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terça-feira, 13 de outubro de 2020

Os sertões

 

     

            Ler "Os  Sertões" constitui um marco na vida de um leitor entusiasta, afinal, trata-se de um grande clássico. O fato de tratar-se de um calhamaço (700 páginas) e o cientificismo empregado no texto do livro assusta muita gente, mas, não devia. É importante que se diga que inúmeras vezes o leitor precisará recorrer ao dicionário, mas, que o esforço é grandemente recompensado. Na época em que "Os Sertões" foi escrito, a escrita rebuscada e a abundância de termos científicos eram comuns nas grandes obras e, o engenheiro, militar, naturalista, jornalista, geógrafo, professor, poeta, romancista, ensaísta e escritor Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909) o redigiu durante cinco anos para ser um grande livro, sua obra-prima e foi exitoso.

            A obra é dividida em três partes: A terra, o homem e, a luta. Na parte intitulada "A terra", Euclides da Cunha descreve e explica minuciosamente os aspectos naturais da região, sua formação geológica e geomorfológica. É importante que se diga que após 118 anos de sua publicação, o conhecimento científico evoluiu e a obra se encontra defasada. Há também críticos que afirmam que Euclides ousou demais e cometeu alguns deslizes (erros) na abordagem científica. Digo que não há como ler "Os Sertões" e não se assombrar com o gênio que o Brasil perdeu quando de sua trágica morte aos 43 anos de idade. Na parte intitulada "O homem" Euclides move seu olhar para o sertanejo, sua origem por meio da miscigenação e sua forma de viver no sertão. Descreve o jagunço e o vaqueiro e cunha a frase "o sertanejo é antes de tudo um forte". Faz isso sempre sem deixar de ancorar o que observa in loco no conhecimento antropológico e sociológico obtido por meio de suas leituras.

            É na parte intitulada "A luta" que o escritor vai dizer a que veio seu livro, ou seja, para denunciar o genocídio contra uma multidão de excluídos levado a cabo pela República recém instaurada por meio do Exército Brasileiro. É importante que se diga que Euclides foi militar e era republicano, logo, opunha-se à restauração da Monarquia. E com esse espírito ele acompanhou a quarta expedição militar à Canudos. Canudos era uma fazenda abandonada na Bahia na região da caatinga e nela foi fundado o povoado de Monte Belo pelo cearense Antonio Vicente Mendes Maciel vulgo "Antonio Conselheiro" (1830 -1897). Antonio Conselheiro foi um asceta que peregrinou pelo sertão pregando durante quase trinta anos, reformando e construindo igrejas e açudes para a população pobre. Tinha uma fala mansa e tratava a todos como irmãos e estes chamavam-no de pai. A forte religiosidade da população sertaneja pobre levava-os a acreditar que ele era a reencarnação de Jesus, embora, Conselheiro negasse ser. Na década de 1870 uma seca severa e prolongada tornou a vida dos sertanejos ainda mais difícil. A elite local já havia solicitado à Monarquia que se tomasse alguma providência contra Conselheiro e, ele até foi preso, mas, nunca se encontrou nada contra ele, apesar dos inúmeros boatos de assassinatos. A ascendência dele sobre a população incomodava os coronéis (fazendeiros) da região.

            O país havia passado por grandes transformações históricas, houve o fim do ciclo da cana-de-açúcar, a libertação dos escravos (1888) e, a consequente Proclamação da República (1889). A instauração da República não trouxe mudanças para a população pobre, menos ainda, nos rincões interioranos do Brasil. O país estava atrelado a uma grande e pesada dívida externa, a moeda estava depreciada, o preço do café (nosso principal produto de exportação) estava em queda e o governo republicano para fazer frente às dificuldades financeiras aumentara os impostos, no entanto, o sertanejo continuava tão abandonado quanto na época da Monarquia, porém, agora lhe eram cobrados pesados impostos. Os fazendeiros, se irritavam com Antonio Conselheiro, pois, os sertanejos o seguiram e com ele fundaram Monte Belo (1893), não mais trabalhando em troca de quase nada para os coronéis. Em Monte Belo (Canudos) construíram 5200 casebres e estavam construindo uma grande e nova igreja. Trabalhavam nas terras e produziam alimentos que eram divididos entre todos. Produziam farinha de mandioca, feijão, milho, batata, cana de açúcar, carne de sol (cabras), leite e queijo de cabra. Não era muito, mas, para muitos era mais do que tiveram a vida toda.

