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sábado, 1 de abril de 2023

Walden ou A vida nos bosques

 

O estadunidense Henry David Thoreau (1817-1862) foi escritor, poeta, naturalista, pesquisador, filósofo e transcendentalista. È mais conhecido por seu livro "Walden", uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, e por seu ensaio "A desobediência civil". Minha primeira experiência como leitor de sua obra foi com o ensaio "A desobediência civil" que inspirou grandes nomes da história mundial, dentre eles Mohandas Karanchand Gandhi, mundialmente conhecido como Mahatma Gandhi, o líder do processo de independência pacífica da Índia, então colônia da Inglaterra. O simples fato de Gandhi ter aplicado ensinamentos de Thoreau, dispensa qualquer comentário adicional de minha parte quanto ao escritor.

            A obra de Thoreau foi escrita no século XIX,  mas, ainda hoje exerce grande influência sobre as pessoas, principalmente aquelas que se postam nos grupos de não acomodação diante do status quo da sociedade. Henry D. Thoreau nasceu na pequena cidade de Concord, Estado de Massachusetts e nela faleceu com apenas quarenta e cinco anos de idade, deixando para a classe intelectual um sentimento de vazio, pois, uma mente tão brilhante ainda tinha muita luz a lançar sobre a escuridão em que vive a sociedade humana. Thoreau estudou em Harvard e, detinha um elevado grau de conhecimento obtido pelos livros e também das suas observações/reflexões acerca da natureza, da sociedade, enfim, da vida. Apesar de viver numa pequena cidade, Thoreau desejava ficar mais tempo sozinho e praticar a contemplação da natureza e refletir sobre a vida. Pretendia também ter uma vida mais simples, pois julgava desnecessário todo o luxo de que as pessoas se cercavam. Acreditava que não havia necessidade de tantos móveis, aparatos e roupas. Pensava também que se gastava demais com a alimentação, pois via nos banquetes, dos quais participou como convidado, mera ostentação com o fim de forjar uma imagem perante a sociedade.

            Henry resolveu construir com as próprias mãos uma cabana junto ao lago Walden, com a benção do proprietário da terra, um amigo seu. Na obra, ele faz a reflexão sobre que tamanho, a casa precisava ter para dar apenas o abrigo necessário a um ser humano ante às intempéries, luxo estava fora de cogitação. Thoreau conta como construiu a cabana, detalha suas medidas e os valores gastos para construí-la. Entre o lago Walden e sua cabana, passava a linha do trem, além disso, o local ficava a apenas alguns quilômetros de Concord e, o escritor costumava receber visitas de seus amigos urbanos e de caminheiros que chegavam à sua casa para obter informações ou auxílio, especialmente nos dias mais gelados. Thoreau decidiu que tinha que conseguir os alimentos sem depender de ninguém, dessa forma caçava,  pescava e cultivava alimentos, porém, suas reflexões sobre quão selvagem era o ser humano ao matar vidas, para delas se alimentar, o levaram a adoção do vegetarianismo. O filósofo praticava a semeadura e a colheita de uma pequena área de terra, sempre calculada para ser apenas o necessário à sua sobrevivência e não lhe obrigar a dispender tempo extra, pois, havia que sobrar bastante tempo para a contemplação da vida,  leituras e reflexões. Henry David Thoreau tinha uma mente multifacetada, e uma dessas faces era a do cientista que relatava as espécies vegetais e animais (inclusive com seus nomes científicos) da região. O naturalista trabalhou como agrimensor, portanto, percorria facilmente a seara da matemática. Sua curiosidade o levou a medir a área do lago Walden e descobrir sua profundidade, algo que fez detalhadamente, margem a margem, atribuindo uma pequena distância entre uma linha de medição e outra, estabelecendo cotas batimétricas. Thoreau também observou que o tamanho das bolhas de ar nas placas de gelo que se formavam no lago durante o inverno tinham tamanhos diferente conforme a profundidade.

