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domingo, 18 de julho de 2021

O chão em que pisa faz o professor de Ciências Humanas

                 

                Um fato comum na vida de um professor é o reencontro com ex-alunos, ocasião em que estes perguntam se continua lecionando e se o faz na mesma escola. Contam o que estão fazendo, agradecem os ensinamentos ou muitas vezes lamentam não ter seguido as orientações, pois, poderiam ter se dedicado mais aos estudos e ter uma profissão melhor. 

            Ao entabular a conversa, perguntam como devem tratar o professor, se devem continuar a chamar de professor, apesar de não ser mais. Isso não é algo que me preocupe, mas, na qualidade de estudante que fui e que sou (professor é um eterno estudante), digo que não há ex-professor, pois, professores são eternos, vão conosco para onde vamos, pois, nos deram a base do que somos. Nesse mesmo sentido,o genial Isaac Newton (1643-1727) ao ser chamado de "gigante da ciência" afirmou: "gigantes são os mestres que tive, nos ombros dos quais me elevei".

            O fato de alguém, após, deixar de ser aluno, continuar a chamá-lo ou não de professor, não é algo que incomode ao mestre, mas, certamente diz bastante sobre a personalidade do ex-estudante. É uma atitude linda, de reconhecimento, principalmente, no momento em vivemos, no qual os professores são tão pouco valorizados. Todo bom professor é tal como um bom pai, se empenha e torce para que seus filhos/alunos sejam melhores do que ele, afinal, se assim não for, a sociedade não progride. 

            Há uma geração de jovens que se auto-afirmam "self made man (woman)", mas, esse discurso é falso, pois, ao longo da vida, todas as pessoas recebem a contribuição de outras, dentre estas, os pais e os professores são as mais relevantes. Este escriba, filho de pequenos agricultores, não teria feito o ensino superior, se este não fosse público. Houve muito empenho de minha parte? Certamente! Mas daí a dizer que "me fiz sozinho", que meus pais ou mestres não tiveram importância, ou não reconhecer o papel da educação pública em minha vida, sendo que representantes do povo no Congresso Nacional compraram brigas homéricas com os representantes do deus Mercado para defender a educação como um direito básico do cidadão, portanto, estabelecendo a obrigatoriedade do Estado Brasileiro em sua universalização na forma pública e gratuita, é uma atitude irrefletida ou desonesta.

            Numa sociedade em que as fake news (tal como o mais contagioso vírus) se propagam alimentando ódio e preconceitos, o magistério não escapa dos ataques de indivíduos que vêm no autoritarismo, no militarismo, na censura e na obstrução da liberdade de expressão o caminho para a preservação de seus injustos privilégios, e para tal, lutam pela manutenção de uma das mais injustas desigualdades sociais do mundo. 

             Apesar de atacarem todo o magistério, voltam suas baterias principalmente contra os professores de Ciências Humanas afirmando serem militantes de esquerda. Isso constitui grande inverdade, não falta no magistério, nem mesmo nas  Ciências Humanas, professores conservadores e defensores do liberalismo econômico. No entanto, é verdade que nesta área, a criticidade é maior, pois, os mestres refletem a partir do chão em que pisam (a realidade vivida). 

                Isso se explica no fato de que o objeto de estudo do profissional de Ciências Humanas é justamente a sociedade (como os indivíduos se organizam e como vivem) e, quanto mais estuda as mazelas sociais, mais humano o profissional se torna. Quanto mais humano, mais se preocupa com os outros e, passa a pautar seus pensamentos e ações visando o bem estar coletivo e, quando faz isso, não vê no campo da direita, soluções para o bem estar coletivo. Não se trata, portanto, de uma doutrinação que sofreu ou que pratica, mas, da insuficiência ou debilidade no espectro político da direita de respostas efetivas para as grandes questões que afligem a sociedade. 

