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sábado, 29 de julho de 2023

Diário de um homem supérfluo

 

Ivan Sergeiévitch Turguêniev (1818-1883) foi um romancista, poeta, escritor de contos e novelas, tradutor, dramaturgo e divulgador da literatura russa no Ocidente. Turguêniev, oriundo de uma família de proprietários rurais abastados, foi criado juntamente com seus irmãos Nikolai e Serguéi por sua mãe, uma mulher muito educada, porém autoritária. O escritor se formou bacharel em filosofia pela Universidade de São Petersburgo, seguindo para a Universidade de Berlim para prosseguir seus estudos. Na Europa, conheceu e conviveu com intelectuais e literatos de renome. Na volta à Rússia, conseguiu licenciatura pela Universidade de Moscou e ocupou um cargo no Ministério da Administração Interna. Escreveu vasta obra, e, embora a repressão do período soviético seja amplamente conhecida, a Rússia Czarista nunca ficou atrás, tanto que as obras de literatos russos eram fortemente censuradas no país. A literatura de Turguêniev alcançou menor projeção mundial do que a de  Tolstoi (1828-1910) e Dostoievski (1821-1881), no entanto, na sua terra natal, a Rússia, Turguêniev é muito aclamado. A literatura clássica russa é considerada uma das mais ricas do mundo, são vários grandes autores e não se resume a essa tríade, porém, esta é a que alcançou, por suas obras, maior disseminação no planeta.

            A obra "O diário de um homem supérfluo" publicado originalmente em 1850, foi fortemente censurada e desfigurada, tanto que inicialmente não alcançou grande sucesso devido aos cortes estabelecidos pelo governo czarista de Nikolau I. Turguêniev que tinha uma formação intelectual consistente, inclusive residindo parte de sua vida nos países da Europa Ocidental, observava o quanto seu país natal estava atrasado. O sentido de supérfluo, por ele introduzido, não somente na referida obra, mas, na literatura russa, tem como intenção expressar um homem que acreditava ter mais capacidade moral e intelectual do que a media da sociedade russa, mas, que não era reconhecido e se encontrava impotente para agir, dado o aparato opressor estatal e os arraigados hábitos culturais da sociedade russa de sua época. Ao homem supérfluo, introduzido por Turguêniev, se seguiram vários outros em diferentes obras de autores diversos que eram críticos ao atraso social e econômico em que se encontrava a Rússia, mas, que nada conseguiam fazer, dessa forma, se sentiam deslocados, sem conseguirem se encaixar na realidade vivida.

            No livro "O diário de um homem supérfluo", a personagem Tchulkatúrin é um homem na faixa dos  trinta anos, que se encontra acamado, à espera da morte, que, em seus quinze dias finais, resolve escrever um diário. Ele conta ser filho de proprietários rurais abastados, sendo que odiava sua mãe, apesar de ter recebido amor somente dela, uma mulher que somente descansou no dia em que morreu, pois era viciada em trabalho. Seu pai era viciado em jogo, e, quando morreu quase todas as propriedades foram confiscadas para pagamento das dívidas de jogo dele. Era esse pai que ele de fato amava. Tchulkatúrin apesar de ter decidido escrever sobre sua vida, passa quase o tempo todo contando sobre uma desilusão amorosa. Morando em uma cidadezinha pacata ele conhece uma mocinha chamada Elizavieta Ojóguin ("Liza") por quem se apaixona, mas, não é correspondido. A situação fica mais complicada quando um jovem príncipe vem para a localidade recrutar soldados para o exército do Czar. Liza, a pretendida de Tchulkatúrin, se apaixona perdidamente pelo belo príncipe.

