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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O essencial é invisível aos olhos!

               Na obra mundialmente consagrada de Antoine de Saint-Exupéry, “O Pequeno Príncipe”, que deve ser lida tanto pelo público mais jovem e também pelo público adulto, Saint-Exupéry cunha uma frase que considero emblemática dentre outras tantas não menos significativas: “o essencial é invisível aos olhos e só poder ser visto pelo coração”! 
                No governo Jaime Lerner (PFL – atual DEM), ocorrido no período de 1995 a 2002, o famoso arquiteto demonstrou como político e gestor que é um bom arquiteto. Sua gestão foi péssima, endividou o estado do Paraná, promoveu uma política de arrocho salarial sem a reposição da inflação ao magistério paranaense, atrasava o pagamento de promoções, progressões e gratificações estabelecidas em lei. Além disso, contra a vontade do povo paranaense tentou privatizar entre outras estatais a Copel, além do Banestado, cuja privatização foi uma espécie de queima de arquivos por conta do escândalo da CPI do Banestado cujas contas CC5 enviaram ilegalmente para o exterior cento e trinta e quatro bilhões de dólares em plena época das privatizações tucanas de FHC. 
              O doleiro envolvido no escândalo Banestado era Alberto Youssef, o delator premiado com uma redução de pena de 122 anos para três anos na Operação Lava-jato. O juiz da época era Sergio Moro, o mesmo da operação Lava-jato. Havia vários políticos e empresários ligados ao grupo que estava no poder, tucanos e atucanados. Apesar das provas, tudo foi arquivado e todos escaparam ilesos. Não vinha ao caso! Contribuía para isso o Procurador Geral da República, Geraldo Brindeiro, que ficou conhecido como “Engavetador Geral da República”, uma versão anterior de Raquel Dodge, que ainda não nos cabe julgar, mas, cuja expectativa do governo golpista e corrupto de Temer é a de que exerça este papel (num grande acordo nacional, com Supremo, com tudo...).
            Lerner fazia um governo que no entender da oposição, e também desse escriba acabava quando a TV era desligada. Havia muito marketing e pouca eficiência na gestão. A mídia constrói gigantes com pés de barro. Ao se fazer um exame acurado eles não se sustentam. Jamais concorreu a outro cargo público. Nesse clima de revolta com o arrocho salarial, de escolas com os repasses de recursos para a manutenção das mesmas, congelados e atrasados, este escriba e centenas de outros colegas, foram a um curso de motivação (lavagem cerebral) promovida por uma empresa privada paga a preço de ouro, realizada em Faxinal do Céu, município de Pinhão (PR) com recursos oriundos de empréstimo junto ao Banco Mundial. 
            Universidade do Professor, marketing perfeito, mas, para motivar os trabalhadores em educação, o sensato seria melhorar suas condições de trabalho. Greves se fizeram sem visar avanços, mas, para não perder direitos. Jaime Lerner e seu partido representavam a ponta de lança do neoliberalismo nacional. Em uma das oficinas, assisti a um filme intitulado “Festa de Babette”, em que uma cozinheira francesa se refugia na casa de duas irmãs dinamarquesas fugindo da Comuna de Paris. Trabalha de graça em troca do abrigo. Babette ganha na loteria e gasta toda a sua fortuna num jantar para as irmãs e seus convidados com o que há de mais fino na gastronomia francesa. Na época com o coração magoado pelos maus tratos do governo, eu e vários colegas não entendemos o significado do filme. Pensamos ser ridículo, gastar a fortuna de uma vida num jantar e viver como pobre no dia seguinte. Apesar de que na película, a personagem falava: “eu sou uma artista e artistas nunca são pobres”.
            Hoje, após publicar meu livro e todos os cuidados que tive visando à perfeição, a revisão, a capa, o papel, o tamanho da fonte, o lançamento, etc., entendo isso. Neste mesmo sentido, arquitetos elaboram para si, projetos que visam à perfeição, tantas vezes podados por seus clientes. Engenheiros automobilísticos constroem carros-conceitos cuja perfeição e alto valor agregado tornam seu custo de produção inviável para a produção comercial. O “essencial é invisível aos olhos, só se pode ver com o coração” ensinou Saint-Exupéry, da mesma, forma, desejo a você caro (a) leitor (a) que esse mundo que se apresenta nunca turve o seu olhar!