                Assim, na qualidade de cidadão esclarecido e capaz, à frente da urna e em meio a sociedade, sua consciência social o orienta na busca de soluções e estas, como disse, não se encontram à direita, pois nesta, reina o egoísmo e o individualismo e transitam indivíduos que adoram distribuir cestas básicas em épocas festivas (posando de bons cristãos), mas que se escondem por trás do pseudo-discurso da meritocracia e empenham árduos esforços  para que a Justiça Social jamais ocorra, criticam ainda toda exposição ou discussão acerca das mazelas sociais (levadas a cabo pelos espíritos críticos) como pretensa doutrinação que visa alimentar um sentimentalismo barato com fins eleitoreiros. A humanidade é desumana, ainda mais, à direita!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

A humanidade desumana e o papel das Ciências Humanas

 

               Há alguns dia li um post em uma rede social que considerei de uma verdade profunda. Dizia o post que "Educação não é levar o estudante a decorar que Hitler e a política nazista por ele conduzida à frente do Estado Alemão matou 6,5 milhões de judeus, mas, levar o aluno a entender como os alemães permitiram que uma figura como Hitler ascendesse ao poder e como a maior parcela do povo alemão aceitou que o extermínio de judeus era necessário e aceitável. Dizia ainda o post, que uma educação no sentido pleno da palavra era capacitar o estudante a perceber quando um fato do passado começa a se repetir no presente". 

                Numa época em que a propagação de fake news se tornou uma importante ferramenta para a manipulação da sociedade e até mesmo para a eleição de governantes, cada vez mais pessoas que ocupam cargos de liderança ou seus tele-guiados se revoltam contra a área de Ciências Humanas, que, obviamente estuda a humanidade e a forma como esta se organiza em sociedade.

            Tomo como exemplo, a disciplina de Geografia, da qual sou professor, que tem no espaço geográfico o seu objeto de estudo. Sendo o espaço geográfico, o espaço transformado, construído e reconstruído pela sociedade humana, torna-se impossível se referir a tais transformações sem estudar as relações de capital e trabalho investido na transformação das paisagens, suas motivações e grupos beneficiados, bem como o prejuízo ambiental. 

            Sendo o Estado, o agente que de forma direta ou indireta, promove ou estimula as ações de indivíduos e grupos empresariais sobre o espaço, não estudar as políticas de Estado indutoras/estimuladoras das ações de transformação e ocupação/utilização do espaço a torna um saber incompleto ou manco. Da mesma forma, a disciplina de História ao levar o estudante a conhecer e refletir sobre fatos do passado para que este perceba que o país e a sociedade que hoje somos (para bem ou para mal) é resultante de um processo histórico, ou ainda, as disciplinas de Sociologia e Filosofia que estudam a forma como a sociedade se organiza e levam o estudante a refletir sobre o papel do indivíduo em sociedade e o significado da vida.

            Paulo Freire (1921-1997) nos disse que a Educação é a ferramenta mais poderosa que existe, pois por meio do conhecimento, é possível capacitar as pessoas a mudar o mundo. Sabendo disso os opressores/promotores e defensores do atraso social ao longo da história negaram/negam o acesso das classes desfavorecidas ao conhecimento. Dessa forma, consideram haver algo errado, uma inversão da "ordem natural" da sociedade quando os "filhos de porteiros" bem como os afro-descendentes ingressam na universidade. 

            O "cidadão de bem" sente mal estar, um grande desconforto, quando tais pessoas "do andar de baixo", adquirem o conhecimento, pois tornam-se capazes de  vê-lo "nu", ou seja, perceber o seu verdadeiro caráter. Afinal, em nossa sociedade, é algo bastante comum, os acusadores da corrupção, seja ela, política, financeira ou da moral serem pegos com a boca na botija praticando aquilo que tanto criticam. O que realmente importa para essa gente é a aparência e não a essência e, pensam ser sinal de inteligência, o que é na verdade hipocrisia.

