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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Feliz Ano Velho, pois 1964 é logo ali!



            Quando adolescente li a obra Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva. O autor é filho do falecido deputado Rubens Paiva, dado como desaparecido durante a ditadura e que somente a alguns anos ex-militares envolvidos no caso confirmaram à Comissão Nacional da Verdade ter sido assassinado pelo regime. A obra escrita por um jovem de vinte anos de idade tem um marco representado pelo acidente que sofreu ao nadar em um rio de águas rasas e com pedras no fundo de seu leito que dividiu sua vida em antes e depois. O escritor deu um mergulho imitando o Tio Patinhas e tornou-se paraplégico. No livro o autor conta a sua vida anterior ao acidente numa linguagem atraente aos jovens carregada de palavrões e gírias. Fala de casos pitorescos de suas paqueras, namoradas e a forma como via a vida. Tudo muda com o acidente. Lembro-me que após ler a obra, eu que costumava ir a riachos e fazer mergulhos, abandonei tal prática.
Naquela época, o Brasil vivia os seus últimos anos da ditadura civil-militar (1964-1985) que assaltou o Poder e jogou a democracia no calabouço. Veio as Diretas Já, e, os militares mostraram que não estavam mortos e derrotaram a emenda Dante de Oliveira que estabeleceria a eleição direta para presidente. Derrotada a emenda, a eleição foi mesmo pelo Colégio Eleitoral. Paulo Salim Maluf foi escolhido o candidato do PDS, novo nome da extinta Arena (Aliança Renovadora Nacional) muito marcada por ser o partido da ditadura. A eleição é ganha por Tancredo Neves (MDB) que tinha na chapa José Sarney (ex-Arena). Tancredo tinha grande carisma junto ao povo, mas, surrealmente era homem de confiança dos militares (que o preferiam a Maluf). Chegou a ser apoiado pelos militares como primeiro-ministro na intentona golpista contra Jango quando da renúncia de Janio Quadros em 1961. Presidente eleito pelo povo, só em 1989 (Collor), numa campanha suja que se pensava ter acontecido devido a nossa democracia estar ainda engatinhando e que com o amadurecimento das instituições e do povo isso jamais tornaria a ocorrer. FHC ganhou duas eleições ao se vender como Pai do Plano Real. A verdadeira paternidade é do falecido Itamar Franco (PMDB). Na reeleição FHC jogou sua biografia no lixo ao dar um golpe na Constituição Federal e aprovar para si mesmo a reeleição com a compra de votos de deputados ao valor de duzentos mil reais cada, fato comprovado pelo ex-deputado Ronivon Santiago (PP/AC).
Depois vieram os anos Lula, a pobreza diminuiu, o nível de empregos e de renda aumentou e revistas conservadoras estampavam: “nunca fomos tão felizes”. O Brasil deixava de ser figurante e passava ao corpo de atores principais do palco geopolítico mundial. O Brasil ajudava os países irmãos mais fracos e tinha coragem de dizer não aos Estados Unidos. Lula deixou a presidência com aprovação recorde. Dilma se elegeu, se reelegeu. Fez um governo abaixo da expectativa e foi derrubada por um processo de impeachment farsesco, pois, jamais houve a comprovação de sua culpabilidade. Temer, o traidor, que em surdina junto com seus asseclas havia elaborado o projeto “Ponte para o Futuro”, deu um cavalo de pau no rumo do país e levou-o de volta para o passado. Os dados sócio-econômicos do país despencaram como breves pesquisas nos principais jornais do país demonstram. O ciclo de redução da desigualdade social foi interrompido. Os ricos tornaram-se mais ricos e a miséria voltou com força. O desemprego e a informalidade aumentaram. A desindustrialização do país se aprofundou. O Brasil abandonou o protagonismo e voltou a ser figurante. O risco país aumentou, mas isso não foi mais divulgado na mídia golpista, porém, o PIB de 1,0% de 2017 (que nos anos petistas era tratado como “pibinho”) foi motivo de forte comemoração.
A história nos traz vários exemplos de que nem sempre a mudança (em si tão desejada pela sociedade) pode trazer dias melhores. Os nazistas quiseram mudanças e elevaram Hitler ao Poder. Os brasileiros quiseram mudanças e elevaram Bolsonaro ao Planalto. Na passagem de ano, mais especificamente no dia seguinte, quando Temer passar a faixa presidencial para Bolsonaro, uma segunda porta (a primeira foi o golpe de Estado de 2016) se fechará atrás de nós. Estaremos adentrando em território de trevas (fascismo) dominado por almas que amam a escuridão e que combatem a luz. E todos os seres de luz (conhecimento) têm a obrigação de iluminar e resgatar pessoas da escuridão do fascismo. Feliz Ano Velho, pois, 1964 é logo ali!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Os fantasmas do Sr. Scrooge



