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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico

 

O/a leitor(a), obviamente ouviu inúmeras vezes que a depressão é o mal do século, sendo diretamente relacionado à modernidade (ou pós-modernidade) em que vivemos. A pessoa com depressão não passa incólume ante os fanáticos religiosos que à doença ou transtorno mental atribuem uma vida de pecados e a necessidade de conversão, ou ainda, a visão reducionista de que tudo sempre se resume à questão biológica, pois, o cérebro não estaria produzindo o hormônio da serotonina. A verdade é que a depressão continua a ser um grande desafio para a ciência e, se ainda hoje determinar a origem do sofrimento de um indivíduo é como caminhar em meio a um forte nevoeiro não vendo muito além do chão onde se pisa, imagine algumas décadas atrás.

            Os autores Christian Dunker, Nelson da Silva Junior e Vladimir Pinheiro Safatle na obra "Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico" demonstram que a expansão do neoliberalismo trouxe em seu bojo a multiplicação dos casos de depressão, sendo tal doença ou transtorno mental detalhadamente descrita quanto às suas características, porém, tal grau de investigação não é realizado quanto à causa comum (o neoliberalismo). O Neoliberalismo (novo liberalismo) é muito mais que uma retomada dos ideais do Liberalismo Clássico tal como proposto pelos pensadores clássicos Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1773-1824) ou seja, é a sua radicalização. Não se trata apenas de implantar o ideário neoliberal na economia e na gestão dos governos, mas de fincar raízes na mentalidade e na moralidade dos indivíduos que compõem a sociedade. Isso fica evidente na fala da então Primeira Ministra do Reino Unido Margareth Thatcher (1925 - 2013) quando disse "A economia é apenas um meio, nosso objetivo é mudar mentes e corações".

            O Neoliberalismo tem como objetivo construir uma sociedade livre (para o capital), baseada no Estado Mínimo, no individualismo, na quebra da solidariedade, no desmonte das leis trabalhistas, no enfraquecimento dos sindicatos, na despolitização da vida e na formação de um sujeito incapaz de pensar sobre sua própria realidade. Para atingir tais objetivos, o pensador neoliberal Friedrich Von Hayek (1899-1992) disse preferir uma "ditadura liberal a uma democracia sem liberalismo", essa frase fala por si só, nada mais é necessário acrescentar quanto ao caráter antidemocrático do Neoliberalismo que teve no Chile, sob a ditadura do General Augusto Pinochet, seu principal laboratório. Nos tempos atuais, o indivíduo jogado na informalidade devido à escassez da oferta de emprego formal é chamado de "empreendedor", mesmo que na imensa maioria dos casos preferisse ter um emprego formal e os direitos trabalhistas dele resultantes.

            Os trabalhadores, rebatizados como "colaboradores", numa tentativa de mascarar a exploração do trabalho e da luta de classes, afinal, o colaborador é quem colabora no processo e não quem de fato produz a riqueza, além disso, o ato de colaborar é "voluntário", embora a necessidade da sobrevivência ditada pelo Neoliberalismo não dê ao indivíduo outra possibilidade, apesar do discurso da liberdade para vender sua mão de obra no mercado, é o mercado que fixa o valor desta pela Lei da Oferta e da Procura. O mercado, por sua vez, considera como ideal a existência de razoável número de desempregados para não haver pressão sobre o valor da mercadoria mão de obra, majorando-a.

            A flexibilização dos direitos trabalhistas nada mais é que a destruição dos mesmos para possibilitar uma maior acumulação capitalista com o aumento da exploração da mão de obra, agora ainda mais precarizada. O indivíduo que abre uma microempresa individual e passa a prestar serviços para a empresa em que sempre trabalhou, agora é um "empresário de si mesmo", ou seja, torna-se escravo de si próprio. O seu rendimento financeiro está relacionado ao seu desempenho na prestação do serviço. Em busca de migalhas a mais, passa a ter uma forte auto-cobrança, precisa performar e melhorar mais. Seja pela exaustão ou visando ter melhor performance não são poucos os que recorrem aos médicos, ou seja, o Neoliberalismo esgota o trabalhador e lucra com sua exaustão vendendo os farmacológicos que lhe darão a pílula da felicidade ou da melhor performance.