            Não falta também quem diga defender os ensinamentos de Jesus Cristo, a pátria, a família, os bons costumes e que sob as vestes desse falso moralismo, se escondem almas que pouco ou nada têm de patriotismo ou de cristãs, pois praticam atos contrários aos que tanto afirmam. Considero de uma hipocrisia muito grande invocar a Jesus e agir de forma inversa aos seus ensinamentos. Não acredito em uma fé (teórica) desprovida de verdadeira prática (atitudes diárias). A Igreja não é um prédio. É a sua forma de ser e viver. Penso que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo deve exercer na Terra o papel que ele faria caso aqui estivesse! E Jesus estaria entre os sem-terras; entre os favelados; entre os sem tetos; entre os desempregados; entre os trabalhadores explorados; entre os pobres; entre os famintos; entre os injustiçados! Jesus era um revolucionário; um contestador do sistema injusto que encontrou na Terra e por isso foi condenado, torturado e morto! Hoje há muitos que se dizem cristãos, mas, que a julgar pelas suas atitudes também estariam entre os que pediriam e comemorariam a condenação de Jesus!

            Enfim, parafraseando Renato Russo (1960-1996) quando disse que "a humanidade é desumana, mas que ainda temos chance..., devemos recuperar a coragem que alguém nos roubou e voltar a acreditar que mudar o mundo é possível...".  Longa vida às Ciências Humanas contra toda forma de opressão e obscurantismo!

sábado, 3 de julho de 2021

Uma nova festa em Paris? Uma reflexão acerca do cenário atual para as eleições majoritárias de 2022

             Ciro Gomes (PDT) ao atacar o Partido dos Trabalhadores (PT) e ao qualificar como uma atitude passional (em contrariedade ao racionalismo), o voto dos eleitores tido por ele como "petistas" nos candidatos da referida legenda nas eleições presidenciais (2018), age exatamente dessa forma, passionalmente. Ciro Gomes, toma uma atitude pouco inteligente e contraproducente ao criticar Lula e os eleitores "petistas", afinal, se passar para o segundo turno precisará do apoio destes. Ao atacar a esquerda, Ciro flerta com a direita, sendo que esta a vê de forma desconfiada e, prefere nomes de raízes mais profundamente ligadas ao conservadorismo político-ideológico. O pré-candidato pedetista, apesar de ser, como já disse, um grande quadro, das duas uma, ou lhe falta assessores políticos competentes ou necessita fazer sessões de Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) para ter equilíbrio emocional, pois em várias ocasiões, como a sua ida à Paris no momento em que o país tanto precisava dele e, em várias falas equivocadas "ao calor do momento" (quando sua passionalidade eclipsa sua racionalidade) põe a perder o fascínio que exerce perante parcela do eleitorado.

            No cenário atual, há muita água para correr sob a ponte que nos leva às eleições de 2022, se Bolsonaro for inviabilizado como candidato, seja por uma eventual e pouco provável condenação num processo de Impeachment (sempre é mais fácil retirar do poder, uma mulher honesta) do que um presidente que joga (inconteste) sob as regras do grande capital nacional e estrangeiro e, que com ele vem emplacando grandes vitórias sobre o país e seu povo (respectivamente com a imposição de perdas patrimoniais nacionais e de direitos trabalhistas). Se Bolsonaro não conseguir se fazer um candidato viável, nem por isso o Bolsonarismo estará derrotado, pois, sua bandeira pode ser encampada por outro candidato do campo conservador. O "partido militar" que provou das benesses do poder não desejará voltar tão cedo para a caserna ou vestir o pijama, além disso, Bolsonaro pode "atear fogo no parquinho", o que preocupa, tendo em vista, a truculência como age parcela de seus fanáticos seguidores e a alta ideologização das forças de segurança. Bolsonaro pode ser derrotado, mas, poderá o Bolsonarismo ser derrotado? Essa é a grande questão! Uma nova eleição de um presidente neoliberal, será a destruição completa e irreversível do tímido Estado de Bem-Estar Social e do rico patrimônio nacional. A eleição de 2022, ocorrerá novamente sob o signo do ódio e das fake news. Penso que deveria haver uma coalizão das forças de esquerda à exemplo da "geringonça portuguesa" em torno do candidato deste campo ideológico que nas proximidades da eleição se encontre mais viável (à frente nas pesquisas).