sábado, 16 de dezembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” Parte 5

            O Presidente John Fitzgerald Kennedy assassinado no dia 22 de Novembro de 1963 em Dallas no Estado do Texas, JFK como era conhecido faz parte do rol dos presidentes estadunidenses que não terminaram seus mandatos. A lista inclui além de JFK: Abraham Lincoln (1865); James Garfield (1881); William McKinley (1901). Outros nove presidentes sofreram atentados, mas, sobreviveram: Andrew Jackson (1835); Theodore Roosevelt (1912); Franklin Delano Roosevelt (1945); Harry Truman (1950); Richard Nixon (1974); Gerald Ford (1975), Jimmy Carter (1979) e Ronald Reagan (1981). Não se pode afirmar com certeza, mas, talvez as incumbências do cargo, contribuíram para as mortes naturais de quatro presidentes: William Henry Harrison, problemas pulmonares (1841); Zachary Taylor, complicação gastrointestinal aguda (1850); Warren G., infarto (1923); Franklin Delano Roosevelt, de AVC (1945). 
            Ocupar o cargo de mandatário mais poderoso do mundo tem seus riscos. JFK passou por um período turbulento da Guerra Fria, em que sentiu o vento quente da guerra termonuclear soprando-lhe o rosto. No governo, logo entendeu que havia um Estado dentro do Estado e que no entender dos militares caberia ao presidente chancelar as decisões destes. Porém, JFK esteve na guerra, e, certa vez confidenciou a um assessor que se atendesse a tudo que os militares solicitavam, a espécie humana estaria extinta em questão de horas. 
         Quando houve a tentativa de invasão da Baía dos Porcos em Cuba, JFK não aprovou o bombardeio aéreo de Cuba solicitado pela CIA, por receio de que a URSS pudesse intervir. A tentativa de invasão resultou em fracasso. Em 1961, durante a crise dos mísseis, os militares queriam ir para cima da URSS, mas, JFK e Nikita Krushev (URSS) chegaram a um acordo evitando o fim do mundo. Pairam inúmeras dúvidas sobre as circunstâncias da morte de Kennedy e seus possíveis envolvidos, talvez, da própria CIA. No lado soviético, Nikita Krushev perdeu apoio político no PCUS, pois, ao evitar a guerra nuclear, retirando os mísseis de Cuba, teria demonstrado fraqueza. 
             A arrogância estadunidense levaria a nação ianque ao desastre da Guerra do Vietnã (1959-1975), ocasião em que os EUA apoiavam uma ditadura capitalista no Vietnã do Sul contra os guerrilheiros comunistas que desejavam a derrubada da ditadura capitalista, a reunificação do país e a adoção do sistema socialista considerado de caráter mais nacionalista. Apesar do imenso poderio tecnológico e militar, e de ter utilizado armas químicas, Tio Sam sofreu uma enorme derrota contra um adversário fraco, porém, determinado a defender seus ideais. Essa derrota abriu uma enorme cicatriz na face dos EUA. 
             A crise do petróleo de 1973-1980 foi resultante das guerras árabe-israelenses, quando em represália, os países árabes resolveram utilizar o petróleo como arma política reduzindo a produção e a exportação, o que elevou substancialmente o preço do barril de petróleo causando inflação global. De má-fé, a crise foi anunciada como resultante do esgotamento do modelo Keynesiano e do Estado de Bem-Estar Social.
                  Os teóricos neoliberais da Escola de Chicago (Chicago boys) que tinham utilizado o Chile do ditador Augusto Pinochet como laboratório do neoliberalismo, agora pretendiam ir ao centro do sistema, e de lá irradiá-lo para o mundo todo. A “Dama de Ferro” Margareth Thatcher na Inglaterra (1979), e Ronald Reagan (1981) que foi ator e presidente do sindicato dos artistas iniciaram o trabalho de desmonte dos Estados de Bem-Estar Social e de toda a regulação da economia então existente. Fizeram reformas, retirando direitos trabalhistas e envidaram esforços na destruição ou enfraquecimento de sindicatos para beneficiar a acumulação capitalista, o que aumentou a desigualdade social em seus países, bem como a miséria, até então praticamente inexistente. 
            As grandes corporações financeiras e industriais passaram a dominar o Estado e os investimentos sociais foram e continuam a ser reduzidos. O Estado, por meio do Governo, independentemente do partido no Poder, passou a ser uma espécie de cartório para carimbar as solicitações da alta burguesia. A livre-negociação ou a “lei da selva” se tornou o mantra sagrado dos capitalistas nas suas relações com a classe trabalhadora. O livre-mercado é defendido quando beneficia os EUA, porém, diante de concorrentes mais competitivos, é substituído pelo velho protecionismo. Quanto ao protecionismo dos outros, este é aberto por meio de pressões, chantagens ou dos músculos de Tio Sam.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 4