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            Alguns leitores privilegiados tiveram a oportunidade de assistir a belíssima apresentação de balé da escola Ballerina de Laranjeiras do Sul no ano de 2017 retratando o tema, porém, muitos lembrar-se-ão do filme ou do desenho animado dos estúdios Disney. No desenho, o Sr. Scrooge é representado pelo Tio Patinhas
            A obra “Um conto de Natal” de Charles Dickens publicado em 1843 retrata um empresário rico de nome Ebenezer Scrooge que continuava trabalhando na mesma empresa cujo sócio Jacob Marley tinha falecido. Tal como o sócio falecido, o Sr. Scrooge era insensível às questões sociais e não se deixava influenciar pelo espírito do Natal. Tinha uma alma egoísta, dura. Explorava seu empregado pagando-lhe salários miseráveis. 
          Por sua forma de ser e de agir era ferrenho defensor da ideologia da meritocracia e do liberalismo econômico. Tudo começa a mudar quando em sonho lhe aparece o espírito do seu falecido sócio que conta os castigos que recebeu e o adverte para mudar sua forma de viver para não passar pelo mesmo e anuncia que os fantasmas do Natal Passado, do Natal Presente e do Natal Futuro irão lhe visitar. Os fantasmas aparecem, um de cada vez, na ordem cronológica, e levam-no a refletir sobre sua vida e a forma como tratou e trata as pessoas. Ao final, após rever vários momentos de sua vida, e principalmente ao ver a situação difícil de sobrevivência de seu próprio empregado e do filho doente deste, Scrooge modifica toda a sua vida.
Há muitos Scrooges em nossa sociedade. Muitos deles adoram o Natal pelo potencial de lucros que proporciona, mas, não fazem desse momento uma época de reflexão sobre os erros e acertos da sua trajetória de vida. Muitos se dizem cristãos, mas, defendem a tortura e as prisões ilegais bem como a morte, sendo que o próprio Cristo foi arbitrariamente preso, torturado e morto. Cristo que nunca discriminou ninguém e que defendeu a prostituta ante a hipocrisia dos moralistas sem moral (os quais foram e continuam a ser muitos na sociedade), prometeu o paraíso até mesmo ao criminoso, quando em nossa sociedade “cidadãos de bem” defendem a pena de morte, quando muitos já pagam a pena de vida, encarcerados pelo preconceito étnico, social, de gênero ou de opção sexual. 
Há muitos Scrooges que dirigem igrejas e que dizem falar inspirados pelo Cristo, mas, que fazem da religião um negócio lucrativo no qual enriquecem. Há os Scrooges que doutrinam seus fiéis a neles votar para que no Poder trabalhem por um país que se encontra diametralmente oposto ao que Cristo pregava, o Reino de Deus que precisa acontecer aqui na Terra e não servir de alienação visando à acomodação, a apatia na espera de uma recompensa post-mortem.
Os Scrooges de nossa sociedade possuem um apetite voraz pelo vil metal, deixam de viver para acumular, mas, esquecem que caixões não possuem gavetas, não dá para levar o que acumulou. Também, são contra a justiça social, o que Cristo entendia como o mundo feito por Deus para ser compartilhado por todos. Eles entendem a justiça social como sendo comunismo. Os Scrooges são contra partidos e programas de governo voltados para a superação da pobreza e da desigualdade social. Os Scrooges não se contentam em ter sua própria fortuna, precisam também, que ela seja reconhecida por todos como de seu legítimo merecimento. Mas, por trás da fortuna dos Scrooges, há sempre um ou vários crimes cometidos. 
Há Scrooges que apesar de votarem e até agirem contra políticos e partidos que realmente trabalham para minorar as injustiças sociais, também combatem políticas sociais com o pseudo discurso da meritocracia, pois, precisam da pobreza, assim, podem fazer algumas ações de caridade e aparecer como bons moços para a sociedade. Em muitos lares neste país, o Natal não será feliz como na sua casa. Não haverá presentes e nem carne será servida na hora do almoço. Muitos pais estão desempregados. A família voltou à extrema-pobreza. Perdeu o auxílio bolsa-família em virtude da política neoliberal do ilegítimo governo Temer
O intelectual Milton Santos (1926-2001) nos disse: “a fome é uma decisão política, se ela existe, é porque assim decidimos que seja”. Afinal, sobram alimentos no mundo. Desculpe se lhe causei certa amargura com esta reflexão. É que compartilho do pensamento de Milton Santos quando diz: “o intelectual existe para criar o desconforto. E ele tem que ser forte o bastante sozinho para continuar a exercer esse papel. Não há nenhum país mais necessitado de verdadeiros intelectuais no sentido que dei a esta palavra do que o Brasil” e concluo dizendo de forma consonante ao educador Paulo Freire (1921-1997): “sonho com o dia em que a justiça social venha antes da caridade”!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Defender o SUS é defender a democracia!