            Seja no trabalho formal ou no assim chamado "empreendedorismo", os indivíduos são cobrados ou se cobram cada vez mais. O que fazem nunca é bom o suficiente (qualitativamente/quantitativamente). Estão sempre em débito com os outros ou consigo próprios. A necessidade de uma melhor performance quase nunca alcançável dado o grau de exigência os leva à incerteza, à insegurança, à angústia e a frustração. A doutrinação neoliberal impõe a culpa do fracasso no indivíduo, este por sua vez adoece com o sentimento de inadequação e da constatação de que não é produtivo o suficiente.

P.S. A obra é de grande profundidade teórica e o tema vasto e complexo. Este artigo constitui breve noção do tema retratado na obra. Fica a dica!

 

Sugestão de boa leitura:

 

Título: Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico.

Autor: Christian Dunker; Nelson da Silva Junior e Vladimir Pinheiro Safatle.

Editora: Autêntica, 2021, 288 pág.


sábado, 11 de fevereiro de 2023

O último dos Moicanos

 

James Fenimore Cooper (1789-1851) foi um político e popular escritor dos Estados Unidos da América do início do século XIX. Foi um dos mais populares romancistas do século XIX e considerado e escritor responsável pela criação de uma literatura e de uma personagem prototípica de herói genuinamente norte-americana (Wikipédia). Seu livro "O último dos Moicanos" aqui resenhado é considerado a sua obra-prima. O livro "O último dos Moicanos" certamente divide opiniões, porém, se você caro leitor(a) tal como eu, é "jovem há mais tempo" e não perdia a "Sessão Western" com filmes de faroeste nos sábados à tarde na TV Globo, então, esse livro é indicado para você. A trama ocorre no ano de 1757 na divisa entre Canadá e Estados Unidos nas proximidades da região dos Grandes Lagos. Uma característica marcante da obra é a descrição das paisagens que leva o leitor a vislumbrar o cenário enquanto lê. Isso se deve ao fato que o autor conhecia bem aqueles locais e também a trama retratada no livro que constitui parte da Guerra dos Sete Anos, mais especificamente, a Guerra Franco-Indígena. A referida guerra tinha como origem a disputa  territorial entre as potências colonizadoras, neste caso, entre Inglaterra e França.

            A Guerra Franco-Indígena (1754-1763) opôs algumas tribos indígenas que se aliaram na batalha com o Exército Francês ou com o Exército Inglês. A trama se inicia com o Major Duncan Heyward do Forte Eduard tendo a responsabilidade de levar as irmãs Cora e Alice Munro até o Forte William Henry, comandado pelo pai destas, o Coronel Munro. O grupo que conta com alguns soldados é guiado por um indígena huroniano chamado de Magua e que tem o apelido de "raposa sutil". Magua leva o grupo a uma emboscada e, sendo descoberto consegue fugir. Na emboscada, apenas as irmãs, Nathaniel Poe apelidado de "Olho de Falcão", mas, conhecido pelos indígenas que lutam ao lado dos franceses como "La Longue Carabine", devido a precisão com que atira com sua arma. Também sobreviveram os indígenas Chingachcook e Uncas, respectivamente pai e filhos, sendo estes os dois últimos representantes dessa ramificação menor do grupo indígena Delaware.

            Cora, a filha mais velha do Coronel Munro é alta e morena, sendo fruto de uma relação passageira de seu pai anterior ao casamento com a mãe de Alice que morre no parto desta. Alice é loira e de olhos azuis, de menor estatura, embora seja ainda uma adolescente de doze anos. O grupo após embates com indígenas huronianos, escapam à perseguição e chegam ao Forte William Henry que se encontra sitiado pelas forças franco-indígenas liderados pelo Coronel Montcalm. O Major Duncan Heyward se apaixona por Alice e comunica ao Coronel Munro seu desejo com ela contrair matrimônio, Cora, por sua vez, tem a atenção do moicano Uncas. A única esperança para que o Forte William Henry não caia é a chegada de reforços do Forte Eduard. O coronel francês estabelece diálogo com o comando do forte, ocasião em que mostram uma carta interceptada e endereçada ao Coronel Munro sobre a impossibilidade enviar reforço e orientando uma retirada das tropas inglesas do local. A contragosto, Munro se vê obrigado a deixar o forte com suas tropas, consegue, no entanto, a promessa de que não serão atacados durante a retirada.