     O primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) sempre se jactou da superioridade do povo anglo-saxão. Durante o período da colonização da África e da Ásia, os europeus afirmavam empreender uma missão civilizatória em benefício do povo africano e/ou asiático. Nada mais falso, o fardo do homem branco foi e continua a ser carregado pelos povos explorados, pois, suas riquezas se tornaram a causa de sua pobreza e das guerras que assolam principalmente o continente africano. 
                Os Estados Unidos que poderiam ter empreendido um papel proativo nas causas humanitárias e ambientais saíram pela tangente. Mas, os EUA, talvez por ser uma nação de colonização anglo-saxã adotaram o discurso do fardo do homem branco. A missão civilizatória dos EUA consiste em fazer guerras, invadir países, financiar e apoiar golpes de Estado. 
            Sob o falso discurso da defesa da democracia apóiam a implantação de ditaduras capitalistas para supostamente evitar ditaduras comunistas. Destroem a infra-estrutura dos países que lhe servem de alvo para em seguida oferecer suas empresas de engenharia para a reconstrução mediante pagamentos ou concessões. Enfim, os EUA com seu aparato bélico em ação estão a dizer: OK, garotos queremos negócios! O que vocês têm a nos oferecer em troca da nossa “Pax americana”? 
            Os Estados Unidos buscam impor ao mundo o “american way of life”, no entanto, segundo Perry Anderson citado por Kiernan: “se todos os povos da Terra possuíssem a mesma quantidade de geladeiras e automóveis quanto os da América do Norte e da Europa Ocidental, o planeta se tornaria inabitável. Hoje na economia global do capital, o privilégio de poucos exige a miséria de muitos para ser sustentável”. 
            Kiernan cita ainda Walter Lippmann: “todos pensam nos Estados Unidos como um império exceto o povo dos Estados Unidos. Nós nos arrepiamos com a palavra “império”. Insistimos que ela não deveria ser usada para descrever o domínio que exercemos do Alasca até as Filipinas, de Cuba ao Panamá, e além. Pensamos que tem de haver outro nome para o “trabalho civilizatório” (aspas nossas) que fazemos de modo “tão relutante” (aspas nossas) nesses países atrasados”.
               Ainda sobre a alienação do povo estadunidense acerca do papel global desempenhado por seu país, Kiernan cita Midge Decter, biógrafo adulador do então secretário de defesa Donald Rumsfeld: “Afinal de contas, os americanos são em geral pessoas boas, provavelmente as melhores do mundo, com medo da mesquinhez em outros, e talvez até mais temerosos da acusação de serem eles mesmos mesquinhos”. Kiernan afirma: “o americano médio acredita que os EUA dediquem 15% do orçamento nacional a ajuda externa, em vez do número verdadeiro de 0,1% o que faz do governo americano o menos generoso dentre as 22 nações da OCDE” (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). 
                Contribui para o analfabetismo político de considerável parcela da população estadunidense, a grande mídia, que é considerada antipatriótica pelas lideranças políticas, e até mesmo por outras empresas de mídia, sempre que se posiciona contra guerras ou interferências dos EUA em outros países. O ex-presidente George H.W. Bush citado por Kiernan, e se referindo a um avião iraniano lotado com 290 civis derrubado pelos Estados Unidos afirmou: “Eu nunca pedirei desculpas pelos Estados Unidos. Os fatos não me importam”. E assim são os EUA, que até hoje não pediram desculpas pelo lançamento das bombas atômicas contra o Japão. Acredito que tal nação continue a agir dessa forma até a extinção da humanidade neste pequeno planeta, que poderá ocorrer, quem sabe, por meio de bombas atômicas.

