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segunda-feira, 23 de maio de 2022

Cachorro Velho

 

    É conhecida a frase de que nos pequenos frascos se encontram os grandes perfumes. Em se tratando de literatura, obviamente isso não faz sentido. Há obras maravilhosas da literatura mundial que constituem calhamaços que desencorajam as pessoas menos disciplinadas na leitura. Há porém, livros como "Cachorro Velho" de Teresa Cárdenas (1970) que nos impressionam fortemente mesmo com um número pequeno de páginas. 

        Teresa Cárdenas é uma escritora, roteirista, atriz, bailarina e ativista social cubana. A escritora é uma das mais destacadas figuras da nova geração de escritores cubanos, sendo que recebeu o Prêmio David (1997), o Prêmio Nacional da Crítica Literária (2000), o Prêmio Casa de las Américas (2005), dentre outros. É ainda uma bailarina renomada e exerce também o ofício de contadora de histórias. 

        A escritora se lamenta da pequena participação de autores negros na literatura mundial, creditando isso à falta de oportunidades concedidas às/aos mesmas(os). A Editora Pallas se insere nesse espaço com a missão de publicar no Brasil autores negros das mais diferentes nacionalidades. Algo muito importante num país que foi um dos últimos a abandonar o sistema escravista. Recentemente, tivemos a passagem do 13 de Maio (abolição da escravatura) e, 134 anos depois, os descendentes das pessoas escravizadas têm muito pouco o que  comemorar, pois, o racismo estrutural ainda é uma das características principais da nação brasileira.

            Cachorro Velho é título e também a personagem principal da obra de Teresa Cárdenas. Trata-se de um negro que nasceu em uma fazenda cubana (engenho de açúcar) e dela jamais saiu, portanto, não conhece os arredores desta. Sua mãe era africana e dela foi separado ainda muito pequeno. Conta-se que recebera o nome Eusébio dado pelo padre católico que o batizou e um nome africano dado por sua mãe, nome este que ninguém na fazenda lembra, pois, sua mãe fora vendida. Ainda bebê, buscava encontrar sua mãe pelo olfato, portanto, cheirava as mulheres que o pegavam no colo, fato pelo qual foi apelidado de Cachorro Velho pelo Senhor de Escravos que via nele atitude semelhante ao dos referidos animais. Cachorro Velho tem 70 anos e sente que está perdendo sua vitalidade e teme ser "descartado" pelo patrão, caso este faça a fria conta dos benefícios e prejuízos de sua manutenção. A idade levou Cachorro Velho a ser designado para a função de porteiro da fazenda.

            A sua atual pouca utilidade, faz com que o patrão já não adquira roupas novas para ele que anda esfarrapado pela fazenda. Seus amigos é que lhe arrumam algumas surradas vestes para cobrir o velho e maltratado corpo. Com mais tempo disponível, ele rememora sua infância e a difícil vida de escravo. Não acredita no divino e/ou no sobrenatural, embora isso seja algo muito cultuado pelos demais negros. Acredita que o inferno é a vida na escravidão e que o paraíso é ser livre, como o senhor de escravos. Ele conta que todos os escravos não podem fitar os olhos do senhor, precisam manter a cabeça baixa perante ele, falar com ele somente se preciso e, com voz suave e de cabeça baixa. Demonstra resignação ao acreditar que o senhor é dono do destino deles e a ditar se eles podem se casar ou continuar vivendo. Ele remói suas feridas psicológicas e não alimenta nenhuma esperança de ter um resto de vida melhor. Nunca conheceu o amor, não se considera normal, pois, se relacionou com várias mulheres, mas, nunca teve tal sentimento com nenhuma delas.

            O mais próximo que teve do amor, foi quando jovem, era encarregado de levar os cavalos do senhor até o rio para dar água e banho neles, quando numa destas ocasiões, viu uma linda moça negra nadando nua no rio, que lhe sorriu e chamou-o para a água, ele se atirou na água, porém, ela fugiu nadando numa velocidade que ele não era capaz de acompanhar, gritou-lhe perguntando seu nome e ela respondeu Assunción. Jamais a viu novamente, embora jamais tenha desistido de procurá-la. Beira, a escrava que produz remédios caseiros a partir de ervas medicinais é a sua melhor amiga. Ele se pergunta, se quando era jovem, caso tivesse se casado com Beira sua vida teria sido diferente, mas, não o fez e nem mesmo sabe se ela queria isso. Beira é tida pelos negros da fazenda como feiticeira, de ter poderes sobrenaturais. 