                A Constituição Federal do Brasil (1988) estabelece em seu artigo 196 que: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Além disso, a Declaração Universal dos Direitos Humanos também assegura que: “todas as pessoas têm direito à vida [...]”. É importante que se diga que ao ofertar o SUS o Estado não promove caridade, afinal, a população paga impostos justamente para custear serviços públicos de caráter imprescindível. Vejo muita gente que critica o SUS e que defende o seu fim. Ninguém se atreveria a dizer que o SUS não tem problemas. E a crítica ao SUS é salutar. A crítica a que me refiro deve ser no sentido da superação de tais problemas. Em todos os setores da economia há bons e maus profissionais, e também bons e maus serviços prestados, e isso independe de ser o órgão público ou privado. Há algum tempo conversei com uma pessoa do setor da saúde, a qual afirmava que apesar de seus esforços tratando com a mesma dedicação pacientes do SUS e particulares, no SUS apenas recebia críticas. A generalização quanto à qualidade do atendimento e da seriedade dos profissionais não constitui crítica honesta.
Há também os que afirmam que a manutenção do SUS é cara e que com o fim do SUS, o governo poderia cobrar menos impostos. Ledo engano, a maior parte do orçamento brasileiro (50,66%) é utilizada para pagar os serviços da dívida pública e apenas 3,66% é investido em saúde. É necessário ter consciência de que o SUS não é grande demais, como afirmam os defensores do Estado Mínimo. É o SUS quem executa o programa de transplantes de órgãos e procedimentos caros muitas vezes negados por planos de saúde. Além disso, o SUS oferta um dos mais completos programas de vacinação do mundo. Tudo isso sem cobrar da população. Os impostos pagos pela população sustentam tais programas. Mas, há quem defenda que banqueiros e especuladores recebam mais dinheiro. A emenda constitucional nº 95/2016 proposta por Temer (e em vigor) é extremamente prejudicial ao SUS, pois, congela os recursos ao patamar de 2016 acrescido no máximo do índice de inflação, quando o setor precisa de mais investimentos. O que se pode esperar é uma situação futura ainda mais caótica na saúde pública. E sabemos: sempre que o Estado deseja deixar de ofertar um serviço público, reduzi-lo ou entregá-lo à iniciativa privada, o caminho malandramente utilizado é o da precarização dos serviços e a publicização midiática sobre a ineficiência e os altos custos destes.
            Um documentário muito interessante sobre saúde foi produzido pelo premiado diretor estadunidense Michael Moore. O documentário Sicko¹ que remete à palavra inglesa sick (doente) mostra a situação da saúde nos Estados Unidos totalmente entregue às companhias privadas de planos de saúde, as quais visam alta lucratividade. A ganância dos planos de saúde é tanta que milhares de pessoas são condenadas à morte pela recusa no atendimento dos planos de saúde que possuem profissionais encarregados de investigar a vida das pessoas visando encontrar meios para não cobrir as despesas de doenças graves e custosas alegando serem pré-existentes. O documentário mostra políticos estadunidenses confirmando que o sistema é ruim, mas, que seria ainda pior no modelo socializado. Moore vai então ao Canadá, Inglaterra e França e observa o quanto o sistema público socializado desses países é mais eficiente e humano do que o estadunidense, sem falar que é gratuito (“ah... esses países socialistas!”). Por último, acompanhado de bombeiros que trabalharam no atentado de 11 de setembro e ficaram com sequelas dele resultantes (doenças respiratórias), e que não conseguem atendimento nos EUA (apesar de serem considerados heróis). Moore vai à prisão estadunidense de Guantánamo (Cuba) e exige para eles o mesmo tratamento médico gratuito e de boa qualidade ofertado aos terroristas do referido atentado, obviamente, não consegue. Disposto a conseguir atendimento médico para os doentes, leva-os a Cuba onde fazem exames avançados, são diagnosticados e tratados. O documentário mostra que a medicina cubana tem caráter preventivo (evitar doenças) e não o habitual caráter mercadológico que visa prioritariamente lucros para planos de saúde e indústrias farmacêuticas. Em Cuba, uma ilha carente de recursos e que constitui um país de terceiro mundo, e que, além disso, sofre um embargo econômico há 59 anos, toda a população é assistida e os remédios têm preços apenas simbólicos, pois, são subsidiados pelo governo. Nos EUA, pacientes de hospitais são desovados na rua por falta de pagamento ou recusa de planos de saúde. Nós temos o SUS, e lutar pela manutenção dele e de sua melhoria deve ser o nosso SUL! Defender o SUS é defender a democracia. É defender a vida!