            Lembro que o gigante Leonel Brizola (1922-2004) cuja falta muito é sentida pela esquerda, teve humildade ímpar ao aceitar ser vice de Lula (PT) nas eleições de 1998. Humildade que falta a Ciro, que,  por suas falas, demonstra que aliança estratégica é tão somente aquela que o coloca como cabeça de chapa, ou seja, não se pode contar com a participação de Ciro Gomes nesta improvável  "geringonça brasileira". Ciro é como aquele carona que entra por último e quer assumir a boléia, ou ainda, como aquele time que deseja ser campeão, mas pede para que as equipes adversárias, não escalem seus principais jogadores para que os confrontos lhe sejam favoráveis, essa é a impressão que tive quando de sua fala sugerindo a Lula não ser candidato ou, de imitar a ex-presidenta argentina Cristina Kirchner, sendo candidato à vice-presidência. Ciro é figura carimbada em todas as campanhas presidenciais, tem esse direito, porém, sua ambição desmedida supera os interesses nacionais conforme entendido pela esquerda e pelos defensores do Estado de Bem-Estar Social e do patrimônio nacional, como passionalmente demonstrou no segundo turno, quando foi a Paris, ao invés de engajar-se na campanha para "tentar" evitar o caos que seria (e de fato foi) a eleição de Bolsonaro. Atualmente, Ciro acena para a direita e, busca conquistar os votos do anti-petismo. Isso não chega a ser surpreendente, afinal, o pré-candidato rodou por inúmeras legendas partidárias de diferentes correntes ideológicas e, não tem uma sólida vinculação à esquerda. É um coringa da política, mas, um coringa sozinho, não ganha jogo! E se os ventos de 2022, lhe forem desfavoráveis? Irá novamente a "Paris"? Seja Paris tomada no sentido figurado (ou não), porém, na concretude do que significa? É a minha dúvida!         

domingo, 27 de junho de 2021

Paris é uma festa! Uma reflexão acerca das eleições majoritárias no Brasil em 2018

                 O leitor acostumado a ler livros clássicos certamente lembrou de "Paris é uma festa" do famoso escritor Ernest Hemingway (1899-1961), informo-o que aqui não há, nenhuma correspondência entre a obra citada (ainda não lida por este escriba) e as linhas aqui escritas. É importante que ao iniciar esta reflexão, eu diga que considero o pré-candidato Ciro Gomes (PDT) à Presidência da República (2022) um grande quadro, pois, é portador de uma sólida formação intelectual e tem uma ampla experiência nos meandros da política e na administração pública. Também é importante deixar claro que, apesar das críticas que tenho para com o pré-candidato, eu o apoiaria no segundo turno contra Bolsonaro ou qualquer outro candidato da direita. Quem acompanha meus artigos, sabe que considero os posicionamentos de caráter público de personalidades (de interesse da sociedade) como objetos de análise, cujas críticas, quando por mim publicadas, ocorrem sempre no "mundo das ideias" e, jamais constituem ataques de caráter pessoal.

             A primeira parte do título é uma ironia à atitude do candidato Ciro Gomes que, derrotado no primeiro turno da eleição presidencial de 2018, não se engajou na campanha de Fernando Haddad (PT), o candidato da esquerda na disputa do segundo turno contra o candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL). O que me incomoda¹ (falo como cidadão que sempre teve Ciro Gomes como plano B) é a decepção que tive quando ele viajou para a capital francesa, apesar dos riscos e dos fortes atrasos sociais e econômicos que a vitória de Bolsonaro poderiam trazer ao país e ao povo brasileiro. Eu senti¹ como se ele, em revanche por não ter sido levado ao segundo turno, desse as costas para o país e consequentemente para o povo. Embora não seja filiado a nenhum partido, nunca escondi de ninguém e, inversamente, sempre fiz questão de deixar claro o meu posicionamento ideológico de esquerda. Não é apenas como um militante da esquerda que me senti¹ ferido, mas, como cidadão. Não consigo digerir tal atitude anti-solidária de Ciro com a esquerda e, acima de tudo com grande parcela do povo brasileiro.