            Na fazenda, os negros escravizados buscam preservar sua cultura e fazem suas festas (quando o senhor permite), ocasião em que dançam, bebem e comem seus pratos típicos. A chegada de uma jovem escrava fugida (Aísa) de um engenho vizinho e que é escondida por Beira causa uma mudança no rumo da vida das personagens principais da trama. Encerro aqui para não estragar o prazer da leitura desta obra pelo leitor. Esse breve relato representa pouco do que a obra proporciona. Indico fortemente sua leitura.

Sugestão de boa leitura:

Título: Cachorro velho.

Autor: Teresa Cárdenas.

Editora: Pallas, 2010, 142 pág.

 


sábado, 7 de maio de 2022

O Cortiço

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913) foi um romancista, contista, cronista, diplomata, caricaturista, jornalista, desenhista e pintor. O autor de O Mulato (1881) e Casa de Pensão (1884) tem no livro O Cortiço (1890) sua obra-prima. A obra de Aluísio Azevedo pertence ao gênero naturalista (uma radicalização do realismo) que baseia-se na observação fiel da realidade e no empirismo. Azevedo não é somente um ficcionista, é um cientista social, pois sua literatura tem como base personagens tido como comuns entre aqueles que povoavam os inúmeros cortiços da cidade do Rio de Janeiro naquele distante século XIX. Aluísio acreditava apenas no que era cientificamente comprovável e, adepto do determinismo, acreditava que  o homem sofria as influências do meio em que vive. O determinismo postulava que fatores como a raça, o meio social e o momento histórico determinavam as atitudes e o caráter das pessoas. Hoje sabemos que o homem sofre as influências do meio, mas, que não é um ser passivo, pois,  pode transformá-lo de acordo com suas necessidades (possibilismo).

            Na obra, o protagonismo cabe ao cortiço que se constituía numa sucessão de pequenas casas ou quartos num mesmo terreno para a moradia de pessoas pobres. O autor apresenta como uma das personagens principais o capitalista João Romão, um homem sem escrúpulos no que tange a exploração econômica de seus subordinados ou com quem realiza negociatas. Bertoleza é uma escrava de ganho e, como tal, repassa dinheiro para o seu senhor e poupa parte dele para a compra de sua alforria. O senhor de escravos (proprietário de Bertoleza) morre e João Romão até então amigo de Bertoleza, passa a viver com esta e a cuidar de seu dinheiro. Cobrado por Bertoleza, João Romão falsifica um documento de alforria para enganá-la e fica com seu dinheiro, o qual utiliza para construir o cortiço. Miranda é dono de um sobrado vizinho ao cortiço de propriedade de João Romão. Miranda casou-se por interesse, sua esposa (Dona Estela) é infiel, porém, Miranda a suporta, pois, seu objetivo de vida era ser rico. Miranda compra um título de barão junto à Coroa brasileira.

            João Romão compra uma pedreira junto ao cortiço e contrata o português Jerônimo, que, juntamente com sua esposa Piedade (também portuguesa) muda-se para o cortiço. No cortiço, Jerônimo atrai os olhares da fogosa Rita Baiana, que se recusa a casar (com homem nenhum) pelo desejo de continuar a ser uma mulher livre. Jerônimo se apaixona por Rita Baiana, o que desagrada Firmo, o homem com quem Rita Baiana tem um caso de longa data. Jerônimo que era um homem sério e dedicado à família (esposa e filha) e também muito trabalhador, torna-se preguiçoso, festeiro e adúltero. Sua relação com Rita Baiana acaba ocasionando uma trágica briga com o capoeirista Firmo. João Romão se incomoda com o baronato de Miranda, o qual, por sua vez, em crise financeira promove o arranjo do casamento de sua filha Zulmira com o endinheirado João Romão. Para casar-se com Zulmira, João Romão precisa livrar-se da escrava Bertoleza e suborna o delegado de polícia para que procure o herdeiro de seu ex-proprietário para que este a retome e a conduza de volta para a senzala.