            Os indígenas sob o comando de Montcalm não cumprem o disposto e atacam os ingleses durante a retirada. A ferocidade do ataque ficou conhecido como "Massacre de William Henry", milhares de pessoas foram mortas e tiveram seus escalpos retirados pelos nativos. Na confusão, Magua sequestrou as duas filhas de Munro. David Gamo, um soldado inglês, cuja religiosidade, gosto pela música e espírito pacifista é levado junto. Ao compreender que suas filhas foram sequestradas, o grupo formado pelo Coronel Munro, o Major Duncan Heyward, Olho de Falcão e os dois Moicanos Chingachcook e Uncas seguem as pistas com a intenção de resgatar as moças. Magua, sabendo que alguém tentará resgatar as moças, utiliza vários artifícios para não deixar pistas. O huroniano tem o desejo doentio de que Cora se torne sua esposa, mas, não por amá-la, mas como vingança contra seu pai, cujos comandados, mataram integrantes da família de Magua. O grupo acaba chegando no local do  acampamento (aldeia) de Magua e, encontra David foi mantido vivo e livre na aldeia, por ser considerado louco e inofensivo. David lhes conta que Alice está presa em uma caverna no centro da aldeia. Cora, por sua vez, foi levada presa a uma aldeia vizinha que mantém boas relações com a tribo de Magua. O objetivo é dificultar o resgate das irmãs. O grupo diminuto se divide para tentar o resgate das irmãs nas duas frentes, mas, tem centenas de guerreiros como adversários. A única alternativa é usar a inteligência! Paro aqui para não dar spoiler. Fica a dica!

P.S. A obra foi adaptada para o cinema, mas, não é fiel à versão publicada.

Sugestão de boa leitura:

Título: O último dos Moicanos.

Autor: James Fenimore Cooper

Editora: Nova Fronteira, 2018, 400 pág.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Professores, não se esqueçam de si (Jeferson Tenório)

 

Jeferson Tenório (1977) é escritor, professor e pesquisador brasileiro, tendo nascido no Rio de Janeiro é radicado em Porto Alegre. Seus textos teatrais e contos foram traduzidos para o inglês e o espanhol. Recebeu o Prêmio Jabuti em 2021 pela obra "O avesso da pele" publicado pela Companhia das Letras.

           

            Todo professor já deve ter assistido a algum filme ou lido algum livro sobre a docência. Eu mesmo gostava de me ver representado na ficção. Gostava de ver aqueles super-professores humilhados pelo sistema, tendo de dar aula numa escola com alunos violentos e indisciplinados, dentro de salas de aula degradadas. Então, este mesmo professor, com toda a sua perseverança, força de vontade e movido por grande paixão pela profissão, abria mão de sua vida particular, da sua vida afetiva e familiar para transformar aquela realidade. Tudo em nome do amor à docência.

            Além de todas essas adversidades, professores de escolas públicas ou privadas estão sempre devendo alguma coisa: relatórios, notas, devolução de provas, pareceres sobre aluno, ementa de projeto interdisciplinar, programa  de estudo, diários de classe e outras chateações. Um professor sempre deve alguma coisa para a direção. Mesmo quando não deve nada, ele continua em dívida, porque mesmo que você tenha entregado tudo que lhe foi solicitado, ainda assim sobrará aquele sentimento de que você não poderia estar descansando, e ainda fica com aquela sensação de domingo à tarde, em que você não relaxa por completo porque a segunda feira está chegando, e você não pode se dar ao luxo de relaxar.

            Lembro ainda do filme Escritores da Liberdade, em que uma professora, interpretada por Hilary Swank, estimula seus alunos a escreverem diários. No entanto, como se trata de uma escola pública, não havia recursos  para a compra de livros. É então que a professora resolve fazer um bico como vendedora de roupas no turno inverso para levantar dinheiro e assim comprar os exemplares. A atitude pode ser vista como louvável, e é; porém, isto tudo pode ser bonito na ficção, mas na vida real não é.