sábado, 11 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 3

        No final da Segunda Guerra Mundial, soldados estadunidenses e soviéticos comemoravam juntos às margens do Rio Elba a vitória sobre as tropas alemãs. Não podiam imaginar que o caminho da cooperação trilhado por suas nações seria abandonado no período seguinte conhecido como Guerra Fria. Hoje se sabe que o Japão estava disposto à rendição ainda em Maio de 1945, pois, sabia que a prometida entrada da União Soviética no front asiático era sua sentença de morte. Fazia uma única exigência: a preservação do Imperador tido como um semideus na tradição japonesa ante a afirmativa estadunidense de que não poderia impor nenhuma condição. 
        O desejo dos EUA de não mais cumprir as cessões já acordadas de áreas de influência para a União Soviética, o levam a lançar as bombas atômicas para intimidar esta, porém, Stalin por meio de seus espiões já sabia da bomba antes mesmo da explosão experimental (Trinity) no deserto de Alamogordo. Stalin mantém suas intenções por áreas de influência e acelera o programa nuclear soviético. 
        O presidente Truman, considerado despreparado para o cargo que assumiu após a morte de Roosevelt acreditava que os soviéticos jamais conseguiriam desenvolver sua própria bomba atômica. Ele estava enganado, os EUA ficaram pouco tempo no monopólio do poder nuclear. Algo já esperado pelo físico Julius Robert Oppenheimer líder do projeto Manhattan, afinal, “não havia segredo a esconder de um país que contasse com bons físicos”. 
            A Guerra Fria se traduziu numa disputa por áreas de influências entre os EUA e a URSS. Nunca houve um confronto direto, pois, este se traduzira na M.A.D. (mutually assured destruction), a destruição mutuamente assegurada tendo em vista o tamanho de seus arsenais nucleares. O mundo passou a ser dividido entre países alinhados aos EUA ou à URSS. Houve também o grupo dos não alinhados que discordavam da forma de agir de ambas as superpotências. 
             Após o soco no estômago recebido pela Revolução Cubana de 1959, os EUA não mediram mais esforços para intervir em outras nações especialmente as latino-americanas. A nação ianque preferia ditaduras a regimes socialistas em seu quintal. Várias destas nações sentiram-se envolvidas na Guerra Fria, quando golpes de Estado patrocinados, estimulados ou até orquestrados por Washington foram postos em prática. Malas de dólares foram dadas para generais corruptos do Exército Brasileiro. O Brasil recebeu em seu litoral uma frota estadunidense inteira inclusive com porta-aviões para apoiar o golpe caso o Exército não conseguisse dar conta do recado. 
             Os EUA treinaram militares brasileiros na prática de métodos de interrogatórios (tortura) na chamada Escola das Américas. O Brasil repassou seus ensinamentos aos países vizinhos que implantaram ditaduras com o aval e assistência técnica e financeira dos EUA (justamente o país que se declara o maior defensor da democracia no mundo). Sobre isto o presidente João Goulart deposto em 1964 disse: “Os EUA falam muito em democracia, mas, deveriam permiti-la”. 
         Em 1965, um ano após o golpe, empresas estrangeiras, principalmente estadunidenses, começaram a desfrutar dos benefícios da troca do governo democrata e patriota de João Goulart pela entrada de um governo autocrata e dócil a Washington. O caminho para os recursos naturais e o mercado brasileiro estava agora plenamente acessível. Veio o famigerado AI-5, o fim das garantias individuais, as prisões ilegais, as torturas, os assassinatos, a censura, etc. E até hoje, se busca ocultar o que ocorreu naquele período (1964-1985), mas, que parafraseando Kiernan ao falar do Haiti, compreende também o Brasil: “há um excesso de cadáveres no armário. Também, é claro, quanto mais tirânico e impopular um ditador, mais ele está ligado por lealdade a Washington”.