            O cortiço, no qual a trama acontece, é um microcosmos da sociedade da época vivida por Aluísio Azevedo (o Rio de Janeiro do século XIX). Os acontecimentos são ficticiamente ambientados no bairro de Botafogo. No cortiço, homossexuais, lésbicas, mascates, escravos, ex-escravos, mulheres abandonadas pelos maridos, mães solteiras, curandeiros, criminosos, alcoólatras e gigolôs se fazem presentes. Na rotina diária do cortiço,  homens e mulheres exercem sua sexualidade livre, porém, não como na atualidade se faz, ao erguer uma bandeira e contrariar regras impostas pela sociedade ou pela igreja. O autor mostra as personagens numa condição animalizada e, desta forma, movidos pelos seus instintos agem naturalmente. No cortiço, há várias personagens que demonstram possuir desvios das condições mentais consideradas normais. Os traumas de tais personagens via de regra se referem às duras condições de sobrevivência que a miséria lhes impôs, como exemplo, a mulher que abandonada pelo marido se entrega ao alcoolismo e que sofre abusos sexuais quando se encontra nessa condição e até uma personagem masculina que vive na extrema miséria, mas, tem uma fortuna guardada em seu quarto no cortiço. João Romão, o inescrupuloso proprietário do cortiço, aparece como benfeitor (abolicionista) perante  a sociedade, mas, é um sujeito disposto a tudo para defender os seus interesses. A tragédia marca o fim da obra.

            O cortiço caiu na prova de literatura do vestibular que fiz naqueles distantes anos 1990 (Só havia lido um resumo da obra em preparação). Fato que aumentou a curiosidade acerca desse livro. Li somente agora, devia tê-lo feito antes!

P.S. Há também o filme (que assisti), porém, a adaptação não é tão boa quanto o livro!

Sugestão de boa leitura:

Título: O cortiço.

Autor: Aluísio Azevedo.

Editora: Panda Books, 2017, 1ª edição, 304 pág.

 

domingo, 1 de maio de 2022

O Crepúsculo da Democracia

 

Anne Elizabeth Applebaum (1964) é uma escritora e jornalista estadunidense que desenvolveu sua carreira escrevendo artigos para alguns dos jornais mais importantes do mundo sobre o comunismo e a transição do socialismo para o capitalismo levado a cabo pelos países da Europa Oriental. Anne reside na Polônia, país no qual contraiu matrimônio com o político polonês Radoslaw Sikorski com o qual tem dois filhos. Applebaum foi ganhadora do Prêmio Pulitzer de não-ficção geral em 2004. Embora radicada na Polônia, Anne viaja muito pela Europa e não raras vezes se desloca para o seu país natal, os Estados Unidos da América. Entre seus livros de maior destaque encontra-se "Entre o Oriente e o Ocidente" e "Gulag: uma história". Applebaum é fluente em inglês, francês, polonês e russo.

            O título da obra aqui resenhada é auto-explicativo. Em "O crepúsculo da democracia: como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas", Applebaum conta sobre o estarrecimento que teve quando observou que do seu círculo próximo de amizades inclusive pessoas que recebia na sua casa para banquetes, após algum tempo, já não a cumprimentavam devido a divergência políticas. Anne se define como uma pessoa cuja ideologia a coloca na centro-direita ou mesmo na direita do espectro político. Ocorre que muitas das suas antigas amizades foram inviabilizadas. Muitas dessas pessoas afirmam que Anne é uma esquerdista, embora a jornalista afirme que ela se mantém fiel a ideologia que sempre teve e que a coloca no canto oposto da esquerda política. Antenada, Applebaum acompanha a trajetória de seus amigos e amigas e observa atônita que muitas dessas pessoas defendem posições antidemocráticas e praticam discursos de ódio.

            Na obra, Anne discorre sobre a polarização política que ocorre em vários países cuja rachadura do tecido social só faz aumentar. Comenta sobre as bolhas que se formam nas redes sociais onde quem pensa diferente é excluído ou se auto-exclui. Se informando por meio de redes sociais e sites nem sempre confiáveis quanto à qualidade da informação e, sem disposição para fazer a checagem de tais notícias, as pessoas acreditam com uma fé inquebrantável em fake news produzidas ao gosto do consumidor. A autora discorre também sobre o fascínio que o discurso autoritário desperta em pessoas que acreditam que as coisas podem ser resolvidas facilmente com o uso da força. O discurso de ódio é dirigido contra tudo aquilo que é diferente, seja o imigrante, a população LGBTQIA+, os esquerdistas, etc.