            O escritor, como disse, não aceitava o rótulo de misantropo, mas apreciava ficar sozinho e assim superar a dependência das outras pessoas para ser feliz, pois era nestes momentos, sozinho, que encontrava a paz. Seus ensinamentos são de grande importância nestes tempos em que vivemos, no qual grande parte da humanidade encontra-se escravizada, pelas redes sociais, pelas mídias digitais e pela onipresença dos smartphones. Ao ler Thoreau, impossível não sentir puxões de orelha, por dedicarmos tanto tempo ao trabalho (vendendo parte de nossas vidas) para adquirirmos aparatos tecnológicos, que poderíamos viver sem. Critica fortemente o consumo de supérfluos, pois prega uma vida com simplicidade. O filósofo coloca o dedo nas feridas do nosso comodismo ante aos desmandos de autoridades do governo e nos faz corar de vergonha acerca de nossa inação ante tal estado de coisas. Considera que as pessoas adultas estão sonâmbulas, acordadas estão apenas as crianças.

            Encerro com uma brilhante frase do também poeta Thoreau: "Se você já construiu castelos no ar, não tenha vergonha deles. Eles estão onde precisam estar. Agora dê-lhes alicerces".

            P.S. Livro indicado para quem tem uma mente aberta a divagações filosóficas!

Sugestão de boa leitura:

Título: Walden ou a vida nos bosques.

Autor: Henry David Thoreau.

Editora: L&PM, 2010, 336 pág.


domingo, 5 de março de 2023

Bartleby, o escrivão


               Herman Melville (1819-1891), foi um escritor, poeta e ensaísta estadunidense. Embora tenha obtido grande sucesso no início de sua carreira, sua popularidade foi decaindo ao longo dos anos. Faleceu quase completamente esquecido, sem conhecer o sucesso que sua mais importante obra, o romance Moby Dick alcançaria no século XX. (WIKIPÉDIA).

             Na obra "Bartleby, o escrivão" o narrador é um advogado de sessenta anos que, embora não tenha tido grande êxito profissional a ponto de entre seus pares alcançar grande destaque, nem por isso lhe faltava trabalho. Dessa forma, o advogado contava com dois escrivães que tinham como suas tarefas fazer cópias manuais (naquele tempo não havia fotocopiadoras, etc.) de documentos e pareceres. Após a tarefa de fazer uma ou várias cópias manuais de tais documentos, estes precisavam ser verificados quanto a possíveis lapsos no processo de transcrição, trabalho que era feito em conjunto para ter maior segurança quanto a fidedignidade da cópia.

            O advogado resolveu contratar mais um escrivão, Bartleby era o seu nome. Devido as modestas dimensões do escritório que contava com apenas duas salas. O advogado resolveu, por não ter outra solução, colocar a escrivaninha de Bartleby em sua sala, mas, colocou entre a escrivaninha deste e a sua um biombo. Bartleby ficou próximo a uma janela cuja vista era o muro/parede de um prédio alto. O escritório ficava na rua Wall Street, famoso centro financeiro de Nova Iorque (EUA).

            O novo empregado demonstrou ser muito eficiente, porém, muito calado. O advogado não conseguiu arrancar dele nenhuma informação quanto ao seu passado profissional, menos ainda sobre sua família. No entanto, o funcionário era excelente e isso era o que importava. E os outros dois funcionários também tinham suas manias, cada um com uma personalidade diferente, um deles, inclusive era ranzinza, e ele tinha que aturar o seu mau humor. Ser calado era a menor das manias.

            Passado alguns meses, após concluir um trabalho, o advogado chama Bartleby para que juntos façam a conferência de um documento e ele polidamente, fala: "Eu preferia não fazê-lo". O advogado pergunta novamente e ele repete a resposta. O advogado fica perplexo, pensa em gritar com ele, mas, a forma educada como o funcionário respondeu o impede. Pensa então em demití-lo, mas, de alguma forma sente compaixão por ele. Solicita a ajuda de outro funcionário para o trabalho.

            No dia seguinte solicita a Bartleby que se dirija aos correios para entregar um documento e ele responde: "preferia não fazê-lo". O advogado vai então aos correios e depois para a casa, incomodado com a situação, na qual se sente impotente pois, não consegue convencê-lo a trabalhar e tem dó em demití-lo ao conjecturar sobre o que aconteceu em sua vida que o deixou assim. Bartleby fica o tempo todo olhando para o muro que vê a partir de sua janela. A situação começa a ficar exasperante para o advogado que descobre que o funcionário dorme no próprio local de trabalho utilizando-se da chave reserva. Tenta convencê-lo a mudar para a sua casa até encontrar outro lugar para ele, mas, Bartleby responde: "Eu preferia não fazê-lo". Os outros funcionários começam a se irritar com a situação, pois têm que fazer o trabalho do colega e o advogado precisa intervir para evitar possíveis rusgas. Clientes fazem solicitações ao escrivão e este se recusa (educadamente) a fazer ante o próprio patrão. O advogado cria coragem e demite Bartleby, dando a ele um valor bem superior ao que ele tinha direito na rescisão. E pede para que ele não venha mais ao escritório, ele não pega o dinheiro e responde: "Eu preferia não fazê-lo". No dia seguinte o advogado vai ao escritório e encontra Bartleby e o dinheiro intocado sobre a mesa. Pensa em chamar a polícia, mas, de alguma forma tem pena dele.