            Este artigo na verdade é uma carta aos professores. Me dirijo a vocês desse modo porque acho ser importante dizer que sim, somos apaixonados pelo que fazemos, que sim, fazemos muito mais do que nossas atribuições. No entanto, não podemos amara a profissão mais do que a nós mesmos. O amor pela docência não é incondicional. Não é anulando-se como pessoa que um professor prova seu valor. Por isso, faço uma apelo: professores, não se esqueçam de si.

            Por mais que haja uma ligação forte entre você e a sua instituição de ensino, a escola não é a sua casa. Escola é um lugar de formação social, mas não pode ser a extensão da sua vida. Um professor não é mais professor porque não relaxa, porque está sempre em estado de alerta. Um professor é bom quando cuida de suas aulas, mas sobretudo quando cuida de si mesmo.

domingo, 29 de janeiro de 2023

A importância da leitura e da análise do que se lê (2022)

 

            O ano de 2022 foi tenso, a geopolítica mundial cada vez mais complexa que deu origem a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, sem falar nos pontos de tensão em outras regiões, tais como: Taiwan, Irã, Kosovo, etc. As eleições presidenciais no Brasil e a tensão por ela gerada quanto ao risco de um possível golpe de Estado, a crise econômica e a queda do poder aquisitivo da população trabalhadora. Os contágios e mortes por Covid, que embora tenham se reduzido, persistem. O ano de 2022, tal como o ano anterior, foi extremamente desgastante do ponto de vista físico, mental e emocional. Sendo a leitura algo que me proporciona relaxamento e prazer, foi na leitura que consegui um pouco de paz ante o desastroso cenário socioeconômico que se descortina para a maioria da população brasileira.

            Em 2022 resolvi fazer uma nova especialização (Direitos Humanos e Movimentos Sociais), ao assim proceder, não visei ganhos financeiros (estou no topo da carreira no Magistério Estadual). A iniciativa de estudar é porque acredito que o cérebro é como os músculos, se não os utilizamos eles definham. O curso que concluí é um dos que sempre quis fazer (ainda falta um). O tempo que dediquei aos estudos, lendo obras concernentes ao curso, obviamente me tomou tempo, que em anos anteriores dediquei à leitura de obras literárias de minha livre escolha. Dessa forma, li apenas trinta e oito livros de literatura no ano passado (costumo ler cerca de setenta livros por ano).

            A iniciativa deste artigo não é a de se gabar, mas, a de inspirar. Algumas pessoas já me disseram que se iniciaram no hábito da leitura (ou a ele regressaram) ao ler as resenhas de livros que publico. Digo que também fui influenciado em tal sentido por mestres(as) que tive em toda a minha vida estudantil. Também foi assim quanto ao ato de escrever. A vida é uma troca entre gerações, apenas repasso as boas energias que recebi. No ano que passou, não fui muito criterioso na escolha das leituras, em relação a autoria/continentes, assim foram as minhas leituras: Oceania: 0,0%; Ásia: 2,7%; África: 0,0%; Europa: 28,9%; América: 68,4%. Das leituras de obras de autores americanos, a América Latina parece com 76,9% e a América Anglo-Saxônica com 23,1%. Quanto a leitura de obras latino-americanas por país: Brasil: 90% (47,3% da leitura global); Colômbia: 5% e Cuba 5%. Quanto a autoria/gênero das leituras realizadas: 76,3% sexo masculino e 23,7% sexo feminino. Março e Abril foram meses que li mais (7 livros/mês) e o mês que li menos, foi Dezembro (1 livro) e isso se explica pela sobrecarga do trabalho no Magistério nesta época. Em Janeiro também li apenas um livro, mas, foi Os Miseráveis (calhamaço para ninguém desdenhar). A partir desta análise, desejo ler em 2023 mais obras de autores latino-americanos (além do Brasil), africanos, asiáticos e, também mais obras de mulheres.