            Applebaum registra que muitas vezes tais discursos de ódio versam sobre problemas inexistentes naquele país, porém, políticos utilizam tais falas para capitalizar apoios. Ela cita a Hungria que sequer tem problema considerável quanto a entrada de imigrantes, mas, cujos discursos políticos e noticiários debatem o tema o tempo todo. Anne se diz assustada com os discursos de ódio evocando a xenofobia, o racismo, etc. proferidos por pessoas com as quais conviveu. Tais discursos versam sobre como o passado era glorioso, de que nele havia dignidade, heroísmo, etc. E denotam grande preconceito contra judeus, muçulmanos, esquerdistas, etc. A autora também afirma que a violência, seja ela, verbal ou física contra funcionários públicos, jornalistas e juízes só aumenta.

            A autora faz uma constatação importante, ela sugere que a chamada velha mídia (a mídia tradicional) perdeu a exclusividade de pautar os temas para a discussão da sociedade. Hoje quem faz isso são as redes sociais que escancararam a complexidade do mundo. As redes sociais, têm um aspecto democrático, ao possibilitar que mais parcelas da sociedade possam se ver representadas nas discussões, porém, a tendência de formação de bolhas de pensamento único tendem a manter apenas aqueles que compartilham de tal ideologia. Sem o confronto com  o discurso contraditório, as pessoas tomam como verdade, interpretações dos fatos e não os fatos em si e, dessa forma se tornam agressivos contra quem discorda da verdade, que é a única possível, a sua verdade. Os fatos já não importam. Como as redes sociais são várias e, inúmeros são os canais e sites existentes nas redes sociais, as pessoas não se entendem ao dialogar sobre determinados fatos, pois, cada um teve acesso a interpretações dos fatos e não aos fatos em si.

            A autora lembra dos fundadores dos Estados Unidos e como eles se preocuparam com o risco que políticos populistas e autoritários poderiam causar à democracia estadunidense colocando contrapesos para evitar o risco da aventura autoritária. Anne considera que não há garantias suficientes colocadas em qualquer constituição, em qualquer país do mundo, mas, que a resistência aos projetos autoritários de poder representados por políticos (por ela citados) em vários países, precisa ser sempre vigilante e atuante. Um desafio enorme tendo em vista a cacofonia que se tornou atualmente o debate sobre a política, a cultura, enfim, a sociedade.

Sugestão de boa leitura:

Título: O crepúsculo da democracia.

Autor: Anne Applebaum.

Editora: Record, 2021, 1ª ed., 167 pág.

 


sábado, 23 de abril de 2022

O Pagador de Promessas

 

    O livro "O Pagador de Promessas" do romancista, contista e teatrólogo Dias Gomes (1922-1999) é uma peça teatral do gênero dramático. Para quem não é familiarizado com a leitura de obras escritas para o teatro, elas vêm estruturadas em atos e cenas inclusive com as indicações do autor para a representação conforme ele a idealizou.

         A narrativa se desenvolve  acerca do pagamento de uma promessa cuja graça foi alcançada por Zé do Burro (personagem principal). O burro de nome Nicolau acompanhava seu tutor a todo lugar onde ia. Zé considerava o animal como seu melhor amigo. Ocorre que uma tempestade de raios ao atingir uma árvore fez com que um galho caísse sobre o animal. Acometido de forte hemorragia, o animal começou a definhar apesar de todos os cuidados prestados pelo "doutor". 

        Para salvar seu amigo, Zé recorreu a curandeiros, mas, foi em um terreiro de candomblé em que diante da imagem de Iansã (orixá feminino correspondente a Santa Bárbara no rito católico) que ele fez a promessa de dividir em partes iguais seu sítio com algumas pessoas despossuídas de terra e carregar uma cruz tão pesada quanto a de Cristo até a Igreja de Santa Bárbara que distava sete léguas (46,2 km) e colocá-la no altar da referida igreja. 

        Rosa, a matuta e sexy esposa de Zé do Burro o acompanha e eles chegam de madrugada e encontram a igreja ainda fechada. Pelo local passava um cafetão cuja alcunha é "Bonitão" que logo busca se inteirar do fato inusitado e se engraça com a atraente esposa de Zé do Burro. Rosa corresponde, talvez pela carência em um matrimônio no qual pouca atenção recebe.

            Após se inteirar da promessa de Zé do Burro, Bonitão se oferece para encontrar um hotel para eles descansarem, porém, Zé afirma que receia que a cruz seja roubada e Bonitão lhe diz que a região tem muito ladrão e que ele poderia levar Rosa para um hotel próximo para que ela então descansasse. Ardil que funcionou e dessa forma Bonitão e Rosa ficam juntos no hotel. 

