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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Escalando a montanha: tributo a Oscar Niemeyer

     Karl Marx (1818-1883), afirmou que “precisamos entender a sociedade como se estivéssemos escalando uma montanha”, e, poucos no mundo levaram tão a sério a busca desse entendimento quanto Oscar Niemeyer (1907-2012). Filho de família abastada, jamais deixou o status herdado de berço lhe impor uma mentalidade burguesa e esnobe. 
        Estudou muito, trabalhou mais ainda, a sua genialidade por muitos é considerada um dom divino, apesar deste se considerar ateu, tem na natureza, nas montanhas e mulheres do Rio de Janeiro, a inspiração para as famosas e maravilhosas curvas que tanto prestígio lhe deu. 
        Oscar escreveu: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontra no curso sinuoso dos nossos rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o Universo. O Universo curvo de Einstein”. 
       A arquitetura mundial e não apenas a brasileira ficou mais pobre com sua partida na semana passada. Definir Oscar Niemeyer é fácil, bastam duas palavras “vida e trabalho”, e como viveu! Foram quase 105 anos, mas gostaríamos que fosse eterno e enquanto viveu, foi. 
        Não vamos aqui falar de sua partida, mas de sua obra e principalmente do brasileiro solidário que demonstrou ser. Algumas pessoas são insubstituíveis, e nunca “morrem”, pois se imortalizam nas suas obras. 
    Oscar Niemeyer é dessa classe de pessoas que assombram o mundo com tanto talento e generosidade. Generosidade para em sendo grande usar da sua notoriedade para chamar atenção às causas sociais, e, oprimido, denunciar a opressão mesmo com isso tendo que se exilar fora do país natal por conta da ditadura militar (1964 a 1985). 
        Há uma direita com vocação totalitarista, cujos representantes na grande mídia, por ocasião de sua passagem, se sentiram incomodados pelo fato do genial arquiteto ser comunista e, mesmo assim, terem que passar flashes de sua obra e pensamento na programação. 
         Houve até um representante dessa direita raivosa que o considerou metade gênio e metade idiota. Ora, o totalitarismo que tal ícone do “pensamento pequeno” burguês tanto diz combater se manifesta justamente no combate raivoso a todo intelectual e/ou artista que ciente de sua liberdade de pensamento e expressão, abre mão de seguir a “mesmice” das ovelhinhas branquinhas guiadas pelo lobo e segue seu próprio caminho, porque embora seja mais fácil ir até onde os outros vão e ver as mesmas coisas, somente quem trilha caminhos diferentes e vai aonde os outros não vão é que faz a diferença e vê o que outros são incapazes. Afirmar que Oscar “é metade gênio e metade idiota” somente demonstra que a pessoa que escreveu/disse isso é “totalmente idiota”. 
        Certa vez, assisti uma reportagem sobre um arquiteto estrangeiro mundialmente famoso, que veio ao Brasil especialmente para conhecer Niemeyer e, estava num estado de êxtase por estar ao seu lado. O que me incomoda é haver em nosso país um segmento político que, de posse da grande mídia, manipula, omite, distorce as informações e parece ter vergonha de o país estar seguindo num bom caminho, de as coisas estarem dando certo, e de haver brasileiros reconhecidos internacionalmente e que para assim o serem considerados, subiram a montanha a partir de um primeiro passo e seguiram em frente sem se abaterem com as dificuldades. 
        Niemeyer escalou a montanha e viu a sociedade, de seus patamares mais baixos até o topo, e dessa forma, constatou a realidade crua e cruel deste país. É essa sensibilidade perante a vida e a sociedade que o faz genial e insubstituível.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Enquanto isso, a Educação...Parte 2