            Em sua defesa, integrantes da "equipe Ciro Gomes" afirmam que Lula e o PT nunca foram solidários com o candidato pedetista. Penso que faz parte do jogo político, no primeiro turno, apoiar candidatos cujo projeto se considera o mais próximo (ou menos distante) do ideal almejado, mas esta não é a realidade do segundo turno. No segundo turno, deve haver a união de forças em favor do projeto de linha ideológica minimamente palatável (ou menos nefasta) sobrevivente. Ciro para receber a solidariedade, o apoio que tanto deseja de Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT) e dos demais segmentos da esquerda, precisa fazer-se viável e chegar ao segundo turno (algo que até aqui não fez, pois não ultrapassa nas votações a marca de 12%). Quanto ao segundo turno de 2018, caso Ciro (o tivesse alcançado e) fosse o candidato opositor a Bolsonaro, não tenho dúvidas de que teria o apoio maciço da esquerda, a qual se esforçou em evitar a catastrófica eleição de Bolsonaro. O que fez Ciro Gomes? Foi a Paris, dando a impressão de dar "uma banana" para os petistas e, para o povo que não o levou ao segundo turno. É difícil dizer se o engajamento de Ciro Gomes na campanha da esquerda poderia ter evitado a trágica ascensão de Bolsonaro ao Planalto, possivelmente não, porém, Ciro teria tido uma atitude digna e ganho pontos perante os eleitores opositores à extrema-direita bolsonarista.

            Ciro Gomes e seus apoiadores também alegaram que a atitude de neutralidade ante a disputa Haddad  e Bolsonaro seria a mais coerente, tendo em vista as críticas que tinha às gestões dos petistas enquanto no poder estiveram, em especial, ao governo de Dilma. Penso que não há como considerar coerente uma postura de neutralidade quando a disputa ocorria entre Haddad e Bolsonaro. É importante frisar: a disputa era Haddad x Bolsonaro, ou seja, contra Bolsonaro e todo o atraso socioeconômico que ele representava. Como cidadão, digo que Ciro falhou não apenas com a esquerda, mas, com parcela expressiva do povo brasileiro que temia pela eleição de Bolsonaro e, hoje paga um elevado custo com a política de destruição do Estado de Bem-Estar Social levado a cabo pelo Governo Bolsonaro que precariza as condições de vida dos trabalhadores e no plano internacional, destrói a imagem do país perante as nações.

1. Leia-se: Sentimento correspondente ao de grande parcela dos eleitores da esquerda opositores a Bolsonaro.

domingo, 20 de junho de 2021

Todo dia

 

      

 Nestes tristes e obscuros tempos que vivemos, nunca antes a palavra empatia foi tão citada como a necessidade mais premente na sociedade brasileira. Além de todos os problemas que perfazem o cotidiano da população de um dos países mais injustos do mundo no que concerne à distribuição de renda, ainda temos o agravante da pandemia de Covid 19. Nunca a empatia foi tão necessária como agora. Em nosso país, não foi por mero acaso que o discurso do ódio elegeu seu atual presidente, mas, por evidenciar nossas raízes históricas que remontam ao período escravocrata. O ano de 1888 ficou para trás no tempo, porém, o preconceito e a desigualdade de oportunidades foram cuidadosamente acondicionados na bagagem a ser enviada para o futuro e, aos dias atuais chegaram, pois, ao longo da história, sempre que algum governante ou grupo político tentou mudar nossa triste sina, teve a oposição das elites no afã de proteger seus injustos privilégios alegando de forma falsa e perversa serem frutos de seus  supostos méritos.

            É a população negra (juntamente com a indígena), a mais pobre e discriminada deste país. Aos preconceitos étnicos, se somam vários outros contra as pessoas que ousam pensar e/ou agir de forma diferenciada daquela considerada padrão, portanto aceitável para a mentalidade alienada de parcela expressiva da população. Escrevo estas linhas, refletindo sobre o chão onde meus pés pisam, mas, sei que o que escrevo, também se aplica de forma parcial, a uma importante parcela da humanidade. Afinal, esta, em todos os países, deu tristes mostras ao longo da história, de sua forma doentia/perversa de pensar e, muitas vezes de conduzir a sociedade. O genocídio contra o povo judeu, mas, também contra os povos originários (indígenas) do continente americano, do povo negro nas colônias implantadas no continente africano e além-mar são mostras disso.