           Amanhece o dia de Santa Bárbara e logo pela manhã a Igreja é aberta e o sacristão conversa com Zé do Burro e fica sabendo das intenções deste. O padre Olavo conversa com Zé do Burro e o questiona sobre sua promessa, momento em que começa a confusão. A promessa feita em um terreiro de candomblé em frente a uma imagem de Iansã para ser paga em frente a um altar da igreja católica de Santa Bárbara em troca da salvação de um animal quadrúpede (um burro) não tem a aceitação do padre que se recusa a deixá-lo entrar na Igreja. Logo a cidade toda fica sabendo do fato, e com a confusão formada, muitos querem se aproveitar da situação. 

        O comerciante busca fazer publicidade de seu estabelecimento junto ao burburinho e um jornal sensacionalista amplia o acontecimento dando ao mesmo significados totalmente distorcidos. Zé do Burro que apenas queria pagar sua promessa estampa a pagina principal do jornal ora como um revolucionário comunista que é contra a exploração do homem pelo homem, ora como um militante em favor da reforma agrária. Para a polícia passa a ser visto como um agitador social comunista que passa a vigiá-lo. O povo começa a ver nele um novo Cristo e pessoas vão até ele pedir a cura de suas doenças.

        O jornal continua a imprimir suas manchetes dando a ele novos tons: "místico ou agitador?" e a questionar o papel da Igreja na recusa de receber a cruz no altar embora não tenha nenhum interesse no desfecho do caso que lhe está possibilitando o aumento da publicidade em suas páginas e do incremento de vendas de exemplares.

            Preocupado com a dimensão que o caso tomou, o bispo vai até a paróquia para tentar resolver a situação. O bispo diz estar preocupado com a dimensão política que o caso tomou, pois, pode afetar a imagem da Igreja Católica. O padre Olavo afirma que somente viu pelo aspecto religioso no qual condenou o curandeirismo e o paganismo. O bispo tenta fazer com que Zé renuncie à sua promessa (sem sucesso). 

        A obra denuncia a intolerância religiosa, a opressão do Estado por meio da polícia e divulga aspectos da cultura popular, os bailes, a prostituição e a ingenuidade das pessoas e, claro, a ação da imprensa sensacionalista, cuja opinião é mais importante do que o fato em si. O final, obviamente, tem uma carga dramática espetacular que não revelarei aqui, apesar da ampla popularidade que alcançou. 

          A peça foi retratada em duas versões cinematográficas e, em uma minissérie pela TV Globo. Indico a versão cinematográfica de 1962, sob a direção de Anselmo Duarte e com Leonardo Villar no papel de Zé do Burro e Glória Menezes (então moça) no papel de Rosa, a qual apesar de ser em preto e branco é a melhor.

Sugestão de boa leitura:

Título: O Pagador de Promessas.

Autor: Dias Gomes.

Editora: Nova Fronteira, 2010, 152 p.

 

 


terça-feira, 19 de abril de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - parte 5

            

            O genial escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) afirmava que sempre que alguém tenta esgotar um assunto, esgota também a paciência do leitor. Ciente disso, peço desculpas por uma vez mais trazer a temática retratada no título. Peço que considere o fato de ser este humilde escriba sofredor de distúrbios psicológicos que o cobrariam pela omissão de aspectos relevantes. Prometo também que na próxima edição mudarei o tema de nossa conversa. Como aqui já disse, "em uma guerra, a primeira vítima é a verdade". A guerra entre Rússia e Ucrânia segue o script, ou seja, é uma guerra de narrativas. Denúncias de crimes de guerra contra a Rússia foram feitas e, com uma agilidade imprudente, pelo Ocidente foram chanceladas como verdadeiras, apesar de carecerem de investigação. A Rússia, por sua vez, acusa a Ucrânia de montar cenários e produzir provas falsas com o intuito de posar como vítima e conseguir apoio internacional. Afirma ainda que a Ucrânia utiliza a população civil como escudo de proteção de alvos militares daquele país.