            O advogado tem uma ideia, encontra um novo local para o seu escritório, entrega o imóvel para o senhorio (locador) e avisa Bartleby que entregou o imóvel e que ele precisa sair e ele responde: "Eu preferia não fazê-lo". Passam-se alguns dias e o advogado tem a sensação que a situação está resolvida, porém, o antigo locador e o novo inquilino cobram que o advogado retire Bartleby do imóvel, colocando nele a culpa por ter deixado ele no local. Com o intuito de evitar complicações, o advogado pede para que Bartleby se retire e até que vá morar em sua casa até arranjar um lugar para ele, mas, Bartleby responde: "Eu preferia não fazê-lo". O advogado, furioso, se retira sem falar com ninguém.

            Passados alguns dias, o advogado é informado que Bartleby fora preso e, como não tem conhecimento de que ele tenha parentes resolve visitá-lo na cadeia. O escrivão tem uma certa liberdade na cadeia, deixam-no circular dentro de algumas repartições, porém, ele fica o dia todo sentado olhando para o muro que o mantém preso. O advogado tenta conversar com Bartleby, que pouco fala, mas que afirma ter consciência de onde se encontra. Fala então com alguns funcionários da cadeia, inclusive com o cozinheiro e paga a este para que ele tenha a melhor alimentação possível. O cozinheiro pergunta a ele sugestões para a janta e ele responde: "Eu preferia não fazê-lo". O advogado volta a seus afazeres, mas passado algum tempo, é avisado que Bartleby morreu de inanição, mesmo com a insistência do cozinheiro e demais funcionários da cadeia para que se alimentasse e, ato contínuo, afirmava: "Eu preferia não fazê-lo".

            O advogado relata que do pouco que se soube sobre Bartleby é que ele tinha como trabalho anterior, um emprego no qual lhe cabia destruir cartas que não foram entregues devido a não localização dos destinatários/remetentes. Resolvi escrever esta resenha com spoiler porque concluí que o mais precioso neste conto é a reflexão sobre Bartleby, seu trabalho e sua vida e, essa é a sua missão!

Sugestão de boa leitura:

Título: Bartleby, o escrivão.

Autor: Herman Melville.

Editora: José Olympio, 2017, 96 p.

 


sábado, 25 de fevereiro de 2023

Um olhar para o Irã e uma reflexão necessária sobre o Brasil

 

É preciso retirar a venda colocada pela mídia ocidental e se colocar na posição do Irã para entendê-lo e tirar lições!

           

            Imagine que todos os países vizinhos do Brasil são seus inimigos e gastam fábulas em armamentos. Imagine que os Estados Unidos da América têm grande interesse de colocar nossas riquezas naturais à sua disposição, possuem bases militares em quase todos eles e colocam porta-aviões e destróieres próximos a nossa costa e nos ameaçam o tempo todo.

            Imagine que os EUA nos considera integrantes "do eixo do mal", não aceitam nossa cultura e nossa organização política, tendo várias vezes interferido, apoiando golpes de Estado e fazendo guerra por procuração utilizando um país vizinho (a Argentina, por exemplo), o que ocasionou uma enorme perda de vidas e de recursos financeiros para os países contendores e lucrativos negócios para a indústria bélica estadunidense.

            Imagine (apenas imagine) que os Estados Unidos já se utilizou da Argentina, o país mais armado da região (inclusive possuidor de bombas atômicas e a qual os EUA repassa grande parte das armas mais avançadas de seu arsenal)  para nos intimidar e inclusive destruir nossas instalações militares onde desenvolvemos pesquisas nucleares com fins pacíficos (medicina nuclear e energia nuclear).

