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sábado, 20 de fevereiro de 2021

O uso da máscara como demonstração de civilidade

 

              O ser humano é um ser social. E reside nessa característica, o fato do homo sapiens sapiens (o homem atual) não ter se tornado mais uma das inúmeras espécies extintas. Li certa vez que o indivíduo do gênero homo se tornou humano de fato quando começou a cuidar dos seus feridos. Até então, quando um indivíduo quebrava uma perna numa caçada era abandonado para morrer. Os antropólogos e arqueólogos encontraram muitos esqueletos com ossos calcificados. Os demais integrantes do bando cuidaram do ferido até que ele se recuperasse. Esses são os primeiros sinais de solidariedade, de compaixão, de cuidado com o próximo, enfim, os primeiros sinais de humanidade, de civilidade. A palavra civilidade tem como significado o conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, cortesia, polidez.

            A civilidade é que nos permite viver em sociedade com um grau menor de atritos. Contribuiu para que esse objetivo fosse alcançado as inúmeras regras e leis propostas e impostas pelos poderes constituídos. Há mulheres e homens que não têm pudor em expor seus corpos e, o fazem em vestiários de clubes ou praias de nudismo, no entanto, nenhuma destas pessoas cogita sair nua às ruas das cidades. Elas sabem que existem leis a proibir tal atitude e que isso causa mal estar às pessoas da sociedade. Neste momento de pandemia, há leis que obrigam todas as pessoas ao sair às ruas ou ao adentrar em ambientes públicos para que utilizem máscaras visando a  prevenção da transmissão da doença. A não utilização da máscara causa mal estar às demais pessoas, tenha civilidade. Obedecer a lei é também respeitar o próximo. Soube por algumas pessoas que em algumas lojas em nossa cidade, chefes e funcionários não usam máscaras. Afirmaram-me que lá não voltarão, pois, se sentiram desrespeitadas. Se muitas pessoas adotarem tal atitude, essas casas de comércio terão menos clientes.

            Vejo mulheres que utilizam máscaras lindas para compor o figurino, nada tenho contra, mas, lembrem-se que elas precisam ser funcionais, ou seja, barrar o vírus, afinal, este também atinge quem está com um belo visual. Digo isso porque vi algumas mulheres, cujas máscaras eram bonitas, mas, que me suscitaram sérias dúvidas se aqueles paninhos tinham alguma eficácia contra o vírus e, fiquei com receio que logo aparecessem com máscaras de crochê. Vi pessoas utilizando a máscara apenas na boca, deixando o nariz a descoberto. Sei que não temos em nosso país uma democracia plena, mas, não há no momento a imposição da mordaça e, sim, da máscara, uma vez que o contágio ocorre principalmente pelo nariz. Também vi pessoas utilizando a máscara no pescoço, sei que nossa cidade tem muitos gaúchos e seus descendentes e que o lenço é um belíssimo acessório, porém, também os gaúchos e seus descendentes são atingidos pelo vírus. Outras pessoas utilizam a máscara como brinco em uma orelha, eu particularmente, considero mais belos os brincos em ouro e prata, mas, sei que gosto é algo individual, porém, a máscara pendurada em uma orelha apenas não tem eficácia para barrar o vírus. Há pessoas que quando precisam falar retiram a máscara, sei que a máscara é desconfortável, mas, saiba que se fala mais pelas atitudes do que pela oratória, não exponha a si e aos demais a risco. Há quem faça refeições com parentes, amigos e companheiros de trabalho, momento em que ficam próximos e sem máscaras. Lembrem que o vírus é muito sociável e adora aglomerações e que ele não dá pausa para que as pessoas façam suas refeições sossegadas. Se você já teve a doença, tenha em mente que muitas pessoas foram contagiadas novamente e, até com maior gravidade. A doença é nova e a ciência ainda tem muitas dúvidas. E embora você se sinta seguro, outras pessoas se sentem inseguras e desrespeitadas ante você que não utiliza máscara nas ruas ou em ambientes públicos. Tenha empatia, utilize a máscara.