            A Rússia acusou os EUA de  colaborar com a Ucrânia em experimentos de armas biológicas conforme vestígios encontrados nesta última. A Rússia também acusa a Ucrânia pela forte presença de grupos nazistas no aparato estatal, especialmente no setor militar após o golpe de 2014. O que chama atenção é como as denúncias ucranianas sobre crimes de guerra da Rússia são logo acatadas como verdade incontestável pelo Ocidente. Engana-se quem pensa que essa guerra de narrativas tem como origem apenas os países beligerantes. A mídia ocidental está engajada como sempre na disputa da hegemonia do discurso, algo que faz eficientemente. A Rússia reclama de uma campanha ocidental na semeadura da russofobia nas mentes da humanidade. É impossível se chegar à verdade sem ouvir os dois lados de uma contenda. Não por acaso, a mídia russa foi banida das redes sociais do mundo ocidental.

            Nunca um país sofreu tantas sanções econômicas como a Rússia. O que estranha é que outros países que promoveram conflitos (internos ou externos) e comprovadamente cometeram crimes de guerra passaram incólumes. A OTAN, em especial, os Estados Unidos da América são exemplos disso, porém, acusam a Rússia de atos que também praticaram nos conflitos onde se envolveram. Como popularmente se fala: "é o sujo falando do mal lavado". Os EUA tem uma longa lista de crimes de guerra, podemos citar como exemplos, o bombardeio de inocentes com as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki (ato impiedoso ímpar na história da humanidade), o bombardeio com armas químicas no Vietnã, o apoio e colaboração com ditaduras sanguinárias na América Latina durante a Guerra Fria e, recentemente, as torturas praticadas contra prisioneiros em Abu Ghraib (Iraque) e em Guantánamo (possessão estadunidense em Cuba). Os Estados Unidos jamais foram punidos por seus crimes de guerra, da mesma forma, nações imperialistas europeias que promoveram genocídios na colonização do continente americano, africano e asiático. Se poderá falar que à época da colonização, não havia tribunais internacionais, no entanto, nem depois da sua criação após a Segunda Guerra Mundial isso acontece. É verdadeira a frase do escritor inglês George Orwell (1903-1950) quando disse:  "a lei é para todos, mas, alguns são mais iguais que os outros".

            Qualquer pessoa minimamente esclarecida, já percebeu que a contenda entre Ucrânia e Rússia é de grande interesse para os EUA e a OTAN. Ela propiciou às potências ocidentais uma oportunidade de ouro para promover o estrangulamento econômico da Rússia e, assim enfraquecer tal país e consequentemente atingir a aliança com a China. Como já disse, o pano de fundo do conflito na Ucrânia é a disputa pela hegemonia mundial. O Ocidente a quer manter no Atlântico ante os indícios de que ela tende a migrar para o Pacífico (China - Rússia). Fala-se até na possibilidade de que o BRICS que constitui até o presente momento um grupo informal de discussão e cooperação entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul possa a vir formar uma aliança militar nos moldes da OTAN. A se efetivar tal intento, o Brasil teria que optar em estreitar laços com estes países, o que desagradaria os Estados Unidos da América e a Europa. Estreitar ainda mais os laços econômicos com o grupo seria muito bom, porém, no campo militar a situação se complica, pois, teria que romper com sua histórica política de neutralidade. A iniciativa esbarra ainda no histórico de conflitos territoriais entre China e Índia, embora, esta última tenha criticado as sanções impostas à Rússia e tenha afirmado que poderá realizar compras da Rússia em rublos se esta assim solicitar.

            Encerro dizendo, que os direitos humanos são universais e, as penalidades da lei internacional deveriam ser aplicadas a todos. Líderes nazistas alemães foram corretamente levados a julgamento em tribunais internacionais, o presidente estadunidense Harry Trumann (1884-1972) que autorizou o lançamento de bombas atômicas sobre o Japão, não. É óbvio que poderoso como é, os Estados Unidos não permitiria. É utópico pensar que nações poderosas e seus líderes paguem por seus crimes contra a humanidade. Mas é um objetivo que deve ser perseguido. O mecanismo de funcionamento da ONU, em especial, do Conselho de Segurança precisa ser revisto. O combate à desinformação e à manipulação ideológica midiática é necessária e urgente. Um mundo melhor se faz com pessoas esclarecidas e críticas!

domingo, 3 de abril de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - parte 4

 

        O filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677) afirmou que "A paz não é mera ausência de guerra. É uma virtude, um estado mental, uma disposição para a benevolência, confiança e justiça". Essa frase resume o que faltou aos líderes europeus e estadunidenses após o fim da Guerra Fria, afinal, a beligerância dos discursos foi sempre na contramão do que o bom senso e a inteligência recomendavam para aquele momento. Também não se pode ser ingênuo, afinal, como disse o estrategista Carl Von Clausewitz "a guerra é a continuidade da política por outros meios".  E a política que sempre norteou e norteia o pensamento europeu e estadunidense é o imperialismo.