             As dez melhores leituras foram: 1. Os Miseráveis (Vitor Hugo); 2. O cortiço (Aluísio Azevedo); 3. Cachorro Velho (Teresa Cárdenas); 4. Um certo Capitão Rodrigo (Érico Veríssimo); 5. Ana Terra (Érico Veríssimo); 6. Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço (Adriana Negreiros); 7. Forrest Gump (Winston Groom); 8. Senhor e servo e outras histórias (Liev Tolstói); 9. O Sedutor do Sertão ou O Grande Golpe da Mulher Malvada (Ariano Suassuna); 10. Clube da Luta (Chuck Palahniuk). Como sempre faço, para evitar injustiças atribuo menções honrosas para as seguintes obras: Terra das Mulheres (Charlotte Perkins Gilman); Terra dos Homens (Antoine de Saint-Exupéry); A mulher que era o general da casa (Paulo Moreira Leite); Odorico na cabeça (Dias Gomes); Uma confissão (Liev Tolstói); Do que vivem os homens (Liev Tolstói); Riacho Doce (José Lins do Rego); O crepúsculo da democracia: Como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política; (Anne Applebaum); O declínio de um homem (Osamu Dazai); Infância, adolescência e juventude (Liev Tolstói); Do amor e outros demônios (Gabriel García Márquez); O Pagador de Promessas (Dias Gomes); O Menino Grapiúna (Jorge Amado). A minha decepção literária do ano foi com a famosa obra Os Maias (Eça de Queiroz). Sei que se trata de um clássico, mas, para mim não funcionou, talvez porque minha expectativa era muito alta. Enfim, encerro desejando-lhe um feliz ano novo, obviamente repleto de boas leituras!

           

domingo, 25 de dezembro de 2022

Vidas à deriva


 Há uma velha máxima de que os livros são sempre melhores que suas adaptações para o cinema. Vidas à deriva cujo título original é "Adrift" (Á deriva) é mais um exemplo disso. Li o livro há algum tempo e gostei muito, porém, não o resenhei neste espaço. Com a chegada das férias e, a vontade (necessidade) de distensionar a mente, ao ver o catálogo da Netflix, lá estava o filme inspirado na tragédia vivida pela estadunidense Tami Oldham Ashcraft (autora do livro), imediatamente comecei a assisti-lo.

            A mãe de Tami lhe deu à luz com apenas quinze anos de idade, por essa razão, Tami foi criada pela avó, afinal sua mãe não tinha maturidade suficiente para a empreitada materna. Apesar disso, Tami sempre teve contato com sua mãe. Após cursar o Ensino Médio (High School) nos Estados Unidos, Tami contrariando sua mãe, resolveu não ingressar na Universidade, optando, por virar mochileira e, juntamente com uma amiga saiu à deriva, ou seja, sem rumo certo em uma kombi usada, por ela adquirida. Tami e sua amiga foram até uma praia onde acamparam. Nesta praia tomou conhecimento de uma oferta de emprego de um veleiro cujo proprietário precisava de tripulantes e não exigia experiência. Após uma conversa franca onde ela deixou claro que sua relação com ele seria apenas profissional, aceitou a função de cozinhar e fazer vigia, fez uma viagem de teste de dois dias e, feito isto, velejou com Fred (o proprietário do barco) rumo à Polinésia Francesa. Segundo a autora, Fred foi sempre um cavalheiro.

            O termo à deriva ou, nas palavras de Zeca Pagodinho: "Deixa a vida me levar, vida leva eu" resume a vida de Tami. Sempre se inserindo em veleiros como tripulante, sem um rumo certo para ir mas, com o único objetivo de não voltar para casa, pois, embora ocasionalmente falasse com sua mãe, a relação entre elas não era muito boa.  No Taiti, Tami conhece o velejador inglês Richard e, eles se apaixonam à primeira vista. Iniciam um namoro, porém, após alguns dias Richard recebe uma tentadora proposta financeira de um casal de idosos que pretende voltar para os Estados Unidos de avião e precisa que alguém conduza o veleiro de volta. Ante a recusa de Tami, em seguir junto, Richard cogita desistir da missão, porém, em troca de duas passagens aéreas de volta para o Taiti e dinheiro suficiente para navegar com Richard durante um ano, ela acaba cedendo.