No artigo da semana passada lamentamos a decisão da Câmara dos Deputados em recusar a destinação de 100% dos royalties do petróleo do Pré-Sal para a Educação, pois, como sabemos o investimento em Educação neste país está muito aquém do necessário e tais recursos poderiam dar um novo impulso à educação nacional. Acreditamos que não existem gastos com Educação e sim investimentos e, felizes, percebemos que a Presidenta Dilma Rousseff tem esse mesmo raciocínio, pois, ao receber e vetar partes do projeto de lei sobre a destinação dos royalties do petróleo encaminhada pelo Congresso Nacional, afirmou que irá encaminhar Medida Provisória para ser analisada pelos congressistas para destinar SIM à Educação a integralidade dos royalties futuros do petróleo. O Ministro Aloizio Mercadante comemorou a insistência da Presidenta e afirmou: "Só a educação vai fazer com que o Brasil seja uma nação efetivamente desenvolvida. Se o petróleo e o pré-sal são o passaporte para a educação, não há futuro melhor do que investir na educação".¹ Acredito que o leitor já deve várias vezes ter ouvido/lido notícias sobre os maus resultados do Brasil em avaliações internacionais como o PISA realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que envolve as nações desenvolvidas e alguns convidados, entre eles, o nosso país. O que possivelmente não deve ter ouvido/lido é que dentre os países que participam de tais avaliações, o Brasil é o que menos investe recursos per capita, ou seja, por aluno. Também é possível que não tenha ouvido/lido que as condições de trabalho nos países desenvolvidos são melhores, escolas com turno integral, média de 20 alunos por turma, 50% de hora-atividade para o professor preparar suas aulas, corrigir trabalhos e provas na escola sem realizar o trabalho caseiro, gratuito, portanto, escravo, no momento em que devia estar descansando, curtindo a família e fazendo suas atividades particulares. Se o caminho para se tornar uma nação desenvolvida passa pela Educação, então porque não há unanimidade dos políticos brasileiros em defesa da Educação Pública, gratuita e de boa qualidade? A unanimidade não existe porque em nosso Congresso Nacional, segundo uma pesquisa, a maioria dos congressistas são representantes da Classe Alta (latifundiários, banqueiros, empresários, etc.), portanto, não são oriundos da classe trabalhadora. Dessa forma, como parte da elite econômica deste país, defendem a manutenção do status quo, ou seja, a continuidade da sociedade tal como é, ou seja, uma das maiores desigualdades sociais do planeta. Tais líderes neoliberais fazem defesas intransigentes do Estado Mínimo, que gasta pouco (investe pouco) e que de preferência tenha olhos, ouvidos e recursos somente para apoiar a produção econômica, ou seja, o capital. Gastar com a Educação é uma forma de corrigir distorções do sistema, mas todo investimento social é considerado pelos neoliberais como populismo. Há representantes do neoliberalismo tupiniquim que afirmam que o problema da Educação não é falta de dinheiro e desconversam sobre as condições de trabalho dos professores e nestes colocam toda a culpa para a crise reinante, pois, é muito fácil e prático, colocar a culpa nos “professores que não sabem ensinar e nos alunos que não querem aprender”, pois isto os exime da responsabilidade perante este gigante de aço com pés de barro que se produziu chamado Brasil. FONTE: ¹ http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-11-30/dilma-veta-trecho-da-lei-dos-royalties-sobre-campos-em-exploracao.html - acesso em 03/12/2012.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Enquanto isso, a Educação...