            Vivemos um tempo surreal, a narrativa (opinião) vale mais do que o fato (real) em si. É preciso dizer também o óbvio. Digo então, (por mais ridículo que pareça precisar dizê-lo), que sou pacifista e concordo com o general estadunidense Norman Schwarzkopf, comandante da Operação Tempestade no Deserto quando disse: "Nenhuma pessoa sendo verdadeiramente inteligente pode ser a favor da guerra". Digo isso, porque em várias oportunidades ao explicar as razões que levaram à Rússia a tomar a trágica decisão beligerante  demonstrando as minhas críticas ao papel desempenhado pelos EUA e pela OTAN, pessoas pensaram que eu tinha um posicionamento favorável à Guerra, o que não corresponde a verdade.

            Lembremos que "numa guerra, a primeira vítima é a verdade" (autoria desconhecida).  A Guerra na Ucrânia está sendo uma guerra de narrativas, sendo que a mídia russa está sendo censurada e proibida de circular nos países ocidentais. Importantes meios de comunicação russos foram proibidos no Facebook  e no You Tube e isso é péssimo para a informação e para a democracia, afinal jamais se chega a verdade sem ouvir os dois lados conflitantes. Trata-se de uma agressão ao público que ouve apenas um lado (mídia ocidental), o qual não por acaso coincide com os interesses das potências ocidentais. Sobre isso o linguista, filósofo, escritor e ativista político estadunidense Noam Chomsky professorou: "O propósito da mídia não é o de informar o que acontece, mas sim de moldar a opinião pública de acordo com a vontade do poder dominante".

             Em uma guerra sabemos, o poder da narrativa é tão importante quanto o poderio militar. A Alemanha nazista tinha como um de seus grandes trunfos, a publicidade do regime conduzida pelo eficientíssimo ministro da Propaganda Joseph Goebbels, que talentoso e comunicativo, conseguiu o apoio da população alemã a um governo que conduziu aquele país e o mundo à catástrofe da Segunda Guerra Mundial. Ditadores, disso também não descuidam, Getúlio Vargas teve seu Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) para promover a publicidade do regime e a censura à notícias críticas. A mídia ocidental faz uma cobertura parcial e manipuladora da guerra na Ucrânia e contribui para a desinformação enquanto doutrina as pessoas alimentando a russofobia.

             Em geopolítica, aprende-se que não há nada mais ilógico do que o maniqueísmo. Nunca ou quase nunca é a luta do bem x mal, do mocinho x bandido. Cada nação beligerante tem a sua porção vítima e a sua porção agressora. Ingênua é a pessoa, que escolhe um lado como sendo o do bem. Não há boas intenções na guerra. Os EUA e a OTAN ganharam a oportunidade de sancionar a ascendente economia russa causando-lhe enormes danos e fornecem armamentos para a Ucrânia (possibilitando fabulosos lucros para a sua indústria bélica) a fim de estender a guerra pelo maior tempo possível com o objetivo de desgastar a principal aliada da China. O que está acontecendo é uma contestação a atual Ordem Mundial que tem o Atlântico como centro (EUA/Europa) para outra em que o poder militar e econômico (hegemonia) poderá estar no Pacífico (China/Rússia). E isso é algo que os Estados Unidos e a Europa no papel de coadjuvante tentam impedir.

            O físico Isaac Newton afirmou: "toda ação corresponde a uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto". Obviamente, Newton se referia à física, mas, isso também vale para as relações internacionais e como exemplo, imaginemos que o Brasil tivesse mantido o projeto de construir a bomba atômica, como reflexo, a Argentina também teria mantido o seu e, ambos estariam acumulando armas nucleares apontadas para o país vizinho. A ideia da Ucrânia de solicitar a entrada na OTAN (previsto na Constituição Nacional) foi insensata, um país dependente de recursos energéticos e do comércio com a Rússia deveria manter a neutralidade, até porque a Rússia reagiria em defesa de sua segurança, porém, mais imprudente é a política da OTAN em expandir para o leste europeu, afinal, a busca da paz deve estar nas atitudes e não apenas nos discursos. A diplomacia deve superar o poder militar, sempre!