sábado, 4 de novembro de 2017

“De como o Irmão Jônatas se transformou em Tio Sam” - Parte 2

          O estímulo concedido à economia dos EUA pelos países em esforço de guerra havia passado. Os EUA entraram, então, na sua maior crise econômica (1929). Os índices de desemprego e de pobreza eram alarmantes. Os preços das ações na bolsa de valores de Nova Iorque despencaram. Tal como na brincadeira de enfileirar peças de dominó, a crise se alastrou pelo planeta, derrubando as economias de inúmeros países. 
          O presidente Franklin Delano Roosevelt lançou o plano New Deal, cuja ênfase se deu em maciços investimentos estatais em infraestrutura, na forte regulação e intervenção estatal na economia para o constrangimento dos liberais radicais. No entanto, graças ao intervencionismo estatal amparado na teoria econômica de John Maynard Keynes, o capitalismo estadunidense foi salvo da ação destruidora dos próprios capitalistas. 
            Segundo Kiernan, “na Alemanha nazista, o capitalismo era recuperado por meios ainda mais drásticos, eliminando agitadores socialistas ou sindicalistas” (e pensar que em pleno século XXI, ainda há analfabetos políticos que acreditam que o governo de extrema direita de Hitler era socialista, apesar de este ter enviado milhares de socialistas e sindicalistas para as câmaras de gás). 
           Antes de finda a Segunda Guerra Mundial, o mundo mergulha na Guerra Fria. Os Estados Unidos da América resolve apressar o fim da guerra para evitar maiores perdas de vidas de soldados estadunidenses. O presidente Harry Truman autoriza o uso das famigeradas bombas atômicas contra o Japão. Segundo especialistas, a ação foi injustificada, pois, mantido o cerco naval, em poucas semanas, o Japão se renderia. Os EUA, pensando no mundo pós-guerra, resolvem fazer uma demonstração de poder ao mundo, e principalmente à União Soviética (sua aliada na luta contra a Alemanha nazista) e futura adversária na Guerra Fria. 
               Os EUA se tornam a primeira e única nação covarde o suficiente para utilizar o mais poderoso e vergonhoso artefato bélico já inventado contra uma população civil. Milhares de pessoas morreram na hora. As sobreviventes, certamente invejaram aquelas que morreram instantaneamente, devido aos terríveis sofrimentos e sequelas que lhes foram impostos. No Japão, ainda hoje, nascem pessoas com deficiências e má-formação congênita resultantes de alterações genéticas de seus ascendentes, sobreviventes do maior ato terrorista da humanidade, infligido pela nação mais terrorista da história. 
             A indústria bélica estadunidense é a mais desenvolvida do planeta e tem em seu próprio país, o maior comprador de armas. Ninguém investe tanto em armas e as utiliza tanto. Nenhuma nação fez mais intervenções em assuntos internos de outros países que os EUA, e para tal se utilizam do “Soft Power” que se traduz em pressões diplomáticas ou econômicas, e quando este falha, a opção seguinte é a utilização do “Hard Power”, quando o país exibe e utiliza seus músculos. 
            No entender de Kiernan: “a colossal máquina de guerra estadunidense é o punho que se esconde por trás da “mão invisível” do mercado”, e que torna possível a abertura de mercados para os produtos estadunidenses, e faz de sua economia, a superpotência que é. Ou ainda, conforme Michael Ledeen, citado por Kiernan: “a cada dez anos mais ou menos, os Estados Unidos precisam pegar algum país pequeno e sem importância e jogá-lo contra a parede, só para mostrar ao mundo que queremos negócios”. 
               A economia dos Estados Unidos foi enormemente beneficiada pelas duas Guerras Mundiais, pois, não sofreu grandes perdas por seu território não ser palco delas (exceção ao Havaí). Por ser grande provedor de armas e víveres para as nações em esforço de Guerra, os estoques de ouro das nações européias foram conduzidos aos cofres estadunidenses como pagamento. O país passou a ter banqueiros a financiar atividades econômicas no mundo todo, sendo estas de iniciativa de compatriotas ou não.
         Sempre disposto a desenvolver o capitalismo, a nação estadunidense por meio de seu representante na ONU sugeriu aos países subdesenvolvidos que realizassem a reforma agrária, pois, esta é essencial para elevar padrões de vida e de consumo da população. Então, para os EUA, a reforma agrária é ótima para o capitalismo. No entanto, as elites alienadas dos países latino-americanos não gostaram da idéia e afirmaram ver nela indícios de socialismo. O estranho é que a tal “proposta socialista” veio do país mais capitalista do planeta. Estão certos os Estados Unidos ou as “sábias” elites latino-americanas?