            Tchulkatútin, enciumado ofende o príncipe que o desafia para um duelo. Tchulkatúrin tem a certeza que irá morrer, mas aceita o desafio. O príncipe, na hora marcada, está muito confiante e pergunta ao adversário se quer se desculpar ou morrer, Tchulkatúrin recusa-se a retirar suas ofensas. Em conformidade com as regras, o duelo se inicia e, o príncipe é alvejado de raspão na cabeça, ele observa que não é nada grave, apesar do sangue escorrendo na face, atira para o alto e, assim poupa a vida de seu oponente afirmando que o duelo está encerrado. Tchulkatúrin se sente humilhado pelo perdão concedido pelo Príncipe. Considera que o Príncipe não o considerou um adversário válido para ser por ele morto. O Príncipe propõe que o ocorrido seja ocultado, mas, a cidadezinha toda fica sabendo e Liza, sua família e toda a sociedade fica indignada com Tchulkatúrin que é proibido de frequentar a casa de Liza. O Príncipe continua a frequentar a casa de Liza e, após alguns dias, vai embora deixando uma carta para a jovem afirmando que neste momento não pretendia se casar e que nem ela poderia ser sua esposa. A jovem entra em depressão, passa seus dias chorando sempre acompanhada de seu amigo Bismiónkov, um funcionário público de baixo escalão. Thulkatúrin tenta se aproximar da moça, tendo em vista que já não têm a concorrência do Príncipe, na esperança de que ela veja nele a pessoa que ele pensa ser e, por isso ser merecedor de seu amor. Paro aqui! Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Diário de um homem supérfluo.

Autor: Ivan Turguêniev.

Editora: Editora 34, 2018,  96 p.

 


quarta-feira, 26 de julho de 2023

Quem quer viver para sempre?

 

               Estou às vésperas de completar mais um inverno (a estação em que nasci), dessa forma, falar em completar mais uma primavera seria faltar com a verdade. É natural que nessa época (aniversário), as pessoas estejam mais reflexivas sobre a vida, seus encantos e desencantos. Sendo uma pessoa introspectiva por natureza, não fujo à regra. A vida não examinada não vale a pena ser vivida, já ensinava o filósofo Sócrates (470 a.C. - 399 a.C). Colocar os dias vividos, portanto, todo o passado ao escrutínio de uma lupa, pode ser bastante dolorido, mas também libertador. A verdade é que não seríamos as pessoas que somos, sem as experiências que tivemos, inclusive as traumáticas. Lembro de um filme de Sylvester Stallone em que o referido ator interpretava o lutador de boxe Rocky Balboa que ensinava "ninguém vai bater tão duro em você quanto a vida, e viver é isso, não importa o quanto você é capaz de bater, mas o quanto você é capaz de resistir e seguir em frente". Da mesma forma, li certa vez que "a vida é como um navio em que você é o comandante, sendo que as pessoas não querem saber se no caminho você enfrentou fortes tempestades, elas querem saber é se você trouxe o navio". Não espere compaixão, mostrar as avarias do navio causadas pelas tempestades, serão vistas como prova de sua imperícia ao navegar.

            Tenho uma camiseta, cuja frase inspiradora afirma: "mar calmo não forma bons marinheiros", da mesma forma, a vida, cujas dificuldades a nós impostas, uma vez superadas, fazem com que nos tornemos mais fortes. O Japão, por sua cultura, tem muito a ensinar ao Brasil, lá estudantes são valorizados como sendo aqueles que dedicam suas vidas à busca do conhecimento (lindo não?) e os professores (por formarem todos os outros profissionais) são os mais valorizados, inclusive o imperador japonês (que não precisa se curvar a ninguém) já se curvou a professores. No Brasil, cuja sociedade não valoriza o conhecimento e, que as escolas muitas vezes são tratadas apenas como "um lugar para deixar os filhos enquanto os pais trabalham", há quem compare professores a traficantes de drogas. No Japão, idosos são valorizados nas empresas, nas famílias e pela própria sociedade, pois contribuíram muito com o país e têm a  maior riqueza que é a sua experiência de vida. No Brasil, idosos são considerados um estorvo pela sociedade, pelas famílias, especialmente pelos mais jovens. As autoridades prolongam o tempo de trabalho para a aposentadoria, pois as pessoas estão vivendo mais. O aumento da expectativa de vida de parte da população brasileira (marcada pela forte desigualdade social) é a condenação à morte (no trabalho ativo) para a outra parte que jamais poderá se aposentar e desfrutar de seus poucos anos de vida restantes.

