domingo, 22 de outubro de 2023
Resenhar é viver - Parte III
sábado, 7 de outubro de 2023
Resenhar é viver - Parte II
domingo, 1 de outubro de 2023
Resenhar é viver
Fora dos muros
que cercam os prédios escolares e universitários, resenhar e ouvir resenhas é
viver. Não se pode dizer o mesmo no espaço entre tais muros, pois, receber a
incumbência de fazer uma resenha é algo que todo estudante gostaria de não ter.
"Resenha é um gênero textual que traz levantamentos de alguma obra (livro,
filme, etc.) sob o ponto de vista de um leitor, podendo apresentar um viés
crítico ou não"¹. Há regras para a elaboração de uma resenha, mas não
entrarei nesta seara.
Este escriba, costuma trazer neste
espaço, resenhas de obras literárias. Sei que as pessoas não afeitas à leitura
de livros, não costumam deitar seus olhos nesta coluna. Também publico artigos
de opinião política, econômica e social, os quais também passam ao largo do
interesse de muitas pessoas. Escrevo para um público cada vez mais restrito,
que, em pleno século XXI, ainda ousa ler, se informar, enfim, refletir.
Há alguns anos, encontrei um
professor dos tempos do Ensino Fundamental - séries finais (1º Grau), que
afirmou gostar de meus artigos, mas, fez uma ressalva, disse que a juventude
não lê artigos longos e que eu deveria escrever no padrão Tweeter (140
caracteres). Disse ao professor que não era para esse tipo de pessoa que eu
escrevia, pois, meus artigos demandam espaço para a fundamentação e reflexão,
algo não possível em artigos curtos, e que tal leitor não seria do tipo
reflexivo que é para quem escrevo. No dia em que tal leitor não existir mais,
aposento a "caneta".
Há ocasiões, e não são poucas, em
que buscamos acrescentar mais leveza aos nossos dias, isso é compreensível ante
a aridez das relações humanas, seja no trabalho ou no círculo social que
frequentamos. Essa é a proposta desse artigo. A definição de resenha aqui
adotada passa longe dos muros das instituições escolares e universitárias, ou
seja, é aquela de caráter informal e que costuma ser adotada por jogadores de
futebol, jovens da periferia, ou ainda, nas rodas de chimarrão ou nos grupos de
churrasco.
Lembro que, há alguns anos, alertado
por meus médicos, sobre a necessidade de cuidar da saúde, resolvi começar
treinos em uma academia de musculação. Nestes locais, é muito comum encontrar
estudantes para os quais lecionamos. Em certa ocasião, ainda nos meus primeiros
dias de treinos, encontrei dois estudantes do terceiro ano do Ensino Médio que
passaram a observar o meu treino. Eu estava fazendo um percurso aleatório, não
havia uma ordem pré-determinada para a escolha dos equipamentos. Dessa forma,
eu ia num equipamento e colocava uma carga (peso) condizente com a minha
condição de iniciante.
Os dois estudantes, logo em seguida,
pegavam o mesmo equipamento e colocavam a carga (peso) dobrada e riam muito. A
cada equipamento que escolhia, eles vinham e faziam troça. Não me irritei e nem
me expliquei quanto ao fato de ser iniciante na atividade. Também não os
repreendi. Mas, pensei que deveria dar troco. Fui para a casa e, verifiquei que
no dia seguinte teria aula com a turma deles. No Ensino Fundamental e Médio,
nós professores trabalhamos com o conhecimento básico, muito aquém de nossa
capacidade e formação.
Preparei a aula deles (como se estivesse lecionando para estudantes universitários) de forma fundamentada, referenciada e evitei substituir as palavras "difíceis" (na verdade, abusei delas) por outras de uso comum na faixa etária/série deles. Lecionei a aula que, em meu ver, foi maravilhosa, no nível que gostaria de sempre trabalhar, pois me trouxe prazer ao mesmo tempo que me desafiou. No entanto, como professores da educação básica, nosso esforço constante deve ser na inteligibilidade, fazer com que o estudante do nível/etapa em que se encontra, compreender o conhecimento científico. Algo que na ocasião, não fiz, pois passei a régua pelo alto.