             Imagine que os Estados Unidos proíbe a venda de equipamentos militares ao Brasil que possuam componentes com tecnologia de empresas estadunidenses e os fornece à profusão aos nossos inimigos. Imagine que os Estados Unidos proíbam que suas empresas façam comércio com o Brasil e também que proíbam que as empresas estrangeiras que atuam em território estadunidense façam comércio com o Brasil. Imagine que os Estados Unidos impeçam que organismos internacionais forneçam empréstimos ao Brasil, além de ter expulsado o Brasil do sistema de compensação bancária global (Swift) prejudicando as exportações e importações brasileiras.  Imagine que os Estados Unidos promovam além do que falei outras sanções contra o Brasil e inclusive pressionem outros países a não fazer comércio com o Brasil. Imagine que já tivéssemos tido guerras com os países vizinhos e que eles odiassem o povo brasileiro e se aliassem aos Estados Unidos esperando a hora de nos destruir. O que faríamos?

            Antes que haja ataque raivoso, não sou filiado a nenhum partido político, sou formado em Geopolítica e Relações Internacionais e defendo um caminho de independência do país com relação a sua soberania. Não posso deixar de observar que russos e chineses nunca embargaram ou sancionaram o Brasil, mesmo assim, penso que o Brasil não deve estar em posição de submissão a nenhuma das potências. A médio e longo prazo o Brasil precisa desenvolver sua indústria nacional de defesa de forma independente e, no curto prazo encontrar fornecedores mais confiáveis. Os países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) já demonstraram que não são, pois, os Estados Unidos da América em várias oportunidades embargaram a venda de equipamentos militares brasileiros (aviões e tanques) a outros países por estes possuírem dispositivos estadunidenses. Nesse momento, a Alemanha faz o mesmo impedindo a venda dos blindados Guarani (que utiliza dispositivos alemães) às Filipinas (114 blindados) e à Argentina (156 blindados). O embargo alemão se deve à posição brasileira de manter a neutralidade e não somar esforços no processo de armamento da Ucrânia com vistas à guerra que aquele país trava com a Rússia.

             Penso também que, os Estados Unidos é a potência que tem o maior interesse em que nos mantenhamos submissos, que não consigamos aumentar a nossa influência na América do Sul e em todo o Sul (mundo subdesenvolvido). Aos Estados Unidos não interessa que tenhamos uma indústria de defesa capaz e competente tecnologicamente, prova disso são as dezenas de embargos quanto a equipamentos, componentes e tecnologias que foram vetadas ao nosso país sob a alegação de que excede a capacidade que os Estados Unidos aceitam para o nosso país. As riquezas nacionais, sobretudo a Amazônia, despertam a cobiça internacional, não falta na Europa ou na América Anglo-Saxônica quem defenda a sua internacionalização, sobre o pretexto da preservação ambiental (que deve ser feita! Por nós!), mas, que sabemos haver outros interesses, não sejamos ingênuos!

            Cabe a nós decidirmos, seremos eternos vassalos do imperialismo estadunidense e das decadentes potências europeias? Ou trilharemos o nosso próprio caminho, fazendo nossas próprias escolhas? Precisamos lentamente descolar das velhas potências imperialistas e do dólar. É frustrante observar essa louvação que existe aos Estados Unidos no Brasil, ideologias a parte, o país norte-americano representa uma ameaça maior aos nossos interesses desenvolvimentistas do que qualquer outro, até porque sempre consideraram a América Latina seu quintal. Hoje o Irã, é considerado parte do "eixo do mal" por não ter se ajoelhado perante o Ocidente (EUA/OTAN) e sofre todo tipo de sanções. Amanhã poderá ser o Brasil!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico

 

O/a leitor(a), obviamente ouviu inúmeras vezes que a depressão é o mal do século, sendo diretamente relacionado à modernidade (ou pós-modernidade) em que vivemos. A pessoa com depressão não passa incólume ante os fanáticos religiosos que à doença ou transtorno mental atribuem uma vida de pecados e a necessidade de conversão, ou ainda, a visão reducionista de que tudo sempre se resume à questão biológica, pois, o cérebro não estaria produzindo o hormônio da serotonina. A verdade é que a depressão continua a ser um grande desafio para a ciência e, se ainda hoje determinar a origem do sofrimento de um indivíduo é como caminhar em meio a um forte nevoeiro não vendo muito além do chão onde se pisa, imagine algumas décadas atrás.