            Antonio Conselheiro adquiriu madeiras para a igreja nova e pagou à vista, o comerciante que não gostava de Conselheiro recebeu, mas, resolveu não entregar a madeira. Antonio Conselheiro avisou que levaria sua gente e traria a madeira à força para Canudos. O comerciante procurou autoridades locais e estas solicitaram ajuda do Governo Federal. No primeiro embate, houveram pesadas mortes no lado de Conselheiro e poucas das tropas oficiais (a madeira não foi entregue). Como os coronéis não suportavam mais Antônio Conselheiro juntamente com as autoridades locais ampliaram as falas de Conselheiro que considerava a chegada da República como se fosse a do próprio Anti-Cristo e "pintaram em seu grupo as cores" de um movimento com ramificações internacionais para a restauração da Monarquia (algo que absolutamente não existia). Por sua vez, a República queria dar uma demonstração de força e Canudos seria o exemplo para todo o país. Conselheiro e sua gente que nada recebiam em troca do Governo Federal, apenas, não queriam pagar impostos, pois, o povoado estava progredindo e até exportando couro.

            Estimulado pelas autoridades e pela elite baiana e, também pela classe média brasileira que exigia a asfixia do movimento tido por ela como monarquista, o governo preparou três expedições contra Canudos que foram humilhantemente rechaçadas pelos sertanejos que, embora mal armados, conheciam como ninguém o terreno e tinham ânimos invencíveis, pois, lutavam pelo Conselheiro a quem tinham como o próprio "Bom Jesus" e pela vida que, apesar de simples, nunca fora tão boa. O Governo Federal preparou uma mega expedição com tropas de vários estados brasileiros e levou o que havia de melhor em armamentos (canhões, carabinas, metralhadoras, fuzis, granadas, dinamite, etc.). Após uma campanha que se mostrou mais demorada e difícil do que se esperava, "Canudos que não se rendeu e que não foi vencida, foi extinta". À exceção de mulheres, crianças e velhos inválidos, todos os prisioneiros eram interrogados e degolados pelo Exército. Os mortos foram contados em cinco mil militares e vinte mil canudenses. O arraial foi reduzido à pó e a guerra só acabou a 05/10/1897 com a morte simultânea dos últimos quatro combatentes que de uma vala em meio a cadáveres repeliam o fogo de um destacamento inteiro de soldados. O palco da guerra retratado em fotografia mostrava a destruição das construções, cadáveres mutilados para todo lado e as duas igrejas destruídas encontra-se hoje sob 18 metros de água do reservatório de Cocorobó, que poderia ter sido construído a jusante de forma a evitar a inundação das ruínas do arraial (escolha infeliz se, não premeditada). Conselheiro que havia morrido cerca de duas semanas antes, teve seu corpo exumado, fotografado e sua cabeça cortada e levada para a capital. Foi um genocídio (mais um na conta do Exército Brasileiro) e Euclides fez questão de denunciá-lo. Fez bem e, de forma magistral!

 

 

Sugestão de boa leitura:

Título: Os sertões.

Autor: Euclides da Cunha.

Editora: Ubu Editora/SESC, 2016, 700 p.

Preço: R$178,50 (versão com fortuna crítica) - há versões mais baratas.

sábado, 3 de outubro de 2020

A necessidade dos serviços públicos e o ódio ao servidor

         

            O Brasil é um dos países mais injustos do mundo. O índice de Gini utilizado para comparar a desigualdade social nos coloca na vergonhosa 7ª colocação atrás apenas de seis países africanos. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também não é motivo de orgulho, muito pelo contrário, somos o 79º melhor país em qualidade de vida. Tendo em vista que estamos num país que é a 9ª economia do mundo, algo obviamente está errado e, há muito tempo. E se a condução da economia nacional historicamente produziu esse gigante com pés de barro, obviamente, não pode ser obra do acaso, mas, de um projeto. É um grande erro dizer que o país nunca vai dar certo, para uma minoria ele sempre deu certo. Falo dos bilionários que aumentaram em número e capital durante a pandemia, sem que haja críticas contundentes da sociedade para tal fato, como há (e sempre há) quando uma categoria de trabalhadores luta (por meio de greve) na manutenção de seus direitos e pela reposição de salários defasados visando garantir sua mera sobrevivência de forma digna. Sobre isso, Simone de Beauvoir (1908-1986) já alertava: "o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". O trabalhador alienado é algoz de seu semelhante e, por consequência de si mesmo.