            Lembro de um artigo do saudoso João Olivir Camargo, afirmava ele que é enganoso o mote da "Melhor Idade" para a assim chamada terceira idade (60 anos ou mais). João Olivir falava das dores no corpo que afligiam os idosos. Nesse mesmo sentido, em conversa com colegas de profissão, comentávamos como seria bom se tivéssemos o corpo e a saúde da época em que tínhamos vinte anos, mas conservando o conhecimento e a experiência da maturidade (pois, até mesmo Marian Gold (da banda Alphaville) mundialmente conhecido pelo hit "Forever Young" envelheceu, e ficar eternamente jovem é uma "bruxaria" que a Paula Toller (ex-Kid Abelha) não ensina para ninguém). Houve quem falasse que gostaria de ter com vinte anos também o dinheiro que hoje possui. A verdade é que ninguém está contente. Lembro de um dito popular sobre a vida que reproduzo: "Quando crianças, temos tempo e energia, mas não temos dinheiro; quando adultos, temos dinheiro e energia, mas não temos tempo; quando idosos, temos tempo e dinheiro, mas não temos energia", nada mais verdadeiro. Na vida, fazemos opções, dentre as opções que fiz, a busca pelo conhecimento, como tudo, oferece bônus e ônus, tal como professorava Friedrich Niezsche (1844-1900) quando disse "se optar pelo prazer do conhecimento, prepare-se para sofrer". É por isso que vemos, pessoas alienadas e felizes e, por outro lado, intelectuais depressivos.

            Quando adolescente, li um livro intitulado "A desintegração da morte" de Orígenes Lessa. O livro tratava de avanços científicos que possibilitariam a vida eterna. Como se tratava de um trabalho escolar, na época, no diário de leitura, afirmei que viver para sempre era coisa de masoquista, afinal, o mundo, a sociedade, enfim, a vida tal como é, não há que prolongar demasiadamente. Nunca mudei de opinião. Meus alunos perguntam a minha idade, sempre respondo ter vinte e cinco anos. Como eles duvidam, respondo que a idade é um estado de espírito e que jovem é quem não se cansa de buscar conhecimento, de aprender com a vivência e com os livros. Digo ainda que tenho um trato com o tempo, não penso na morte e nem a apresso. Faço tudo para não encontrá-la na próxima esquina ou curva da vida. Sei que um dia nos encontraremos e vejo isso com naturalidade. Na vida, há que se descansar, inclusive da própria vida! Viver para sempre é coisa de masoquistas!

P.S. O título desse artigo remete a música "Who wants to live forever" da inesquecível banda Queen.

domingo, 16 de julho de 2023

O beijo no asfalto

 


Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980) foi um escritor, jornalista, romancista, teatrólogo, contista e cronista de costumes e de futebol brasileiro. É considerado o mais influente dramaturgo do Brasil. Nascido no Recife (PE), mudou-se em 1916 para a cidade do Rio de Janeiro. Foi repórter policial durante longos anos, de onde acumulou uma vasta experiência para escrever suas peças a respeito da sociedade. Sua primeira peça foi "A mulher sem pecado" (1941), que lhe deu os primeiros sinais de prestígio dentro do cenário teatral. O sucesso veio com "Vestido de noiva" (1943), que trazia, em matéria de teatro, uma renovação nunca vista nos palcos brasileiros. Com seus três planos simultâneos (realidade, memória e alucinação construíam a história da protagonista Alaíde), as inovações estéticas da peça iniciaram o processo de modernização do teatro brasileiro. A consagração se seguiria com vários outros sucessos, transformando-o no maior dramaturgo brasileiro do século XX, apesar de suas obras terem sido, quando lançadas, tachadas por críticos como obscenas, imorais e vulgares. Politicamente, gostava de se intitular como um reacionário. Chegou a apoiar o regime militar, posicionamento que revisou quando seu filho Nelsinho foi preso e torturado, tendo então militado pela anistia ampla, geral e irrestrita aos presos políticos. (Fonte: Wikipedia)     

            Neste espaço, várias vezes nos referimos a Nelson Rodrigues, principalmente quanto aos conceitos de Narciso às avessas e Complexo de vira-latas que o dramaturgo afirmava que o brasileiro médio era portador. Apesar de muito ter lido e assistido sobre Nelson Rodrigues, somente agora li na íntegra uma obra sua, trata-se de "O beijo no asfalto". A referida peça foi encomendada a Nelson Rodrigues pela brilhante atriz Fernanda Montenegro que desejava encenar no teatro alguma criação do famoso dramaturgo, fato que aconteceu em 1961. Nelson Rodrigues costumava escrever sobre o cidadão médio, aquele que tinha uma vida comum, mas nele buscava desvendar suas contradições ante a hipócrita moralidade coletiva. É dessa forma que se desenvolve a trama de "O beijo no asfalto", nela Aprígio (o sogro) e Arandir (o genro) caminham até a Caixa Econômica Federal na intenção de obter um  empréstimo para o marido de sua filha. Momento em que presenciam um acidente que ocorre muito próximo a eles. Um rapaz que caminhava no meio-fio tropeça e cai na rua, uma lotação não consegue parar e o atropela.