            Enfim, para vencermos a pandemia, civilidade é a palavra de ouro, afinal, usar a máscara é sinal de cuidado, de respeito e, de que você quer vencer a pandemia e deseja que as demais pessoas estejam vivas quando tudo isso passar e, vai passar.

P.S. Desculpe o tom irônico desse artigo, assim fiz, para melhor fixar a mensagem que visa o bem comum.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Os movimentos sociais e sindicatos como fermento da democracia

 

          Há quem não goste dos movimentos sociais e sindicatos afirmando serem barulhentos. Entendo estas pessoas. É de sua natureza defender a paz dos vencidos ou seja, a humilhação, a resignação, o "cala a boca" imposto aos oprimidos. Neste espaço, mais de uma vez citei Simone de Beauvoir (1908-1986), a quem novamente recorro para contextualizar de forma inconteste: "o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". Engana-se quem pensa que os opressores são todos da classe privilegiada. Há muitos analfabetos políticos na sociedade. A falta de consciência de classe é que permitiu que se construísse o Brasil tal como é, um gigante com pés de barro e, que de tal forma se mantém como um dos países mais injustos do planeta. Digo que todo movimento social ou sindicato precisa fazer muito barulho para sair da invisibilidade imposta aos oprimidos. Se não faz barulho, não está cumprindo sua função social.

            A função social dos movimentos sociais e dos sindicatos é dar voz a quem é negado o direito da fala (os oprimidos, injustiçados e invisibilizados) e colocar na pauta das autoridades (mesmo a contragosto destas), as necessidades, as reivindicações de quem também é povo, mas, que muitas vezes é tratado como se nem ser humano fosse. É compreensível, mas, não justificável, o ódio dos opressores, dos amantes do autoritarismo que odeiam quem lhe tira a paz. A paz de ter o Estado, a economia e a política voltada para a manutenção de seus privilégios. Essa gente, para defender os seus injustos privilégios, é capaz de destruir um país, sacrificar-lhe o seu futuro para que o ordenamento social permaneça. É a mentalidade de senhor de escravos que em sua elite permanece apesar de o regime escravocrata oficialmente não mais existir, embora ainda hoje se encontre trabalhadores em situação análoga a de escravidão no país. "A nossa bandeira nunca será vermelha" foi uma frase muito falada em manifestações de pessoas reacionárias cujo significado é: a "Casa Grande" (Palácio do Planalto/Governo) jamais será pisada por pés de escravos (trabalhadores) ou, os trabalhadores jamais governarão/ditarão os rumos de nosso país, ou ainda, "o país é nosso (da elite). Calem-se!"

            Eu costumo dizer que os movimentos sociais e os sindicatos são "o fermento da democracia". Em países com tradição autoritária como o nosso, cujos períodos democráticos são hiatos entre ditaduras, sua importância se reveste de maior significado. A elite (financeira e cultural) está sempre pronta a fazer contrarrevoluções quando vê o seu controle sobre os rumos do país minimamente ameaçado pelo avanço da democracia. Ela não não é patriota. Se para ter uma sociedade de consumo de massa (de maior poder aquisitivo) implica dar voz e vez aos trabalhadores, prefere ver o país no atraso e, não tem escrúpulos em sabotar o desenvolvimento nacional e, entregar nossas riquezas para o grande capital estrangeiro para preservar o ordenamento social. A preservação deste é obtido por meio de representantes a seu serviço nos poderes Legislativo e Executivo porquanto eleitos com seu dinheiro e, da parceria com membros do Poder Judiciário, geralmente oriundos da elite cultural que busca preservar seus privilégios. A elite, como disse, não é patriota, apesar disso utiliza os símbolos nacionais para conquistar a simpatia dos distraídos, assim, como muitos corruptos não param de criticar a corrupção (dos outros). Trata-se de uma gente moralista e sem moral. A ela não interessa o desenvolvimento nacional, a construção de uma sociedade com justiça social, o fortalecimento da democracia. O que interessa realmente é a manutenção de seus injustos privilégios. A democracia é sempre de baixa intensidade quando a desigualdade social é extrema. E o Brasil, como tal, para o espanto das nações se mantém como "a potência do futuro", porém, esse futuro teima em nunca chegar. As elites (do capital financeiro e do capital cultural) são ardilosas e unidas, porém, enquanto houver movimentos sociais e sindicatos haverá esperança de que a democracia e a justiça social se implantem de fato e, é isso que as elites buscam evitar namorando o fascismo. Como nos ensinou Eduardo Galeano (1940-2015): "preservemos nossas utopias, por mais inalcançáveis que nos pareçam, elas nos ensinam a não ficarmos parados". Longa vida aos movimentos sociais e aos sindicatos!