No início deste mês (Novembro) os canais de TV brasileiros davam ampla cobertura às notícias referentes ao mensalão, enquanto isso, na Câmara dos Deputados, em surdina, foi rejeitada pela maioria de nossos “iluminados” representantes, o projeto de lei que visava destinar 100% dos royalties do petróleo para a Educação. A nação investe atualmente 4,6% do PIB em Educação, as agências internacionais consideram que o país deveria investir no mínimo 6% e os estudos demonstram que para fazer frente às necessidades brasileiras são necessários 10%. Sabemos que nenhum país se desenvolve sem ter claro um projeto de país que pretende ser nas próximas décadas ou séculos. O problema é que grande parte de nossos representantes não têm compromissos com a Educação Pública e ao que parece a vêm como um fardo a ser sustentado pelo Estado. É isso que penso com relação à recusa da destinação dos royalties do petróleo para a Educação, uma vez que os nossos representantes estavam mais preocupados em fatiar o bolo entre as Unidades Federativas. O leitor pode pensar que professor pensa que Educação é sempre o mais importante, e está absolutamente certo, pois, conforme li, “senão houver mais médicos, não haverá saúde; senão houver mais advogados, não haverá Justiça; senão houver mais engenheiros, não haverá construções. Senão houver mais professores, não teremos mais médicos, advogados e engenheiros e não haverá mais nada”. Inclusive este escriba que traça estas linhas nada seria sem os mestres que teve e aos quais deve toda a gratidão. Sabemos como já enunciado pelo saudoso Mestre Paulo Freire que “a Educação sozinha não muda a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”. Nenhuma sociedade desenvolvida chegou a tal estágio sem investir em Educação, pois vivemos numa época em que é uma dádiva ter recursos naturais no próprio território, porém, o poder mundial se concentra nas mãos de quem tem o conhecimento científico, o Japão, por exemplo, é um país carente de recursos naturais, mas investiu como poucos países em Educação e formou cérebros que desenvolveram a Ciência, decorrente disso é considerado um país símbolo da Terceira Revolução Técnico-Científica, sendo também a terceira economia mundial apesar de ter sido arrasado com duas bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial. A posse de uma grande reserva de petróleo não nos alça automaticamente ao mundo desenvolvido, observe-se que a maior parte dos países grandes exportadores de petróleo é subdesenvolvida. O Japão por não ser rico em recursos naturais investiu em Educação e Ciência, e como sabemos, cientistas passam pelos bancos de uma sala de aula, a qualidade da Educação, portanto faz toda a diferença. O petróleo é finito e também pertence às futuras gerações, não podemos deixar que estes fabulosos recursos sejam desperdiçados na invisibilidade dos meandros do Poder e deixar aqueles que ainda não se encontram entre nós à mercê da falta de oportunidades. Os recursos do petróleo precisam tornar nosso país um lugar melhor, e para isso, investir em Educação e Ciência é fundamental.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Notícias de plástico!

        Os meios de comunicação têm uma importância fantástica para a efetivação da democracia e da liberdade de expressão, no entanto, quando se tornam gigantescos, tais grupos detêm um poder tão grande que acabam extrapolando a sua esfera de atuação e acabam impondo sua hegemonia sobre o poder político e sobre a sociedade como um todo objetivando a efetivação de interesses corporativistas.
     Para designar alguns grandes grupos de comunicação que manipulam, omitem e deturpam a informação repassada para a sociedade brasileira de acordo com seus interesses ideológicos e econômicos foi criada a denominação P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista). Tal denominação referente a parte da grande imprensa brasileira que deveria exercer um papel imparcial e assim prestar um grande serviço à nação, faz todo o sentido quando observamos que esta se tornou um grande partido político de direita e que assumiu como sua a tarefa de organizar e liderar a oposição ao governo do Partido dos Trabalhadores (PT) e isto ocorre desde que Lula era presidente e continua sendo assim no atual Governo Dilma
        O poder que têm os grandes grupos de comunicação pode ser analisado através do livro “A História Secreta da Rede Globo” de Daniel Herz em que este demonstra como a Rede Globo serviu ao Governo Militar na época da ditadura e como a ditadura beneficiou a emissora neste período. O livro registra o depoimento de Roberto Marinho numa CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito de 1967) em que a Rede Globo recebia correspondências como Time Life Brazil, ou seja, uma empresa estrangeira, sendo que a Constituição Brasileira não permitia empresas de comunicação com capital e administração estrangeira, na época havia dois contratos entre a TV Globo e o Grupo Time-Life dos Estados Unidos, sendo que este tinha direito a 30% dos lucros. 
           O livro mostra como era próxima a relação da Rede Globo com os militares no Poder, e como jornalista da Globo que foi, Herz contou na obra as manipulações exercidas nos noticiários tomados como verdade absoluta pela população. Lembro-me que certa vez li que um general presidente afirmou que adorava ligar a TV na Rede Globo, pois, em outros países havia uma série de problemas e no Brasil tudo era “maravilhoso”! 
           A BBC de Londres produziu um documentário sobre a Rede Globo e o Brasil intitulado “Beyond Citizen Kane”, (Muito além do Cidadão Kane) que mostra a grandiosidade, a qualidade e o absurdo poder desse gigantesco meio de Comunicação e suas entranhadas ligações com o meio político, além de questionar a qualidade da programação para a formação cultural do povo e principalmente das crianças brasileiras. 
        Durante muito tempo em nosso país, houve uma crença que com Lula foi derrubada de que no Brasil ninguém se elegia ou ficava no poder sem o apoio da Rede Globo e que era sempre prudente ter boas relações com o poderoso grupo. Corajoso foi o falecido político Leonel Brizola, nacionalista, que, com seus “tijolaços”, os artigos e falas em que teve a ousadia de enfrentar o poderoso meio de comunicação, que nunca deixou barato, sempre dando o troco em editoriais, dessa forma, as batalhas que travaram atraíam a atenção da população. Lembro-me de ter assistido Leonel Brizola fazendo um duro discurso contra a Rede Globo no próprio canal como direito de resposta concedido pela Justiça e em seguida um melancólico “boa noite” do apresentador do Jornal Nacional ao final. 
         Sendo o Brasil, um país que viveu os horrores da ditadura militar, cuja censura foi a tônica deve ter sempre como norte a busca de uma imprensa plural, livre, democrática e responsável com a qualidade do serviço prestado, dessa forma, a regulação é necessária para que alguns grupos poderosos não pautem suas ações como o Quarto Poder, mas não pode ter o caráter de censura. Acredito que a Educação vem contribuindo e pode contribuir muito mais para que o telespectador seja mais exigente e crítico, diminuindo assim as conseqüências do efeito manipulador das notícias de plástico. 