            Arandir que estava muito próximo, levanta a cabeça do rapaz moribundo e beija-o na boca. Ante a circulação normal de pedestres e motoristas pelo local, o acidente e a cena insólita do beijo, deixam atônitas as pessoas presentes no local que não compreendem a reação de Arandir. Amado, um jornalista conhecido pelo sensacionalismo de suas matérias, pouco ligadas à realidade dos fatos, e que passava pelo local presenciou a cena. O jornalista vê nela uma oportunidade de vender mais jornais e começa a levantar hipóteses desvirtuando a realidade do fato observado. Nesse mesmo sentido, a polícia conduz a investigação e interroga Arandir. Tanto o delegado Cunha, como o jornalista, lançam suspeição sobre Arandir. Arandir e a vítima eram desconhecidos (como afirma Arandir)? Os dois rapazes, embora casados, eram amantes? Arandir teria arremessado a vítima, que caiu e, assim foi atropelada pela lotação?

            Aprígio conta o fato ocorrido para a bela filha Selminha (esposa de Arandir) e também para Dália, a filha mais nova. Aprígio é viúvo e, após a morte da esposa, jamais se casou. A versão contada por Aprígio é, segundo o próprio, tal como ele viu. As duas irmãs não concordam com a narrativa do pai. As irmãs afirmam que os comentários raivosos do pai se deve ao ciúme que tem de Selminha, pois era contra o casamento, prova disso é que ao se referir a Arandir chama ele de "genro" ou "seu marido" (para Selminha). Selminha afirma que o marido é muito homem (a procura muito) e que a prova disso é a sua gravidez. Dália concorda e diz que se a irmã não houvesse se casado com Arandir ela faria isso. Aprígio afirma que há homens que tal como as lâminas, cortam dos dois lados. Selminha conta ao pai que Arandir (não intencionalmente) viu Dália nua e que sentiu atração, mas, contou para ela de forma a não haver mal entendido. Seu marido era muito homem e também um marido fiel. E que acredita que o ato do marido foi genuinamente humano, beijar alguém que estava morrendo.

            A escalada de desinformação promovida pelas matérias de capa do jornal sensacionalista torna a vida da família um inferno. Arandir é solto e, novamente procurado, ninguém sabe seu paradeiro. Selminha é conduzida para interrogatório numa casa determinada pelo delegado Cunha (procedimento incomum). Selminha é interrogada e por afirmar não saber o paradeiro de Arandir (estava escondido na casa) e por não dar as respostas (certas), ou seja, aquelas que confirmavam a hipótese do delegado é colocada nua visando quebrar seu moral e resistência. Selminha é libertada e conta a Dália a humilhação que passou, pois foi colocada nua pelo delegado. O jornalista vai ao encontro de Aprígio em busca de novas informações e dá a ele a sua opinião. Amado afirma que fosse ele o sogro, daria uns tiros no genro que não apenas desonrou o casamento com sua filha, mas o nome da família. Aprígio pergunta ao jornalista por que ele está dizendo isso, se ele quer mais sangue para vender ainda mais jornal. Paro aqui para não dar spoiler. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: O melhor de Nelson Rodrigues: teatro, contos e crônicas.

Autor: Nelson Rodrigues.

Editora: Nova Fronteira, 2018, 240 pág.

 

sábado, 1 de julho de 2023

Celular...use com moderação!

 

               Há algum tempo, estava dirigindo meu automóvel quando, uma moça saiu de trás de alguns carros estacionados no meio da quadra e atravessou a rua logo a minha frente, como estava devagar, parei o carro a dois metros de atropelá-la. O susto foi somente meu, pois ela não me viu e seguiu seu caminho enquanto manuseava o celular. Naquele mesmo dia, assisto na TV uma reportagem sobre mulheres que foram assaltadas porque não viram o criminoso se aproximar por estarem atentas ao celular. Casos de atropelamentos sofridos por pedestres desatentos ao trânsito e também de acidentes de trânsito ocasionados por motoristas que falavam ao celular também foram reportados.