            A palavra empatia talvez seja desconhecida de muitas pessoas, mas, não seu significado, afinal, nossos avós já diziam que "uma pessoa não pode julgar a outra, sem colocar-se no lugar dela". Este é o significado de empatia, que numa busca ao dicionário, encontra-se assim definida: 1. Psicol. Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa. 2. Psicol. Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem. 3, Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura. Também há a referência a três características da empatia: 1. Cognitiva: Entender o ponto de vista do outro; 2. Emocional: Compartilhar os sentimentos do outro; 3. Compassiva: Perceber que o outro precisa de ajuda e colocar-se à disposição.

            Neste sentido, o escritor estadunidense David Levithan (1972 - ) publicou uma obra com uma premissa original. No livro "todo dia", a personagem "A" não tem um nome definido, sequer um gênero definido, ou ainda, um corpo definido. Todo dia "A" acorda num corpo diferente, independentemente de sua condição de gênero, etnia, classe social, saúde, etc. Penso que a personagem "A" pode ser entendida como uma entidade ou, uma alma/espírito, nessa condição, sente as alegrias e as tristezas inerentes a cada pessoa cujo corpo ocupa durante 24 horas e, ao dormir acorda em outro corpo. "A" nunca teve um corpo próprio ou uma família própria e ao ocupar os corpos de diferentes indivíduos, pode entender as pessoas de uma forma não possível aos indivíduos comuns, pois, é capaz de verdadeiramente se colocar no lugar destes. Afinal, ter empatia com os negros, os indígenas, os pobres, doentes (depressivos), os homossexuais, os que sofrem perseguição ideológica, étnica ou religiosa, etc. é um esforço de abstração e, apesar das boas intenções, jamais sentiremos com a intensidade devida o que é "estar na pele do outro". David Levithan escreveu esta obra primeva, com a qual auxilia os leitores na reflexão e na prática da empatia. A obra não é perfeita, o que é perdoável, dada a dificuldade do tema e de como explicar tal poder/dom da personagem "A" que embora "viva" de forma surreal, apenas passa a desejar uma forma de vida comum com direito a um corpo, família e história de vida simples, quando se apaixona por Rhiannon. Esse livro é direcionado às pessoas jovens e/ou de mentalidade aberta e, principalmente, àquelas que têm ou procuram desenvolver a empatia. Se não é o seu caso,  a leitura desse livro pode lhe trazer dissabores.

P.S. A obra foi adaptada para o cinema com o mesmo título. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

 

Título da obra: todo dia

Autor: David Levithan

Editora/Ano: Galera Record: 2020, 13ª ed.; 279 p.

domingo, 13 de junho de 2021

Copa do Mundo 2014 x Copa América 2021 e a mudança da conjuntura

 

            Em junho de 2013, o país foi tomado por manifestações de grande vulto. O estopim de tais manifestações foi o aumento de R$ 0,20 na passagem do transporte coletivo no município de São Paulo. O Movimento Passe Livre (MPL) que luta pela tarifa zero para estudantes, por meio de chamadas no Facebook e de mensagens de WhatsApp, organizou e chamou  manifestação e, as pessoas que pretendiam participar, chamaram mais gente. É importante que se diga que as lideranças do MPL tinham naquele momento uma bandeira definida: a revogação do reajuste do transporte coletivo. No entanto, sua iniciativa e manifestações foram cooptadas por indivíduos e grupos com bandeiras que eram as mais diversas, muitas incongruentes. Não havia uma unidade ideológica nas manifestações, todo mundo estava aproveitando para surfar aquela onda, sejam pessoas ligadas à ideologias/partidos da extrema direita, até a extrema esquerda com objetivos diversos, pois,  até manifestantes "da direita" hipocritamente pediam mais Estado (melhoria dos serviços públicos) a fim de conquistar apoio popular e causar desgaste no governo Dilma (PT).