Fonte: Muito além do Cidadão Kane. http://www.youtube.com/watch?v=049U7TjOjSA acesso em 10.11.2012 SUGESTÃO DE BOA LEITURA: HERZ, D. A História Secreta da Rede Globo. Editora Tchê.

sábado, 10 de novembro de 2012

A presença dos pais: o maior legado

Vivemos numa época em que pais e mães trabalham fora para conseguir dar conta de suprir as necessidades das famílias, poucos são os casos em que um deles pode se dar ao privilégio de acompanhar os filhos diariamente em suas atividades. Como em tudo na vida há as suas conseqüências, os pais que assim procedem pela necessidade ou por vontade, acabam muitas vezes pecando na educação dos mesmos, pois como trabalham fora o dia todo e ficam com eles apenas algumas horas após o final do expediente até o momento em que estes vão dormir, delegam à escola a tarefa de educá-los e esta não é sua função, pois, os professores têm como missão trabalhar o conhecimento científico, algo dificultado pelo fato que em muitos lares os pais não impõem limites aos filhos que entendem que na escola também não deve haver e aí começam os problemas de indisciplina que atrapalham um melhor aproveitamento do tempo escolar. Ao fim da jornada diária de trabalho, muitos pais tornam-se permissivos quanto à horários e aos programas de TV que os filhos assistem e não são raros os casos de alunos dormindo na sala de aula porque foram dormir muito tarde devido aos filmes da madrugada, o que logicamente contribui para a baixa aprendizagem, pois aprende-se mais estando descansado. Além do horário de descanso, os pais devem estar muito atentos à programação que seus filhos assistem, pois existem muitos programas que em nada contribuem para acrescentar cultura para os mesmos e invertem valores. Há também pais que procuram compensar seus filhos por sua ausência, dando-lhes todo o tipo de mimos materiais, celulares, notebooks, roupas e calçados de marca, até mesmo sacrificando outras necessidades da família para agradá-los e isso é péssimo para a educação destes, pois, uma conversa sobre as dificuldades para sustentar uma família e as necessidades mais prementes da mesma poderiam torná-los mais conscientes sobre o consumismo que é cultural e ecologicamente maléfico. Nas escolas, infelizmente, nem todos os pais participam das reuniões e nem buscam interagir com professores e direção para alcançar o melhor resultado possível para seus filhos, muitos alegam o cansaço após um dia estafante de trabalho. No entanto, filhos são os maiores investimentos que uma pessoa pode ter e é necessário buscar aquele fôlego a mais para que o resultado esperado se concretize. Outro fato preocupante é que a parte dos pais que acompanhavam seus filhos até a conclusão do Ensino Fundamental parece pensar que no Ensino Médio esta necessidade inexiste e trata-se de um grande engano, pois nesta fase há o aprofundamento do grau de dificuldade das disciplinas e é também um momento de preparação de seus filhos para o vestibular ou exercício de uma profissão. Assim, todo cuidado é pouco, pois as dificuldades existem, e além destas os riscos e as distrações características da idade. Lembro-me que certa vez li a respeito dos bons resultados da Coréia do Sul nos exames internacionais (PISA) que aferem o nível de aprendizagem educacional dos estudantes,tal desempenho, fruto, logicamente de uma política nacional de investimento crescente em Educação, mas havia também na reportagem uma menção ao costume dos pais sul-coreanos no acompanhamento de seus filhos na escola, e, que em casa tais pais atuavam impondo-lhes rotinas de estudos, apoiando-os, mas também cobrando resultados. Penso que isso faz uma grande diferença. O maior legado que os pais podem dar aos seus filhos é a sua presença em todos os momentos de suas vidas, devem, portanto, se preocupar menos em deixar patrimônio e se preocupar mais em formá-los educacional e culturalmente, dando-lhes condições para que possam buscar seu futuro e formar seu próprio patrimônio. Nada, nada substitui a presença dos pais na vida dos seus filhos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

