita insegurança, violência, fome e desemprego. A imensa quantidade de migrantes atraída propositalmente pelos fazendeiros derruba o valor da hora de trabalho a preços que tornam quase impossível a sobrevivência. No final, a família que perdeu integrantes pela morte ou pela deserção, perde o pouco que ainda possuía com as inundações e sem perspectivas de melhorias, ajuda um pai e seu filho em situação precária com o que ainda restava num final surreal e duramente criticado pelo público conservador dos Estados Unidos. Apesar de sua genialidade incontestável traduzida em grandes honrarias, o autor e a obra foram muito criticados nos Estados Unidos justamente pela crítica social nela presente. Abrir os olhos de outras pessoas para as injustiças sociais, ontem como hoje continua a constituir crime.

Sugestão de boa leitura: 
                   
As vinhas da ira – John Steinbeck – Capa comum: R$57,90 – edição de bolso: R$ 27,10.