            A grande mídia demorou a entender o significado dos protestos que possuíam bandeiras tão diversas e, por seus hábitos reacionários, sem pensar muito, os atacou. A TV Globo (cujo caráter reacionário é desnecessário apresentar) fez um papel ridículo ante o olhar do mundo, pois, em 72 horas passou da forte crítica às manifestações ao apoio declarado como estratégia de desgastar o Governo Federal. Fez isso visando influir nas eleições majoritárias do ano seguinte, inclusive chamando panelaços no horário nobre do Jornal Nacional, os quais transmitia ao vivo em rede nacional. É importante que se diga, que os governos de Lula e Dilma não realizaram as transformações estruturais necessárias para o país. Dilma errou ao tomar medidas de aprofundamento neoliberal em seu governo. No entanto, nenhum governo na história nacional fez mais pela população pobre desse país do que os capitaneados pelo Partido dos Trabalhadores. E isso não pode ser esquecido. É verdade que os governos de Lula e Dilma, deram continuidade ao neoliberalismo, nem por isso, foram traidores. O PT é um partido de centro-esquerda (social democrata), nunca espere que ele vá capitanear uma guinada rumo ao socialismo.

            Enfim, no que concerne, ao apoio de parte da esquerda à Copa do Mundo de 2014 e a atual posição de contrariedade da mesma à realização da Copa América 2021, não há, nenhuma contradição. Basta retomar Marx (1818-1883) quando disse que "a ciência seria desnecessária se a aparência coincidisse com a essência" e não ficar na aparência das coisas. O contexto é totalmente diverso. O Brasil foi um país que encantava o mundo e o mundo o queria ouvir. A CIA em seu relatório decenal, projetava a ascensão do país ao status de potência intermediária em 2020 e confirmou isso em seu documento para 2025 (mas, infelizmente os ventos mudaram). O Brasil chegou a ser a 6ª economia mundial (hoje é a 12ª), houve a ascensão socioeconômica de 40 milhões de brasileiros (infelizmente, boa parte deles, voltaram para os níveis de pobreza anteriores) e a sociedade do pleno emprego deu lugar a uma multidão de desempregados cujo índice chega a assombrosos 14%. O Brasil, à época, aumentou os investimentos em educação e saúde. Na educação (criou várias universidades federais e escolas técnicas) e na saúde, construiu hospitais, criou o SAMU e aumentou enormemente o número de leitos em UTI's.

             O país que contava com uma infra-estrutura sem grandes investimentos desde o período militar e que passou pelo apagão energético do período FHC, construiu novas usinas e fez a transposição do Rio São Francisco, além de inúmeras obras de infra-estrutura. Havia um projeto de alçar o Brasil ao palco seleto das grandes nações. A construção de estádios, foi feita por meio de incentivos (renúncias fiscais) e de empréstimos dos clubes junto ao BNDES, que estão retornando ao mesmo (com juros) o capital emprestado, ou seja, não foram investimentos a fundo perdido. Nas construções de tais obras, a economia foi estimulada e houve a geração de milhares de empregos. A conjuntura atual, no entanto, é de um apequenamento do país que foi alçado à condição de pária mundial. O neoliberalismo reina absoluto no Planalto. O tímido Estado de Bem-Estar Social está sendo desmontado. Os serviços públicos (saúde e educação) são precarizados e seus recursos para manutenção, reduzidos a cada ano. A precarização é uma estratégia para a implantação do Estado Mínimo para o povo e do Estado Máximo para o Grande Capital. Enfim, São contextos totalmente diferentes e, além disso, atualmente, há o forte agravante da pandemia. Desconsiderar as diferentes conjunturas de cada momento histórico é fazer uma análise rasa, é ficar na aparência das coisas, pois, nem o conhecimento, nem a verdade, se encontram aí.

sábado, 5 de junho de 2021

A importância de colocar o livro em sua vida e em seu devido lugar

            Há uma frase do ativista, escritor, diretor e produtor José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), popularmente conhecido como Monteiro Lobato, autor (dentre outras obras) de "Sítio do Pica-pau Amarelo". A frase: "Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê". Monteiro Lobato foi certeiro em sua constatação. A leitura é um ato indissociável da escrita elegante e da boa fala, além disso, a leitura abre os olhos da alma e, assim, as pessoas tornam-se capazes de entender a essência de um texto, de uma obra audiovisual, da vida em sociedade no âmbito local, nacional ou global. 