            Os autores Christian Dunker, Nelson da Silva Junior e Vladimir Pinheiro Safatle na obra "Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico" demonstram que a expansão do neoliberalismo trouxe em seu bojo a multiplicação dos casos de depressão, sendo tal doença ou transtorno mental detalhadamente descrita quanto às suas características, porém, tal grau de investigação não é realizado quanto à causa comum (o neoliberalismo). O Neoliberalismo (novo liberalismo) é muito mais que uma retomada dos ideais do Liberalismo Clássico tal como proposto pelos pensadores clássicos Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1773-1824) ou seja, é a sua radicalização. Não se trata apenas de implantar o ideário neoliberal na economia e na gestão dos governos, mas de fincar raízes na mentalidade e na moralidade dos indivíduos que compõem a sociedade. Isso fica evidente na fala da então Primeira Ministra do Reino Unido Margareth Thatcher (1925 - 2013) quando disse "A economia é apenas um meio, nosso objetivo é mudar mentes e corações".

            O Neoliberalismo tem como objetivo construir uma sociedade livre (para o capital), baseada no Estado Mínimo, no individualismo, na quebra da solidariedade, no desmonte das leis trabalhistas, no enfraquecimento dos sindicatos, na despolitização da vida e na formação de um sujeito incapaz de pensar sobre sua própria realidade. Para atingir tais objetivos, o pensador neoliberal Friedrich Von Hayek (1899-1992) disse preferir uma "ditadura liberal a uma democracia sem liberalismo", essa frase fala por si só, nada mais é necessário acrescentar quanto ao caráter antidemocrático do Neoliberalismo que teve no Chile, sob a ditadura do General Augusto Pinochet, seu principal laboratório. Nos tempos atuais, o indivíduo jogado na informalidade devido à escassez da oferta de emprego formal é chamado de "empreendedor", mesmo que na imensa maioria dos casos preferisse ter um emprego formal e os direitos trabalhistas dele resultantes.

            Os trabalhadores, rebatizados como "colaboradores", numa tentativa de mascarar a exploração do trabalho e da luta de classes, afinal, o colaborador é quem colabora no processo e não quem de fato produz a riqueza, além disso, o ato de colaborar é "voluntário", embora a necessidade da sobrevivência ditada pelo Neoliberalismo não dê ao indivíduo outra possibilidade, apesar do discurso da liberdade para vender sua mão de obra no mercado, é o mercado que fixa o valor desta pela Lei da Oferta e da Procura. O mercado, por sua vez, considera como ideal a existência de razoável número de desempregados para não haver pressão sobre o valor da mercadoria mão de obra, majorando-a.

            A flexibilização dos direitos trabalhistas nada mais é que a destruição dos mesmos para possibilitar uma maior acumulação capitalista com o aumento da exploração da mão de obra, agora ainda mais precarizada. O indivíduo que abre uma microempresa individual e passa a prestar serviços para a empresa em que sempre trabalhou, agora é um "empresário de si mesmo", ou seja, torna-se escravo de si próprio. O seu rendimento financeiro está relacionado ao seu desempenho na prestação do serviço. Em busca de migalhas a mais, passa a ter uma forte auto-cobrança, precisa performar e melhorar mais. Seja pela exaustão ou visando ter melhor performance não são poucos os que recorrem aos médicos, ou seja, o Neoliberalismo esgota o trabalhador e lucra com sua exaustão vendendo os farmacológicos que lhe darão a pílula da felicidade ou da melhor performance.

            Seja no trabalho formal ou no assim chamado "empreendedorismo", os indivíduos são cobrados ou se cobram cada vez mais. O que fazem nunca é bom o suficiente (qualitativamente/quantitativamente). Estão sempre em débito com os outros ou consigo próprios. A necessidade de uma melhor performance quase nunca alcançável dado o grau de exigência os leva à incerteza, à insegurança, à angústia e a frustração. A doutrinação neoliberal impõe a culpa do fracasso no indivíduo, este por sua vez adoece com o sentimento de inadequação e da constatação de que não é produtivo o suficiente.

P.S. A obra é de grande profundidade teórica e o tema vasto e complexo. Este artigo constitui breve noção do tema retratado na obra. Fica a dica!

 

Sugestão de boa leitura:

 

Título: Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico.

Autor: Christian Dunker; Nelson da Silva Junior e Vladimir Pinheiro Safatle.