            No dia seguinte conto aos meus alunos sobre o ocorrido e alerto-os do risco de manusear/ver o celular enquanto caminham nas ruas. Alguns estudantes contam que haviam passado por situações semelhantes. Um deles conta que sua mãe caiu em uma boca de lobo (bueiro) enquanto caminhava vendo um vídeo no celular. Nas salas de aula, o celular se tornou um problema. Os professores têm que pedir várias vezes durante a aula para que guardem os aparelhos, mas, ao menor descuido, eles acessam as redes sociais, perdendo as explicações da aula e, assim comprometendo sua aprendizagem. Em suas casas, o uso do celular supera o tempo de estudo para as provas (quando não substitui totalmente).  O celular também se tornou um dos métodos mais utilizados para fazer cola, sendo que os estudantes da turma possuem grupos (sem os mestres) nos quais, as respostas das questões das provas são compartilhadas. Há também estudantes que tiram fotografias (não autorizadas) de professoras em ângulos que consideram interessantes. Fotografias dos mestres são também utilizadas para fazer memes que repassam nos seus grupos de WhatsApp. Pouco adianta alertá-los que o uso indevido de imagem pode ser alvo de um processo judicial. Num ambiente com muito adolescentes, algumas vezes ocorrem desentendimentos entre estes que acabam em agressões físicas, não raramente há quem filme e repasse a gravação nas redes sociais (grupos) expondo os estudantes e a própria escola.

            O smartphone (celular moderno) é um símbolo da Terceira Revolução Técnico - Cientifica, fruto da nanotecnologia, congrega vários aparelhos num só: máquina fotográfica, gravador de áudio, filmadora, player de vídeo e áudio, rádio, lanterna, relógio, despertador, GPS, computador de mão, modem de Internet, etc., e que pode ser usado, segundo me contaram, até para fazer ligações telefônicas (risos). É uma invenção formidável, que pode ser utilizada para o estudo por meio de pesquisas na Internet e, também para o acesso e resolução de exercícios complementares postados pelos professores em plataformas específicas. No entanto, os adolescentes o utilizam para a distração seja com games, bate-papos ou para assistir vídeos produzidos por youtubers que seguem, cuja qualidade nem sempre é boa devido à imaturidade dos mesmos em buscar vídeos de boa qualidade informacional. Essa é uma preocupação, pois há estudantes que discordam de fatos científicos pois se em embasam em conteúdos carregados de senso comum e desinformação publicados por youtubers.

            Em uma matéria da BBC, uma pesquisa constatou que o Brasil e a Indonésia foram os países estudados que as pessoas passam mais tempo diante do celular (quase cinco horas e meia). Comento esse dado com os estudantes e grande parte deles declaram que ficam nas redes sociais um tempo semelhante. Há quem afirme ficar até dez horas utilizando o celular. Não faltam reportagens sobre os prejuízos causados à mente e à visão das crianças e adolescentes  pelo uso por tempo excessivo de celular, no entanto, aplicativos para celular se converteram em jazidas de ouro, pois movimentam centenas de bilhões de dólares anualmente. Há aplicativos para quase tudo, do lazer aos negócios. A verdade é que o celular e as redes sociais estão tirando tempo de vida das pessoas, tempo que poderia ser utilizado para estudar,  para ler, para contemplar a natureza, para conviver em família, para sair com os amigos, para praticar esportes, para conhecer alguém e namorar...Sim, as redes sociais dão a ilusão de que as pessoas têm muitos amigos, porém nunca estiveram tão solitárias. Os usuários se conectam aos que estão distantes e não convivem mais com quem está próximo.

            A BBC, em outra reportagem mostra que os telefones burros, aqueles que costumávamos chamar de "tijolos" e que apenas faziam ligações telefônicas, enviavam SMS, tiravam fotografias de baixa qualidade e tinham o popular game da cobrinha não estão mais sendo vendidos apenas para os idosos, mas, para jovens que descobriram que os smartphones lhes estavam tomando muito tempo de suas vidas. Eles priorizam os estudos, o trabalho, a realização das tarefas que lhe cabem e o smartphone atrapalhava muito. Este escriba tem a consciência disso, pois, diminuiu seu ritmo de leituras ao mesmo tempo em que passou a utilizar mais o celular, principalmente assistindo vídeos no You Tube e recebendo informações que, muitas vezes, não faria falta não as ter. A missão agora é reduzir o uso e, se não funcionar, adquirir um celular burro, talvez seja a solução!