             Em um país com tamanha desigualdade social, a oferta de serviços públicos é vital para a sobrevivência da população pobre (trabalhadora). Sim, se você é trabalhador assalariado, você é pobre. No entanto, surrealmente vemos pessoas trabalhadoras, portanto, pobres (é importante repetir) que sem dinheiro para pagar, pregam a total privatização dos serviços públicos. Que os ricos desejem o Estado Mínimo é compreensível, não lhes falta dinheiro para pagar por tais serviços e, também vêm na privatização dos serviços públicos uma grande possibilidade de ganhar dinheiro, ofertando-os, mas, você que é trabalhador (pobre) não poderá pagar por eles, quer um exemplo? Quanto custa um tratamento prolongado em UTI? E uma cirurgia cardíaca? (É bom ter SUS). Precisa melhorar, mas, é bom ter! E quanto custa para formar o filho em um curso de medicina numa universidade privada? (É bom ter universidades públicas). Precisa melhorar o acesso da classe trabalhadora a esses cursos, mas, é bom ter!

            Nessa sociedade onde indivíduos sem terras defendem latifundiários, pobres votam em milionários para legislar sobre o destino do país (e de suas vidas) e criticam raivosamente quem tem consciência de classe chamando-os de comunistas, como se chamar alguém de comunista constituísse ofensa, quando na verdade é elogio, inclusive, esse escriba acha graça quando assim o chamam, porém, (dotado de honestidade intelectual) sabe não merecer, mas, que envaidece, envaidece. Dentre os trabalhadores (pobres) que defendem a total privatização dos serviços públicos, há os que fazem por seu estado de alienação e, outros por nutrir profundo ódio ao funcionalismo público. Há quem pense que todos os funcionários públicos recebem super-salários, quando muitos sequer recebem o salário mínimo regional. Os super-salários estão reservados a magistrados, políticos e seus assessores em cargos comissionados. A precarização das condições de trabalho (salarial, inclusive) do servidor público não resultará em melhoria do serviço público e, tampouco, a oferta por agentes não concursados resultaria.

            Existem políticos e não são poucos que gostariam que os servidores públicos não fossem concursados, pois, assim poderiam fazer das repartições públicas seu curral eleitoral e nelas alocar os apoiadores de campanha. Cada novo governante, trocaria os servidores, em prejuízo para a população, mas, em benefício dos bajuladores (apadrinhados políticos). Um trabalhador concursado teve méritos (a tão defendida meritocracia dos liberais) ao passar no concurso público (aberto a todos), o bajulador, não. Um servidor concursado pode se negar a fazer algo ilegal, o bajulador, sob medo de perder seu ganha-pão, faz. Quanto a muitos serviços que foram privatizados, basta lembrar que muitos investimentos estrangeiros em plantas industriais estão evitando o Brasil devido ao alto custo da energia elétrica, das telecomunicações e dos transportes e que na Europa, muitas privatizações estão sendo desfeitas devido a má qualidade dos serviços prestados. Digo ainda que um estado de bem-estar social (social democracia) tal como proposto na Constituição Federal de 1988 não é comunismo, aliás, comunismo no Brasil é como a lenda do bicho-papão, porém, usado para causar medo em adultos que não amadureceram.

 

sábado, 26 de setembro de 2020

A necessária consciência de classe

             Enquanto refletia sobre que tema abordar neste espaço, ouvi minha esposa ao telefone e o conteúdo da fala me chamou a atenção, aproximei-me e escutei em silêncio. Concluída a ligação a inquiri para entender o contexto. Ela falava com um operador de telemarketing de e-commerce que a aconselhava a abrir uma reclamação pela demora da entrega dos produtos pela estatal Correios. Ela se recusou a fazer o que lhe fora sugerido e disse que os funcionários dos Correios tinham direito a fazer greve e que ela os apoiava em suas reivindicações. Disse ainda que não via problema na demora dos produtos, afinal era por uma boa causa. Digo a você que fiquei com muito orgulho dela. Muito li que os opostos se atraem, em nosso caso, foi justamente o inverso. A convergência na forma de pensar e de ideais nos aproximaram e nos mantêm unidos, afinal, inteligência e bom senso são fundamentais e nisso ela me supera.