Editora: Autêntica, 2021, 288 pág.


sábado, 11 de fevereiro de 2023

O último dos Moicanos

 

James Fenimore Cooper (1789-1851) foi um político e popular escritor dos Estados Unidos da América do início do século XIX. Foi um dos mais populares romancistas do século XIX e considerado e escritor responsável pela criação de uma literatura e de uma personagem prototípica de herói genuinamente norte-americana (Wikipédia). Seu livro "O último dos Moicanos" aqui resenhado é considerado a sua obra-prima. O livro "O último dos Moicanos" certamente divide opiniões, porém, se você caro leitor(a) tal como eu, é "jovem há mais tempo" e não perdia a "Sessão Western" com filmes de faroeste nos sábados à tarde na TV Globo, então, esse livro é indicado para você. A trama ocorre no ano de 1757 na divisa entre Canadá e Estados Unidos nas proximidades da região dos Grandes Lagos. Uma característica marcante da obra é a descrição das paisagens que leva o leitor a vislumbrar o cenário enquanto lê. Isso se deve ao fato que o autor conhecia bem aqueles locais e também a trama retratada no livro que constitui parte da Guerra dos Sete Anos, mais especificamente, a Guerra Franco-Indígena. A referida guerra tinha como origem a disputa  territorial entre as potências colonizadoras, neste caso, entre Inglaterra e França.

            A Guerra Franco-Indígena (1754-1763) opôs algumas tribos indígenas que se aliaram na batalha com o Exército Francês ou com o Exército Inglês. A trama se inicia com o Major Duncan Heyward do Forte Eduard tendo a responsabilidade de levar as irmãs Cora e Alice Munro até o Forte William Henry, comandado pelo pai destas, o Coronel Munro. O grupo que conta com alguns soldados é guiado por um indígena huroniano chamado de Magua e que tem o apelido de "raposa sutil". Magua leva o grupo a uma emboscada e, sendo descoberto consegue fugir. Na emboscada, apenas as irmãs, Nathaniel Poe apelidado de "Olho de Falcão", mas, conhecido pelos indígenas que lutam ao lado dos franceses como "La Longue Carabine", devido a precisão com que atira com sua arma. Também sobreviveram os indígenas Chingachcook e Uncas, respectivamente pai e filhos, sendo estes os dois últimos representantes dessa ramificação menor do grupo indígena Delaware.

            Cora, a filha mais velha do Coronel Munro é alta e morena, sendo fruto de uma relação passageira de seu pai anterior ao casamento com a mãe de Alice que morre no parto desta. Alice é loira e de olhos azuis, de menor estatura, embora seja ainda uma adolescente de doze anos. O grupo após embates com indígenas huronianos, escapam à perseguição e chegam ao Forte William Henry que se encontra sitiado pelas forças franco-indígenas liderados pelo Coronel Montcalm. O Major Duncan Heyward se apaixona por Alice e comunica ao Coronel Munro seu desejo com ela contrair matrimônio, Cora, por sua vez, tem a atenção do moicano Uncas. A única esperança para que o Forte William Henry não caia é a chegada de reforços do Forte Eduard. O coronel francês estabelece diálogo com o comando do forte, ocasião em que mostram uma carta interceptada e endereçada ao Coronel Munro sobre a impossibilidade enviar reforço e orientando uma retirada das tropas inglesas do local. A contragosto, Munro se vê obrigado a deixar o forte com suas tropas, consegue, no entanto, a promessa de que não serão atacados durante a retirada.

            Os indígenas sob o comando de Montcalm não cumprem o disposto e atacam os ingleses durante a retirada. A ferocidade do ataque ficou conhecido como "Massacre de William Henry", milhares de pessoas foram mortas e tiveram seus escalpos retirados pelos nativos. Na confusão, Magua sequestrou as duas filhas de Munro. David Gamo, um soldado inglês, cuja religiosidade, gosto pela música e espírito pacifista é levado junto. Ao compreender que suas filhas foram sequestradas, o grupo formado pelo Coronel Munro, o Major Duncan Heyward, Olho de Falcão e os dois Moicanos Chingachcook e Uncas seguem as pistas com a intenção de resgatar as moças. Magua, sabendo que alguém tentará resgatar as moças, utiliza vários artifícios para não deixar pistas. O huroniano tem o desejo doentio de que Cora se torne sua esposa, mas, não por amá-la, mas como vingança contra seu pai, cujos comandados, mataram integrantes da família de Magua. O grupo acaba chegando no local do  acampamento (aldeia) de Magua e, encontra David foi mantido vivo e livre na aldeia, por ser considerado louco e inofensivo. David lhes conta que Alice está presa em uma caverna no centro da aldeia. Cora, por sua vez, foi levada presa a uma aldeia vizinha que mantém boas relações com a tribo de Magua. O objetivo é dificultar o resgate das irmãs. O grupo diminuto se divide para tentar o resgate das irmãs nas duas frentes, mas, tem centenas de guerreiros como adversários. A única alternativa é usar a inteligência! Paro aqui para não dar spoiler. Fica a dica!