Referência:

  1. SICKO: SOS Saúde e a mercantilização da vida (EUA-2009) – Michael Moore – disponível no You Tube.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O eterno marido



            Fiódor Dostoiévsk (1821-1880) é um dos grandes nomes da prestigiada literatura russa. Seu nome está ao lado de Liev Tolstoi, Ivan Turguêniev e outros que facilmente formam um dream team da literatura a ponto de deixar com inveja grande parte dos países do mundo. Dostoiévski viveu na época do Império Russo e foi escritor, filósofo e jornalista. Seu pai (Mikhail Dostoiévski) era médico militar e sua mãe era dona de casa. A profissão do pai não era valorizada financeiramente e a família que tinha origens nobres encontrava-se em plena decadência, mesmo com dificuldades, seu pai mantinha seis serviçais para manter as aparências de um passado que se mostrava cada vez mais distante. A mãe morreu de tuberculose, uma doença que ceifava muitas vidas à época, na ocasião Dostoiévski contava quinze anos de idade. Seu pai que era alcoólatra e depressivo morreu três anos mais tarde, e, existem duas versões para a sua morte, sendo a primeira de que teria sido vítima de acidente vascular cerebral e a segunda de que teria sido assassinado por seus servos revoltados por conta dos maus tratos que lhes impunha. O jovem Fiódor também desejou a morte de seu pai por conta dos maus tratos que sofria, porém, conta-se que a morte do pai lhe trouxe remorsos por ter alimentado tais pensamentos.
            Dostoiévski serviu o exército russo no qual obteve a patente de tenente e se formou em engenharia em 1843. Fiódor estava sempre às voltas com dívidas resultantes de seu envolvimento com jogos e mulheres. Trabalhou como tradutor de obras do escritor francês Honoré de Balzac e isso o estimulou a experimentar-se no campo da literatura. Fez isso após deixar o exército em 1844, ano em que lança seus primeiros livros. Dostoiévski fazia parte de um grupo clandestino intitulado Círculo de Petrachévksi, no qual liam e discutiam textos proibidos. O mentor do grupo (Petrachévksi) era adepto do socialista utópico Charles Fourier. Descoberto, foi condenado à morte por fuzilamento. No último instante (mesmo), por ordem do Czar Nicolau I a pena foi convertida em quatro anos de prisão na Sibéria com a imposição de trabalhos forçados e outros cinco anos de pena nos quais deveria servir como soldado raso no exército. No exílio conheceu e se apaixonou por sua primeira esposa (Maria Dmítrievna), o detalhe é que ela era casada, porém, como enviuvou, casou-se com ela três meses depois. Em 1864, morreram sua