Na hora do intervalo, comentei com alguns professores que
havia dado uma aula padrão universitária, para mostrar aos estudantes que se
"eles malhavam os músculos, eu malhava o cérebro". Os professores
riram, mas, um dentre eles (entre risos) disse: eles não entenderam a lição
(revide) que eu quis dar e também não entenderam nada da aula! (risos). Penso
que ele tem razão!
Referência:
1. Brasil Escola. Disponível
em
https://brasilescola.uol.com.br/redacao/a-resenhauma-forma-recriacao-textual.htm
- acesso em 26 de setembro de 2023.
terça-feira, 26 de setembro de 2023
A monoleitura e o monossaber
Há alguns meses estávamos
debatendo num grupo de estudos questões que afligem a Educação como um todo, ou
seja, o Ensino Básico e também o Ensino Superior, na ocasião afirmei que os
professores universitários se superespecializavam num determinado tema para o
qual direcionavam seus estudos e pesquisas e também todo o tempo de que
dispunham, dessa forma, se tornavam sabedores de tudo sobre pouco e ao mesmo
tempo sabedores de pouco sobre tudo. E falei também que nós docentes do Ensino
Básico por não termos as mesmas condições, pois temos nossa carga horária
principalmente em classe e por termos dependendo da disciplina até 15 turmas
com cerca de 40 alunos cada e a especificidade de nosso trabalho faz com que
sejamos sabedores de um pouco sobre tudo e tudo de coisa nenhuma.
Penso que o sistema educacional, tal como enunciado
inúmeras vezes por diversos educadores, parece ser formado por gavetas e, em
cada uma delas uma disciplina. Cada gaveta parece hermeticamente fechada para evitar
o contágio que o contato com as demais poderia ocasionar. Esse contágio tem
nome chama-se interdisciplinaridade e que embora necessária, muitas vezes acaba
por não ocorrer, tornando o processo Ensino-Aprendizagem fragmentado.
É bom que se diga que a culpa não pode ser assumida
unicamente pelo(a) professor(a) e, nem mesmo pela escola, pois, existem vários
fatores que fogem à alçada da mesma e que impedem ou dificultam o trabalho
interdisciplinar, preocupadas com isso, as equipes pedagógicas das escolas,
visando amenizar tal falha, incentivam o desenvolvimento de projetos
interdisciplinares, que são importantes, porém, pontuais.
Penso que parte dos(as) professores(as) do Ensino Básico
e também do Ensino Superior, devido à necessidade que a profissão impõe, se
encastela e realiza uma monoleitura, ou seja, lê principalmente aquilo que faz
parte da sua área de atuação ou de pesquisa e adquire assim um monossaber.
Embora dessa forma se possa conseguir grande reconhecimento pelo notório saber
adquirido e construído, o qual habilita tal profissional a dar cursos e
palestras “país adentro ou afora”, acaba por privá-lo de possuir uma visão mais
abrangente do mundo e da humanidade. Isto acaba por prejudicar a formação
política (aqui não falo no sentido partidário) de seus educandos.
Não faço crítica à especialização do(a) professor(a),
apenas, penso que ele(a) deve às vezes sair um pouco do seu “quadrado”, se
inteirar das questões políticas, econômicas e sociais, ou seja, ser um
especialista, mas também, um profissional politizado e com consciência de
classe, digo isso, porque percebo que em qualquer dos níveis de ensino, básico
ou superior a falta de politização de parcela dos(as) educadores(as). Não raro,
vejo profissionais agindo contra os interesses da classe e/ou atacando
propostas de cunho social que deveriam defender, tais como as cotas nas universidades
para alunos(as) de escola pública, afrodescendentes, etc., e também os
programas de transferência de renda direta como o Bolsa-Família, a política de
valorização do salário mínimo, etc.. Tais programas devem ser defendidos como
políticas de Estado independentemente do grupo político no Poder.