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

“De como o Irmão Jonatas se transformou em Tio Sam” - Parte 1

            O professor escocês Victor Gordon Kiernan (1913-2009) foi dono de uma mente iluminada, cujo conhecimento, mesmo após sua partida desse plano, continua a trazer luzes sobre as sombras da ignorância, que despudoradamente já não mais se escondem. Nestes tempos em que segundo Umberto Eco “a Internet e as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, pessoas não afeitas ao hábito da leitura e da reflexão se julgam donas de um saber que de fato não possuem, pois, ao se utilizarem do mero senso comum, de forma pretensiosa e arrogante, reduzem à mera opinião pessoal, todo o conhecimento científico exaustivamente produzido por intelectuais da área das humanidades. Tal fato confirma a constatação do saudoso geógrafo Milton Santos quando afirmou: “é muito difícil ser intelectual no Brasil. As pessoas não gostam de ouvir”. 
          Sabemos que a neutralidade científica inexiste, e, que todo posicionamento é político, e, portanto, ideológico, principalmente aquele que se diz neutro, pois ao se esconder por trás de uma impossível neutralidade, visa ocultar suas reais intenções para dela tirar proveito ou em benefício de outrem (pessoa, grupo ou classe social), no que desvela o caráter conservador e dissimulado. O intelectual é chamado a fazer a opção entre desenvolver ciência com viés inclusivo ou exclusivo, mas, isto jamais pode ser considerado mera opinião pessoal (senso comum).
          A obra: “Estados Unidos, o novo imperialismo: da colonização branca à hegemonia mundial”, mostra o caminho trilhado pelos Estados Unidos da América desde quando o navio Mayflower trouxe a primeira leva de imigrantes a se estabelecer nas terras que mais tarde formariam o país. Nos primórdios da nação ianque foram estabelecidas as treze colônias da Nova Inglaterra, as quais se encontram representadas nas faixas da atual bandeira (sete vermelhas e seis brancas). 
          A declaração de independência em IV de julho de 1776 teve como resposta da Inglaterra, uma guerra que durou até 1783. Reconhecida a independência pela Inglaterra, o Irmão Jonatas (como os ingleses chamavam os EUA quando ainda podiam considerá-lo um irmão caçula e não um pai de família) se lançou numa conquista territorial que se fez com cessões por parte do primo John Bull (como os estadunidenses chamam a Inglaterra) e da Espanha, aquisições territoriais junto à França e à Rússia, e de muito sangue derramado dos habitantes nativos peles-vermelhas, sobre os quais um cultuado herói estadunidense chegou absurdamente a afirmar: “índio bom é índio morto”. 
         Os indígenas que se recusaram a vender suas terras pelas ninharias determinadas pelas companhias colonizadoras, ou mudar-se para as reservas criadas em locais diversos ao solo sagrado de seus ancestrais, foram vítimas de massacres levados a cabo pelo próprio exército nacional. O México foi a principal nação prejudicada, pois, perdeu grande parte de suas terras (se de onde estamos, os EUA já incomodam, imagine sendo seus vizinhos). As pretensões da nação ianque não foram plenamente atingidas, pois, elas abarcavam a totalidade do território mexicano e a ilha de Cuba, isto sem falar em inúmeras ilhas do Oceano Pacífico.
             Em 1860, o presidente Abraham Lincoln iniciou seu mandato e logo em seguida ocorreu a deflagração da Guerra Civil ou de Secessão. O sul escravocrata sob a bandeira dos Estados Confederados da América pretendia separar-se do restante do país, dentre outras razões, e principalmente, para continuar a escravizar a população negra introduzida à força no território. Abraham Lincoln, em meio ao esforço de guerra, se reelege em 1864, as tropas da União vencem a guerra, e logo no início de seu segundo mandato (1865), Lincoln é assassinado por um ator defensor da causa sulista, enquanto assistia a uma peça no Teatro Ford. 
            Mesmo após sua formação territorial, os EUA ainda agiam como sendo o Irmão Jonatas. Embora sua estatura houvesse aumentado enormemente, como adolescente não sabia ainda como se portar no palco das nações. Titubeava entre ser um país solidário com as demais nações cujo grau de desenvolvimento lhe era inferior, ou fazer como seu primo John Bull (Inglaterra) e lançar-se ao mar para fazer guerras contra povos considerados atrasados e pilhar suas riquezas. Os EUA não demorariam muito a optar pela segunda opção. 
            Inicialmente, capitalistas ianques foram adquirindo terras e empresas na América Central, aproveitando-se das elites corruptas e entreguistas destes países, e com o auxílio governamental estadunidense na manutenção destas no poder. O caráter das elites latino-americanas é definido da seguinte forma pelo Padre Combrin citado por Kiernan: “as elites da América Latina são as mais alienadas do mundo, são cheias de pesar por não terem nascido européias ou norte-americanas”.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

“A falta que Brizola faz”