Referências:

BBC - Brasileiro usa celular por um terço de seu tempo acordado, diz estudo - Acesso em 29 de junho de 2023.

BBC - Telefones burros: como os celulares sem conexão estão ressurgindo no mundo hiperconectado - Acesso em 29 de junho de 2023.

terça-feira, 6 de junho de 2023

José Martí: antologia

 



Yo soy un hombre sincero

De donde crece la palma

Y antes de morirme quiero

Echar mis versos del alma.

 

            Caso o leitor seja um apreciador de música latino-americana, certamente ao ler a estrofe acima veio à mente a melodia de Guantanamera. Isso foi o que aconteceu comigo ao ler Versos Sencillos (versos simples) no livro "José Martí: antologia". José Fernandez Díaz (Joseíto Fernandez) selecionou alguns versos e musicou-os produzindo um clássico da música latino-americana. O título da canção se refere às moças (camponesas) de Guantânamo, província do sudeste de Cuba.

            José Martí (1853-1895) foi um político nacionalista, intelectual, jornalista, ensaísta, tradutor, professor, editor, poeta e maçom cubano. É considerado um herói nacional cubano por causa de seu papel na libertação de seu país da Espanha, tendo sido o organizador da Guerra de 1895 conhecida como Guerra Necessária e na qual morreu em combate. Martí foi um militante político (criador do Partido Revolucionário Cubano - PRC) e é considerado um importante filósofo e teórico político. Através de seus escritos e atividade política, ele se tornou um símbolo da tentativa de independência de Cuba do Império espanhol no século XIX, e é conhecido como o "Apóstolo da Independência Cubana". José Martí é considerado uma figura de destaque na literatura latino-americana e seus escritos incluem uma série de poemas, ensaios, cartas, palestras, um romance e uma revista infantil. Martí, apesar de sua enorme erudição conseguia escrever com grande simplicidade temas caros não somente ao povo cubano, mas também latino-americano. A sensibilidade com que escrevia seus poemas tornou sua obra muito popular tanto por adultos como entre as crianças. Os conceitos de liberdade e democracia são proeminentes em todas as suas obras. Ele também é considerado o "Mártir" de Cuba e após a Revolução Cubana de 1959, a ideologia de Martí tornou-se uma força motriz na política cubana. (Wikipédia).

            Luiz Ricardo Leitão é o organizador da obra "José Martí: antologia" publicada pela Editora Expressão Popular que conta com três documentos essenciais escritos pelo intelectual cubano, a saber: 1. Nossa América; 2. A verdade sobre os Estados Unidos; 3. Carta a Manuel Mercado. A segunda parte do livro intitulada "Poemas escolhidos de José Martí" é a mais generosa ao leitor, pois, despeja em suas páginas toda a sensibilidade do poeta ao tratar da vida, seja  como ela é, ou como pode vir a ser, e também dos ideais pelos quais viveu e aos quais jamais renunciou. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: José Martí: antologia.

Autor: Luiz Ricardo Leitão (Org.).

Editora: Expressão Popular, 2022, 125 p.

 

 

 

 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Beije-me onde o sol não alcança

             



É impossível ler o título desse artigo que remete ao livro de título homônimo de Mary del Priore sem um sorriso malicioso. Ao decidir ler este livro, sabia que não se tratava de um romance erótico, gênero muito vendido no Brasil, afinal, sou conhecedor da obra da autora e já tive a oportunidade de ler alguns de seus livros. Mary Lucy Murray del Priore (1952) é historiadora, escritora e professora brasileira. Priore é especialista em História do Brasil, Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Pós-Doutora pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales na França. Mary del Priore lecionou História em várias universidades brasileiras, dentre elas a Universidade de São Paulo (USP) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro(PUC/RJ). Foi também colunista do Jornal O Estado de São Paulo. A autora tem mais de cinquenta livros publicados e recebeu vários prêmios em reconhecimento de sua obra.

            Mary del Priore, cuja obra se pauta na pesquisa histórica e no desvendamento das relações sociais inclusive em seu caráter mais íntimo, tem no presente livro aqui resenhado seu primeiro romance histórico. As personagens são quase todas reais, a trama se baseia em cartas guardadas e depois encontradas por seus descendentes. Houve a intenção de se fazer uma adaptação para o cinema do conteúdo das cartas, porém, não foi adiante. Frustrada a tentativa de chegar à telona, as cartas foram fornecidas à Mary de Priore para que a história fosse popularizada na forma de um livro. O gênero de romance histórico mistura fatos e personagens reais com personagens e situações fictícias. Apesar disso, nos dá um retrato muito preciso da época, da sociedade e da moral reinante em um determinado período.