primeira esposa (tuberculose) e também seu irmão. Além de seus filhos, precisava sustentar a viúva e os filhos de seu falecido irmão além de outro irmão alcoólatra. Várias vezes escreveu obras “a toque de caixa” para pagar dívidas contraídas junto a agiotas que o importunavam cobrando-lhe, dos quais algumas vezes fugiu temporariamente mudando de endereço. Aos quarenta e seis anos conheceu e contratou a estenógrafa (taquigrafa) Anna Grigórievna Snítkina de vinte e quatro anos de idade com quem se casou. Dostoiévski publicou várias obras de sucesso, dentre elas: Crime e castigo e Os Irmãos Karamazov, sendo esta sua última obra. Faleceu em decorrência de enfisema pulmonar.
            O escritor não gostou de sua obra “O eterno marido”, no que foi contrariado pelo público e pela crítica que a aclamaram. A obra trata dos “eternos maridos”, homens que suportam as traições de suas esposas e cujos chifres parecem lhes cair bem, e também de um tipo muito específico de esposas, as quais se casam virgens, mas, que utilizam desculpas referentes aos defeitos do marido para dar vazão a toda sua volúpia, sem ter com isso nenhum sentimento de culpa ao traí-los. No afã de situar o leitor na trama, o primeiro capítulo traz uma leitura um pouco burocrática, mas, depois se torna envolvente. A trama conta com dois personagens principais Aleksei Ivánovitch Veltchanínovch, um playboy, arrogante e hipocondríaco que em sua juventude considerava ainda mais interessante ser amante de mulheres casadas. A outra personagem (Pável Pavlóvitch Trussotski) é o marido traído, que em plena madrugada, espantosamente bate à porta de Veltchanínov. Na trama, Veltchanínov conhece a filha de dez anos de Pavlóvitch (doente e maltratada pelo pai), o qual após a morte da esposa adúltera se tornou alcoólatra, violento e passou a assustá-la ameaçando suicidar-se. Veltchanínov desconfia que a filha (adoentada) pode ser sua tendo em vista a época dos relacionamentos que teve com a sua mãe, mas, somente tem a confirmação por Pavlóvitch após a morte da menina. Em certa noite, Pavlóvitch cuida de Veltchanínov (hipocondríaco) fazendo-o melhorar, porém, quando este adormece tenta matá-lo. Mais forte, Veltchanínov frustra o plano. Anos mais tarde, em uma viagem de trem, Veltchanínov reencontra Pavlóvitch casado com uma bela e rica jovem, e constata que nada mudou: Pavlóvitch continua a ser o eterno marido e forma com sua esposa e um cadete um triângulo amoroso.

Sugestão de boa leitura:

Obra: O eterno marido (1870) – 211 páginas.
Autor: Fiódor Dostoiévski.
Editora: Penguin Companhia, 2018.
Preço: R$ 26,90.