            O casal, apesar dos esforços, para fugir, acaba sofrendo a ação de um furacão de nível 4 que produz sérias avarias no veleiro, inclusive quebrando o mastro. No filme, como também no livro, há a intercalação de momentos anteriores à tragédia e aqueles em que a única preocupação era conseguir chegar a algum lugar e sobreviver. O livro traz relatos diários das atividades e pensamentos da autora determinada a não morrer por sede ou fome no gigantesco Oceano Pacífico. A aparelhagem do veleiro estava estragada, não havia como se comunicar. A parte interna do barco havia se convertido em uma piscina, Tami teve que bombear manualmente a água para fora do barco. A velejadora improvisou uma vela e, com os instrumentos de navegação rudimentares que tinha à mão, sextante e relógio, tentava chegar ao Havaí. A cada novo dia, calculava onde estava e corrigia a rota. Olhava o horizonte com binóculos e nada encontrava. Os dias iam passando (foram quase cinquenta dias à deriva). Quando, enfim, passou um navio, seus tripulantes não viram os sinais de localizador por ela disparados. O motor do veleiro (sim, veleiros transoceânicos têm motor para situações de emergência, porém, para trajetos curtos) também não funcionou.

            Tami, que era vegetariana, se viu obrigada a comer carne de peixes (crus), os quais teve que conseguir por meio de caça submarina. Isso se deu quando as provisões de enlatados (para situações de emergência) acabaram. O drama por ela vivido, no livro prende a atenção e leva o leitor a querer saber o que acontecerá a cada novo amanhecer. No filme não funcionou tão bem, pois, apesar de não ser um filme ruim, não empolga. Nas páginas finais do livro, a autora fala para uma de suas filhas uma frase emblemática: "A vida é como velejar, algumas vezes com vento a favor, noutras com vento contrário". Movido pela curiosidade, fui procurar como os barcos à vela navegam com vento contrário e aprendi que precisam ajustar as velas e fazer manobras, ora para estibordo (lado direito do rumo da embarcação), ora para bombordo (lado esquerdo). Assim é a vida, muitas vezes traçamos uma linha reta para atingir nossos objetivos, mas, os ventos contrários podem nos fazer desistir ou, usar da persistência, manobrando e mesmo que lentamente alcançar a meta! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Vidas à deriva: A história real que deu origem ao filme.

Autor: Tami Oldham Ashcraft.

Editora: Astral Cultural, 2018, 271 pág.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Riacho Doce

 

O paraibano José Lins do Rego (1901-1957) se popularizou como um romancista da decadência dos senhores de engenhos e tinha como característica escrever com grande agilidade, apesar de dizer a todos que o ato de escrever era difícil. A matéria-prima de suas obras estava nas memórias e reminiscências (vividas e internalizadas pela transmissão oral por seus predecessores) de um sistema econômico de origem patriarcal, com o trabalho semi-escravo do eito, ao lado de outro aspecto importante da vida nordestina, o cangaço e o misticismo. O conjunto de sua obra pode ser classificado em três tópicos: 1. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino do Engenho, Doidinho, Banguê, Usina e Fogo Morto; 2. O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita e Cangaceiros; 3. Obras independentes com ligações nos dois ciclos: O moleque Ricardo, Pureza e Riacho Doce; e desligadas dos ciclos: Água-mãe e Eurídice. Sua carreira como literato o lançou à “imortalidade” como membro eleito da Academia Brasileira de Letras – ABL. José Lins tentou produzir obras desligadas dos temas que o popularizaram, porém, como assinalou Manuel Bandeira: “era um motor que só funcionava bem queimando bagaço de cana”.

A obra Riacho Doce (1939) é dividida em três partes. A primeira parte tem como personagem principal, Ester, a professora de Eduarda, uma melancólica adolescente sueca que alimentava sonhos de liberdade. Eduarda apelidada carinhosamente de Edna, não gostava do frio da Suécia, seu país natal. Sonhava com uma terra de clima quente e de paisagens verdejantes. A jovem não gostava da submissão a que era submetida por sua família no que concerne à educação e à religião, principalmente por parte de sua avó Elba. Edna também detestava o trabalho no sítio da família no qual vivia. A adolescente pensava que merecia algo melhor do que casar e continuar a viver cuidando de animais numa propriedade rural. Ester abre os olhos e a mente de Eduarda, para a vida e para o mundo. A menina se encanta pela professora, a quem considera a pessoa mais linda que já viu. Ester não é loira e de pele alva como todas as pessoas que Edna conhece e, se parece com uma boneca espanhola que tanto gostaria de ter, mas que pertence a uma de suas colegas de classe. A professora Ester se interessa pela adolescente no sentido de auxiliá-la a passar por tais problemas existenciais, porém, Edna vê em Ester o objeto do maior sentimento que um dia já teve. As pessoas da pequena vila não demoram a perceber que algo "estranho" permeava a relação entre as duas e reage. A professora é demitida e volta para a sua terra de origem. Edna sofre com sua ausência.