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Volta às aulas presenciais sem vacinação: o troféu do negacionismo

 

           A forma como parte da sociedade está agindo durante a pandemia em curso evidencia que a humanidade nada aprendeu com a história. É incrível a semelhança do que vivemos atualmente se comparado com o período da gripe espanhola. O negacionismo acerca da doença e de sua gravidade. As pessoas de "saco cheio" (desculpe a expressão) querendo a volta da normalidade à força e o abandono do distanciamento social e do uso da máscara em plena segunda onda da doença. Foi justamente nesse momento que a doença se propagou de forma mais intensa e mortal. Naquela época (como agora), as recomendações das autoridades da saúde, tidas pelos negacionistas como alarmistas, foram ignoradas e como consequência, as equipes encarregadas de recolher os mortos nas casas (os hospitais estavam lotados) para sepultá-las, ficaram sobrecarregadas e demoravam a passar, dessa forma, as famílias se viram obrigadas a colocar seus mortos na rua (por motivos óbvios).

            Em época de pandemia, a normalidade não pode ser obtida à força. Ignorar a doença, sua forma de propagação e as consequências dela resultantes põe abaixo todos os esforços das autoridades científicas, médicas e políticas que, lúcidas e responsáveis buscam contê-la. Infelizmente a pandemia e a vacina foram ideologizadas. Houve inúmeros posts em redes sociais alegando que o vírus da Covid19 fora fabricado em laboratório pela China. Algo já desmentido por importantes geneticistas europeus e estadunidenses que afirmam que o vírus teve uma mutação natural que favoreceu a infecção em seres humanos. No que concerne às vacinas que estão sendo desenvolvidas, estas são fruto de um esforço gigantesco de laboratórios (privados nacionais ou multinacionais / estatais) em parceria com os governos de alguns países. Considero surreal que as mesmas pessoas que criticam e afirmam que não tomarão vacinas produzidas por comunistas (China) utilizam aparelhos tecnológicos (pelos quais têm verdadeira adoração) também produzidos no país asiático. Pode-se afirmar que no caso da vacina, envolve a saúde, mas, porque não se preocupam com os alimentos altamente contaminados por agrotóxicos (muitos proibidos no exterior e liberados no país)? Se a questão é ideológica, também há marcas e insumos chineses!

            No país do negacionismo e das fake news, muitos são os que pretendem restaurar a normalidade à força, sendo a volta às aulas presenciais, o maior troféu. Um internauta publicou um post em uma rede social, o qual considero muito acertado, disse ele: "há dois tipos de pessoas a saber: As que acreditam que as crianças e adolescentes seguirão os protocolos de segurança para evitar o contágio e as que de fato conhecem uma escola". A pandemia demonstrou que o ensino presencial é mais eficaz do que o EAD (ensino à distância) e que nenhuma tecnologia substitui o professor. A corroborar o fracasso do modelo, não faltaram estudantes a afirmar que aprenderiam mais se estivessem em classe com seus professores. Quanto aos professores, estes não ficaram em casa recebendo sem trabalhar como publicado pelos propagadores de fake news e multiplicado por pessoas desinformadas ou de má fé.  Os mestres tiveram sua carga de trabalho triplicada com a preparação de atividades, trabalhos e provas e também a correção das mesmas no modelo virtual e impresso, e, inúmeras atividades burocráticas de registro, além do acompanhamento e auxílio remoto aos estudantes sem conhecer horário ou dia da semana. Apesar de suas deficiências, o EAD foi a solução possível diante da pandemia, afinal, não havia e não há condições para o retorno às aulas presenciais, pois, estas poriam/porão em risco a comunidade escolar (estudantes e profissionais da educação e os familiares de ambos). Em se retornando às aulas presenciais, os estudantes serão vetores importantes na propagação da doença, tendo em vista que, neles os sintomas muitas vezes não se manifestam, com a ressalva de que não estão isentos de riscos, afinal, em todo o mundo, crianças e adolescentes também estão entre as vítimas. Especialistas acreditam que colocar vinte alunos em uma sala de aula implica na interação entre 808 pessoas, das quais uma ou algumas podem estar infectadas e contaminar outras. Nesse momento, em que a vacina ainda não chegou à comunidade escolar, sensatez é o mais importante, conhecimento se pode recuperar, a vida não!