sábado, 26 de março de 2022

A Rússia na Guerra Fria 2.0 - parte 3

 

            É consenso que todo país tem direito de livremente fazer suas escolhas. Mas existem escolhas insensatas, equivocadas e prejudiciais que jamais devem ser tomadas. Há alguns dias a OTAN recusou-se a fazer uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia (sitiada pela Rússia) pois, caso fizesse teria que utilizar suas aeronaves para patrulhar os céus daquele país e abater todo caça russo que estivesse na área e isso seria o início da terceira guerra mundial. É uma pena que tal sensatez não tenha sido adotada pela OTAN ao fazer sua expansão para o leste europeu. Basta olhar um mapa da Eurásia e ver porque a Rússia se sente insegura com a presença cada vez maior desta aliança em suas fronteiras, afinal, um cerco está sendo fechado em seu entorno. Lembro do livro "A arte da Guerra" de Sun Tzu, um estrategista militar chinês que deixou para a humanidade essa obra fantástica cujos ensinamentos são muito utilizados em diversas áreas (esportes, negócios, educação e, claro, militar). Sun Tzu professorou que "Se você não deseja um embate direto com seu inimigo, nunca o cerque, deixe sempre um espaço para a sua retirada, caso contrário, em não tendo saída, ele lutará encarniçadamente contra você".

            Lembremos da Crise dos Mísseis de 1962, naquela ocasião como revide ao fato dos EUA terem implantados mísseis nucleares na Itália e na Turquia, a URSS implantou mísseis nucleares em Cuba. Quase houve uma guerra nuclear entre as duas superpotências. Ambas cederam e retiraram seus mísseis e é devido a esse fato que você está lendo essas linhas. Há alguns dias, o presidente russo Vladimir Putin acenou que tal como os EUA se julgam no direito de colocar bases militares nas portas da Rússia, a Rússia poderia pensar em instalar bases militares em Cuba e na Venezuela. Foi o suficiente para que Washington respondesse que tomariam as medidas necessárias para evitar a "desestabilização" da América Latina. Por desestabilização entendam a perda do seu controle total sobre a região tratada como seu quintal.

            Com o fim da Guerra Fria em 1991, com a derrocada do perigo representado pela extinção do Pacto de Varsóvia e do desmoronamento da URSS e, mais, com o colapso das economias daqueles países que faziam a transição para o capitalismo é de se perguntar: por que a OTAN ainda existe? A resposta é que sempre há um inimigo e se não há, ele precisa ser criado. Afinal, é necessário justificar perante o contribuinte que paga a conta dos fabulosos gastos militares a necessidade da manutenção dessa gigantesca máquina de guerra. É importante salientar também que a indústria de armamentos é muito lucrativa e contribui fortemente com recursos financeiros para as campanhas parlamentares e presidenciais. Isso posto, é importante lembrar que a OTAN nascida como aliança militar defensiva passou a ser a ponta de lança do imperialismo estadunidense e europeu na região do Velho Mundo, afinal, intervenções militares dessa aliança foram realizadas contra países que jamais ameaçaram a segurança de qualquer de seus membros, exemplos são as intervenções da OTAN no Kosovo, no Afeganistão e na Líbia.

            O decadente imperialismo europeu, perdeu o trono, mas, não a majestade e precisa do apoio militar estadunidense para com mãos armadas defender os seus interesses estratégicos. Os Estados Unidos da América, a nação mais beligerante do planeta e, cujos discursos moralistas sobre a democracia, o respeito aos direitos humanos e a paz, demonstram ter os governantes mais hipócritas do mundo, precisam manter a OTAN como um braço direito para os seus interesses estratégicos mais escusos e como justificativa para manter bases militares na Europa. O império estadunidense está em declínio e, como os demais impérios que lhe precederam, tudo faz para evitar a derrocada. Os EUA são a nação mais endividada do planeta, e seus gastos militares estratosféricos (para manter a fabulosa máquina de guerra de que dispõe) contribuem para o sempre crescente déficit orçamentário, que tem na China seu maior credor. Os EUA precisam do apoio militar e financeiro da Europa e há muito reclamam do baixo investimento de países como a Alemanha no setor militar. A se tomar como fato, os discursos de líderes europeus, a Guerra na Ucrânia deu início a uma nova corrida armamentista no velho continente. Enquanto mulheres choram a perda de seus entes queridos, homens à frente da indústria de armas sorriem!