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Carroça vazia



            O leitor certamente deve ter conhecimento do conto que narra a conversa entre pai e filho no qual o primeiro ao ouvir o barulho de uma carroça antecipa ao filho de que ela está vazia, pois, afirma: “carroça vazia faz mais barulho do que quando carregada”. Nada mais adequado para caracterizar Bolsonaro e o desenho que faz de seu futuro governo cujas primeiras indicações para o Ministério constituem traições à parcela ingênua do seu eleitorado, pois, nada mais sinaliza que o velho jeito de fazer política. Nisso, não há nenhuma surpresa, afinal, Bolsonaro está na política há trinta anos e nesse período foi um dos parlamentares mais ineficientes de todo o Congresso Nacional, pois, consta que apenas três projetos de sua autoria foram aprovados. Bolsonaro parece ainda estar em campanha, pois, continua a jogar para a sua torcida fazendo falas ao gosto dela: declarações pouco inteligentes, insensatas e que dão a impressão que ele vive na época da Guerra Fria (1945-1989) e em plena ditadura militar.
            A impressão que dá é que os conhecimentos de Bolsonaro na área da política externa são os rudimentos recebidos enquanto militar, porém, hoje o mundo é outro! É necessário conhecimento e sensibilidade, e na falta destes, um de seus estragos ocorreu quando numa atitude lambe-botas dos Estados Unidos declarou que vai mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém contrariando a própria ONU, pois, Jerusalém no plano de partilha da Palestina de 1947 constava como uma cidade internacional de livre visitação para judeus, árabes e cristãos, por constituir um nó górdio. Ao tomar partido em favor de Israel, os países árabes ameaçam retalhar boicotando produtos exportados pelo Brasil, o que afetaria não somente, mas, duramente, o setor do agronegócio (frigoríficos) com prováveis repercussões em nossa região. O Egito chegou a cancelar uma agenda com o Ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes (PSDB) por causa da fala desastrada de Bolsonaro.
            Bolsonaro na condição de parlamentar foi um ferrenho opositor à criação do Programa Mais Médicos durante o governo da presidenta Dilma. Programa este, que tinha a intenção e levou a termo a antiga e frequente reclamação da população da falta de atendimento médico em municípios interioranos, apesar dos enormes esforços de inúmeros prefeitos em atraí-los. Embasado numa mentalidade doentia, obcecada pelo confronto Leste x Oeste, Bolsonaro conseguiu a proeza de implodir o acordo que o país tinha com Cuba. Bolsonaro que sempre afirmou que não se tratavam de médicos, mas, de agentes da ditadura cubana, tendo inclusive comparado os médicos cubanos a açougueiros (pedindo perdão aos açougueiros), pois, em seu ver não teriam conhecimento da medicina para atender a população brasileira (algo que vai à contramão de inúmeros relatos de pacientes atendidos pelos médicos cubanos no Brasil e em sessenta e cinco países do mundo). Bolsonaro que em campanha promoveu inúmeras falas depreciativas aos médicos cubanos e a Cuba, conseguiu o que pretendia, a OPAS (Organização Pan Americana da Saúde) numa atitude de preservação da dignidade ante as falas estereotipadas de Bolsonaro rompeu o acordo com o Brasil e os médicos cubanos estão se retirando do país. Para substituir os médicos cubanos, o Governo Temer (pressionado pelos prefeitos, e estes pela população) abriu inscrições para candidatos brasileiros, mas, as primeiras inscrições indicam que eles querem trabalhar nas capitais, e não em locais com pouca infraestrutura. Tal como Bolsonaro assegurou, o Brasil vai voltar a ser como era a quarenta ou cinquenta anos atrás: Isso para quem é rico não constitui problema algum. A questão é: você que é trabalhador assalariado, portanto, pobre, está preparado?