100 anos de escuridão! Parte 2

        No dia 22 de Outubro de 1912, teve início no Irani (atual Santa Catarina) a Guerra do Contestado, nesta ocasião, forças de segurança do Estado do Paraná que, até a época tinha suas divisas através do Rio Uruguai com o Estado do Rio Grande do Sul, se confrontaram com os posseiros, as tropas paranaenses foram à região para expulsar aquele ajuntamento de posseiros das terras paranaenses, e na primeira batalha (ganha pelos posseiros) morreram o Coronel João Gualberto das forças paranaenses e o Monge José Maria, líder dos posseiros. 
    As tropas paranaenses buscavam atacar de surpresa quando foram surpreendidas. A esta desmoralização, veio nas tropas oficiais o desejo da vingança, e a intervenção federal se fez com a participação de grande parte do efetivo do exército nacional e o que este tinha de mais moderno em armamentos, aviões foram utilizados (em General Carneiro houve o primeiro acidente aéreo militar) contra posseiros, ex-trabalhadores da estrada de ferro desempregados, etc. que tinham como principal arma, o conhecimento do terreno, a necessidade de resistir e muita fé, chegando a ser liderados pela virgem Maria Rosa, conhecida como a Joana D’Arc do sertão. 
        A Guerra durou de 1912 à 1916, milhares de pessoas foram mortas, conta-se que haviam rios, cujas águas eram vermelhas, devido aos cadáveres caídos. Para evitar que animais consumissem os corpos, que doenças se propagassem e, por que não, para apagar as marcas do genocídio que se produziu, vários fornos crematórios feitos de taipa foram utilizados para incinerar os corpos de homens, mulheres e crianças mortos nas batalhas. 
     Ainda hoje, há quem ao visitar os sítios onde as batalhas ocorreram, ao passar a mão na terra encontre cartuchos utilizados, tamanha fora a violência dos encontros das tropas legais contra os posseiros. Os posseiros sobreviventes, expulsos pelas tropas oficiais e pelos jagunços fortemente armados pela Lumber tiveram que sair das terras e seus descendentes em grande parte encontram-se nas favelas de municípios diversos da região. 
        Tinham uma revolta contra a República, porque a Monarquia se nada fazia pelos mesmos, ao menos não os importunava e permitia que vivessem sua modesta vida naquelas paragens. Houve um tratado assinado entre Paraná e Santa Catarina, intermediado pela Presidência da República em que a maior parte das terras contestadas coube ao estado catarinense, porém, a justiça nunca chegou para as maiores vítimas, um povo pouco interessado se fazia parte de Paraná ou de Santa Catarina e que queria apenas e simplesmente viver, ou melhor, sobreviver nas suas terras.
     A Região do Contestado é tal como o resto do Brasil, uma área de grande desigualdade socioeconômica, riqueza e pobreza, latifúndios explorando pinus e trabalhadores rurais sem terras, capitalistas e desempregados e subempregados convivendo numa área de solo manchado de sangue, esquecidos pela história oficial deste país e diga-se um esquecimento proposital, pois se no passado as armas de fogo das tropas oficiais transformavam a escuridão em dia, após o fim da trágica guerra para acobertar o genocídio produzido, a estratégia utilizada foi silenciar, nada escrever, nada publicar, nada filmar.
         Isso até  meados dos anos 1980, quando a história passou a ser desenterrada, apesar do muito que se perdeu com o tempo, por bravos pesquisadores que não se contentam com versões oficiais e buscam tirar do fundo do solo contestado, a verdade de um povo esquecido e que somente foi lembrado pelo Estado para lançá-lo uma vez mais à escuridão, de 100 anos de escuridão. 