P.S. A obra foi adaptada para o cinema, mas, não é fiel à versão publicada.

Sugestão de boa leitura:

Título: O último dos Moicanos.

Autor: James Fenimore Cooper

Editora: Nova Fronteira, 2018, 400 pág.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Professores, não se esqueçam de si (Jeferson Tenório)

 

Jeferson Tenório (1977) é escritor, professor e pesquisador brasileiro, tendo nascido no Rio de Janeiro é radicado em Porto Alegre. Seus textos teatrais e contos foram traduzidos para o inglês e o espanhol. Recebeu o Prêmio Jabuti em 2021 pela obra "O avesso da pele" publicado pela Companhia das Letras.

           

            Todo professor já deve ter assistido a algum filme ou lido algum livro sobre a docência. Eu mesmo gostava de me ver representado na ficção. Gostava de ver aqueles super-professores humilhados pelo sistema, tendo de dar aula numa escola com alunos violentos e indisciplinados, dentro de salas de aula degradadas. Então, este mesmo professor, com toda a sua perseverança, força de vontade e movido por grande paixão pela profissão, abria mão de sua vida particular, da sua vida afetiva e familiar para transformar aquela realidade. Tudo em nome do amor à docência.

            Além de todas essas adversidades, professores de escolas públicas ou privadas estão sempre devendo alguma coisa: relatórios, notas, devolução de provas, pareceres sobre aluno, ementa de projeto interdisciplinar, programa  de estudo, diários de classe e outras chateações. Um professor sempre deve alguma coisa para a direção. Mesmo quando não deve nada, ele continua em dívida, porque mesmo que você tenha entregado tudo que lhe foi solicitado, ainda assim sobrará aquele sentimento de que você não poderia estar descansando, e ainda fica com aquela sensação de domingo à tarde, em que você não relaxa por completo porque a segunda feira está chegando, e você não pode se dar ao luxo de relaxar.

            Lembro ainda do filme Escritores da Liberdade, em que uma professora, interpretada por Hilary Swank, estimula seus alunos a escreverem diários. No entanto, como se trata de uma escola pública, não havia recursos  para a compra de livros. É então que a professora resolve fazer um bico como vendedora de roupas no turno inverso para levantar dinheiro e assim comprar os exemplares. A atitude pode ser vista como louvável, e é; porém, isto tudo pode ser bonito na ficção, mas na vida real não é.

            Este artigo na verdade é uma carta aos professores. Me dirijo a vocês desse modo porque acho ser importante dizer que sim, somos apaixonados pelo que fazemos, que sim, fazemos muito mais do que nossas atribuições. No entanto, não podemos amara a profissão mais do que a nós mesmos. O amor pela docência não é incondicional. Não é anulando-se como pessoa que um professor prova seu valor. Por isso, faço uma apelo: professores, não se esqueçam de si.

            Por mais que haja uma ligação forte entre você e a sua instituição de ensino, a escola não é a sua casa. Escola é um lugar de formação social, mas não pode ser a extensão da sua vida. Um professor não é mais professor porque não relaxa, porque está sempre em estado de alerta. Um professor é bom quando cuida de suas aulas, mas sobretudo quando cuida de si mesmo.

domingo, 29 de janeiro de 2023

A importância da leitura e da análise do que se lê (2022)

 

            O ano de 2022 foi tenso, a geopolítica mundial cada vez mais complexa que deu origem a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, sem falar nos pontos de tensão em outras regiões, tais como: Taiwan, Irã, Kosovo, etc. As eleições presidenciais no Brasil e a tensão por ela gerada quanto ao risco de um possível golpe de Estado, a crise econômica e a queda do poder aquisitivo da população trabalhadora. Os contágios e mortes por Covid, que embora tenham se reduzido, persistem. O ano de 2022, tal como o ano anterior, foi extremamente desgastante do ponto de vista físico, mental e emocional. Sendo a leitura algo que me proporciona relaxamento e prazer, foi na leitura que consegui um pouco de paz ante o desastroso cenário socioeconômico que se descortina para a maioria da população brasileira.