Em 15 de Novembro de 1989, o país comemorava o centenário da Proclamação da República, embora isto significasse muito pouco para um povo acostumado a não participar dos momentos decisivos da história nacional, geralmente tramados e executados pela elite. Acertadamente Lima Barreto afirmou: “o Brasil não tem um povo, mas um público. Povo luta por seus direitos e público apenas assiste de camarote”. Por ocasião da Proclamação da República tivemos algo que é rotineiro no Brasil: um golpe de Estado que visava atender os interesses da elite, e como é costume, o povo brasileiro se mostrou indiferente. Somos um país de tradição autocrática, os golpes de Estado se sucedem periodicamente após breves hiatos democráticos. Talvez por isso, que mesmo entre os trabalhadores é comum observar pessoas que pedem a volta de regimes ditatoriais. Em nosso país, a cultura democrática não está amadurecida. De um lado temos uma elite parasita que desde os primórdios da história da pátria suga os recursos públicos para fazer a manutenção dos injustos privilégios que desfruta à custa de milhões que não têm o mínimo para viver com dignidade. De outro, temos um povo com baixa instrução e reduzidíssima consciência política e de classe que contribui para a sustentação da parcela que os explora. Quando a Itália concluiu seu processo de unificação, o político Massimo D’Azeglio disse: “fizemos a Itália, precisamos agora fazer os italianos”. Massimo sabia que não se faz um país apenas com o território. É necessário um povo com sentimento de pertença ao território e ao sonho conjunto de nele construir uma grande nação. A Itália unificou seu território e foi bem sucedida na criação do povo italiano. Talvez devêssemos entrar em contato com historiadores e cientistas políticos italianos solicitando ajuda sobre como criar no Brasil, o povo brasileiro. Um povo com sentimento de pertença a este chão, e que seja comprometido em fazer deste rico território, aquilo que por natureza lhe está inevitavelmente reservado, ser uma grande nação, não apenas em tamanho de território. Afinal, ser uma potência é a vocação natural do Brasil. Se ainda não é, isto se deve às sabotagens de uma elite mesquinha, egocêntrica, cruel e com mente colonizada que prefere fazer o papel de feitor de escravos de seu povo em troca de benefícios espúrios a serviço dos senhores de escravos do grande capital nacional e estrangeiro. Neste momento obscuro pelo qual passa o país do “futuro”, que teima em nunca chegar e diante da crise moral em que se encontra, a falta de um grande líder político é muito sentida por todos aqueles que ainda têm em seus espíritos uma chama de patriotismo acesa. E esse líder é o saudoso Leonel de Moura Brizola (1922-2004). Brizola dedicou sua vida às grandes causas nacionais. Era acima de tudo um patriota. Orador eloquente, sua