Como todos(as) sabem, a Educação vive uma crise, porém,
essa crise não se iniciou dentro do prédio escolar, mas veio do seu entorno, ou
seja, da sociedade que a cerca adentrando os muros escolares. Os fatores que
afligem a escola e fogem ao controle dos(as) professores(as) é a
desestruturação familiar, a miséria, a violência, a falta de sonhos, as
culturas do prazer imediato, de não valorização do estudo e do conhecimento, e,
principalmente, a da Pós-Modernidade, que se torna visível em parcela dos(as)
alunos(as), pais/mães, professores(as) e pessoas da sociedade.
É muito fácil e cômodo culpar os(as) professores, porque
não ensinam direito ou os/as alunos(as) porque não aprendem, mas, como várias
vezes discutimos entre nós docentes, cada vez mais percebemos a impossibilidade
de se ensinar, de trabalhar o conteúdo de forma eficiente, que, não é a
eficiência empresarial, pois, educandos são seres humanos e neles não é
possível colocar um selo de “qualidade total” e, em se falando de qualidade
total, qualidade para quê? Qualidade para quem? Uma formação de qualidade total
para a Vida ou para o Mercado?
Uma formação integral e humana é necessária, que prepare
para a vida, para o ingresso na universidade e, consequentemente forme para a
cidadania. O estudante formado deve ser esclarecido, crítico e atuante
contribuindo para tornar melhor a sociedade em que vive. Isso somente é
possível por meio da assimilação do conhecimento científico que embasa tal
agir, e, é por isto que trabalhamos também conteúdos que algumas pessoas
consideram desnecessários e/ou refutáveis, pois, a escola é um lugar onde se
tira vendas, não o contrário!
sábado, 16 de setembro de 2023
Diana: sua verdadeira história
Uma de minhas lembranças do
tempo de criança é o fato de ter assistido pela TV (ao vivo), a transmissão do
casamento da Princesa Diana com o Príncipe Charles. Lembro que ficamos admirados
com a grandiosidade do evento que, segundo estimativas teria sido assistido por
cerca de 750 milhões de pessoas ao redor do planeta. Eu, minha família e a
quase totalidade dos espectadores do planeta, não podíamos imaginar os ruidosos
bastidores desse romance e, levados pela beleza da celebração e de Lady Dy,
que, era então alçada ao título de Princesa de Gales, acreditamos que o casal
estava selando uma união duradoura e que um dia os veríamos desempenhando os
papeis para os quais estavam destinados no trono da Inglaterra. No entanto,
como todos sabem, nos contos, a princesa prova do veneno e dorme eternamente,
porém, é acordada, Diana, em vida, provou o veneno, mas, jamais acordou.
A ideia desse artigo é oriunda do fato de haver assistido
a série "The Crown" da Netflix e em dado episódio, tomar conhecimento
do livro "Diana: sua verdadeira história" do jornalista e escritor
britânico Andrew Morton (1953) que abalou as estruturas da monarquia inglesa.
Curioso, baixei o livro em formato digital no meu e-reader para tomar
conhecimento da famosa obra que tanto gerou polêmica no ano de 1993. Concluída
a leitura, penso que a necessidade de uma reflexão acerca do ser humano Diana
Frances Spencer e das demais personagens envolvidas na trágica história, não
pode ser feita sob o signo da emoção. Também, o distanciamento acerca de nosso
posicionamento crítico ao papel historicamente representado pelo Império Inglês
e de sua monarquia à luz do século XXI, se faz preciso. De qualquer forma,
resultaria algo grande demais para o objetivo aqui pretendido, é necessário
simplificar.