            Ela é da área de exatas, suas leituras visam a história da ciência,  da física, da matemática, etc., ou seja, não tem o hábito de ler autores marxistas, mesmo assim, lembrei o quanto sua atitude parecia atender ao clamado de Karl Marx (1818-1883) em "O Manifesto Comunista" quando dizia: "Trabalhadores do mundo, uni-vos" ou ainda, os ensinamentos de Antonio Gramsci (1891-1937) quando em suas obras professorava sobre a necessidade de formar o intelectual orgânico na figura do trabalhador capaz de ser dirigente e, de compreender e ensinar que independentemente da função exercida (gari, professor ou médico) a classe trabalhadora é una e nela seus integrantes devem ser solidários e cooperativos. O que muito atrapalha para tal é a falta de consciência de classe de grande parcela da classe trabalhadora, problema muito antigo, afinal, no período escravocrata haviam negros no papel de feitores de escravos e de capitães do mato. Havia ainda quem fosse contra o fim da escravidão, apesar de não possuir terras e ser pobre. Enfim, consciência de classe é como disse, um problema crônico do país, que apesar de ser um dos mais desiguais do mundo elege periodicamente a bancada do Congresso Nacional cuja maioria é formada por latifundiários e milionários que garantem com seu trabalho no Poder Legislativo que nada mude. A escravidão, legalmente, não mais existe, porém, persiste no ranço de uma "elite do atraso" como assim a denominou o sociólogo Jessé Souza.

            Em nossa sociedade "do atraso" abundam fontes de "ruídos" travestidos de informação e fake news se proliferam como pragas e, em meio a esse caos midiático, a forte alienação e a débil capacidade de interpretação de texto constituem praticamente nós górdios na formação intelectual do brasileiro médio. Seria a falta de consciência de classe de grande parcela da classe trabalhadora um mal irremediável? Penso que não, porém, assim como para curar uma pessoa do uso de substâncias tóxicas é necessária sua forte disposição em enfrentar o problema, não se adquire consciência de classe sem reflexão crítica seja sobre a leitura que se faz ou a própria vivência. Ler e viver, em si, não tornam as pessoas críticas, mas, refletir profundamente sobre o que se lê e o que se vive, sim. O atual sistema educacional sofre consequências diretas e indiretas de problemas estruturais de nossa sociedade e vive uma crise permanente. Darcy Ribeiro (1922-1997) já alertava que "a crise na educação nunca acaba porque não se trata de uma crise, mas, de um projeto." Há no sistema educacional brasileiro uma doutrinação reversa e irrefletida, a qual, ampliada pela grande mídia, normaliza a injustiça social por meio do pseudo-discurso da meritocracia eternizando e aprofundando a divisão da sociedade em Casa Grande (privilegiados) e senzala (trabalhadores espoliados). Os poderosos odeiam  livros e professores porque ensinam a pensar. Na sociedade há uma escolha que todo indivíduo precisa fazer: pensar ou ser pensado. Muitos não pensam. Quem pensa, incomoda. Penso que, como articulista e professor, me cabe entregar às pessoas com quem me relaciono a chave que abre as algemas do pensar, há quem a utilize para se libertar. Há quem a jogue fora, praguejando. Encerro com uma frase emblemática da ativista estadunidense Harriet Thubman (1822-1913) "libertei mil escravos. Poderia ter libertado outros mil, se eles soubessem que eram escravos"!

sábado, 19 de setembro de 2020

O último dia de um condenado

 


 

           


Victor Hugo (1802-1885) foi um romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos. Em sua grandiosa obra, destacam-se os livros: Os miseráveis (1862) e O corcunda de Notre Dame (1831) publicado originalmente com o título Notre Dame – Paris, 1482. O autor é conhecido por seus calhamaços (obras com grande número de páginas), mas, este não é o caso do livro "O último dia de um condenado" publicado em 1829. Na obra, o autor apresenta para a reflexão do leitor a pena capital a partir do ponto de vista de um condenado à espera de sua execução. Embora o leitor possivelmente tenha opinião formada sobre a validade ou não da pena de morte, a leitura desse livro é fundamental, pois, o próprio Victor Hugo, após ver publicado seu livro criticou personalidades da alta sociedade francesa que debatiam-no, porém, sem jamais o terem lido, afinal, ter opinião formada sobre a pena de morte, não as fazia críticas competentes da premissa contida na obra, dada a ignorância acerca desta.