fala não passava despercebida, emocionava as pessoas que compartilhavam de seus ideais e irritava profundamente seus adversários. Escrevia tão bem quanto falava. A grande mídia lhe recusava espaço para divulgar seus pronunciamentos sempre de forte conteúdo, por isso, com recursos próprios e de seus companheiros comprava espaços na mídia para publicar seus artigos conhecidos como “tijolaços”. O grupo Globo lhe fazia oposição e buscava a todo custo prejudicar a sua imagem e campanhas políticas. Brizola, porém, nunca se curvou. Afirmava que não era caro o preço a se pagar para manter a dignidade e o caráter intactos. Vários de seus artigos foram direcionados em tom de resposta ao grupo Globo, e outros em forma de denúncias acerca de favorecimentos concedidos por governos e empresas estatais às empresas do referido grupo. Considerava o império midiático de Roberto Marinho (1904-2003) uma ameaça à população brasileira e à democracia nacional. Em certa oportunidade entrou para a história do jornalismo nacional ao ganhar na justiça um direito de resposta em horário nobre, mais especificamente durante o Jornal Nacional. O direito de resposta em questão foi lido pelo próprio apresentador âncora do JN Cid Moreira. Uma dura resposta à Globo e a Roberto Marinho, o que causou o êxtase da parcela mais esclarecida da sociedade. No dia 15 de Novembro de 1989, este escriba, então um jovem, depositava seu primeiro voto numa urna, e este foi em Leonel Brizola. Políticos como Brizola fazem muita falta neste momento sombrio pelo qual passa o país em que valores como o patriotismo e a decência na ocupação de cargo eletivo viraram tema de ficção, pois, a julgar por suas atitudes, grande parcela dos representantes eleitos zombam da sociedade. É importante que se diga que Brizola não se acomodaria ante o estado de coisas ocorridas após junho de 2013, quando milhões de manifestantes que se diziam insatisfeitos com a corrupção foram transformados em massa de manobra (devido o seu elevado grau de analfabetismo político), desestabilizando um governo democraticamente eleito e oportunizando a condução (via golpe) ao Poder de um grupo político que representa o suprassumo da corrupção nacional e que está destruindo qualquer possibilidade de desenvolvimento soberano do Brasil. O “público” brasileiro segue assistindo a destruição do país, a entrega de seus ricos recursos naturais ao capital estrangeiro e o desmonte da tímida tentativa de criação de um Estado de Bem-Estar Social. Rosa Luxemburgo disse: “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. Apáticos como são, os brasileiros sentem-se confortáveis presos aos grilhões da TV Globo, e não enxergam em suas miseráveis existências, a senzala da vida real!

 Sugestão de boa leitura:

 Tijolaços – Leonel Brizola – Ed. Galpão de idéias Leonel Brizola. 2017.