Diana Frances Spencer (1961-1997) foi uma aristocrata e
filantropa nascida no Reino Unido. Diana teve sua infância marcada pela
separação dos pais, algo que impactou em sua vida. Tendo ficado (juntamente com
seus irmãos) sob a guarda de seu pai Conde John Spencer após disputa judicial
entre o casal. Tanto sua mãe, como seu pai contraíram novos matrimônios (algo
que não agradou os irmãos Spencer). Diana, nunca foi brilhante nos estudos, tal
papel era desempenhado por seu irmão, Charles. No entanto, Diana frequentou
boas escolas e, apesar de ser filha de uma família abastada, trabalhou como
faxineira e professora de jardim de infância. A questão envolvida é cultural, entre
os ingleses, não há nada de errado ou reprovável em alguém nascido de bom
berço, exercer um trabalho humilde. O trabalho, em si, é para eles
dignificante, algo que não condiz com o imaginário coletivo brasileiro, cuja
mentalidade colonial e escravocrata vê em tal fato uma humilhação
desnecessária. Diana não via assim, adorava crianças e gostava muito de fazer
faxina.
A obra, mostra uma Diana apaixonada, mas, que percebe a
existência de uma sombra naquele relacionamento, Camila Parker Bowles. Diana,
às vésperas do casamento, sendo tratada com descaso pelo Príncipe, que vê no
casamento o cumprimento de seu papel na linha sucessória, mas, cujo amor era
devotado a uma mulher casada, tenta sem sucesso argumentar quanto a necessidade
de cancelar aquele casamento. É convencida pelo Príncipe que com o casamento, o
passado ficará para trás. Não ficou. Diana, nunca teve apoio e o carinho que
desejava da família real. De Charles, nunca teve o amor e o companheirismo que
esperava. Diana beijou o príncipe e, ele num passe de mágica se transformou num
sapo ao longo de todo o casamento. Os dias se passaram e o casal perfeito era
algo do imaginário popular alimentado por belas fotos e aparições em eventos
públicos programadas para simular uma harmonia inexistente entre o casal.
Diana conseguia sorrir perante as câmeras, apesar de
estar com sua vida e emocional destroçados com as informações que coletava
quanto a continuidade do relacionamento de Charles com Camila. Diana
dedicava-se aos filhos e à filantropia. Fazia aparições e arrecadava recursos
para entidade filantrópicas que apoiava. Ia a hospitais e abraçava os doentes,
conversava com eles e o fazia sem a intenção de ganhar publicidade, pois, não
chamava os repórteres. Na verdade, tinha dificuldades com os jornalistas, pois,
não lhe davam o direito a privacidade. Muitas reportagens ácidas foram feitas
quanto à princesa, especialmente quando se divorciou e deixou de ter a proteção
da família real. A perseguição dos paparazzi ao carro (dirigido em alta
velocidade por um motorista embriagado) em que estava com seu namorado, o milionário
Dodi Al-Fayed resultou num trágico acidente que vitimou o casal e o motorista.
Em seu funeral, seu irmão, o Conde Charles disse que
Diana não precisava do título de Princesa (que lhe foi retirado pela família
real com a separação) e nem ser tomada como uma santa, ela brilhava por si
mesma. No Palácio de Kensington, onde morava, junto à cerca, quantidades
colossais de flores e mensagens foram depositadas. Uma dessas mensagens dizia:
"Não morre aquela que estará eternamente em nossos corações". A
popularidade de Diana, sempre incomodou a família real, especialmente o
príncipe Charles.
"Diana, a princesa de Gales escreveu poesia em
nossas almas. E nos deixou maravilhados" (Andrew Morton).
Sugestão
de boa leitura:
Título:
Diana: sua verdadeira história.
Autor:
Andrew Morton.
Editora:
Best Seller, 2013, 350 p.
domingo, 10 de setembro de 2023
Brasil: um país do futuro
O leitor, jovem a mais tempo, certamente conhece a frase que dá título a este artigo, afinal, desde nossa mais tenra infância, ouvimos que o Brasil é o país do futuro. Os mais jovens, a conhecem também, porém, munida de um complemento: Brasil: o país do futuro... "que nunca chega". Essa frase que virou quase que um sobrenome do Brasil, foi cunhada pelo escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica Stefan Zweig (1881-1942). (Wikipedia)
Stefan Zweig foi um renomado escritor de classe internacional,
sendo em sua época, aquele cujas obras eram as mais publicadas e traduzidas e,
como tal, viajava o mundo dando palestras e lançando seus livros. A paixão que
tinha pela literatura e seu hábito cosmopolita tornavam seu trabalho mais
fácil. Passava longos tempos fora de casa e aprendia muito com cada nova
cultura que conhecia. Esteve na América do Sul por três vezes, sendo que em
1936, quando estava a caminho de Buenos Aires, fez uma visita ao Brasil e foi
recebido pelo então presidente Getúlio Vargas. Em 1941, ele e sua esposa
Charlotte resolveram se instalar no Brasil para se manterem distantes do palco
da guerra que consumia a Europa que tanto amava. Stefan Zweig havia prometido
que escreveria um livro sobre o Brasil e anunciou que sua vinda ao país, tinha
também esse propósito.