            O escritor francês fazia parte de um seleto grupo de intelectuais engajados na construção de uma sociedade menos injusta e mais solidária e, obviamente era opositor fervoroso da pena de morte, algo que inúmeras vezes presenciou na França de sua época. Embora esta fosse aplicada a ricos e pobres, a classe social era levada em conta e, se pobre, humilhações eram acrescentadas ao espetáculo horrendo. O médico francês Joseph-Ignace Guillotin (1738-1804) considerava que a pena capital deveria ser igual para todos os criminosos, independente da classe social e, deveria ser menos dolorosa para o condenado. Ele criou uma máquina que acabou por levar seu sobrenome e, como também era parlamentar apresentou a guilhotina ao governo francês e, por meio dela morreram desde mendigos a reis e rainhas.

            O livro é contado a partir do ponto de vista do narrador, um condenado cujo nome e crime não é revelado ao leitor. Ao ler, supõe-se que ele tenha assassinado alguém e que o autor tem a intenção de levar o leitor a refletir sobre a pena capital e não sobre um determinado crime em si. Mas, algumas pistas são dadas, o condenado tem educação refinada, algo naquele tempo inacessível à pessoas pobres. A escrita profundamente realista levanta a dúvida se o escritor usou sua imaginação ou baseou-se em relatos escritos por algum condenado ao qual teve acesso. O autor também coloca no livro relatos de jornais sobre crimes hediondos levando o leitor a pensar nas vítimas e em suas famílias. O condenado parece não se arrepender do crime, mas, tem profunda esperança em ser absolvido, porém, suas esperanças esvanecem ante as tentativas frustradas de seu advogado de lhe conseguir a postergação do julgamento, a comutação da pena e o perdão. A condenação ante o Tribunal do Júri, os jurados (cuja fisionomia observou atentamente na esperança de compaixão) o mandaram para a morte, embora ele pense não merecer tal destino. Na prisão, embora tente, não consegue parar de pensar na morte, a não ser quando consegue dormir.

            O condenado que preferia morrer a ser obrigado a trabalhos forçados, começa a mudar de opinião conforme se aproxima o dia e o horário de sua execução (conforme lhe fora informado). Ele pensa na mãe idosa e doente que certamente morrerá de desgosto quando de sua execução. Pensa na esposa também doente e na filha pequena cujos amiguinhos terão pai e ela não, também pensa em como elas sobreviverão, pois a ele cabia sustentá-las. A obra procura mostrar a tortura psicológica pela qual passa o condenado que possui ciência antecipada da data de execução (embora seja um criminoso, não deixa com isso de ser humano). O leitor, indiretamente é levado a pensar nos países que adotaram/adotam a pena capital e nas várias vezes em que  inocentes foram condenados, sendo na maioria dos casos, pobres e minorias e, de que não há reparação possível à morte de uma pessoa inocente. E o que pensar quanto aos países que aplicam a pena de morte sem nunca terem dado condições de vida digna à grande parcela destas? Enfim, na obra, o leitor sabe de antemão que o condenado será executado e, esta tem como ponto principal a narrativa detalhada e chocante do último dia de vida deste, sobre o qual nada direi, para não dar spoiler. Fica a dica!

 

Sugestão de boa leitura:

Título: O último dia de um condenado.

Autor: Victor Hugo.

Editora: Estação Liberdade, 2002, 192 p.

Preço: R$36,00.

sábado, 12 de setembro de 2020

Piloto de guerra

         

Antoine Jean-Batiste Marie Roger Foscolombe (1900-1944), Conde de Saint-Exupéry, popularmente conhecido como Antoine de Saint-Exupéry, autor da mundialmente célebre obra "O pequeno príncipe", o terceiro livro mais vendido no mundo, atrás apenas da Bíblia Sagrada e do Al Corão. Saint-Exupéry foi escritor, ilustrador e piloto civil e militar francês. Desde jovem foi contaminado pelo fascínio às máquinas voadoras. Tendo sido reprovado em sua tentativa de ingressar no corpo de pilotos militares de seu país não desiste e aos 21 anos de idade já possuía o brevê de piloto civil e, no ano seguinte volta à carga e consegue também o brevê de piloto militar no posto de subtenente da reserva. Saint-Exupéry fez parte de um grupo de arrojados pilotos que por meio do correio aéreo trabalharam interligando regiões isoladas do planeta com pouca ou nenhuma infra-estrutura de apoio tendo sobrevivido a vários acidentes, porém, com sequelas.