            A trama é narrada na forma de cartas trocadas pelas principais personagens que são o Conde russo Maurice Haritoff que se casa com a jovem Nicota Breves que tinha apenas dezesseis anos e era filha do barão de café do Vale do Paraíba. A outra personagem é Regina Angelorum, uma filha de escravos que foi alfabetizada e deixou suas memórias em um diário. As personagens e os nomes são reais, apesar de parecerem inventados. O casamento do Conde com a filha do senhor de escravos é realizado por interesses de ambas as partes, Maurice vai conceder à família Breves uma relação com a nobreza (mesmo que de outro país), pois, apesar da fortuna, os Breves não tinham um sobrenome à altura de suas ambições, o Conde, por sua vez, viu sua família russa arruinada, pois perdeu quase todo o seu patrimônio e vê no casamento com Nicota a possibilidade de se reerguer financeiramente. A jovem Nicota é praticamente empurrada pela família a esse casamento.

            Na obra, o casal viaja para Paris e Nicota se deslumbra com a capital francesa. Cartas são trocadas entre familiares e amigos e nos apresentam impressões sobre o cotidiano do Rio de Janeiro, Paris e São Petersburgo (Rússia). As cartas do Conde trazem observações sobre o Brasil e sua gente, a economia, a escravidão, etc., enquanto as cartas de Nicota são mais ligadas ao casamento, suas alegrias e frustrações, dentre elas o fato de não conseguir engravidar. Na fazenda no Vale do Paraíba, ela traz para a Casa Grande  e passa a cuidar de uma menina (filha de escravos) como se filha fosse. A menina é alfabetizada e passa a escrever um diário. Ela se chama Regina Angelorum. No livro, importantes fatos históricos são citados, seja nas conversas entre as personagens ou na leitura de jornais, pois, o período histórico em que vivem é aquele no qual ocorre a Guerra do Paraguai (1864 -1870), a abolição da escravatura (1888), a decadência dos barões do café e a Proclamação da República (1889). Maurice escreve cartas a seus familiares e amigos contando as mudanças ocorridas no país, nestas é interessante observar a hipocrisia, a falsa moralidade da sociedade brasileira da época.

            A menina Regina Angelorum cresce e se torna uma bonita moça, o Conde observa isso. Estabelece-se um triângulo amoroso na Casa Grande. Nicota Breves cujas cartas denotam a angústia de jamais ter conseguido engravidar e de um casamento no qual não é correspondida na intensidade de seu amor, percebe a forma como o marido olha Regina, a menina que colocou dentro da casa e que criou como filha e começa a adoecer. A obra traz ainda relatos sobre a vida na senzala, as crenças, o misticismo, os benzimentos realizados por Maria Gata, personagem criada para a trama, mas, que todos sabem, sempre havia em toda senzala e que cuidava dos males do corpo e da alma dos escravos. Paro aqui para não dar spoiler. Fica a dica!

Sugestão de boa leitura:

Título: Beije-me onde o sol não alcança.

Autor: Mary del Priore.

Editora: Planeta, 2015, 320 p.


sábado, 1 de abril de 2023

Walden ou A vida nos bosques

 

O estadunidense Henry David Thoreau (1817-1862) foi escritor, poeta, naturalista, pesquisador, filósofo e transcendentalista. È mais conhecido por seu livro "Walden", uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, e por seu ensaio "A desobediência civil". Minha primeira experiência como leitor de sua obra foi com o ensaio "A desobediência civil" que inspirou grandes nomes da história mundial, dentre eles Mohandas Karanchand Gandhi, mundialmente conhecido como Mahatma Gandhi, o líder do processo de independência pacífica da Índia, então colônia da Inglaterra. O simples fato de Gandhi ter aplicado ensinamentos de Thoreau, dispensa qualquer comentário adicional de minha parte quanto ao escritor.