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A morte de Ivan Ilitch




            O autor russo Lev Tolstói (1828-1910) é um dos grandes nomes da literatura mundial. Não por acaso, suas obras são presenças constantes nas estantes de bibliófilos (amantes e/ou colecionadores de livros). É de Tolstói a célebre obra Guerra e Paz, a qual foi retratada em filmes e séries sempre com grande sucesso de público. Outra obra de Tolstói adaptada com sucesso para o cinema foi Anna Karenina. O autor de grandes obras que testam a disposição de seus leitores ante ao grande número de páginas, também fez sucesso com um pequeno livro de apenas oitenta páginas. Trata-se de A morte de Ivan Ilitch.
            Tolstói nasceu numa família aristocrática, portanto, herdou uma propriedade rural de seus pais. A mãe e o pai morreram poucos anos após seu nascimento. Não chegou a se formar no ensino superior, cursou por algum tempo Línguas Orientais, e mais tarde, Direito. Era um bon-vivant, atirou-se aos jogos e às mulheres, vícios que o endividaram fortemente. Serviu o Exército e após dele se retirar publicou seus primeiros livros. Casou-se com Sófia Andréievna Behrs com quem teve treze filhos e nos primeiros anos de casamento publicou suas mais famosas obras. No auge do sucesso, envolto a crises existenciais passou a se dedicar à espiritualidade e renegou sua literatura. Pouco antes de morrer, o escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstói: “Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo volte para a literatura!”. Não se sabe o quanto o pedido de Turguêniev influenciou Tolstói, no entanto, A morte de Ivan Ilitch foi a obra que marcou seu retorno à literatura.
Trata-se de um pequeno livro, porém, de uma sensibilidade gigantesca ao retratar de forma tão humana, a impotência de um ser que se vê morrendo, enquanto observa o quão fúteis são os valores pelos quais se dedica uma vida, e quão falsas são as relações humanas. O livro conta a história de um jovem ambicioso (Ivan Ilitch) que galga posições dentro do Poder Judiciário, contrai matrimônio por conveniência, ganha o cargo de promotor em São Petersburgo por indicação de um amigo no Poder, e que após alcançar a estabilidade financeira, se vê acamado por uma doença grave que o dinheiro e os melhores médicos não conseguem curar. Cada vez mais debilitado, perturbado com o mal que o acomete, irrita-lhe a saúde de seus familiares e amigos, pois esta lhe falta. Sabe que na sua repartição há quem espera sua morte para ocupar seu cargo. A filha no auge da mocidade, feliz, segue sua vida noivando com um jovem e ambicioso juiz de instrução, tal como um dia ele fora. Os membros da família vivem suas vidas enquanto a sua vai se esvaindo até que Ivan dá o suspiro final. Em pleno velório, sua esposa procura se informar com um grande amigo do morto sobre como conseguir mais dinheiro junto ao Governo. Este percebe que ela já estava suficientemente informada sobre o que fazer e dela se esquiva, deixa a casa do morto onde se realiza o velório, e vai ao encontro dos outros amigos do falecido que preferiram não ir ao velório e resolveram se reunir para jogar cartas. O grande amigo descontraidamente toma seu lugar à mesa e no jogo que o falecido costumava ser um dos parceiros. É uma obra para refletir sobre a insignificância de nossa existência e a superficialidade de nossas relações, e para alguns leitores, certamente pode ser uma obra perturbadora.

Sugestão de boa leitura:

A morte de Ivan Ilitch

Autor: Lev Tolstói.
Publicação original: 1886
Editora 34
Ano: 2018
Preço: R$22,80