            A eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o avassalador avanço das tropas alemãs no palco europeu, levaram o já famoso piloto-escritor aos Estados Unidos da América na tentativa de convencer suas lideranças a reunirem forças, sem lograr êxito (os EUA titubearam muito a entrar no que diziam ser "a guerra dos europeus"). Com o avanço alemão sobre a França encurralando suas forças de resistência, Saint-Exupéry apresenta-se para voar caças contra os invasores, porém, devido às suas sequelas e a idade avançada (para pilotagem de caça) é descartado. Não desiste, e, ante sua insistência, autoridades militares lhe oferecem posições de comando afirmando que podem formar bons pilotos às centenas, porém, precisam de bons comandantes, Saint-Exupéry recusa a oferta, quer voar, e, após a análise de sua situação médica e de um rápido treinamento habilita-se a voar o P-38 Lightning, tornando-se o mais velho dentre os pilotos de sua divisão.

            A obra trata de um tema pesado (a guerra), no entanto, sua escrita a suaviza, porém, sem jamais a romantizar, afinal, o autor considerava a guerra como sendo uma doença da humanidade. Descreve algumas situações rotineiras de pilotos militares em seu ofício de guerra (a observação das posições inimigas, o receio do fogo anti-aéreo e do encontro com caças inimigos). Registra a angústia da espera ante o atraso da volta de uma missão e, o tempo, após o qual, as esperanças esvaneciam e a tristeza muda caía sobre todos, especialmente sobre o comandante que escalara os pilotos (desaparecidos/mortos) e lhes dera pessoalmente as instruções. Também registra o sofrimento das mulheres, crianças e velhos que não se envolviam diretamente na guerra, mas, que a sentiam profundamente com o medo, a fome e a exaustão emocional ante a incapacidade do Estado (ameaçado em sua existência) em conceder as condições para a sobrevivência digna da população. Na volta de suas missões, Saint-Exupéry refletia e escrevia sobre a vida e a morte, os motivos que tornam a vida digna de se viver e os motivos que justificam colocar-se sob o risco da morte, os quais são exatamente aqueles pelos quais se quer viver.

            Em 1944, na parte final da guerra, Saint-Exupéry que já havia perdido vários de seus amigos pilotos, não retorna após uma missão. As buscas na rota estabelecida não encontraram o local da queda. Em 1994, foi encontrado um bracelete com seu nome na praia e uma busca realizada na região encontrou os destroços do avião. Um piloto alemão declarou ter abatido um  avião P-38 Lightning francês naquele local e lamentou que o destino lhe colocasse frente ao famoso escritor naquelas condições. As críticas que teceu à forma como o esforço de resistência era conduzido rendeu a inimizade do General Charles De Gaulle que jamais reconheceu a importância do aviador, menos ainda do escritor Saint-Exupéry. Aliás, De Gaulle, quando presidente, homenageou companheiros de Saint-Exupéry (que deram a vida pela França), mas, não a este. Na obra, o autor critica a literatura vazia de significado, afinal, bom conteúdo é essencial e demonstra sua verve humanista e espiritual. Encerro parafraseando Saint-Exupéry em "O pequeno príncipe" dizendo que o piloto-escritor "levou um pouco de nós (sociedade humana) consigo e deixou (muito) de si conosco."

Sugestão de boa leitura:

Título: Piloto de guerra.

Autor: Antoine de Saint-Exupéry.

Editora: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015, 187 p.


 

domingo, 6 de setembro de 2020

Notícias de lugar nenhum

         