sábado, 23 de janeiro de 2021

Opiniões e opiniães - parte 2

 

               No passado, pesquisas foram realizadas para verificar se a inteligência incomum de pessoas que se destacaram na sociedade seria transmitida geneticamente. Houve então o acompanhamento de jovens cujos progenitores foram considerados gênios e o resultado encontrado demonstrou que, na quase totalidade dos casos, os filhos tinham Q.I. dentro dos padrões normais, ou seja, eram apenas medianos. 

            A resposta não estava no DNA e nem nas estruturas cerebrais de tais gênios. Enfim, a genialidade se expressa em indivíduos (independentemente de gênero, etnia ou classe social) sem que a ciência tenha pleno conhecimento dos fatores desencadeadores, mas, sabe-se que são vários e particulares. O ambiente contribui para isso, porém, não determina, pois, surgiram gênios em ambientes que em nada contribuíram para o seu intelecto e, pessoas medíocres em locais onde se respirava ciência e cultura. 

              É natural que uma pessoa em seu processo de desenvolvimento cognitivo cometa erros. Afirma-se que se aprende mais com os erros do que com os acertos, no entanto, para aprender com os erros é necessário que a pessoa tenha humildade. A humildade não é característica da personalidade dos "doutores de Facebook"* que sustentam suas "verdades" ante as mais sólidas provas contrárias.

             A genialidade não é transmitida pelo DNA e nem mesmo o ambiente a determina,  mas, geralmente é fruto de muito esforço. A burrice por sua vez é fruto da preguiça de pensar, de refletir, de buscar outras fontes, de livrar-se de pré-conceitos. Em sua arrogância, os "doutores de Facebook", no que concerne ao conhecimento, acreditam que são como o copo cheio a transbordar, porém, ignoram que seu copo transborda porque está invertido e encontra-se vazio!

            O intelectual estadunidense Noam Chomski disse com razão: "as pessoas já não acreditam mais nos fatos". A interpretação dos fatos vale mais do que o fato em si e, se o que importa é a interpretação, então, escolho a interpretação que melhor me aprouver. Há alguns dias William Bonner (apresentador da TV Globo) disse em rede nacional de TV que, todo jornalista no exercício de sua função, tem como missão trazer a verdade para o seu público, porém, indivíduos irresponsáveis acessam as redes sociais e espalham fake news e que eles (jornalistas sérios, no exercício de sua profissão) se sentiam como se estivessem esgrimindo com loucos". Bonner em parte tem razão, afinal, é verdade que as redes sociais possibilitaram a qualquer indivíduo ou grupo, de forma irresponsável lançar fake news e, colher os dividendos políticos dessa ação, porém, não foram as redes sociais pioneiras na utilização de fake news com fins políticos.

            A mídia tradicional, por sua trajetória, não pode se arvorar isenta, pois, trilha esse caminho desde sempre, omitindo, distorcendo e interpretando os fatos como lhe é mais conveniente e, dessa forma, construindo mitos, destruindo reputações, propagando a sua visão de mundo e de sociedade e, impondo sua pauta (da classe social de seus proprietários) para o governo de plantão, enfim, elegendo e destituindo governantes e ditando os rumos do país. 