            A obra de Thoreau foi escrita no século XIX,  mas, ainda hoje exerce grande influência sobre as pessoas, principalmente aquelas que se postam nos grupos de não acomodação diante do status quo da sociedade. Henry D. Thoreau nasceu na pequena cidade de Concord, Estado de Massachusetts e nela faleceu com apenas quarenta e cinco anos de idade, deixando para a classe intelectual um sentimento de vazio, pois, uma mente tão brilhante ainda tinha muita luz a lançar sobre a escuridão em que vive a sociedade humana. Thoreau estudou em Harvard e, detinha um elevado grau de conhecimento obtido pelos livros e também das suas observações/reflexões acerca da natureza, da sociedade, enfim, da vida. Apesar de viver numa pequena cidade, Thoreau desejava ficar mais tempo sozinho e praticar a contemplação da natureza e refletir sobre a vida. Pretendia também ter uma vida mais simples, pois julgava desnecessário todo o luxo de que as pessoas se cercavam. Acreditava que não havia necessidade de tantos móveis, aparatos e roupas. Pensava também que se gastava demais com a alimentação, pois via nos banquetes, dos quais participou como convidado, mera ostentação com o fim de forjar uma imagem perante a sociedade.

            Henry resolveu construir com as próprias mãos uma cabana junto ao lago Walden, com a benção do proprietário da terra, um amigo seu. Na obra, ele faz a reflexão sobre que tamanho, a casa precisava ter para dar apenas o abrigo necessário a um ser humano ante às intempéries, luxo estava fora de cogitação. Thoreau conta como construiu a cabana, detalha suas medidas e os valores gastos para construí-la. Entre o lago Walden e sua cabana, passava a linha do trem, além disso, o local ficava a apenas alguns quilômetros de Concord e, o escritor costumava receber visitas de seus amigos urbanos e de caminheiros que chegavam à sua casa para obter informações ou auxílio, especialmente nos dias mais gelados. Thoreau decidiu que tinha que conseguir os alimentos sem depender de ninguém, dessa forma caçava,  pescava e cultivava alimentos, porém, suas reflexões sobre quão selvagem era o ser humano ao matar vidas, para delas se alimentar, o levaram a adoção do vegetarianismo. O filósofo praticava a semeadura e a colheita de uma pequena área de terra, sempre calculada para ser apenas o necessário à sua sobrevivência e não lhe obrigar a dispender tempo extra, pois, havia que sobrar bastante tempo para a contemplação da vida,  leituras e reflexões. Henry David Thoreau tinha uma mente multifacetada, e uma dessas faces era a do cientista que relatava as espécies vegetais e animais (inclusive com seus nomes científicos) da região. O naturalista trabalhou como agrimensor, portanto, percorria facilmente a seara da matemática. Sua curiosidade o levou a medir a área do lago Walden e descobrir sua profundidade, algo que fez detalhadamente, margem a margem, atribuindo uma pequena distância entre uma linha de medição e outra, estabelecendo cotas batimétricas. Thoreau também observou que o tamanho das bolhas de ar nas placas de gelo que se formavam no lago durante o inverno tinham tamanhos diferente conforme a profundidade.

            O escritor, como disse, não aceitava o rótulo de misantropo, mas apreciava ficar sozinho e assim superar a dependência das outras pessoas para ser feliz, pois era nestes momentos, sozinho, que encontrava a paz. Seus ensinamentos são de grande importância nestes tempos em que vivemos, no qual grande parte da humanidade encontra-se escravizada, pelas redes sociais, pelas mídias digitais e pela onipresença dos smartphones. Ao ler Thoreau, impossível não sentir puxões de orelha, por dedicarmos tanto tempo ao trabalho (vendendo parte de nossas vidas) para adquirirmos aparatos tecnológicos, que poderíamos viver sem. Critica fortemente o consumo de supérfluos, pois prega uma vida com simplicidade. O filósofo coloca o dedo nas feridas do nosso comodismo ante aos desmandos de autoridades do governo e nos faz corar de vergonha acerca de nossa inação ante tal estado de coisas. Considera que as pessoas adultas estão sonâmbulas, acordadas estão apenas as crianças.

            Encerro com uma brilhante frase do também poeta Thoreau: "Se você já construiu castelos no ar, não tenha vergonha deles. Eles estão onde precisam estar. Agora dê-lhes alicerces".

            P.S. Livro indicado para quem tem uma mente aberta a divagações filosóficas!

Sugestão de boa leitura:

Título: Walden ou a vida nos bosques.

Autor: Henry David Thoreau.

Editora: L&PM, 2010, 336 pág.