Ao lermos a obra "Brasil: um país do futuro",
nos questionamos se ela é o resultado de uma visão superficial de um país que
nada tinha de paraíso ou modelo para o mundo no que tange às relações sociais
ou tentativa de agradar o presidente Getúlio Vargas, país no qual ele estava se
exilando e buscando conquistar o visto de residência. Pode-se alegar que Zweig
era grande demais para escrever um livro meramente propagandístico para o
Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas (1930-1945),
contudo, há registros de viagens feitas pelo escritor pelo país e que foram
pagas pelo governo federal. No entanto, há cópias dos contratos que fez com as
editoras para a venda dos direitos de sua obra, na qual foi adequadamente
remunerado. Ao ler temos a impressão que em alguns momentos ele passa pano para
a ditadura brasileira quando a compara com aquilo que ocorria na Europa, mas,
obviamente o grau de ódio racial e violência no velho continente era
incomparável.
É importante lembrar que o autor teve grande parte de sua
vida atribulada pelos conflitos que varriam a Europa, sendo a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918) e Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sendo que esta última
foi o motivo que o levou a suicidar-se juntamente com sua esposa em Petrópolis
no ano de 1942, seis dias após submarinos alemães atacarem e afundarem navios
brasileiros em nossa costa, como se constata no trecho de sua nota de
despedida: "Deixo saudações a todos os meus amigos: talvez vivam para ver
nascer o sol depois desta longa noite. Eu, mais impaciente, vou embora antes
deles". Zweig, ao vir para o Brasil, já se encontrava deprimido, era um
crítico do materialismo estadunidense, havia se decepcionado com a União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas e estava horrorizado com o terror racial
nazista. Tinha no Brasil e na América do Sul, a sua esperança de um novo
amanhã, do nascer de uma nova civilização.
A desesperança de Stefan Zweig, com a Europa, na qual a
guerra vitimara muitos de seus notórios amigos (intelectuais, literatos, etc.),
talvez tenha levado o autor a ter uma esperança no Brasil que beirava à utopia.
Zweig projetou mentalmente um Brasil em que as favelas não mais existiriam,
pois a miséria seria combatida e, pensou que a miscigenação de nossa sociedade
tinha condições de impedir o avanço do ódio racial que viu se agigantar na
Europa. Talvez por isto, tenha exagerado na louvação a um país que sempre
esteve entre os mais desiguais do mundo, que aceita facilmente o progresso
técnico, mas refuta governos e iniciativas de reformas sociais, de redução da
desigualdade social e, sabemos, nenhum país progride sem o combate à miséria,
sem políticas de distribuição de renda e de eliminação dos privilégios
hereditariamente obtidos.
A imprensa, censurada por Vargas, não podia criticar o
governo como gostaria, mas, nada a impedia de criticar a obra do famoso autor
que escrevera um livro de louvação ao país. O linchamento da obra de Zweig foi
diária e brutal com artigos ácidos escritos sobre "um estrangeiro que não
entendia nada do país", mas, que denotava a ânsia da imprensa em poder
mirar Vargas, algo totalmente inalcançável naquele momento, dada a repressão
oficial. Há quem veja na reação dos jornalistas e intelectuais brasileiros, uma
atitude provinciana, em não reconhecer a opinião de um estrangeiro, mesmo sendo
este, o renomado e mundialmente aclamado Stefan Zweig.