            No entanto, a mídia tradicional precisa preservar um pouco de sua credibilidade, os sites de fake news, nem isso, pois, seus seguidores agem como "irmãos de fé" e as fake news são tratadas como dogmas que não podem ser questionados sob pena de serem acusados da heresia dos tempos pós-modernos a saber: de serem comunistas, esquerdistas, petistas, etc. 

            Os sites de fake news, convertidos em templos fundamentalistas do conservadorismo e de tudo o que há de mais retrógrado na sociedade, possuem redatores que sabem o que as pessoas querem ouvir/ler e, com isso as manobram para a direção desejada, para tal, beneficiam-se do baixo nível de discernimento crítico e do excesso de preguiça de seus seguidores para buscar fontes confiáveis de informação. Não à toa, uma pesquisa internacional verificou que a população brasileira é a segunda com o pior desempenho em percepção da realidade, ou seja, o que pensa, não corresponde aos fatos. Para concluir, evoco novamente Noam Chomski quando afirmou: "A população geral não sabe o que está acontecendo, e nem sequer sabe que não sabe".

* Leia-se "doutores" de redes sociais e sites de fake news.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Opiniões e opiniães - parte 1

 

                  O intelectual italiano Umberto Eco disse que "a Internet deu voz a uma legião de imbecis", basta abrir algumas páginas de notícias, analisar o teor das discussões dos leitores e constatar a veracidade de sua afirmação. Há "doutores de Facebook"* para tudo, seja no futebol, na economia, na educação, na medicina, etc., aos quais parece dispensável os longos anos de estudo de centenas de artigos científicos, livros e infindáveis aulas e palestras na formação superior e na pós-graduação, pois em sua arrogância, consideram-se portadores de um "notório saber". 

            O sujeito vai consultar um médico e determina para este, o remédio que deseja tomar (Cloroquina e/ou Ivermectina), mesmo com o médico (que estudou muitos anos para se formar) afirmando a ineficácia destes remédios para Covid, em pesquisas científicas em todo o mundo. Qualquer pessoa sensata e educada teria humildade para reconhecer que o médico estudou muito e, deve saber mais sobre o tema, não é o caso dos "doutores de Facebook"*. Há casos em que, na discordância do diagnóstico a ser registrado em atestado médico, houve até tentativas de agressão física a profissionais de saúde. 

                Na mesma linha, há pessoas que nunca questionaram a origem das vacinas que tomaram a vida toda e, agora o fazem nesse momento angustiante e crítico da pandemia. Lembramos, então, das aulas de história sobre a "revolta da vacina" em que pensávamos: "como eram burros". Não sabíamos que, em pleno século XXI, em meio a uma pandemia, teríamos um movimento anti-vacina alimentado por fake news. Os "doutores de Facebook"* questionam a eficácia e a segurança das vacinas desenvolvidas por importantes e renomados laboratórios científicos do mundo todo, mas, nada falam sobre a segurança dos alimentos que vão para a sua mesa, produzidos com a utilização de agrotóxicos proibidos em grande parte do mundo.

            No mundo paralelo em que vivem os "doutores de Facebook"*, as soluções são sempre simples, falta apenas a vontade de fazer. Afirmam: "O Brasil, para ser respeitado e exercer a sua soberania de forma plena, precisa construir a bomba atômica. E para isso, basta solicitar aos deputados que alterem a Constituição Federal (1988) que proíbe a confecção do artefato e construí-la. De posse da bomba, nunca mais outras potências nos dirão o que fazer com a Amazônia". Esquecem/ignoram que, no governo FHC o Brasil assinou o tratado de não proliferação nuclear junto à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA - ONU). Por ele, o país se obriga a se submeter a inspeções regulares dessa agência. O país também assinou acordo recíproco de inspeção e de não confecção de tais artefatos junto a Argentina. Há câmeras que transmitem 24h/dia via Internet (para a AIEA e para a Argentina) tudo o que se faz dentro de nossos laboratórios de pesquisa nuclear.