Eduarda cresce e se casa com Carlos, um jovem engenheiro do setor de petróleo que, querendo ganhar muito dinheiro e, também dar à esposa a possibilidade de morar em terras tropicais brasileiras, antigo sonho desta, resolve aceitar uma proposta de trabalho em uma perfuração de poço de petróleo em Riacho Doce (na verdade, uma praia de Maceió) no estado de Alagoas. Riacho Doce é o título da segunda parte do livro. Após semanas de travessia marítima, o casal chega à Riacho Doce e é instalado em uma grande e bela casa. Edna conta com funcionárias para os afazeres domésticos, portanto, dorme até tarde e, passeia pela praia, mergulha no mar, enquanto Carlos passa o dia fora de casa trabalhando. A sueca, chamada pelas outras mulheres de forma desdenhosa de "galega", talvez com um certo sentimento de inveja pelo fato de que a bela loira chama a atenção dos homens do local. Eduarda, no entanto, olha a todos e todas com ar de superioridade e, apesar de adorar Riacho Doce, seu clima, praia e mar, continua insatisfeita com a vida. Edna casou-se com Carlos sem amá-lo, movida unicamente pelo desejo de fugir da vida que levava no sítio de sua família. O casal não vive bem, Carlos ama Edna, porém, esta evita tanto quanto possível ter relações sexuais com ele. Ela sente nojo dele, odeia ser por ele tocada. A jovem esposa sueca passa seus dias contemplando a natureza na praia, nadando e nos momentos em que se encontra em sua casa, ouvindo e tocando instrumentos musicais.

A terceira parte do livro tem por nome "Nô", trata-se de um jovem nativo, considerado muito belo pelas mulheres, sendo que muitas perderam a cabeça por ele, no entanto, ele se relaciona com elas, sem jamais se apaixonar por nenhuma. Nô é o "sonho de consumo" de mulheres solteiras e também das casadas. O rapaz é neto de "Mãe Aninha", uma líder espiritual nativa que faz benzimentos, rezas e que atrai até mesmo uma certa antipatia dos sacerdotes religiosos pelo papel que exerce e no qual tem mais influência que estes. Mãe Aninha "fechou" o corpo de Nô contra qualquer mal, seja, disparos de arma de fogo, golpes de faca e, até mesmo, o amor por uma mulher. Nô, segundo sua avó jamais se apaixonaria, mulheres seriam apenas para sua diversão, pois, o neto jamais desviaria do caminho traçado por esta. Nô é também oprimido pelo fanatismo religioso da avó a quem é submisso e crédulo. No entanto, Edna e Nô se conhecem, e apaixonam-se à primeira vista. Tornam-se amantes e numa vila pequena,  nada passa despercebido. A "Mãe" Aninha torna a vida de ambos um inferno, mas, sempre potencializando seus ataques com seus poderes místicos (ou não) à jovem mulher sueca. O sentimento que une os dois belos jovens é uma explosão de desejo, portanto, incontrolável e isso ameaça a paz da localidade conduzida à mão firme pela conservadora e religiosa "Mãe" Aninha. Fico aqui para não dar spoiler! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Riacho Doce.

Autor: José Lins do Rego

Editora: José Olympio, 2011, 304 p.


domingo, 4 de dezembro de 2022

Do que vivem os homens?