Também não podemos criticar Zweig, quanto a "ingenuidade"
com que olhou para a nossa sociedade, afinal, foi preciso que governantes e
governos que ousassem mexer no status quo do "eterno fazendão governado a
partir da Casa Grande" se instalassem no poder, para que o que há de mais
reacionário, odioso e violento mostrasse a sua cara e, enfim realmente
conhecêssemos o nosso vizinho, o nosso amigo, o nosso parente.
Não devemos descrer da utopia de sermos um país com um
grande futuro, mas, para isso precisamos cortar o que nos prende ao passado, à
colonização imperialista, à escravidão, ao genocídio, às sesmarias, à política
de branqueamento (do topo da pirâmide social), ao fascismo. Na atualidade, ver
o Brasil, como um país do futuro, soa à utopia, mas, de que vale viver, sem ter
uma utopia?
Sugestão
de boa leitura:
Título: Brasil: um país do futuro.
Autor: Stefan Zweig.
Editora: L&PM, 2008, 264 pág.
sábado, 2 de setembro de 2023
Mais Platão, menos Prozac & Pergunte a Platão
Num desses dias estava conversando com uma colega que é
professora de Filosofia e contei-lhe que li dois livros sobre a aplicação
terapêutica da Filosofia em consultas com pacientes que desejam conseguir ajuda
para resolver os problemas da vida que se acumulam e os/as colocam em becos sem
saídas. Comentei que essa tendência se observa mais fortemente fora do Brasil,
principalmente nos Estados Unidos da América e também na Europa. Afirmei que
existe muita gente da área da Psicologia que não está gostando dessa invasão
dos filósofos em sua área de atuação e que os consideram despreparados para
exercer tal função, enquanto, outros que já são psicólogos estão indo atrás dos
ensinamentos de Filosofia para ao se especializar, oferecer um algo a mais para
os seus “clientes”, uma vez que os psicólogos, segundo li, não chamam as
pessoas que atendem como pacientes. Comentei com a minha colega que os
filósofos clínicos auxiliam seus clientes a desatar os nós que a vida lhes
apresentou através de sugestões embasadas na teoria de filósofos tais como
Platão, ou seja, como Platão pensaria e resolveria o imbróglio em questão
apresentado pelo(a) cliente.
Todos conhecemos pessoas que passaram por uma situação
traumática que dividiu sua vida ao meio com “um antes e um depois” que pode ser
a morte de entes queridos ou a queda vertiginosa do padrão de vida e do status
social, porém, a forma como as pessoas lidam com isso é sempre particular,
algumas “tiram de letra”, outras demoram a se adaptar à nova situação, outras
jamais conseguem superar e tornam-se consumidoras de calmantes e
antidepressivos, inclusive, é digno de nota que o consumo de tais medicamentos
em nosso país só faz aumentar. A minha colega perguntou-me se conhecia o termo
“ataraxia” e afirmei que não, ela então me apresentou um texto e explicou-me
que por ataraxia entende-se “o estado do homem em que ele se encontra
imperturbável frente às emoções, uma condição de tranquilidade, na qual,
independentemente dos fatos, o indivíduo permanece inabalável, sem se deixar
arrastar por alegrias e prazeres, nem por dores e tristezas”.
Ela afirmou que gostaria de atingir tal estágio que era
considerado pelos filósofos gregos “uma conquista possível e equivalente à
própria felicidade humana”. Quem não queria, não é mesmo? Para encerrar, nada
melhor que citar o gênio da psicanálise Freud quando disse “somos feitos de
carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”, assim, caro(a) leitor(a)
mantenha sempre em sua “farmácia caseira” doses de resiliência e de ataraxia,
pois, desejo que nunca precises, mas, se precisares, que a superação seja
rápida e o(a) torne um alguém mais forte.
Sugestão
de boa leitura:
MARINOFF, L. Mais Platão e menos Prozac: A Filosofia
aplicada ao cotidiano. 2002, Editora Record. __________. Pergunte a Platão. Terapia para quem não precisa de terapia ou como
a Filosofia pode mudar sua vida. 2005, Editora Record.