   
 Nenhuma pessoa intelectualmente competente e honesta pode afirmar que a sociedade que construímos sob a égide do capitalismo é a mais próxima possível do ideal. Muito pelo contrário, o mundo em que vivemos se revela ante nossos olhos com a fome que assola quase um bilhão de pessoas (1 a cada 8). 1% da humanidade detém mais da metade da riqueza mundial e seis famílias brasileiras detém metade da riqueza nacional, pois, nosso país está na lista dos dez países de maior concentração da renda no mundoEm pleno século da informação e da Terceira Revolução Técnico-Científica, quase um bilhão de pessoas ainda se encontram presas às algemas do analfabetismo
    O capitalismo trouxe para a humanidade importantes avanços tecnológicos, porém, nem todos a ele têm acesso e muitas vezes esses avanços que deveriam servir para melhorar a vida das pessoas, jogaram importantes parcelas da população à miséria decorrente do desemprego. O avanço tecnológico tem se demonstrado, na maioria das vezes, a serviço do aumento da opulência de poucos. Neste novo mundo que aos poucos vem surgindo, a mão de obra barata e semi-escrava dos países subdesenvolvidos perde importância, pois, o robô consegue produzir a custo menor do que a mais barata mão de obra humana.
       Sempre que aqueles que se advogam defensores do capitalismo (surrealmente, muitos trabalhadores) fazem o enaltecimento das realizações e jogam na invisibilidade a fome, a concentração da renda, as várias formas de exclusão, a exploração brutal da mão de obra, a espoliação das riquezas naturais dos países subdesenvolvidos por grandes transnacionais estrangeiras amparadas no poderio bélico de grandes potências. A "mão invisível" do deus Mercado tal como preconizado pelos seguidores de Adam Smith é a mesma que opera os porta-aviões e os aviões stealth contra aqueles que se recusam a entregar seus recursos naturais a um preço que seja o mais próximo possível do custo, pois, o lucro precisa ficar no destino e não na origem.
            É necessário dizer que o mundo em que vivemos foi construído pelo capitalismo, é dele os ônus e os bônus (isso é fato) e, é uma atitude desonesta intelectualmente tergiversar quanto a necessidade desse debate. O ardoroso defensor do capitalismo se esconde atrás de falsos discursos meritocráticos que visam convencer a si próprio (para que sua consciência fique tranquila) da pseudo-justiça de um sistema extremamente cruel e ineficaz na construção de uma sociedade verdadeiramente humana.
            Vivemos num mundo capitalista, respiramos capitalismo e este sistema socioeconômico parece impregnado no DNA de muitas pessoas. O capitalismo é concreto e qualquer proposta diferente é abstração. É difícil pensar sobre o abstrato, pois exige muita leitura e esforço intelectual. O capitalismo não é o fim da história como arvorou Francis Fukuyama. História é movimento e, a linearidade não é sua característica.
            O designer têxtil, poeta, romancista William Morris (1834-1896) que tinha como características de sua personalidade o apreço pela estética e pela ética lançou-se ao ativismo político (socialismo libertário) na busca de uma sociedade que fosse bela e verdadeiramente humana, algo que não via na Inglaterra enquanto império capitalista, industrial e bélico do século XIX. Morris tem na obra "Notícias de Lugar nenhum" um belo exercício de abstração sobre como seria viver numa sociedade comunista (estágio posterior ao socialismo). No livro, o narrador acorda numa Inglaterra comunista e sem entender o que aconteceu começa a percorrer o país e conversar com as pessoas que lhe explicam o seu modo de vida e organização social.
        O narrador apresenta-se como estrangeiro para justificar o seu desconhecimento sobre a construção do comunismo naquele país. Os moradores das comunidades (inclusive interioranas) que visita lhe explicam que foi necessária uma revolução violenta para destituir as autoridades de suas barricadas estatais e conceder ao povo o poder sobre seu próprio destino. Há uma passagem em que o escritor usa certo sarcasmo, ao afirmar que o requintado edifício do Parlamento Inglês agora era utilizado como depósito para estocar adubo (estrume).
            O narrador percorre o país, recebe hospedagem nas casas de locais e conversa sobre as mudanças e questiona sobre o que aconteceu com coisas e fatos de "sua época". A sociedade que visita vive de forma simples, mas, é muito feliz e nada parece lhes faltar para ter uma vida digna. Enfim, não pretendo fazer aqui uma análise da sociedade descrita no romance, pois, resultaria num artigo gigantesco. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Notícias de lugar nenhum: Ou uma época de tranquilidade.

Autor: William Morris.

Editora: Expressão Popular, 2019, 295 p.

sábado, 29 de agosto de 2020

E o vento levou

      