                O país pode fazer pesquisa nuclear somente para fins pacíficos (medicina e energia atômica). A produção da bomba atômica não é algo que um país consiga manter sigilo. Se rompesse o tratado, ao Brasil seriam impostos embargos econômicos e políticos (Soft Power) determinados pelos EUA e/ou ONU. Nesse cenário, os demais países deixariam de comprar/vender produtos do/para o Brasil. O país se veria numa crise econômica sem precedentes (já estamos mal, imagine com embargo econômico). Os Estados Unidos fariam ataques cibernéticos para atrasar nosso programa nuclear e, se insistíssemos, utilizariam drones para eliminar nossos principais cientistas e poderiam fazer bombardeios de nossos laboratórios de pesquisa e centrais nucleares (Hard Power). 

                Nesse ínterim, a Argentina (por receio do Brasil) retomaria o seu programa de construção da bomba atômica (que encontrava-se mais avançado quando foi suspenso). O Chile, por receio da Argentina, também faria algo nesse sentido. Enfim, a situação se tornaria caótica na América do Sul, algo que não interessa à ONU, nem aos EUA, que considera a América Latina como seu quintal desde a Doutrina Monroe. Enfim, parafraseando Garrincha quando se referiu ao selecionado russo na copa de 1958, para fazer a bomba atômica, "primeiro teríamos que combinar com os americanos".

* Leia-se "doutores" de redes sociais e sites de fake news.

sábado, 9 de janeiro de 2021

A importância da leitura e da análise do que se lê (2020)

                O ano de 2020 foi bissexto (366 dias), mas, pareceu durar uma década. Foi um ano louco e exaustivo do ponto de vista físico, mental e emocional. Como os dias eram de angústia (pandemia), foquei mais na literatura, deixando um pouco de lado os livros técnicos, me adaptei e mantive minha média anual de leituras. Costumo ler na casa dos setenta livros (pouco mais ou pouco menos), em 2020, li sessenta e sete. Algumas pessoas perguntam como consigo e, digo que não é nenhum feito, pois, conheço gente que lê bem mais que isso. Estabeleço metas diárias de leitura com no mínimo 30 páginas e, caso em algum dia não consiga alcançar o mínimo, procuro recuperar o atraso no dia seguinte. Busco aproveitar bem o dia, como não costumo ficar muito tempo diante da TV e/ou do computador, sempre há tempo disponível (mesmo que fragmentado).

            A leitura é para mim, relaxamento e prazer. A média de livros que leio é ao ritmo natural e não resultado de esforço, pois, se assim fosse, sacrificaria o prazer da leitura. Penso que o número de livros que uma pessoa lê é menos importante do que a qualidade daquilo que ela lê. Eu não determino previamente a ordem dos livros a serem lidos e, geralmente após concluir um, escolho o próximo. Também costumo ler dois livros ao mesmo tempo (com temas diferentes) sendo um de leitura mais leve. Os livros são essenciais para o enriquecimento cultural de uma sociedade, pois, se a informação é obtida pelos diferentes meios impressos (jornais, revistas, etc.) e audiovisuais (telejornais, filmes, etc.), o conhecimento profundo, por sua vez, se obtém com a leitura de grandes obras e autores. Os livros e a reflexão sobre estes e sobre a sua vivência tornam uma pessoa bem informada em uma pessoa culta. Sabemos que todas as pessoas possuem cultura, os livros são as ferramentas que alçam as pessoas a patamares superiores do edifício cultural.