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Guerra híbrida no Brasil



        O autor de Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes (Andrew Korybko) afirma que o Brasil se tornou alvo dos Estados Unidos desde a eleição de Lula em 2002 por seu movimento em direção à multipolaridade e também pela descoberta de substanciais reservas de petróleo no Pré-Sal. A participação do Brasil no bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em contraponto à hegemonia estadunidense no sistema financeiro internacional também causou irritação em Washington que temia ver acelerada sua perda hegemônica que se faz gradual. 
        Segundo Korybko, uma intensa guerra híbrida foi travada em território brasileiro desde 2013 com o objetivo (à época) de desestabilizar o governo Dilma e de inviabilizar o Partido dos Trabalhadores com vistas à eleição de 2018. E Bolsonaro, há muito foi visto como um candidato mais palatável aos EUA1. O leitor atento e bem informado certamente lembra-se das denúncias veiculadas pela Folha de São Paulo envolvendo o então candidato Bolsonaro sobre um suposto esquema de caixa 2 financiado por empresários, o qual teria pago os disparos de Whatsapp que chegaram a milhões de eleitores com postagens contra o Partido dos Trabalhadores, em grande parte, fake news2.
     Agências especializadas como a NSA, ou ainda, prestadoras de serviços como a Cambridge Analytica, de posse dos dados de milhões de usuários das redes sociais e de estudos de seus perfis ideológicos, nadaram de braçadas na Internet trabalhando o lado psicológico de uma população desinformada e/ou cega de ódio ao PT e que ansiosamente buscava um salvador da pátria. 
        Segundo o jornalista argentino Marcelo Falak3 de No Ámbito (de Buenos Aires), uma importante autoridade das Forças Armadas teria lhe dado uma entrevista em 2014 e afirmado que as Forças Armadas previam que haveria polarização em 2018, e que Bolsonaro era o candidato ideal para enfrentar o PT. Na ocasião, os militares sugeriram a Bolsonaro abandonar o nacionalismo econômico e adotar o liberalismo. 
         O oficial das Forças Armadas disse que os militares tinham profundo ressentimento quanto ao fato de serem considerados cidadãos de segunda classe, pois, mesmo graduados, não podiam assumir ministérios e que ansiavam por uma nova democracia. Os militares brasileiros há algum tempo conhecem a estratégia das guerras híbridas. Esse conhecimento, se utilizado, pode ter sido útil na campanha de Bolsonaro. 
     Durante a campanha, o General Villas Boas (Exército) se manifestou publicamente contra a possibilidade da concessão do habeas corpus à Lula4. Recentemente Villas Boas afirmou que os militares “estavam no limite”. Afirmava “não aceitar a impunidade, e exigia o respeito à Constituição Federal”, porém, se isso fosse feito, obviamente Lula teria que ser solto, pois, isto é o que determina a Constituição Federal (Art. 5º Inciso LVII). 
      Ora, sabendo que Bolsonaro era candidato das Forças Armadas desde 2014, como afirma o jornalista argentino que entrevistou o oficial das Forças Armadas, a interpretação que se faz em respeito à racionalidade, é que o movimento no tabuleiro de xadrez executado pelos militares nunca foi contra a impunidade, mas, sim para manter preso quem traria dificuldades à eleição do seu candidato (Bolsonaro), tendo em vista que os militares mantiveram-se em silêncio quanto à impunidade de Aécio Neves (PSDB), e outros.
      Não pretendo aqui discutir um terceiro turno das eleições de 2018, afinal, sórdidas ou não, as estratégias do staff de campanha de Bolsonaro funcionaram, e nada indica que o TSE tenha coragem de caçar a chapa. Ele é o presidente! Manipulada ou cega de ódio ao PT, foi a vontade da maioria do povo brasileiro. E nisso, a esquerda é melhor do que a direita, pois, não deseja a destruição do país em troca do Poder como fez Aécio Neves (PSDB) e apaniguados. 
        O governo Bolsonaro vai tensionar fortemente as instituições, ou elas resistem, e lhe impõem o freio do Estado Democrático de Direito ou o Brasil viverá anos obscuros! À esquerda cabe vigiar as ações de um governo ultraliberal e que contraria a soberania nacional e também o projeto de uma sociedade menos desigual e lhe fazer oposição. 
        À Bolsonaro cabe entender o significado da democracia, aprender economia e política externa, algo que em seus quase trinta anos de vida parlamentar não foi capaz ou teve preguiça. Ele também precisa entender que não somos os Estados Unidos da América e que nem sempre o que é bom para o país ianque é bom para o Brasil! E que no posto de presidente do país deve deixar de falar asneiras, mesmo, que para isso precise evitar os microfones, tal como fez ao fugir dos debates para não perder votos!

FONTES: 
                                                                                      
1. Disponível em: https://tutameia.jor.br/brasil-e-alvo-de-guerra-hibrida/ - acesso em 12 de Novembro de 2018.