    M
argaret Munnerlyn Mitchel (1900-1949) foi uma jornalista e escritora estadunidense que se celebrizou internacionalmente por meio de sua única obra intitulada "Gone with the wind" traduzida para o Brasil como "E o vento levou" e em Portugal como "E tudo o vento levou" sendo esta a que me parece mais adequada. 
        Margaret nasceu em Atlanta (Geórgia) e, cresceu ouvindo histórias sobre a Guerra da Secessão (1861-1865) ocorrida naquele país norte-americano e que eram contadas por seus parentes mais velhos e até mesmo por veteranos confederados. Desde criança, a autora demonstrava grande aptidão para a escrita. 
        Quando jovem, escandalizava a sociedade conservadora local por se envolver diretamente em trabalhos sociais junto à população negra de Atlanta. Seu noivo faleceu na Primeira Guerra Mundial e seu primeiro casamento foi frustrado, pois seu marido (que era contrabandista de bebidas durante a "lei seca") era violento, o que levou-a se divorciar. Pouco tempo depois arranjou um emprego de repórter num jornal onde conheceu um colega com o qual se casou.
        Poucos meses após o casamento, sofreu um pequeno acidente que levou-a ficar em repouso, sendo que para passar o tempo solicitava que seu marido trouxesse livros da biblioteca pública para que pudesse ler. Os livros da biblioteca de seu interesse logo acabaram e seu marido comunicou o fato e lhe entregou um caderno sugerindo que agora ela devia escrever seu próprio livro e, ela assim o fez.
        Margaret escreveu sobre aquilo que estava muito vivo junto à sociedade e com o qual ela tinha intimidade, as cicatrizes remanescentes, as lembranças de um tempo que se foi para nunca mais devido ao conflito ocorrido durante o governo do republicano Abraham Lincoln (eleito majoritariamente pelo norte). O livro foi revisado durante dez anos para depois ser publicado (1936). A obra vendeu milhões de cópias e teve seus direitos vendidos para o cinema. 
        O filme de título homônimo foi lançado em fins de 1939, teve treze indicações para o Oscar e levou oito estatuetas. A estrela do filme foi o galã Clark Gable (1901-1960) no papel de Rhett Butler e a bela atriz inglesa Vivien Leight (1913-1967) interpretou a personagem Scarlet O'Hara. O filme é até hoje um dos maiores sucessos de bilheteria e de renda. O dinheiro que Margaret ganhou a tornou milionária e, assim, não escreveu nenhum outro livro. Passou a dedicar-se integralmente à filantropia, porém, morreu jovem (48 anos), vítima de atropelamento. Há uma continuação da obra com o título "Scarlet", nome da protagonista de "E o vento levou", mas, que não logrou o mesmo sucesso e, que foi escrita (com a benção de Margaret Mitchell) por Alexandra Ripley.
          É tarefa impossível resenhar a contento tal obra nestas poucas linhas. Trata-se de um calhamaço, um livro que exige coragem e fôlego do leitor, mas, que o gratifica imensamente pelo tempo despendido. A obra relata o faustoso modo de vida (embalado pelo alto valor do algodão) da aristocracia escravocrata da região sul dos Estados Unidos e o período da Guerra de Secessão e de reconstrução da região atingida pelo conflito. Não espere na obra rigor científico e imparcialidade quanto a relação dos senhores com seus escravos (romantizada) e quanto à interpretação do conflito em si, pois, a autora tem suas raízes familiares naquele local e coloca a história desta sob o prisma sulista.
        A personagem principal é Scarlet O'Hara, filha de uma rica família escravocrata, garota linda, mimada, egocêntrica e acostumada a ter todos os homens disputando seu amor, ela somente encontra dificuldades com o controvertido Rhett Butler, que até se torna seu terceiro marido, mas, sem que ela jamais tivesse controle absoluto sobre ele (algo que sempre buscou em seus relacionamentos). 
      O livro discorre sobre várias famílias tradicionais do Condado de Clayton e, as cidades e localidades citadas na obra realmente existem e foram palco de guerra. Em Jonesboro há uma casa típica de fazenda algodoeira convertida em museu com modelos de roupas utilizadas na época e até mesmo no filme. A arrogância sulista e o menosprezo aos yankees (estadunidenses da parte norte) impediu que vislumbrassem que a campanha não teria outro final, que não o fracasso. Com a derrota, a economia local foi arrasada, as fazendas tiveram sua infra-estrutura incendiada, os negros libertados, os cultivos destruídos e os campos salgados, pois, os fazendeiros locais forneciam recursos financeiros para as tropas confederadas.
         A obra retrata ainda o horror da guerra (seus mortos e inválidos), a corrupção dos administradores ianques nas áreas sulistas controladas, o abismo cultural entre o povo do norte e do sul estadunidense, a soberba das famílias tradicionais sulistas e seu pouco apreço ao trabalho, o preconceito contra os negros e o nascimento da famigerada Ku Klux Klan, enfim, e não de forma menos brilhante, a dura realidade daqueles que continuaram acreditando em valores temporais de uma sociedade que desapareceu, como se levada pelo vento!

Sugestão de boa leitura:


Título: E o vento levou.
Autor: Margaret Mitchell.
Editora: Record, 1ª edição, 2015, 1477 p.