            A iniciativa deste artigo não é a de se gabar, mas, a de inspirar. Algumas pessoas já me disseram que se iniciaram no hábito da leitura (ou a ele regressaram) ao ler as resenhas de livros que publico. Digo que também fui influenciado em tal sentido por mestres(as) que tive em toda a minha vida estudantil. Também foi assim quanto ao ato de escrever. A vida é uma troca entre gerações, apenas repasso as boas energias que recebi. No ano que passou em relação a autoria/continentes, assim foram as minhas leituras (valores aproximados): Oceania: 3%; Ásia: 6%; África: 8%; Europa: 20%; América: 63%. Das leituras de obras de autores americanos, a América Latina aparece com 75% e a América Anglo-Saxônica com 25%. Quanto a leitura de obras latino-americanas por país: Brasil: 90% (40% da leitura global); Chile: 7% e Bolívia 3%. Quanto a autoria/gênero das leituras realizadas: 75% sexo masculino e 25% sexo feminino. Janeiro foi o mês que li mais (11 livros) e o mês que li menos foi Maio (1 livro), sendo a sobrecarga de trabalho do EAD, responsável pelo baixo número deste mês. A partir desta análise, desejo ler em 2021 mais obras de autores latino-americanos (além do Brasil), africanos, asiáticos e, também mais obras de mulheres.  As dez melhores leituras foram: 1. E o vento levou (Margaret Mitchell); 2. Os Sertões (Euclides da Cunha); 3. A leste do Éden (John Steinbeck); 4. Quarto de despejo: diário de uma favelada (Maria Carolina de Jesus); 5. A letra escarlate (Nathaniel Hawthorne); 6. Matéria escura (Blake Crouch); 7. Memorial do Convento (José Saramago); 8. Recursão (Blake Crouch);  9. Matadouro cinco (Kurt Vonnegut); 10. A peste (Albert Camus). As menções honrosas foram para: A mulher de trinta anos (Honoré de Balzac); A ridícula ideia de nunca mais te ver (Rosa Montero); A sucessora (Carolina Nabuco); Angústia (Graciliano Ramos); As boas mulheres da China (Xinran); O diário de Myriam (Myriam Rawick); O estrangeiro (Albert Camus); O grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald); Olhai os lírios do campo (Érico Veríssimo); O último dia de um condenado (Victor Hugo); Os sofrimentos do jovem Werther (Johann Wolfgang von Goethe); Ratos e homens (John Steinbeck);  Rebecca, a mulher inesquecível (Daphne du Maurier); Terra sonâmbula (Mia Couto). Em se tratando de boas leituras, foi um ótimo ano. Agora é escolher as leituras deste ano e aguardar a vacina! E você o que tem lido? Quais autores(as), continentes e países povoam a sua mente?

 

sábado, 26 de dezembro de 2020

Encarnação

 

José de Alencar (1829-1877) foi um romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. José Martiniano de Alencar Júnior (seu nome de batismo) nasceu em Mecejana no Ceará a 1º de maio de 1829. Filho de José Martiniano de Alencar (Senador do Império) e de Ana Josefina. Em 1838, a família mudou-se para o Rio de Janeiro (então capital do país). Na capital presenciava os encontros políticos de seu pai com importantes autoridades nacionais. Ingressou no curso de Direito da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, porém, concluiu o curso pela Faculdade de Direito de Olinda em 1851. Leitor ávido dos maiores expoentes da literatura nacional e estrangeira resolveu que seria escritor de romances, no entanto, suas primeiras iniciativas na área ficaram inacabadas e, outras somente foram publicadas após sua morte. Ainda em 1851, retorna ao Rio de Janeiro para exercer a advocacia.

            Em 1854, ingressa no Correio Mercantil onde escreve uma coluna sobre os acontecimentos sociais, as estreias de peças teatrais, os novos livros e as questões políticas. Em 1855, torna-se gerente e redator-chefe do Diário do Rio. Nesse período, inicia a publicação de suas primeiras obras, inicialmente no formato de folhetim. Em 1858, abandona o jornalismo para ser chefe da Secretaria do Ministério da Justiça, chegando a Consultor com o título de Conselheiro, ao mesmo tempo em que lecionava Direito Mercantil. Em 1860, com a morte do pai, se candidatou por meio do Partido Conservador a deputado pelo Ceará, sendo reeleito em quatro legislaturas. Em 1870, foi eleito Senador pelo Ceará, mas, foi preterido na escolha por suas desavenças com o Ministro da Marinha. Voltou e permaneceu na Câmara até 1877, porém, rompido com o Partido Conservador. Mesmo no auge da carreira política, José de Alencar não abandonou a literatura. Em 1864, casou-se com Georgina, com quem teve quatro filhos. Suas obras eram atacadas por jornalistas e críticos que faziam campanha sistemática contra o romancista, motivadas, em parte, por sua atuação como político.