SUGESTÃO DE BOA LEITURA:
 
Título: Contestado, o território silenciado. 
Autor: Nilson Cesar Fraga (Org.).
Editora:  Insular. 2017, 302p.

sábado, 27 de outubro de 2012

100 anos de escuridão! – Parte 1

        A história nada mais é do que a versão contada ou escrita sobre acontecimentos que passaram previamente por um filtro ideológico, dessa forma, costuma-se dizer que a história escrita é a versão dos vencedores, pois a estes coube a oportunidade de contar a sua versão dos fatos, mas como sabemos há sempre dois lados e saber apenas um nos dá uma idéia parcial ou até mesmo equivocada. 
         Não se faz história e dela não se intera sabendo apenas uma versão, isso é um olhar míope, ou seja, vê-se o aparente, mas não o que está oculto na profundidade dos fatos. O filtro ideológico a que me referi pode ser intencionalmente colocado ou de forma subconsciente, embora esta última não pareça ser o caso para entender o esquecimento sobre os fatos envolvendo a Guerra do Contestado, a maior guerra civil camponesa brasileira e o verdadeiro massacre que ela encerra.
         O território paranaense e parte do atual estado de Santa Catarina pertenciam à Província de São Paulo até a metade do século XIX, e, Santa Catarina alegava como seu o direito à propriedade das terras ao sul do Rio Iguaçu, anteriormente o território reclamado pelo estado catarinense esteve sob disputa com a Argentina e um dos fatores principais para o arbitramento estadunidense dar ganho de causa ao Brasil foi a presença de posseiros na área que segundo os representantes brasileiros na causa falavam um “bom e fluente” português. 
        Mais tarde, o governo imperial resolveu ceder aos ideais emancipacionistas dos paranaenses por acreditar que assim colocava um pouco de água fria na união entre paulistas e gaúchos que tanto lhe davam trabalho, assim, em 1853, o Paraná ao ser criado herda o problema da questão de limites com Santa Catarina, e esta tendo ganhado judicialmente três vezes a causa não viu sua reclamação ser atendida.
         A região do Contestado era uma área abandonada pelo Estado Brasileiro e nela moravam pessoas humildes, em grande parte analfabetas e que apesar de não possuírem o título de propriedade, tinham o direito a elas na qualidade de posseiros. Na época, sequer a Igreja se fazia presente na área e por isso tinham grande influência os monges que por lá passaram, curando, benzendo, etc. 
        Para integrar essa região foi projetada a construção da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande no fim do período imperial, porém, sua construção ganhou velocidade no início do período republicano. Na época, coube ao mega empresário Percival Farquhar, o mesmo empreiteiro da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré em Rondônia, mais conhecida como Ferrovia do Diabo, em qual se afirmava que para cada dormente assentado havia um trabalhador morto pelas precárias condições de trabalho, em particular pela malária. 
         Farquhar atuava em vários pontos do planeta com empreendimentos diversos e conseguiu também a concessão para a continuidade das obras em terras do então Paraná e Rio Grande, na negociação além do pagamento com juros fartos conseguiu também ganhar as terras de 15 quilômetros de cada lado da ferrovia. Assim, a ferrovia ganhou muitas curvas e principalmente se dirigia às áreas ricas em mata de Araucária. Além da Brazil Railway Company, Farquhar montou a Southern Brazil Lumber and Colonization Company que se tornou uma das maiores madeireiras do mundo e tudo o que fez foi devastar a área rica em araucárias, imbuias, cedros, grápias, etc. e exportar para vários países do mundo. 
        No início os moradores viram com bons olhos a vinda da ferrovia para a região, pois representava a vinda do progresso e iria ligá-los ao restante da civilização, e, de fato ela gerou milhares de empregos sendo grande parte, trabalhadores vindos de outras partes do Brasil, mas ao perceber que sua terra estava sendo expropriada, a mata de onde retiravam seu sustento, derrubada, e não tendo para onde ir ou o que fazer para sobreviver, se não lutar, os posseiros resolveram reagir sob a liderança de José Maria, o monge guerreiro.