    Costumo dizer que não tenho compromisso com o erro, dessa forma estou sempre disposto a mudar de posicionamento, caso eu obtenha novos conhecimentos teóricos ou experimentais que assim me convençam. Prova disso são essas linhas que parecem distantes, mas, são de um artigo deste ano: '[...] Não tenho a predileção pela leitura de contos, menos ainda de resenhá-los neste espaço. Gosto de obras com maior número de páginas para nelas fazer uma imersão". 
      Tendo reservado parte de meu tempo para um novo curso de pós-graduação, optei por leituras mais leves e menos extensas, deixando de lado os calhamaços (livros com mais de quinhentas páginas). Resolvi dar oportunidade aos livros de contos, que são leituras rápidas, tendo como objetivo o relaxamento, a descontração. E eis que peguei o gosto pela leitura de contos, talvez tenha ajudado o fato de ter me debruçado sobre as produções literárias do russo Liev Tolstoi (1828-1910). Tentei também as HQ's (histórias em quadrinhos), mas não funcionou.

        Tenho o hábito de utilizar camisetas estampadas com frases literárias ou críticas de autores e obras. Uma delas dizia o seguinte: "Era tão pobre, mas tão pobre, que só tinha dinheiro". Alguns estudantes me perguntaram: "como uma pessoa pode ser pobre, se tem dinheiro?" Expliquei que uma pessoa pode ter dinheiro, mas, pode ser pobre de cultura, de educação, de honestidade, de solidariedade, de fraternidade, etc. Certa vez entabulei uma conversa com um empresário da capital do estado (Paraná), disse a ele que não tinha uma piscina em minha casa, mas, que tinha uma biblioteca (o que, em meu ver, é algo muito mais importante) e que nunca tive e não tenho ambição por dinheiro, basta-me ganhar o suficiente para ter algum conforto material, mas, não propriamente esbanjar ou viver luxuosamente. O empresário disse que eu era pobre até nos pensamentos e passou a falar sobre a piscina que tinha em sua casa e, também sobre as viagens que o dinheiro lhe proporcionava. Penso que a frase da camiseta é acertada, a pobreza não é apenas a resultante da falta de recursos financeiros, da mesma forma, a riqueza não se encontra apenas na acumulação do vil metal. Lembro que uma vez conversei com uma ex-empresária de minha cidade, a qual largou os negócios e passou a viver melhor após ter se conscientizado que caixão não tem gaveta (para levar dinheiro).

            Com tais palavras, não digo que ter dinheiro é desimportante, mas, que viver para acumulá-lo (sem viver) é escravidão e, escravos costumam ser pobres, de uma forma ou de outra. Mas, como diria Odorico Paraguaçu de "O Bem Amado" da obra de Dias Gomes (1922-1999), "Vamos botar de lado os entretantos e partir logo pros finalmentes". No conto "Do que vivem os homens?" de Liev Tolstói, o humilde sapateiro Simon, sai para fazer cobranças referentes a trabalhos prestados em seu estabelecimento e obviamente não quitados. Antes de sair, ele pega o pouco dinheiro que possui em casa, com a intenção de juntá-lo ao que arrecadar com as cobranças e, comprar peles para que sua esposa faça casacos, com os quais possam suportar melhor o duro inverno russo. Simon, não tem tido dias fáceis, com seu trabalho, tem conseguido apenas o suficiente para comprar alimentos. As roupas de frio dele e de sua esposa estão em estado deplorável. Ela vive reclamando da falta de dinheiro para fazer frente a outras necessidades. Ocorre que os devedores também estão passando por dificuldades financeiras e, Simon não consegue juntar o valor necessário. Aborrecido e humilhado pela situação de pobreza, sem coragem de voltar para a casa e dar a má notícia para a esposa. Antevendo as reclamações desta, ele entra num bar e se embriaga e, ao sair observa que volta para casa com menos dinheiro do que quando saiu. No caminho, já na madrugada, encontra um homem (quase congelado) deitado no chão e praticamente sem roupas, imediatamente, passa para ele seu casaco puído e o leva para casa, não sem imaginar as broncas da esposa, quanto ao fato de levar um estranho para dar hospedagem e alimentação num lar onde o alimento que há é pouco até para os que nele habitam. Paro aqui, para não dar spoiler! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:


Título: Do que vivem os homens?
Autor: Liev Tolstói.
Editora: E-Book Kindle, 2020, 33 pág