            Sua obra é marcada por registrar as tradições, a história, a vida rural e urbana do Brasil. O escritor deixou como legado, livros que são classificados em diferentes gêneros (romances indianistas, históricos, regionalistas e urbanos). São suas, as principais obras indianistas da literatura nacional a saber: "O Guarani", "Iracema" e "Ubirajara". Dentre os livros com protagonista do sexo feminino, alcançou grande sucesso a obra "Senhora". Outras obras do autor são: Cinco Minutos, romance, 1856; Cartas Sobre a Confederação dos Tamoios, crítica, 1856;  O Guarani, romance, 1857; Verso e Reverso, teatro, 1857; A Viuvinha, romance, 1860; Lucíola, romance, 1862; As Minas de Prata, romance, 1862-1864-1865; Diva, romance, 1864; Iracema, romance, 1865; Cartas de Erasmo, crítica, 1865; O Juízo de Deus, crítica, 1867; O Gaúcho, romance, 1870; A Pata da Gazela, romance, 1870; O Tronco do Ipê, romance, 1871; Sonhos d'Ouro, romance, 1872; Til, romance, 1872; Alfarrábios, romance, 1873; A Guerra dos Mascate, romance, 1873-1874; Ao Correr da Pena, crônica, 1874; Senhora, romance, 1875; O Sertanejo, romance, 1875. (Fonte: https://www.ebiografia.com/jose_alencar/ - acesso em 26 de dezembro de 2020)

            Este escriba tomou conhecimento da obra "Encarnação" de José de Alencar por conta da polêmica existente entre as obras "A Sucessora" de Carolina Nabuco e "Rebecca, a mulher inesquecível" de Daphne du Maurier. As três obras guardam semelhanças entre si, sendo que a autora inglesa foi considerada suspeita de plágio do livro de Carolina Nabuco. Li os três livros neste ano e, tive a impressão que ao se fazer uma adaptação (junção) dos livros de Carolina Nabuco e de José de Alencar, o resultado não é outro que o livro de Daphne du Maurier. No entanto, como já disse em artigo anterior sobre o livro "Rebecca, a mulher inesquecível" não entro na polêmica de afirmar que houve ou não o plágio. Na obra "Encarnação" a trama se desenvolve em torno de três personagens principais: Hermano, que por muito tempo foi solteiro, enfim, casa-se com Juliete com quem tem uma relação intensa, sendo que para este, Juliete é uma espécie de alma gêmea, vê nela uma beleza, uma perfeição, não vista por outras pessoas. Amália, então uma menina, na condição de vizinha e voyeur observa diariamente o casal apaixonado com um olhar especial para Hermano, a quem aprecia a beleza. Amália passa uma temporada fora, ao voltar à Corte, o pai volta a fazer recepções na casa da família.  Neste ínterim, Juliete falecera por conta de um aborto espontâneo. Hermano (agora é tido como louco) se fechou em sua casa com as lembranças de Juliete (tudo fora conservado tal como ela deixara). Amália crescera e se tornara uma moça muito linda e retorna ao voyeurismo, não mais por Hermano, mas, pela curiosidade em vê-lo sofrer por alguém que há muito se foi. A jovem desdenha de paixões, do amor e, apesar de seus vários pretendentes, recusa-se a casar e, nisso deixa seus pais preocupados. Estes desejam encaminhar a vida da filha única e, consideram vital conseguir um bom marido para que esta tenha seu futuro e felicidade garantidos. Amália acaba se apaixonando pelo viúvo que, também dela se aproxima ao ouvi-la tocar no piano  uma canção que também Juliete executava. O casal se apaixona, porém, entre eles há Juliete, cuja existência física deixara este plano, mas, não a mente de Hermano (que se recusa a cometer adultério). Paro por aqui, para não dar spoiler! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Encarnação.

Autor: José de Alencar.

Editora: Estronho, 2020, 127 p.

Preço: R$ 2,90 (e-book) - R$ 41,32 (físico).