            Todas as pessoas possuem cultura e esta não é obtida apenas pela posse de um ou vários diplomas, pois, conforme um colega professor costuma afirmar: "diploma não encurta orelhas". Apesar dos esforços na universalização da educação pública, o país ainda apresenta uma multidão de onze milhões de pessoas analfabetas (6,6%), o que equivale a população do Estado do Paraná. Vários de nossos países vizinhos (com economias menores) possuem índices praticamente zerados e, isso é a demonstração de um dos efeitos da monstruosa desigualdade social brasileira (8ª nação mais injusta do planeta).

          Se ao elevado número de pessoas analfabetas acrescermos os números referentes ao analfabetismo funcional (29%), a situação torna-se ainda mais grave. Os analfabetos funcionais são a parcela da população que tendo cursado a Educação Básica completa e, até mesmo a Universidade, apesar de saberem ler, não conseguem ou têm grandes dificuldades na interpretação de textos simples e na identificação da ideia central destes. Também são incapazes de fazer operações matemáticas simples ou elaboradas. 

            Os professores da Educação Básica têm grande dificuldade em fazer com que os estudantes leiam obras de literatura. Essa dificuldade também é encontrada na Universidade. Embora se fale que as pessoas estão lendo mais por causa da Internet, estas muitas vezes acessam redes sociais e sites nem sempre confiáveis, enfim,  a qualidade do que se lê é fundamental para a elevação do nível cultural da população. E o livro é fundamental para isso. Infelizmente, não raramente, ouvimos e/ou lemos comentários de pessoas que afirmam nunca mais terem lido livros após deixar os bancos escolares ou universitários.

        Monteiro Lobato, já citado, também cunhou outra frase emblemática acerca da importância da leitura de livros, disse ele: "Uma nação se faz com homens e livros". Também aqui acertou, a mudança que queremos para o Brasil, começa em nosso íntimo e, precisamos estar à altura do país que queremos ser. Um país se faz com cidadãos melhores, conscientes, críticos, solidários e honestos. Lembro de um estimado professor das séries finais do Ensino de 1º Grau (atual Ensino Fundamental) que nos dizia sempre: "Para cada coisa, um lugar e,  cada coisa em seu lugar". É necessário que as pessoas entendam que colocar o livro em suas vidas e, em suas casas, não dói, o que dói é  viver e não conseguir "ler" o mundo em que se vive.

            Foi ao lembrar a frase de meu professor que surgiu a ideia desse artigo. Tenho amigos que vivem com o dilema sobre como organizar a estante de livros,  sempre se questionando se devem fazê-lo por ordem alfabética (autor) ou, por área do conhecimento. Visando a praticidade, criei dois arquivos no computador: um por ordem alfabética (com o devido número de registro do livro) e outro arquivo com a ordem numérica. Mandei fazer um carimbo no qual há o número de registro do livro e com o qual carimbo cada livro. Os livros são organizados na estante de acordo com a ordem numérica e sempre com o mesmo sentido do título na lombada (mas não é TOC, viu!?). E quando preciso, consulto o arquivo alfabético para saber se tenho determinada obra de um autor e vejo sua ordem numérica para localizá-lo na estante. Não é necessário registrar duas vezes, pois, o arquivo numérico gera o arquivo alfabético. Na verdade, cada arquivo digital possui as duas informações, o que muda é o modo de busca, numérica ou alfabética. Tenho cópia do arquivo alfabético no celular, isso evita que eu compre livros que já possuo, como no passado ocorreu. Nesses arquivos, registro também os livros lidos (mês/ano) e os não lidos (em negrito). Simples assim. Penso que só precisa ser funcional para mim. E meus livros, embora tenham argumentações diferentes, convivem bem na estante, não preciso separá-los por afinidades, entre eles, não há inimizades.