            Em 2022 resolvi fazer uma nova especialização (Direitos Humanos e Movimentos Sociais), ao assim proceder, não visei ganhos financeiros (estou no topo da carreira no Magistério Estadual). A iniciativa de estudar é porque acredito que o cérebro é como os músculos, se não os utilizamos eles definham. O curso que concluí é um dos que sempre quis fazer (ainda falta um). O tempo que dediquei aos estudos, lendo obras concernentes ao curso, obviamente me tomou tempo, que em anos anteriores dediquei à leitura de obras literárias de minha livre escolha. Dessa forma, li apenas trinta e oito livros de literatura no ano passado (costumo ler cerca de setenta livros por ano).

            A iniciativa deste artigo não é a de se gabar, mas, a de inspirar. Algumas pessoas já me disseram que se iniciaram no hábito da leitura (ou a ele regressaram) ao ler as resenhas de livros que publico. Digo que também fui influenciado em tal sentido por mestres(as) que tive em toda a minha vida estudantil. Também foi assim quanto ao ato de escrever. A vida é uma troca entre gerações, apenas repasso as boas energias que recebi. No ano que passou, não fui muito criterioso na escolha das leituras, em relação a autoria/continentes, assim foram as minhas leituras: Oceania: 0,0%; Ásia: 2,7%; África: 0,0%; Europa: 28,9%; América: 68,4%. Das leituras de obras de autores americanos, a América Latina parece com 76,9% e a América Anglo-Saxônica com 23,1%. Quanto a leitura de obras latino-americanas por país: Brasil: 90% (47,3% da leitura global); Colômbia: 5% e Cuba 5%. Quanto a autoria/gênero das leituras realizadas: 76,3% sexo masculino e 23,7% sexo feminino. Março e Abril foram meses que li mais (7 livros/mês) e o mês que li menos, foi Dezembro (1 livro) e isso se explica pela sobrecarga do trabalho no Magistério nesta época. Em Janeiro também li apenas um livro, mas, foi Os Miseráveis (calhamaço para ninguém desdenhar). A partir desta análise, desejo ler em 2023 mais obras de autores latino-americanos (além do Brasil), africanos, asiáticos e, também mais obras de mulheres.

             As dez melhores leituras foram: 1. Os Miseráveis (Vitor Hugo); 2. O cortiço (Aluísio Azevedo); 3. Cachorro Velho (Teresa Cárdenas); 4. Um certo Capitão Rodrigo (Érico Veríssimo); 5. Ana Terra (Érico Veríssimo); 6. Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço (Adriana Negreiros); 7. Forrest Gump (Winston Groom); 8. Senhor e servo e outras histórias (Liev Tolstói); 9. O Sedutor do Sertão ou O Grande Golpe da Mulher Malvada (Ariano Suassuna); 10. Clube da Luta (Chuck Palahniuk). Como sempre faço, para evitar injustiças atribuo menções honrosas para as seguintes obras: Terra das Mulheres (Charlotte Perkins Gilman); Terra dos Homens (Antoine de Saint-Exupéry); A mulher que era o general da casa (Paulo Moreira Leite); Odorico na cabeça (Dias Gomes); Uma confissão (Liev Tolstói); Do que vivem os homens (Liev Tolstói); Riacho Doce (José Lins do Rego); O crepúsculo da democracia: Como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política; (Anne Applebaum); O declínio de um homem (Osamu Dazai); Infância, adolescência e juventude (Liev Tolstói); Do amor e outros demônios (Gabriel García Márquez); O Pagador de Promessas (Dias Gomes); O Menino Grapiúna (Jorge Amado). A minha decepção literária do ano foi com a famosa obra Os Maias (Eça de Queiroz). Sei que se trata de um clássico, mas, para mim não funcionou, talvez porque minha expectativa era muito alta. Enfim, encerro desejando-lhe um feliz ano novo, obviamente repleto de boas leituras!